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<publisher-name><![CDATA[Universidade de LisboaFaculdade de Belas-Artes]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[As caixas de Emília Nadal e outras caixas]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade de Lisboa Faculdade de Arquitectura CIAUD]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The present work analyses the work of Emilia Nadal in what concerns her theme of 'boxes', mainly focusing on her work of the seventies. This work also seeks to reflect on the thematic of the 'box' in a much more comprehensive way, starting from an atlas of images. As a result, this work tryes to explore the extreme complexity of the "box" theme, relating it to the work of Emília Nadal, but also referring to the work of many other artists.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS ORIGINAIS</b></p>     <p align="right"><b>ORIGINAL ARTICLES</b></p>     <p><b>As caixas de Em&iacute;lia Nadal e outras caixas</b></p>     <p><b>Emilia Nadal&quot;s boxes and other boxes</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Sara Antunes Prata Dias da Costa&#42;</b></p>     <p>&#42;Portugal, arquitecta, artista, estudante de doutoramento.</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade de Lisboa, Faculdade de Arquitectura, CIAUD. Rua S&aacute; Nogueira, P&oacute;lo Universit&aacute;rio, Alto da Ajuda, 1349-063 Lisboa, Portugal. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO: </b></p>     <p>O presente trabalho analisa o trabalho de Em&iacute;lia Nadal no que concerne &agrave; sua tem&aacute;tica das &quot;caixas,&quot; principalmente focando-nos no seu trabalho dos anos setenta. Este trabalho procura tamb&eacute;m reflectir sobre a problem&aacute;tica da &quot;caixa&quot; de uma forma muito mais abrangente, partindo de um atlas de imagens. Como resultado, procura-se explorar a extrema complexidade do tema da "caixa", relacionando-o com o trabalho de Em&iacute;lia Nadal, mas tamb&eacute;m fazendo refer&ecirc;ncia ao trabalho de muitos outros artistas.</p>     <p><b>Palavras chave: </b>Em&iacute;lia Nadal / Caixas / Atlas.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT: </b></p>     <p>The present work analyses the work of Emilia Nadal in what concerns her theme of 'boxes', mainly focusing on her work of the seventies. This work also seeks to reflect on the thematic of the 'box' in a much more comprehensive way, starting from an atlas of images. As a result, this work tryes to explore the extreme complexity of the "box" theme, relating it to the work of Em&iacute;lia Nadal, but also referring to the work of many other artists.</p>     <p><b>Keywords: </b>Emilia Nadal / Boxes / Atlas.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em&iacute;lia Nadal &eacute; uma artista Portuguesa, com ascend&ecirc;ncia brasileira e catal&atilde;. Tanto a av&oacute; brasileira como a fam&iacute;lia da Catalunha t&ecirc;m em comum uma forte religiosidade, que acaba por influenciar Em&iacute;lia Nadal logo nas suas primeiras obras. O presente trabalho procura analisar as obras de Em&iacute;lia Nadal na d&eacute;cada de setenta, onde aparecem as suas primeiras caixas. J&aacute; muito foi dito sobre as caixas de Em&iacute;lia Nadal, por autores como Augusto-Fran&ccedil;a, Fernando de Azevedo, Manuel-Rio Carvalho, entre outros. O discurso destes autores recai muitas vezes sobre os v&aacute;rios objectos que se encontram no interior das suas caixas, na sua simbologia ou abordam as refer&ecirc;ncias das suas obras &agrave; hist&oacute;ria de arte.