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<journal-title><![CDATA[GOT, Revista de Geografia e Ordenamento do Território]]></journal-title>
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<article-id pub-id-type="doi">10.17127/got/2018.13.009</article-id>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A evolução da cidade e a transformação da prática e do significado do caminhar]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[The city's evolution and the transformation of the walking practice and meaning]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The use of walking in the city is approached as a dynamic practice, paradigmatic of the transformation of the social and territorial European city. Although each city is unique, it is intended in this study to address global directions of the walking pratice evolution in the city, with emphasis on the evolution of the meaning of the walking practice. Finally, we focus on the importance of this, in the contemporary society.]]></p></abstract>
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<kwd lng="en"><![CDATA[european cities]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGO</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>A evolu&ccedil;&atilde;o da cidade e a transforma&ccedil;&atilde;o da pr&aacute;tica e do significado do caminhar</b></p>     <p><b>The city's evolution and the transformation of the walking practice and meaning</b></p>     <p><b>&nbsp;</b></p>     <p><b>Gomes, Maria</b><sup>1</sup></p>     <p><sup>1</sup> Faculdade de Ci&ecirc;ncias Sociais e Humanas &ndash; Universidade Nova de Lisboa| Centro Interdisciplinar de Ci&ecirc;ncias Sociais CICS.NOVA; Avenida de Berna, 26-C, 1069-061 Lisboa, Portugal; <a href="mailto:mjoaomgomes@yahoo.com">mjoaomgomes@yahoo.com</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O presente artigo aborda o uso caminhado na cidade enquanto pr&aacute;tica din&acirc;mica e paradigm&aacute;tica da transforma&ccedil;&atilde;o social e territorial da cidade europeia. Apesar de cada cidade ser &uacute;nica, pretende-se neste estudo abordar sentidos globais de evolu&ccedil;&atilde;o do caminhar na cidade, com destaque para a evolu&ccedil;&atilde;o do significado da pr&aacute;tica caminhada. Por fim, salienta-se a import&acirc;ncia deste uso na sociedade contempor&acirc;nea.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Palavras-chave</b>: cidade caminhada, pr&aacute;tica caminhada, desenvolvimento urbano, cidade europeia</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>The use of walking in the city is approached as a dynamic practice, paradigmatic of the transformation of the social and territorial European city. Although each city is unique, it is intended in this study to address global directions of the walking pratice evolution in the city, with emphasis on the evolution of the meaning of the walking practice. Finally, we focus on the importance of this, in the contemporary society.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Keywords:</b> Walked city, walking practice, urban development, european cities</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>1. Introdu&ccedil;&atilde;o<a href="#_ftn1" name="_ftnref1">[1]</a></b></p>     <p>O acto de caminhar a cidade funde-se no tempo com a g&eacute;nese de cada caminho, planeado ou n&atilde;o, que se solidificou em rua. O caminhar &eacute; a ac&ccedil;&atilde;o basilar do espa&ccedil;o p&uacute;blico urbano, geradora e gerada pelos diferentes usos da cidade.</p>     <p>Cada cidade, ao longo do tempo, evolui enquanto realidade de usos caminhados entrela&ccedil;ados &ndash; um plexo din&acirc;mico produzido pela diversidade de modos de acesso e pela constru&ccedil;&atilde;o da sua complexidade, que faz dela uma entidade &uacute;nica.</p>     <p>A especificidade do caminhar, enquanto pr&aacute;tica do atravessamento da cidade p&uacute;blica, &eacute; gerada pelo desenvolvimento sem precedentes de algumas cidades no final do s&eacute;c. XIX. Considera-se, assim, importante abordar a evolu&ccedil;&atilde;o do caminhar e do pensar o caminhar a partir desta &eacute;poca hist&oacute;rica.</p>     <p>As transforma&ccedil;&otilde;es da cidade, com &ecirc;nfase especial nas altera&ccedil;&otilde;es espaciais e tecnol&oacute;gicas ao longo do s&eacute;culo XX, infligem transforma&ccedil;&otilde;es no caminhar, induzindo-o a contrair-se ou a expandir-se, afectando a viv&ecirc;ncia e o uso dos territ&oacute;rios urbanos. Os modos de mobilidade constitu&iacute;ram (e constituem) factores fundamentais na organiza&ccedil;&atilde;o da cultura e do espa&ccedil;o da cidade.</p>     <p>Apesar de se considerar que &ldquo;<i>as cidades s&atilde;o processos hist&oacute;ricos singulares&rdquo;</i> (Lynch 1981:307), pretende-se neste estudo abordar sentidos globais de evolu&ccedil;&atilde;o do caminhar na cidade europeia, com destaque para a evolu&ccedil;&atilde;o do significado da pr&aacute;tica caminhada.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2. A cidade caminhada</b></p>     <p><b>2.1. O s&eacute;c. XIX: a t&eacute;cnica e a reinven&ccedil;&atilde;o da cidade</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No s&eacute;c. XIX, com o r&aacute;pido crescimento urbano das grandes cidades europeias, a rua transforma-se, tornando-se um local de conflu&ecirc;ncia de pessoas, tr&aacute;fego de carruagens puxadas por animais, lixo e esgotos. Com a fase madura da revolu&ccedil;&atilde;o industrial, d&aacute;-se uma mudan&ccedil;a tecnol&oacute;gica sem precedentes nas sociedades ocidentais, permitindo a melhor constru&ccedil;&atilde;o de edif&iacute;cios, infra-estruturas vi&aacute;rias ou mar&iacute;timas, sistemas de &aacute;guas e esgotos e o uso da electricidade.</p>     <p>A revolu&ccedil;&atilde;o industrial em Inglaterra e a revolu&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica em Fran&ccedil;a, cada uma de um modo diferente mas, em &uacute;ltima an&aacute;lise, interdependentes, num curto espa&ccedil;o de tempo, for&ccedil;aram novos modos de vida e de entendimento da sociedade europeia (Vidler 1991:29).</p>     <p>O conceito de rua ganha relev&acirc;ncia em diversas disciplinas: na engenharia civil (nomeadamente nas campanhas de infra-estrutura&ccedil;&atilde;o), na arquitectura e na emerg&ecirc;ncia do planeamento urbano (Gutman [1986] 1991:249).</p>     <p>A exist&ecirc;ncia de uma zona reservada ao uso pedonal adjacente ao edificado, o denominado passeio, e outra, central, para os ve&iacute;culos rodados, foi estandardizada em meados do s&eacute;c. XIX, tornando-se factor identificador do elemento rua (diferenciador entre rua e estrada) (Gutman [1986] 1991:250).</p>     <p>No final do s&eacute;c. XIX, in&iacute;cio do s&eacute;c. XX, como reac&ccedil;&atilde;o ou solu&ccedil;&atilde;o para o caos ambiental e problemas sociais, surge a implementa&ccedil;&atilde;o de medidas de higieniza&ccedil;&atilde;o das vias p&uacute;blicas, controlo de tr&aacute;fego e controlo da seguran&ccedil;a nas grandes cidades.</p>     <p>Em&nbsp; Fran&ccedil;a, Paris destaca-se a grande interven&ccedil;&atilde;o de meados do s&eacute;c. XIX: a reconstru&ccedil;&atilde;o da cidade pelo bar&atilde;o de Haussman, redefinindo o conceito de<i> boulevards</i>, gerando ruas amplas, arborizadas, que se v&atilde;o impor, at&eacute; &agrave; actualidade, enquanto espa&ccedil;o com uma voca&ccedil;&atilde;o &iacute;mpar para o uso p&uacute;blico caminhado.