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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Tempo, Memória e Palimpsesto na obra de Sônia Gomes]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Time, Memory and palimpsest in Sonia Gomes's work]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The text focuses on the creative and artistic process of the Brazilian artist Sônia Gomes whose work is born from the rescue of textiles and other "found" materials such as paper, cardboard, trunks, roots, wire, etc. Through the artist's gesture these "waste" materials know a new existence as objects of art, embedded with memory. Tying or sewing garments, fabrics, embroidery and other materials, the artist summons its existential dimension; its cycles of use, particular links with its owner, make these pieces a palimpsest that interweaves successive layers of time-meaning.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS ORIGINAIS</b></p>     <p align="right"><b>ORIGINAL ARTICLES</b></p>     <p><b>Tempo, Mem&oacute;ria e Palimpsesto na obra de S&ocirc;nia Gomes</b></p>     <p><b>Time, Memory and palimpsest in Sonia Gomes's work</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Teresa Isabel Matos Pereira&#42;</b></p>     <p>&#42;Portugal, artista pl&aacute;stica.</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Professora na Escola Superior de Educa&ccedil;&atilde;o do Instituto Polit&eacute;cnico de Lisboa (ESE-IPL), CIED (Centro Interdisciplinar de Estudos Educacionais &#8212; Escola Superior de Educa&ccedil;&atilde;o de Lisboa) e Universidade de Lisboa, Faculdade de Belas-Artes (FBAUL), Centro de investiga&ccedil;&atilde;o e Estudos em Belas Artes (CIEBA). Largo da Academia Nacional de Belas Artes 14, 1249-058 Lisboa, Portugal. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO: </b></p>     <p>O texto incide sobre o processo criativo e art&iacute;stico da artista brasileira S&ocirc;nia Gomes cuja obra nasce do resgate de mat&eacute;rias t&ecirc;xteis, e outros materiais "encontrados" como papel, cart&atilde;o, troncos, ra&iacute;zes, arame, etc. Atrav&eacute;s do gesto da artista este materiais de "res&iacute;duo" conhecem uma nova exist&ecirc;ncia enquanto objetos de arte, imbu&iacute;dos de mem&oacute;ria. Amarrando ou costurando as pe&ccedil;as de vestu&aacute;rio, tecidos, bordados e outras mat&eacute;rias, a artista convoca a dimens&atilde;o vivencial de cada elemento. Os seus ciclos de uso, liga&ccedil;&otilde;es particulares com o seu propriet&aacute;rio, tornam as suas pe&ccedil;as, um palimpsesto que entrela&ccedil;a sucessivas camadas de tempo-significado.</p>     <p><b>Palavras chave: </b>Arte T&ecirc;xtil / Apropria&ccedil;&atilde;o / Palimpsesto / Tempo.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT: </b></p>     <p>The text focuses on the creative and artistic process of the Brazilian artist S&ocirc;nia Gomes whose work is born from the rescue of textiles and other "found" materials such as paper, cardboard, trunks, roots, wire, etc. Through the artist's gesture these "waste" materials know a new existence as objects of art, embedded with memory. Tying or sewing garments, fabrics, embroidery and other materials, the artist summons its existential dimension; its cycles of use, particular links with its owner, make these pieces a palimpsest that interweaves successive layers of time-meaning.</p>     <p><b>Keywords: </b><i>Textile Art / Appropriation / Palimpsest / Time.