</p>     <p>O presente trabalho procura reflectir no porqu&ecirc; da caixa, pois esta tem persistido ao longo do tempo e recorrentemente na obra de Em&iacute;lia Nadal. Come&ccedil;ando por analisar o seu trabalho, explora-se em seguida outras caixas, aludindo &agrave; extrema complexidade deste tema, e fazendo refer&ecirc;ncia ao trabalho de muitos outros artistas.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>1. As caixas de Em&iacute;lia Nadal</b></p>     <p>O per&iacute;odo das caixas de Em&iacute;lia Nadal come&ccedil;a nos anos setenta (Rio-Carvalho, 1986). Nestes trabalhos a caixa &eacute; vista pelo seu interior e ocupa todo o espa&ccedil;o pict&oacute;rico do desenho ou da pintura. Geralmente objectos ins&oacute;litos encontram-se colocados no seu interior. Como num palco de um teatro, vemos uma representa&ccedil;&atilde;o, mas desta vez im&oacute;vel, em suspense, deixando-nos im&oacute;veis tamb&eacute;m enquanto observadores. Observamos um momento que parou no tempo. Nesta d&eacute;cada, ao longo das suas v&aacute;rias s&eacute;ries de obras, a caixa persiste, embora possa sofrer diversas altera&ccedil;&otilde;es.</p>     <p>A primeira s&eacute;rie de trabalhos, que engloba desenho e pintura, intitula-se "caixas" e abrange o per&iacute;odo de 1971 a 1974 (<a href="#f1">Figura 1</a>, <a href="#f2">Figura 2</a>, <a href="#f3">Figura 3</a>, <a href="#f4">Figura 4</a>). Em algumas destas obras, as caixas tornam-se quase &quot;transparentes,&quot; reflectindo a paisagem como um ecr&atilde;. Noutras obras, as caixas tornam-se opacas e sem aberturas, fechadas ao exterior, como &eacute; o caso de um dos lados dos d&iacute;pticos "As Laranjas" e "Os Ovos." Nestes trabalhos, &agrave; semelhan&ccedil;a de Ren&eacute; Magritte, os objectos tornam-se gigantes, s&atilde;o os &uacute;nicos habitantes do espa&ccedil;o. Noutras obras ainda, as caixas t&ecirc;m poucas e esparsas aberturas, rectangulares como janelas, que por vezes mostram paisagens distantes de montanhas e mar. Algumas destas janelas situam-se em locais onde normalmente n&atilde;o existem janelas: no ch&atilde;o. &Eacute; atrav&eacute;s delas que podemos observar uma paisagem long&iacute;nqua, como se caixa tivesse a possibilidade de flutuar no ar e n&oacute;s pud&eacute;ssemos observar o mundo de cima, suspensos. Uma caixa com uma abertura no ch&atilde;o s&oacute; pode ser habitada por algo suspenso, pois n&atilde;o consegue travar o movimento natural da gravidade que nos afecta. Mas a caixa, muitas vezes, tamb&eacute;m n&atilde;o possui cimo, possuindo uma abertura rectangular semelhante a uma janela zenital. &Eacute; atrav&eacute;s desta abertura que diversos objectos se encontram suspensos por um fr&aacute;gil fio, que por sua vez &eacute; debilmente agarrado pelos delicados dedos (polegar e indicador) da m&atilde;o de uma mulher. Esta particular forma de preens&atilde;o do fio, remete-nos para um fr&aacute;gil exerc&iacute;cio de equil&iacute;brio: um fio de prumo. Esta caixa, aberta no ch&atilde;o e no tecto, torna-se uma passagem, um momento suspenso, parado no tempo, uma forma ensaiada de suspense.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v10n26/10n26a06f1.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v10n26/10n26a06f2.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v10n26/10n26a06f3.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f4"><img src="/img/revistas/est/v10n26/10n26a06f4.