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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article is about the landscape and its permanence among the artists of Rio Grande do Sul, especially Lenir de Miranda (Pedro Osório, RS - 1945), an artist working in Pelotas (RS). We will focus on the theme of her landscapes and the actions that the artist works for her accomplishment. Her paintings of landscapes establish a dense and complex dialogue with her spectator, demanding an immersion in its wide and erudite cultural universe. Fascinated by the origins, the artist exposes the principles of the establishment of her work and opts for the multiplicity of readings.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS ORIGINAIS</b></p>     <p align="right"><b>ORIGINAL ARTICLES</b></p>     <p><b>Ensaio sobre as paisagens de Lenir de Miranda</b></p>     <p><b>Essay on the landscapes of Lenir de Miranda </b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Paulo C&eacute;sar Ribeiro Gomes&#42;</b></p>     <p>&#42;Brasil, artista visual.</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto de Artes, Departamento de Artes Visuais, Programa de P&oacute;sGradua&ccedil;&atilde;o em Artes Visuais. Rua Senhor dos Passos 248, Porto Alegre CEP: 90020-180 Brasil. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO:</b></p>     <p>Neste artigo tratamos da paisagem e de sua perman&ecirc;ncia entre os artistas do Rio Grande do Sul, com destaque para Lenir de Miranda (Pedro Os&oacute;rio, RS &#8212; 1945), artista atuante em Pelotas (RS). Nos deteremos sobre a tem&aacute;tica de suas paisagens e as a&ccedil;&otilde;es que a artista opera para sua realiza&ccedil;&atilde;o. Suas pinturas de paisagens estabelecem um denso e complexo di&aacute;logo com seu espectador, exigindo deste uma imers&atilde;o no seu amplo e erudito universo cultural. Fascinada pelas origens, a artista exp&otilde;e os princ&iacute;pios da instaura&ccedil;&atilde;o de sua obra e opta pela multiplicidade de leituras.</p>     <p><b>Palavras chave: </b>Lenir de Miranda / pintura de paisagem / pintura contempor&acirc;nea / arte no Rio Grande do Sul.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT: </b></p>     <p>This article is about the landscape and its permanence among the artists of Rio Grande do Sul, especially Lenir de Miranda (Pedro Os&oacute;rio, RS &#8212; 1945), an artist working in Pelotas (RS). We will focus on the theme of her landscapes and the actions that the artist works for her accomplishment. Her paintings of landscapes establish a dense and complex dialogue with her spectator, demanding an immersion in its wide and erudite cultural universe. Fascinated by the origins, the artist exposes the principles of the establishment of her work and opts for the multiplicity of readings.</p>     <p><b>Keywords: </b><i>Lenir de Miranda / landscape painting / contemporary painting / art in Rio Grande do Sul.</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Este &eacute; um ensaio no qual tratamos da paisagem, sua categoria de g&ecirc;nero, seus usos pelos artistas e sua perman&ecirc;ncia entre os artistas sulinos. Tratamos, principalmente, das paisagens pintadas por Lenir de Miranda (Pedro Os&oacute;rio, RS &#8212; 1945), sobre o que elas versam e como a artista opera para sua realiza&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Lenir de Miranda &eacute; uma pintora atuante em Pelotas, cidade do sul do Rio Grande do Sul, no extremo meridional do Brasil, um lugar com paisagens planas &#8212; o pampa &#8212; e naturalmente mon&oacute;tonas. Sua pintura de paisagens estabelece um denso e complexo di&aacute;logo com seu espectador, pois, se o princ&iacute;pio da paisagem &eacute; a mimese, a artista subverte-o ao optar por tudo que o nega: &agrave; perspectiva opta pela sobreposi&ccedil;&atilde;o dos elementos e das formas; ao colorido mim&eacute;tico opta pela satura&ccedil;&atilde;o das cores cruas e evocativas; ao suporte horizontal prefere as s&iacute;ncopes dos suportes articulados por justaposi&ccedil;&otilde;es; ao desenho ordenador sobrep&otilde;e o grafismo an&aacute;rquico e o letrismo inintelig&iacute;vel, pois este n&atilde;o &eacute; indicativo da narrativa, mas dos processos internos da constru&ccedil;&atilde;o do discurso. A superf&iacute;cie &eacute; o