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<publisher-name><![CDATA[Universidade de LisboaFaculdade de Belas-Artes]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Memórias de uma mente com lembranças: o imaginário doméstico no trabalho de Rick Rodrigues]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Memories of a mind with memories: the domestic imagination in the Rick Rodrigues's work]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade Federal do Rio Grande do Sul Instituto de Artes Visuais ]]></institution>
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<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1647-61582019000100017&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S1647-61582019000100017&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S1647-61582019000100017&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><abstract abstract-type="short" xml:lang="pt"><p><![CDATA[Pretendo investigar neste artigo como se apresenta o imaginário do universo da casa e do lar, no trabalho artístico de Rick Rodrigues (João Neiva/ES, 1988). Ainda, por que vias e linguagens ele se aproxima e como dá conta desse espaço doméstico real e sonhado artisticamente, relacionandoos com as divagações sobre a casa e lar do filósofo Gaston Bachelard, do arquiteto finlandês Juhani Pallasmaa e do psicanalista alemão Sigmund Freud.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[I intend investigate in this article how the imaginary of the universe of the house and the home is presented in the Rick Rodrigues's artistic work(João Neiva / ES, 1988). Yet, by what pathways and languages does he approach and how does he account for this real and artistically dreamed domestic space, relating them to the ramblings about the house and home of the philosopher Gaston Bachelard, the finnish architect Juhani Pallasmaa and the german psychoanalyst Sigmund Freud.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS ORIGINAIS</b></p>     <p align="right"><b>ORIGINAL ARTICLES</b></p>     <p><b>Mem&oacute;rias de uma mente com lembran&ccedil;as: o imagin&aacute;rio dom&eacute;stico no trabalho de Rick Rodrigues</b></p>     <p><b>Memories of a mind with memories: the domestic imagination in the Rick Rodrigues's work</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Luciane Silva Bucksdricker&#42;</b></p>     <p>&#42;Brasil, artista visual.</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Instituto de Artes Visuais, Programa de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o em artes visuais. Rua Senhor dos Passos, 248 &#8212; Pr&eacute;dio anexo, 5 andar, Centro, Porto Alegre/RS, CEP: 90020180, Brasil. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO:</b></p>     <p>Pretendo investigar neste artigo como se apresenta o imagin&aacute;rio do universo da casa e do lar, no trabalho art&iacute;stico de Rick Rodrigues (Jo&atilde;o Neiva/ES, 1988). Ainda, por que vias e linguagens ele se aproxima e como d&aacute; conta desse espa&ccedil;o dom&eacute;stico real e sonhado artisticamente, relacionandoos com as divaga&ccedil;&otilde;es sobre a casa e lar do fil&oacute;sofo Gaston Bachelard, do arquiteto finland&ecirc;s Juhani Pallasmaa e do psicanalista alem&atilde;o Sigmund Freud.</p>     <p><b>Palavras chave: </b>casa / lar / devaneio / mem&oacute;ria / fic&ccedil;&atilde;o. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT: </b></p>     <p>I intend investigate in this article how the imaginary of the universe of the house and the home is presented in the Rick Rodrigues's artistic work(Jo&atilde;o Neiva / ES, 1988). Yet, by what pathways and languages does he approach and how does he account for this real and artistically dreamed domestic space, relating them to the ramblings about the house and home of the philosopher Gaston Bachelard, the finnish architect Juhani Pallasmaa and the german psychoanalyst Sigmund Freud.</p>     <p><b>Keywords: </b>house / home / daydream / memory / fiction.