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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A dimensão espacial da desigualdade socioeconômica]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[The socioeconomic inequality and its spatial dimension]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[In recent years Brazil had met some decrease of inequality indexes. Albeit it has decreased segregation has been a steady condition for the many in our society. Whereas the more accurate data is essential to the formulation of public policies which can take into account the space and inequality relationship the paper aims to present, analyse and compare, using alternative spatial analysis techniques to Dissimilarity index (D), to study of socioeconomic inequality in the most socially and economically contrasted cities of Brazil.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGO</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>A dimens&atilde;o espacial da desigualdade socioecon&ocirc;mica</b></p>     <p><b>The socioeconomic inequality and its spatial dimension</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Zechin, Patrick</b><sup>1</sup>;<b> Holanda, Frederico</b><sup>2</sup></p>     <p><sup>1</sup> Universidade Estadual de Goi&aacute;s | Departamento de Arquitetura e Urbanismo; 74.140-140. Rua Riu Brasil Cavalcante, 421. Edif&iacute;cio Visage Oeste, apartamento 2403. Setor Oeste, Goi&acirc;nia &ndash; Brasil; <a href="mailto:Patrick.zechin@gmail.com">Patrick.zechin@gmail.com</a></p>     <p><sup>2</sup> Universidade de Bras&iacute;lia, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo; 73.105-907. Condom&iacute;nio Vivendas Colorado 1, m&oacute;dulo J, casa 1. Bras&iacute;lia - Brasil; <a href="mailto:Fredholanda44@gmail.com">Fredholanda44@gmail.com</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>RESUMO</b></p>     <p>Nos &uacute;ltimos anos, o Brasil conheceu algum progresso no que diz respeito &agrave; diminui&ccedil;&atilde;o da desigualdade socioecon&ocirc;mica, mas, embora a desigualdade tenha recuado um pouco, a segrega&ccedil;&atilde;o entre as classes mais altas e as mais baixas n&atilde;o pareceu ter conhecido melhora e o ambiente urbano brasileiro continua sendo um lugar de exclus&atilde;o para um importante contingente populacional. Considerando que &eacute; essencial o conhecimento mais pormenorizado da din&acirc;mica da desigualdade espacial para a formula&ccedil;&atilde;o de melhores pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, objetivamos, por meio do uso de t&eacute;cnicas de an&aacute;lise espacial alternativas ao tradicional &Iacute;ndice de Dissimilaridade (D), apresenta-se e discute-se a rela&ccedil;&atilde;o entre espa&ccedil;o e desigualdade nas cinco cidades mais desiguais do pa&iacute;s, buscando matizes mais detalhadas da materializa&ccedil;&atilde;o da segrega&ccedil;&atilde;o espacial.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Palavras-chave: </b>Desigualdade, segrega&ccedil;&atilde;o, espacializa&ccedil;&atilde;o, an&aacute;lise espacial.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>In recent years Brazil had met some decrease of inequality indexes. Albeit it has decreased segregation has been a steady condition for the many in our society. Whereas the more accurate data is essential to the formulation of public policies which can take into account the space and inequality relationship the paper aims to present, analyse and compare, using alternative spatial analysis techniques to Dissimilarity index (D), to study of socioeconomic inequality in the most socially and economically contrasted cities of Brazil.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Keywords:</b> Inequality, segregation, spatialization, spatial analysis.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>1. Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     <p>&Eacute; premente compreender melhor a desigualdade social brasileira particularmente persistente e a segrega&ccedil;&atilde;o espacial a ela atrelada. O reconhecimento da import&acirc;ncia da quest&atilde;o da desigualdade em nossa sociedade faz com que, historicamente, uma parte das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas desenvolvidas pelo Estado brasileiro nos tr&ecirc;s n&iacute;veis seja, de alguma forma, em maior ou menor grau, esteja relacionada a problemas decorrentes da desigualdade socioecon&ocirc;mica. Embora tamb&eacute;m tenhamos per&iacute;odos em que o acirramento de pol&iacute;ticas de cunho neoliberal, como aqueles que se sucederam nos anos 1990 ou o atual momento, implique em retrocessos nestas pol&iacute;ticas.</p>     <p>Nos &uacute;ltimos anos, observamos, no Brasil, ao menos no per&iacute;odo de governos p&oacute;s-neoliberais liderados pelo Partido dos Trabalhadores (2003 &ndash; 2016), a redu&ccedil;&atilde;o acentuada do n&uacute;mero de fam&iacute;lias situadas abaixo da linha da pobreza e alguma diminui&ccedil;&atilde;o da desigualdade socioecon&ocirc;mica. Entretanto, a redu&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; medida por uma linha arbitr&aacute;ria de rendimentos na qual est&atilde;o situados os pobres, mas, antes, pelas dist&acirc;ncias entre as posi&ccedil;&otilde;es relativas ocupadas pelos diversos segmentos da sociedade.</p>     <p>As dist&acirc;ncias continuam altas no Brasil e s&atilde;o fruto de um processo econ&ocirc;mico e social desenvolvido desde o per&iacute;odo colonial que engendrou no pa&iacute;s uma din&acirc;mica j&aacute; chamada de moderniza&ccedil;&atilde;o conservadora. As cidades brasileiras s&atilde;o evid&ecirc;ncias not&aacute;veis deste processo, conforme discutido por Maricato (2002), principalmente atrav&eacute;s do exemplo da constru&ccedil;&atilde;o de moradia (e parte da cidade) pelos pr&oacute;prios moradores, em regra de baixa renda, em seus hor&aacute;rios de folga, ao longo de muitos anos, ao largo de toda e qualquer legisla&ccedil;&atilde;o urban&iacute;stica, muitas vezes em &aacute;reas ocupadas ilegalmente.</p>     <p>Essa pr&aacute;tica de autoconstru&ccedil;&atilde;o de habita&ccedil;&atilde;o ilegal foi explicada por Oliveira (2003) como uma esp&eacute;cie de produ&ccedil;&atilde;o dom&eacute;stica pela popula&ccedil;&atilde;o mais pobre das cidades que ao construir sua pr&oacute;pria casa sem a conflu&ecirc;ncia de conhecimento t&eacute;cnico de arquitetura ou engenharia, sem financiamento formal ou respeito &agrave; legisla&ccedil;&atilde;o fundi&aacute;ria, urban&iacute;stica e edil&iacute;cia &eacute; fundamental para o barateamento da for&ccedil;a de trabalho uma vez que o custo da moradia n&atilde;o estava inclu&iacute;do no sal&aacute;rio.</p>     <p>A autoconstru&ccedil;&atilde;o, ainda segundo Oliveira, contribui para a acumula&ccedil;&atilde;o capitalista durante o per&iacute;odo de industrializa&ccedil;&atilde;o do Brasil, principalmente entre 1940 e 1980 e a esta industrializa&ccedil;&atilde;o de baixos sal&aacute;rios correspondeu uma urbaniza&ccedil;&atilde;o com baixos sal&aacute;rios, conforme demonstrado por Maricato (2002). Este processo revela uma certa moderniza&ccedil;&atilde;o e um certo desenvolvimento que dependeram de pr&aacute;ticas pr&eacute;-capitalistas (a autoconstru&ccedil;&atilde;o) para a produ&ccedil;&atilde;o de uma parte importante da cidade brasileira. Tal imbrica&ccedil;&atilde;o foi e ainda &eacute; fundamental para o processo de acumula&ccedil;&atilde;o nacional.