</p>     <p>Por sua vez, em Inglaterra &eacute; de salientar o <i>Public Act </i>(1875) e o estabelecimento da &ldquo;Bye-law&rdquo; Street Ordinance, impondo regras de uniformidade, acesso, largura, arejamento e pavimenta&ccedil;&atilde;o (Southworth e Ben-Joseph 2003:43-45). &Eacute; de destacar tamb&eacute;m,&nbsp; em Londres, integrado no esfor&ccedil;o de melhoria da qualidade da vida urbana, a constru&ccedil;&atilde;o de parques e arboriza&ccedil;&atilde;o das ruas, numa reintrodu&ccedil;&atilde;o da natureza na cidade com intuitos higi&eacute;nicos e est&eacute;ticos (Madanipour 2005:12).</p>     <p>A sociedade ocidental das grandes urbes transforma-se em termos econ&oacute;micos, com consequ&ecirc;ncias espaciais e sociais sem precedentes. Surge um novo ambiente humano, a grande cidade ou metr&oacute;pole, e com ele emergem novos tipos de comportamentos e rela&ccedil;&otilde;es entre o Homem e o meio humano e f&iacute;sico envolvente.</p>     <p>A mobilidade desenvolve-se a par da modernidade, acompanhando o surgimento da figura do cidad&atilde;o moderno. O caminhar adquire um novo significado e, acompanhando a evolu&ccedil;&atilde;o da dimens&atilde;o material, estabelecem-se novas rela&ccedil;&otilde;es com o espa&ccedil;o praticado.</p>     <p>A metamorfose do uso caminhado, a g&eacute;nese de novas formas de caminhantes surge pioneiramente em Londres e Paris do s&eacute;c. XIX, expandindo-se a diferentes velocidades para as restantes cidades europeias (Amato 2004:153).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O desenvolvimento do pedestrianismo urbano surge associado a estas infra- estruturas e &agrave; normaliza&ccedil;&atilde;o separa&ccedil;&atilde;o e pavimenta&ccedil;&atilde;o de espa&ccedil;os para o transeunte e para o tr&aacute;fego. Emerge, associado a ruas mais limpas e mais c&oacute;modas, o passear na rua; o ter prazer em caminhar a cidade, de ver e ser visto no espa&ccedil;o p&uacute;blico rua. O com&eacute;rcio promove e &eacute; promovido por essa nova pr&aacute;tica, abrindo montras apelativas aos transeuntes (Amato 2004:181).</p>     <p>O espa&ccedil;o exterior urbano, associado ao desenvolvimento e &agrave; conquista de poder pela burguesia, ganha import&acirc;ncia, tornando-se o espa&ccedil;o de conv&iacute;vio e demonstra&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica de uma sociedade moderna. A interven&ccedil;&atilde;o na cidade destaca-se pela valoriza&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica do espa&ccedil;o exterior urbano, amplas ruas arborizadas, jardins p&uacute;blicos e arte p&uacute;blica. H&aacute; uma preocupa&ccedil;&atilde;o com o detalhe das fachadas e do mobili&aacute;rio urbano. Nasce a cultura do boulevard e do seu uso caminhado, associada &agrave; cultura do com&eacute;rcio, da publicidade, a viv&ecirc;ncia das esplanadas e dos caf&eacute;s (Gribaudi 2008:29).</p>     <p>O modo de estar e de caminhar no espa&ccedil;o p&uacute;blico ganha &ecirc;nfase enquanto linguagem corporal, transmitindo uma grande variedade de sinais, seja atrav&eacute;s da postura, da passada, da velocidade, da roupa utilizada, gerando julgamentos, infer&ecirc;ncias quanto &agrave; identidade, &agrave; condi&ccedil;&atilde;o ou ao prop&oacute;sito do caminhante. Socialmente, e enquanto status, o modo de caminhar e o local onde se caminhava era uma actividade diferenciadora (Amato 2004:183). O caminhar, al&eacute;m de uma pr&aacute;tica funcional quotidiana, passa a ter uma dimens&atilde;o socialmente aceite: o uso caminhado por lazer.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2.2. O caminhar por lazer: a interpreta&ccedil;&atilde;o e descri&ccedil;&atilde;o da cidade p&uacute;blica do in&iacute;cio de s&eacute;c. XX</b></p>     <p>Diferentes escritores em diferentes cidades, com o mesmo esp&iacute;rito de deambula&ccedil;&atilde;o, constru&iacute;ram, a partir de imagens percepcionadas nas ruas, descri&ccedil;&otilde;es e an&aacute;lises do meio social urbano. Representa&ccedil;&otilde;es do espa&ccedil;o acedido que, a par da pintura da &eacute;poca, do desenvolvimento da fotografia, e dos primeiros filmes, se tornaram factores de refer&ecirc;ncia, paradigmas do uso caminhado.</p>     <p>A descri&ccedil;&atilde;o da cidade p&uacute;blica surge, no final do s&eacute;c. XIX, associada &agrave; literatura e &agrave;s descri&ccedil;&otilde;es das ruas urbanas pelos escritores. Destacam-se Georg Simmel e posteriormente Walter Benjamin em rela&ccedil;&atilde;o a Paris, Siegfried Kracauer em rela&ccedil;&atilde;o a Berlim, e por fim Stefan Zweig. Estes autores, de um modo muito pr&oacute;prio, partilham uma abordagem perceptiva e descritiva da experi&ecirc;ncia urbana na cidade moderna.</p>     <p>Assim, a par da expans&atilde;o e evolu&ccedil;&atilde;o da cidade no espa&ccedil;o, surge uma nova cultura urbana, gerada e geradora de um novo tipo de indiv&iacute;duo e de comportamento, reflexo das novas condi&ccedil;&otilde;es do meio, mais complexas e agressivas no aspecto perceptivo. Neste mundo emergente, de acordo com as descri&ccedil;&otilde;es de Georg Simmel ([1902] 1986:248-252) do in&iacute;cio do s&eacute;culo, destaca-se o indiv&iacute;duo urbano pela sua atitude an&iacute;mica, desprendida em rela&ccedil;&atilde;o aos outros e em rela&ccedil;&atilde;o ao meio; defesa racional protectora perante a viol&ecirc;ncia de est&iacute;mulos do meio circundante.</p>     <p>Simmel &eacute; pioneiro na identifica&ccedil;&atilde;o dum modo de ser e de estar associado ao meio urbano complexo da cidade moderna. A figura do caminhante errante, o estrangeiro, e o modo de articula&ccedil;&atilde;o entre proximidade e dist&acirc;ncia surgem como uma descri&ccedil;&atilde;o paradigm&aacute;tica de um novo tipo e modo de estar do ser humano: o citadino. Ou seja, o ser que usa a cidade, vivendo o prazer da liberdade (Simmel [1902] 1986:248- 252).</p>     <p>Posteriormente, &eacute; de referir Walter Benjamin e a sua obra sobre as galerias comerciais de Paris, reveladoras de uma &eacute;poca e de um modo de estar: o passeante ou o fl&acirc;neur, enquanto caminhante que imerge na multid&atilde;o, que observa sem se envolver. No mesmo sentido da obra de Simmel, ou seja, de uma descri&ccedil;&atilde;o do novo mundo social e espacial, este autor aborda a implanta&ccedil;&atilde;o da cultura material, do consumo, e o nascimento de um novo estilo de vida (Amato 2004:174; Silvano 2001:21-26).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Siegfried Kracauer, entre os anos 20 e 30 do s&eacute;c. XX, destaca-se pelo factor sens&iacute;vel na an&aacute;lise urbana, relatando a vida das ruas de Berlim, tanto nas galerias comerciais e em lobbies de hotel, como em passagens e esta&ccedil;&otilde;es de comboio, olhando, n&atilde;o s&oacute; a cultura da burguesia, mas tamb&eacute;m a cultura popular, observando rotinas e vidas comuns (Allen 2007). A experi&ecirc;ncia da cidade &eacute;, para este autor, fenomenol&oacute;gica, imediata, dispon&iacute;vel &agrave; medida que se acede a momentos vivos, din&acirc;micos, que constituem e fazem a metr&oacute;pole moderna (Allen 2007).