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A casa e sua ideia de lar tem sido temas recorrentes em representa&ccedil;&otilde;es visuais no final do s&eacute;culo XX e in&iacute;cio do s&eacute;culo XXI. S&atilde;o trabalhos ricos em clich&ecirc;s culturais e significados contradit&oacute;rios, mas que demonstram a universalidade do assunto e sua contemporaneidade. Afinal, todos habitamos de alguma maneira uma casa, ou parte dela, independentemente de nossa classe social, g&ecirc;nero, ra&ccedil;a ou localidade geogr&aacute;fica.</p>     <p>Rick Rodrigues (Jo&atilde;o Neiva/ES, 1988) &eacute; um jovem artista contempor&acirc;neo que vem se destacando atualmente no sistema de arte brasileiro. Graduado em artes visuais pela Universidade Federal do Esp&iacute;rito Santo &#8212; UFES, cursa o mestrado na mesma institui&ccedil;&atilde;o, focando seu trabalho no universo da casa e nas mem&oacute;rias da inf&acirc;ncia, traduzindo-as em uma produ&ccedil;&atilde;o que atua no territ&oacute;rio do sens&iacute;vel e do delicado atrav&eacute;s de linguagens como o desenho, o bordado e a instala&ccedil;&atilde;o. Rodrigues trabalha dentro da sua pr&oacute;pria casa e a partir dela, naquilo que ele denomina de "quart&ecirc;lie", o quarto antigo de seu irm&atilde;o mais velho, que por acaso, tamb&eacute;m foi quem lhe deu as primeiras li&ccedil;&otilde;es de bordado a partir de costuras em celas de cavalo. Dentro deste espa&ccedil;o lembran&ccedil;as e trabalhos em processo misturam-se em um devaneio pr&oacute;prio do artista, que vai construindo pequenas hist&oacute;rias po&eacute;ticas, aliando autobiografia com fic&ccedil;&atilde;o. O artista parte do privado para discutir o universal, tentando achar pontos que se entrela&ccedil;am e se sobrep&otilde;em em todos os lugares: quest&otilde;es de afetividade e mem&oacute;ria. Atrav&eacute;s das lembran&ccedil;as das casas do passado e de mem&oacute;rias familiares, o artista capixaba transforma o intang&iacute;vel em material art&iacute;stico. A casa &eacute; o amplo territ&oacute;rio discursivo onde Rodrigues devaneia de maneira particular. Os seus c&ocirc;modos est&atilde;o interligados um ao outro por pensamentos e lembran&ccedil;as e oferecem ao artista uma topografia de seu ser mais &iacute;ntimo, mesclando mem&oacute;ria, sonho e fic&ccedil;&atilde;o. A casa e o lar e a forma de habitar &eacute; o fio condutor que percorre e interliga todos os trabalhos de Rick produzidos at&eacute; hoje.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>1. Casa: ref&uacute;gio e cela</b></p>     <p>"O ato de habitar &eacute; o modo b&aacute;sico de algu&eacute;m se relacionar com o mundo", afirma o arquiteto finland&ecirc;s Juhani Pallasmaa. Se habitar causa um impacto do sujeito no ambiente e vice-versa, poder&iacute;amos atrav&eacute;s da an&aacute;lise dos h&aacute;bitos de algu&eacute;m, em um determinado lugar, identificar essa pessoa. Seus gostos, seu temperamento, suas prefer&ecirc;ncias. O ambiente seria como um decalque desse sujeito, o mais &iacute;ntimo que se poderia chegar de uma pessoa sem o uso da palavra. O ambiente onde uma pessoa vive torna-se uma extens&atilde;o dela, tanto f&iacute;sica como mental. Os corpos residem em uma casa para prote&ccedil;&atilde;o, intimidade, mas, tamb&eacute;m, l&aacute; domicilia-se nossa mente com seus desejos, sonhos, medos e segredos. A casa na po&eacute;tica de Rick Rodrigues prop&otilde;e, entre tantas discuss&otilde;es, pensar sobre as fronteiras entre o p&uacute;blico e o privado, a tens&atilde;o do dentro e de fora, o eu e o outro. A casa como casca do lar e do ateli&ecirc;, &eacute; um lugar onde o artista realiza os diversos gestos e a&ccedil;&otilde;es, &iacute;ntimos e secretos, repetitiva e minuciosamente, e vivencia as mais diversas e poss&iacute;veis identidades (Pallasmaa, 2017)."O lar <i>&eacute;</i> uma encena&ccedil;&atilde;o da mem&oacute;ria pessoal, um mediador complexo entre a intimidade e a vida p&uacute;blica."