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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[As paisagens de Thiana Sehn: experiência, distâncias e deslocamentos]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article aims to analyze some aspects of the painting of the young Brazilian artist Thiana Sehn. In recent years, the artist has developed an intense research on the landscape genre and the experience of painting directly in front of the subject in the field. For that, the concept of experience used by phenomenology and the studies of Javier Maderuelo on the notion of landscape will be fundamental.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS ORIGINAIS</b></p>     <p align="right"><b>ORIGINAL ARTICLES</b></p>     <p><b>As paisagens de Thiana Sehn: experi&ecirc;ncia, dist&acirc;ncias e deslocamentos</b></p>     <p><b>The landscapes of Thiana Sehn: experience, distances and displacements</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Marilice Corona&#42;</b></p>     <p>&#42;Brasil, artista visual, professor.</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Artes Visuais (PPGAV). Rua Senhor dos Passos, 246, CEP 90000-000, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO: </b></p>     <p>Este artigo tem como objetivo analisar alguns aspectos da pintura da jovem artista brasileira Thiana Sehn. A artista desenvolveu, nos &uacute;ltimos anos, uma intensa investiga&ccedil;&atilde;o sobre o g&ecirc;nero da paisagem e a experi&ecirc;ncia da pintura diretamente diante do motivo, no campo. Para tanto, o conceito de experi&ecirc;ncia empregado pela fenomenologia e os estudos de Javier Maderuelo sobre a no&ccedil;&atilde;o de paisagem ser&atilde;o fundamentais.</p>     <p><b>Palavras chave: </b>pintura / paisagem / experi&ecirc;ncia.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT: </b></p>     <p>This article aims to analyze some aspects of the painting of the young Brazilian artist Thiana Sehn. In recent years, the artist has developed an intense research on the landscape genre and the experience of painting directly in front of the subject in the field. For that, the concept of experience used by phenomenology and the studies of Javier Maderuelo on the notion of landscape will be fundamental.</p>     <p><b>Keywords: </b>painting / landscape / experience.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Este artigo tem como objetivo analisar alguns aspectos da pintura da jovem artista brasileira Thiana Sehn. A artista desenvolveu, nos &uacute;ltimos anos, uma intensa investiga&ccedil;&atilde;o sobre o g&ecirc;nero da paisagem e a experi&ecirc;ncia da pintura diretamente diante do motivo, no campo. Pretendo apontar aqui certas quest&otilde;es que se apresentam em seu processo de trabalho e que podem nos fazer refletir sobre a import&acirc;ncia da pr&aacute;tica da pintura nos dias atuais. Al&eacute;m disso, gostaria de salientar, que este artigo &eacute; tamb&eacute;m uma homenagem.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Thiana Sehn nasceu em 1985, na cidade de Camaqu&atilde;, interior do Rio Grande do Sul. Em 2003 mudou-se para Pelotas, onde realizou o curso T&eacute;cnico em Programa&ccedil;&atilde;o Visual no CEFET-RS (atual IFSul). Em 2008 transferiu-se para a capital ga&uacute;cha, Porto Alegre, e passou a frequentar, durante alguns anos, o Atelier Livre da Prefeitura. Em 2010 ingressou no curso de Bacharelado em Artes Visuais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul &#8212; UFRGS. De