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<publisher-name><![CDATA[Universidade de LisboaFaculdade de Belas-Artes]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O cheiro nas narrativas marginais de Teresa Margolles]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Pontifícia Universidade Católica de Campinas Faculdade de Artes Visuais Centro de Linguagem e Comunicação]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[From the art works "Vaporización" (2001-2003) and "En el aire" (2002-2003) by Teresa Margolles, the sense of smell is assumed in this text as a guiding principle that materializes the death and erasure of the victims. The poetic operation is discussed as a scientific exercise, a deodorization process, which approximates Corbin's (1987) "olfactory revolution" of the "civilizing process" (Elias, 1993) to formalize contemporary social functions and their modes of exclusion.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS ORIGINAIS</b></p>     <p align="right"><b>ORIGINAL ARTICLES</b></p>     <p><b>O cheiro nas narrativas marginais de Teresa Margolles</b></p>     <p><b>The smells in Teresa Margolles's marginal narratives</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Luisa Paraguai&#42; & Beatriz Fernandes Pinheiro do Amaral&#42;&#42;</b></p>     <p>&#42;Brasil, artista visual.</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Docente e Pesquisadora na Pontif&iacute;cia Universidade Cat&oacute;lica de Campinas (PUC Campinas), Faculdade de Artes Visuais, Centro de Linguagem e Comunica&ccedil;&atilde;o (CLC), Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Linguagens, Midia e Arte (LIMIAR). Rua Professor Doutor Euryclides de Jesus Zerbini, 1516, Parque Rural Fazenda Santa C&acirc;ndida, 13087-571, Campinas, SP, Brasil. </p>     <p>&#42;&#42;Brasil, artista visual.</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Faculdade de Artes Visuais, Pontif&iacute;cia Universidade Cat&oacute;lica de Campinas (PUC Campinas) e Hist&oacute;ria da Arte da Universidade Federal de S&atilde;o Paulo (UNIFESP). Rua Professor Doutor Euryclides de Jesus Zerbini, 1516, Parque Rural Fazenda Santa C&acirc;ndida, 13087-571, Campinas, SP, Brasil. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO:</b></p>     <p>A partir da instaura&ccedil;&atilde;o das obras "Vaporizaci&oacute;n" (2001-2003) e "En el aire" (2002-2003) de Teresa Margolles, assume-se neste texto o sentido do olfato, como princ&iacute;pio norteador que materializa a morte e o apagamento das v&iacute;timas. Discute-se a opera&ccedil;&atilde;o po&eacute;tica enquanto um exerc&iacute;cio cient&iacute;fico, um processo de desodoriza&ccedil;&atilde;o, que aproxima a "revolu&ccedil;&atilde;o olfativa" de Corbin (1987) do "processo civilizador" (Elias, 1993) para formalizar as fun&ccedil;&otilde;es sociais contempor&acirc;neas e seus modos de exclus&atilde;o.</p>     <p><b>Palavras chave: </b>cheiros e narrativas / cidades e territ&oacute;rios sociais / instaura&ccedil;&atilde;o e cientificismo.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT: </b></p>     <p>From the art works "Vaporizaci&oacute;n" (2001-2003) and "En el aire" (2002-2003) by Teresa Margolles, the sense of smell is assumed in this text as a guiding principle that materializes the death and erasure of the victims. The poetic operation is discussed as a scientific exercise, a deodorization process, which approximates Corbin's (1987) "olfactory revolution" of the "civilizing process" (Elias, 1993) to formalize contemporary social functions and their modes of exclusion.</p>     <p><b>Keywords: </b>smells and narratives / cities and social territories / instauration and scientism.