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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Carlos Alberto Negrini is a Brazilian performance artist who uses his declared homosexual identity to operate a suggestive militancy about gender - making the body a battlefield. The artist has designed disconcerting performances, full of scenic displays, with photographic way. Thus, he also conceived the series Madonnas - here in this study named Le Madonne. In the series, he seeks the partnership of trans women who served as models for the contemporary configuration of a classic theme.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS ORIGINAIS</b></p>     <p align="right"><b>ORIGINAL ARTICLES</b></p>     <p><i><b>Le Madonne</i> Trans de Carlos Alberto Negrini</b></p>     <p><b>Le <i>Madonne</i> Trans by Carlos Alberto Negrini</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Marcos Rizolli&#42;</b></p>     <p>&#42;Brasil, artista visual.</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade Presbiteriana Mackenzie; Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Educa&ccedil;&atilde;o, Arte e Hist&oacute;ria da Cultura; Grupo de Pesquisa Arte e Linguagens Contempor&acirc;neas. Rua da Consola&ccedil;&atilde;o, 896 &#8212; Pr&eacute;dio 25, S&atilde;o Paulo (SP), CEP 01302907, Brasil. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO:</b></p>     <p>Carlos Alberto Negrini &eacute; um artista perform&aacute;tico brasileiro que faz uso de sua declarada identidade homossexual para operar uma sugestiva milit&acirc;ncia sobre g&ecirc;nero &#8212; fazendo do corpo um campo de batalha. O artista tem concebido desconcertantes performances, plenas de aparatos c&ecirc;nicos, com vi&eacute;s fotogr&aacute;fico. Assim, concebeu tamb&eacute;m a s&eacute;rie Madonnas &#8212; aqui neste estudo nomeadas Le Madonne. Na s&eacute;rie, buscou a parceria de mulheres trans que lhe serviram como modelos para a configura&ccedil;&atilde;o contempor&acirc;nea de um tema cl&aacute;ssico.</p>     <p><b>Palavras chave: </b>corpo / performance / fotografia. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT: </b></p>     <p>Carlos Alberto Negrini is a Brazilian performance artist who uses his declared homosexual identity to operate a suggestive militancy about gender &#8212; making the body a battlefield. The artist has designed disconcerting performances, full of scenic displays, with photographic way. Thus, he also conceived the series Madonnas &#8212; here in this study named Le Madonne. In the series, he seeks the partnership of trans women who served as models for the contemporary configuration of a classic theme.</p>     <p><b>Keywords: </b>body / performance / photography.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>H&aacute; algo de transgressor na obra art&iacute;stica de Carlos Alberto Negrini!</p>     <p>Devidamente inserido no contexto das tem&aacute;ticas da arte contempor&acirc;nea o artista brasileiro, que vive e trabalha em S&atilde;o Paulo, sempre insistiu na converg&ecirc;ncia entre vida e arte: imprimindo, de forma indel&eacute;vel, sua declarada homossexualidade &#8212; transformada na presentifica&ccedil;&atilde;o de seu corpo pol&iacute;tico.</p>     <p>Artista multimedial &#8212; do desenho, da performance, do v&iacute;deo, da fotografia &#8212; integrou &agrave; sua pesquisa de mestrado em Educa&ccedil;&atilde;o, Arte e Hist&oacute;ria da Cultura, realizada na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em S&atilde;o Paulo, intitulada <i>Um corpo como campo de batalha: resist&ecirc;ncias contempor&acirc;neas</i>, um apreci&aacute;vel conjunto de fotografias: <i>As Madonnas</i> &#8212; que neste estudo cr&iacute;tico ser&atilde;o nomeadas <i>Le Madonne</i>.