esp&iacute;rito inquieto, frequentava diversas oficinas que iam desde cursos sobre cinema, como desenho, pintura, gravura e outros. Em janeiro de 2014, fez uma pausa na faculdade, mudando-se para a cidade de S&atilde;o Paulo. L&aacute; dedicou-se fundamentalmente &agrave; pintura e ao desenho, tendo como espa&ccedil;o de cria&ccedil;&atilde;o o Ateli&ecirc; em Rede, espa&ccedil;o colaborativo de artistas, situado na Vila Madalena. De janeiro a fevereiro de 2015 participou do curso de imers&atilde;o Proced&ecirc;ncia e Propriedade, de Charles Watson, no Rio de Janeiro e, nesse mesmo ano, passou a ter como atelier de cria&ccedil;&atilde;o o mezanino do Atelier Piratininga. Em 2015 a artista come&ccedil;a a frequentar, como ouvinte, as aulas de pintura do professor e pintor Geraldo Dias, na ECA/USP. Nessa ocasi&atilde;o, como forma de exerc&iacute;cio de observa&ccedil;&atilde;o, fazem uma sa&iacute;da de campo na cidade de Canan&eacute;ia, litoral de S&atilde;o Paulo e na Ilha do Cardoso. O objetivo era pintar ao ar livre, diante do modelo, sendo desafiados pela constante transforma&ccedil;&atilde;o da atmosfera. Essas experi&ecirc;ncias em diversas cidades, conhecendo artistas e ateli&ecirc;s, frequentando aulas com os mais variados profissionais, fez com que Thiana rapidamente desenvolvesse seu trabalho em pintura e direcionasse essa produ&ccedil;&atilde;o para a finaliza&ccedil;&atilde;o de seu per&iacute;odo de faculdade. Em mar&ccedil;o de 2016 retornou temporariamente ao Rio Grande do Sul a fim de concluir a gradua&ccedil;&atilde;o em Artes Visuais na UFRGS. Durante esse ano, desenvolveu a pesquisa <i>A pintura na paisagem e a paisagem na pintura</i>, sob minha orienta&ccedil;&atilde;o. &Eacute; nesse momento que Thiana retorna a cidade natal e empreende um per&iacute;odo de imers&atilde;o na zona rural de Camaqu&atilde;, pintando diretamente diante do motivo, diante da natureza. Como veremos, essa forte experi&ecirc;ncia levar&aacute; a artista a aprofundar certas quest&otilde;es referentes n&atilde;o s&oacute; &agrave; pintura, mas a pr&oacute;pria vida e nossa percep&ccedil;&atilde;o do mundo. Tendo finalizado a gradua&ccedil;&atilde;o, Thiana retornou a S&atilde;o Paulo, em 2017, e passa a frequentar, como aluna especial do mestrado em Artes Visuais da ECA-USP, as disciplinas do professor Geraldo Dias que h&aacute; muitos anos se dedica &agrave; pesquisa sobre a paisagem. Em 2018 a artista ingressa no curso de mestrado sob orienta&ccedil;&atilde;o sua orienta&ccedil;&atilde;o e d&aacute; continuidade a seu trabalho. Aluga um s&iacute;tio em S&atilde;o Bento do Sapuca&iacute;, na serra de S&atilde;o Paulo, com o objetivo de, novamente, passar longos per&iacute;odos pintando diretamente do motivo e desdobrar a pesquisa iniciada no Sul. No entanto, seus projetos acabam n&atilde;o sendo levados adiante. Em novembro de 2018, Thiana subia a serra, de autom&oacute;vel, com o intuito de fazer uma imers&atilde;o de um m&ecirc;s pintanto ao <i>plein air</i>, quando teve sua vida interrompida por um tr&aacute;gico acidente.</p>     <p>Essa breve biografia, que abarca 15 anos de cont&iacute;nua forma&ccedil;&atilde;o, tamb&eacute;m ex-pressa, de meu ponto de vista, o esp&iacute;rito inquieto da artista. Desde nosso primeiro contato percebi a intensidade de envolvimento de Thiana com a arte. Era movida pela paix&atilde;o e parecia n&atilde;o ter tempo a perder. N&atilde;o se tratava aqui do mero desejo de uma carreira a ser constru&iacute;da, mas de uma necessidade. E uma necessidade que parecia ter urg&ecirc;ncia. A rela&ccedil;&atilde;o dela com a pintura de paisagem talvez nos indique, aqui, muito mais do que um mero exerc&iacute;cio pl&aacute;stico assentado na tradi&ccedil;&atilde;o. Neste artigo vou me deter no per&iacute;odo em que estivemos pr&oacute;ximas. No per&iacute;odo em que retorna a terra natal para terminar seu TCC e empreende a experi&ecirc;ncia de imers&atilde;o.