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<institution><![CDATA[,Universidade de Lisboa Faculdade de Belas-Artes Centro de Investigação e Estudos em Belas Artes]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[In this communication we will develop a brief analysis of some of João Castro Silva sculptures, highlighting the semiotic role of wood used as a starting point for the works, namely the rough woods from the construction sites, the wood brought to the beaches by the storms, or the dense woods of the cryptomeria-japonica, in order to perceive the importance of the choice of those specific materials in the final perception of the work.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS ORIGINAIS</b></p>     <p align="right"><b>ORIGINAL ARTICLES</b></p>     <p><b>A Mat&eacute;ria da Escultura em Jo&atilde;o Castro Silva</b></p>     <p><b>The Matter of Sculpture in Jo&atilde;o Castro Silva</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Dora-Iva Rita*</b></p>     <p>*Portugal, artista pl&aacute;stica, pintora.</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade de lisboa, Faculdade de Belas-Artes, Centro de Investiga&ccedil;&atilde;o e Estudos em Belas Artes (CIEBA). Largo da Academia Nacional de Belas-Artes, 1249-058, Lisboa, Portugal.</p>      <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO:</b></p>     <p>Nesta comunica&ccedil;&atilde;o desenvolveremos uma breve an&aacute;lise de algumas das esculturas de Jo&atilde;o Castro Silva, real&ccedil;ando o papel semi&oacute;tico das madeiras usadas como ponto de partida para as obras, nomeadamente as madeiras rudes provenientes dos estaleiros de obras, as madeiras trazidas &agrave;s praias pelas tempestades juntamente com sarga&ccedil;os, ou as densas madeiras da grande criptom&eacute;ria-japonica, com o objetivo de se perceber a import&acirc;ncia da op&ccedil;&atilde;o daquelas mat&eacute;rias espec&iacute;ficas na percep&ccedil;&atilde;o final da obra.</p>     <p><b>Palavras chave:</b> Jo&atilde;o Castro Silva / escultura / mat&eacute;ria-prima / m&eacute;todo iconol&oacute;gico / Criptom&eacute;ria-jap&oacute;nica.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT:</b></p>     <p>In this communication we will develop a brief analysis of some of Jo&atilde;o Castro Silva sculptures, highlighting the semiotic role of wood used as a starting point for the works, namely the rough woods from the construction sites, the wood brought to the beaches by the storms, or the dense woods of the cryptomeria-japonica, in order to perceive the importance of the choice of those specific materials in the final perception of the work.</p>     <p><b>Keywords:</b> Jo&atilde;o Castro Silva / sculpture / raw material / iconological method / Cryptometryjaponic.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o: a mat&eacute;ria</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>    <p><i>Porque n&atilde;o valorizamos, n&oacute;s, a transit&oacute;ria materialidade f&iacute;sica e sim a, pretensa, eterna espiritualidade?</i></p>      <p>&#8212; Jo&atilde;o Castro Silva, 1999</p></blockquote>     <p>A migra&ccedil;&atilde;o das formas por entre mat&eacute;rias permite imprevistas trocas sem&acirc;nticas. A migra&ccedil;&atilde;o das ideias por entre as formas elucida os esp&iacute;ritos.