</p>     <p>Por fim, &eacute; de mencionar ainda a obra de Stefan Zweig e as suas descri&ccedil;&otilde;es nost&aacute;lgicas do ambiente de rua europeu, destacando-se o sentimento de seguran&ccedil;a de Viena e o poder magn&eacute;tico e livre das ruas de Paris do in&iacute;cio do s&eacute;c. XX, e a desagrega&ccedil;&atilde;o desta realidade com a aproxima&ccedil;&atilde;o da primeira grande guerra. Na obra O <i>Mundo de Ontem</i>, com a edi&ccedil;&atilde;o original em 1942, o autor partilha a sua vis&atilde;o da evolu&ccedil;&atilde;o social da sociedade europeia do final do s&eacute;c. XIX at&eacute; aos anos 40 (Zweig 2014).</p>     <p>Embora de diferentes modos, e a diferentes escalas, a cidade europeia at&eacute; aos anos 40 tende a desenvolver-se a par da evolu&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica, ideol&oacute;gica ou higienista. Embora a cidade ganhe vias amplas, rectas, a altura e a decora&ccedil;&atilde;o dos edif&iacute;cios e as zonas de passeio surgem destinadas ao uso pedonal (Relph 1987). As caracter&iacute;sticas de desenvolvimento cont&iacute;nuo, associado, ou n&atilde;o, &agrave; configura&ccedil;&atilde;o em quarteir&atilde;o, mant&ecirc;m-se enquanto caracter&iacute;sticas fundamentais do crescimento urbano, gerando uma estrutura repetida, previs&iacute;vel, com acessos transversais numerosos (Ellis [1986] 1991:117).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2.3. O caminhar segmentado: o modernismo e a democratiza&ccedil;&atilde;o dos transportes</b></p>     <p>O uso caminhado, ao longo do s&eacute;c. XX, altera-se de um modo sem precedente. &Agrave; medida que surgem e se democratizam os diversos meios de transporte, o ser humano passa, no seu quotidiano, sempre que lhe seja poss&iacute;vel, a sentar-se e a conduzir ou a ser conduzido, em vez de caminhar.</p>     <p>A seguir &agrave; Segunda Guerra Mundial, a diferentes velocidades, as cidades europeias refazem-se f&iacute;sica e socialmente. Acompanhando evolu&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas construtivas, d&aacute;-se uma nova fase do desenvolvimento da cidade: o modernismo e o planeamento institucionalizado.</p>     <p>Com o novo modo de pensar a cidade pelos arquitectos e urbanistas, radicados na vis&atilde;o de Le Corbusier, a cidade surge focada, por um lado, no edif&iacute;cio enquanto entidade individual, e, por outro, no funcionamento da estrutura global enquanto regi&atilde;o urbana (Gutman [1986] 1991:251).</p>     <p>William C. Ellis ([1986] 1991:115-117) sumariza esta altera&ccedil;&atilde;o na concep&ccedil;&atilde;o da cidade com base na gera&ccedil;&atilde;o da mesma a partir de s&oacute;lidos ou de vazios; olhando a cidade tradicional como uma estrutura de espa&ccedil;os e olhando a cidade modernista como a estrutura de s&oacute;lidos. Isto &eacute;, h&aacute; uma altera&ccedil;&atilde;o da caracter&iacute;stica espacial base da cidade tradicional: a tridimensionalidade. A rua e os edif&iacute;cios s&atilde;o planeados de modo separado; os edif&iacute;cios n&atilde;o definem a rua. A unidade do edificado, equil&iacute;brio entre espa&ccedil;o e edif&iacute;cios, a exist&ecirc;ncia de frente e traseiras est&atilde;o ausentes no modelo da cidade moderna (Ellis [1986] 1991:120).</p>     <p>As cidades crescem, planeadas a grande escala, estruturam-se em fun&ccedil;&atilde;o da f&iacute;sica dos fluidos, primeiro a partir de grandes eixos assegurando altos d&eacute;bitos, em seguida em ramos secund&aacute;rios e terci&aacute;rios para distribui&ccedil;&atilde;o eficiente de pessoas e bens. O mesmo modelo repetido para as outras estruturas lineares: a rede de &aacute;guas, esgotos e electricidade (Ascher 2010). Neste sentido destaca-se o alerta de C. Alexander em 1965 com o artigo&nbsp; <i>A cidade n&atilde;o &eacute; uma &aacute;rvore</i><a href="#_ftn2" name="_ftnref2"><i><b>[2]</b></i></a>.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O uso caminhado enquanto pr&aacute;tica s&oacute;cio-espacial da cidade, dinamizada pela interconex&atilde;o, diversidade e versatilidade de oportunidades de uso, rede flex&iacute;vel de liga&ccedil;&otilde;es f&iacute;sicas e sociais, transforma-se deixando de ser omnipresente. O caminhar passa a existir para muitos no quotidiano de modo fragmentado &nbsp;no tempo e no espa&ccedil;o.</p>     <p>Fruto do modernismo e de novas formas de vida, a rua, enquanto espa&ccedil;o/conceito primordial do uso caminhado, desagrega-se conceptualmente. O caminhar transforma-se, tornando-se por vezes numa ac&ccedil;&atilde;o que se restringe a uma necessidade de aceder entre uma porta e um meio de transporte. Ou seja, o caminhar quotidiano, funcional, passou a ser segmentado, circunscrito, limitado no tempo e no espa&ccedil;o (Amato 2004:2).</p>     <p>De acordo com Edward Relph (1987), com o in&iacute;cio da paisagem urbana moderna, gera-se um descolamento da leitura directa do meio envolvente. Ou seja, o Homem passa a atravessar o espa&ccedil;o, ignorando-o. Assim, d&aacute;-se a ruptura entre espa&ccedil;o de uso comum, colectivo, e espa&ccedil;o de circula&ccedil;&atilde;o &ndash; &eacute; a progressiva passagem do espa&ccedil;o p&uacute;blico para espa&ccedil;os semip&uacute;blicos e/ou espa&ccedil;os interiores (Ellis [1986] 1991:117).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2.4. A reac&ccedil;&atilde;o ao modernismo e a valoriza&ccedil;&atilde;o da diversidade urbana</b></p>     <p>A reac&ccedil;&atilde;o ao modernismo emerge no seio da arquitectura e, paralelamente, na sociologia europeia e norte-americana. Surge assim a introdu&ccedil;&atilde;o da complexidade do multiuso da rua, da sua tridimensionalidade na discuss&atilde;o te&oacute;rica da cidade (Gutman [1986] 1991:252).</p>     <p>Em 1954, o denominado Team 10, um grupo de jovens arquitectos, dos quais se destaca o casal Alison e Peter Smithson, com o intuito preparat&oacute;rio e program&aacute;tico para o CIAM X, produz um documento denominado Declara&ccedil;&atilde;o do Habitat (revisto e publicado como o manifesto de Doorn), que se insurge contra os processos modernos de planeamento, entre outros aspectos, em defesa do ambiente humano, da comunidade social, cultural, ecol&oacute;gica, enquanto associa&ccedil;&atilde;o humana vital. Esta declara&ccedil;&atilde;o &eacute; o &uacute;ltimo manifesto do movimento moderno (Ramos 2013:162).</p>     <p>Como reac&ccedil;&atilde;o &agrave; desagrega&ccedil;&atilde;o da cidade no plano territorial e funcional, surge, nos anos 60, uma nova vis&atilde;o da cidade enquanto espa&ccedil;o de vitalidade, palco de coexist&ecirc;ncia e de interac&ccedil;&otilde;es entre desconhecidos, espa&ccedil;o &iacute;mpar de co-presen&ccedil;a e de reconhecimento da exist&ecirc;ncia do outro.</p>     <p>&Eacute; de destacar, neste &acirc;mbito, e mais precisamente da val&ecirc;ncia e riqueza da rua, o alerta de Jane Jacobs, em <i>The Death and Life of Great American Cities</i> (1961), para a morte da vida p&uacute;blica e da vitalidade urbana nas cidades norte-americanas, apan&aacute;gio da cidade tradicional. Incidindo a sua obra na realidade norte-americana, esta autora considera a destrui&ccedil;&atilde;o do urbanismo tradicional e a sua substitui&ccedil;&atilde;o pelo urbanismo modernista como respons&aacute;veis pela altera&ccedil;&atilde;o profunda do uso p&uacute;blico da cidade. Jane Jacobs considera determinante o papel do urbanismo na vida da cidade, entendendo que a vitalidade surge da densidade do edificado de baixa altura, associada &agrave; diversidade de uso num mesmo espa&ccedil;o; actividade residencial, com&eacute;rcio, escrit&oacute;rios e ind&uacute;stria, associada &agrave; heterogeneidade social. Os passeios largos e ruas estreitas, inibit&oacute;rias de velocidade, promovem o uso intenso e heterog&eacute;neo, sendo este um reflexo da vitalidade urbana.