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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The series Revelation (2018), by the Brazilian visual artist Adriana Barreto, starts from the assumption that the other (as discussed by Jean Luc-Nancy) is an essential part in the development of her performance in which: the body exists in relation to another; the body exposes an existence; the inside of the body is especially one outside the outside: what is withdrawn from the outside to stay outside; the body is not confused with any other, nor recovers and is not covered by another; the body is that by what, how and what happens; and finally, the body is only doing and doing itself - always out of everything that could contain it. His work, in the context of Brazilian art, had affiliation with the aesthetic legacy of the artist Lygia Clark.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS ORIGINAIS</b></p>     <p align="right"><b>ORIGINAL ARTICLES</b></p>     <p><b>RevelA&ccedil;&atilde;o: </b><i><b>o</i> outro nas foto-performances de Adriana Barreto</b></p>     <p><b>RevelAtion: the other in the photo-performances of Adriana Barreto</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Zalinda Cartaxo&#42;</b></p>     <p>&#42;Brasil, artista visual.</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Programa de P&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o em Artes C&ecirc;nicas (PPGAC/UNIRIO) e Centro de Investiga&ccedil;&atilde;o e Estudos em Belas Artes (CIEBA), Universidade de Lisboa. Largo da Academia Nacional de Belas Artes 4, 1249-058 Lisboa, Portugal. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO: </b></p>     <p>A s&eacute;rie RevelA&ccedil;&atilde;o (2018), da artista visual brasileira Adriana Barreto, parte do pressuposto de que o outro (tal qual aborda Jean Luc-Nancy) &eacute; parte essencial no desenvolvimento de sua performance em que: o corpo existe em rela&ccedil;&atilde;o a outro; o corpo exp&otilde;e uma exist&ecirc;ncia; o dentro do corpo &eacute; sobretudo um fora do fora: o que se retira do fora para ficar fora; o corpo n&atilde;o se confunde com nenhum outro, n&atilde;o recobre e nem &eacute; recoberto por outro; o corpo &eacute; esse pelo qu&ecirc;, como qu&ecirc; e em qu&ecirc; tudo acontece; e, finalmente, o corpo s&oacute; &eacute; fazendo e se fazendo &#8212; sempre fora de tudo que poderia cont&ecirc;-lo. Sua obra, no contexto da arte brasileira possuiu flia&ccedil;&otilde;es com o legado est&eacute;tico da artista Lygia Clark.</p>     <p><b>Palavras chave: </b>performance / fotografia / imagem.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT: </b></p>     <p>The series Revelation (2018), by the Brazilian visual artist Adriana Barreto, starts from the assumption that the other (as discussed by Jean Luc-Nancy) is an essential part in the development of her performance in which: the body exists in relation to another; the body exposes an existence; the inside of the body is especially one outside the outside: what is withdrawn from the outside to stay outside; the body is not confused with any other, nor recovers and is not covered by another; the body is that by what, how and what happens; and finally, the body is only doing and doing itself &#8212; always out of everything that could contain it. His work, in the context of Brazilian art, had affiliation with the aesthetic legacy of the artist Lygia Clark.</p>     <p><b>Keywords: </b>performance / photography / image.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <br>    <blockquote>&Agrave;s vezes tamb&eacute;m amassamos uma folha ou tocamos a tangente de um teclado para formar corp&uacute;sculos que se debatem numa tela, numa folha impressa, num fora aventureiro do que pensamos ser um pensamento se fazendo mas que n&atilde;o passa de um modo delicioso e dif&iacute;cil de nos entretocarmos.