</p>     <p>Reivindico o termo original, em italiano, para reafirmar a percep&ccedil;&atilde;o de que o artista nos prop&otilde;e uma figuralidade pautada na cultura cl&aacute;ssica &#8212; notadamente, no Renascimento Figurativo que al&eacute;m de conferir excel&ecirc;ncia na representa&ccedil;&atilde;o das figuras da virgem e do menino perpetuou a maneira moderna de reconhecimento do tema.</p>     <p>Assim, <i>Le Madonne</i> de Carlos Alberto Negrini est&atilde;o expressivamente posicionadas para aqu&eacute;m e al&eacute;m dos t&atilde;o propagados multiefeitos da cultura <i>queer</i> &#8212; exemplificados nas obras de David LaChapelle ou nos textos de Judith Butler.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>1. Um corpo como campo de batalha</b></p>     <p>A transgress&atilde;o, ent&atilde;o, n&atilde;o est&aacute; no posicionamento do artista em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; sua milit&acirc;ncia gay. E, sim, na forma de enfrentamento que encontrou para anunciar suas vitais vicissitudes: primeiramente na fam&iacute;lia, diante da frusta&ccedil;&atilde;o materna/paterna, continuamente na sociedade, diante das alteridades preconceituosas e, por fim, na linguagem, para apresentar imagens fi&eacute;is &agrave; sua identidade.</p>     <p>Bem assim:</p>     <p>    ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote><i>A obra perform&aacute;tico-fotogr&aacute;fica de Carlos Negrini determina uma dimens&atilde;o autobiogr&aacute;fica ao revelar o corpo em suas m&uacute;ltiplas possibilidades, que assume um lugar de extrema densidade pol&iacute;tica, evidenciando quest&otilde;es para refletir a pr&oacute;pria exist&ecirc;ncia. Tendo como refer&ecirc;ncia o ambiente familiar como microcosmo criativo, explora as fronteiras entre sujeito e sociedade assumindo uma natureza expressiva que transita do &iacute;ntimo ao universal. Como consequ&ecirc;ncia de mem&oacute;rias da sua inf&acirc;ncia e do embate relacional com o mundo, emergem quest&otilde;es como pertencimento, rejei&ccedil;&atilde;o, amor, &oacute;dio, identidade e sexualidade &#8212; na delicada rela&ccedil;&atilde;o entre m&atilde;e e filho</i> (Mello; Rizolli; Stori, 2017:30)</blockquote></p>     <p>Ou ainda:</p>     <p>    <blockquote><i>Como confrontar o impasse de que o discurso que fundamenta o padr&atilde;o, o escolhe como certo e padronizado? Consequentemente, tudo o que foge a esse olhar esteriotipado deve ser escondido ou inviabilizado? As prov&aacute;veis respostas n&atilde;o s&atilde;o f&aacute;ceis, mas indubitavelmente geram novas quest&otilde;es que problematizam nossas formas de pensar, ver e estimular novos olhares a partir dos caminhos da alteridade e da arte</i> (Negrini, 2017:7).</blockquote></p>     <p>Ent&atilde;o o artista pensa o corpo como um campo de batalha, em suas a&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas e art&iacute;sticas &#8212; sempre perform&aacute;ticas.</p>     <p>Pois,</p>     <p>    <blockquote><i>a sexualidade, diz-se, &eacute; dram&aacute;tica porque engajamos nela toda a nossa vida pessoal. Mas justamente por que n&oacute;s o fazemos? Porque nosso corpo &eacute; para n&oacute;s o espelho de nosso ser, sen&atilde;o porque ele &eacute; um eu natural</i> (Merleau-Ponty, 2011:236).</blockquote></p>     <p>Contudo, partindo da m&aacute;xima de que <i>o problema do mundo, e, para come&ccedil;ar, o do pr&oacute;prio corpo, consiste no fato de que tudo reside ali</i> (Merleau-Ponty, op.cit.:268), o artista encontra outras formas de registro!</p>     <p>Ato cont&iacute;nuo, os registros videogr&aacute;ficos e/ou fotogr&aacute;ficos consequentes de suas performances sugerem novos encaminhamentos expressivos aptos a alcan&ccedil;ar autonomia tanto como proposi&ccedil;&atilde;o quanto como imagem (<a href="#f1">Figura 1</a>).