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>A segunda s&eacute;rie de trabalhos de caixas da d&eacute;cada de setenta, intitula-se "Decomposi&ccedil;&otilde;es" e abrange o per&iacute;odo de 1974 e 1975. Nesta serie de trabalhos torna-se protagonista uma rom&atilde;, que &eacute; repetidamente suspensa, do cimo da caixa, por uma abertura quadrada. Neste caso o ch&atilde;o &eacute; s&oacute;lido, em mosaicos pretos e brancos. A caixa tem apenas uma &uacute;nica abertura no tecto. Nesta s&eacute;rie de pinturas a caixa torna-se um palco firme no mundo, e cada caixa tem normalmente uma cor dominante associada. &Eacute; numa destas caixas, a azul, que Em&iacute;lia Nadal faz o seu auto-retrato em silhueta. Podemos ainda referir, que nesta s&eacute;rie, as caixas parecem possuir uma esp&eacute;cie de pele, pois apresentam diversas feridas "como uma erup&ccedil;&atilde;o cut&acirc;nea." (Rio-Carvalho, 1986:51)</p>     <p>Por fim surge a s&eacute;rie "Ovnis" de 1976 a 1978, onde a caixa por vezes aparece fragmentada. Nesta s&eacute;rie, s&atilde;o apresentados j&aacute; alguns objectos e motivos de cr&iacute;tica a uma sociedade de consumo, que se ir&aacute; reflectir na sua obra posterior.</p>     <p>Podemos ainda referir que neste mil&eacute;nio, Em&iacute;lia Nadal retoma o tema da caixa, muitas vezes uma caixa exterior com diversos r&oacute;tulos, onde a artista critica a sociedade de consumo, mesmo ao n&iacute;vel de um consumo art&iacute;stico desenfreado (Augusto-Fran&ccedil;a, 2015).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2. Outras caixas</b></p>     <p>A caixa tem sempre impl&iacute;cito um interior que cont&eacute;m ou pode conter algo. A caixa &eacute; tamb&eacute;m um limite, uma fronteira entre dentro e fora, um espa&ccedil;o contido, por oposi&ccedil;&atilde;o a um espa&ccedil;o infinito e sem limites. A caixa num sentido metaf&oacute;rico remete-nos para um espa&ccedil;o arquitect&oacute;nico (Cruz Pinto, 1998) mesmo na sua defini&ccedil;&atilde;o mais literal, pois esta &eacute; um contentor, um recept&aacute;culo que pretende guardar e preservar algo, como a vida humana. Abordaremos de seguida a caixa de diversas perspectivas.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>2.1 A Casa Caixa</b></p>     <p>Na primeira &quot;cidade&quot; da humanidade, em &Ccedil;atal H&uuml;y&uuml;k, h&aacute; 9.000 anos atr&aacute;s, podemos observar in&uacute;meras casas/caixas, encostadas umas &agrave;s outras, cada uma com apenas uma abertura no tecto como entrada. Em cada casa, no ch&atilde;o, existem outros tipos de &quot;aberturas&quot;, onde se guardavam os parentes j&aacute; falecidos (Reader, 2004). A casa/caixa fica assim suspensa entre dois mundos, dos vivos e dos mortos.</p>     <p>No s&eacute;culo XX, podemos referir algumas casas/caixa como aquela pequena casa de madeira, que podemos observar em fotografias de Eadweard Mybridge, ou o Cabanon do arquitecto Le Corbusier, a sua &uacute;ltima morada. Estas pequenas casas/caixa de madeira, no meio da floresta ou em frente ao mar, s&atilde;o um local de abrigo e conforto para a escala humana, uma protec&ccedil;&atilde;o eficaz contra a imensid&atilde;o da paisagem. A casa/caixa &eacute; ent&atilde;o um espa&ccedil;o contido no meio da natureza, &eacute; um ref&uacute;gio para o humano.</p>     <p>Neste aspecto &eacute; interessante reflectirmos sobre duas obras de 1989 de Pedro Cabrita Reis, que nos remetem para a caixa como um &quot;artefacto&quot; do conforto humano, mas n&atilde;o dos animais. Numa das obras intitulada "A Casa do C&eacute;u", podemos observar um sof&aacute;, duas paredes delimitando o canto e um ch&atilde;o, o que nos remete para um presum&iacute;vel espa&ccedil;o de uma caixa, um lugar para o habitar humano. Na outra obra, vemos um ch&atilde;o e tr&ecirc;s paredes, mais uma vez uma esp&eacute;cie de caixa, que contem um &uacute;nico habitante, um urso. Neste caso a obra intitula-se apenas "Inferno." O animal n&atilde;o se sente confort&aacute;vel dentro da de uma caixa, sente-se no inferno. A casa/caixa &eacute; iminentemente uma constru&ccedil;&atilde;o humana. Somente um ser humano se sente confort&aacute;vel e abrigado numa casa/ caixa (Arnheim, 1991). A casa/caixa &eacute; assim a cria&ccedil;&atilde;o de um mundo interior, abrigado e &agrave; nossa escala.