</i> (Nancy, 2015:9)</blockquote>     <p>A <i>Casa do Horto</i> &eacute; um espa&ccedil;o constru&iacute;do pela artista visual carioca Adriana Barreto num bairro arborizado do Rio de Janeiro, Brasil. Foi idealizado para a cria&ccedil;&atilde;o e desenvolvimento de suas performances e consiste numa sala de cria&ccedil;&atilde;o (elabora&ccedil;&atilde;o), numa sala de desenvolvimento de performance (experimenta&ccedil;&atilde;o), numa sala de recolhimento (conscientiza&ccedil;&atilde;o), numa sala de v&iacute;deo-performance (finaliza&ccedil;&atilde;o) e num grande jardim que contorna a <i>Casa do Horto</i> e possui participa&ccedil;&atilde;o relevante nas suas cria&ccedil;&otilde;es. A <i>Casa do Horto</i> &eacute;, na verdade, um centro de desenvolvimento de performance exclusivo da artista que abdica do termo <i>atelier</i> por n&atilde;o se adequar plenamente &agrave;s suas necessidades est&eacute;ticas. A primeira performance desenvolvida pela artista no rec&eacute;m-inaugurado espa&ccedil;o (2018), <i>RevelA</i>&ccedil;&atilde;o, exemplifica de forma clara as necessidades est&eacute;tico-espaciais da artista para o desenvolvimento de seu trabalho. <i>RevelA</i>&ccedil;&atilde;o &eacute; uma s&eacute;rie de foto-performance ainda em andamento (e, talvez, sem conclus&atilde;o). A artista recebe a cada sess&atilde;o oito convidados por vez (geralmente amigos) em hor&aacute;rios sequenciais. Cada um &eacute; recebido individualmente por Adriana que pede que retire qualquer maquiagem do rosto, se houver. A seguir &eacute; levado descal&ccedil;o, de m&atilde;os dadas, &agrave; sala de desenvolvimento de performance, onde ter&aacute; seu rosto fotografado (em preto e branco). A seguir, Adriana encaminha seu convidado &agrave; sala de recolhimento. A luz branda, o som meditativo em volume baixo e o perfume arom&aacute;tico cria um ambiente de relaxamento. Adriana leva o convidado at&eacute; o <i>futon</i> onde dever&aacute; deitar-se e, a partir das suas orienta&ccedil;&otilde;es, relaxar o corpo. Ela toca um sino tibetano para dar in&iacute;cio ao processo. A artista cobre os olhos do convidado com uma m&aacute;scara de ervas com um peso leve e retira suas meias, se houver. Utitlizando &oacute;leos essenciais inicia uma massagem em cada um dos p&eacute;s do convidado que, lentamente, se desacelera. Depois de massagear os dois p&eacute;s, deixa o convidado imergir num transe profundo. A artista intui o tempo necess&aacute;rio de cada um e conclui o processo tocando novamente e suavemente o sino tibetano. Orientado a alongar-se ainda no <i>futon</i>, o convidado vai, aos poucos, voltando a si. Adriana o conduz a sala de desenvolvimento de performance onde far&aacute; novo registro fotogr&aacute;fico do seu rosto. O processo perform&aacute;tico de Adriana e do convidado &eacute; baseado na confian&ccedil;a e na intimidade, portanto, o que se passa dentro da sala de recolhimento n&atilde;o pode ser compartilhado com o p&uacute;blico. A fotografia que registra o momento da entrada e da sa&iacute;da da sala de recolhimento &eacute;, em si, a obra de foto-performance da s&eacute;rie <i>RevelA</i>&ccedil;&atilde;o. Manipulada para coexistir numa &uacute;nica imagem, as fotos registram o <i>antes</i> e o <i>depois</i> simultaneamente, compactando (em <i>devir</i> e <i>iman&ecirc;ncia</i>) toda a experi&ecirc;ncia pr&eacute; e p&oacute;s perform&aacute;tica (<a href="#f1">Figura 1</a>).</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v10n26/10n26a04f1.