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<publisher-name><![CDATA[Universidade de LisboaFaculdade de Belas-Artes]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A milonga gaúcha na gênese do Quinteto para violão e quarteto de cordas, de Fernando Mattos]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[The gaucho milonga at the genesis of the Quintet for guitar and string quartet, by Fernando Mattos]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade Federal do Rio Grande do Sul Instituto de Artes ]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The present work analyses the use of the gaucho milonga as a building element of the Quintet for guitar and string quartet (2008), by Brazilian composer Fernando Mattos. After examining the background of the milonga, we analyze how it served as a basis for the creation of atwelve-tone series, from which matrixes were generated through diverse serial manipulations. The use of other milonga elements is also investigated, as well as further influences that contributed to the composition process.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS ORIGINAIS</b></p>     <p align="right"><b>ORIGINAL ARTICLES</b></p>     <p><b>A milonga ga&uacute;cha na g&ecirc;nese do Quinteto para viol&atilde;o e quarteto de cordas, de Fernando Mattos</b></p>     <p><b>The gaucho milonga at the genesis of the Quintet for guitar and string quartet, by Fernando Mattos</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Daniel Wolff*</b></p>     <p>*Brasil, m&uacute;sico.</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade Federal do Rio Grande do Sul; Instituto de Artes; Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em M&uacute;sica. Rua Senhor dos Passos, 248 , Porto Alegre &#8212; CEP 90020-180, Rio Grande do Sul, Brasil.</p>      <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO:</b></p>     <p>O presente trabalho analisa o uso da milonga ga&uacute;cha como elemento gerador do Quinteto para viol&atilde;o e quarteto de cordas (2008), do compositor brasileiro Fernando Mattos. Ap&oacute;s uma breve contextualiza&ccedil;&atilde;o da milonga, analisa-se como esta serviu de base para a cria&ccedil;&atilde;o de uma s&eacute;rie dodecaf&ocirc;nica, da qual foram geradas matrizes a partir de distintas manipula&ccedil;&otilde;es seriais. Descreve-se tamb&eacute;m o uso de outros elementos da milonga, bem como demais influ&ecirc;ncias que contribu&iacute;ram para o processo composicional.</p>     <p><b>Palavras chave:</b> Fernando Mattos / milonga / viol&atilde;o / quinteto.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT:</b></p>     <p>The present work analyses the use of the gaucho milonga as a building element of the Quintet for guitar and string quartet (2008), by Brazilian composer Fernando Mattos. After examining the background of the milonga, we analyze how it served as a basis for the creation of atwelve-tone series, from which matrixes were generated through diverse serial manipulations. The use of other milonga elements is also investigated, as well as further influences that contributed to the composition process.</p>     <p><b>Keywords:</b> Fernando Mattos / milonga / guitar / quintet.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Fernando Lewis de Mattos (n. 1963), compositor brasileiro, natural de Porto Alegre, &eacute; Doutor em M&uacute;sica pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde integra o quadro de professores do Departamento de M&uacute;sica. Comp&ocirc;s para diversas forma&ccedil;&otilde;es vocais e instrumentais, m&uacute;sica eletroac&uacute;stica e trilhas para cinema e teatro. Ganhou duas vezes o Pr&ecirc;mio A&ccedil;orianos como melhor compositor erudito (Wolff, 2015: 6).