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v10n25/10n25a11f1.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>A pot&ecirc;ncia perform&aacute;tica indicou ao artista a viabilidade de transferir sua energia vital &#8212; afinal, o artista &eacute; sempre o corpo-argumento protagonista de suas a&ccedil;&otilde;es &#8212; para outros corpos. Por alteridade, cedeu a autorref&ecirc;rencia para outros corpos-sujeitos.</p>     <p>O jogo simb&oacute;lico da transfer&ecirc;ncia, por assim dizer, dissipou a necessidade da a&ccedil;&atilde;o &#8212; devidamente substitu&iacute;da pelo processo fotogr&aacute;fico &#8212; compreendidas, aqui, as etapas de cria&ccedil;&atilde;o, pr&eacute; produ&ccedil;&atilde;o, ato fotogr&aacute;fico e p&oacute;s produ&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>A s&eacute;rie de fotografias <i>Le Madonne</i>, da Carlos Negrini, abre-se &agrave; novas batalhas corporais &#8212; entre a pintura de g&ecirc;nero (cl&aacute;ssica e tradicional) e o discurso de g&ecirc;nero (emergente e contempor&acirc;neo).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2. Le Madonne</b></p>     <p>O modelo tem&aacute;tico adotado &eacute; o nome dado &agrave; representa&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica da m&atilde;e imaculada, em iconografias da arte crist&atilde;. &Eacute; um tema tradicional, onde as obras representam a Virgem Maria com seu filho &#8212; Jesus. </p>     <p>Considerando a primeira representa&ccedil;&atilde;o da Virgem com o Menino ainda existente, que pode ser vista no mural da Catacumba de Priscila, em Roma, na qual Maria aparece sentada amamentando Jesus, que por sua vez inclina sua cabe&ccedil;a, parecendo olhar o observador, Carlos Negrini arrastou o tema &agrave; sua batalha &#8212; e, consequentemente, para a contemporaneidade (<a href="#f2">Figura 2</a>). </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v10n25/10n25a11f2.jpg"></a>     
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>N&atilde;o sem antes pesquisar a iconografia dos mosaicos, dos afrescos, dos ret&aacute;bulos, das enc&aacute;usticas, das telas &#8212; que constituiram suas refer&ecirc;ncias visuais e conceituais. Neste insterst&iacute;cio criativo, prevaleceu o afeto ao tema. Silenciou o emblem&aacute;tico de suas pr&oacute;prias quest&otilde;es para dar voz ao sublime!</p>     <p>Comprometido com sua artisticidade, concebeu e conduziu todos os passos procedimentais que constituiram a s&eacute;rie <i>Le Madonne</i>! Desde a identifica&ccedil;&atilde;o de mulheres trans que se prontificaram a posar como modelos e se dispuseram ao elaborado tempo de caracteriza&ccedil;&atilde;o &#8212; nos &iacute;nterins de maquiagem, figurino, cenografia, ilumina&ccedil;&atilde;o, composi&ccedil;&atilde;o postural &#8212; e produ&ccedil;&atilde;o fotogr&aacute;fica (<a href="#f3">Figura 3</a>). Assim, a iconicidade do tema reconhece diferentes t&eacute;cnicas, diversificados estilos, m&uacute;ltiplas composi&ccedil;&otilde;es. Elementos que irrigaram o processo criativo do artista.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v10n25/10n25a11f3.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Carlos Negrini se apropria da cultura das conven&ccedil;&otilde;es do tema da <i>Madonna e Bambino</i> para inventivamente configurar a s&eacute;rie <i>Le Madonne.</i></p>     <p>A &iacute;ndole expressiva adotada &eacute; lac&ocirc;nica. N&atilde;o mais uma mulher santa, virgem! Agora, mulheres trans &#8212; que conservam, por determina&ccedil;&otilde;es pr&oacute;prias, seus genitais masculinos. N&atilde;o mais um menino santo, salvador! Aqui, um boneco negro de brinquedo &#8212; que por sua materialidade inanimada torna-se uma exist&ecirc;ncia falseada.