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<publisher-name><![CDATA[Universidade de LisboaFaculdade de Belas-Artes]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O Uncanny na obra de Michaël Borremans]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[The Uncanny in the work of Michaël Borremans]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade do Porto Faculdade de Belas Artes Instituto de Investigação em Arte, Design e Sociedade]]></institution>
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<country>Portugal</country>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[From the text of Freud and taking into account the aesthetic genesis of the Uncanny concept, it is proposed a reflection on its conceptual and practical viability inside the pictorial work of the painter Michaël Borremans. The paintings of this author focus essentially on a thematic allied to the human being, but always containing a surrealist atmosphere, which illusively creates images of a strange familiarity, full of melancholy and strange forebodings. Starting from the analysis of several paintings, it is intended to think about the author's approach in terms of the rhetoric of the image, and how the uncanny manifests itself in the fragile dichotomy between what is perceived and what is conceived, in the suggestion but constant negation of a palpable readability, not only by the theme used, but, essentially, by the creation of ambivalent narratives that arouse the feeling of something threateningly strange.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS ORIGINAIS</b></p>     <p align="right"><b>ORIGINAL ARTICLES</b></p>     <p><b>O Uncanny na obra de Micha&euml;l Borremans</b></p>     <p><b>The Uncanny in the work of Micha&euml;l Borremans</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Sofia Torres*</b></p>     <p>*Portugal, artista pl&aacute;stica.</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade do Porto; Faculdade de Belas Artes; Instituto de Investiga&ccedil;&atilde;o em Arte, Design e Sociedade (I2ADS) Av. Rodrigues de Freitas 265, 4000-222, Porto, Portugal.</p>      <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO:</b></p>     <p>A partir do texto de Freud e atendendo &agrave; g&eacute;nese est&eacute;tica do Uncanny, pretende-se propor uma reflex&atilde;o sobre a sua viabilidade conceptual e pr&aacute;tica no imagin&aacute;rio pict&oacute;rico do pintor Micha&euml;l Borremans. As pinturas deste autor, focam-se essencialmente numa tem&aacute;tica aliada ao ser humano, contendo sempre uma atmosfera surrealista, que cria de forma ilus&oacute;ria imagens de uma estranha familiaridade, cheias de melancolia e estranhos pressentimentos. Partindo da an&aacute;lise de v&aacute;rias pinturas, pretende-se pensar sobre a abordagem do autor em termos da ret&oacute;rica da imagem, e de que forma o uncanny se manifesta na fr&aacute;gil dicotomia entre aquilo que se percebe e aquilo que se concebe, na sugest&atilde;o mas constante nega&ccedil;&atilde;o de uma legibilidade palp&aacute;vel, n&atilde;o apenas pela tem&aacute;tica utilizada, mas, essencialmente, pela cria&ccedil;&atilde;o de narrativas ambivalentes que suscitam o sentimento de algo amea&ccedil;adoramente estranho.</p>     <p><b>Palavras chave:</b> Micha&euml;l Borremans / Pintura / Uncanny.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT:</b></p>     <p>From the text of Freud and taking into account the aesthetic genesis of the Uncanny concept, it is proposed a reflection on its conceptual and practical viability inside the pictorial work of the painter Micha&euml;l Borremans. The paintings of this author focus essentially on a thematic allied to the human being, but always containing a surrealist atmosphere, which illusively creates images of a strange familiarity, full of melancholy and strange forebodings. Starting from the analysis of several paintings, it is intended to think about the author's approach in terms of the rhetoric of the image, and how the uncanny manifests itself in the fragile dichotomy between what is perceived and what is conceived, in the suggestion but constant negation of a palpable readability, not only by the theme used, but, essentially, by the creation of ambivalent narratives that arouse the feeling of something threateningly strange.