</p>     <p>Desta maneira, temos um vislumbre de como o crescimento urbano brasileiro sempre se deu com exclus&atilde;o social e mesmo o acentuado crescimento econ&ocirc;mico brasileiro em grande parte do s&eacute;culo XX n&atilde;o implicou em modifica&ccedil;&atilde;o (mesmo que t&iacute;mida) na forte desigualdade social. Ao contr&aacute;rio, o impacto do decl&iacute;nio econ&ocirc;mico nas d&eacute;cadas de 1980 e 1990 sobre uma sociedade j&aacute; desigual aprofundou a exclus&atilde;o social com uma maior concentra&ccedil;&atilde;o de renda. Dados da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domic&iacute;lio Cont&iacute;nua (PNAD Cont&iacute;nua) do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estat&iacute;stica) indicam que em 2017 10% mais ricos dos brasileiros detinham 43,3% da riqueza produzida pelo pa&iacute;s; enquanto os 10% mais pobres detinham 0,7% das riquezas.</p>     <p>Essa desigualdade n&atilde;o surge apenas da reestrutura&ccedil;&atilde;o produtiva pela qual o capitalismo passa a partir de meados da d&eacute;cada de 1970, mas trata-se de um aprofundamento da desigualdade numa sociedade j&aacute; desigual. Neste pa&iacute;s que ao se modernizar, conforme apontado por Maricato (2002), n&atilde;o superou alguns tra&ccedil;os dos per&iacute;odos colonial, imperial e da primeira rep&uacute;blica elitista, marcados pela concentra&ccedil;&atilde;o de terra, renda e poder, o Estado pouco foi al&eacute;m de em um instrumento da elite que, entre outras din&acirc;micas, desenvolve uma aplica&ccedil;&atilde;o enviesada da lei para manuten&ccedil;&atilde;o de poder concentrado e privil&eacute;gios nas cidades refletindo e, ao mesmo tempo, promovendo a segrega&ccedil;&atilde;o no territ&oacute;rio urbano.</p>     <p>A segrega&ccedil;&atilde;o urbana, marca da desigualdade engendrada nas cidades brasileiras desenvolvidas em um contexto espec&iacute;fico de capitalismo perif&eacute;rico, foi promovida pelos extratos mais privilegiados da sociedade para favorecer sua pr&oacute;pria reprodu&ccedil;&atilde;o social ao disputar localidades capazes de comprimir seus tempos e espa&ccedil;os de deslocamento de modo a dispor dos sistemas de recursos urbanos (melhores empregos, sa&uacute;de, cultura, educa&ccedil;&atilde;o, consumo, lazer etc.) de maneira mais eficiente, nos moldes do que foi estudado por Villa&ccedil;a (2007).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Neste estudo, nosso objeto &eacute; a rela&ccedil;&atilde;o da desigualdade socioecon&ocirc;mica com o espa&ccedil;o urbano manifestada na segrega&ccedil;&atilde;o muito marcada de duas classes sociais diametralmente opostas no espa&ccedil;o das cinco cidades mais desiguais do pa&iacute;s. Entendemos que os padr&otilde;es que emergem podem ajudar a compreender melhor a circunst&acirc;ncia n&atilde;o exclusivamente socioecon&ocirc;mica, mas tamb&eacute;m profundamente espacial contida na evolu&ccedil;&atilde;o urbana particular de cada cidade da segrega&ccedil;&atilde;o enquanto manifesta&ccedil;&atilde;o de suas desigualdades.</p>     <p>Precisamos, contudo, esclarecer que alguns pesquisadores criticam o uso do conceito de segrega&ccedil;&atilde;o, alegando que ele diz respeito a contextos hist&oacute;ricos e nacionais bem delimitados, como no caso da espacializa&ccedil;&atilde;o da moradia dos negros nos EUA e, portanto, a utiliza&ccedil;&atilde;o do conceito faria mais sentido quando associado a quest&otilde;es de separa&ccedil;&atilde;o de grupos raciais ou &eacute;tnicos.</p>     <p>Tal argumento busca a precis&atilde;o do conceito aplicado a um caso particular de espacializa&ccedil;&atilde;o da desigualdade socioecon&ocirc;mica. Todavia, o termo conduz tal for&ccedil;a de den&uacute;ncia das mazelas sociais que se torna particularmente &uacute;til para a situa&ccedil;&atilde;o limite da cidade brasileira podendo, acreditamos, tamb&eacute;m ser utilizado como categoria explicativa do processo de urbaniza&ccedil;&atilde;o brasileiro.</p>     <p>Entendemos que as peculiaridades da evolu&ccedil;&atilde;o das cidades brasileiras desde os tempos da col&ocirc;nia, aliadas &agrave; din&acirc;mica social excludente intrinsecamente ligada aos efeitos persistentes da escravid&atilde;o (n&atilde;o se tem 60% de sua hist&oacute;ria atrelada &agrave; escravid&atilde;o impunemente) nos fazem crer que h&aacute; que se falar de um padr&atilde;o de segrega&ccedil;&atilde;o espacial brasileiro, quando este conjuga, em graus variados, em nosso entender, os atributos espaciais da fragmenta&ccedil;&atilde;o, dispers&atilde;o e da periferiza&ccedil;&atilde;o.&nbsp;</p>     <p>A desigualdade se manifesta concretamente nas cidades na forma de espa&ccedil;os fragmentados morfologicamente, em rela&ccedil;&atilde;o ao acesso de grandes contingentes populacionais &agrave;s correntes de produ&ccedil;&atilde;o e consumo de bens e servi&ccedil;os tipicamente associados com o nosso modo de vida urbano contempor&acirc;neo. Estes espa&ccedil;os urbanos mal conectados uns aos outros e ao, digamos, tecido principal e mais cont&iacute;nuo implicam um duplo sentido: (i) de impacto direto na compress&atilde;o do tempo e do espa&ccedil;o, essenciais em ambientes urbanos dominados pela necessidade de circula&ccedil;&atilde;o eficiente e (ii) de sintoma da divis&atilde;o social, que distribui desigualmente as oportunidades, os espa&ccedil;os e liberdades entre seus habitantes.</p>     <p>A din&acirc;mica da produ&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o urbano das grandes cidades brasileiras produz uma dimens&atilde;o cotidiana da vida urbana que diferencia, a partir da moradia, modos de uso do espa&ccedil;o, que produz cidades que negam &agrave; totalidade dos indiv&iacute;duos uma forma superior de direito, na condi&ccedil;&atilde;o de direito &agrave; cidade nos termos apontados por Lefebvre (2011), ou seja, na condi&ccedil;&atilde;o ao direito &agrave; liberdade, &agrave; individualiza&ccedil;&atilde;o na socializa&ccedil;&atilde;o, ao habitat e &agrave; habita&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Deste modo, as quest&otilde;es que levantamos aqui podem contribuir no esfor&ccedil;o da explica&ccedil;&atilde;o da segrega&ccedil;&atilde;o espacial das classes sociais pelo vi&eacute;s do espa&ccedil;o, que foge da corrente principal de estudos urbanos no Brasil, que privilegia as implica&ccedil;&otilde;es socioecon&ocirc;micas, como tamb&eacute;m podem fornecer subs&iacute;dios para discuss&otilde;es no &acirc;mbito do desenvolvimento de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, no sentido de que elas levem em considera&ccedil;&atilde;o o efeito do ambiente j&aacute; constru&iacute;do nas din&acirc;micas sociais ao inv&eacute;s de considerar, muitas vezes, o espa&ccedil;o como um simples e inerte palco no qual a vida social se desenvolve.