</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>S&oacute;nia Gomes (n. Caetan&oacute;polis &ndash; Minas Gerais, 1948) vive e trabalha em Belo Horizonte. Possuindo uma forma&ccedil;&atilde;o inicial em Direito, a artista frequentou um curso livre de arte na Escola Guignard a partir do meio da d&eacute;cada de noventa do s&eacute;culo XX. Desenvolve desde ent&atilde;o um percurso singular que conta com v&aacute;rias exposi&ccedil;&otilde;es individuais e coletivas (EUA, Alemanha ou Dinamarca, entre outras) bem como uma representa&ccedil;&atilde;o na 56&ordm; Bienal de Veneza, em 2015. Apresenta, atualmente e at&eacute; 10 de mar&ccedil;o de 2019, no Museu de Arte de S. Paulo uma exposi&ccedil;&atilde;o monogr&aacute;fica intitulada "Ainda assim eu me levanto".</p>     <p>O trabalho de S&oacute;nia Gomes resulta de um gesto de resgate de mat&eacute;rias t&ecirc;xteis e outros materiais "encontrados" como papel, cart&atilde;o, troncos, ra&iacute;zes, arame, etc. aos quais imprime uma nova exist&ecirc;ncia enquanto objetos de arte, imbu&iacute;dos de mem&oacute;ria. Atrav&eacute;s da liga&ccedil;&atilde;o de pe&ccedil;as de vestu&aacute;rio, tecidos, bordados e outras mat&eacute;rias, a artista apela a uma dimens&atilde;o vivencial de cada elemento com os seus ciclos de uso, liga&ccedil;&otilde;es particulares com o seu propriet&aacute;rio, construindo a cada pe&ccedil;a, um palimpsesto que entrela&ccedil;a sucessivas camadas de tempo-significado. Trabalhando "com o que tem" S&oacute;nia Gomes desenvolve um processo criativo que mergulha no di&aacute;logo com os materiais e com um fazer artesanal. Os n&oacute;s, as amarra&ccedil;&otilde;es, as tor&ccedil;&otilde;es, a costura, a assemblagem ou a colagem configuram corpos escult&oacute;ricos que ocupam o espa&ccedil;o como presen&ccedil;as po&eacute;ticas materializando identidades, hist&oacute;rias de vida, valores art&iacute;sticos, culturais e pol&iacute;ticos que remetem para o substrato cultural africano da cultura brasileira.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>1. Interfer&ecirc;ncias</b></p>     <p>A viv&ecirc;ncia num centro de produ&ccedil;&atilde;o t&ecirc;xtil, associada a uma tradi&ccedil;&atilde;o do uso do tecido como elemento simultaneamente funcional e simb&oacute;lico, s&atilde;o apresentadas pela artista como aspetos fundadores de um percurso que passou pelo adorno do corpo &agrave; instala&ccedil;&atilde;o espacial.</p>     <p>As "interfer&ecirc;ncias" que realizava nas pr&oacute;prias roupas surgem como espa&ccedil;o de cria&ccedil;&atilde;o, comprometida com o ato de comunicar uma diferencia&ccedil;&atilde;o individual, gradualmente ultrapassam o adorno corporal e invadem o espa&ccedil;o, mantendo, contudo, um feixe de liga&ccedil;&otilde;es entre as fun&ccedil;&otilde;es simb&oacute;lica/ornamental/ utilit&aacute;ria do t&ecirc;xtil.</p>     <p>Na verdade, as dimens&otilde;es comunicacional, (co)memorativa, ornamental ou de prote&ccedil;&atilde;o fundem-se com no ato de constru&ccedil;&atilde;o do objeto pl&aacute;stico e incutem-lhe uma espessura de sentido que acresce &agrave; densidade formal da composi&ccedil;&atilde;o. Este ato de constru&ccedil;&atilde;o resulta, paradoxalmente, da descontextualiza&ccedil;&atilde;o e desconstru&ccedil;&atilde;o de uma estrutura pr&eacute;via das mat&eacute;rias t&ecirc;xteis que lhe est&atilde;o na origem.</p>     <p>A apropria&ccedil;&atilde;o de pe&ccedil;as de vestu&aacute;rio, bot&otilde;es, fragmentos de rendas, bordados, tric&ocirc;, ou croch&ecirc; apresenta-se como uma estrat&eacute;gia que permite evocar as v&aacute;rias temporalidades que impregnam cada elemento material, as suas "energias" intr&iacute;nsecas. Trata-se igualmente de afirmar o processo criativo como resultado de uma sequ&ecirc;ncia de encontros &#8212; com os materiais, com as formas, com as t&eacute;cnicas de constru&ccedil;&atilde;o, com o espa&ccedil;o existencial da obra &#8212; que, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, marca indelevelmente a po&eacute;tica da artista.