que h&aacute; de mais profundo nesta pintura: sua pele &eacute; a ossatura em constru&ccedil;&atilde;o e a carne em forma&ccedil;&atilde;o (<a href="#f1">Figura 1</a>,<a href="#f2">Figura 2</a>, <a href="#f3">Figura 3</a>). &Eacute; uma pintura na qual a constru&ccedil;&atilde;o se d&aacute; de dentro para fora, evidentemente, mas que &eacute; exibida pelo avesso, logo, &eacute; uma constru&ccedil;&atilde;o de fora para dentro: vemos o esqueleto antes de ver a carne, vemos a carne antes de ver a pele, vemos a pele antes de ver as marcas do mundo, uma paisagem ex&oacute;gena. Paisagem subjetiva ou paisagens subjetivadas? N&atilde;o importa a classifica&ccedil;&atilde;o: subjetiva, pois &eacute; particular e subjetivada, pois opta por manter todos os dados e elementos constituintes evidentes, como pe&ccedil;as de um jogo, como partes de um todo a ser continuadamente montado e remontado.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v10n25/10n25a09f1.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v10n25/10n25a09f2.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v10n25/10n25a09f3.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Sobre o g&ecirc;nero paisagem e dos usos enquanto g&ecirc;nero</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A paisagem &eacute; um g&ecirc;nero ingl&oacute;rio, pois se sua natureza &eacute; o da mimese agrad&aacute;vel aos olhos, ao tornar-se outra ela abre um espa&ccedil;o imensur&aacute;vel de incompreens&otilde;es e cobran&ccedil;as de fidelidade &agrave; sua natureza primeira. Se a paisagem era, inicialmente, a representa&ccedil;&atilde;o do exterior objetivo, a partir do Romantismo pict&oacute;rico ela abre-se para a subjetiva&ccedil;&atilde;o: paisagens internas, paisagens do eu desconfort&aacute;vel no mundo industrializado; a paisagem como constructo pict&oacute;rico, campo neutro da revolu&ccedil;&atilde;o modernista, lugar exterior a servi&ccedil;o do arcabou&ccedil;o imag&eacute;tico e intelectual dos artistas, vide C&eacute;zanne. No p&oacute;s-modernismo a paisagem deixa de servir as elucubra&ccedil;&otilde;es ontol&oacute;gicas e formalistas, fixando-se na quest&atilde;o cultural: lugares nos quais a cultura se debate com a natureza humana. Da&iacute; as paisagens de ru&iacute;nas de Anselm Kiefer, <i>contradictio per se</i>, pois reconstr&oacute;i a identidade do sujeito a partir dos restos deixados pela arrog&acirc;ncia dos indiv&iacute;duos. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Sobre a persist&ecirc;ncia do g&ecirc;nero entre os sulistas</b></p>     <p>Fundou-se o Rio Grande do Sul atrav&eacute;s das discretas e silenciosas paisagens liter&aacute;rias de Apolin&aacute;rio Porto Alegre (1844 &#8212; 1904), de Caldre e Fi&atilde;o (1821 &#8212; 1876) e de Oliveira Bello (1851 &#8212; 1914). Mas tamb&eacute;m tivemos as hiperb&oacute;licas descri&ccedil;&otilde;es do nordestino Jos&eacute; de Alencar (1829 &#8212; 1877), que lan&ccedil;ou seu olhar formador, pois n&atilde;o podia prescindir da distante paisagem sulina na constru&ccedil;&atilde;o do seu ideal de Brasil. Depois vieram os pintores e o primeiro foi Pedro Weing&auml;rtner (1853 &#8212; 1929) com as paisagens rurais identit&aacute;rias e emocionais, pois s&atilde;o menos ocupadas em captar a topografia do que o ar e o clima locais. Ap&oacute;s, Afonso Silva (1866 &#8212; 1945), Libindo Ferr&aacute;s (1877 &#8212; 1951) e Oscar Boeira (1883 &#8212; 1943), paisagistas da transi&ccedil;&atilde;o do mundo rural para o mundo urbano, da cultura campeira para a cultura urbana industrial, ex&iacute;mios praticantes do impositivo g&ecirc;nero. Ap&oacute;s a transi&ccedil;&atilde;o vieram a afirma&ccedil;&atilde;o do urbano atrav&eacute;s da paisagem modernista de Angelo Guido (1893 &#8212; 1969), de Lu&iacute;s Maristany de Trias (1885 &#8212; 1964) e de Benito Manzon Casta&ntilde;eda (1885 &#8212; 1955) e, entre os primeiros e esses, podemos incluir a paisagem cordata do pelotense Leopoldo Gotuzzo (1887 &#8212; 1983). Feita de acordos entre dados conflitantes &#8212; com o belo e o documental, o real e o imagin&aacute;rio, o pessoal e o coletivo &#8211;, ela se op&otilde;e, na sequ&ecirc;ncia, as primeiras paisagens rurais convulsivas de Iber&ecirc; Camargo (1914 &#8212; 1994), logo amaciada nas suas modernistas