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>A op&ccedil;&atilde;o pela fotografia em preto e branco, assim como pelo uso de uma luz que banha de forma clara e uniforme o rosto do convidado e de um fundo negro, deve-se &agrave; exclus&atilde;o de qualquer ind&iacute;cio de dramaticidade ou teatralidade. A imagem deve ser absolutamente clara para que se possa registrar toda a fun&ccedil;&atilde;o muscular facial do pr&eacute; e p&oacute;s relaxamento (a&ccedil;&atilde;o perform&aacute;tica). Todas as rugas (se houver), transforma&ccedil;&otilde;es de express&atilde;o, etc., tudo deve ser fotograficamente registrado. A captura do rosto do convidado na sua chegada (com a sua contamina&ccedil;&atilde;o natural do dia-&agrave;-dia) e na sua sa&iacute;da (ainda em estado de relaxamento) deve ser imediata afim de dar sentido visual, de materializar esta performance que existe na intimidade, no recolhimento. A imagem da foto-performance reverbera a experi&ecirc;ncia.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>1. O </b><i><b>outro</i> nas foto-performances de Adriana Barreto</b></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>    <blockquote><i>Existir significa de fato distinguir-se tanto do nada como de outras exist&ecirc;ncias.</i>     <br>(Nancy, 2015:9)</blockquote></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>De acordo com Jean-Luc Nancy (2015), um corpo s&oacute; existe em rela&ccedil;&atilde;o a outro. Para o autor, ele seria o "contorno" do in&iacute;cio e do fim de uma exist&ecirc;ncia, ou, de outro modo &#8212; "um corpo exp&otilde;e uma exist&ecirc;ncia" (Nancy, 2015:7). O corpo &eacute; um <i>fora &#8212;</i> um <i>fora-dentro</i>, que guarda em si &oacute;rg&atilde;os com as suas respectivas fun&ccedil;&otilde;es. Contudo, esse dentro n&atilde;o &eacute; o que se apresenta como um corpo. De acordo com Nancy, "para apresent&aacute;-lo, &eacute; preciso violentar &agrave;s vezes mais, &agrave;s vezes menos, o corpo. O dentro n&atilde;o se apresenta. Ao contr&aacute;rio, retira-se para que o fora possa se sustentar e agir. O dentro do corpo &eacute; sobretudo um fora do fora: o que se retira do fora para ficar fora." (Nancy, 2015:7). O autor afirma que,</p>     <p>    <blockquote><i>Um corpo &eacute; uma pro-posi&ccedil;&atilde;o, uma chegada que se adianta e se p&otilde;e adiante, no fora, como um fora. Pro-posto &eacute; que o corpo n&atilde;o se confunda com nenhum outro, que n&atilde;o recubra nenhum outro e nem seja por nenhum outro recoberto &#8212; nunca, a n&atilde;o ser quando estiver em jogo uma descoberta, o por-se a descoberto de cada corpo.</i>     <br>(&#8230;) <i>Um corpo &eacute; esse pelo qu&ecirc;, como qu&ecirc; e em qu&ecirc; tudo acontece: tudo sobrev&eacute;m, tudo se produz num gesto, numa inflex&atilde;o, numa emo&ccedil;&atilde;o ou erup&ccedil;&atilde;o da pele, o sentido de um outro corpo ro&ccedil;ado ou melindrado.</i>     <br>(&#8230;) <i>Um corpo n&atilde;o "&eacute;" no sentido que se costuma supor que uma coisa ou um conceito "&eacute;" &#8212; posto, delimitado, estabilizado em algum lugar. Um corpo s&oacute; &eacute; fazendo e se fazendo &#8212; sempre fora de tudo que poderia cont&ecirc;-lo.</i> (Nancy, 2015:8)</blockquote></p>     <p>O <i>outro</i> nas foto-performances de Adriana Barreto (<a href="#f2">Figura 2</a>) constitui-se como afirmativa da <i>exist&ecirc;ncia</i>. Daquela que nos fala Nancy: <i>"existir significa de fato distinguir-se tanto do nada como de outras exist&ecirc;ncias."</i> (Nancy, 2015:9). A pr&aacute;tica perform&aacute;tica da artista, nesta s&eacute;rie, se desenvolve na <i>intimidade</i>. Outras pr&aacute;ticas perform&aacute;ticas tamb&eacute;m ocultam, de certa forma, a sua realiza&ccedil;&atilde;o. Tomemos como exemplo as interven&ccedil;&otilde;es urbanas de Banksy (de um modo geral o artista trabalha com o anonimato) ou de Olafur Eliasson (por exemplo, com a sua s&eacute;rie <i>Green River</i>). Ambos desenvolveram obras cuja a&ccedil;&atilde;o (absolutamente perform&aacute;tica) estava fundada na clandestinidade. O que <i>resta</i> nestas 'a&ccedil;&otilde;es perform&aacute;ticas' (geralmente nomeadas de interven&ccedil;&otilde;es urbanas), uma cabine telef&ocirc;nica amassada, no