</p>     <p>O nosso interesse ao estudarmos os dados referentes &agrave; espacializa&ccedil;&atilde;o de diferentes grupos nas cidades &eacute; saber qu&atilde;o concentrado ou disperso espacialmente s&atilde;o os atributos de pobreza ou de riqueza em uma dada &aacute;rea urbana, para, em seguida, averiguarmos essas &aacute;reas urbanas sob uma lente morfol&oacute;gica. Para tanto, utilizaremos ferramentas de espacializa&ccedil;&atilde;o dos dados oficiais sobre a renda como forma de apresentar matizes mais detalhadas da segrega&ccedil;&atilde;o, que escapam das limita&ccedil;&otilde;es de &iacute;ndices mais comumente utilizados, como o &Iacute;ndice de Dissimilaridade (D), desenvolvido ainda na d&eacute;cada de 1950 e que inaugura uma linha tradicional de estudos de segrega&ccedil;&atilde;o. S&atilde;o utilizadas, para tanto, as bases vetoriais disponibilizadas pelo IBGE e os dados do Censo de 2010.</p>     <p>O estudo da segrega&ccedil;&atilde;o espacial enquanto dimens&atilde;o tang&iacute;vel da desigualdade socioecon&ocirc;mica brasileira tem sido objeto de estudo de diversos autores tendo em vista a import&acirc;ncia do tema na vida cotidiana do pa&iacute;s e acreditamos que a compreens&atilde;o desta din&acirc;mica social pode ser incrementada na medida em que os estudos levem em considera&ccedil;&atilde;o a intera&ccedil;&atilde;o de dois elementos b&aacute;sicos como exemplifica Ramos (2002): (i) um conjunto de conceitos e teorias que caracterizam os fen&ocirc;menos que atuam no espa&ccedil;o urbano, seus padr&otilde;es, causas e implica&ccedil;&otilde;es e (ii) m&eacute;todos, t&eacute;cnicas quantitativas de representa&ccedil;&atilde;o e an&aacute;lise do objeto de estudo em quest&atilde;o. Certamente, avan&ccedil;amos quando fazemos convergir os dois elementos, o que permite o refinamento de conceitos j&aacute; estudados por diversos pesquisadores em todo o mundo, embora n&atilde;o seja a inten&ccedil;&atilde;o deste estudo sistematizar e problematizar tais estudos.</p>     <p>Uma ampla variedade de medidas &eacute; utilizada para estimar a manifesta&ccedil;&atilde;o da desigualdade socioecon&ocirc;mica e a segrega&ccedil;&atilde;o espacial dela resultante na cidade, regi&atilde;o ou mesmo pa&iacute;s, sendo que as mais frequentemente usadas s&atilde;o ligadas &agrave;s desigualdades de renda e consumo.&nbsp; E embora haja cr&iacute;ticas ao peso dado &agrave; renda na abordagem do tema da desigualdade, ser&aacute; este o dado utilizado no estudo, uma vez que este foi o crit&eacute;rio utilizado pelo relat&oacute;rio <i>State of the world&rsquo; cities</i> <i>2010/2011</i> (2012), produzido pela ONU-Habitat, para ranquear diversas cidades do mundo subdesenvolvido de modo a aferir as cidades mais desiguais do mundo. O relat&oacute;rio aponta cinco cidades brasileiras entre as mais desiguais do mundo, considerando o coeficiente de Gini: Goi&acirc;nia, Fortaleza, Belo Horizonte, Bras&iacute;lia e Curitiba, nesta ordem. As cidades brasileiras aparecem ap&oacute;s de um pequeno grupo de cidades sul africanas, apresentando um coeficiente de Gini que varia de 0,65 para Goi&acirc;nia e 0,59 para Curitiba.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2. Segrega&ccedil;&atilde;o Urbana</b></p>     <p>A segrega&ccedil;&atilde;o urbana entre classes sociais pode ser assumida como a mais importante manifesta&ccedil;&atilde;o espacial da desigualdade de renda, desde logo entre ricos e pobres, que de acordo com Villa&ccedil;a (2007) deve ser analisada levando-se em conta as regi&otilde;es da cidade e n&atilde;o seus bairros de forma separada.</p>     <p>No que diz respeito &agrave; rela&ccedil;&atilde;o da segrega&ccedil;&atilde;o residencial com as classes sociais no espa&ccedil;o urbano, podemos recorrer a Correa (2013) para compreender como os estudos em geral t&ecirc;m abordado a quest&atilde;o. Essa abordagem considera a segrega&ccedil;&atilde;o, de um lado, como autossegrega&ccedil;&atilde;o e, de outro, como segrega&ccedil;&atilde;o imposta e segrega&ccedil;&atilde;o induzida. Em comum est&aacute; uma pol&iacute;tica de classe que gera esses tipos de segrega&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>A autossegrega&ccedil;&atilde;o, de acordo ainda com o autor, &eacute; uma pol&iacute;tica de classe associada &agrave; elite e aos estratos superiores da classe m&eacute;dia, dotados de elevada renda monet&aacute;ria, visando refor&ccedil;ar diferenciais de exist&ecirc;ncia e de condi&ccedil;&otilde;es de reprodu&ccedil;&atilde;o dos grupos por interm&eacute;dio da escolha das melhores localiza&ccedil;&otilde;es no espa&ccedil;o urbano, tornando-as exclusivas em raz&atilde;o dos elevados pre&ccedil;os da terra urbana, por exemplo. No caso dos condom&iacute;nios fechados de perfil popular, n&atilde;o h&aacute; que se falar em escolha das melhores localiza&ccedil;&otilde;es, uma vez que se trata mais de tentativa de mimetiza&ccedil;&atilde;o de uma tipologia e de um certo padr&atilde;o de consumo associado &agrave;s classes mais abastadas e que, em regra, s&atilde;o implementadas em localiza&ccedil;&otilde;es t&atilde;o prec&aacute;rias quantos os demais bairros das classes subalternas.</p>     <p>O autor defende ser t&ecirc;nue o limite entre a segrega&ccedil;&atilde;o imposta e a induzida, com o segundo grupo tendo &agrave; sua disposi&ccedil;&atilde;o alguma escolha poss&iacute;vel. As diferen&ccedil;as entre as espacialidades das &aacute;reas segregadas manifestam-se por meio da concentra&ccedil;&atilde;o, em cada uma, de um grupo social dotado de relativa homogeneidade, que materializa sua exist&ecirc;ncia n&atilde;o apenas material, mas tamb&eacute;m simb&oacute;lica, afetiva e cultural e a reproduz. As &aacute;reas segregadas estariam dispostas de acordo com uma l&oacute;gica espacial vari&aacute;vel, que as inscrevem no espa&ccedil;o urbano, gerando padr&otilde;es espaciais de segrega&ccedil;&atilde;o residencial.</p>     <p>Villa&ccedil;a (2007) realiza estudo cl&aacute;ssico e pioneiro quanto ao espa&ccedil;o urbano das cidades brasileiras e que orienta uma grande quantidade de estudos posteriores.&nbsp; Sua tese &eacute; que os processos que envolvem as cidades enquanto part&iacute;cipes da estrutura&ccedil;&atilde;o da rede urbana (processo regional, nacional ou planet&aacute;rio) n&atilde;o seguem a mesma l&oacute;gica e n&atilde;o passam pelas mesmas media&ccedil;&otilde;es dos processos que regem a estrutura&ccedil;&atilde;o interna dos espa&ccedil;os urbanos. Para ele, tais media&ccedil;&otilde;es passam, fundamentalmente, pelos &ldquo;tra&ccedil;os nacionais definidores da estrutura e dos conflitos de classe e, ainda, pela domina&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e econ&ocirc;mica atrav&eacute;s do espa&ccedil;o intraurbano&rdquo; (Vila&ccedil;a, 2007) . Os tra&ccedil;os se manifestam na estrutura espacial urbana por meio da segrega&ccedil;&atilde;o, que passa a ser, na vis&atilde;o do autor, o processo central definidor dessa estrutura. A distin&ccedil;&atilde;o mais importante entre um tipo de espa&ccedil;o e outro deriva dos transportes e da comunica&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Segue-se a essa distin&ccedil;&atilde;o a seguinte hip&oacute;tese: para se estudar a estrutura&ccedil;&atilde;o urbana, &eacute; preciso se concentrar na circula&ccedil;&atilde;o das pessoas enquanto consumidores ou, no m&aacute;ximo, enquanto vendedores da capacidade de trabalho e n&atilde;o na circula&ccedil;&atilde;o do capital em qualquer uma de suas formas. Portanto, os transportes