</p>     <p>&Agrave; verdade dos materiais, entendida na sua fisicalidade e tecnicidade do fazer, associam-se assim camadas de significado como a i) mem&oacute;ria de um corpo ausente, que j&aacute; habitou as pe&ccedil;as de roupa utilizadas pela artista; a ii) cria&ccedil;&atilde;o de outros corpos que nascem da (re)significa&ccedil;&atilde;o dos elementos utilizados; ou iii) o di&aacute;logo entre as formas e o espa&ccedil;o, atrav&eacute;s de um jogo de escalas, equil&iacute;brio de pesos e massas escult&oacute;ricas, vazios, corpos suspensos ou corpos rastejantes que se situam entre a parede e o espa&ccedil;o vivencial.</p>     <p>A pe&ccedil;a <i>Mem&oacute;ria</i> de 2004 (<a href="#f1">Figura 1</a>) nasce da desconstru&ccedil;&atilde;o de pe&ccedil;as t&ecirc;xteis e recomposi&ccedil;&atilde;o atrav&eacute;s de costura, tor&ccedil;&otilde;es e n&oacute;s, formando uma composi&ccedil;&atilde;o marcada pela cad&ecirc;ncia das cores, texturas e linhas bordadas que evocando a imagem de um estendal de roupa, presentifica um corpo ausente e torna tang&iacute;vel a espessura temporal de cada pe&ccedil;a. Nas palavras da artista, "cada item carrega a hist&oacute;ria de seu doador" (Gomes, apud. Colimore 2018), e assumindo-se enquanto princ&iacute;pio essencial ao desenvolvimento do processo criativo no qual a a&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica assume a "hist&oacute;ria que vem com a mem&oacute;ria do tecido." (Gomes, 2018). Na verdade, o tecido do vestu&aacute;rio carrega consigo um conjunto de mem&oacute;rias perpassam os dom&iacute;nios sensorial, social e cultural, desde a liga&ccedil;&atilde;o &iacute;ntima &agrave; pele como elemento de prote&ccedil;&atilde;o, indicador de um estatuto social, ou afirma&ccedil;&atilde;o de valores e princ&iacute;pios de natureza cultural e identit&aacute;ria.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v10n26/10n26a10f1.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Nos anos seguintes a artista ir&aacute; aprofundar estes processos de desconstru&ccedil;&atilde;o/transforma&ccedil;&atilde;o em pe&ccedil;as como <i>Dan&ccedil;a</i> (<a href="#f2">Figura 2</a>) de 2008, <i>Tantas hist&oacute;rias</i> (2015) ou <i>Tecendo Amanh&atilde; I</i> de 2016 (<a href="#f3">Figura 3</a>) onde as composi&ccedil;&otilde;es ganham um sentido de movimento e dinamismo atrav&eacute;s da justaposi&ccedil;&atilde;o de &aacute;reas vazias, zonas que invadem o espa&ccedil;o tridimensional, ou fios que se soltam e contrabalan&ccedil;am subtilmente os corpos de tecido. Simultaneamente parecem estar inacabadas, como parte de um processo em curso. Invertem a imagem de acabamento/perfei&ccedil;&atilde;o do trabalho t&ecirc;xtil, complexificam uma dimens&atilde;o temporal apontando um tempo futuro e tornam-se fragmentos de um sistema poliss&eacute;mico, aberto a m&uacute;ltiplas vozes/tempos.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v10n26/10n26a10f2.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v10n26/10n26a10f3.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2</b><i><b>. M&atilde;os de ouro</b></i></p>     <p>O livro de artista, (<a href="#f4">Figura 4</a>, <a href="#f5">Figura 5</a>), intitulado "M&atilde;os de Ouro" (2008) criado a partir da enciclop&eacute;dia hom&oacute;nima de lavores femininos, apresenta-se como suporte de indaga&ccedil;&atilde;o acerca das liga&ccedil;&otilde;es entre as difus&atilde;o da aprendizagem no dom&iacute;nio das t&eacute;cnicas t&ecirc;xteis, as representa&ccedil;&otilde;es sociais da mulher, os processos de desconstru&ccedil;&atilde;o, apropria&ccedil;&atilde;o e constru&ccedil;&atilde;o de um discurso pl&aacute;stico que &eacute; simultaneamente um discurso cr&iacute;tico.