</p>     <p>A casa &eacute; ref&uacute;gio e cela ao mesmo tempo. O entrela&ccedil;amento quarto/ateli&ecirc; reflete na produ&ccedil;&atilde;o de Rodrigues. Al&eacute;m de trabalhar na casa e sobre a casa, o uso dos materiais tamb&eacute;m prov&eacute;m do mesmo lugar. Len&ccedil;os, brinquedos de inf&acirc;ncia, objetos h&aacute; muito guardados. O corpo-casa do artista se engrandece e se confunde entre arte e vida. O processo de cria&ccedil;&atilde;o acontece tamb&eacute;m na contamina&ccedil;&atilde;o de materiais e linguagens, na mistura da brincadeira de crian&ccedil;a com a arte e nas mem&oacute;rias reais com as mem&oacute;rias inventadas. O trabalho de Rick &eacute; proposto a partir da mistura de arquivos e mem&oacute;rias que habitam h&aacute; muito o seu corpo-casa. O artista faz uso de diversas linguagens para cercar a casa pelos mais diversos &acirc;ngulos, entre elas o desenho, a serigrafia, o bordado e as instala&ccedil;&otilde;es que incorporam miniaturas de partes da casa (como camas, cadeiras e escadas) &agrave; outras linguagens tradicionais.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2. Tudo que n&atilde;o invento &eacute; falso</b></p>     <p>Na exposi&ccedil;&atilde;o <i>Tudo que n&atilde;o invento &eacute; falso</i> de 2016 (<a href="#f1">Figura 1</a>), Rodrigues apresenta algumas s&eacute;ries de trabalhos que tem o mesmo nome. Composta por desenhos em grafite vermelho e azul, objetos miniaturas em madeira e uma s&eacute;rie de bordados, ele apresenta uma instala&ccedil;&atilde;o que permeia todo o universo dom&eacute;stico. O nome da mostra j&aacute; denota o entrela&ccedil;amento entre os documentos da &eacute;poca de inf&acirc;ncia e a mem&oacute;ria inventada que preenche as lacunas daquilo que n&atilde;o se tem registrado. O lugar entre a confiss&atilde;o e a fic&ccedil;&atilde;o aparece como um terreno f&eacute;rtil para a pr&aacute;tica art&iacute;stica.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v10n25/10n25a17f1.jpg"></a>     
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>Uma escada em miniatura, longa e estreita, e que muitas vezes n&atilde;o chega a lugar nenhum. Ou que se atravessa por lugares imposs&iacute;veis como ponte para lugares secretos. Uma cama de molas perfeitamente veross&iacute;mil mas em tamanho diminuto e disposta sobre um fofo travesseiro (<a href="#f2">Figura 2</a>). Casas de p&aacute;ssaros min&uacute;sculas dividindo espa&ccedil;o com meninos e meninas desenhados e bordados, tendo como caracter&iacute;stica rostos escondidos por flores ou por casas. As instala&ccedil;&otilde;es de Rick Rodrigues mexem com o imagin&aacute;rio infantil e requerem constantemente que se traga nossa pr&oacute;pria bagagem interna para dialogar com que &eacute; proposto. Essa rela&ccedil;&atilde;o entre a contempla&ccedil;&atilde;o do trabalho em um determinado espa&ccedil;o, durante um tempo, por um espectador, assinala o que podemos chamar de instala&ccedil;&atilde;o. Segundo Elaine Tedesco (2004), "em uma instala&ccedil;&atilde;o o artista implica simultaneamente sua proposta e o lugar onde se situa; depois, com a dura&ccedil;&atilde;o um determinado local &eacute; temporariamente transformado. Al&eacute;m disso, um espectador precisa ser acionado para que o c&iacute;rculo de rela&ccedil;&otilde;es se forme".</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v10n25/10n25a17f2.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>A escada &eacute; um elemento de liga&ccedil;&atilde;o para aquilo que voc&ecirc; n&atilde;o alcan&ccedil;a. As escadas usadas de maneira diversificadas por Rodrigues levam a alcan&ccedil;ar pensamentos e mem&oacute;rias que n&atilde;o s&atilde;o de f&aacute;cil acesso, outras vezes parecem pontes para lugares insabidos ou passagens para esconderijos que d&atilde;o prote&ccedil;&atilde;o. As escadas interligam os trabalhos de toda a exposi&ccedil;&atilde;o, funcionando ora como sugest&atilde;o, ora como possibilidades (<a href="#f3">Figura 3</a> e <a href="#f4">Figura 4</a>).