</p>     <p>Como, talvez, pudesse pensar:</p>     <p>    <blockquote><i>Se o car&aacute;ter imut&aacute;vel do sexo &eacute; contestado, talvez esse construto chamado "sexo" seja t&atilde;o culturalmente constru&iacute;do quanto o g&ecirc;nero; de fato, talvez j&aacute; tenha sido sempre g&ecirc;nero, com a consequ&ecirc;ncia de que a distin&ccedil;&atilde;o entre sexo e g&ecirc;nero n&atilde;o &eacute;, de modo algum, uma distin&ccedil;&atilde;o</i> (Butler, 1990:ii).</blockquote></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Contudo, o artista mant&eacute;m as concep&ccedil;&otilde;es da maneira moderna de representa&ccedil;&atilde;o do tema: <i>Le Madonne</i> trans, ao tempo que transgridem, insistem no coroamento ou entronamento da virgem, enaltecendo o seu santo sentimento de piedade. E, assim como as pinturas cl&aacute;ssicas, recolhem o filho ao colo &#8212; em m&uacute;tua venera&ccedil;&atilde;o (Fgura 4).</p>     <p><i>Le Madonne</i>, contrariando aquilo que em origem aconteceu com o artista na rela&ccedil;&atilde;o m&atilde;e-filho, aceitam o filho! Mesmo que ele seja exc&ecirc;ntrico ao mundo das normas sociais. <i>Le Madonne</i> de Carlos Negrini est&atilde;o dispostas &agrave; uma devo&ccedil;&atilde;o pessoal, em ambi&ecirc;ncia particular. Tornam-se, em t&aacute;cito significado, &iacute;cones devocionais privados.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>3. Procedimentos e semioses</b></p>     <p><i>Le Madonne</i> &eacute; uma proposta de <i>work in progress</i>. Uma experi&ecirc;ncia criativa que exigiu, da g&ecirc;nese criativa &agrave; pesquisa acad&ecirc;mica, a constru&ccedil;&atilde;o de um territ&oacute;rio referencial. A saber:</p>     <p>    <blockquote><i>A partir do estudo de aproximadamente mil obras de Madonnas de diversos pintores, pesquisas em</i> sites <i>de museus do mundo todo e principalmente da It&aacute;lia, foram selecionadas dezenove pinturas e uma gravura</i> &#91;&#8230;&#93;<i> sendo os fatores de sele&ccedil;&atilde;o a composi&ccedil;&atilde;o, gestualidade, ilumina&ccedil;&atilde;o da cena, vestimentas e o di&aacute;logo direto e indireto com a proposta do trabalho</i> (Negrini, 2017: 48).</blockquote></p>     <p>Ao elaborar a s&eacute;rie fotogr&aacute;fica, as mulheres trans retratadas (Amanda Marfree e Brenda Oliver) n&atilde;o s&atilde;o os sujeitos que fingir&atilde;o ser outros, em pose para a foto, mas o pr&oacute;prio artista-fot&oacute;grafo que age no corpo-cen&aacute;rio do referente, dissimulando-o (<a href="#f4">Figura 4</a>, <a href="#f5">Figura 5</a>).</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f4"><img src="/img/revistas/est/v10n25/10n25a11f4.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <a name="f5"><img src="/img/revistas/est/v10n25/10n25a11f5.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Carlos Negrini acredita que a fotografia nos revela tanto sobre o ponto de vista de quem fotografa quanto acerca do objeto a ser fotografado. E considera que o fot&oacute;grafo deva ser um sujeito &uacute;nico &#8212; que traz sua vis&atilde;o de um mundo particular e inteiramente diferente.</p>     <p>Na s&eacute;rie <i>Le Madonne</i> a fotografia n&atilde;o se limita apenas &agrave; tomada da imagens advindas do instante fotogr&aacute;fico: os instantes de pr&eacute; e p&oacute;s produ&ccedil;&atilde;os&atilde;o elevados &agrave; extrema pot&ecirc;ncia procedimental.