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <a name="f4"><img src="/img/revistas/est/v10n26/10n26a10f4.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f5"><img src="/img/revistas/est/v10n26/10n26a10f5.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>O livro-objeto (&uacute;nico), tendo como suporte o manual t&eacute;cnico (de tiragem m&uacute;ltipla, publicado em fasc&iacute;culos semanais nas d&eacute;cadas de 60 e 70 do s&eacute;culo XX), &eacute; constru&iacute;do atrav&eacute;s do desenho, colagem/ assemblagem de materiais como tecidos, rendas, bordados, num processo criativo baseado, em primeiro lugar no di&aacute;logo entre o grafismo da revista original e os materiais/texturas/ imagens adicionados. Num segundo momento, a apropria&ccedil;&atilde;o de um suporte reconhecido como meio de divulga&ccedil;&atilde;o e aprendizagem t&eacute;cnica, surge como estrat&eacute;gia simultaneamente discursiva e pl&aacute;stica que resulta na cria&ccedil;&atilde;o do artefacto atrav&eacute;s da subvers&atilde;o e reconfigura&ccedil;&atilde;o da regra inicialmente imposta pelo discurso original da enciclop&eacute;dia. Esta dupla camada imposta pela assemblagem de materiais e reconfigura&ccedil;&atilde;o do grafismo remete-nos para uma dimens&atilde;o mais ampla das dicotomias estabelecidas pelo discurso hist&oacute;rico entre arte erudita, arte popular e arte decorativa. Esta vis&atilde;o dicot&oacute;mica, desmantelada a partir da d&eacute;cada de 70 do s&eacute;culo XX pela cr&iacute;tica p&oacute;s-moderna, p&oacute;s-colonial e feminista, deixou as suas marcas, tanto no discurso cr&iacute;tico como no pr&oacute;prio discurso est&eacute;tico-art&iacute;stico. Neste sentido, s&atilde;o variadas as modalidades de apropria&ccedil;&atilde;o do t&ecirc;xtil como suporte pl&aacute;stico-discursivo com vista a criticar rela&ccedil;&otilde;es de poder e/ou de g&eacute;nero. Em S&oacute;nia Gomes, o processo de pensar plasticamente o livro-artefacto remete tanto para a funcionalidade inicial de divulga&ccedil;&atilde;o de conhecimento t&eacute;cnico, a autorreferencialidade aos processos, como para a sua subvers&atilde;o enquanto discurso "educador"; este, comprometido com um determinado modelo de sociedade, onde o papel da mulher &eacute; remetido para o espa&ccedil;o dom&eacute;stico, resultando numa quase invisibilidade enquanto agente social, com capacidade de motivar a transforma&ccedil;&atilde;o. Na verdade, a pe&ccedil;a "M&atilde;os de Ouro" permite problematizar as constru&ccedil;&otilde;es de g&eacute;nero e rela&ccedil;&otilde;es de poder cristalizadas em diversos discursos (verbais e visuais) ao longo do s&eacute;culo XX, como se de um palimpsesto se tratasse. Num primeiro substrato surge o discurso escrito e visual que domestica o trabalho da mulher (n&atilde;o s&oacute; atrav&eacute;s da regra t&eacute;cnica mas tamb&eacute;m das iconografias como parte integrante de um gosto e est&eacute;tica "feminina"). Uma segunda camada comp&otilde;em-se de uma dimens&atilde;o autorreferencial visando o discurso "educador", atrav&eacute;s das t&eacute;cnicas, mat&eacute;rias e padr&otilde;es t&ecirc;xteis utilizados. Finalmente, uma terceira camada, que estabelece um contrapondo e paradoxo com as anteriores atrav&eacute;s da acumula&ccedil;&atilde;o, aparentemente intuitiva de fragmentos materiais e gr&aacute;ficos que parece subverter a racionalidade, medida e funcionalidade do suporte original. No seu conjunto s&atilde;o convocadas v&aacute;rias camadas de sentido que transportam em si mesmas, as marcas do tempo culturalizado e socializado, mas tamb&eacute;m do tempo materializado no processo criativo e ato de fazer que estiveram na origem da obra.