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     <p>O texto aborda a pr&aacute;tica art&iacute;stica de Teresa Margolles, que problematiza a visibilidade de an&ocirc;nimos assassinados na cidade do M&eacute;xico, para articular com a marginalidade estrutural do sentido do olfato na cultura ocidental. A artista nasceu na cidade de Culiacan, M&eacute;xico, regi&atilde;o dominada pelo crime organizado, e, constantemente, se deparava com corpos mortos. Em 1963, estudou arte, comunica&ccedil;&atilde;o e medicina forense, per&iacute;odo no qual o cen&aacute;rio art&iacute;stico refletia a participa&ccedil;&atilde;o entre p&uacute;blico e obra como resist&ecirc;ncia &agrave;s ditaduras na Am&eacute;rica Latina. Fundou no in&iacute;cio da d&eacute;cada de 1990, na Universidade Nacional Aut&ocirc;noma do M&eacute;xico, o grupo SEMEFO (Servi&ccedil;o M&eacute;dico Forense). Ao trabalhar como legista, at&eacute; 1998, fundamentou sua pesquisa sobre a ambi&ecirc;ncia dos necrot&eacute;rios e os est&aacute;gios de degrada&ccedil;&atilde;o do corpo para gerar confrontos e questionar os significados das mortes, que definem o tratamento dos cad&aacute;veres (Rocha, 2017). A po&eacute;tica da artista tematiza as trag&eacute;dias sociais, decorrentes da viol&ecirc;ncia da Am&eacute;rica Latina, que sofrem um processo de apagamento hist&oacute;rico.</p>     <p>A partir de "Vaporizaci&oacute;n" (2001-2003) (<a href="#f1">Figura 1</a>) e "En el aire" (2002-2003) (<a href="#f2">Figura 2</a>), assume-se neste texto o sentido do olfato, como princ&iacute;pio po&eacute;tico norteador, para dar visibilidade &agrave; fragilidade da exist&ecirc;ncia humana diante da brutalidade social. Enquanto, na primeira obra, a sala enche-se de vapor de &aacute;gua criando uma atmosfera densa e &uacute;mida, na segunda, as bolhas invadem o espa&ccedil;o expositivo; no entanto, ambas exercitam processo de desodoriza&ccedil;&atilde;o para anunciar a materialidade da morte.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v10n25/10n25a10f1.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v10n25/10n25a10f2.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Assim, entendendo que a artista instaura suas obras (Rey 2002) a partir de um exerc&iacute;cio da verdade cient&iacute;fica (medicina forense), contextualizam-se os relatos de Corbin (1987) e Classen et al. (1994) sobre os conflitos sociais entre os s&eacute;culos XVIII e XIX como um "processo civilizador" (Elias 1993). A divis&atilde;o entre o burgu&ecirc;s perfumado e o prolet&aacute;rio fedido deste per&iacute;odo atua como um agente de mudan&ccedil;as hist&oacute;ricas na conduta social e na reorganiza&ccedil;&atilde;o das cidades, que Teresa evoca contemporaneamente, quando formaliza a viol&ecirc;ncia da cidade do M&eacute;xico a partir de rastros &#8212; os cheiros, dos corpos assassinados.</p>     <p>Em ambas as obras, Teresa formaliza a realidade social como uma constru&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, pois, a partir do seu conhecimento interdisciplinar forense usa a &aacute;gua e o sab&atilde;o da &uacute;ltima lavagem dos cad&aacute;veres, ap&oacute;s suas aut&oacute;psias no necrot&eacute;rio. O embate proposto pela artista &eacute; questionar as fun&ccedil;&otilde;es sociais e seus modos de exclus&atilde;o, quando contamina os visitantes com os fluidos, ainda que esterilizados, para criar uma evidencia da invisibilidade das v&iacute;timas. Constr&oacute;i um monumento ef&ecirc;mero, que provoca nos visitantes rea&ccedil;&otilde;es amb&iacute;guas, de repulsa e compaix&atilde;o, ao narrar sobre o ambiente marginal dos indiv&iacute;duos assassinados. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>1. Arranjos sociais em configura&ccedil;&otilde;es culturais</b></p>     <p>Primeiramente, ao considerar a instaura&ccedil;&atilde;o da obra art&iacute;stica como "opera&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnica e te&oacute;rica bastante complexas, abrindo margem consider&aacute;vel a cruzamentos e hibridismos tanto de conhecimentos quanto de procedimentos" (Rey 2002:123), entende-se a forma imbricada como Teresa valida seus conhecimentos forenses no processo de cria&ccedil;&atilde;o. Em "Vaporizaci&oacute;n" (2001-2003) (<a href="#f1">Figura 1</a>) e em "En el aire" (2002-2003) (<a href="#f2">Figura 2</a>) a &aacute;gua foi anteriormente empregada na limpeza de cad&aacute;veres de mortes violentas, no contexto do crime organizado, tr&aacute;fico, explora&ccedil;&atilde;o sexual, e posteriormente desinfetada para uso da artista. Seu conhecimento cient&iacute;fico e interdisciplinar apresenta-se como um aparato te&oacute;rico e simb&oacute;lico, conformado por sua subjetividade, que parte de uma verdade inquestion&aacute;vel para deslocar significados j&aacute; estabelecidos. Neste sentido, a artista faz repensar os valores partilhados em sociedade, potencializando uma outra realidade, que mobiliza questionamentos e a produ&ccedil;&atilde;o de significantes na esfera sens&iacute;vel da Arte Contempor&acirc;nea (Rey, 2002).</p>     <p>Para melhor compreens&atilde;o do embate entre os visitantes e as obras citadas, quando contaminados pela morte e confrontados pelos odores dos corpos marginais, retomam-se os conceitos de "Processo Civilizador" (Elias, 1993) e de "Revolu&ccedil;&atilde;o Olfativa" (Corbin, 1987), que contextualizam o tecido social e seus modelos para regular a vida em comum. Ao pensar em condutas sociais no processo de acultura&ccedil;&atilde;o, priorizam-se, conforme Elias (1993), as divis&otilde;es de fun&ccedil;&otilde;es em cadeias de a&ccedil;&otilde;es, mais ou menos est&aacute;veis, que mobilizam os indiv&iacute;duos em uma interdepend&ecirc;ncia social e substituem constantemente o prazer pelo remorso, no qual a viol&ecirc;ncia f&iacute;sica &eacute; monopolizada pelo Estado. Assim, o processo civilizador, para o autor,</p>     <p>    <blockquote><i>As atividades humanas mais animalescas s&atilde;o progressivamente exclu&iacute;das da vida comunal e investidas de sentimentos de vergonha, que a regula&ccedil;&atilde;o de toda a vida instintiva e afetiva por um firme auto-controle se torna cada vez mais est&aacute;vel, uniforme e generalizada</i> (Elias 1993:193-4).</blockquote></p>     <p>Assume-se o autocontrole e a autolimita&ccedil;&atilde;o, sin&ocirc;nimos de distin&ccedil;&atilde;o e prest&iacute;gio para as classes de maior poder social, como suas ferramentas de manuten&ccedil;&atilde;o das condi&ccedil;&otilde;es de superioridade. Sobre isso, Elias (1993:223) discorre "o medo da perda ou redu&ccedil;&atilde;o do prest&iacute;gio social constitu&iacute;a uma das mais poderosas for&ccedil;as motrizes para transformar as limita&ccedil;&otilde;es impostas pelos outros em autolimita&ccedil;&atilde;o". Para o autor, esse medo da aristocracia constitui uma for&ccedil;a motriz de controle social, expressa em uma intensa vigil&acirc;ncia para distingui-los das pessoas da classe social inferior, "n&atilde;o apenas nos sinais externos de status, mas tamb&eacute;m na fala, nos gestos e nas distra&ccedil;&otilde;es e maneiras" (Elias, 1993: 251). Da mesma forma, Corbin (1987) apresenta a "revolu&ccedil;&atilde;o olfativa", legitimada enquanto verdade cient&iacute;fica (embora desconstru&iacute;da posteriormente), e seus discursos pol&iacute;ticos como influ&ecirc;ncias na constitui&ccedil;&atilde;o do imagin&aacute;rio social e definidores dos modos de controle social. O sentido do olfato passa ent&atilde;o a ser vigiado e validado como forma de higienismo, autocontrole e distin&ccedil;&atilde;o social, modelizando arranjos sociais.