</p>     <p><b>Keywords:</b> Micha&euml;l Borremans / Painting / Uncanny.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Micha&euml;l Borremans (1963) &eacute; um pintor e cineasta belga reconhecido pelo seu virtuosismo t&eacute;cnico aliado a uma pintura figurativa com uma densidade de atmosf&eacute;ra e narrativa sombria onde nada parece aquilo que &eacute;. As suas pinturas, apelam a uma contempla&ccedil;&atilde;o onde narrativas aparentemente simples transportam ambiguidade latente de ef&iacute;gies soturnas que parecem esconder ou contar mais do que aquilo que aparentam.</p>     <p>A partir dessa ambiguidade dieg&eacute;tica das pinturas de Borremans aliada &agrave; carga melanc&oacute;lica e sombria das personagens que a povoam, que surge a associa&ccedil;&atilde;o a um conceito Freudiano: o Uncanny.</p>     <p>O uncanny &eacute; um conceito que sumariamente se refere &agrave;quilo que &eacute; "o sentimento de algo amea&ccedil;adoramente estranho."A partir deste texto de Freud, e em compara&ccedil;&atilde;o com a an&aacute;lise de v&aacute;rias pinturas deste autor, pretende-se propor uma reflex&atilde;o sobre a viabilidade conceptual e pr&aacute;tica do uncanny como conceito motivador e subjacente de forma transversal no trabalho de Micha&euml;l Borremans.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>1. O Uncanny</b></p>     <p>O uncanny &eacute; um conceito que sumariamente se refere &agrave;quilo que &eacute; "o sentimento de algo amea&ccedil;adoramente estranho." Apesar de este conceito ter sido apresentado pela primeira vez atrav&eacute;s do ensaio de Ernst Jentsch &#8212; <i>On the Psychology of the Uncanny</i>, em 1906, &eacute; o texto de Freud &#8212; <i>Das Unheimlich</i>, publicado em 1919, que continua a ser o principal foco de atrac&ccedil;&atilde;o no fasc&iacute;nio do estudo da forma cultural e teoria do unheimlich.</p>     <p>Freud caracteriza o uncanny como um fen&oacute;meno pertencente &agrave; &aacute;rea da est&eacute;tica, (Freud, 1994:209) identificando-o como "(&#8230;) duas esferas de ideias que, n&atilde;o sendo opostas entre si, se encontram bastante distantes uma da outra." (Freud, 1994:215). Ou seja por um lado significa o que &eacute; familiar e agrad&aacute;vel, e por outro, o que est&aacute; dissimulado e escondido da vista. O uncanny, &eacute; um sentimento que que provoca um misto de atrac&ccedil;&atilde;o e repulsa, manifestando-se em termos psicol&oacute;gicos perante o confronto com algo que deveria permanecer em segredo, oculto, mas que por alguma raz&atilde;o que se tornou evidente.</p>     <p>Em <i>The Uncanny</i>, Freud procura explicar a origem do termo e de que forma o mesmo pode ser despoletado, assim como as raz&otilde;es e mecanismos psicol&oacute;gicos subjacentes a esse sentimento. A partir do texto identificaram-se quatro elementos visuais, enquadrados nas caracteristicas imag&eacute;ticas a partir das quais o uncanny pode ser despoletado:</p>     <p>&#8212; 1. Bonecas/aut&oacute;matos: ou quando estamos presentes a incerteza de algo que est&aacute; animado/inanimado. Em termos visuais, esta caracter&iacute;stica para se realizar est&aacute; intimamente relacionada com representa&ccedil;&otilde;es similares a seres humanos.