</p>     <p>Na escultura s&atilde;o as formas &#8212; esculpidas, moldadas, enformadas &#8212; que se apossam das mat&eacute;rias &#8212; a madeira, o barro, a pedra, o metal &#8212; imprimindo nelas as suas verdades. Mas, de facto, n&atilde;o &eacute; s&oacute; assim: a mesma cabe&ccedil;a &eacute; diferente se for esculpida na madeira, ou for o barro ou o metal a mat&eacute;ria. Embora na percep&ccedil;&atilde;o total da obra n&atilde;o se proceda a quaisquer separa&ccedil;&otilde;es, a coisa representada e a qualidade da mat&eacute;ria com que se representa, completam, em simbiose, a integridade sem&acirc;ntica da obra. Assim, uma cabe&ccedil;a de madeira tem outra significa&ccedil;&atilde;o e expressividade, porque express&atilde;o &eacute; informa&ccedil;&atilde;o e sentido, do que a mesma cabe&ccedil;a em barro ou em metal (Potts, 2000).</p>     <p>Dos materiais que usa &agrave; maneira como o autor trabalha a pe&ccedil;a &#8212; a ferramenta e a aplica&ccedil;&atilde;o da m&aacute;quina, a for&ccedil;a que exerce, o tempo e ritmo do trabalho &#8212; &agrave; op&ccedil;&atilde;o mais ou menos detalhada de sugest&atilde;o final, impregnam a obra final de outras significa&ccedil;&otilde;es.</p>     <p>Ao interrogamo-nos sobre a vida como um todo maior do que ela &eacute;, a arte traz-nos essa outra realidade onde &eacute; permitido a conflu&ecirc;ncia de tudo quanto desejarmos ter como referente. Sem limites ou preconceitos, deixamo-nos migrar para a obra levando tudo o que realmente somos, mas, frequentemente, esquecendo no subconsciente muita da realidade que est&aacute; presente em obra, como as mat&eacute;rias e os gestos de que &eacute; feita, porque nos encontramos perante o compromisso entre o complexo material e conceptual que o autor instituiu como sendo a obra e a nossa aproxima&ccedil;&atilde;o, com muito menos informa&ccedil;&atilde;o sobre ela em si mas com a nossa hist&oacute;ria e respostas &agrave;s incertezas que mais intimamente procuramos encontrar.</p>     <p>Compreendamos, ent&atilde;o, que uma escultura &eacute; uma sequ&ecirc;ncia de hibridismos formados pelas diversas op&ccedil;&otilde;es dos diversos intervenientes, desde o in&iacute;cio &agrave; sua frui&ccedil;&atilde;o, sendo que este fen&oacute;meno &eacute; verific&aacute;vel em qualquer processo criativo-contemplativo.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>1. A obra de Jo&atilde;o Castro Silva</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Jo&atilde;o Castro Silva nasceu em 1966, estudou escultura na Faculdade de Belas Artes de Lisboa (FBAUL) seguindo para Londres com o objetivo de desenvolver maiores compet&ecirc;ncias em fundi&ccedil;&atilde;o (curso de "Bronze Casting", Royal College of Art, 1994). &Eacute; recorrente as pessoas formadas pela FBAUL terem grande facilidade em se adaptarem a outros meios acad&eacute;micos e profissionais devido &aacute; aquisi&ccedil;&atilde;o, no seu percurso formativo, de vastos e variados conhecimentos, tanto na cultura e sensibilidade art&iacute;sticas como no saber-fazer. Foi isto o que sucedeu com Jo&atilde;o Castro Silva que, passado algum tempo, regressou a Lisboa, mensurando claramente a import&acirc;ncia da forma&ccedil;&atilde;o adquirida na FBAUL, mais profunda, alargada e estruturada do que aquela que encontrou fora. No entanto, trouxe consigo um importante n&iacute;vel de conforto, nomeadamente na seguran&ccedil;a que adquiriu ao confrontar-se com outros pares, com outros meios oficinais, tecnol&oacute;gicos e acad&eacute;micos. Isto d&aacute;-lhe o impulso da autonomia, iniciando uma permanente atividade criativa escult&oacute;rica e uma inovadora procura de mat&eacute;ria-prima para o seu trabalho, o que o capacitou a uma maestria na escultura em madeira.