</p>     <p>Embora a realidade americana seja diferente &ndash; mais radicalizada &ndash; da realidade europeia, neste sentido &eacute; interessante a cr&iacute;tica de Herbert Gans, em 1968, a Jane Jacobs e ao seu estudo do decl&iacute;nio da vida p&uacute;blica nas grandes cidades americanas. Herbert Gans (1968:34-35) questiona a validade das premissas de Jacobs, ou seja, de que as pessoas desejam a diversidade, heterogeneidade, e que o urbanismo molda a vida e o comportamento do ser humano. Ou seja, este autor alerta que, a par da altera&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica do territ&oacute;rio, h&aacute; uma altera&ccedil;&atilde;o de desejos e oportunidades individuais, que alteraram a rela&ccedil;&atilde;o do indiv&iacute;duo com o espa&ccedil;o p&uacute;blico urbano.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>3. O territ&oacute;rio urbano ou as megacidades</b></p>     <p><b>3.1 A expans&atilde;o da condi&ccedil;&atilde;o urbana </b></p>     <blockquote>     <p><i>&ldquo;Os espa&ccedil;os s&atilde;o estranhos. Homog&eacute;neos, racionalizados, e como tal constrangem, limitam; no entanto, ao mesmo tempo totalmente deslocados. Os limites formais desaparecem entre a cidade e o campo, entre o centro e a periferia, entre sub&uacute;rbios e cidade central, entre o dom&iacute;nio dos autom&oacute;veis e o dom&iacute;nio das pessoas.&rdquo;</i><a href="#_ftn3" name="_ftnref3"><i><b>[3]</b></i></a></p>     <p>Henri Lefebvre, The Production of Space ([1974] 1991:97-98)</p> </blockquote>     <p>O processo de expans&atilde;o do territ&oacute;rio, planeado ou n&atilde;o, consolidado pela democratiza&ccedil;&atilde;o do uso autom&oacute;vel e pelas novas ambi&ccedil;&otilde;es e expectativas sociais de qualidade de vida, constitui a g&eacute;nese da urbe contempor&acirc;nea: a cidade enquanto territ&oacute;rio urbano.</p>     <p>As periferias das cidades crescem rapidamente enquanto aglomerados urbanos residenciais respondendo ao r&aacute;pido afluxo de popula&ccedil;&atilde;o &agrave; cidade.</p>     <p>A par da altera&ccedil;&atilde;o da concep&ccedil;&atilde;o espacial, tamb&eacute;m o modo de viver e as ambi&ccedil;&otilde;es da popula&ccedil;&atilde;o se alteram. Frequentemente a qualidade do espa&ccedil;o de habita&ccedil;&atilde;o ganha valor em detrimento da centralidade, aspecto promovido e promotor do uso do autom&oacute;vel e dos transportes em detrimento do uso de proximidade.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>J&aacute; em 1968 Lefebvre (2012:24) explora a nova realidade do conceito de tecido urbano, como &ndash; mais do que uma morfologia &ndash; suporte de uma forma de vida da sociedade urbana. Como uma malha irregular, o tecido urbano da cidade europeia foi-se estendendo pelos campos, mantendo espa&ccedil;os intersticiais de ruralidade, absorvendo os pequenos n&uacute;cleos urbanos, erodidos, esvaziados ou transformados. Este tecido invade e absorve, movido pela din&acirc;mica do capital, pela regra do espa&ccedil;o mercadoria, no qual o valor de troca se sobrep&otilde;e ao valor de uso. Assim, a cidade estende-se, hegemonizando e expandindo a condi&ccedil;&atilde;o urbana.</p>     <p>Este processo de desenvolvimento dos principais centros metropolitanos europeus, sobretudo a partir dos anos 80 do s&eacute;c. XX, deu-se a diferentes velocidades, apresentando alguma varia&ccedil;&atilde;o na estrutura urbana, dependendo do seu papel diferencial na rede europeia de cidades (Castells 2011:525).</p>     <p>As aglomera&ccedil;&otilde;es urbanas s&atilde;o o resultado desta revolu&ccedil;&atilde;o urbana que afectou, em escala e forma, a cidade contempor&acirc;nea, associada &agrave; crescente dinamiza&ccedil;&atilde;o e expans&atilde;o das mobilidades e dos sistemas de informa&ccedil;&atilde;o. Denominado por Ascher ([2004] 2010) metapoliza&ccedil;&atilde;o, este processo resulta numa dilata&ccedil;&atilde;o dos territ&oacute;rios urbanos, constituindo-se assim as met&aacute;poles, ou seja, vastas conurba&ccedil;&otilde;es extensas e descont&iacute;nuas, heterog&eacute;neas e multipolarizadas, que integram no mesmo conjunto a cidade densa, pequena cidade, vila e sub&uacute;rbio (Ascher [2004] 2010:62 e 105).</p>     <p>A dilata&ccedil;&atilde;o dos territ&oacute;rios urbanos praticada usualmente pelos citadinos, associada &agrave;s novas t&eacute;cnicas de informa&ccedil;&atilde;o e &agrave; transforma&ccedil;&atilde;o dos sistemas de mobilidades urbanas, possibilitou a elimina&ccedil;&atilde;o parcial da necessidade de encontro f&iacute;sico, enfraquecendo a import&acirc;ncia da proximidade da vida contempor&acirc;nea (Ascher [2004] 2010:62).</p>     <p>Mesmo a cidade tradicional, como por exemplo Lisboa nos anos 60-80, reagindo contra o abandono e a degrada&ccedil;&atilde;o, adapta-se: os passeios tornaram-se um acesso, a sua dimens&atilde;o, conforto e continuidade tornam-se caracter&iacute;sticas secund&aacute;rias perante a sua fun&ccedil;&atilde;o. Gerando-se um dom&iacute;nio do espa&ccedil;o rua&nbsp; pela&nbsp; fun&ccedil;&atilde;o de estacionamento e mobilidade vi&aacute;ria&nbsp; contribuindo para a inviabilidade da mobilidade pedonal plena na cidade.</p>     <p>Com o aumento da qualidade dos meios de transporte motorizados, com destaque para o&nbsp; autom&oacute;vel, e das vias de tr&acirc;nsito, com o aumento da velocidade, a cidade &eacute; sensorialmente acedida cada vez mais superficialmente. O espa&ccedil;o urbano tende a transformar-se funcionalmente em espa&ccedil;o de movimento, tornando o pr&oacute;prio espa&ccedil;o menos estimulante sensorialmente: o condutor necessita de atravessar de um modo expedito &ndash; n&atilde;o quer, nem deve ser, distra&iacute;do ou despertado sensorialmente para a envolvente. Quanto mais adaptado est&aacute; o meio &agrave; fun&ccedil;&atilde;o da condu&ccedil;&atilde;o, mais direccionada e limitada necessita de ser a aten&ccedil;&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o ao meio. Gera-se sensorialmente uma desconex&atilde;o entre o corpo e o espa&ccedil;o (Sennett 1994:18).</p>     <p>O modo do uso dos espa&ccedil;os e do tempo transformou-se, no sentido de uma funcionaliza&ccedil;&atilde;o e especializa&ccedil;&atilde;o, resultando numa fragmenta&ccedil;&atilde;o do territ&oacute;rio de acordo com os objectivos.</p>     <p>A escala da mobilidade urbana altera-se tornando-se dependente dos meios de transporte motorizados. Destacando-se a valoriza&ccedil;&atilde;o do uso e do significado do autom&oacute;vel.