</p>     <p>Seu Quinteto para viol&atilde;o e quarteto de cordas (2008), foi dedicado ao autor deste artigo, que o gravou no disco <i>Porto Allegro</i> (2013), vencedor de tr&ecirc;s Pr&ecirc;mios A&ccedil;orianos &#8212; incluindo ode Melhor Disco Erudito. Aobra &eacute; uma adapta&ccedil;&atilde;o do Concerto n&ordm; 2 para Viol&atilde;o e Orquestra (2002), tamb&eacute;m estreado pelo presente autor, frente &agrave; Orquestra de C&acirc;mara Theatro S&atilde;o Pedro (reg. Antonio Cunha), em 2006. Ao longo dos tr&ecirc;s movimentos da obra, que seguem a estrutura do concerto cl&aacute;ssico (r&aacute;pido-lento-r&aacute;pido), percebe-se a influ&ecirc;ncia da milonga ga&uacute;cha na g&ecirc;nese do material r&iacute;tmico, mel&oacute;dico e harm&ocirc;nico. O presente trabalho pretende demonstrar os procedimentos composicionais de Mattos para derivar, da estrutura simples da milonga, material tem&aacute;tico capaz de sustentar uma complexa obra de 26 minutos de dura&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>1. A milonga</b></p>     <p>Apesar de comummente associada com a cultura Argentina, a milonga e diversos outros ritmos folcl&oacute;ricos cruzaram fronteiras e expandiram-se para o sul do Brasil, territ&oacute;rio que fora destinado ao dom&iacute;nio espanhol pelo tratado de Tordesilhas (1494), mas onde de fato predominou a coloniza&ccedil;&atilde;o portuguesa, conforme posteriormente ratificado pelos tratados de Madri (1750) e de Santo Ildefonso (1777) (Murad&aacute;s, 2008).</p>     <p>Porto Alegre, cidade de Fernando Mattos, &eacute; a capital do Rio Grande do Sul, estado mais setentrional do Brasil.</p>     <blockquote>    <p><i>Pela proximidade geogr&aacute;fica com a Argentina e o Uruguai, a cultura portoalegrense tem muito em comum com a dos pa&iacute;ses do Rio da Prata. No &acirc;mbito musical, tal proximidade pode ser percebida em distintos aspectos. Os ritmos folcl&oacute;ricos dos</i> gauchos <i>do Prata, como a milonga e o chamam&eacute;, desenvolveram-se tamb&eacute;m no Rio Grande do Sul, cujos habitantes s&atilde;o denominados ga&uacute;chos no Brasil.</i> (Wolff, 2008:18).</p></blockquote>     <p>Autores como Vega, Ayestar&aacute;n e Borges apontam que o termo milonga j&aacute; est&aacute; presente na Argentina e Uruguai na segunda metade do s&eacute;culo dezenove, como mencionado por Ventura Lynch e Lucio L&oacute;pez na d&eacute;cada de 1880 (Sosa, 2012: 61-65).</p>     <p>Bangel descreve assim a milonga:</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>    <p><i>A caracter&iacute;stica marcante da milonga est&aacute; no baixo ou bord&otilde;es do viol&atilde;o, que soam como baixo-obstinado em tonalidade menor. A s&iacute;ncopa larga do baixo e a languidez mel&oacute;dica traduzem a presen&ccedil;a do negro nesse g&eacute;nero de m&uacute;sica.</i></p>     <p><i>A milonga &eacute; ga&uacute;cha pampeana e comum ao Brasil, Argentina e Uruguai.</i></p>     <p><i>A milonga &eacute; composta em diversos andamentos. &Eacute; viva, quando dan&ccedil;ada, e lenta, sonhadora</i> &#91;&#8230;&#93;<i>, quando executada para ambienta&ccedil;&atilde;o da declama&ccedil;&atilde;o (payada)</i> (Bangel, 1989: 43).</p></blockquote>     <p>A s&iacute;ncopa larga dos baixos, &agrave; qual se refere Bangel, pode ser observada na <a href="#f1">Figura 1</a>, que apresenta o padr&atilde;o t&iacute;pico do acompanhamento da milonga ao viol&atilde;o. O compasso &eacute; quatern&aacute;rio. Contudo, a acentua&ccedil;&atilde;o resultante, em fun&ccedil;&atilde;o da disposi&ccedil;&atilde;o dos baixos, &eacute; de 3+3+2 (dois grupos de tr&ecirc;s colcheias seguidos de um grupo de duas colcheias), padr&atilde;o r&iacute;tmico que ser&aacute; frequentemente explorado por Mattos, como veremos a seguir.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v9n24/9n24a04f1.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2. O uso da milonga no Quinteto de Fernando Mattos</b></p>     <p><b>2.1 Procedimentos composicionais: g&ecirc;nese do material harm&ocirc;nico e mel&oacute;dico</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Mattos comenta que, para a cria&ccedil;&atilde;o do material mel&oacute;dico e harm&ocirc;nico do quinteto, empregou uma t&eacute;cnica semelhante &agrave; que usara em sua Sonata para viol&atilde;o solo (2002), inspirada no conto <i>Sonata</i> (1932), do escritor ga&uacute;cho &Eacute;rico Ver&iacute;ssimo (Mattos, 2017). A influ&ecirc;ncia da m&uacute;sica na obra liter&aacute;ria de &Eacute;rico Ver&iacute;ssimo j&aacute; foi amplamente discutida por Werlang (2009). Contudo, temos aqui