</p>     <p>Na primeira exposi&ccedil;&atilde;o individual (<i>Tenta&ccedil;&otilde;es</i>, 1996. Galeria M&iacute;ron Trema, Lisboa) revisita o universo boschiano, pleno de arqu&eacute;tipos on&iacute;ricos e po&eacute;ticos. Na senda destes encontros com imagin&aacute;rios estranhos, compostos por inesperadas possibilidades formais de exist&ecirc;ncia, Jo&atilde;o Castro Silva exerce um exerc&iacute;cio de aplica&ccedil;&otilde;es diversificadas ao n&iacute;vel dos materiais, procedimentos e tecnologias. Trabalha metais, em chapas e filamentos, redes, pe&ccedil;as descartadas. Corta, solda, funde, torce. Usa madeiras repescadas de v&aacute;rias origens. Membranas finas que, depois de aplicadas sobre redes, se transformam em favos de mel. As figuras que criou s&atilde;o fortes, transcendentemente transparentes e et&eacute;reas, simultaneamente pesadas e leves, ferozes e am&aacute;veis, insanas e l&uacute;cidas. Estas pe&ccedil;as, compostas por aleat&oacute;rias mat&eacute;rias e formas, est&atilde;o, todavia, completamente apartadas de qualquer sentido aned&oacute;tico. Assumem-se apenas como uma singela comemora&ccedil;&atilde;o do dissemelhante. &Eacute; atrav&eacute;s da recole&ccedil;&atilde;o de materiais que Jo&atilde;o Castro Silva consegue imprimir a este ciclo produtivo a ousadia formal de serem obras estranhas, figuras n&atilde;o pertencentes ao nosso universo.</p>     <p>&Eacute; tamb&eacute;m neste sentido de conflu&ecirc;ncia de "diferentes" transformados em "semelhantes" que Jo&atilde;o Castro Silva desenvolve temer&aacute;rios ensaios de oragos e relic&aacute;rios (1999). Em figuras esculpidas em madeira integra outros elementos, cujos registos diferenciados enunciam um ecumenismo po&eacute;tico e ontol&oacute;gico ao n&iacute;vel das narrativas e das mat&eacute;rias. Esta tipologia do pensamento criativo parece adensar-se umas vezes e ser esquecido noutras. Mas apenas aparentemente, porque quando trabalha um aglomerado de partes da mesma mat&eacute;ria como se de um bloco maci&ccedil;o se tratasse, o pensamento criativo continua um processo similar.</p>     <p>Na obra escult&oacute;rica de Jo&atilde;o Castro Silva verificamos uma rigorosa interdepend&ecirc;ncia entre mat&eacute;ria-prima e obra acabada. Cada op&ccedil;&atilde;o expressa determinada perspetiva do mundo e todas as op&ccedil;&otilde;es tomadas, desde a escolha da madeira &agrave; finaliza&ccedil;&atilde;o do trabalho escult&oacute;rico, convergem para um mesmo fim expressivo potenciando-o semanticamente. Da&iacute; a import&acirc;ncia no trabalho art&iacute;stico de todas as op&ccedil;&otilde;es tomadas do princ&iacute;pio at&eacute; ao final.</p>     <p>As obras de Jo&atilde;o Castro Silva s&atilde;o obras totais, prenhes de significa&ccedil;&atilde;o, abrindo-se com extrema clareza numa abordagem iconogr&aacute;fica (Panofsky, 1989).</p>     <p>Das mat&eacute;rias-primas comuns da escultura a madeira &eacute; aquela que mais pr&oacute;xima est&aacute; da natureza humana (Potts, 2000). Ao ser esculpida deixa de ser &aacute;rvore (Ventura, 2016) e passa a ser obra de outro arb&iacute;trio alcan&ccedil;ando outra natureza &#8212; a da arte ou a do esp&iacute;rito, aquelas que necessitam de mat&eacute;ria para se manifestar. O escultor incorpora-lhe outro car&aacute;cter na sua natureza, que &eacute; tudo o que carrega desde a origem, por pouco comemoradas que sejam as sua forma anterior, os solos que nutriu, as brisas que abra&ccedil;ou, as florestas que integrou, a envergadura que foi adquirindo.</p>     <p>De facto, &eacute; madeira que Jo&atilde;o Castro Silva mais utiliza como mat&eacute;ria-prima das suas obras. Analisemos algumas das escolhas mais recorrentes que o autor faz, real&ccedil;ando o papel semi&oacute;tico das madeiras usadas como ponto de partida para as obras, que subdividimos em tr&ecirc;s categorias de modo a facilitar a abordagem, nomeadamente:</p>     <p>1. as madeiras rudes provenientes dos estaleiros de obras,</p>     <p>2. as <i>madeira de mar&eacute;</i> (Ventura, 2016:20) trazidas &agrave;s praias pelas tempestades,</p>     <p>3. e as densas madeiras da grande <i>Criptom&eacute;ria-jap&oacute;nica</i>,</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>com o objetivo de se perceber a import&acirc;ncia da op&ccedil;&atilde;o daquela mat&eacute;ria espec&iacute;fica na percep&ccedil;&atilde;o final de cada obra ou ciclo de obras.