</p>     <p>&#8212; 2. Duplo: para Freud este pode ser visto como um limite colateral entre realidade e ilus&atilde;o, podendo ser reconhecido em espelhos, est&aacute;tuas, fantasmas, e no desejo de evitar a morte. Tamb&eacute;m este elemento est&aacute; directamente relacionado com a representa&ccedil;&atilde;o do ser humano. Essencialmente, o duplo provoca uma sensa&ccedil;&atilde;o de uncanny pois a duplica&ccedil;&atilde;o serve por um lado para compensar o fim da morte f&iacute;sica &#8212; ligado ao narcisismo prim&aacute;rio e secund&aacute;rio &#8212; e para compensar o complexo de castra&ccedil;&atilde;o &#8212; (pela duplica&ccedil;&atilde;o do &oacute;rg&atilde;o sexual).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&#8212; 3. Membros decepados: esta caracter&iacute;stica encontra-se dentro dopensamento psicanal&iacute;tico associada ao complexo de castra&ccedil;&atilde;o. Claramente encontra-se tamb&eacute;m uma rela&ccedil;&atilde;o com a morte, e a pensamentos animistas ou &agrave; quest&atilde;o doaut&oacute;mato, relativo acabe&ccedil;as decepadas ou a "p&eacute;s quedan&ccedil;am por si s&oacute;s."</p>     <p>&#8212; 4. Morte: A morte aqui n&atilde;o est&aacute; apenas associada &agrave; morte f&iacute;sica, mas igualmente ao regresso dos mortos, esp&iacute;ritos e fantasmas. Freud destaca a morte como a fonte mais incisiva do "sentimento de algo amea&ccedil;adoramente estranho", pois defende que a nossa rela&ccedil;&atilde;o com a morte foi dos poucos pensamentos/emo&ccedil;&otilde;es que sofreram menos altera&ccedil;&otilde;es desde os tempos primitivos. (Freud, 1994:228)</p>     <p>O tema da morte no entanto est&aacute; presente de forma transversal em todos os elementos que possam despoletar o uncanny. N&atilde;o h&aacute; rela&ccedil;&atilde;o de estranheza perante a vis&atilde;o de um membro decepado sen&atilde;o na sua associa&ccedil;&atilde;o &agrave; parte ausente do corpo que corresponde a uma morte do todo ou a uma morte do membro perante a separa&ccedil;&atilde;o do todo. E mesmo relativamente aos manequins ou aut&oacute;matos, &eacute; a ideia de um corpo sem vida que se move por si s&oacute; &#8212; sem consci&ecirc;ncia, sem aquilo que o torna humano &#8212; ou seja, sem vida &#8212; que causa a sensa&ccedil;&atilde;o de uncanny. A pr&oacute;pria quest&atilde;o do duplo tem tamb&eacute;m a ver com uma reprodu&ccedil;&atilde;o do ego perante o medo da morte f&iacute;sica. Assim, o tema da morte tem uma repercuss&atilde;o cont&iacute;nua ao longo de todos os temas visuais que podem despoletar o uncanny no receptor do trabalho.</p>     <p>Mas, n&atilde;o basta a mera vis&atilde;o de um membro decepado ou de um aut&oacute;mato para que algo seja uncanny. Segundo Freud, o efeito depende do modo de como o autor aborda a sua fic&ccedil;&atilde;o, dependendo da forma como a realidade se afasta ou coincide com a realidade que nos &eacute; familiar.</p>     <p>Quando uma narrativa se afasta demasiado da nossa realidade familiar ou quando o autor cria o seu pr&oacute;prio mundo de regras e personagens, desde que as mesmas cumpram os pressupostos dessa mesma realidade, n&atilde;o existe o sentimento de uncanny.</p>     <p>O sentimento surge quando o autor simula respeitar o dom&iacute;nio da realidade familiar e ent&atilde;o introduz um dos elementos despoletadores desse sentimento, colocando o espectador ou receptor perante uma d&uacute;vida genu&iacute;na acerca daquilo que est&aacute; a acontecer.</p>     <p>&Eacute; neste sentido que as pinturas de Micha&euml;l Borremans recriam verdadeiramente esta acep&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o s&oacute; pelo tipo de figuras utilizadas: manequins, membros decepados, referencias &agrave; morte, mas, tamb&eacute;m pela intangibilidade das suas narrativas, que criam no espectador uma ansiedade constante acerca do que est&aacute; realmente representado.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2. O Uncanny na obra de Micha&euml;l Borremans</b></p>     <p>O trabalho de Micha&euml;l Borremans (1963), encontra-se povoado por figuras carregadas de uma ambiguidade latente, entre uma apar&ecirc;ncia humana sonambolistica ou de manequins de cera, criando essa d&uacute;vida entre se estamos perante a representa&ccedil;&atilde;o de um corpo vivo ou morto.