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2.2 A Caixa &Iacute;ntima</b></p>     <p>Analisando o trabalho de Paul Delvaux, "A Floresta" de 1948, podemos observar numa mulher, origem da vida, na natureza totalmente nua, mas junto a uma esp&eacute;cie de caixa (feita de panos), que a pode proteger e encerrar permitindo-lhe um abrigo de intimidade. O espa&ccedil;o da caixa, nesta obra de Delvaux, pertence sem d&uacute;vida &agrave; mulher, &eacute; o resguardo do seu corpo, da sua nudez da sua intimidade. Podemos fazer refer&ecirc;ncia a muitas outras caixas com cortinados vermelhos t&atilde;o semelhantes a esta, presentes em in&uacute;meras pinturas holandesas do s&eacute;c. XVII, como por exemplo no trabalho de Gerard ter Borch. A caixa de cortinas vermelhas &eacute; um espa&ccedil;o circunscrito dentro do pr&oacute;prio quarto, uma caixa dentro da caixa, a cama, o espa&ccedil;o &iacute;ntimo, de nudez, libidinoso, er&oacute;tico, sexual. &Eacute; um espa&ccedil;o protegido dos olhares alheios, um espa&ccedil;o onde se pode desenrolar outra cena, que ao contr&aacute;rio do teatro, embora com cortinas vermelhas, se quer oculto do exterior. Este &eacute; um espa&ccedil;o sempre associado &agrave; mulher, um ventre vermelho em que o acesso &eacute; restrito, consentido ou n&atilde;o, um gerador de desejos.</p>     <p>A caixa &eacute; assim uma esp&eacute;cie de ventre, ventre consentido, mas tamb&eacute;m ventre materno, que protege e oculta, para guardar e preservar o humano. A cama/ caixa transforma-se numa incubadora de vida.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>2.3 A Caixa de Esperan&ccedil;a</b></p>     <p>A caixa &eacute; tamb&eacute;m um recept&aacute;culo para o corpo, n&atilde;o s&oacute; para o sono, mas tamb&eacute;m para a morte, muitas vezes entendida como um per&iacute;odo transit&oacute;rio para outra vida, para outro &quot;acordar.&quot; Podemos observar diversas caixas t&uacute;mulo, que s&atilde;o caixas que cont&eacute;m o humano, o seu corpo sem vida, &agrave; espera de outra vida, ou simplesmente encerrado para poder ter uma &uacute;ltima morada na terra. S&atilde;o exemplos destas caixas/t&uacute;mulo, os sarc&oacute;fagos eg&iacute;pcios, aut&ecirc;nticos recept&aacute;culos de espera para outra vida. Outro exemplo &eacute; a &quot;caixa&quot; onde foi depositado o corpo de Jesus Cristo para depois ressuscitar. A sepultura de Jesus &eacute; representada por diversos pintores, desde o s&eacute;c. XIII (Giotto, Duccio) at&eacute; ao s&eacute;c. XXI (Bill Viola) quase sempre como uma caixa, escavada na rocha ou n&atilde;o. &Eacute; desta caixa paralelepip&eacute;dica que surge cristo ressuscitado. A caixa torna-se assim um elemento de esperan&ccedil;a, um local para um est&aacute;dio de transi&ccedil;&atilde;o, para uma passagem breve, de um corpo inerte e frio que se transcende e volta &agrave; vida, n&atilde;o &agrave; vida terrena, mas &agrave; vida eterna. A caixa torna-se assim o local onde reside a esperan&ccedil;a da vida eterna.