descri&ccedil;&otilde;es l&iacute;ricas dos casarios porto-alegrenses e cariocas. Tamb&eacute;m s&atilde;o contempor&acirc;neas as paisagens urbanas de Gast&atilde;o Hofstaetter (1917 &#8212; 1986), Carlos Alberto Petrucci (1919 &#8212; 2012) e Edgar Koetz (1914 &#8212; 1969), primorosos na fatura e na evoca&ccedil;&atilde;o do real, em tudo opostas e contrapostas ao lirismo pict&oacute;rico das paisagens introspectivas de Ado Malagoli (1906 &#8212; 1994) e de Alice Brueggemann (1917 &#8212; 2001). Todos, sem exce&ccedil;&atilde;o, lutaram contra a evidente falta de atrativos facilitadores da paisagem rural sulina, esvaziada de relevos dram&aacute;ticos e de quase imposs&iacute;vel apreens&atilde;o, pois, se &eacute; falsamente tranquila &eacute;, entretanto, continuadamente atormentada pelos furiosos ventos, que impedem sua defini&ccedil;&atilde;o e esfriam o ofuscante sol que a ilumina.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Tentativa de defini&ccedil;&atilde;o</b></p>     <p>Pode-se dizer que as paisagens de Lenir de Miranda s&atilde;o mnem&ocirc;nicas, para usar a express&atilde;o acurad&iacute;ssima de M&aacute;rcio Seligmann-Silva (2011). S&atilde;o constru&ccedil;&otilde;es intelectuais antes de tornarem-se objetos pict&oacute;ricos. Como Petrarca, que ascende ao monte Ventoux, "o primeiro a encontrar a f&oacute;rmula da experi&ecirc;ncia paisag&iacute;stica no sentido pr&oacute;prio do termo: o da contempla&ccedil;&atilde;o desinteressada, do alto, do mundo natural aberto ao olhar." (BESSE, 2006: 1), a artista tamb&eacute;m inaugura sua experi&ecirc;ncia elegendo um lugar de onde olhar: olha do topo, vendo o todo da cultura.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Conversas sobre a cultura e sobre a cultura da conversa&ccedil;&atilde;o</b></p>     <p>M&aacute;rcio Seligmann-Silva (2011) escreveu que</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>    <blockquote>&#91;&#8230;&#93; <i>pode-se considerar toda cultura como manifesta&ccedil;&atilde;o e constru&ccedil;&atilde;o da mem&oacute;ria. Quando pensamos no conceito de mem&oacute;ria cultural, n&atilde;o podemos nos esquecer que essa mem&oacute;ria &eacute; tanto constitu&iacute;da por textos como por imagens (e pela a&ccedil;&atilde;o rec&iacute;proca de um sobre o outro), assim como &eacute; essencial ter em vista que a mem&oacute;ria deve ser sempre pensada como um processo tenso, submetido a uma s&eacute;rie de determinantes coletivas, sociais, pol&iacute;ticas, mas tamb&eacute;m individuais e emocionais.</blockquote></i></p>     <p>Mais n&atilde;o &eacute; preciso dizer. A pintura sobre a qual discorremos trata exatamente desse processo tenso, com todas as determinantes sociais e tamb&eacute;m individuais e emocionais. Assim &eacute; que aos textos fundadores da cultura ocidental como a Il&iacute;ada e seus her&oacute;is, mormente Odisseu, associa-se ao Ulisses, o de James Joyce. Ambos s&iacute;ntese dos dilemas de suas &eacute;pocas, <i>tabula rasa</i> da cultura dos seus mundos e, para que n&atilde;o haja qualquer d&uacute;vida sobre o que restou do apagamento do que estava escrito na lousa da vida, T. S. Eliot traz as ru&iacute;nas de sua <i>Terra Desolada</i>: di&aacute;logos entre pessoas inteligentes.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Sobre as mat&eacute;rias agregadas</b></p>     <p>N&atilde;o se trata de pintura na qual a mat&eacute;ria utilizada, al&eacute;m da tinta, se expressa a partir de sua pr&oacute;pria presen&ccedil;a na superf&iacute;cie pict&oacute;rica: trata-se de mat&eacute;ria agregada sim, mas de valor question&aacute;vel, isto &eacute;, n&atilde;o vale <i>per se</i>, mas pelo que pode complementar um pensamento. No momento em que surge perde seu valor intr&iacute;nseco, n&atilde;o &eacute; <i>pars pro toto</i>, mas parte do todo, destacada e destac&aacute;vel, mas integrada ao discurso em evid&ecirc;ncia.</p>     <p>A dificuldade de fruir esta paisagem esta no fato de que ela n&atilde;o se constr&oacute;i de dentro para fora, isto &eacute;, n&atilde;o temos um desenho pr&eacute;vio das partes constituintes, n&atilde;o h&aacute; a evidencia&ccedil;&atilde;o dos elementos e das formas da natureza, n&atilde;o ocorre a presen&ccedil;a de discursos de qualquer esp&eacute;cie: nem mim&eacute;tico, nem subjetivo, nem pict&oacute;rico, t&atilde;o pouco conceitual.