</p>     <p>Em seu texto de conclus&atilde;o de curso, Thiana nos conta como foi fundamental a experi&ecirc;ncia realizada quando pintou ao ar livre em viagem a Canan&eacute;ia-SP:</p>     <p>    <blockquote><i>Foram tr&ecirc;s dias de pintura, uma experi&ecirc;ncia incr&iacute;vel. Sol forte, insetos, depois a chuva, intercalados com banhos de mar. Adaptar-se &agrave;s intemp&eacute;ries &eacute; algo magn&iacute;fico! &Eacute; estar presente na pintura, ter a possibilidade de decidir se represento o ensolarado ou o nublado, ou se os dois se fundem. Entre um olhar e outro, tudo muda, a paisagem &eacute; viva, &eacute; sempre um novo in&iacute;cio.</i> (Sehn, 2016)</i></blockquote></p>     <p>Essa experi&ecirc;ncia e o desafio de apreens&atilde;o, da fixa&ccedil;&atilde;o de uma imagem cujo modelo est&aacute; em cont&iacute;nua transforma&ccedil;&atilde;o, foi o que interessou a artista e tornou a paisagem seu assunto principal. Logo percebeu, tamb&eacute;m, que outros fatores transformariam esse deslocamento em algo mais rico. Ser&iacute;a poss&iacute;vel dizer que a experi&ecirc;ncia propiciada pela pintura ao ar livre lhe trouxe um forte sentimento de presen&ccedil;a e entrela&ccedil;amento com o mundo. Do ponto de vista da fenomenologia, a palavra experi&ecirc;ncia expressa bem o sentido que se quer dar. Conforme Chau&iacute;,</p>     <p>    <blockquote><i>composta pelo prefixo ex &#8212; para fora, em dire&ccedil;&atilde;o a &#8212; e a palavra grega peras &#8212; limite, demarca&ccedil;&atilde;o, fronteira &#8212; significa um sair de si rumo ao exterior, viagem e aventura fora de si, inspe&ccedil;&atilde;o da exterioridade.</i> (Chau&iacute;, 2006:477)</blockquote></p>     <p>Com Chau&iacute; nos aproximamos da fenomenologia de Merleau-Ponty, entendendo a experi&ecirc;ncia n&atilde;o como "passividade receptiva" e "respostas &agrave; est&iacute;mulos sensoriais externos", mas o movimento mesmo, entre o interior e o exterior que definiria o esp&iacute;rito. Conforme a autora, "percebida doravante como nosso modo de ser e existir no mundo, a experi&ecirc;ncia ser&aacute; aquilo que sempre foi: inicia&ccedil;&atilde;o aos mist&eacute;rios do mundo". (2006:477). E n&atilde;o estaria o conceito de paisagem diretamente vinculado a esta no&ccedil;&atilde;o de experi&ecirc;ncia? E n&atilde;o seria a pintura de paisagem a pr&oacute;pria materializa&ccedil;&atilde;o desse movimento de vai e vem entre interior e exterior?</p>     <p>Sabe-se, historicamente, que o conceito de paisagem e a pr&aacute;tica da pintura est&atilde;o inelutavelmente ligados. Foi um olhar estetizante, dirigido ao mundo, que deu origem ao termo. Conforme Maderuelo,</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>    <blockquote><i>A paisagem n&atilde;o &eacute; um ente objetual nem um conjunto de elementos f&iacute;sicos quantific&aacute;veis</i> &#91;&#8230;&#93; <i>&eacute; uma rela&ccedil;&atilde;o subjetiva entre o homem e o meio em que ele vive, rela&ccedil;&atilde;o que se estabelece atrav&eacute;s da observa&ccedil;&atilde;o</i> &#91;&#8230;&#93; <i>A paisagem n&atilde;o &eacute; uma coisa, n&atilde;o &eacute; um objeto grande nem um conjunto de objetos configurados pela natureza ou transformados pela a&ccedil;&atilde;o humana. A paisagem tampouco &eacute; a natureza e nem sequer o meio f&iacute;sico que nos rodeia, ou sobre o qual estamos. A paisagem &eacute; um constructo, uma elabora&ccedil;&atilde;o mental que n&oacute;s humanos realizamos atrav&eacute;s dos fen&ocirc;menos culturais</i> (Maderuelo, 2013:11-38).