intraurbanos s&atilde;o os maiores respons&aacute;veis pela valoriza&ccedil;&atilde;o daquilo que chama de &ldquo;ponto&rdquo;, uma vez que a implanta&ccedil;&atilde;o de uma via regional, por exemplo, tem o efeito prim&aacute;rio de melhorar a sua acessibilidade e, consequentemente, valoriza&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Outro aspecto interessante diz respeito &agrave; compress&atilde;o dos tempos de deslocamento enquanto objetivo da luta pelo espa&ccedil;o urbano. Essa luta passa pela concentra&ccedil;&atilde;o das melhores oportunidades nas grandes cidades, que, em sua maioria, est&atilde;o concentrados nos centros das cidades. No caso dos mais pobres, as oportunidades mais disputadas s&atilde;o os empregos, que, em regra, est&atilde;o no setor terci&aacute;rio da economia e t&ecirc;m que ser buscadas, pelos mais pobres, de v&aacute;rios pontos da cidade o que implica que a localiza&ccedil;&atilde;o de suas moradias e a capacidade de acesso destes aos centros s&atilde;o elementos fundamentais na sua inser&ccedil;&atilde;o nos circuitos principais da economia urbana.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Torna-se evidente que a quest&atilde;o do dom&iacute;nio dos tempos de deslocamento &eacute; vital. Um ponto central no estudo &eacute; a irreprodutibilidade da localidade: o resultado da produ&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o urbano &eacute; a localiza&ccedil;&atilde;o, que &eacute; &uacute;nica, e &eacute; ela que especifica uma determinada parte da cidade e como esta se relaciona com o sistema como um todo, e n&atilde;o o conjunto de objetos urbanos como pra&ccedil;as ou ruas etc.</p>     <p>Estudos conduzidos por Ribeiro Lago (apud Villa&ccedil;a, 2007) apontam na promo&ccedil;&atilde;o imobili&aacute;ria o elemento de liga&ccedil;&atilde;o entre as grandes transforma&ccedil;&otilde;es macroecon&ocirc;micas e a restrutura&ccedil;&atilde;o urbana. Esta &uacute;ltima &eacute; provocada pelos lucros das atividades incorporadoras derivadas de transforma&ccedil;&otilde;es do uso do solo. Ribeiro Lago chega a considerar a moderna atividade de incorpora&ccedil;&atilde;o a causadora da segrega&ccedil;&atilde;o espacial t&iacute;pica das grandes cidades de pa&iacute;ses industrializados da periferia do sistema capitalista, como o Brasil.</p>     <p>Embora as conclus&otilde;es de estudos como os de Villa&ccedil;a e Ribeiro Lago sejam acertadas, nossas an&aacute;lises mostrar&atilde;o que a segrega&ccedil;&atilde;o n&atilde;o pode ser entendida de modo uniforme como resultado apenas de din&acirc;micas socioecon&ocirc;micas imperme&aacute;veis a outros fatores que, em nosso entender, podem ser t&atilde;o importantes quanto estes. A especificidade, em cada cidade, da &aacute;rea concentradora da popula&ccedil;&atilde;o mais pobre tamb&eacute;m &eacute; fruto de outras quest&otilde;es como a morfol&oacute;gica ou a hist&oacute;rica, o que acentua o car&aacute;ter processual desta din&acirc;mica social ao mesmo tempo que aponta para a inexist&ecirc;ncia de solu&ccedil;&otilde;es simples para o problema.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>3.&nbsp;Medi&ccedil;&otilde;es do Espa&ccedil;o</b></p>     <p>Recorrer a representa&ccedil;&otilde;es abstratas das cidades para melhor pens&aacute;-las n&atilde;o &eacute; novidade na hist&oacute;ria. Se pensarmos nos esquemas da cidade de Mileto ou as cidades ideais do Renascimento, por exemplo, perceberemos que esse tipo de a&ccedil;&atilde;o racional ocorreu frequentemente ao pensar-se a organiza&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o urbano.</p>     <p>A necessidade &eacute; mais evidente quando nos deparamos com um n&uacute;mero cada vez maior de cidades com elevado ritmo de crescimento populacional. A partir de meados do s&eacute;culo XX, com a populariza&ccedil;&atilde;o e sofistica&ccedil;&atilde;o dos recursos de inform&aacute;tica, a tarefa de abstrair a realidade urbana passa a ganhar cada vez mais destaque. Os modelos computacionais, com o tempo, ocuparam-se de quest&otilde;es cada vez mais complexas como o planejamento de redes de transporte, mapeamento de atividades urbanas ou aloca&ccedil;&atilde;o de usos do solo.</p>     <p>No que diz respeito a este estudo, o uso das t&eacute;cnicas quantitativas de representa&ccedil;&atilde;o e an&aacute;lise ser&atilde;o alimentadas pelos dados disponibilizados pelo Censo 2010 do IBGE, sistematizados quantitativamente e desagregados por setores censit&aacute;rios.</p>     <p>O IBGE trabalha com um ranqueamento de classes sociais baseado na quantidade de sal&aacute;rios m&iacute;nimos auferidos pela fam&iacute;lia: classe A (renda acima de 20 sal&aacute;rios m&iacute;nimos); classe B (renda variando entre 10 e 20 sal&aacute;rios m&iacute;nimos); classe C (renda variando entre 4 a 10 sal&aacute;rios m&iacute;nimos); classe D (renda variando entre 2 a 4 sal&aacute;rios m&iacute;nimos) e classe E (renda de at&eacute; 2 sal&aacute;rios m&iacute;nimos).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O sistema de classifica&ccedil;&atilde;o do IBGE &eacute; problem&aacute;tico quando aplicado &agrave;s an&aacute;lises espaciais utilizadas neste estudo, pois n&atilde;o encontra uma correspond&ecirc;ncia autom&aacute;tica com as faixas de renda especializadas de acordo com os dados disponibilizados pelo Censo 2010. H&aacute; muita discrep&acirc;ncia entre o n&uacute;mero de sal&aacute;rios m&iacute;nimos compondo o estrato dos mais ricos entre munic&iacute;pios como Belo Horizonte e Curitiba, por exemplo. Por isso, optamos por dividir os dados em tantas faixas de renda quantas forem necess&aacute;rias para que ao menos um dos estratos extremos (os mais pobres e os mais ricos) conhecessem n&uacute;meros de fam&iacute;lias parecidos.</p>     <p>Neste trabalho, concentramo-nos em dois estratos de renda ant&iacute;podas. O primeiro est&aacute; incluso no que o IBGE chama de classe E, mas mesmo dentro dessa classe existem diferentes perfis de renda e o estrato que nos interessa &eacute; de domic&iacute;lios particulares com rendimento nominal mensal domiciliar <i>per capita</i> dentro da faixa que vai de mais de 1/8 at&eacute; 1/4 salario m&iacute;nimo<a href="#_ftn1" name="_ftnref1">[1]</a>, o qual concentra indiv&iacute;duos na faixa que vai do limite da pobreza extrema ao limite da pobreza, segundo o IBGE, e que tamb&eacute;m &eacute; a faixa de renda alvo do programa do governo federal Bolsa Fam&iacute;lia; o segundo engloba o grupo composto por domic&iacute;lios particulares com rendimento nominal mensal domiciliar <i>per capita</i> de mais de 10 sal&aacute;rios m&iacute;nimos.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>4. Indicadores territoriais de segrega&ccedil;&atilde;o espacial</b></p>     <p>Nos &uacute;ltimos anos, medidas espaciais v&ecirc;m sendo cada vez mais utilizadas em an&aacute;lises espaciais dentro de aplicativos SIG. &Eacute; cada vez mais importante a presen&ccedil;a de an&aacute;lises espaciais ancoradas em t&eacute;cnicas de geoinforma&ccedil;&atilde;o com a incorpora&ccedil;&atilde;o de novas funcionalidades para a an&aacute;lise de aspectos espaciais relevantes &ndash; por exemplo a rela&ccedil;&atilde;o entre vizinhan&ccedil;as e as caracter&iacute;sticas geom&eacute;tricas das unidades de an&aacute;lise (como os setores censit&aacute;rios). Segundo Bailey e Gattrel (1995), o objetivo da an&aacute;lise espacial &eacute; aprofundar a compreens&atilde;o do processo, avaliar evid&ecirc;ncias de hip&oacute;teses a ele relacionadas, ou ainda tentar prever valores em &aacute;reas onde as observa&ccedil;&otilde;es n&atilde;o est&atilde;o dispon&iacute;veis.