</p>     <p>No filme <i>Final Scape</i> de Alfred Hitchcock, um prisioneiro tenta a sua sorte negociando com um carpinteiro uma caixa para a sua presum&iacute;vel morte, que lhe proporcionaria tamb&eacute;m a liberdade. Mas a caixa acaba por ser uma pris&atilde;o, ao transformar-se na sua &uacute;ltima morada. Em Hitchcock, em <i>bunkers</i>, ou nos contos da Bela Adormecida ou do Dr&aacute;cula, a caixa &eacute; sempre um local transit&oacute;rio onde o corpo permanece, para depois voltar &agrave; liberdade da vida.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2.4 A Caixa Pris&atilde;o</b></p>     <p>Como no filme de Hitchcock, &eacute; f&aacute;cil associar a caixa a pris&otilde;es, a celas, a jaulas, &agrave; restri&ccedil;&atilde;o da liberdade de um corpo, ao seu encerramento num espa&ccedil;o confinado, a um limite for&ccedil;ado. &Eacute; disto exemplo extremo as caixas/pris&atilde;o da Mong&oacute;lia. Nestas pequenas caixas os prisioneiros apenas tinham a cabe&ccedil;a e as m&atilde;os de fora. Ao contr&aacute;rio do caix&atilde;o em que o corpo repousa confortavelmente direito, como se estivesse a dormir, estas caixas remetem-nos para um malabarismo contorcionista de tortura, de morte. Algumas pris&otilde;es t&ecirc;m &quot;caixas solit&aacute;rias,&quot; como por exemplo a pris&atilde;o de <i>San Quentin State</i>, na California. Estas caixas/ celas tornam-se aut&ecirc;nticas jaulas, que aprisionam o corpo na sua dignidade e liberdade de movimentos. As caixas/pris&atilde;o da Mong&oacute;lia ou da Calif&oacute;rnia, s&atilde;o tudo menos caixas de esperan&ccedil;a.</p>     <p>No s&eacute;culo XX, Harry Houdini tornou-se popular ao representar atrav&eacute;s de n&uacute;meros de magia, a proeza de conseguir escapar de uma caixa em que voluntariamente, e aos olhos de todos, se aprisiona. Houdini encena algo muito antigo: a esperan&ccedil;a de liberta&ccedil;&atilde;o, de uma caixa que nos aprisiona e que nos pode matar. Ao sair Houdini encena a possibilidade da liberta&ccedil;&atilde;o para uma nova vida.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2.5 A Caixa M&aacute;gica</b></p>     <p>Sempre existiu uma certa fixa&ccedil;&atilde;o por caixas em espect&aacute;culos de magia. S&atilde;o disto exemplo os espect&aacute;culos de Howard Thurston e P.T. Selbit, onde uma bela mulher &eacute; colocada dentro de uma caixa, para depois, ap&oacute;s ser cortada, sair ilesa. Uma bela mulher dentro de uma caixa remete-nos para o conto das Mil e Uma Noites, neste caso associado ao desejo sexual e ao mal que da&iacute; adv&eacute;m. Na hist&oacute;ria, um gigante transporta uma caixa de onde sai uma linda mulher. Sedutora, leva os dois reis a ter rela&ccedil;&otilde;es sexuais com ela, mesmo contra a sua vontade. &Eacute; a partir deste epis&oacute;dio, desencadeado pela mulher da caixa, que muitas jovens mulheres ir&atilde;o morrer ap&oacute;s terem sido violadas.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A caixa associada &agrave; mulher, e a poderes destruidores, &eacute; tamb&eacute;m observ&aacute;vel no mito de Pandora. Pandora, uma magn&iacute;fica mulher, fruto do fabrico dos Deuses, continha todas as virtudes de beleza que &eacute; poss&iacute;vel imaginar. (Panovsky & Panovsky, 1991). Por&eacute;m, Pandora &eacute; incumbida de uma terr&iacute;vel tarefa: levar uma caixa de presente a Prometeu. Esta caixa, &eacute; por si s&oacute; desencadeadora de desejo. A curiosidade de saber o que est&aacute; l&aacute; dentro, leva a espalhar todos os males no mundo. Felizmente para n&oacute;s ficou a esperan&ccedil;a, a &uacute;nica que n&atilde;o saiu da caixa.