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>3. &Agrave; margem</b></p>     <p>A assemblagem como estrat&eacute;gia de apropria&ccedil;&atilde;o-transforma&ccedil;&atilde;o e a intui&ccedil;&atilde;o como germe criativo (ao inv&eacute;s da regra aprendida na academia) s&atilde;o declarados pela artista como princ&iacute;pios fundadores da sua pr&aacute;tica. Afirma-se como uma figura "marginal" ao <i>mainstream</i> art&iacute;stico, que intercala vida e obra num processo cont&iacute;nuo de autorreferencialidade e intersubjetividade j&aacute; que, nas suas palavras:</p>     <p>    <blockquote><i>Minha obra &eacute; negra, &eacute; feminina e &eacute; marginal. Sou uma rebelde. Nunca me preocupei em mascarar ou asfixiar qualquer coisa que pudesse ou n&atilde;o se encaixar nos padr&otilde;es do que se entende por arte. Sempre busquei um n&atilde;o conformismo frente ao que est&aacute; estabelecido. Tive de superar muitos obst&aacute;culos porque sou uma mulher, porque sou negra e porque era muito velha para ser considerada um dos jovens talentos brasileiros da arte</i>. (Gomes, 2018, apud Collymore)</blockquote></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A forma como a artista se descreve a si pr&oacute;pria e ao seu percurso, incarnam a imagem de uma <i>outsider</i>, nos termos tra&ccedil;ados por autores como Colin Rhodes: de algu&eacute;m que foge aos par&acirc;metros de normalidade defendidos pela cultura dominante. (Rhodes, 2002:7). Esta normalidade visa n&atilde;o s&oacute; a dimens&atilde;o comportamental mas igualmente o g&eacute;nero, o lugar na sociedade ou apenas a forma&ccedil;&atilde;o. Neste sentido, o sistema dominante imp&ocirc;s uma l&oacute;gica de divis&atilde;o entre um centro, ocupado pela arte "erudita"&ndash; ensinada nas academias &#8212; e um espa&ccedil;o marginal, perif&eacute;rico, ocupado por um conjunto de outras express&otilde;es como as artes "populares", "decorativas", "arte africana", arte realizada por mulheres, criminosos doentes mentais, etc. que resulta do autodidatismo em modalidades de aprendizagem n&atilde;o formal ou informal. Contudo, olhares mais atentos acerca da produ&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica do s&eacute;culo XX viriam a revelar as m&uacute;ltiplas inter-sec&ccedil;&otilde;es entre estes v&aacute;rios dom&iacute;nios (artificialmente tecidos pela historiografia ocidental) e a porosidade entre as suas hipot&eacute;ticas fronteiras, que viriam a culminar na ideia de hibrida&ccedil;&atilde;o como principio fundador da arte contempor&acirc;nea. O relato que a artista apresenta acerca da rece&ccedil;&atilde;o inicial da sua obra, apontada como sendo<i>" coisa de doidos &hellip; coisa de negro</i>" (Gomes, 2012) &eacute; um indicador claro desta conce&ccedil;&atilde;o centralizadora do campo art&iacute;stico, ao qual se acrescenta a sua dificuldade em enquadrar-se e cumprir o programa acad&eacute;mico de desenho quando ingressa na escola Guignard. Ao inv&eacute;s da aprendizagem acad&eacute;mica, formal, procurou adquirir conhecimento de modo flu&iacute;do, que fosse de encontro aos seus processos criativos e po&eacute;tica individual (filtrada a partir de um universo de refer&ecirc;ncias populares de matriz afro-brasileira) e desaguando num contato com a arte contempor&acirc;nea enquanto espa&ccedil;o multidimensional, que permitiu perspetivar-se enquanto artista pl&aacute;stica.