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&Eacute; a abordagem realista dos trabalhos, n&atilde;o s&oacute; pela t&eacute;cnica assim como pela escala e tratamento da luz, que lhes confere um car&aacute;cter surrealista e uncanny. Os tecidos conjuntivos da codifica&ccedil;&atilde;o da realidade s&atilde;o distorcidos, mas, &eacute; mantida a linguagem b&aacute;sica da figura&ccedil;&atilde;o literal, onde cada objeto, lugar ou coisa, &eacute; retratado com precis&atilde;o e em propor&ccedil;&atilde;o &agrave; pr&oacute;pria realidade. Existe a cria&ccedil;&atilde;o de uma narrativa que, num primeiro olhar, &eacute; aparentemente baseada numa realidade familiar, (a figura humana, o realismo da sua execu&ccedil;&atilde;o), no entanto, ap&oacute;s um olhar mais atento, o espectador &eacute; colocado perante uma d&uacute;vida genu&iacute;na acerca daquilo que est&aacute; a acontecer.</p>     <p>Em trabalhos como <i>Automat I</i> (<a href="#f1">Figura 1</a>), a atmosfera uncanny &eacute; produzida pela percep&ccedil;&atilde;o desconcertante que a jovem figura se encontra sem pernas e est&aacute; colocada sobre uma laje lisa de madeira como uma esp&eacute;cie de manequim na vitrine de uma loja. O pr&oacute;prio titulo da obra &#8212; Automat &#8212; sugere a probabilidade de movimenta&ccedil;&atilde;o da figura, suscitando uma dubiedade em rela&ccedil;&atilde;o aquilo que est&aacute; representado, se humano &#8212; pela apar&ecirc;ncia e resolu&ccedil;&atilde;o da carna&ccedil;&atilde;o, ou manequim &#8212; pelo corpo decepado e sugest&atilde;o do t&iacute;tulo.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v9n24/9n24a15f1.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Encontramos outro exemplo dessa ambiguidade latente em <i>The Preservation</i> (<a href="#f2">Figura 2</a>):</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v9n24/9n24a15f2.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <blockquote>    <p>(&#8230;) <i>esta imagem assombrosa, aparentemente de uma jovem mulher, &eacute; pintada em tons de cinza e bege utilizados habitualmente para retratar a carne. No entanto, a manipula&ccedil;&atilde;o que Borremans deliberadamente faz da tinta evita com que se pare&ccedil;a com carne. A pintura d&aacute;-nos a impress&atilde;o de que a figura est&aacute; sentada num sal&atilde;o de cabeleireiro</i> (&#8230;) <i>no entanto, n&atilde;o h&aacute; nenhuma indica&ccedil;&atilde;o de que ela esteja realmente viva.</i> (Murphy, 2005:95-6)</p></blockquote>     <p>As figuras em Borremans t&ecirc;m sempre uma apar&ecirc;ncia sonambol&iacute;stica, ef&iacute;gies emocionalmente vazias, como se fossem manequins de cera, criando a d&uacute;vida e abrindo uma passagem entre aquilo que est&aacute; animado ou inanimado, entre a vida ou a morte, tal como refere Delfim Sardo:</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>    <p>(&#8230;) <i>uma esp&eacute;cie de espectro de morte, um doppelganger &agrave; espreita, intimamente ligado com a no&ccedil;&atilde;o do aut&ocirc;mato (golem), que Freud refere The Uncanny. O tema do duplo, ou doppelganger, tamb&eacute;m cruza o universo surrealista, batendo num processo de dissens&atilde;o interna permanente &#8212; como se o tema fosse eternamente Eu e o Outro. Este &eacute; um dispositivo encontrado na obra de Borremans:</i> (&#8230;) <i>as figuras, bem como na descri&ccedil;&atilde;o das m&atilde;os &#8212; a simetria do corpo, &eacute; a manifesta&ccedil;&atilde;o mais simbolicamente carregada do duplo.</i> (Gioni, Michaud &amp; Sardo, 2007:35-6)</p></blockquote>     <p>Vemos claramente essa ace&ccedil;&atilde;o do duplo ou do <i>doppelganger</i> no trabalho <i>Replacement one</i> (<a href="#f3">Figura 3</a>), onde o espectador &eacute; confrontado com a ideia do reflexo num espelho obscuro e vazio, sendo no entanto a imagem reflectida imposs&iacute;vel e sugerindo uma ac&ccedil;&atilde;o encoberta entre representado e representa&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v9n24/9n24a15f3.