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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Liéne Bosquê investigates the passage of time, which changes place and how we look at place, through the presence and absence of who inhabit these places. Liene Bosquê's working process includes imprint, mold making and appropriation of architectural fragments. Using materials such as latex, clay, plaster, and fibers she collects and retains characteristic relays of buildings on another surfaces, eliciting notions of temporality, fragility, memory and history. With the focus on the site-specifics work "Interior/Exterior", held in the city of Lisbon, this paper aims to reveal her tangible registers as a membrane which exposes the reverse of space and the texture of time.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS ORIGINAIS</b></p>     <p align="right"><b>ORIGINAL ARTICLES</b></p>     <p><b>Os registos tang&iacute;veis de Liene Bosqu&ecirc;</b></p>     <p><b>The tangible registers of Liene Bosqu&ecirc;</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Susana Maria Pires*</b></p>     <p>*Portugal, artista pl&aacute;stica.</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade de Lisboa; Faculdade de Belas-Artes; Centro de Investiga&ccedil;&atilde;o e Estudos em Belas Artes (CIEBA). Largo da Academia Nacional de Belas Artes 14, 1200-005. Lisboa, Portugal.</p>      <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO:</b></p>     <p>O trabalho de Liene Bosqu&ecirc; filia de uma investiga&ccedil;&atilde;o sistem&aacute;tica sobre a passagem do tempo e a forma como percecionamos um determinado lugar atrav&eacute;s da presen&ccedil;a e aus&ecirc;ncia de quem anteriormente o habitou. A sua pr&aacute;tica art&iacute;stica decorre de m&uacute;ltiplos processos de moldagem, impress&atilde;o e apropria&ccedil;&atilde;o de fragmentos arquitect&oacute;nicos que se autonomizam na duplica&ccedil;&atilde;o de linhas e volumes caracter&iacute;sticos dos edif&iacute;cios. Conduzindo um aprofundamento da obra "Interior/Exterior", que Bosqu&ecirc; desenvolveu na cidade de Lisboa, o presente texto apresenta os seus registos tang&iacute;veis como uma membrana que exp&otilde;e o avesso do espa&ccedil;o e a textura do tempo.</p>     <p><b>Palavras chave:</b> Superf&iacute;cie / Mat&eacute;ria / Mem&oacute;ria / Tempo.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT:</b></p>     <p>Li&eacute;ne Bosqu&ecirc; investigates the passage of time, which changes place and how we look at place, through the presence and absence of who inhabit these places. Liene Bosqu&ecirc;'s working process includes imprint, mold making and appropriation of architectural fragments. Using materials such as latex, clay, plaster, and fibers she collects and retains characteristic relays of buildings on another surfaces, eliciting notions of temporality, fragility, memory and history. With the focus on the site-specifics work "Interior/Exterior", held in the city of Lisbon, this paper aims to reveal her tangible registers as a membrane which exposes the reverse of space and the texture of time.</p>     <p><b>Keywords:</b> Surface / Matter / Memory / Time.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A topografia &uacute;nica de cada pele ret&eacute;m a identidade temporal do ser que nela habita. A epiderme dos corpos viventes e da mat&eacute;ria muda sust&eacute;m o paulatino aglomerado do devir. Nos dados desta condi&ccedil;&atilde;o depreende-se que a familiaridade entre superf&iacute;cie e superficialidade ocorre apenas na etimologia de ambas as palavras, mas que esta proximidade se traduz err&oacute;nea na sem&acirc;ntica. Superf&iacute;cie, esbo&ccedil;a-se aqui como a membrana que conecta o interior com o exterior permitindo o v&iacute;nculo com a exist&ecirc;ncia material. O ente toc&aacute;vel que &eacute; reciprocamente tocante, uma matriz codificada coligida pelo tempo.