</p>     <p>Tais t&eacute;cnicas s&atilde;o conhecidas como An&aacute;lise Explorat&oacute;ria de Dados Espaciais (AEDE) e podem ser classificadas em univariadas ou multivariadas, dependendo do n&uacute;mero de vari&aacute;veis envolvidas. Neste estudo, a partir das informa&ccedil;&otilde;es colhidas pelo Censo 2010, nos utilizaremos de duas para buscar refinar os dados e avan&ccedil;ar na espacializa&ccedil;&atilde;o das classes sociais que nos ocupamos neste trabalho: (i) a Autocorrela&ccedil;&atilde;o Espacial e (ii) o M&eacute;todo Centrogr&aacute;fico.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>4.1. Autocorrela&ccedil;&atilde;o espacial</b></p>     <p>&Eacute; a correla&ccedil;&atilde;o ou similaridade de valores geralmente pr&oacute;ximos em um conjunto de dados e que pode ser aferida tanto por m&eacute;todos globais quanto locais. No caso de dados espaciais, a autocorrela&ccedil;&atilde;o &eacute; esperada quando valores medidos de forma pr&oacute;xima no espa&ccedil;o s&atilde;o mais similares que valores medidos distantes um do outro, tendendo &agrave; forma&ccedil;&atilde;o de <i>cluster</i>. Uma das t&eacute;cnicas mais utilizadas no estudo de fen&ocirc;menos espaciais &eacute; a an&aacute;lise de autocorrela&ccedil;&atilde;o espacial, que permite identificar a estrutura de correla&ccedil;&atilde;o espacial que melhor represente o padr&atilde;o de distribui&ccedil;&atilde;o dos dados analisados, ou seja, &eacute; o mesmo que depend&ecirc;ncia espacial cujas caracter&iacute;sticas podem ser relacionadas tanto positiva quanto negativamente.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Mitchell (2009) indica que o chamado <i>I de Moran</i> pode ser utilizado para calcular o indicador tanto em um n&iacute;vel local quanto global, indicando que a autocorrela&ccedil;&atilde;o positiva evidencia a presen&ccedil;a de semelhan&ccedil;as entre as vari&aacute;veis da caracter&iacute;stica estudada e a sua localiza&ccedil;&atilde;o espacial. No caso de autocorrela&ccedil;&atilde;o contr&aacute;ria, a evid&ecirc;ncia &eacute; de heterogeneidade entre as vari&aacute;veis estudadas e a sua localiza&ccedil;&atilde;o espacial.</p>     <p>Quando o <i>I de Moran</i> resultar em um valor aproximado de 1, conclu&iacute;mos pela presen&ccedil;a de autocorrela&ccedil;&atilde;o positiva (<i>clustering</i>), revelando, assim, similaridade entre os dados da caracter&iacute;stica estudada, ou seja, as regi&otilde;es pobres est&atilde;o propensas a serem rodeadas por regi&otilde;es vizinhas igualmente pobres e regi&otilde;es n&atilde;o pobres est&atilde;o propensas a serem rodeadas por regi&otilde;es vizinhas igualmente n&atilde;o pobres. J&aacute; no caso do valor do I se aproximar de -1 temos autocorrela&ccedil;&atilde;o negativa, constatando a dissimilaridade entre os valores estudados e a localiza&ccedil;&atilde;o espacial do atributo.</p>     <p>Genovez (2002) destaca que o Indicador Local de Associa&ccedil;&atilde;o Espacial<a href="#_ftn2" name="_ftnref2">[2]</a> executa a decomposi&ccedil;&atilde;o do indicador global de autocorrela&ccedil;&atilde;o na contribui&ccedil;&atilde;o local de cada observa&ccedil;&atilde;o em quatro categorias, cada uma individualmente correspondendo a um quadrante de dispers&atilde;o de Moran, que corresponde a quatro padr&otilde;es de associa&ccedil;&atilde;o local espacial entre as regi&otilde;es e seus respectivos vizinhos.</p>     <p>Conforme podemos verificar na <a href="#f1">figura 1</a>, o diagrama est&aacute; dividido em 4 quadrantes. No quadrante HH est&atilde;o inclu&iacute;das as regi&otilde;es que apresentam altos valores para a vari&aacute;vel analisada e que est&atilde;o circundadas por regi&otilde;es que, igualmente, apresentam altos valores para a vari&aacute;vel. O quadrante LH exibe as regi&otilde;es com baixos valores para a vari&aacute;vel de interesse, cercada por vizinhos que apresentam valores altos para a mesma vari&aacute;vel. O quadrante LL &eacute; constitu&iacute;do por regi&otilde;es cujos valores para a vari&aacute;vel s&atilde;o baixos e est&atilde;o circundados por outras que igualmente apresentam baixos valores para a vari&aacute;vel. Por &uacute;ltimo, temos o quadrante HL composto por regi&otilde;es com altos valores para a vari&aacute;vel de interesse e que se encontram circundadas por regi&otilde;es que apresentam baixos valores para a vari&aacute;vel. Desta forma, resta claro que apenas as regi&otilde;es localizadas nos quadrantes HH e LL apresentam depend&ecirc;ncia entre renda e espa&ccedil;o. Embora, no caso deste estudo, o diagrama de dispers&atilde;o seja substitu&iacute;do por mapas, o ArcGis utiliza a nomenclatura utilizada no diagrama, o que justifica a breve explica&ccedil;&atilde;o sobre seu funcionamento.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1">     <p><img src="/img/revistas/got/n13/n13a21f1.gif"></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p>O c&aacute;lculo do <i>I de Moran</i> global pode ser observado na <a href="#t1">tabela 1</a>. Nela, percebemos a tend&ecirc;ncia geral de agrupamentos existentes entre as v&aacute;rias faixas de renda para os munic&iacute;pios estudados. Ela tamb&eacute;m indica a probabilidade de a similaridade entre um determinado setor e sua vizinhan&ccedil;a n&atilde;o ser devido ao acaso, atrav&eacute;s do c&aacute;lculo do <i>Z-score</i><a href="#_ftn3" name="_ftnref3">[3]</a> (o escore padronizado). Este coeficiente demonstra a probabilidade de se estar errado ao rejeitar a hip&oacute;tese de nulidade.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="t1">     <p><img src="/img/revistas/got/n13/n13a21t1.gif"></p>     
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>Da <a href="#t1">tabela</a> percebemos que, de forma global, os munic&iacute;pios estudados formam <i>clusters</i> referentes aos dados apresentados pela <a href="#t1">tabela</a> sobre o valor do rendimento nominal m&eacute;dio mensal das pessoas respons&aacute;veis por domic&iacute;lios particulares permanentes (com rendimento), ou seja, h&aacute; forma&ccedil;&atilde;o de <i>clusters</i> espaciais para o percentual de pessoas muito pobres e muito ricas em todos os munic&iacute;pios estudados. Disso extra&iacute;mos que os <i>clusters</i> indicam depend&ecirc;ncia espacial da renda.</p>     <p>De forma a estabelecer uma an&aacute;lise mais fina, utilizamos o <i>I de Moran</i> local, que, conforme podemos perceber na <a href="#f2">figura 2</a>, revela padr&otilde;es locais de associa&ccedil;&atilde;o espacial, alocando os dados de acordo com os quadrantes apresentados anteriormente, conforme a distribui&ccedil;&atilde;o do percentual de pessoas muito pobres e muito ricas. Os mapas resultantes dos diagramas de dispers&atilde;o de Moran demonstram a dispers&atilde;o da pobreza e da riqueza nos cinco munic&iacute;pios estudados com base no censo 2010, indicando a exist&ecirc;ncia de autocorrela&ccedil;&atilde;o espacial positiva, ratificando os resultados obtidos pelo <i>I de Mora</i>n global.