o caso oposto: &eacute; a literatura de Ver&iacute;ssimo que influencia a cria&ccedil;&atilde;o musical de Mattos. Mais precisamente, a seguinte passagem:</p>     <blockquote>    <p><i>A hist&oacute;ria que vou contar n&atilde;o tem a rigor um princ&iacute;pio, um meio e um fim. O Tempo &eacute; um rio sem nascentes a correr incessantemente para a Eternidade, mas bem se pode dar que em inesperados trechos de seu curso o nosso barco se afaste da correnteza, derivando paraalgum bra&ccedil;o morto feito de antigas &aacute;guas ficadas, e s&oacute; Deus sabe o que ent&atilde;o nos poder</i>&aacute; <i>acontecer</i> (Ver&iacute;ssimo, 2007: 250).</p></blockquote>     <p>Mattos interessou-se pela ideia de um tempo n&atilde;o linear, mas sim em forma de espiral, conforme impl&iacute;cito no trecho acima. Decidiu aplicar este princ&iacute;pio ao sistema dodecaf&ocirc;nico desenvolvido por Arnold Schoenberg. Sua t&eacute;cnica consiste em criar uma s&eacute;rie de doze tons, a partir da qual ser&aacute; gerada uma "matriz 12 x 12" (ver Strauss, 1990: 122-3). Mattos seleciona as notas a partir de uma leitura da matriz em forma de espiral (<a href="#f2">Figura 2</a>). Foram utilizadas matrizes adicionais, geradas a partir da s&eacute;rie original mediante opera&ccedil;&otilde;es como a multiplica&ccedil;&atilde;o, desenvolvida por Pierre Boulez (Strauss, 1990:235ff ), e deriva&ccedil;&atilde;o (Eimert, 1952). Comparemos a s&eacute;rie utilizada por Mattos no Quinteto com os baixos do acompanhamento da milonga (<a href="#f3">Figura 3</a>). Em termos tonais, a nota f&aacute;, &uacute;nico baixo estranho ao acorde de l&aacute; menor, pode ser interpretada como uma bordadura (assumindo um mi impl&iacute;cito no acorde, no in&iacute;cio do compasso) ou apojatura (apesar de n&atilde;o ocorrer propriamente em um tempo forte). J&aacute; em um contexto n&atilde;o tonal, os tr&ecirc;s baixos do compasso (l&aacute;, f&aacute;, mi) podem ser entendidos como um conjunto de classe de alturas (<i>pitch-class set</i>), conforme descrito por Allen Forte (1973: 1-3), mais precisamente, o conjunto &#91;0,1,5&#93;. Este elemento aparecer&aacute; constantemente no quinteto, tanto em forma mel&oacute;dica quanto harm&ocirc;nica.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v9n24/9n24a04f2.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v9n24/9n24a04f3.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <blockquote>    <p><i>A possibilidade de apresentar uma ideia musical de diversas maneiras &#8212; mel&oacute;dica, harm&ocirc;nica, ou uma combina&ccedil;&atilde;o da ambas &#8212; &eacute; parte do que Schoenberg quis dizer em sua famosa declara&ccedil;&atilde;o, "O espa&ccedil;o de duas ou mais dimens&otilde;es no qual ideias musicais s&atilde;o apresentadas &eacute; uma unidade"</i> (Strauss, 1990:26, tradu&ccedil;&atilde;o minha).</p></blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Na s&eacute;rie dodecaf&ocirc;nica utilizada por Mattos nos tr&ecirc;s movimentos do quinteto, os baixos t&iacute;picos da milonga (uma sexta menor ascendente seguida de uma segunda menor descendente) aparecem em tr&ecirc;s transposi&ccedil;&otilde;es, conforme indicado pelos colchetes na <a href="#f3">Figura 3</a>. A cita&ccedil;&atilde;o clara e reiterada da linha de baixo da milonga na confec&ccedil;&atilde;o da s&eacute;rie n&atilde;o apenas contribuir&aacute; para a unidade da obra &#8212; atrav&eacute;s da rela&ccedil;&atilde;o tem&aacute;tica entre os movimentos &#8212; como tamb&eacute;m permitir&aacute; alus&otilde;es frequentes &agrave; sonoridade t&iacute;pica da milonga. A presen&ccedil;a constante do conjunto &#91;0,1,5&#93; decorre, portanto, de uma decis&atilde;o deliberada de utiliz&aacute;-lo quase como um motivo gerador da s&eacute;rie dodecaf&ocirc;nica.</p>     <p>Todos os movimentos come&ccedil;am e, exceto pelo segundo, terminam com a nota d&oacute; &#8212; primeira nota da s&eacute;rie &#8212; que exerce uma fun&ccedil;&atilde;o de eixo harm&ocirc;nico. Tanto na matriz original quanto em todas as suas permuta&ccedil;&otilde;es e deriva&ccedil;&otilde;es, a nota d&oacute; ocupar&aacute; o eixo vertical da espiral (nas matrizes quadradas, coincide com a diagonal descendente a partir do canto superior direito), conforme indicado em amarelo na <a href="#f2">Figura 2</a>, acima.