</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v10n25/10n25a17f3.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f4"><img src="/img/revistas/est/v10n25/10n25a17f4.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>J&aacute; na s&eacute;rie de trabalhos em desenho em que o artista usa a figura humana tendo a cabe&ccedil;a substitu&iacute;da por uma casa ou um corpo gigante que habita uma casa miniatura (<a href="#f5">Figura 5</a> e <a href="#f6">Figura 6</a>) observa-se o pensamento sobre o vi&eacute;s de uma constru&ccedil;&atilde;o de um mapa interno, de um universo dom&eacute;stico pr&oacute;prio. O corpo e a casa criam juntos um itiner&aacute;rio de lar. Um habitar que vai acontecendo a partir e atrav&eacute;s de uma viagem dom&eacute;stica, remapeando ele mesmo as diferentes no&ccedil;&otilde;es do que seria a sua pr&oacute;pria no&ccedil;&atilde;o de lar.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <a name="f5"><img src="/img/revistas/est/v10n25/10n25a17f5.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f6"><img src="/img/revistas/est/v10n25/10n25a17f6.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>3. Que casa &eacute; essa que se habita?</b></p>     <p>No romance <i>O m&aacute;gico de Oz</i> de 1900 de L. Frank Baum, Dorothy Gale, uma menina &oacute;rf&atilde; de doze anos, vive com seus tios em uma fazenda no Kansas (EUA) e sonha com um lugar melhor. Ap&oacute;s ser golpeada na cabe&ccedil;a e perder os sentidos, no momento em que um ciclone levanta sua casa para o c&eacute;u, ela e seu c&atilde;o Tot&oacute; acordam na terra m&aacute;gica de Oz. Ap&oacute;s muitas aventuras pelo mundo de Oz; uma estrada de tijolos amarelos, bruxas boas e m&aacute;s, novos amigos e descobertas, Dorothy consegue voltar para casa. Confusa e febril, a personagem profere na cena final do filme, sentada em sua cama e ao lado de sua fam&iacute;lia, a cl&aacute;ssica frase: "N&atilde;o h&aacute; lugar como nosso lar." Quando Dorothy acorda falando sobre Oz, sua tia Em tenta acalm&aacute;-la dizendo que tudo foi apenas um pesadelo e que ela est&aacute; segura em casa, mas Dorothy acredita que havia algo "estranhamente familiar" em Oz, ela realmente parecia um "lugar". Sua aventura come&ccedil;a e termina em sua casa, mas o fant&aacute;stico mundo de Oz faz com que a personagem repense suas ideias sobre a ess&ecirc;ncia do lugar e do lar. Qual seria a diferen&ccedil;a entre "casa" e "lar" e o que seria este estranho naquilo que parece t&atilde;o familiar? Em portugu&ecirc;s, assim como em v&aacute;rias outras l&iacute;nguas, temos duas palavras para designar diferentes facetas do ato de morar. A casa seria a estrutura arquitet&ocirc;nica criada para abrigo e prote&ccedil;&atilde;o onde desenvolvemos atividades dom&eacute;sticas, enquanto que o ato de habitar transforma esta casca sem significado em algo especial, o lar. Este, daria a no&ccedil;&atilde;o de pertencimento e seria constru&iacute;do na nossa mente, &eacute; um local de celebra&ccedil;&atilde;o e luto, sonhos, pesadelos e ins&ocirc;nia. Ele est&aacute; ligado a mem&oacute;rias e desejos pessoais. A busca pelo lar come&ccedil;aria ainda no &uacute;tero da m&atilde;e e terminaria apenas local da morte, em um desejo nunca preenchido. A busca do lar seria o pr&oacute;prio caminho da vida, segundo David Lichtenstein, psicanalista lacaniano, que afirma no artigo <i>Born in exile: theres no place like home</i> de 2009 que "O lar &eacute; uma ilus&atilde;o de inteireza."