</p>     <p>Recordemos tamb&eacute;m que o contacto entre n&oacute;s e os objetos ocorre na superf&iacute;cie. &Eacute; no contexto desta complexa intera&ccedil;&atilde;o entre o corpo e o espa&ccedil;o que o fil&oacute;sofo americano Eduard S. Casey estrutura o conceito "Skin Deep" (Casey, 2015), revelando-o como o processo pelo qual o nosso "ser-pele", embutido de toda a sua hist&oacute;ria pessoal, j&uacute;bilos e feridas a que foi sujeito, se correlaciona com as texturas dos lugares por onde habita e vagueia.</p>     <p>A experi&ecirc;ncia do corpo vivo como entidade continuamente impregnada pela mem&oacute;ria coletiva, por interm&eacute;dio da rela&ccedil;&atilde;o com o espa&ccedil;o constru&iacute;do, assumese como foco de investiga&ccedil;&atilde;o de L&iacute;ene Bosqu&ecirc;. A base do seu trabalho &eacute;, portanto, explora&ccedil;&atilde;o do "lugar" numa equa&ccedil;&atilde;o que enquadra a experi&ecirc;ncia sensorial de espa&ccedil;os urbanos e dom&eacute;sticos associada a contextos, mem&oacute;rias e hist&oacute;ria.</p>     <p>Na sua pr&aacute;tica art&iacute;stica, Liene, come&ccedil;a por selecionar fragmentos da arquitetura, janelas, portas, ornamentos, puxadores, relevos da constru&ccedil;&atilde;o ou pequenas formas caracter&iacute;sticas da casa, para posteriormente obter moldes dos diferentes elementos, geralmente com l&aacute;tex ou porcelana. Os seus registos tang&iacute;veis, marcas pr&oacute;prias do espa&ccedil;o, endossam a matriz das suas constru&ccedil;&otilde;es tridimensionais. "Interior/ Exterior" (2008) &eacute; uma obra "site-specific" realizada a partir do sagu&atilde;o de um pr&eacute;dio olisiponense. Para a sua concretiza&ccedil;&atilde;o a artista aplicou l&aacute;tex diretamente nos vidros e paredes da habita&ccedil;&atilde;o obtendo como resultado uma "pele-molde" das suas janelas. Esta pel&iacute;cula flex&iacute;vel, enquanto forma extensiva de contacto, absorve e reproduz a rugosidade imposta pela temporalidade, ou seja, revela os limites palp&aacute;veis do edif&iacute;cio mas simultaneamente d&aacute; corpo aos res&iacute;duos da sua viv&ecirc;ncia imanente.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>1. Reter a textura do tempo</b></p>     <p>A presen&ccedil;a de uma ru&iacute;na exala cheiro e som de nostalgia, sintoma do palimpsesto mnem&oacute;nico do lugar. Desde o in&iacute;cio da sua constru&ccedil;&atilde;o, que arquitetura estabelece v&iacute;nculos com a viv&ecirc;ncia f&iacute;sica e ps&iacute;quica de quem a habita. A textura arquitet&oacute;nica absorve as camadas combinadas da viv&ecirc;ncia do espa&ccedil;o, inspira os movimentos e os gestos do presente e expira resson&acirc;ncias que m&uacute;rmuram atos passados. Se &eacute; verdade que os espa&ccedil;os que nos abrigam imprimem a nossa passagem, a veracidade mant&eacute;m-se no reverso, todas as casas que habitamos condicionam o nosso diagrama de habitar. O ser abrigado sensibiliza os limites de seu abrigo e &eacute; reciprocamente tingido por este.</p>     <p>Liene Bosqu&ecirc; afirma estar interessada na rela&ccedil;&atilde;o entre pessoas e lugares, explora a experi&ecirc;ncia sensorial dentro e cerca dos espa&ccedil;os arquitet&oacute;nicos e simultaneamente procura reter para si a mem&oacute;ria das paisagens edificadas onde passa e vive. Indubitavelmente a sua proposi&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica est&aacute; intimamente ligada com o seu percurso pessoal e acad&eacute;mico. Liene Bosqu&ecirc; (1980) nasceu em S.Paulo e vive desde 2011 em Nova Iorque. Entre 2006 e 2008 residiu em Lisboa onde realizou o Curso Avan&ccedil;ado no Centro de Arte e Comunica&ccedil;&atilde;o Visual (Ar.Co), entre 2009 e 2011 estudou e viveu em Chicago. Segundo a artista o facto de ter sa&iacute;do do Brasil e ter vivido prolongadamente em outros pa&iacute;ses f&ecirc;-la sentir necessidade de fincar ra&iacute;zes onde estava a viver. Isso reflete-se no seu trabalho, no conceito, em pe&ccedil;as "site-specific" e atrav&eacute;s da pesquisa da hist&oacute;ria e cultura do local onde se encontra. Tornou-se-lhe um exerc&iacute;cio continuo descobrir outras mem&oacute;rias para a constru&ccedil;&atilde;o sua pr&oacute;pria mem&oacute;ria pessoal.