</p>     <p>O sentido intuitivo e pulsional da composi&ccedil;&atilde;o percebe-se a partir do formalismo das s&eacute;ries escult&oacute;ricas como <i>Tor&ccedil;&atilde;o</i> de 2015 onde a obra nasce numa estreita liga&ccedil;&atilde;o aos processos manuais de constru&ccedil;&atilde;o, no &acirc;mbito dos quais se imp&otilde;em as qualidades f&iacute;sicas, expressivas e pl&aacute;sticas da mat&eacute;ria. Estas pe&ccedil;as (<a href="#f6">Figura 6</a> e <a href="#f7">Figura 7</a>) tornam tang&iacute;veis o movimento e o gesto que lhes d&aacute; forma atrav&eacute;s da sinuosidade das linhas, do jogo de cheios e vazios, do equil&iacute;brio de for&ccedil;as e dos poss&iacute;veis di&aacute;logos quer com o espa&ccedil;o quer com quem as observa. Inscrevem-se num registo poliss&eacute;mico onde a policromia, os processos de amarrar, de unir, costurar, entran&ccedil;ar, torcer ou misturar, configuram n&atilde;o s&oacute; o fazer art&iacute;stico mas traduzem um fundo simb&oacute;lico, po&eacute;tico e cultural mais amplo e enraizado na diversidade cultural brasileira.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f6"><img src="/img/revistas/est/v10n26/10n26a10f6.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f7"><img src="/img/revistas/est/v10n26/10n26a10f7.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Refer&ecirc;ncias &agrave; cultura afro-brasileira s&atilde;o recorrentes na obra da artista, entendidas como afirma&ccedil;&atilde;o de perten&ccedil;a e mem&oacute;ria que se materializam por exemplo na s&eacute;rie <i>Patu&aacute;</i>, de 2016 (<a href="#f8">Figura 8</a> e <a href="#f9">Figura 9</a>). Esta &eacute; composta por pe&ccedil;as escult&oacute;ricas, bolbosas, constru&iacute;das atrav&eacute;s da conjuga&ccedil;&atilde;o de tecidos, rendas, bordados ou outros materiais que remetem diretamente para os amuletos utilizados no candombl&eacute;, sendo complementada por pe&ccedil;as como <i>Orat&oacute;rio</i>, <i>Oferenda</i> (<a href="#f10">Figura 10</a>) <i>Santa,</i> etc. que evocam a simbiose entre espiritualidade e fisicalidade. A mistura de diferentes realidades (materiais e simb&oacute;licas) configura-se como cerne destas pe&ccedil;as nas quais os materiais transportam consigo a mem&oacute;ria da fabrica&ccedil;&atilde;o, dos uso(s) e do(s) tempo(s) e juntos perfazem o inicio de outra exist&ecirc;ncia. S&atilde;o tamb&eacute;m objetos carregados de energias que adv&ecirc;m da sua hist&oacute;ria de vida, da sua natureza comp&oacute;sita e que se perpetua no tempo e no espa&ccedil;o, sob a configura&ccedil;&atilde;o de objeto de arte.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f8"><img src="/img/revistas/est/v10n26/10n26a10f8.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f9"><img src="/img/revistas/est/v10n26/10n26a10f9.jpg"></a>     
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f10"><img src="/img/revistas/est/v10n26/10n26a10f10.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Nota Final</b></p>     <p>Na obra de S&oacute;nia Gomes, o material n&atilde;o sofre a obsolesc&ecirc;ncia e a morte mas "vive em outro corpo", o corpo do objeto de arte. A artista sublinha que este processo de apropria&ccedil;&atilde;o nada tem a ver com reciclagem, sendo, nas suas palavras "um trabalho inconsciente que transita por todas as linguagens" (Gomes, 2012) e que &eacute; consumado no ato de fazer, na manipula&ccedil;&atilde;o das mat&eacute;rias, no exerc&iacute;cio formal da composi&ccedil;&atilde;o pl&aacute;stica. As pe&ccedil;as t&ecirc;xteis agregam rela&ccedil;&otilde;es de g&eacute;nero e de poder. Remetem por um lado, para uma invisibilidade social da mulher, no &acirc;mbito da qual as atividades artesanais ligadas ao t&ecirc;xtil assumem uma dimens&atilde;o simultaneamente utilit&aacute;ria e simb&oacute;lica, e por outro, para uma vis&atilde;o hegem&oacute;nica do campo art&iacute;stico, disseminada pela hist&oacute;ria da arte ocidental e que define uma hierarquiza&ccedil;&atilde;o entre "arte erudita", "arte popular", "arte africana", remetendo estas &uacute;ltimas para um espa&ccedil;o perif&eacute;rico, marginal.