</p>     <p>Esses modos de comportamento, enraizados nas sociedades ocidentais e ocidentalizadas, influenciam a maneira como os indiv&iacute;duos comportam-se socialmente e portanto, justifica-se sua contextualiza&ccedil;&atilde;o para a compreens&atilde;o da repulsa do p&uacute;blico, afetado pelas obras de Margolles. Pois, uma vez contaminados pelos cad&aacute;veres, rompem-se temporariamente, as distin&ccedil;&otilde;es sociais e higienistas que separam o p&uacute;blico daqueles que morreram tragicamente. A artista justap&otilde;e o embara&ccedil;o dos visitantes com a realidade violenta, que se esfor&ccedil;am em evitar.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2. Cidades e territ&oacute;rios marginais</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ao compreender a configura&ccedil;&atilde;o das cidades como resultado de a&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas e sociais, historicamente contextualizadas, retomam-se Corbin (1987) e Classen et al. (1997) para apontarem a perspectiva marginal do olfato, enquanto modos de operar os sentidos determinantes e determinados para/pela cultura. O sentido do olfato foi "depreciado em virtude de sua falta de sociabilidade" ao configurar o "modelo de anti-urbanidade na vis&atilde;o de Kant" (Jacquet 2014:41), pois o odor invade e penetra a intimidade das pessoas, impondo-se sem liberdade de escolha. Corbin (1987) escreve sobre os conflitos, entre os s&eacute;culos XVIII e XIX, quando os limites de toler&acirc;ncia dos maus odores foram rebaixados e a situa&ccedil;&atilde;o urbana existente passa a ser intoler&aacute;vel. O conceito de transmiss&atilde;o &#8212; pelo ar contaminado (teoria miasm&aacute;tica), e o discurso sobre a propaga&ccedil;&atilde;o das epidemias concentra-se nos sentidos do olfato e do tato, respectivamente. Esta condi&ccedil;&atilde;o perceptiva, legitimada pela verdade cient&iacute;fica da &eacute;poca, definiu o imagin&aacute;rio social sobre o cheiro da morte. Margolles formaliza essa condi&ccedil;&atilde;o e utiliza dos odores presentes nas subst&acirc;ncias ass&eacute;pticas, para sensibilizar o p&uacute;blico sobre a viol&ecirc;ncia das rupturas sociais, ainda que a contamina&ccedil;&atilde;o dos visitantes pelas mol&eacute;culas de &aacute;gua ocorra sutilmente, em suspens&atilde;o.</p>     <p>Em consequ&ecirc;ncia desta "revolu&ccedil;&atilde;o olfativa" (Corbin, 1987), &agrave; partir da categoriza&ccedil;&atilde;o de odores como ruins e perigosos, estimulou-se a repulsa dos outros corpos &#8212; cheiro da multid&atilde;o, de lugares apertados &#8212; e iniciou-se um processo de reorganiza&ccedil;&atilde;o da cidade &#8212; mudaram-se os locais de hospital, a&ccedil;ougue, cemit&eacute;rio, f&aacute;bricas de candeeiro e couro &#8212; para atender &agrave; nova sensibilidade dos odores.</p>     <p>    <blockquote><i>as injun&ccedil;&otilde;es m&eacute;dicas procurando recha&ccedil;ar os miasmas &#8212; que como ser&aacute; visto adiante, envolvida num contexto de mudan&ccedil;as pol&iacute;ticas &#8212; podem ser consideradas um mecanismo de coer&ccedil;&atilde;o externa que, juntamente com a crescente no&ccedil;&atilde;o de interdepend&ecirc;ncia das pessoas, poderiam ter servido como elemento externo de coer&ccedil;&atilde;o sobre os comportamentos individuais, procurando constituir outras formas de sensibilidades (desodoriza&ccedil;&atilde;o, odores suaves, por exemplo)</i> (Silva, 2012:16).