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2">     <p><img src="/img/revistas/got/n13/n13a21f2.gif"></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p><b>4.2. M&eacute;todo Centrogr&aacute;fico</b></p>     <p>Greene e Pick (2012) apresentam o m&eacute;todo centrogr&aacute;fico<a href="#_ftn4" name="_ftnref4">[4]</a> como uma possibilidade estat&iacute;stica de medir a distribui&ccedil;&atilde;o espacial de um determinado grupo (tomado como refer&ecirc;ncia) em torno de um ponto central determinando seu estado de concentra&ccedil;&atilde;o ou dispers&atilde;o. Segundo os autores, esse m&eacute;todo pode responder com uma maior precis&atilde;o a quest&otilde;es sobre qual grupo de renda<a href="#_ftn5" name="_ftnref5">[5]</a> est&aacute; mais ou menos disperso em uma cidade.</p>     <p>O m&eacute;todo centrogr&aacute;fico &eacute; baseado em c&aacute;lculos de centro m&eacute;dio para cada um dos atributos estudados e raio padr&atilde;o para as &aacute;reas de concentra&ccedil;&atilde;o. O raio forma um c&iacute;rculo em volta do centro m&eacute;dio, mostrando qu&atilde;o concentrado ou disperso espacialmente &eacute; uma determinada caracter&iacute;stica. A pondera&ccedil;&atilde;o &eacute; proporcional &agrave; concentra&ccedil;&atilde;o do atributo medida em uma coordenada particular. Em an&aacute;lises mais avan&ccedil;adas, o desvio padr&atilde;o aparece como uma elipse e n&atilde;o como um c&iacute;rculo, de modo que a pondera&ccedil;&atilde;o do centro m&eacute;dio fornece informa&ccedil;&otilde;es adicionais constantes na orienta&ccedil;&atilde;o direcional da elipse.</p>     <p>Com base nos dados disponibilizados pelo Censo 2010, para os dois grupos de renda de que nos ocupamos, podemos perceber na <a href="#f3">figura 3</a>, as diferen&ccedil;as na concentra&ccedil;&atilde;o e na dire&ccedil;&atilde;o entre os dois grupos de renda e, assim, como eles se comportam em rela&ccedil;&atilde;o a um dado ponto central em cada cidade<a href="#_ftn6" name="_ftnref6">[6]</a>.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <a name="f3">     <p><img src="/img/revistas/got/n13/n13a21f3.gif"></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p>A partir destes resultados, percebemos, de in&iacute;cio, que, corroborando Villa&ccedil;a (2007), a an&aacute;lise por regi&atilde;o &eacute; muito mais reveladora do que a an&aacute;lise centrada na escala da resid&ecirc;ncia, do setor censit&aacute;rio tomado individualmente ou do bairro. A distribui&ccedil;&atilde;o das elipses relativas aos grupos das &Aacute;reas de Menor Rendimento (AMenR) s&atilde;o bastante diferentes umas das outras, o que indica que os atributos espaciais de dispers&atilde;o e concentra&ccedil;&atilde;o de cada grupo provavelmente s&atilde;o influenciados por condi&ccedil;&otilde;es locais tanto quanto condi&ccedil;&otilde;es estruturais mais gerais.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>5.&nbsp;Discuss&atilde;o dos resultados</b></p>     <p>Os mapas produzidos com o aux&iacute;lio de t&eacute;cnicas de AEDE contidos nas figuras <a href="#f2">2</a> e <a href="#f3">3</a> indicam que os dois conjuntos de renda aqui investigados s&atilde;o muito concentrados no espa&ccedil;o de tal modo que podemos apontar para uma situa&ccedil;&atilde;o t&iacute;pica de segrega&ccedil;&atilde;o espacial, fen&ocirc;meno que &eacute; entendido enquanto caracter&iacute;stica fundamental da produ&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o urbano singular do capitalismo perif&eacute;rico da cidade brasileira. Isso significa que a produ&ccedil;&atilde;o desta cidade est&aacute; atrelada &agrave; realiza&ccedil;&atilde;o da acumula&ccedil;&atilde;o capitalista cujos objetivos se imp&otilde;em aos modos de uso do espa&ccedil;o pelas pessoas em geral. Ao produzir o espa&ccedil;o sob a primazia do valor de troca, o uso social da cidade brasileira, produto t&iacute;pico do capitalismo perif&eacute;rico, se enfraquece, estabelecendo as condi&ccedil;&otilde;es para a realiza&ccedil;&atilde;o da desigualdade na qual se assenta o funcionamento t&iacute;pico da sociedade brasileira.</p>     <p>&nbsp;Estudos sobre a fragmenta&ccedil;&atilde;o no campo disciplinar da geografia desenvolvida no Brasil entendem-na como uma forma espacial de desigualdade no sentido como o desenvolvido por Carlos (1998) para quem a fragmenta&ccedil;&atilde;o &eacute; o produto de uma atividade dividida que ocorre enquanto produto do conflito entre o processo de produ&ccedil;&atilde;o da cidade, que &eacute; sempre um esfor&ccedil;o conjunto de toda a sociedade e a sua apropria&ccedil;&atilde;o por parte de poucos indiv&iacute;duos. Por&eacute;m, neste trabalho, buscaremos ajustar o poder explicativo deste atributo espacial dando-lhe conota&ccedil;&atilde;o morfol&oacute;gica.</p>     <p>Segundo Holanda (2010), o lugar &eacute; um sistema de barreiras e permeabilidades ao movimento, de cheios e vazios, impregnados de pr&aacute;ticas sociais. Interessa-nos as rela&ccedil;&otilde;es entre tais sistemas e expectativas sociais espec&iacute;ficas sendo que estas dizem respeito a um sistema de encontros e esquivan&ccedil;as, de concentra&ccedil;&atilde;o e dispers&atilde;o de pessoas. Holanda sustenta que vasta evid&ecirc;ncia emp&iacute;rica aponta para uma congru&ecirc;ncia hist&oacute;rica entre configura&ccedil;&otilde;es arquitet&ocirc;nicas e urbanas e sistemas sociais, fazendo a ressalva que, apesar de relacionadas, arquitetura e pessoas s&atilde;o, por certo, coisas distintas e que falar em congru&ecirc;ncia n&atilde;o &eacute; falar em determina&ccedil;&atilde;o biun&iacute;voca entre arquitetura e comportamento social, mas &eacute; reconhecer que a arquitetura urbana ou edil&iacute;cia cria um campo de possibilidades e restri&ccedil;&otilde;es ao movimento que podem &ndash; ou n&atilde;o &ndash; ser superadas.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Uma compreens&atilde;o mais acurada da rela&ccedil;&atilde;o entre desigualdade e espa&ccedil;o na cidade brasileira, dadas as particularidades da constitui&ccedil;&atilde;o dos seus arranjos interpartes, n&atilde;o pode prescindir da investiga&ccedil;&atilde;o acerca da morfologia urbana, ainda que esta categoria n&atilde;o acompanhe tradicionalmente as an&aacute;lises socioecon&ocirc;micas explicativas da din&acirc;mica social da segrega&ccedil;&atilde;o urbana.</p>     <p>A intensa fragmenta&ccedil;&atilde;o do territ&oacute;rio &eacute; t&iacute;pica da grande cidade brasileira e se deve, em grande medida, ao processo cotidiano de crescimento dos per&iacute;metros urbanos dos munic&iacute;pios a custa da massiva e constante convers&atilde;o de &aacute;reas rurais em novos parcelamentos urbanos com o car&aacute;ter meramente especulativo. O vetor preferencial desta forma&ccedil;&atilde;o se d&aacute; ao longo de rodovias convertidas a avenidas urbanas, mas que mant&ecirc;m v&aacute;rias caracter&iacute;sticas t&iacute;picas do tr&acirc;nsito rodovi&aacute;rio pesado e acabam por funcionar mais como verdadeiras cunhas nestes tecidos urbanos do que como suporte para uma microeconomia local baseada no movimento peatonal t&iacute;pico de vizinhan&ccedil;as consolidadas e dotadas de vitalidade urbana.