</blockquote></p>     <p>De acordo com o autor, para poder aplicar com precis&atilde;o esse termo, "&eacute; necess&aacute;rio que exista um olho que contemple o conjunto e que gere um sentimento que o interprete emocionalmente" (Maderuelo, 2013:38). E como construto cultural "a paisagem n&atilde;o &eacute; um mero lugar f&iacute;sico, mas o conjunto de uma s&eacute;rie de ideias, sensa&ccedil;&otilde;es e sentimentos que elaboramos a partir do lugar e seus elementos constituintes". Conforme Maderuelo, "a palavra paisagem reclama uma interpreta&ccedil;&atilde;o, a busca de um car&aacute;ter e a presen&ccedil;a de uma emotividade" (2013:11-38).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Dist&acirc;ncias e deslocamentos</b></p>     <p>Em 2016, morando em S&atilde;o Paulo, Thiana resolve retornar a Camaqu&atilde; para passar alguns meses para finalizar seu curso de gradua&ccedil;&atilde;o. A exuber&acirc;ncia de cores, formas, luz e texturas proporcionada pela natureza em suas experi&ecirc;ncias anteriores motivaram a artista a aprofundar sua pesquisa sobre a pintura de paisagem. Conforme relatou,</p>     <p>    <blockquote><i>Morando h&aacute; dois anos em S&atilde;o Paulo capital, retornei temporariamente ao Rio Grande do Sul e &agrave; minha cidade de origem, Camaqu&atilde;, &agrave; qual n&atilde;o resido h&aacute; mais de 14 anos. De volta &agrave; terra natal, empreendi um per&iacute;odo de imers&atilde;o em pintura, em contato direto com a natureza, na ch&aacute;cara da Tia Est&aacute;cia, minha tia-av&oacute;, onde sempre tive o car&aacute;ter de visitante. As paisagens observadas durante a pesquisa foram de locais em que eu nunca havia percorrido antes. Procurei absorver as caracter&iacute;sticas da paisagem motivada pela exuber&acirc;ncia de cores, texturas, luz e formas que ela me oferece. Tia Est&aacute;cia &eacute; uma aut&ecirc;ntica campesina que, aos 81 anos de idade, sempre viveu na mesma propriedade rural, o que contribui para que eu observe e compreenda quais s&atilde;o os valores que ela considera na viv&ecirc;ncia da natureza do campo. Deste modo, refor&ccedil;o meus estudos comparativos entre o ponto de vista dela e o meu, de olhar "estrangeiro", em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; mesma natureza.</i> (Sehn, 2016:18)</blockquote></p>     <p>Em seu texto, Thiana comenta sobre o contraste existente entre a verticalidade da cidade grande, cuja linha de horizonte torna-se inexistente em virtude dos conglomerados das edifica&ccedil;&otilde;es e os vastos campos da zona rural. &Eacute; nesse momento que a artista toma consci&ecirc;ncia, tamb&eacute;m, da representa&ccedil;&atilde;o da dist&acirc;ncia como elemento fundamental da paisagem. Essa medida espa&ccedil;o-temporal que refor&ccedil;a o espa&ccedil;o do espectador fora da imagem/paisagem, colocando-o em estado de contempla&ccedil;&atilde;o. Suas telas aumentam de dimens&otilde;es e a sensa&ccedil;&atilde;o de profundidade tamb&eacute;m se intensifica. Compare-se as pinturas <i>Toca de paca</i> e <i>Pedra da nascente &#8212; S&atilde;o bento do Sapuca&iacute;</i>, de 2015 (<a href="#f1">Figura 1</a> e <a href="#f2">Figura 2</a>) e <i>Panorama das lavouras distantes de 2016</i> (<a href="#f3">Figura 3</a>)<i>.