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>3.2. A atomiza&ccedil;&atilde;o da sociedade e o paradigma do autom&oacute;vel</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&Eacute; ineg&aacute;vel que a evolu&ccedil;&atilde;o da sociedade europeia &eacute; acompanhada por uma necessidade e capacidade crescente de controlo sobre as suas condi&ccedil;&otilde;es envolventes. Neste &acirc;mbito, o acto de caminhar, enquanto pr&aacute;tica di&aacute;ria obrigat&oacute;ria, tende a reduzir-se ao indispens&aacute;vel. O uso caminhado, de um modo cont&iacute;nuo e duradouro, enquanto modo de mobilidade, funcional, foi perdendo, ao longo do s&eacute;c. XX, a sua import&acirc;ncia.</p>     <p>A especificidade da mobilidade gerada pelo autom&oacute;vel foi um vector de altera&ccedil;&atilde;o sem precedentes do tempo, do espa&ccedil;o e do modo de ser e de estar dos indiv&iacute;duos da sociedade contempor&acirc;nea.</p>     <p>O autom&oacute;vel adapta-se e promove de um modo &iacute;mpar a individualiza&ccedil;&atilde;o, atrav&eacute;s da diferencia&ccedil;&atilde;o e do poder individual de escolha. A flexibilidade da mobilidade, ou a capacidade individual de ser m&oacute;vel, modelou a vida laboral e a sociabilidade dos indiv&iacute;duos, nomeadamente ao n&iacute;vel familiar, comunit&aacute;rio e de lazer (Sheller e Urry [2000] 2004:207).</p>     <p>A utilidade, definida como o valor a diferentes n&iacute;veis, do autom&oacute;vel para cada indiv&iacute;duo torna-se dominante. O autom&oacute;vel permite a cada indiv&iacute;duo deslocar-se de porta a porta rapidamente, permitindo uma desloca&ccedil;&atilde;o protegida. Permite o atravessamento com o m&iacute;nimo contacto com a envolvente: viagens cont&iacute;nuas casa-trabalho-casa, sem gastos de tempo em esta&ccedil;&otilde;es ou paragens, sem sensa&ccedil;&atilde;o de perigo (extremamente importante para a terceira idade e para o g&eacute;nero feminino) (Sheller e Urry [2000] 2004: 209).</p>     <p>O autom&oacute;vel tornou-se o espa&ccedil;o privado que transporta e &eacute; transportado at&eacute; ao local desejado, funcionando como uma extens&atilde;o da casa, em conforto, seguran&ccedil;a e espa&ccedil;o individual. Como publicitado no an&uacute;ncio da Ford em 1949: Um Ford 49 &eacute; uma sala sobre rodas (in Sheller e Urry [2000] 2004:211). Para cada propriet&aacute;rio, o autom&oacute;vel assemelha-se a uma sala m&oacute;vel da casa, com uma diferen&ccedil;a: sensorialmente, o condutor deve estar direccionado para a sua fun&ccedil;&atilde;o, bloqueando informa&ccedil;&atilde;o e distrac&ccedil;&otilde;es externas.</p>     <p>Se a difus&atilde;o do autom&oacute;vel e a liberdade que a sua adop&ccedil;&atilde;o permite, por um lado, democratizou acessos, por outro, tornou-se um factor de imposi&ccedil;&atilde;o de modo de vida, um vector de segrega&ccedil;&atilde;o para quem n&atilde;o o det&eacute;m, ou seja, um deficit de mobilidade, gerador de desigualdades e de exclus&atilde;o social (Sheller e Urry [2000] 2004:212).&nbsp; Socialmente, para muitos, h&aacute; um estatuto de afirma&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica associado ao uso e &agrave; posse do autom&oacute;vel, factor de distin&ccedil;&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o a quem tem de andar a p&eacute; ou de transportes</p>     <p>A domin&acirc;ncia do autom&oacute;vel frequentemente compete e afecta negativamente as outras formas de mobilidade. &Eacute; usual os n&atilde;o condutores serem obrigados a adaptarem a sua mobilidade &agrave;s infra-estruturas e &agrave; presen&ccedil;a constante do autom&oacute;vel (Sheller e Urry [2000] 2004:208-209).</p>     <p>Ao contr&aacute;rio da mobilidade associada &agrave; segunda modernidade e ao transporte ferrovi&aacute;rio sincronizado, o autom&oacute;vel permite individualmente uma dessincroniza&ccedil;&atilde;o temporal. A liberdade de mobilidade e de interac&ccedil;&atilde;o entre pedestres d&aacute; lugar a movimentos espacialmente associados &agrave; estrutura rodovi&aacute;ria.</p>     <p>O&nbsp; caminhar,&nbsp; em diversos contextos territoriais e sociais, torna-se dispens&aacute;vel ou mesmo imposs&iacute;vel. O autom&oacute;vel passa a dominar a organiza&ccedil;&atilde;o espacial e temporal da sociedade. Embora se gerem novas normas e regras partilhadas entre estranhos, excluem a interac&ccedil;&atilde;o cara a cara e as normas de conviv&ecirc;ncia associadas ao uso pedonal.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>4. A Sociedade contempor&acirc;nea e o reencontro com a cidade</b></p>     <p><b>4.1. A sociedade e a especializa&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o </b></p>     <blockquote>     <p><i>O espa&ccedil;o n&atilde;o reflecte a sociedade, expressa-a, &eacute; uma dimens&atilde;o fundamental da sociedade, insepar&aacute;vel do processo global de organiza&ccedil;&atilde;o e de mudan&ccedil;a social.</i><a href="#_ftn4" name="_ftnref4"><i><b>[4]</b></i></a></p>     <p>Manuel Castells, &ldquo;Space of Flows, Space of Places: Materials for a Theory of Urbanism in the Information Age&rdquo; ([2002] 2011:574)</p> </blockquote>     <p>A sociedade actual tende a caracterizar-se por ser mais racional, mais individualista, mais diferenciada do que nunca. Mais racional pela indu&ccedil;&atilde;o a uma constante revis&atilde;o e an&aacute;lise das pr&aacute;ticas sociais, pela inadequa&ccedil;&atilde;o de modelos estabelecidos (tradi&ccedil;&otilde;es, costumes ou rotinas) perante um n&uacute;mero vasto e mut&aacute;vel de situa&ccedil;&otilde;es individuais e colectivas. Assim, existe uma constante reflexividade (Ascher [2004] 2010:33).</p>     <p>Vive-se uma valoriza&ccedil;&atilde;o do dom&iacute;nio individual do tempo e do espa&ccedil;o, que &eacute; reflectida na evolu&ccedil;&atilde;o e no acesso a tecnologias que aumentam a autonomia individual, nomeadamente atrav&eacute;s da liberdade de deslocamento, de comunica&ccedil;&atilde;o e de acesso a informa&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Assim, a sociedade &eacute; mais individualista e mais diferenciada pelo poder e dever de escolha constante. Mais ou menos determinadas socialmente, as escolhas individuais abrangem uma sociedade e uma pan&oacute;plia de op&ccedil;&otilde;es cada vez mais complexa. Geram-se, deste modo, perfis de vida e consumo cada vez mais fragmentados e uma diferencia&ccedil;&atilde;o social cada vez mais complexa. A mobilidade f&iacute;sica das pessoas e da informa&ccedil;&atilde;o participa de forma activa enquanto instrumento e resultante desta diferencia&ccedil;&atilde;o social (Ascher [2004] 2010).</p>     <p>A sociedade urbana contempor&acirc;nea, a par do territ&oacute;rio que ocupa, &eacute; profundamente heterog&eacute;nea e complexa, composta por indiv&iacute;duos com aspira&ccedil;&otilde;es e pr&aacute;ticas m&uacute;ltiplas (Ascher [2004] 2010:106). Constata-se uma atomiza&ccedil;&atilde;o da sociedade, a par da recria&ccedil;&atilde;o das estruturas socioculturais que a sust&ecirc;m.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Actualmente, verifica-se que, perante uma maior capacidade de mobilidade da popula&ccedil;&atilde;o, cada indiv&iacute;duo, de acordo com o seu poder econ&oacute;mico, pode escolher onde quer viver, perto de quem. Embora (talvez) sempre tenha havido esta tend&ecirc;ncia e este desejo no ser humano, actualmente a possibilidade de o concretizar, por vezes mesmo &agrave; escala global, est&aacute; mais acess&iacute;vel &agrave; maioria da popula&ccedil;&atilde;o europeia. Diversos factores, sociais, econ&oacute;micos e culturais, influenciam cada indiv&iacute;duo na escolha do local onde vive ou trabalha e no modo como usa a cidade.