</p>     <p>Estas &aacute;reas desenvolvidas ao longo destes poucos eixos estruturantes, que penetram o tecido urbano, implicam em um padr&atilde;o de desenvolvimento excessivamente radial das cidades, de modo que estas acabam por ocupar extensos territ&oacute;rios formados por sucess&otilde;es de loteamentos uns ap&oacute;s os outros. Os centros m&eacute;dios das &Aacute;reas de Menor Rendimento (AMenR) marcados nos mapas das figuras <a href="#f2">2</a> e <a href="#f3">3</a> est&atilde;o sempre muito pr&oacute;ximos de importantes trechos urbanos de rodovias que se firmam como as &uacute;nicas estruturas morfol&oacute;gicas capazes de estruturar minimamente o espa&ccedil;o adjacente, de conjuntos de vazios urbanos ou de uma combina&ccedil;&atilde;o das duas situa&ccedil;&otilde;es.</p>     <p>No caso de Goi&acirc;nia, temos a combina&ccedil;&atilde;o da proximidade do centro m&eacute;dio da AMenR tanto das vias BR 060 e GO 060 e 070 quanto do fundo de vale do ribeir&atilde;o Anicuns, que marca um claro limite entre o tecido urbano mais cont&iacute;nuo e aquele que cont&eacute;m os setores censit&aacute;rios com domic&iacute;lios com renda <i>per capita</i> mais baixa e que &eacute; descont&iacute;nuo.</p>     <p>Para Fortaleza, temos a combina&ccedil;&atilde;o da proximidade das vias CE 060 e 065, do aeroporto internacional e da BR116, que ao atravessar grande parte da cidade marca a divis&atilde;o entre a regi&atilde;o leste com maior quantidade de fam&iacute;lias pertencentes &agrave; AMR e a regi&atilde;o oeste com maior quantidade de fam&iacute;lias pobres.</p>     <p>Para Belo Horizonte, o centro m&eacute;dio da AMenR pr&oacute;ximo ao campus da Universidade Federal de Minas Gerais, vizinho ao Anel Rodovi&aacute;rio, com a posi&ccedil;&atilde;o e a abrang&ecirc;ncia da elipse indicando a liga&ccedil;&atilde;o entre duas regi&otilde;es concentradoras de fam&iacute;lias muito pobres. Uma localizada em uma &aacute;rea fragmentada do tecido principal entre o Parque Ecol&oacute;gico e Cultural Jardim das Nascentes e o Anel Rodovi&aacute;rio e a segunda marcada pelo Anel Rodovi&aacute;rio funcionando como elemento separador entre duas regi&otilde;es com rendas <i>per capita</i> diametralmente opostas. H&aacute; ainda um bols&atilde;o importante de domic&iacute;lios de baixa renda <i>per capita</i> na regi&atilde;o noroeste cercada pela Lagoa da Pampulha, pelo aeroporto e pela MG-424</p>     <p>No caso de Bras&iacute;lia, A dire&ccedil;&atilde;o da elipse da AMenR &eacute; influenciada pela presen&ccedil;a de grandes loteamentos do lado oeste da via chamada EPIA (Guar&aacute;, &Aacute;guas Claras, Taguatinga, Ceil&acirc;ndia etc.). J&aacute; a AMR se encontra confinada no espa&ccedil;o delimitado por duas grandes vias: a EPIA e EPCT, sendo que esta &eacute; marcada por grandes vazios, como por exemplo o existente entre a Pen&iacute;nsula Norte e a via que marca os arredores do Jardim Bot&acirc;nico.</p>     <p>Para Curitiba, o centro m&eacute;dio da AMenR est&aacute; localizado pr&oacute;ximo &agrave; rodovia R&eacute;gis Bittencourt, que marca divis&atilde;o clara na cidade, de modo que a dire&ccedil;&atilde;o da diagonal maior da elipse da AMenR acompanha a inclina&ccedil;&atilde;o da rodovia. Contudo, a maior concentra&ccedil;&atilde;o das resid&ecirc;ncias mais pobres se d&aacute; entre as franjas do munic&iacute;pio e as vias Contorno Sul e Contorno Leste, que tamb&eacute;m marcam regi&otilde;es fragmentadas do sistema urbano.</p>     <p>Os loteamentos destas regi&otilde;es s&atilde;o projetados e implantados de forma independente da cidade existente, sem cuidado em estabelecer um tipo de continuidade f&iacute;sica coerente tanto com o tecido mais central e cont&iacute;nuo quanto com os demais assentamentos pr&oacute;ximos previamente existentes (que, por sua vez, tamb&eacute;m foram criados sem levar em considera&ccedil;&atilde;o o tecido urbano preexistente) de forma que funcionam como um padr&atilde;o morfol&oacute;gico de elevada fragmenta&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Esta morfologia gera a descontinuidade dos tecidos em fun&ccedil;&atilde;o do desencontro das vias dos diferentes assentamentos adjacentes uns aos outros formando articula&ccedil;&otilde;es em &ldquo;T&rdquo; ou &ldquo;L&rdquo; o que aumenta o car&aacute;ter labir&iacute;ntico dos sistemas, em detrimento de articula&ccedil;&otilde;es em &ldquo;X&rdquo;, que, em tese, garantem maior continuidade espacial. O car&aacute;ter labir&iacute;ntico &eacute; potencializado ainda pelo car&aacute;ter homog&ecirc;neo e mon&oacute;tono das paisagens perif&eacute;ricas marcadas por sucess&otilde;es de casas prec&aacute;rias ou conjuntos habitacionais de baixa qualidade espacial, sendo, portanto, uma situa&ccedil;&atilde;o que garante legibilidade espacial dos diferentes fragmentos especialmente baixa</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A morfologia resultante, bastante comum nas grandes cidades do Brasil (a ponto de podermos debater se se trataria de uma configura&ccedil;&atilde;o urbana tipicamente brasileira) cria uma barreira adicional ao movimento dos moradores em dire&ccedil;&atilde;o &agrave;s localidades concentradoras dos melhores estoques de emprego, facilidades e renda da cidade justamente por se tornarem &aacute;reas pouco integradas ao conjunto do sistema urbano.</p>     <p>A quest&atilde;o morfol&oacute;gica, assim, importa porque o atributo de fragmenta&ccedil;&atilde;o, que implica baixa integra&ccedil;&atilde;o tanto com as &aacute;reas mais afluentes quanto com as &aacute;reas vizinhas, impede a exist&ecirc;ncia de um conjunto significativo de vias urbanas cont&iacute;nuas o suficiente se entrecruzando e tamb&eacute;m estabelecendo liga&ccedil;&otilde;es hierarquicamente importantes com os trechos urbanos das rodovias em v&aacute;rias dire&ccedil;&otilde;es, tornando-se capazes tanto de ligar essas localidades entre si quanto a outras partes mais distante, como o centro da cidade por exemplo.</p>     <p>O resultado &eacute; uma estrutura espacial fraca, que falha enquanto suporte para movimentos locais de pedestres fortes o suficiente de modo a engendrar vitalidade na microeconomia local, nos espa&ccedil;os p&uacute;blicos dos bairros, e falha tamb&eacute;m em gerar subcentralidades razoavelmente importantes fora da regi&atilde;o do centro expandido, que corresponde, grosso modo, &agrave; &Aacute;rea de Maior Rendimento (AMR). Neste sentido, inferimos que a morfologia resultante da evolu&ccedil;&atilde;o particular destas regi&otilde;es tem influ&ecirc;ncia na baixa capacidade que elas t&ecirc;m de forjar emprego e renda razo&aacute;veis, melhor rede de servi&ccedil;os, espa&ccedil;os de lazer e participa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e social.</p>     <p>A esse atributo do espa&ccedil;o junta-se outro que tamb&eacute;m &eacute; muito comum em certas regi&otilde;es das periferias das grandes cidades do pa&iacute;s que &eacute; a forma&ccedil;&atilde;o de vazios urbanos entre estas e outras partes mais cont&iacute;nuas e densas; situa&ccedil;&atilde;o que contribui decisivamente para apartar regi&otilde;es inteiras umas das outras dificultando ainda mais o movimento interpartes. A forma&ccedil;&atilde;o destes vazios est&aacute; ligada &agrave; pr&oacute;pria l&oacute;gica mercadol&oacute;gica da forma&ccedil;&atilde;o dos estoques de terra e produ&ccedil;&atilde;o de conjuntos habitacionais por parte do mercado.