</p>     <p>Nestas duas hist&oacute;rias, a caixa, al&eacute;m de associada &agrave; mulher e ao desejo, est&aacute; tamb&eacute;m associada a gerar o mal. No entanto, no mito de Pandora, &eacute; tamb&eacute;m a caixa que oferece a &uacute;nica possibilidade de salva&ccedil;&atilde;o: a esperan&ccedil;a.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Conclus&atilde;o</b></p>     <p>As caixas de Em&iacute;lia Nadal s&atilde;o mundos onde voluntariamente se aprisiona. Como casas, estas caixas s&atilde;o locais de seguran&ccedil;a e protec&ccedil;&atilde;o, resguardadas do mundo exterior, onde nos &eacute; permitido entrar, ou pelo menos observar. Em cada caixa observamos uma esp&eacute;cie de palco, com uma &uacute;nica cena, &iacute;ntima, feminina e misteriosa, suspensa no tempo. Estas caixas s&atilde;o tamb&eacute;m m&aacute;gicas, flutuam entre a terra e o c&eacute;u, s&atilde;o caixas de esperan&ccedil;a. Como nos diz Em&iacute;lia Nadal: "A linguagem da arte &eacute; a que melhor exprime e evidencia a rela&ccedil;&atilde;o de uma cultura com o sagrado." (<i>Imagens do Sagrado</i>, 1989:3) Por&eacute;m, "as nossas imagens interiores nem sempre s&atilde;o de natureza individual" (Belting, 2014:33), pois estas est&atilde;o imbu&iacute;das numa cultura colectiva muito mais vasta e profunda do que &agrave; partida se poderia imaginar. &Eacute; assim que as caixas de Em&iacute;lia Nadal, nos encenam a profundidade do ser humano ao longo dos tempos, desde &Ccedil;atal H&uuml;y&uuml;k ao mito de Pandora.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Arnheim, R. (1991). Outer Space and Inner Space. <i>Leonardo.</i> Vol. 24, Number 1, 73,74.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1466092&pid=S1647-6158201900020000600001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Augusto-Fran&ccedil;a, J. (2015). <i>Guerra e Paz</i>. Jarz&eacute;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1466094&pid=S1647-6158201900020000600002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->.</p>     <!-- ref --><p>Belting, H. (2014). <i>Antropologia da Imagem</i> (KKYM &#43; EAU). Lisboa.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1466096&pid=S1647-6158201900020000600003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Cruz Pinto, J. F. da. (1998). <i>La caja el espacio-limite &#8212; la idea de caja en momentos de la arquitectura portuguesa</i>. Universidade Politecnica de Madrid, Escuela Tecnica Superior de Arquitectura.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1466098&pid=S1647-6158201900020000600004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Louren&ccedil;o, E., & Nadal, E. (1989). <i>Imagens do Sagrado</i>. Lisboa: Funda&ccedil;&atilde;o Calouste Gulbenkian &ndash; Centro de Arte Moderna.</p>     <!-- ref --><p>Panovsky, D., & Panovsky, E. (1991). <i>Pandora&quot;s Box: The changing aspects of a mytical symbol</i>. New Jersey: Princeton University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1466101&pid=S1647-6158201900020000600006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Reader, J. (2004). <i>Cities</i>. London: William Heineman.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1466103&pid=S1647-6158201900020000600007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Rio-Carvalho, M. (1986). <i>Em&iacute;lia Nadal</i>. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1466105&pid=S1647-6158201900020000600008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Artigo completo submetido a 2 de Janeiro de 2019 e aprovado a 21 janeiro de 2019</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:saraantunesc@gmail.com">saraantunesc@gmail.com</a> (Sara Antunes Costa)</p>      ]]></body><back>
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