</p>     <p>A efici&ecirc;ncia dos meios de transporte e de comunica&ccedil;&atilde;o, a sua acessibilidade a grande parte da popula&ccedil;&atilde;o, permite, f&iacute;sica ou virtualmente, atrav&eacute;s dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o social, aceder e participar num mundo global, em detrimento do mundo local.</p>     <p>De acordo com Madanipour (2005:12), a combina&ccedil;&atilde;o da dispers&atilde;o espacial e a liberaliza&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica conduz inevitavelmente &agrave; segrega&ccedil;&atilde;o; a acessibilidade econ&oacute;mica ao imobili&aacute;rio reflecte a condi&ccedil;&atilde;o socioecon&oacute;mica dos seus habitantes. O distanciamento f&iacute;sico surge como um factor de maior distanciamento econ&oacute;mico, social e cultural. A cidade da coexist&ecirc;ncia social e espacial com o outro &eacute; posta em causa. A polariza&ccedil;&atilde;o e segrega&ccedil;&atilde;o espacial aumentam a percep&ccedil;&atilde;o de inseguran&ccedil;a em rela&ccedil;&atilde;o ao outro, induzindo a procura e oferta de espa&ccedil;os controlados, como os condom&iacute;nios privados.</p>     <p>O uso do espa&ccedil;o p&uacute;blico e as novas formas de espa&ccedil;os privados de uso p&uacute;blico readaptam-se &agrave; cidade dispersa, especializada e fragmentada. Como exemplo, existem os parques verdes ou grandes parques infantis dos sub&uacute;rbios, os centros comerciais ou jardins de funda&ccedil;&otilde;es ou museus. O espa&ccedil;o de uso p&uacute;blico, seja ele p&uacute;blico ou privado, tende a tornar-se monofuncional numa oferta de lazer, f&iacute;sico ou cultural, associado frequentemente ao consumo.</p>     <p>Como referido por Lefebvre ([1974] 1991:56-57), em 1974, a produ&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o social tende, assim, para uma valoriza&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o imagem, em detrimento do espa&ccedil;o concretizado pela pr&aacute;tica, apropriado. A apreens&atilde;o dos significados &eacute; realizada passivamente, sem tempo de afecto, ou de rela&ccedil;&atilde;o de apropria&ccedil;&atilde;o. Sem tempo e sem pr&aacute;tica, o espa&ccedil;o n&atilde;o se concretiza, tendendo a ser um espa&ccedil;o abstracto, neutro e dominado pela efici&ecirc;ncia funcional. &Eacute; o espa&ccedil;o planeado, projectado, enquanto espa&ccedil;o consensual sem conflito, o espa&ccedil;o dos servi&ccedil;os e das trocas.</p>     <p>A especializa&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o de uso p&uacute;blico, em particular nos espa&ccedil;os l&uacute;dicos associados ao consumo, reflecte claramente este fen&oacute;meno do dom&iacute;nio do espa&ccedil;o pela fun&ccedil;&atilde;o. Os espa&ccedil;os de lazer s&atilde;o uma extens&atilde;o do espa&ccedil;o dominado, sendo organizados funcionalmente e hierarquicamente. (Lefebvre [1974] 1991:384).</p>     <p>No mesmo sentido enquanto fragmento da metr&oacute;pole, a cidade tradicional e, em particular, os seus n&uacute;cleos hist&oacute;ricos reorganizam-se perante a nova realidade. Os n&uacute;cleos hist&oacute;ricos e locais patrimoniais especializam-se enquanto territ&oacute;rios tur&iacute;sticos, atraindo novos utilizadores dos espa&ccedil;os, novas actividades. A interven&ccedil;&atilde;o no espa&ccedil;o, com intuito de dinamiza&ccedil;&atilde;o tur&iacute;stica, promove o uso caminhado l&uacute;dico nestas zonas.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>4.2. A revitaliza&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o p&uacute;blico e a valoriza&ccedil;&atilde;o da rua.</b></p>     <p>Se, em termos te&oacute;ricos, a reac&ccedil;&atilde;o ao modernismo foi clara a partir dos anos 60, &eacute; essencialmente a partir dos anos 80 que, nos principais centros urbanos europeus e norte-americanos, existe um interesse renovado pela rua por parte dos decisores.&nbsp; Primeiro nos centros hist&oacute;ricos, como j&aacute; referido, e posteriormente abrangendo diferentes zonas urbanas.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Este interesse incide essencialmente na valoriza&ccedil;&atilde;o espacial da rua com a convic&ccedil;&atilde;o de que o desenho urbano pode contribuir positivamente para a dinamiza&ccedil;&atilde;o da vida p&uacute;blica (Gutman [1986] 1991:254). Copenhaga destaca-se enquanto cidade pioneira alvo de interven&ccedil;&otilde;es sistem&aacute;ticas ao longo de v&aacute;rios anos com o intuito de melhorar o uso pedonal, destacando-se ainda por um registo sistem&aacute;tico de documenta&ccedil;&atilde;o da evolu&ccedil;&atilde;o destas e do processo positivo do uso do espa&ccedil;o p&uacute;blico (Gehl (2010). Posteriormente Barcelona surge tamb&eacute;m&nbsp; como exemplo emblem&aacute;ticos de implementa&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas de dinamiza&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o p&uacute;blico e do uso caminhado</p>     <p>A import&acirc;ncia do ambiente f&iacute;sico, do conforto, da percep&ccedil;&atilde;o de seguran&ccedil;a tornam-se factores essenciais incentivadores do uso da rua.</p>     <p>A rua e a sua vitalidade tornam-se numa met&aacute;fora da cidade: s&iacute;mbolo da evolu&ccedil;&atilde;o sociocultural no sentido da conflu&ecirc;ncia do valor social, funcional e l&uacute;dico do espa&ccedil;o p&uacute;blico. Surge assim o revivalismo da imagem idealizada, nost&aacute;lgica, da rua de outrora. A qualidade de vida urbana ambicionada por muitos &eacute; o reflexo do regresso a um imagin&aacute;rio urbano no qual a urbanidade concentra a diversidade cultural e o acesso participado &agrave; rua enquanto experi&ecirc;ncia, espa&ccedil;o de com&eacute;rcio, de passeio e lugar de encontro. A transforma&ccedil;&atilde;o social em termos educativos, de literacia e conhecimento &ndash; atrav&eacute;s da comunica&ccedil;&atilde;o social de outras realidades &ndash; promove expectativas e exig&ecirc;ncias em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; cidade, nomeadamente equipamentos, infra-estruturas e acessos p&uacute;blicos (Gutman [1986] 1991:254).</p>     <p>Neste sentido, diversas cidades europeias v&atilde;o sendo alvo de projectos de melhoramento do uso pedonal e da qualidade do espa&ccedil;o p&uacute;blico, frequentemente associados &agrave; promo&ccedil;&atilde;o da sustentabilidade na cidade.</p>     <p>A cidade tradicional europeia, a cidade maioritariamente anterior aos anos 40, persiste enquanto uma zona central de cada territ&oacute;rio urbano que integra. Cidade que, embora se reajuste, por vezes brutalmente, &agrave;s crescentes exig&ecirc;ncias da vida urbana, mant&eacute;m a escala e a riqueza do espa&ccedil;o que nasceu quando o meio de mobilidade dominante era o caminhar. A cidade tradicional ganha um papel de destaque na metr&oacute;pole, tornando-se um centro de sinergias, adaptando-se e competindo como uma unidade. Valorizada pela escolha, pelo contraste com a envolvente urbanizada, a cidade herdada surge enquanto espa&ccedil;o vocacionado para uso caminhado, enquanto paisagem praticada.