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2.1 As madeiras rudes</b></p>     <p>As madeiras j&aacute; usadas em v&aacute;rias atividades, sujas, rachadas, feridas, s&atilde;o uma das proveni&ecirc;ncias da mat&eacute;ria-prima que mais caracterizam as esculturas de Jo&atilde;o Castro Silva. S&atilde;o madeiras que aparentemente perderam a dignidade da origem, cortadas em pranchas serviram em estaleiros, cofragens, paletes. J&aacute; foram estruturas de edif&iacute;cios demolidos. T&ecirc;m hist&oacute;rias de bravura para al&eacute;m da &aacute;rvore a que pertenceram e da escultura que v&atilde;o incorporar.</p>     <p>O escultor entalha e cola as pranchas formando um bloco homog&eacute;neo que depois esculpe. Tendo uma matriz oficinal pragm&aacute;tica cujo objetivo &eacute; a consequ&ecirc;ncia expressiva formal, o autor pode recorrer a outras t&eacute;cnicas construtivas numa mesma pe&ccedil;a, moldando pranchas entre si com aux&iacute;lio de prego (<a href="#f1">Figura 1</a>). As marcas da degrada&ccedil;&atilde;o pelo uso duro a que a madeira esteve exposta, passam para a pe&ccedil;a esculpida e deixam-lhe cicatrizes que v&atilde;o inequivocamente acentuar alguma trag&eacute;dia enunciada (<a href="#f2">Figura 2</a>).</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v9n24/9n24a11f1.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v9n24/9n24a11f2.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Por vezes o escultor ousa a ironia assumida pela aplica&ccedil;&atilde;o da cor, fazendo inverter sinais que remetem para percep&ccedil;&otilde;es contradit&oacute;rias (<a href="#f3">Figura 3</a>).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v9n24/9n24a11f3.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2.2 <i>Madeira de mar&eacute;</i></b></p>      <p>Num processo de descoberta po&eacute;tica e cria&ccedil;&atilde;o pl&aacute;stica, Jo&atilde;o Castro Silva parece inverter as quest&otilde;es do fazer, permitindo-se recolectar mat&eacute;ria j&aacute; imbu&iacute;da dos valores sem&acirc;nticos antropom&oacute;rficos desejados. Continua a ser a &aacute;rvore o grande protagonista destas obras: ramos decepados, curtidos pelas &aacute;guas do mar, erodidos por rolar nas areias, esbranqui&ccedil;ados pela salmoura, as <i>madeira de mar&eacute;</i> &#8212; ossos humanos (<a href="#f4">Figura 4</a>).</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f4"><img src="/img/revistas/est/v9n24/9n24a11f4.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Quase como num jogo inocente, onde s&oacute; existe a transpar&ecirc;ncia das coisas, Jo&atilde;o Castro Silva aplica em obra quase diretamente estas pequenas madeiras de sarga&ccedil;os calcificadas. A&iacute; os pequenos troncos passam a ossos corro&iacute;dos de soldados desconhecidos mortos em desventuradas guerras. &Eacute; esta limpidez do alcance da obra que possibilita a escultura de Jo&atilde;o Castro Silva resplandecer.