</p>     <p>Mattos (2017) comenta, contudo, que nem sempre segue a ordem literal da s&eacute;rie. Quando busca uma sonoridade em especial, ou para fins de idiomatismo instrumental, ocasionalmente muda a ordena&ccedil;&atilde;o das notas.</p>     <p>Uma vez elucidado o procedimento de escolha das alturas, vejamos como Mattos combina este material mel&oacute;dico e harm&ocirc;nico com outros par&acirc;metros.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2.2 Primeiro movimento: Movido</b></p>     <p>No primeiro movimento, em forma de allegro de sonata, o solo inicial de viol&atilde;o emprega os intervalos t&iacute;picos dos baixos da milonga (segunda e sexta menores), em distintas transposi&ccedil;&otilde;es, como indicado pelos ret&acirc;ngulos azuis (<a href="#f4">Figura 4</a>). Os c&iacute;rculos vermelhos mostram exemplos de uso adicional de segundas menores. Deslocamentos de oitava contribuem para que as rela&ccedil;&otilde;es intervalares da milonga apare&ccedil;am de forma subliminar, pouco percept&iacute;vel ao ouvinte.</p>      <p>&nbsp;</p> <a name="f4"><img src="/img/revistas/est/v9n24/9n24a04f4.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Tamb&eacute;m as caracter&iacute;sticas r&iacute;tmicas da milonga s&atilde;o desconstru&iacute;das. O ritmo tradicional, como mencionado anteriormente (<a href="#f1">Figura 1</a>), &eacute; composto de dois grupos de tr&ecirc;s colcheias seguidos por um grupo de duas colcheias.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Na <a href="#f4">Figura 4</a>, vemos que Mattos tamb&eacute;m utiliza grupos de duas e tr&ecirc;s colcheias, mas distribu&iacute;dos de forma diferente, com altern&acirc;ncia de compassos, resultando nos chamados ritmos aditivos.</p>     <p>A r&iacute;tmica aditiva &eacute; obtida atrav&eacute;s da soma de unidades menores, agrupadas para formar unidades maiores, quepodem n&atilde;o possuir um divisor comum (&eacute; o caso dos grupos de duas e tr&ecirc;s colcheias), uma poss&iacute;vel influ&ecirc;ncia dam&uacute;sica trazida da &Aacute;frica pelos escravos (Pauli, 2015: 97). Os agrupamentos r&iacute;tmicos criados por Mattos s&atilde;o refor&ccedil;ados pelos ataques das cordas, em notas curtas e acentuadas (<a href="#f5">Figura 5</a>). Esta textura &eacute; intercalada com cad&ecirc;ncias curtas para viol&atilde;o solo, onde os intervalos da milonga &#8212; obtidos a partir da leitura em espiral da matriz dodecaf&ocirc;nica &#8212; fornecem a base do material mel&oacute;dico e harm&oacute;nico. A cad&ecirc;ncia final conclui o movimento com uma cita&ccedil;&atilde;o mais expl&iacute;cita dos baixos da milonga, em distintas transposi&ccedil;&otilde;es (indicadas por ret&acirc;ngulos azuis), anunciando o material de abertura do segundo movimento (<a href="#f6">Figura 6</a>). Mattos (2017) comenta que, inspirado no fato de que as tr&ecirc;s primeiras notas do Prel&uacute;dio de <i>Trist&atilde;o e Isolda</i>, de Wagner &#8212; l&aacute; &#8212; f&aacute; &#8212; mi &#8212; coincidem com os baixos de milonga, fez uma cita&ccedil;&atilde;o ao famoso "acorde de Trist&atilde;o" no compasso final, mas faltando a nota si, ouvida individualmente dois compassos antes (indicado em vermelho).</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f5"><img src="/img/revistas/est/v9n24/9n24a04f5.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f6"><img src="/img/revistas/est/v9n24/9n24a04f6.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2.3 Segundo movimento: Milonga</b></p>     <p>O segundo movimento da obra, intitulado Milonga, &eacute; aquele em que as alus&otilde;es &agrave; mesma ocorrem de maneira mais expl&iacute;cita. No in&iacute;cio, a s&eacute;rie dodecaf&ocirc;nica &eacute; executada na &iacute;ntegra tr&ecirc;s vezes, pela viola e, em seguida, pelos violinos.