</i> Percebe-se ent&atilde;o as diferen&ccedil;as entre as espacialidades constru&iacute;das. Por certo a especificidade da geografia de cada local &eacute; respons&aacute;vel por certas caracter&iacute;sticas. A verticalidade da Serra da Mantiqueira se contrap&otilde;e &agrave;s plan&iacute;cies extensas, abertas do sul do pa&iacute;s. Mas, al&eacute;m disso, existe o recorte, a composi&ccedil;&atilde;o, o enquadramento escolhido pelo pintor. A experi&ecirc;ncia da plan&iacute;cie vivida por Thiana expressa-se na pintura <i>Panorama &#8230;.</i></p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v10n26/10n26a02f1.jpg"></a>     
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v10n26/10n26a02f2.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v10n26/10n26a02f3.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>A composi&ccedil;&atilde;o exigiu a intensifica&ccedil;&atilde;o da horizontalidade do suporte e &aacute;rvores, arbustos ou pedras j&aacute; n&atilde;o s&atilde;o representados com proximidade. Outro aspecto interessante &eacute; como elementos naturais ou mesmo as lavouras distantes provocam a necessidade de uma resolu&ccedil;&atilde;o pl&aacute;stica cada vez mais abstrata. Nesse sentido, as lavouras vistas de longe assemelham-se a composi&ccedil;&otilde;es geom&eacute;tricas e Thiana utilizou-se disso para refor&ccedil;ar o aspecto construtivo do quadro, aprofundando, tamb&eacute;m, sua pesquisa de cor, luz e texturas. As diversas culturas agr&iacute;colas somadas a espa&ccedil;os de mata nativa fez com que Thiana explorasse uma enorme diversidade de texturas e pinceladas. A tinta a &oacute;leo &eacute; utilizada de forma empastada, raspada e tamb&eacute;m dilu&iacute;da. Mas, acima de tudo, interessava &agrave; artista a forte presen&ccedil;a da mat&eacute;ria expressa pelo vigor da pincelada, da gestualidade espont&acirc;nea e r&aacute;pida.</p>     <p>Nesta s&eacute;rie a artista preparou todos os seus fundos com um intenso vermelho. Sabia dos efeitos de contraste entre cores complementares e desejava que este vermelho pulsasse sob as cores, nas falhas de pintura, entre os verdes. Na medida que suas pinturas avan&ccedil;avam, durante a pesquisa, as zonas de vermelho foram tornando-se cada vez mais vis&iacute;veis e ocupando maior espa&ccedil;o na tela. Essas zonas chapadas de vermelho oferecem, al&eacute;m do grande contraste e beleza de colorido, certa artificialidade a uma representa&ccedil;&atilde;o que poderia se pretender "naturalista". Thiana tinha consci&ecirc;ncia que pintura e natureza s&atilde;o coisas distintas.</p>     <p><i>    <blockquote>De acordo com o que nos diz Gombrich, &eacute; praticamente imposs&iacute;vel imitar a natureza tal e qual. A natureza &eacute; viva e de sua vida o que me interessa s&atilde;o as experi&ecirc;ncias. Ao pintar ao ar livre, tudo muda o tempo todo, a cada vez que dirijo meu olhar para a paisagem, ela j&aacute; mudou. &Eacute; necess&aacute;rio que eu esteja completamente presente, concentrada e com a observa&ccedil;&atilde;o agu&ccedil;ada. Meu olhar est&aacute; sempre em um vai e vem da tela &agrave; paisagem e da paisagem &agrave; tela, mas tenho a consci&ecirc;ncia de que a tela &eacute; um fato independente da natureza. &Eacute; motivada por ela, mas dela difere, tem suas pr&oacute;prias regras. E o meu interesse &eacute; de interpretar o que vejo, transformar em outra coisa, n&atilde;o &eacute; fazer uma pintura tal qual.