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2.3 Madeira da <i>Criptom&eacute;ria-jap&oacute;nica</i></b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Noutras situa&ccedil;&otilde;es, a mat&eacute;ria-prima &eacute; madeira de &aacute;rvores que vencem o nosso tempo, podendo viver na casa dos milhares de anos. Adv&eacute;m de entes de metabolismo mais lento do que o nosso, de verticalidade extraordin&aacute;ria dos seus 70 m de envergadura, com folhas que lembram vegeta&ccedil;&otilde;es de &eacute;pocas muito mais antigas. A mat&eacute;ria-prima tem um odor agrad&aacute;vel e &eacute; rosada como a pele do escultor, leve e com uma densidade de 300 a 420 Kg por m3. A <i>Criptom&eacute;ria-jap&oacute;nica</i> (<a href="#f5">Figura 5</a>), um tipo de cipreste oriundo da China ou Jap&atilde;o, &eacute; hoje end&eacute;mica em muitos outros locais do mundo, como nos A&ccedil;ores, onde se sobrep&ocirc;s &agrave; floresta aut&oacute;ctone da Laurissilva. &Eacute; uma forte e resistente &aacute;rvore, da&iacute; o ser uma &aacute;rvore de culto, envolvendo os santu&aacute;rios e os templos nip&oacute;nicos (Zuzuki, 1987). Jo&atilde;o Castro Silva consegue incorporar nesta madeira a ductilidade da &aacute;gua, a leveza do ar, o peso da pedra, a uma estranha espacialidade de luz. Isto pode-se constatar na exposi&ccedil;&atilde;o instalativa <i>Draperies</i> (<a href="#f6">Figura 6</a>) na Sala do Veado do Museu de Hist&oacute;ria Natural e da Ci&ecirc;ncia que decorreu no ano de 2015.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f5"><img src="/img/revistas/est/v9n24/9n24a11f5.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f6"><img src="/img/revistas/est/v9n24/9n24a11f6.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>O valor sem&acirc;ntico de cada pe&ccedil;a exposta &eacute; t&atilde;o expressivo, eloquente e diverso, que remete o observador para uma transcend&ecirc;ncia, transformando-o em contemplador. E tamb&eacute;m modifica o espa&ccedil;o. Sacraliza-o. A oscila&ccedil;&atilde;o parece existir e ser permanente, comprometendo o olhar e a percep&ccedil;&atilde;o do ar em movimento.</p>     <p>As cis&otilde;es entre as t&aacute;buas marcam o todo como veias ou como sulcos de navalha. As ideias irrompem &agrave; medida que os olhos afagam as superf&iacute;cies. A delicada leveza das pe&ccedil;as e da instala&ccedil;&atilde;o surpreendem por contrariarem o pr&oacute;prio conceito de mat&eacute;ria esculpida. O t&ecirc;xtil sobrep&otilde;e-se-lhe. A ideia sobrep&otilde;e-se &agrave; mat&eacute;ria. De facto as pe&ccedil;as parecem levitar acima do ch&atilde;o com a ajuda do ar. Ao circular por entre elas percebemos a sua verdadeira natureza, mas a&iacute; j&aacute; a nossa percep&ccedil;&atilde;o se encantou. Jogar com estes limites e saber n&atilde;o cair em redund&acirc;ncias est&eacute;ticas redutoras ou h&iacute;per-habilidades, demonstra uma cria&ccedil;&atilde;o e saber fazer de mestre. Por instantes vem-nos &agrave; mem&oacute;ria o assombramento dos <i>Abakans</i> ou os corpos lacerados de Magdalena Abakanowicz (1930), as redentoras figuras de Antony Gormley (1950), os vultos suspensos dos <i>Pronomes</i> de Ana Vieira (1940), a fragilidade cenogr&aacute;fica das instala&ccedil;&otilde;es de Kaarina Kaikkonen (1952), o travo de algum acampamento improvisado de migrantes ou de viv&ecirc;ncias j&aacute; desusadas da urbanidade mediterr&acirc;nica. As tape&ccedil;arias alvas, dependuradas em linhas vagas que unem v&atilde;o a v&atilde;o e recortam o espa&ccedil;o, s&atilde;o cortinas, separa&ccedil;&otilde;es que escondem do olhar para al&eacute;m de si, podem ser mortalhas, sud&aacute;rios, mant&eacute;is. Podem ser tudo aonde a imagina&ccedil;&atilde;o ilus&oacute;ria nos transporte. Podem referenciar-se como absurdos ou fasc&iacute;nios, grandes utopias ou pequenas verdades. Mas s&atilde;o esculturas relevadas em madeira de <i>Criptom&eacute;ria-jap&oacute;nica</i>, variando entre os 135 e os 200 cm em altura ou largura, em que o espessamento n&atilde;o ultrapassa os 7 cm. A branda for&ccedil;a da &aacute;rvore est&aacute; presente, as fibras sedosas permitem um toque de pele, embora visual. A energia espec&iacute;fica da mat&eacute;ria-&aacute;rvore funde-se &agrave;quela que &eacute; pr&oacute;pria ao escultor. O polimento final &eacute; semelhante ao que o santeiro ou o imagin&aacute;rio d&atilde;o &agrave; sua imagem e &eacute; do dom&iacute;nio da pintura. A pintura, velada, encobre a mat&eacute;ria sem a esconder, no entanto, obriga-a a fingir-se m&aacute;rmore, pele, aumentando o protagonismo sem&acirc;ntico das obras. A &aacute;rvore transfigura-se.