</blockquote></p>     <p>Neste processo exercita-se a manuten&ccedil;&atilde;o do controle e poder do espa&ccedil;o p&uacute;blico, pela pr&oacute;pria defini&ccedil;&atilde;o de insalubridade e da no&ccedil;&atilde;o de incomodidade, que ganham hoje outras caracter&iacute;sticas, ainda capazes de alterar o planejamento urbano; por exemplo, fontes emissoras de odores e dep&oacute;sitos malcheirosos em condi&ccedil;&otilde;es insalubres s&atilde;o institu&iacute;dos, monitorados e afastados de &aacute;reas espec&iacute;ficas (Henshaw, 2014).</p>     <p>Os maus odores passaram ent&atilde;o a demarcar territ&oacute;rios sociais, "um deslizamento t&aacute;tico j&aacute; se opera, do espa&ccedil;o p&uacute;blico para o espa&ccedil;o privado" (Corbin 1987:183), monitorando modos de comportamento, que dividiram o burgu&ecirc;s perfumado e o prolet&aacute;rio fedido. Em uma transfer&ecirc;ncia do vital para o social, os corpos, roupas, s&atilde;o impregnados das secre&ccedil;&otilde;es da mis&eacute;ria.</p>     <p>Outra quest&atilde;o desta revolu&ccedil;&atilde;o olfativa, descrita por Corbin (1987), foi o processo de desodoriza&ccedil;&atilde;o da sociedade, resultante do temor da cidade doente. As regras de higiene trouxeram implica&ccedil;&otilde;es morais, porque a busca por um corpo ass&eacute;ptico terminou por definir valores e disciplinar o prazer. Assim, "todas as categorias consideradas desprez&iacute;veis ou inferiores s&atilde;o desvalorizadas olfativamente" (Jaquet 2014: 75). Esta censura olfativa categorizou o sujo e o limpo, o f&eacute;tido e o perfumado, e construiu h&aacute;bitos, definiu atividades, organizou lugares. "Aqui operou-se uma liga&ccedil;&atilde;o direta entre os odores e a morte" (Corbin 1987: 80), da mesma maneira quando Teresa Margolles usa da permeabilidade e porosidade dos corpos para infiltrar os tra&ccedil;os das v&iacute;timas, que se tornam parte dos visitantes. Na obra "En el aire" (2002-2003), a invisibilidade social ganha a dimens&atilde;o fluida das bolhas de sab&atilde;o, mas tamb&eacute;m o peso da impossibilidade dos visitantes escaparem &agrave;s part&iacute;culas de &aacute;gua, oriundas da assepsia dos corpos nos necrot&eacute;rios. O desinfetar nega o escoamento da vida ao interromper o processo de putrefa&ccedil;&atilde;o, separando o mundo dos vivos dos mortos, ao mesmo tempo que homogeniza o ambiente pelo cheiro de limpeza. A desodoriza&ccedil;&atilde;o implica no controle/dom&iacute;nio dos fluxos, na regula&ccedil;&atilde;o das repulsas e aproxima&ccedil;&otilde;es, na institui&ccedil;&atilde;o da disciplina e do trabalho, condicionando efetivamente perman&ecirc;ncias e acessos &#8212; evocando a defini&ccedil;&atilde;o de um recorte do espa&ccedil;o social.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Conclus&atilde;o</b></p>     <p>Pensar a produ&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica como evid&ecirc;ncia da cultura, &eacute; mobilizar conceitos operadores, procedimentos, t&eacute;cnicas, evidenciando processos h&iacute;bridos entre campos de conhecimento (Rey, 2002). Neste sentido, Teresa Margolles atravessa limites entre arte e medicina forense para instalar, pela dimens&atilde;o da po&eacute;tica, atos de resist&ecirc;ncia; resgata sujeitos marginalizados e hist&oacute;rias esquecidas, expondo os mecanismos institucionalizados para escancarar as estruturas de controle e poder entre classes sociais.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A revolu&ccedil;&atilde;o olfativa (Corbin, 1987) implicou em um processo de higieniza&ccedil;&atilde;o da sociedade, que estruturou uma vis&atilde;o etnoc&ecirc;ntrica &#8212; modeliza&ccedil;&atilde;o de costumes e conven&ccedil;&otilde;es, a ser questionada por Teresa Margolles. A assepsia n&atilde;o implica na aus&ecirc;ncia de todo odor, necessariamente, mas, a substitui&ccedil;&atilde;o de um cheiro por outro, que apaga as diferen&ccedil;as perceptivas.