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>&nbsp;4.3. O caminhar enquanto pr&aacute;tica reactiva</b></p>     <p>Actualmente, cada vez mais o excesso de tr&acirc;nsito torna a depend&ecirc;ncia do autom&oacute;vel na mobilidade quotidiana uma op&ccedil;&atilde;o muitas vezes pouco eficiente. Paralelamente as novas tecnologias, associadas a novos contactos socioecon&oacute;micos e laborais, permitem &ndash; ou induzem a &ndash; uma nova atitude perante o uso do territ&oacute;rio, gerando novas estrat&eacute;gias individuais e familiares, frequentemente com for&ccedil;as centr&iacute;fugas em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; cidade central.</p>     <p>Jo&atilde;o Teixeira Lopes (2007:72) defende a exist&ecirc;ncia da especificidade de um tempo urbano, de alta densidade, especialmente associado ao caminhar na cidade e &agrave; apropria&ccedil;&atilde;o dos espa&ccedil;os p&uacute;blicos, encarados como articuladores, for&ccedil;a reactiva contr&aacute;ria &agrave; cidade segregada, social e culturalmente hiperespecializada.</p>     <p>Neste sentido a consolida&ccedil;&atilde;o da revaloriza&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o p&uacute;blico ao longo das &uacute;ltimas d&eacute;cadas, tem contribu&iacute;do para a reactivar o caminhar enquanto pr&aacute;tica espacial l&uacute;dica, social e funcional. O atravessamento caminhado e uso do espa&ccedil;o p&uacute;blico de proximidade, o jardim, a pra&ccedil;a, a rua, dentro contexto global de espa&ccedil;os de uso publico, destinguem-se pelo seu valor enquanto espa&ccedil;o intergeracional, onde se solidificam significados, refer&ecirc;ncias espaciais e sociais.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A actividade caminhada em qualquer cen&aacute;rio comportamental baseia-se muito tamb&eacute;m em costumes, h&aacute;bitos e modos de vida partilhados. Segundo Amos Rapoport (1987:82,83), o uso pedonal &eacute; essencialmente cultural. A par da pr&aacute;tica, o significado do caminhar, o seu estatuto, ganha relev&acirc;ncia no novo mil&eacute;nio enquanto escolha de modo de vida urbana assente na valoriza&ccedil;&atilde;o da actividade caminhada e da rela&ccedil;&atilde;o de proximidade com a cidade.</p>     <p>Para muitos, o caminhar volta a ter um papel importante no quotidiano, assente na&nbsp; valoriza&ccedil;&atilde;o da n&atilde;o depend&ecirc;ncia do autom&oacute;vel, na funcionalidade do caminhar em territ&oacute;rio de menor escala e tamb&eacute;m no valor da imers&atilde;o sens&iacute;vel na realidade social e espacial que esta pr&aacute;tica permite. Neste sentido o regresso &agrave; rua multifuncional e multissocial tende a tornar-se &uacute;til e funcional sendo uma op&ccedil;&atilde;o cada vez mais valorizada em contextos laborais e habitacionais.</p>     <p>Assim, a par da elimina&ccedil;&atilde;o da utilidade do encontro, renova-se o interesse pelo contacto f&iacute;sico e pelas experi&ecirc;ncias t&aacute;cteis, pela experi&ecirc;ncia directa da vida urbana, associadas agora ao lazer, ao com&eacute;rcio e ao uso cultural da cidade tradicional.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>5. Considera&ccedil;&otilde;es finais</b></p>     <p>Considera-se que uso caminhado na cidade e a sua evolu&ccedil;&atilde;o sintetiza a transforma&ccedil;&atilde;o da rela&ccedil;&atilde;o da sociedade urbana e do territ&oacute;rio, n&atilde;o s&oacute; a n&iacute;vel da pr&aacute;tica e da mobilidade mas de um modo muito relevante ao n&iacute;vel do significado da rela&ccedil;&atilde;o do individuo com a realidade socio-espacial.</p>     <p>A ocupa&ccedil;&atilde;o territorial, a altera&ccedil;&atilde;o de escala do espa&ccedil;o e as novas formas de mobilidade foram sendo simultaneamente transformados e transformadores da sociedade.</p>     <p>Ao longo da segunda metade do sec.XX a circula&ccedil;&atilde;o no espa&ccedil;o p&uacute;blico foi sendo dominada pelo autom&oacute;vel, surgindo novas velocidades, novas necessidades espaciais, contribuindo para o definhar espa&ccedil;o publico rua, de uso caminhado e de viv&ecirc;ncia p&uacute;blica. Esta altera&ccedil;&atilde;o do dom&iacute;nio do espa&ccedil;o em rela&ccedil;&atilde;o ao tempo foi um factor determinante na altera&ccedil;&atilde;o da pr&aacute;tica social do espa&ccedil;o e, por conseguinte, da produ&ccedil;&atilde;o do mesmo (Harvey [1990] 1995:202).</p>     <p>Na&nbsp; cidade contempor&acirc;nea, cada vez mais &eacute; repensado o urbano existente, a necessidade de vida colectiva de proximidade e a sua import&acirc;ncia para a qualidade de vida das popula&ccedil;&otilde;es.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A sociedade urbana contempor&acirc;nea agrega, por um lado, o desejo ou a saudade de rela&ccedil;&otilde;es sociais de proximidade, e, por outro, a viv&ecirc;ncia livre e individualizada, menos densa, mais privada, onde o contacto e a troca directa se fazem opcionalmente. Ou seja, entre o local e o global, entre a comunidade e o cosmopolitismo.</p>     <p>O caminhar torna-se para muitos uma pr&aacute;tica de reac&ccedil;&atilde;o ao abstraccionismo espacial da vida moderna, que permite a concretiza&ccedil;&atilde;o espacial e temporal da cidade e da sociedade acedida. &Eacute; um deslocamento individual que proporciona o estar presente, o atravessar, o participar.</p>     <p>Para o caminhante, a cidade ao ser percorrida no quotidiano permite uma imers&atilde;o numa realidade f&iacute;sica e social partilhada. Uma ancoragem de rela&ccedil;&otilde;es localizadas que ganham import&acirc;ncia numa exist&ecirc;ncia num mundo global.</p>     <p>Para a cidade, o caminhar de cada um forma linhas individuais que se sobrep&otilde;em ao longo do tempo, compondo tramas que unem a cidade e os seus espa&ccedil;os, cosendo territ&oacute;rios, permitindo romper fronteiras s&oacute;cio-espaciais, reais ou imaginadas, que com o uso se diluem.</p>     <p>O caminhar n&atilde;o s&oacute; &eacute; gerado, dinamizado, pelas caracter&iacute;sticas espaciais da cidade como se destaca como uma pr&aacute;tica deplotadora da produ&ccedil;&atilde;o social do espa&ccedil;o urbano, pr&aacute;tica geradora de cidade a ser valorizada enquanto ferramenta na interven&ccedil;&atilde;o urbana.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>6. Refer&ecirc;ncias bibliogr&aacute;ficas</b></p>     <!-- ref --><p>ALEXANDER, Christopher.<i>The City Is Not a Tree.</i> (<a href="http://www.rudi.net/books/200" target="_blank">http://www.rudi.net/books/200</a>). 1965&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1748214&pid=S2182-1267201800010001000001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>ALLEN, John.. <i>The Cultural Spaces of Siegfried Kracauer: The Many Surfaces of Berlin</i>. New Formations (61):20-33,2007 (1-2-2016) : <a href="http://www..ingentaconnect.com/content/lwish/nf/2007/00000061/00000001/art00003" target="_blank">http://www..ingentaconnect.com/content/lwish/nf/2007/00000061/00000001/art00003</a> ISSN:0950-2378&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1748215&pid=S2182-1267201800010001000002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>AMATO, Joseph. <i>On Foot: A History of Walking. New York: </i>University Press<i>.