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>A aura da morte permeia a maior parte dos trabalhos de Borremans, como se v&ecirc; na s&eacute;rie <i>The Bodies</i> (<a href="#f4">Figura 4</a> e <a href="#f5">Figura 5</a>) ou em <i>The Nude</i> (<a href="#f6">Figura 6</a>). Mas n&atilde;o &eacute; s&oacute; o tema em si &#8212; a morte &#8212; que despoleta a sensa&ccedil;&atilde;o de uncanny, &eacute; a forma de como o mesmo &eacute; apresentado que cria esse dilema entre vida/morte, ou seja, como Jentsch aponta: quando existem &laquo;d&uacute;vidas acerca do facto de um ser aparentemente vivo poder ou n&atilde;o animar-se, bem como o inverso, ou seja, se um objecto sem vida n&atilde;o possui algo de animado." (Freud, 1994:217)</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f4"><img src="/img/revistas/est/v9n24/9n24a15f4.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f5"><img src="/img/revistas/est/v9n24/9n24a15f5.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <a name="f6"><img src="/img/revistas/est/v9n24/9n24a15f6.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>O tema da morte est&aacute; intimamente ligado &agrave;s referencias a membros ou torsos decepados, que s&atilde;o tamb&eacute;m uma constante no trabalho deste autor, como se v&ecirc; em <i>Sleeper</i> (<a href="#f7">Figura 7</a>) ou <i>The Consequence</i> (<a href="#f8">Figura 8</a>).</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f7"><img src="/img/revistas/est/v9n24/9n24a15f7.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f8"><img src="/img/revistas/est/v9n24/9n24a15f8.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>As personagens de Borremans aparecem sempre est&aacute;ticas, misteriosas, em situa&ccedil;&otilde;es bizarras, e muitas vezes amputadas, sugerindo hist&oacute;rias por contar em narrativas abertas e impenetr&aacute;veis, produzindo uma esp&eacute;cie de silencio, num equil&iacute;brio tangente entre promessa <i>vs</i> nega&ccedil;&atilde;o de satisfa&ccedil;&atilde;o visual, perante a est&oacute;ria que se pretende apreender.</p>     <p>Apesar de objectivamente o uncanny n&atilde;o ser um conceito referido pelo artista, ele encontra-se de forma transversal infundido na atmosfera e tem&aacute;tica dos seus trabalhos. Refere-se aqui o mesmo paralelismo utilizado por Hal Foster, em <i>Compulsive Beauty</i> (1995)<i>,</i> onde apresenta uma reflex&atilde;o sobre o uncanny como conceito subjacente a toda a concep&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica do surrealismo: "Se h&aacute; um conceito que compreende surrealismo, deve ser contempor&acirc;neo com este, imanente ao seu campo (&#8230;) eu acredito que este conceito seja o uncanny (&#8230;)." (Foster, 1995::xvii)</p>     <p>Segundo Foster, o conceito de uncanny opera transversalmente em toda a linha de pensamento e nas principais concep&ccedil;&otilde;es do surrealismo: o maravilhoso, <i>compulsive beauty</i> e <i>objective chance</i>. O uncanny, n&atilde;o &eacute; algo que se possa ler ou observar directamente, mas que se encontra nas entrelinhas do pensamento e da obra dos artistas desse per&iacute;odo.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No caso da pintura Borremans, essa liga&ccedil;&atilde;o &eacute; ainda mais forte, n&atilde;o se consubstanciando apenas numa l&oacute;gica de pensamento mas tamb&eacute;m &#8212; e essencialmente &#8212; na sua forma pict&oacute;rica &#8212; em personagens, situa&ccedil;&otilde;es, cen&aacute;rios e narrativas que transportam o espectador para aquilo que &eacute; inquietante, numa dial&eacute;ctica semi&oacute;tica entre o objecto representado e modo de representar. O sentimento de uncanny, consiste essencialmente na caracter&iacute;stica vital que permite manter a ambiguidade psicol&oacute;gica das suas pe&ccedil;as.