</p>     <p>Liene ambicionava ser cen&oacute;grafa, mas devido &agrave; inexist&ecirc;ncia de um curso superior nesta &aacute;rea decidiu estudar Arquitetura e Urbanismo em simult&acirc;neo com um bacharelato em Artes Pl&aacute;sticas, ainda em S&atilde;o Paulo. Fascinada pelo processo criativo a sua pr&aacute;tica foi consecutivamente tornando-se mais s&oacute;lida e complexa. Em uma entrevista que lhe foi dirigida no espa&ccedil;o "Carpe Diem Arte e Pesquisa", onde esteve em resid&ecirc;ncia, Bosqu&ecirc;, afirma que a sua passagem por Lisboa foi uma oportunidade decisiva para o desenvolvimento da sua linguagem pessoal. Em Lisboa, o foco da sua praxis estruturou-se pela repeti&ccedil;&atilde;o do uso da arquitetura como matriz para moldes e impress&otilde;es com l&aacute;tex, a&ccedil;&otilde;es que permeiam o seu trabalho at&eacute; hoje. Por&eacute;m, diz, foi durante o seu mestrado na School of the Art Institute of Chicago que o seu interesse pela hist&oacute;ria bem como pela teoria da arquitetura e da cidade marcaram definitivamente o seu campo imag&eacute;tico.</p>     <p>Apontamentos esquecidos do mobili&aacute;rio urbano, edif&iacute;cios que foram sucessivamente alterados ou arqu&eacute;tipos do viver de determinada comunidade destacam-se como elementos de particular interesse para Bosqu&ecirc;. De uma perce&ccedil;&atilde;o atenta do lugar, seleciona e analisa fragmentos da constru&ccedil;&atilde;o, para em seguida, cuidadosamente, prosseguir com o fabrico do molde. Hapticamente e de forma revers&iacute;vel os seus moldes permitem-nos sentir o peso material e a espessura temporal do espa&ccedil;o em que vivemos.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>As anamorfoses de BosqÃ»e herdam notoriamente o legado art&iacute;stico de Heidi Bucher (1926-1993). A artista su&iacute;&ccedil;a foi percursora na aplica&ccedil;&atilde;o de l&aacute;tex sobre casas e objetos. Foi em meados da d&eacute;cada de 1970 que come&ccedil;ou a desenvolver a nova t&eacute;cnica na qual encharcava len&ccedil;os de gaze na borracha de liquida, forrando meticulosamente superf&iacute;cies amplas. Bucher usou como suporte a casa dos seus av&oacute;s e o seu pr&oacute;prio atelier. Os "Skinnings" (<a href="#f1">Figura 1</a>) de Bucher s&atilde;o as peles do lugar, mas s&atilde;o tamb&eacute;m a fixa&ccedil;&atilde;o de formas e volumes em planos transl&uacute;cidos, quase vest&iacute;veis, quase org&acirc;nicos. A justaposi&ccedil;&atilde;o entre a fragilidade da mat&eacute;ria usada e a escala destas obras remete-nos para uma rela&ccedil;&atilde;o visceral com o espa&ccedil;o. Ante o resultado, somos levados a assistir a um antropomorfismo vulner&aacute;vel dos nossos abrigos.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v9n24/9n24a05f1.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Bucher indagou como habitamos os espa&ccedil;os e como eles nos habitam, como eles conduzem as nossas mem&oacute;rias e a&ccedil;&otilde;es. Ao cobrir e posteriormente esfolar a sua casa de inf&acirc;ncia, n&atilde;o se ocupou apenas com a transfer&ecirc;ncia das organiza&ccedil;&otilde;es materiais e geom&eacute;tricas, ela acondicionou, reteve, resguardou a mem&oacute;ria dos volumes suturados da sua viv&ecirc;ncia mas, seguidamente, puxou e arrancou com determina&ccedil;&atilde;o a casca da sua "concha" como um artr&oacute;pode a provocar a sua pr&oacute;pria ecdise.