</p>     <p>Na trajet&oacute;ria artistica e po&eacute;tica de Rick Rodrigues, a partir da pequena cidade de Jo&atilde;o Neiva, assim como na aventura de Dorothy Gale em Oz, consegue-se co-participar do devaneio e compartilhar com eles essa busca pelo o que poder&iacute;amos denominar "constru&ccedil;&atilde;o da sua pr&oacute;pria ideia de lar". Habitar uma casa, isto &eacute;, torn&aacute;-la pessoal, envolv&ecirc;-la com objetos pr&oacute;prios, rituais pessoais, secretar o pr&oacute;prio cheio, sentindo-se em casa, fazer dela um lar, produz seres com ra&iacute;zes que possuem hist&oacute;ria: passado, presente e futuro. Um homem que n&atilde;o habita vive em uma eterna solid&atilde;o do tempo presente. Quando se habita uma casa, ela se torna extens&atilde;o do corpo. Nela se reconhece e se molda a pr&oacute;pria identidade. E essa constru&ccedil;&atilde;o de lar pode levar muito tempo ou surgir a partir de um ciclone que tira do ch&atilde;o para devolver tudo em forma de clareza logo mais. Os desenhos de Rodrigues muitas vezes podem parecer <i>nonsense</i> como as ideias no romance de Baum, mas &eacute; com esse rico imagin&aacute;rio po&eacute;tico que uma casa deve ser povoada para transformar-se em lar. "De fato, em nossas casas temos cantos e redutos onde gostar&iacute;amos de nos aninhar confortavelmente. Aninhar-se pertence &agrave; fenomenologia do verbo habitar, e apenas aqueles que aprendem a faz&ecirc;-lo conseguem habitar com intensidade. " (Bachelard, 2010:30)</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>4. Quando o familiar se torna estranho</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Mas, assim como o lar &eacute; refer&ecirc;ncia de seguran&ccedil;a e companheirismo, tamb&eacute;m &eacute; local de atos violentos, de mem&oacute;rias reprimidas e de solid&atilde;o. A casa estrutura a maneira como se vive, e &eacute; estruturada pelas normas da sociedade e do tempo em que se vive. Pode-se ent&atilde;o, considerar o lar como um duplo, entrela&ccedil;ado entre o sonho e o pesadelo.</p>     <p>O texto <i>O Estranho (Unheimlich),</i> escrito em 1919 por Freud, come&ccedil;a com o psicanalista apresentando os diversos significados e, &agrave;s vezes, as contradi&ccedil;&otilde;es contidas nos significados das palavras <i>unheimliche</i> (estranho) e <i>heimliche</i> (dom&eacute;stico/oculto). Aproveitando-se da ambiguidade na l&iacute;ngua alem&atilde; nos significados dessas palavras, Freud consegue explicar o que seria o "estranho no familiar", no conhecido. Isto &eacute;, o fen&ocirc;meno do estranho estaria no momento em que as coisas familiares de repente mostram-se desconfortavelmente desfamiliares, perturbadoramente estranhas. Quando surge aquela d&uacute;vida entre o que &eacute; familiar e o que &eacute; intruso. O estranho &eacute; ao mesmo tempo caseiro e n&atilde;o-dom&eacute;stico, &eacute; uma experi&ecirc;ncia familiar que esconde uma situa&ccedil;&atilde;o desconhecida como a sensa&ccedil;&atilde;o que Dorothhy Gale sentiu ap&oacute;s voltar de sua aventura pela m&aacute;gica terra de Oz, ou o desconforto conhecido, que repousa entre o sonho e o pesadelo, que se sente ao olhar algumas pe&ccedil;as e desenhos de Rick Rodrigues; a miniatura de cama que repousa na parede a 2 metros de altura com uma escada vertiginosa a qual que n&atilde;o se sabe ser poss&iacute;vel subir at&eacute; ela (<a href="#f7">Figura 7</a>) ou seja pelos lindos e delicados bordados em len&ccedil;os que nos mostram personagens sempre com o rosto tapado por flores, como em um pesadelo que nunca se descobre o rosto da pessoa que persegue (<a href="#f8">Figura 8</a> e <a href="#f9">Figura 9</a>).</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f7"><img src="/img/revistas/est/v10n25/10n25a17f7.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f8"><img src="/img/revistas/est/v10n25/10n25a17f8.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f9"><img src="/img/revistas/est/v10n25/10n25a17f9.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>No estranho est&aacute; contido o retorno. O estranho &eacute; algo que retorna, algo que se repete, mas que, ao mesmo tempo, se apresenta como diferente, ele relaciona-se com o sobrenatural, com algo de fant&aacute;stico que surge de dentro da realidade familiar e que ocasiona o sinistro. O estranho surge do reprimido. Revelar o reprimido de uma casa seria revelar o oculto, as entranhas e os segredos do seu corpo. E cada casa tem os seus pr&oacute;prios segredos.