</p>     <p>Cada pe&ccedil;a &eacute; como tecido de &aacute;rvore lavado que seca ao ar, e, por mais que pare&ccedil;a contradit&oacute;rio, como animal que lambe as feridas para as sarar. Porque a arte sara. &Eacute; "curativa", disse-o Louise Bourgeois.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Conclus&atilde;o</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ainda sobre a frase de Jo&atilde;o Castro Silva que sublinh&aacute;mos no in&iacute;cio &#8212; <i>Porque n&atilde;o valorizamos, n&oacute;s, a transit&oacute;ria materialidade f&iacute;sica e sim a, pretensa, eterna espiitualidade? &#8212;</i> Proponho pensarmos que &eacute; a "transit&oacute;ria materialidade f&iacute;sica" que nos permite ter liberdade e autonomia para engendrarmos alguma "eterna espiritualidade", ou, com maior focagem sobre o que temos vindo a falar, podemos afirmar que &eacute; atrav&eacute;s das mat&eacute;rias de que &eacute; feita que a obra revela a sua subst&acirc;ncia, emancipando-se conceptualmente, da&iacute; a import&acirc;ncia, quase deontol&oacute;gica, nas escolhas e diversas op&ccedil;&otilde;es que o autor vai fazendo ao longo da sua realiza&ccedil;&atilde;o, pois ser&atilde;o um fator de comunica&ccedil;&atilde;o intr&iacute;nseco, assumindo-se assim um compromisso de sustentabilidade conceptual e criativa.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Panofsky, Erwin (1989). <i>O significado nas artes visuais</i>. Lisboa: Presen&ccedil;a.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1463265&pid=S1647-6158201800040001100001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Potts, A. (2000). <i>The Sculptural Imagination, Figurative, Modernist, Minimalist</i>. Londres: Yale University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1463267&pid=S1647-6158201800040001100002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Silva, Jo&atilde;o Castro (1999). <i>Homens Eternos Homens Ef&eacute;meros</i> (cat&aacute;logo). Lisboa: Trema &#8212; Arte Contempor&acirc;nea.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1463269&pid=S1647-6158201800040001100003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Ventura, C. A. (2016). <i>Apontamentos sobre a Escultura em Madeira. Possibilidades do Tronco e seus Elementos</i>. Tese de Mestrado em Escultura. Lisboa: Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. <a href="http://www.repositorio.ul.pt/bitstream/10451/28550/2/ULFBA_TES_1001.pdf" target="_blank">http://www.repositorio.ul.pt/bitstream/10451/28550/2/ULFBA_TES_1001.pdf</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1463271&pid=S1647-6158201800040001100004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Zuzuki E., Tsukahara J. (1987). <i>Age structure and regeneration of old growth. Cryptomeria japonica forests on Yakushima Island</i>. Bot. Mag. Tokyo. 100(3):223-241.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1463272&pid=S1647-6158201800040001100005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Enviado a 05 de janeiro de 2018 e aprovado a 17 de janeiro de 2018</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:doraivarita.contact@gmail.com">doraivarita.contact@gmail.com</a> (Dora-Iva Rita)</p>      ]]></body><back>
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