</p>     <p>H&aacute; uma organicidade, uma for&ccedil;a e uma densidade mat&eacute;rica nas peles esfoladas de Bucher que n&atilde;o encontramos nos trabalhos de Bosqu&ecirc;. Mais silenciosa e subtil, Liene, apropria-se da t&eacute;cnica mas certifica-se que o seu trabalho tem lugar pr&oacute;prio. Em a "Opennings" (<a href="#f2">Figura 2</a>) o duplo da janela cede ao peso da gravidade. Tem a vol&uacute;pia de um quase tecido, e parece at&eacute;, para quem v&ecirc; a primeira vez, que esteve sempre ali, que &eacute; parte integrada do lugar. Muda e harmoniosa trata-se de uma membrana que testemunhou todas as fendas e pequenos aglomerados da fenestra. Da fenestra, a mesma que se abriu e fechou anos a fio por tantas m&atilde;os, e todas as m&atilde;os deixaram uma part&iacute;cula de si. Longe de ser uma estrutura est&aacute;tica e inerte, a verdadeira casa concentra esquemas de movimento e h&aacute;bitos que fazem parte da natureza do espa&ccedil;o da habita&ccedil;&atilde;o. Aquela membrana agora suspensa entre a zona inferior da janela e o ch&atilde;o reteve a rugosidade de todas essas passagens.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v9n24/9n24a05f2.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>O campo gravitacional h&aacute;ptico de "Openings" desdobra-se em "Interior/ Exterior" (<a href="#f3">Figura 3</a>), revertendo, nesta, a presen&ccedil;a da obra para o exterior do edif&iacute;cio. E se antes do tecido viscoso parecia condensar a quentura do lar, aqui o sil&ecirc;ncio &eacute; soberano. O sagu&atilde;o comum de pr&eacute;dios altos parece nunca cumprir a sua fun&ccedil;&atilde;o de partilha, &eacute; geralmente um terreno sem vida. Nesta obra as janelas de latex repetem-se modularmente a partir das diferentes aberturas. Materialmente id&ecirc;nticas aquela anteriormente citada, estas aparentam ter-se mumificado em p&oacute; de bet&atilde;o.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v9n24/9n24a05f3.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A perce&ccedil;&atilde;o distinta de obras id&ecirc;nticas justifica o argumento de que estas superf&iacute;cies flex&iacute;veis s&atilde;o capazes de reter a natureza da subst&acirc;ncia material que absorvem e reproduzem mas que simultaneamente exp&otilde;em a fluidez da sua hist&oacute;ria humana e temporal.</p>     <p>Para Liene Bosqu&ecirc; o discurso material da obra &eacute; proficiente, afirmando o seu interesse por materiais que possuem mem&oacute;ria, saturados em si mesmos de significado.</p>     <p>Em "Surface <i>Matters of aesthetics, Materiality, and media</i>" (2014) a te&oacute;rica Guiliana Bruno argumenta que a materialidade n&atilde;o &eacute; uma quest&atilde;o de materiais mas sim a subst&acirc;ncia das rela&ccedil;&otilde;es materiais e que isso vai contaminar o nosso sentido de espa&ccedil;o e de contacto com o meio ambiente bem como o da nossa experi&ecirc;ncia de temporalidade interioridade e subjetividade.</p>     <p>Bruno acredita e defende que a tens&atilde;o superficial &eacute; hoje uma condi&ccedil;&atilde;o central na arte contempor&acirc;nea e na arquitetura, sinalizando uma remodela&ccedil;&atilde;o da nossarela&ccedil;&atilde;operceptivacomoobjetoart&iacute;sticoecomoscomespa&ccedil;osexpositivos. A sintonia entre o pensamento de Bruno e o projeto de Liene Bosqu&ecirc; efetua-se sobretudo segundo duas linhas estruturantes. A primeira no sentido de que para Bruno repensar a materialidade significa accionar novas formas de conex&atilde;o. Procura demonstrar que a fisicalidade de uma coisa que se pode tocar n&atilde;o desaparece com a sua extin&ccedil;&atilde;o e que esta pode vir transformar-se em outro meio expressivo. Bosqu&ecirc; transforma as estruturas r&iacute;gidas em materiais mais fr&aacute;geis e flex&iacute;veis, o seu trabalho concretiza-se pela transposi&ccedil;&atilde;o de elementos formais entre diferentes naturezas materiais.