</p>     <p>Assim, a artista usa o sentido do olfato para impregnar a presen&ccedil;a do outro, da v&iacute;tima, do marginal, do esquecido, no corpo dos visitantes, confrontando a impermeabilidade das fronteiras sociais para aproxim&aacute;-los indubitavelmente. O odor abole dist&acirc;ncias entre os corpos, "o odor em mim &eacute; a fus&atilde;o do corpo do outro em meu corpo" (Sartre apud Jaquet, 2014: 73), enquanto define um tra&ccedil;o, ainda que fugaz de certa intimidade. Teresa questiona assim a gest&atilde;o burguesa do sentido do olfato, que implica em um modelo perceptivo dependente do cheiro dito bom, em detrimento ao fedor, para justificar e at&eacute; refinar as divis&otilde;es das pr&aacute;ticas sociais. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Classen, Constance & Howes, David & Synnot, Anthony (1997) <i>Aroma</i>: the cultural history of the smell. London: Routledge. ISBN: 978-0-415-11472-1.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1464798&pid=S1647-6158201900010001000001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Corbin, Alain (1987). <i>Saberes e odores</i>: o olfato e o imagin&aacute;rio social nos s&eacute;culos XVIII e XIX. S&atilde;o Paulo: Companhia das Letras. ISBN: 85-85095-43-1.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1464800&pid=S1647-6158201900010001000002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Elias, Norbert (1993) <i>O processo civilizador</i>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. ISBN: 85.7110-257-0 (v.2).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1464802&pid=S1647-6158201900010001000003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Henshaw, Victoria (2014). <i>Urban smellscapes</i>: understanding and designing city smells environments. New York: Routledge. ISBN: 978-0-415-66203-1.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1464804&pid=S1647-6158201900010001000004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Jaquet, Chantal (2014). <i>Filosofia do odor</i>. Rio de Janeiro: Forense Universit&aacute;ria. ISBN: 978-85-309-3565-8.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1464806&pid=S1647-6158201900010001000005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>Rey, Sandra (2002). Por uma abordagem metodol&oacute;gica da pesquisa em artes visuais. In Brites, Blanca & Tessler, Elida (Org.) <i>O meio como ponto zero</i>: metodologia da pesquisa em artes pl&aacute;sticas. Porto Alegre: UFRGS. p.123140. ISBN: 978-85.7025-624-9.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1464808&pid=S1647-6158201900010001000006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Rocha, Susana (2017). "Pr&aacute;ticas art&iacute;sticas contra o esquecimento dos conflitos quotidianos na Am&eacute;rica Latina: Berna Reale, Teresa Margolles e Oscar Mu&ntilde;oz." <i>Cadernos de Arte e Antropologia</i>. e-ISSN 2238-0361. Vol. 5 (2): 19-30.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1464810&pid=S1647-6158201900010001000007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Silva, Claiton Marcio da (2012). "A hist&oacute;ria cultural: um di&aacute;logo entre Alain Corbin e Norbert Elias<i>.</i>" <i>F&ecirc;nix, Revista de Hist&oacute;ria e Estudos Culturais</i>. e-ISSN 1807-6971. Vol. 9 (1): 1-10.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1464812&pid=S1647-6158201900010001000008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Artigo completo submetido a 3 de janeiro de 2019 e aprovado a 21 de janeiro de 2019 </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:luisa.donati@puc-campinas.edu.br">luisa.donati@puc-campinas.edu.br</a> (Luisa Paraguai)</p>      ]]></body><back>
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