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Conclus&atilde;o</b></p>     <p>Apesar do uncanny ser um conceito de origem psicanalitica, &eacute; indel&eacute;vel a sua g&eacute;nese est&eacute;tica e a sua vasta aplicabilidade e extens&atilde;o cognitiva dentro de v&aacute;rias &aacute;reas, entre as quais, as artes pl&aacute;sticas.</p>     <p>A partir da identifica&ccedil;&atilde;o de algumas das caracter&iacute;sticas visuais a partir das quais este conceito se pode manifestar (bonecas/aut&oacute;matos, duplo, membros decepados e morte), pretende-se propor uma reflex&atilde;o sobre a viabilidade conceptual e pr&aacute;tica do uncanny dentro do imagin&aacute;rio pict&oacute;rico do pintor Micha&euml;l Borremans.</p>     <p>Apesar desses elementos visuais serem temas recorrentes na pintura de Borremans, &eacute; essencialmente na dicotomia do tratamento amb&iacute;guo das suas personagens, e na adi&ccedil;&atilde;o de elementos que provocam a d&uacute;vida entre aquilo que se est&aacute; realmente a passar ap&oacute;s uma observa&ccedil;&atilde;o mais cuidada, que se provocam as realidades alternativas das suas pinturas e a abertura para uma leitura dentro daquilo que &eacute; o sentimento de algo amea&ccedil;adoramente estranho.</p>     <p>Independentemente de n&atilde;o ser algo do qual existam testemunhos directos escritos por parte do autor, por compara&ccedil;&atilde;o com a acep&ccedil;&atilde;o de Hal Foster em rela&ccedil;&atilde;o ao uncanny e ao surrealismo, considera-se que este conceito &eacute; algo transversal a toda a obra de Borremans, inscrito na atmosfera dos seus quadros, na ef&iacute;gie soturna das suas personagens, nos espa&ccedil;os taciturnos e silenciosos das suas narrativas. No entanto, o uncanny n&atilde;o se revela essencialmente apenas em temas ou em formas, mas sim, tal como aponta Freud, na forma de como o autor aborda a sua fic&ccedil;&atilde;o, na fr&aacute;gil dicotomia entre aquilo que se percebe e aquilo que se concebe, na sugest&atilde;o mas constante nega&ccedil;&atilde;o de uma legibilidade palp&aacute;vel, n&atilde;o apenas pela tem&aacute;tica utilizada, mas, essencialmente, pela cria&ccedil;&atilde;o de narrativas ambivalentes quesugerem o sentimento de algo amea&ccedil;adoramente estranho.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Foster, Hal (1995). <i>Compulsive Beauty</i>. Michigan: MIT Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1463682&pid=S1647-6158201800040001500001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Freud, Sigmund, &amp; Bastos, J. G. (1994). <i>Textos essenciais sobre literatura, arte e psican&aacute;lise.</i> Lisboa: Europa America.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1463684&pid=S1647-6158201800040001500002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Gioni, M., Michaud, P.-A., &amp; Sardo, D. (2007). <i>Micha&euml;l Borremans: Weight</i>. Ostfildern: Hatje Cantz. ISBN 978-3-7757-2130-1&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1463686&pid=S1647-6158201800040001500003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Murphy, P. T. (2005). <i>Micha&euml;l Borremans: The Performance</i>. Dublin: Hatje Cantz.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1463687&pid=S1647-6158201800040001500004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Sardo, Delfim (2006). <i>Pintura Redux, Desenvolvimentos na Ultima D&eacute;cada</i>. Lisboa: P&uacute;blico e Funda&ccedil;&atilde;o de Serralves.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1463689&pid=S1647-6158201800040001500005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Enviado a 04 de janeiro de 2018 e aprovado a 17 de janeiro de 2018</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:sofiatorres07@gmail.com">sofiatorres07@gmail.com</a> (Sofia Torres)</p>      ]]></body><back>
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