</p>     <p>A partir do compasso 125, em andamento mais r&aacute;pido, Mattos destaca a acentua&ccedil;&atilde;o caracter&iacute;stica da milonga (3+3+2) nos arpejos do viol&atilde;o (compassos 134ff), refor&ccedil;ado pelos ataques <i>col legno</i> do segundo violino (<a href="#f7">Figura 7</a>). Ao longo deste movimento, segundo Mattos (2017), diferentes padr&otilde;es de milonga (oriundos das variantes <i>porte&ntilde;a</i>, <i>oriental</i> e <i>pampeana</i>) s&atilde;o explorados. A refer&ecirc;ncia principal, contudo, &eacute; a <i>pampeana</i> (tamb&eacute;m chamada de milonga campeira), a mais frequentemente encontrada no Rio Grande do Sul.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <a name="f7"><img src="/img/revistas/est/v9n24/9n24a04f7.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2.4 Terceiro movimento: Final</b></p>     <p>No &uacute;ltimo movimento, em forma rond&oacute;, s&atilde;o retomados elementos dos dois movimentos inicais. Os arpejos do viol&atilde;o com ritmos aditivos s&atilde;o agora combinados com adornos enfatizando o intervalo de segunda menor e o conjunto &#91;0,5,1&#93;, nas cordas (<a href="#f8">Figura 8</a>). O tratamento c&iacute;clico do material tem&aacute;tico &#8212; reaproveitado de movimentos anteriores &#8212; confere maior unidade &agrave; obra.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f8"><img src="/img/revistas/est/v9n24/9n24a04f8.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>No movimento final, podemos encontrar refer&ecirc;ncia a outro ritmo ga&uacute;cho, o vaner&atilde;o, cujo "movimento r&iacute;tmico caracter&iacute;stico est&aacute; no baixo com marca&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua de colcheia pontuada/semicolcheia e duas colcheias, com acento forte na &uacute;ltima colcheia do compasso" (Bangel, 1989: 49). Mattos (2017) recorda outras duas refer&ecirc;ncias. Os <i>riffs</i> dos solos de guitarristas de rock progressivo, que ouvia na adolesc&ecirc;ncia, inspiraram as tercinas ligadas, em alta velocidade, das cad&ecirc;ncias do viol&atilde;o. Outra influ&ecirc;ncia foi Luiz Cosme, compositor pesquisado por Mattos em suas teses de mestrado e doutorado. A se&ccedil;&atilde;o pontilhista (compassos 69-104), que precede a cita&ccedil;&atilde;o do vaner&atilde;o, foi inspirada na <i>Novena &agrave; Senhora da Gra&ccedil;a</i>, de Cosme (<a href="#f9">Figura 9</a>).</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f9"><img src="/img/revistas/est/v9n24/9n24a04f9.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A obra conclui com mais uma alus&atilde;o aos baixos da milonga, que s&atilde;o reiterados nas cordas, sobre um ostinato de arpejos ao viol&atilde;o, o qual enfatiza os mesmos intervalos (<a href="#f10">Figura 10</a>). Utilizando uma t&eacute;cnica da <i>phase music</i>, Mattos cria um <i>stretto</i> no qual as entradas das cordas agudas se aproximam gradualmente, at&eacute; alinhar-se para terminar de forma simult&acirc;nea.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f10"><img src="/img/revistas/est/v9n24/9n24a04f10.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Conclus&atilde;o</b></p>     <p>Como descrito acima, Mattos conseguiu adaptar caracter&iacute;sticas da milonga para criar uma nova obra, em linguagem composicional pr&oacute;pria. Para tal, em lugar de replicar o estilo sonoro da milonga, optou por utilizar alguns de seus elementos e manipul&aacute;-los utilizando t&eacute;cnicas diversas.</p>     <p>A tradicional linha de baixo da milonga serviu de elemento gerador da s&eacute;rie dodecaf&ocirc;nica, onde aparece tr&ecirc;s vezesdeforma literal. Mas ousodas&eacute;rie edesuas deriva&ccedil;&otilde;es &eacute; inovador: as matrizes 12 x 12 s&atilde;o lidas em forma de espiral, a partir da inspira&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria de &Eacute;rico Ver&iacute;ssimo. Os agrupamentos r&iacute;tmicos de duas e tr&ecirc;s colcheias s&atilde;o transformados pelousodar&iacute;tmica aditiva eda <i>phase music</i>, mas as&iacute;ncopa t&iacute;pica da milonga segue presente, sobretudo nos dois &uacute;ltimos movimentos. A estrutura formal da obra segue o padr&atilde;o do concerto cl&aacute;ssico, com tr&ecirc;s movimentos na ordem r&aacute;pido-lento-r&aacute;pido. A constru&ccedil;&atilde;o c&iacute;clica &#8212; com reaproveitamento de ideias entre os movimentos &#8212; e o uso da mesma s&eacute;rie geradora para os tr&ecirc;s movimentos garantem a coes&atilde;o geral da obra.