caso de Banksy, ou um rio com colora&ccedil;&atilde;o radioativa, no caso de Eliasson, &eacute; a conclus&atilde;o de uma a&ccedil;&atilde;o no espa&ccedil;o p&uacute;blico, em estado de <i>devir</i> e <i>iman&ecirc;ncia</i>. Em ambos os casos, a a&ccedil;&atilde;o precedente, invis&iacute;vel, &eacute; t&atilde;o importante quanto os seus resultados. O mesmo ocorre com a s&eacute;rie <i>RevelA&ccedil;&atilde;o</i>, de Adriana Barreto. Contudo, diferentemente dos exemplos citados de Banksy e Eliasson, que se inscrevem numa esfera p&uacute;blica, a artista performa numa esfera particular, intimista. Suas foto-performances, tamb&eacute;m, existem em <i>devir</i> e <i>iman&ecirc;ncia</i>. Dentro das quest&otilde;es sobre performance na atualidade, podemos localizar obras cuja concep&ccedil;&atilde;o e realiza&ccedil;&atilde;o direciona-se para outras categorias art&iacute;sticas. Muitas obras de interven&ccedil;&atilde;o urbana possuem (mesmo que o artista n&atilde;o entenda assim) aspectos marcantes da <i>performance art</i>. A relev&acirc;ncia desta quest&atilde;o est&aacute; no fato da maioria das obras de interven&ccedil;&atilde;o urbana promover um <i>performar</i> do p&uacute;blico que alimenta a obra e que, portanto, n&atilde;o deve ser menosprezado ou ignorado. A presen&ccedil;a do <i>outro</i> nas pr&aacute;ticas est&eacute;ticas contempor&acirc;neas &eacute; extremamente limitativa em seu entendimento.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v10n26/10n26a04f2.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>A s&eacute;rie <i>RevelA&ccedil;&atilde;o</i>, de Adriana Barreto, parte do pressuposto de que o <i>outro</i> (tal qual aborda Nancy) &eacute; parte essencial no desenvolvimento de sua performance: 1. o corpo existe em rela&ccedil;&atilde;o a outro; 2. o corpo exp&otilde;e uma exist&ecirc;ncia; 3. o dentro do corpo &eacute; sobretudo um fora do fora: o que se retira do fora para ficar fora; 4. o corpo n&atilde;o se confunde com nenhum outro, n&atilde;o recobre e nem &eacute; recoberto por outro; 5. o corpo &eacute; esse pelo qu&ecirc;, como qu&ecirc; e em qu&ecirc; tudo acontece; e, finalmente, 6. o corpo s&oacute; &eacute; fazendo e se fazendo &#8212; sempre fora de tudo que poderia cont&ecirc;-lo.</p>     <p>Nesta s&eacute;rie, Adriana <i>recupera</i> o sujeito (o convidado) ao fomentar, pela experi&ecirc;ncia, a sua <i>exist&ecirc;ncia</i>, essencialmente. A artista d&aacute; &ecirc;nfase a este <i>ser corpo</i>, &uacute;nico e inconfund&iacute;vel, ao registr&aacute;-lo contraposto a um fundo negro abismal. Os tons de cinza da fotografia d&atilde;o a dimens&atilde;o volum&eacute;trica do <i>ser</i> (exist&ecirc;ncia). O <i>corpo-fora</i>, na sua totalidade, podemos associar ao fundo absolutamente negro, que, facilmente, poder&iacute;amos associar ao espa&ccedil;o <i>infinito</i> do Barroco, mas que, aqui, ser&aacute; utilizada outra abordagem. Segundo Junichiro Tanizaki (2007), ao contr&aacute;rio dos ocidentais que valorizam os brilhos dos metais polindo-os, os orientais valorizam os ac&uacute;mulos temporais que refletem a passagem do tempo e suas hist&oacute;rias na opacidade das superf&iacute;cies. Para o autor, apraz, para os orientais, "observar o tempo marcar sua passagem esmaecendo o brilho do metal, queimando e esfuma&ccedil;ando sua superf&iacute;cie" (Tanizaki, 2007:28). O sentido de profundidade (presente tamb&eacute;m no Barroco italiano), de natureza cumulativa, em reciprocidade com o <i>corpo-fora</i>, oferece um ressoar em <i>aberto</i> Para Nancy,</p>     <p>    <blockquote>o corpo, a corporeidade do corpo &#8212; quer dizer, a sua extens&atilde;o, a sua expans&atilde;o, a sua express&atilde;o &#8212; comporta a verdade de que nada se re&uacute;ne numa intimidade c&uacute;mplice de si mas de que tudo se lan&ccedil;a para mais longe, mais para o dentro porque mais fora do que qualquer recolhimento.