</i> (Sehn, 2016:28)</blockquote></p>     <p>A pintura &eacute; sempre um fato que traz consigo regras espec&iacute;ficas. Quando figurativa pode ser motivada ou derivada de um modelo. Guarda resqu&iacute;cios de semelhan&ccedil;a com este e evoca rela&ccedil;&otilde;es. Mas &eacute; sempre um fato em si. Quando Thiana come&ccedil;a a deixar cada vez mais vis&iacute;vel a imprimatura vermelha (<a href="#f4">Figura 4</a>, <a href="#f5">Figura 5</a>, <a href="#f6">Figura 6</a>, <a href="#f7">Figura 7</a>), cria uma ambival&ecirc;ncia entre o pr&oacute;ximo e o distante, o plano e a profundidade, a tela e o horizonte. Seria poss&iacute;vel dizer que essas zonas vermelhas assumem outra fun&ccedil;&atilde;o al&eacute;m da cria&ccedil;&atilde;o do contraste crom&aacute;tico. Diria que a artista nos convoca a tomar consci&ecirc;ncia do vai e vem desse olhar que pouco a pouco construiu o quadro. Como se o quadro fosse o registro dessa experi&ecirc;ncia do esp&iacute;rito. Esse olhar que sai de si, vagueia sobre as coisas e retorna, transmuta-se e vira imagem por meio de um corpo tocado por tudo que viu do mundo. Um corpo intensamente consciente do aqui e agora.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <a name="f4"><img src="/img/revistas/est/v10n26/10n26a02f4.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f5"><img src="/img/revistas/est/v10n26/10n26a02f5.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f6"><img src="/img/revistas/est/v10n26/10n26a02f6.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f7"><img src="/img/revistas/est/v10n26/10n26a02f7.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Quando Thiana realiza <i>Grande panorama de uma contempla&ccedil;&atilde;o curiosa da paisagem</i> (<a href="#f6">Figura 6</a>) parece ter alcan&ccedil;ado os objetivos pl&aacute;sticos e metaf&oacute;ricos que as grandes pinturas de paisagem suscitam.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Chau&iacute;, Marilena (2006) "Merleau-Ponty: obra de arte e filosofia" in: <i>Artepensamento</i> Novaes, A. (org.) S&atilde;o Paulo: Companhia das Letras. ISBN 85-7164-417-9&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1465726&pid=S1647-6158201900020000200001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Maderuelo, Javier. ( 2005) <i>El paisaje: g&eacute;nesis de um concepto</i>. Madrid: ABADA Editores. ISBN 978-84-96258-56-3&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1465727&pid=S1647-6158201900020000200002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Merleau-Ponty, Maurice. (1984) "O olho e o esp&iacute;rito" in: <i>Merleau-Ponty: Textos selecionados</i>. Col. Os pensadores. S&atilde;o Paulo: Abril Cultural. ISBN 83-1333&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1465728&pid=S1647-6158201900020000200003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>Sehn, Thiana (2016) <i>A pintura de paisagem e a paisagem na pintura</i>. Trabalho de Conclus&atilde;o de Curso do Bacharelado em Artes Visuais, Instituto de Artes &ndash; UFRGS. Porto Alegre/RS &#8212; Brasil.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Artigo completo submetido a 07 de janeiro de 2019 e aprovado a 21 janeiro de 2019</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:mvcorona@terra.com.br">mvcorona@terra.com.br</a> (Marilice Corona)</p>      ]]></body><back>
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