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Bangel, Tasso (1989) <i>O estilo ga&uacute;cho na m&uacute;sica brasileira</i>. Porto Alegre: Movimento.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1462621&pid=S1647-6158201800040000400001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Eimert, Herbert (1952) <i>Lehrbuch der Zw&ouml;lftontechnik</i>. Wiesbaden, Breitkopf &amp; H&auml;rtel. ISBN: 978-3765100-15-4&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1462623&pid=S1647-6158201800040000400002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Forte, Allen. <i>The Structure of Atonal Music</i>. New Haven: Yale University Press, 1973. ISBN: 978-03-00021-20-2&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1462624&pid=S1647-6158201800040000400003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Murad&aacute;s, Jones. 2008. A geopol&iacute;tica e a forma&ccedil;&atilde;o territorial do sul do Brasil. &#91;Consult. 2017-23-12&#93; Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/15718/000682253.pdf?sequence=1" target="_blank">http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/15718/000682253.pdf?sequence=1</a> &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1462625&pid=S1647-6158201800040000400004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Pauli, Elvis; Paiva, Rodrigo G. (2015) "Polirritmia: conceitos e defini&ccedil;&otilde;es em diferentes contextos musicais." M&uacute;sica Hodie. ISSN 2317-6776. Vol. 15 (1): 87-103.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1462626&pid=S1647-6158201800040000400005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Sosa, Marcos Vladimir Miraballes. 2012. A milonga no redemoinho da can&ccedil;&atilde;o popular: Bebeto Alves e Vitor Ramil. &#91;Consult. 2017-22-12&#93; Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/61206/000863881.pdf?sequence=1" target="_blank">http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/61206/000863881.pdf?sequence=1</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1462628&pid=S1647-6158201800040000400006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Strauss, Joseph N. (1990) <i>Introduction to Post-tonal Theory</i>. Englewood Cliffs: Prentice Hall. ISBN: 978-01-36866-92-1&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1462629&pid=S1647-6158201800040000400007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Ver&iacute;ssimo, &Eacute;rico (2007) <i>Sonata</i>. In: Fantoches e outros contos. S&atilde;o Paulo: Companhia das Letras:. 250-266.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1462630&pid=S1647-6158201800040000400008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Werlang, G&eacute;rson L. 2009. A m&uacute;sica na obra de Erico Ver&iacute;ssimo: Polifonia, humanismo e cr&iacute;tica social. &#91;Consult. 2017-24-12&#93; Dispon&iacute;vel em: <a href="http://cascavel.ufsm.br/tede/tde_arquivos/16/TDE-2009-08-05T132154Z-2175/Publico/WERLANG,%20GERSON%20LUIS.pdf" target="_blank">http://cascavel.ufsm.br/tede/tde_arquivos/16/TDE-2009-08-05T132154Z-2175/Publico/WERLANG,%20GERSON%20LUIS.pdf</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1462632&pid=S1647-6158201800040000400009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Wolff, Daniel (2008) "O viol&atilde;o cl&aacute;ssico em Porto Alegre." <i>Brasiliana</i>. ISSN 1516-2427. N. 18: 18-25.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1462633&pid=S1647-6158201800040000400010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Wolff, Daniel (2015) <i>M&uacute;sica ga&uacute;cha para viol&atilde;o</i>. Porto Alegre: Marca Visual. ISBN: 978-85-61965-31-0&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1462635&pid=S1647-6158201800040000400011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Enviado a 02 de janeiro de 2018 e aprovado a 17 de janeiro de 2018</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:daniel@danielwolff.com">daniel@danielwolff.com</a> (Daniel Wolff)</p>      ]]></body><back>
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