</p>     <p>O arco criativo-produtivo compreendeu todas as etapas de configura&ccedil;&atilde;o das cenas. Na dimens&atilde;o inanimada: defini&ccedil;&atilde;o dos cen&aacute;rios; escolha das indument&aacute;rias; prepara&ccedil;&atilde;o dos adere&ccedil;os; qualifica&ccedil;&atilde;o da luz. Na dimens&atilde;o animada: a maquiagem; as posturas; os gestos; as express&otilde;es faciais &#8212; e o boneco. Tudo, para construir uma realidade e criar o momento &uacute;nico e ilus&oacute;rio de capta&ccedil;&atilde;o da imagem. Tudo, para trazer para dentro da cena uma travesti ou uma transexual feminina elevada ao m&aacute;ximo significado santo &#8212; mantendo a iconografia crist&atilde;. Imagens que representam um imagin&aacute;rio ut&oacute;pico, na ascens&atilde;o de corpos (e sujeitos) deslocados da completa repulsa e marginalidade imposta pela sociedade para o <i>status</i> de respeito e m&eacute;rito, por suas lutas pela exist&ecirc;ncia, visibilidade e liberdade de express&atilde;o. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Conclus&atilde;o</b></p>     <p>O depoimento autorreferente subjaz a s&eacute;rie <i>Le Madonne</i>, dando oportunidade para o fluir de mem&oacute;rias e subjetividades. A s&eacute;rie, ao produzir marcas de identifica&ccedil;&atilde;o e reinven&ccedil;&otilde;es art&iacute;sticas, rompeu fronteiras entre sujeitos e sociedade e assumiu uma natureza expressiva que transita do &iacute;ntimo para o universal.</p>     <p>Hoje, Carlos Alberto Negrini vive uma est&aacute;vel rela&ccedil;&atilde;o homoafetiva e &eacute; pai adotivo de uma ador&aacute;vel menina. Portanto, psico e socialmente autorizado &agrave; trangress&atilde;o de padr&otilde;es &#8212; comportamentais e art&iacute;sticos.</p>     <p>Considero, ainda, importante informar que a Disserta&ccedil;&atilde;o de Mestrado defendida no PPG-EAHC/UPM foi por mim orientada. No contexto da Linha de Pesquisa Linguagens e Tecnologias, referida disserta&ccedil;&atilde;o investiu na &aacute;rea de pesquisa em artes, no campo dos processos e procedimentos art&iacute;sticos &#8212; tornando-se, desde ent&atilde;o, refer&ecirc;ncia metodol&oacute;gica para outros pesquisadores. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Butler, Judith (1990) <i>Gender Trouble: feminism and the subversion of identity</i>. London: Routledge. ISBN 0-415-38955-0&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1464915&pid=S1647-6158201900010001100001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Mello, Regina Lara Silveira; Rizolli, Marcos; Stori, Norberto (Orgs.) (2017) <i>Arte e Linguagens Contempor&acirc;neas</i>. S&atilde;o Paulo: Uva Lim&atilde;o. ISBN: 978-85-93072-08-6&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1464916&pid=S1647-6158201900010001100002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Merleau-Ponty (2011<i>) Fenomenologia da Percep&ccedil;&atilde;o</i>. S&atilde;o Paulo: WMF Martins Fontes. ISBN 978-85-78271-16-9&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1464917&pid=S1647-6158201900010001100003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Negrini, Carlos Alberto (2017) <i>Um corpo como campo de batalha: resist&ecirc;ncias contempor&acirc;neas</i>. Disserta&ccedil;&atilde;o de Mestrado. S&atilde;o Paulo: Programa de P&oacute;sGradua&ccedil;&atilde;o em Educa&ccedil;&atilde;o, Arte e Hist&oacute;ria da Cultura &#8212; Universidade Presbiteriana Mackenzie.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1464918&pid=S1647-6158201900010001100004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Artigo completo submetido a 03 de janeiro de 2019 e aprovado a 21 janeiro de 2019 </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:marcos.rizolli@mackenzie.br">marcos.rizolli@mackenzie.br</a> (Marcos Rizolli)</p>      ]]></body><back>
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