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>O que diz a pintora</b></p>     <p>Do mesmo modo que o poeta argentino Le&oacute;n Benar&oacute;s afirma em <i>Vidala Cayera,</i> sobre suas paisagens Lenir de Miranda tamb&eacute;m nos prop&otilde;e: <i>Le dificulto la facilidad</i>&#8230; Isso significa que, ao inv&eacute;s da simples contempla&ccedil;&atilde;o desinteressada, sua obra exige do espectador uma imers&atilde;o no amplo e erudito universo da cultura ocidental, com a sua totalidade dos seus constructos intelectuais e das manifesta&ccedil;&otilde;es pl&aacute;stico-visuais. Tamb&eacute;m escreveu a artista (1994, n&atilde;o paginado) que "Cada obra traz em si mesma elementos decifradores, enquanto provenientes da forma que encerra e se abre, oriundos da fonte de origem (artista) e da fonte decodificadora (perceptor). H&aacute; um curso oce&acirc;nico que espera consequ&ecirc;ncias". Em outro momento ela afirma que</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>    <blockquote><i>Posso ouvir o som desta pintura sulcada pelo carv&atilde;o. &Eacute; a vibra&ccedil;&atilde;o da sua presen&ccedil;a f&iacute;sica, sob cores l&iacute;quidas sombrias de mares e terras m&iacute;ticas.</i> &#91;&#8230;&#93; <i>&Eacute; como a imagem se descobre, numa terra devastada, como restos de queimadas imagem que se acumula camada ap&oacute;s camada, um palimpsesto de mem&oacute;rias e tentativas agitadas para reter a cena.</i> (2009:45)</blockquote></p>     <p>Se for um consolo para minha incapacidade de decifra&ccedil;&atilde;o, proponho a leitura do que Paul Val&eacute;ry escreveu a prop&oacute;sito das explica&ccedil;&otilde;es: "&#91;&#8230;&#93; se me interrogarem, se se inquietarem (como acontece, e &agrave;s vezes intensamente) sobre o que eu 'quis dizer' em tal poema, respondo que n&atilde;o quis dizer, e sim quis fazer, e que foi a inten&ccedil;&atilde;o de fazer que quis o que eu disse&#8230;" (1991: 173).</p>     <p>Assim como para Paul Val&eacute;ry a pintora &eacute;, talvez, mais fascinada pelo fazer do que pela obra finalizada. Deixa vis&iacute;vel nas suas obras as marcas de seu processo. Fascinada pelas origens, tem um esp&iacute;rito de geneticista: exp&otilde;e princ&iacute;pios porque n&atilde;o quer explicar e n&atilde;o quer impor raz&otilde;es.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Besse, Jean-Marc (2006). "Ver a Terra: seis ensaios sobre a paisagem e a geografia". SP: Editora Perspectiva. ISBN 85-273-0755-3.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1464720&pid=S1647-6158201900010000900001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Seligmann-Silva, M&aacute;rcio (2011). "A literatura como dispositivo de mem&oacute;ria". <i>Revista Pr&eacute;-Univesp, n&ordm; 11</i>. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.univesp.ensinosuperior.sp.gov.br/preunivesp/2128/a-literatura-comodispositivo-de-mem-ria.html" target="_blank">http://www.univesp.ensinosuperior.sp.gov.br/preunivesp/2128/a-literatura-comodispositivo-de-mem-ria.html</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1464722&pid=S1647-6158201900010000900002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Miranda, Lenir de (1994). "Autobiografia de todos n&oacute;s". Pelotas: Livraria Mundial (volume n&atilde;o paginado).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1464723&pid=S1647-6158201900010000900003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Miranda, Lenir de (2009). "Meu nome &eacute; ningu&eacute;m". Porto Alegre: Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1464725&pid=S1647-6158201900010000900004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Val&eacute;ry, Paul (1991). "Acerca do Cemit&eacute;rio Marinho". In "Variedades". S&atilde;o Paulo: Iluminuras &#8212; Projetos e Produ&ccedil;&otilde;es Editoriais Ltda. ISBN 85-85219-32-7 &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1464727&pid=S1647-6158201900010000900005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Artigo completo submetido a 03 de janeiro de 2019 e aprovado a 21 de janeiro de 2019 </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:oluapgomes@gmail.com">oluapgomes@gmail.com</a> (Paulo Gomes)</p>      ]]></body><back>
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