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Conclus&atilde;o</b></p>     <p>O lar &eacute; uma constru&ccedil;&atilde;o social afetiva, uma maneira de habitar uma casa e de criar uma forma&ccedil;&atilde;o identit&aacute;ria. Assim como a arquitetura da casa se modifica com as mudan&ccedil;as sociais e o passar do tempo, a forma&ccedil;&atilde;o de lar tamb&eacute;m se altera atrav&eacute;s do tempo, das culturas, ra&ccedil;as e g&ecirc;neros. "Um lar aut&ecirc;ntico tem alma, uma alma que espera seu habitante" nos resumo poeticamente Pallasmaa (2017:22) sobre a ideia de uma constru&ccedil;&atilde;o de lar pessoal.</p>     <p>A partir de seu imagin&aacute;rio po&eacute;tico Rick Rodrigues traduz em suas produ&ccedil;&otilde;es art&iacute;sticas sua pr&oacute;pria ideia de lar, por vezes parecendo provindas de doces sonhos e outras tantas parecendo chegadas de devaneios perturbadores, onde realidade e mundo on&iacute;rico se misturam. Diante da produ&ccedil;&atilde;o desse artista o observador reencontra-se com suas mem&oacute;rias de inf&acirc;ncia e p&otilde;e em cheque o como e quanto habita em si mesmo.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Bachelard, Gaston (2001). <i>A po&eacute;tica do espa&ccedil;o</i>. Tradu&ccedil;&atilde;o Antonio de P&aacute;dua Danesi. S&atilde;o Paulo: Martins Fontes, 2001. ISBN 978-85-336-2419-1.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1465460&pid=S1647-6158201900010001700001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Baum, L. Frank (2013). O M&aacute;gico de Oz. Rio de Janeiro: Zahar. ISBN 978-85-3780966-2.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1465462&pid=S1647-6158201900010001700002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Freud, Sigmund. (1919) <i>O estranho</i>. &#91;Consult. 2018-08-15&#93; Dispon&iacute;vel em URL: <a href="http://conexoesclinicas.com.br/wpcontent/uploads/2015/01/freud-sigmund-obrascompletas-imago-vol-17-1917-1918.pdf" target="_blank">http://conexoesclinicas.com.br/wpcontent/uploads/2015/01/freud-sigmund-obrascompletas-imago-vol-17-1917-1918.pdf</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1465464&pid=S1647-6158201900010001700003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Lichtenstein, David. (2009) "Born in exile: There is no place like home." <i>Psychoanalytic Psychology, vol 26</i>,451-458. &#91;Consult 2018/08/15&#93; Dispon&iacute;vel em URL: <a href="http://psycnet.apa.org/record/2009-22330-008" target="_blank">http://psycnet.apa.org/record/2009-22330-008</a>.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1465465&pid=S1647-6158201900010001700004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Pallasmaa, Juhani<i>.(2017) Habitar</i>. S&atilde;o Paulo: Gustavo Gili. ISBN 9788584520947&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1465467&pid=S1647-6158201900010001700005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Rodrigues, Rick (s/d). Site do artista. &#91;Consult 2018-11-23&#93; Dispon&iacute;vel em URL: <a href="https://www.rickrodrigues.com/" target="_blank">https://www.rickrodrigues.com/</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1465468&pid=S1647-6158201900010001700006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Tedesco, Elaine Athayde Alves. (2004) Instala&ccedil;&atilde;o: campo de rela&ccedil;&otilde;es. &#91;Consult 2017-12-26&#93; Dispon&iacute;vel em URL: <a href="http://www.comum.com/elainetedesco/pdfs/instalacao.pdf" target="_blank">http://www.comum.com/elainetedesco/pdfs/instalacao.pdf</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1465469&pid=S1647-6158201900010001700007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Artigo completo submetido a 03 de janeiro de 2019 e aprovado a 21 janeiro de 2019 </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:luciane.dricker@gmail.com">luciane.dricker@gmail.com</a> (Luciane Silva Bucksdricker)</p>      ]]></body><back>
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