</p>     <p>A obra de S&oacute;nia Gomes vem questionar hierarquias, revelando a porosidade existente entre categorias que, de forma artificial, informaram as perce&ccedil;&otilde;es acerca do que &eacute; ou n&atilde;o arte. Assumindo-se como uma <i>outsider</i>, a artista desenvolve um processo de trabalho onde a composi&ccedil;&atilde;o pl&aacute;stica incorpora um saber-fazer intuitivo, experimentalismo, um s&oacute;lido universo de refer&ecirc;ncias visuais, sensoriais e culturais que culminam em pe&ccedil;as aparentemente "imperfeitas" subvertendo uma imagem da "arte erudita" e convocando a uma observa&ccedil;&atilde;o ativa por parte do p&uacute;blico.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Bispo, Alexandre Araujo (2015). <i>M&atilde;os de ouro: a tecelagem da mem&oacute;ria na obra de S&ocirc;nia Gomes</i>. &#91;Consultado em 4 de dezembro de 2018&#93;. Dispon&iacute;vel em <a href="http://www.omenelick2ato.com/artes-plasticas/213" target="_blank">http://www.omenelick2ato.com/artes-plasticas/213</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1466496&pid=S1647-6158201900020001000001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Collymore, Nan (2018). <i>Sonia Gomes:Minha obra &eacute; negra, feminina e marginal.</i> In C&Amenerica Latina. &#91;s&iacute;tio&#93; &#91;Consultado em 30 de outubro de 2018&#93; Dispon&iacute;vel em : <a href="http://amlatina.contemporaryand.com/pt/editorial/my-work-is-black-feminine-and-marginal-sonia-gomes/" target="_blank">http://amlatina.contemporaryand.com/pt/editorial/my-work-is-black-feminine-and-marginal-sonia-gomes/</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1466497&pid=S1647-6158201900020001000002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Gomes, S&oacute;nia (2012). <i>O Chamado.</i> &#91;video&#93; Dispon&iacute;vel em: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=vV3Mj5x0pvo" target="_blank">https://www.youtube.com/watch?v=vV3Mj5x0pvo</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1466498&pid=S1647-6158201900020001000003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Gomes, Sonia (2018) <i>Atelier do Artista: S&oacute;niaGomes.</i> &#91;video&#93; Dispon&iacute;vel em: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=JoHMrbEWnZ4&fbclid=IwAR1UmGjC0F4uyRnmV-yVMnsdHllAZbSPmna7FiTiCOdtlYPeqPOaxMuSgOs" target="_blank">https://www.youtube.com/watch?v=JoHMrbEWnZ4&fbclid=IwAR1UmGjC0F4uyRnmV-yVMnsdHllAZbSPmna7FiTiCOdtlYPeqPOaxMuSgOs</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1466499&pid=S1647-6158201900020001000004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Gomes, Sonia. (s/d) Art load: S&ocirc;nia Gomes. &#91;video&#93;. Dispon&iacute;vel em <a href="http://artload.com/pt/video/sonia-gomes" target="_blank">http://artload.com/pt/video/sonia-gomes</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1466500&pid=S1647-6158201900020001000005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Rhodes, Colin (2002) <i>Outsider Ar: Alternativas espont&aacute;neas</i>. Barcelona: Destino.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1466501&pid=S1647-6158201900020001000006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Artigo completo submetido a 03 de janeiro de 2019 e aprovado a 28 janeiro 2019.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:tpereira@eselx.ipl.pt">tpereira@eselx.ipl.pt</a> (Teresa Isabel Matos Pereira)</p>      ]]></body><back>
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