</p>     <p>Segundo, ambas t&ecirc;m interesse em como atribu&iacute;mos significados a locais e objetos e como essas experi&ecirc;ncias podem servir como catalisador para alterar a perspectivas da viv&ecirc;ncia coletiva dentro do dom&iacute;nio privado.</p>     <p>N&atilde;o obstante para Bruno a experi&ecirc;ncia est&eacute;tica &eacute; por natureza h&aacute;ptica, pois estabelece-se tangivelmente em uma rela&ccedil;&atilde;o pr&oacute;xima e transit&oacute;ria entra obra e observador. Paralelamente a pr&aacute;tica art&iacute;stica de Bosqu&ecirc; surge como &iacute;ndice revelador de um paradigma t&aacute;ctil que nos conduz a uma outra proximidade com a textura do tempo.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Conclus&atilde;o</b></p>     <p>A pele n&atilde;o &eacute; apenas o tecido que abriga os corpos, mas o meio atrav&eacute;s do qual o organismo se relaciona com o lugar. N&atilde;o esque&ccedil;amos que estas peles s&atilde;o superf&iacute;cies e que as superf&iacute;cies s&atilde;o sempre peles. S&atilde;o os limites de outros limites.</p>     <p>A pele &eacute; sempre onde o dentro e o fora se relacionam e se distinguem. &Eacute; um tecido que &eacute; ao mesmo tempo conjuntivo e disjuntivo.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Nas obras em estudo, "Openings" e "Interior/Exterior", modelo e objeto coadunam na qualifica&ccedil;&atilde;o significativa, pois o elemento janela &eacute; por si um plano de intera&ccedil;&atilde;o e transi&ccedil;&atilde;o. Bachelard (2008) conferiu ao contorno que delimita o interior um percurso de sentidos opostos de vari&aacute;veis contradit&oacute;rias, a casa e n&atilde;o casa, o aberto e o fechado, o aqui e o ali, o cosmos e o caos.</p>     <p>As membranas de l&aacute;tex de Liene Bosqu&ecirc; transformam a topografia exterior dos edif&iacute;cios em geografias interiores. Ao moldar a tessitura de espa&ccedil;os dom&eacute;sticos, Liene, d&aacute; exist&ecirc;ncia corp&oacute;rea a textura da vida privada de outros e por um breve momento permite-nos o acesso &agrave; materialidade densa dessa historicidade suspensa.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Agradecimentos</b></p>     <p>A autora &eacute; bolseira da Universidade de Lisboa, na Faculdade de Belas-Artes.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Bachelard, Gaston (2008). <i>A Po&eacute;tica do Espa&ccedil;o</i>. S&atilde;o Paulo: Martins Fontes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1462715&pid=S1647-6158201800040000500001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Bergson, Henri (1990). Mat&eacute;ria e Mem&oacute;ria: Ensaio sobre a rela&ccedil;&atilde;o do corpo com o espirito. S&atilde;o Paulo: Martins Fontes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1462717&pid=S1647-6158201800040000500002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Bruno, Guliana. (2014). <i>Surface Matters of aesthetics, Materiality, and media</i>. Chicago: University of Chicago Presss.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1462719&pid=S1647-6158201800040000500003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Kearney, Richard &amp; Treanor, Brian (Ed) (2015). <i>Carnal Hermeneutics</i>. New York: Fordham University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1462721&pid=S1647-6158201800040000500004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Nancy, Jean-Luc (2000). <i>Corpus</i>. Trad. Tom&aacute;s Maia. Lisboa: Vega.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1462723&pid=S1647-6158201800040000500005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Enviado a 04 de janeiro de 2018 e aprovado a 17 de janeiro de 2018</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:spires@campus.ul.pt">spires@campus.ul.pt</a> (Susana Maria Pires)       ]]></body><back>
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