</i> (Nancy, 2015:9)</blockquote></p>     <p>A s&eacute;rie <i>RevelA&ccedil;&atilde;o</i> parte deste movimento: a partir do recolhimento (do <i>corpo-dentro</i>) faz-se emergir o <i>corpo-fora</i>.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Conclus&atilde;o</b></p>     <p>&Eacute; imposs&iacute;vel ignorar a filia&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica de Adriana Barreto, cuja abordagem experimental e extremamente subjetiva, nos faz remeter &agrave; produ&ccedil;&atilde;o de Lygia Clark. Salvo as &oacute;bvias diferen&ccedil;as, ambas desenvolveram obras cujo material essencial seria a pr&oacute;pria <i>estrutura interna do sujeito</i>. Tratadas de forma diferenciada, ambas apresentam obras que causam dificuldade na compreens&atilde;o de se constitu&iacute;rem como uma <i>obra de arte</i>. A desmaterializa&ccedil;&atilde;o da arte &eacute; um fen&ocirc;meno que desde os anos de 1960 vem se desenhando de forma persistente e coerente.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Especialmente no campo da <i>performance art</i> existe, ainda, a predomin&acirc;ncia de uma estrutura pr&oacute;xima do teatral e com a presen&ccedil;a de um p&uacute;blico. O sentido de realidade que as artes visuais sempre buscou &#8212; e que trouxe ao longo dos s&eacute;culos respostas variadas &#8212; talvez seja a grande diferen&ccedil;a das pr&aacute;ticas perform&aacute;ticas do teatro. A dimens&atilde;o filos&oacute;fica da arte contempor&acirc;nea colaborou na sua aproxima&ccedil;&atilde;o com o real (isso, em v&aacute;rias pr&aacute;ticas est&eacute;ticas como a fotografia, a pintura, a interven&ccedil;&atilde;o etc.), tornando quase imposs&iacute;vel ignor&aacute;-la.</p>     <p>A aproxima&ccedil;&atilde;o com a <i>realidade</i> colocou a arte pr&oacute;xima de quest&otilde;es cotidianas como a religi&atilde;o, a espiritualidade, o feminismo, o racismo, a imigra&ccedil;&atilde;o, a diversidade e as demais inst&acirc;ncias pol&iacute;ticas. Portanto, abordar o sujeito atrav&eacute;s da medita&ccedil;&atilde;o significa, na obra perform&aacute;tica de Adriana Barreto, recoloc&aacute;-lo no &acirc;mbito da <i>consci&ecirc;ncia da exist&ecirc;ncia</i>, da <i>sua</i> exist&ecirc;ncia, da <i>sua</i> experi&ecirc;ncia, da <i>sua</i> realidade<i>.</i> A lacuna temporal entre a experi&ecirc;ncia pessoal e reservada (aquilo que n&atilde;o vemos) do convidado de Adriana na s&eacute;rie <i>RevelA&ccedil;&atilde;o</i> (<a href="#f3">Figura 3</a>) e a obra foto-perform&aacute;tica (aquilo que vemos), coloca a performance da artista numa inst&acirc;ncia de transitoriedade: "o dentro do corpo &eacute; sobretudo um fora do fora: o que se retira do fora para ficar fora." (Nancy, 2005:7). Somente o corpo <i>tocado</i> pode constituir-se como tal. A performance, aqui, &eacute; meio ativa&ccedil;&atilde;o do corpo, &agrave;s vezes, esquecido. <i>RevelA</i>&ccedil;&atilde;o significa, aqui, <i>revelar</i> atrav&eacute;s da a&ccedil;&atilde;o (performance).</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v10n26/10n26a04f3.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Nancy, J. L. (2015). <i>Corpo, fora</i>. Rio de Janeiro : 7 Letras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1465920&pid=S1647-6158201900020000400001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Tanizaki, J. (2007). <i>Em louvor da sombra</i>. S&atilde;o Paulo: Companhia das Letras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1465922&pid=S1647-6158201900020000400002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Artigo completo submetido a 29 de dezembro de 2018 e aprovado a 21 janeiro de 2019</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:z.cartaxo@uol.com.br">z.cartaxo@uol.com.br</a> (Zalinda Cartaxo)</p>      ]]></body><back>
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