</i> 2004. ISBN 0-8147-0502-2&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1748216&pid=S2182-1267201800010001000003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>ASCHER, Fran&ccedil;ois. <i>Novos Princ&iacute;pios do Urbanismo; seguido de Novos Compromissos Urbanos: Um L&eacute;xico. </i>Lisboa: Livros Horizonte. <i>[2004] 2010. </i>ISBN: 9789722416702&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1748217&pid=S2182-1267201800010001000004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>CASTELLS, Manuel. <i>Space of Flows, Space of Places: Materials for a Theory of Urbanism in the Information Age. </i>in The City Reader. Fifth edition. London: Routledge. [2002] 2011.ISBN 13:978-0-415-55665-1&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1748218&pid=S2182-1267201800010001000005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>ELLIS, William C.. The Spatial Structure of Streets.&nbsp; ANDERSON,Stanford. <i>On Streets.</i> Cambridge: MIT Press. [1986] 1991 . ISSN 978-0-262-51039-4 Pp. 114-129</p>     <!-- ref --><p>GANS, Herbert J. <i>People and Plans: Essays on Urban Problems and Solutions</i>. Abridged edition. New York: Basic Books. 1968. ISBN&nbsp;0465054595&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1748220&pid=S2182-1267201800010001000007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>GEHL, Jan..Cities for People. Washington: Island Press. 2010 ISBN:&nbsp;9781597265737&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1748221&pid=S2182-1267201800010001000008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>GUTMAN, Robert. The Street Generation. In ANDERSON,Stanford. <i>On Streets</i>. Cambridge: MIT Press. [1986] 1991.&nbsp; ISSN 978-0-262-51039-4. Pp. 251-264</p>     <!-- ref --><p>HARVEY, David. <i>The Condition of Postmodernity</i>. Oxford: Blackwell. [1990] 1995. ISBN10&nbsp;0631162941&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1748223&pid=S2182-1267201800010001000010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>JACOBS, Jane. <i>Morte e Vida de Grandes Cidades</i>. S&atilde;o Paulo Editora WMF Martins Fontes Editora. [1961] 2007.T&iacute;tulo original: The death and life of great American cities. ISBN 978-85-7827-421-4&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1748224&pid=S2182-1267201800010001000011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>LEFEBVRE, Henri. <i>O Direito &agrave; Cidade</i>. Lisboa: Est&uacute;dio; Livraria Letra Livre. [1968] 2012. ISBN 9789898268150&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1748225&pid=S2182-1267201800010001000012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>LEFEBVRE, Henri.. The Production of Space. Oxford: Blackwell. [1974] 1991. ISBN 0.631-18177-6&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1748226&pid=S2182-1267201800010001000013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>LOPES, Jo&atilde;o. Andante, <i>Andante: Tempo para Andar e Descobrir o Espa&ccedil;o P&uacute;blico</i>. Sociologia: Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto , S&eacute;rie I, vol. 17/18, 2007/2008. p.69-80&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1748227&pid=S2182-1267201800010001000014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>LYNCH, Kevin<i>. A Boa Forma da Cidade</i>. Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es 70. [1981] 1999. ISBN: 9789724413303&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1748228&pid=S2182-1267201800010001000015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>MADANIPOUR, Ali..<i>Public Spaces of the European Cities</i> . Nordisk Arkitekturforskning. Nordic Journal of Architectural Research (27). 2005. P: 7-16. (1-2-2016) <a href="http://www.arkitekturforskning.net/na/article/view/192" target="_blank">http://www.arkitekturforskning.net/na/article/view/192</a> ISSN: 1893-5281&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1748229&pid=S2182-1267201800010001000016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>PROEN&Ccedil;A, S&eacute;rgio. <i>A Diversidade da Rua na Cidade de Lisboa: Morfologia e Morfog&eacute;nese</i>. Tese de Doutoramento. Faculdade de Arquitectura. Universidade de Lisboa. 2014.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1748230&pid=S2182-1267201800010001000017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>RAMOS, Fernando V. <i>Team 10: Manifesto de Doorn.</i> Tradu&ccedil;&atilde;o e coment&aacute;rios de Fernando V&aacute;zquez Ramos. USJT arq.urb (9) primeiro semstre&nbsp; 2013 . <a href="http://www.usjt.br/arq.urb/numero-09/14-team-10.pdf" target="_blank">http://www.usjt.br/arq.urb/numero-09/14-team-10.pdf</a>. ISNN 1984-5766&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1748232&pid=S2182-1267201800010001000018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>RAPOPORT<i>, </i>Amos<i>. </i>Pedestrian Street Use: Culture and Perception. In MOUDON, Anne Vernez <i>Public Streets for Public Use</i>. Edited&nbsp; MOUDON, Anne Vernez .New York: Van Nostrand Reinhold. p. 80-93 &nbsp;<i>1987. </i>ISBN 0442264046</p>     <!-- ref --><p>RELPH, Edward. <i>A Paisagem Urbana Moderna</i>. 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Las Grandes Urbes y la Vida del Espiritu. in <i>El Indiv&iacute;duo y la Libertad: Ensayos de Cr&iacute;tica de la Cultura</i>. p. 247-261 Barcelona: Ediciones Peninsula. [1902] 1986. ISBN: 9788483070932&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1748236&pid=S2182-1267201800010001000022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>SOUTHWORTH, Michael and Eran BEN-JOSEPH. Streets and the Shaping of Towns and Cities. Washington: Island Press. 2003. ISBN-13:&nbsp;978-1559639163&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1748237&pid=S2182-1267201800010001000023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>VIDLER, Anthony. The Scenes of the Street: Transformations in Ideal and Reality. in ANDERSON,Stanford. <i>On Streets.</i> p. 29-111 Cambridge: MIT Press, [1986] 1991 . ISSN 978-0-262-51039-4</p>     <!-- ref --><p>ZWEIG, Stefan<i>..O Mundo de Ontem.</i> Lisboa: Ass&iacute;rio &amp; Alvim. [1942] 2014 ISBN:978-972-37-1776-1&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1748239&pid=S2182-1267201800010001000025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1">[1]</a> O presente artigo &eacute; uma adapta&ccedil;&atilde;o de uma parte&nbsp; da tese de doutoramento:&nbsp;GOMES, Maria Jo&atilde;o. <i>A cidade caminhada: A ambi&ecirc;ncia experienciada em duas visita guiadas no centro hist&oacute;rico de Lisboa.</i> Faculdade de Ci&ecirc;ncias Sociais e Humanas &ndash; Universidade Nova de Lisboa/ ISCTE &ndash; Instituto Universit&aacute;rio de Lisboa. 2016</p>     <p><a href="#_ftnref2" name="_ftn2">[2]</a> Alexander, Christopher. 1965. <i>The City Is Not a Tree</i>.</p>     <p><a href="#_ftnref3" name="_ftn3">[3]</a> &ldquo;Spaces are strange. Homogeneous, rationalized, and as such constraining; yet at the same time utterly dislocated. Formal boundaries are gone between town and country, between center and periphery, between suburbs and city centres, between the domain of automobiles and the domain of people.&rdquo;</p>     <p><a href="#_ftnref4" name="_ftn4">[4]</a> &nbsp;&ldquo;Space does not reflect society, it expresses it, it is a fundamental dimension of society, inseparabe of the overall process of social organization and social change.&rdquo;</p>     ]]></body>
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