</p>     <p>A fragmenta&ccedil;&atilde;o resultante em conjunto com a forma&ccedil;&atilde;o dos vazios urbanos forma uma morfologia t&iacute;picas das &aacute;reas ilustradas nas manchas LL dos mapas da <a href="#f2">figura 2</a>. Esta forma de separa&ccedil;&atilde;o cria novas linhas de divis&atilde;o que refor&ccedil;am aquelas socialmente j&aacute; existentes gerando uma situa&ccedil;&atilde;o que poder&iacute;amos chamar de armadilha da espacializa&ccedil;&atilde;o da pobreza, que intensifica diversas situa&ccedil;&otilde;es como a baixa na qualidade de vida, a falta de intera&ccedil;&atilde;o social, altas taxas de criminalidade e at&eacute; maior disparidade de g&ecirc;nero, uma vez que mulheres (em geral, negras) arrimos de fam&iacute;lia t&ecirc;m, muitas vezes, menor propens&atilde;o a se deslocarem longas dist&acirc;ncias por medo de certos tipos de crimes e tamb&eacute;m para permanecerem pr&oacute;ximas aos filhos.</p>     <p>De acordo com Santos (2009), a fragmenta&ccedil;&atilde;o isola os mais pobres justamente por causa de imobilidade, o que, de seu ponto de vista, transforma a cidade em um conjunto de guetos podendo levar &agrave; desintegra&ccedil;&atilde;o. Esta fragmenta&ccedil;&atilde;o se transforma efetivamente em segrega&ccedil;&atilde;o das classes mais baixas quando localizadas na periferia das grandes cidades. Este dado &eacute; relevante porque no Brasil n&atilde;o &eacute; raro que bols&otilde;es populacionais muito pobres se localizem no centro de grandes cidades. O Rio de Janeiro &eacute; um caso exemplar, embora n&atilde;o &uacute;nico em que h&aacute; proximidade espacial entre classes com uma enorme dist&acirc;ncia socioecon&ocirc;mica. Logo, para compor o quadro de segrega&ccedil;&atilde;o, o atributo da periferiza&ccedil;&atilde;o precisa estar relacionado com o atributo da fragmenta&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>A periferiza&ccedil;&atilde;o &eacute; profundamente espacial, mas n&atilde;o necessariamente morfol&oacute;gica. Segundo Vasconcelos (2013), ela substitui na literatura das ci&ecirc;ncias sociais brasileira o termo &ldquo;marginalidade&rdquo;, que, ao se transformar coloquialmente em sin&ocirc;nimo para delinquente, ficou mais associado ao indiv&iacute;duo do que ao espa&ccedil;o. O termo &ldquo;perif&eacute;rico&rdquo; costuma aparecer referenciando a d&iacute;ade &ldquo;centro-periferia&rdquo; e &eacute; associado, no Brasil, &agrave; ideia de pobreza e desigualdade. Portanto, a periferiza&ccedil;&atilde;o por si s&oacute; n&atilde;o indica situa&ccedil;&atilde;o de segrega&ccedil;&atilde;o, mas, antes, indica a condi&ccedil;&atilde;o dos mais pobres na luta pelas localiza&ccedil;&otilde;es na cidade pois a din&acirc;mica urbana tipicamente capitalista os exclui das &aacute;reas mais centrais &ndash; valiosas para o mercado imobili&aacute;rio &ndash; de modo que lhes sobram as &aacute;reas em volta da &aacute;rea de expans&atilde;o das classes mais ricas, embora n&atilde;o necessariamente cont&iacute;guas a esta.</p>     <p>Outro aspecto caracterizador da segrega&ccedil;&atilde;o nas grandes cidades brasileiras &eacute; que se tratam, muitas vezes, de sistemas urbanos cujas implica&ccedil;&otilde;es sociais, econ&ocirc;micas, pol&iacute;ticas, culturais, ecol&oacute;gicas etc. transcendem, em muito, os limites dos pr&oacute;prios munic&iacute;pios. Segundo relat&oacute;rio da ONU-HABITAT, todas as cidades analisadas aqui fazem parte de arranjos que assumem a forma de cidades-regi&otilde;es (Fortaleza, Belo Horizonte, Bras&iacute;lia e Curitiba) ou corredores urbanos (Goi&acirc;nia &ndash; Bras&iacute;lia). Esses arranjos formam unidades espaciais, que est&atilde;o unidas por sistemas de diversas naturezas, acabando por funcionar como motores da economia regional, nacional e global em conjunto com outras espalhadas por todos os pa&iacute;ses. Refletem os v&iacute;nculos que surgem entre a expans&atilde;o urbana e os novos modelos da atividade econ&ocirc;mica, o que, n&atilde;o raras vezes, resultam em um desenvolvimento regional e urbano desequilibrado.</p>     <p>N&atilde;o &eacute;, portanto, descabido, inferirmos que as grandes desigualdades socioecon&ocirc;micas percebidas nessas cidades estejam tamb&eacute;m relacionadas, de alguma maneira, com os novos papeis competitivos desempenhados na rede urbana global. Uma particularidade desses novos arranjos espaciais &eacute; a variedade de novas disposi&ccedil;&otilde;es de moradia e trabalho fora da cidade propriamente dita, em cidades sat&eacute;lites ou dormit&oacute;rio, em bairros suburbanos, bairros murados, fragmentos ligados basicamente &agrave; rodovia ou ao aeroporto etc.</p>     <p>A expans&atilde;o espacial desses aglomerados &eacute; motivada, al&eacute;m da prefer&ecirc;ncia ou necessidade dos moradores prontamente atendida pelo mercado imobili&aacute;rio, pela crise de regulamenta&ccedil;&atilde;o, controle e planejamento do parcelamento dos solos, por novas tecnologias e servi&ccedil;os melhores e mais amplos de mobilidade para que as pessoas que moram fora da cidade possam viajar todos os dias at&eacute; o trabalho no centro urbano. A essa din&acirc;mica podemos chamar de dispers&atilde;o urbana, que n&atilde;o &eacute; apenas o tradicional <i>sprawl</i> t&iacute;pico dos sub&uacute;rbios estadunidenses do p&oacute;s-guerra. Essa dispers&atilde;o vai mais longe, formando, de acordo com Vasconcelos (2013) uma &ldquo;nova fronteira&rdquo;, para al&eacute;m dos sub&uacute;rbios t&iacute;picos, engendrando novos centros de trabalho e resid&ecirc;ncia.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No Brasil, provavelmente, o caso mais emblem&aacute;tico &eacute; o de Bras&iacute;lia, como explicam Holanda et al (2008), que embora guarde grandes semelhan&ccedil;as com as demais grandes cidades brasileiras no que tange &agrave;s mazelas sociais, tem na sua dispers&atilde;o fortemente dependente de um sistema vi&aacute;rio difuso um elemento complicador a mais.</p>     <p>As an&aacute;lises feitas das cinco cidades mais desiguais do Brasil, segundo relat&oacute;rio da ONU-HABITAT, utilizando t&eacute;cnicas de autocorrela&ccedil;&atilde;o espacial global e local e de an&aacute;lise centrogr&aacute;fica produzem evid&ecirc;ncias que corroboram as explica&ccedil;&otilde;es acerca da segrega&ccedil;&atilde;o da grande cidade brasileira elencadas neste trabalho. Inferimos que o <i>I de Moran</i> local aponta para padr&otilde;es constantes para as cinco cidades, enquanto o m&eacute;todo centrogr&aacute;fico real&ccedil;a a unicidade da evolu&ccedil;&atilde;o urbana enquanto processo hist&oacute;rico pr&oacute;prio de cada uma das cinco cidades.</p>     <p>A <a href="#f2">figura 2</a> mostra que todas as cinco cidades conhecem <i>clusters</i> pertencentes aos dois grupos de renda estudados. Aquele representado pela mancha HH forma de uma esp&eacute;cie de casulo a envolver tanto o ponto adotado como central quanto o centro m&eacute;dio da AMR, o que indica a baixa propens&atilde;o deste grupo abandonar a regi&atilde;o central das cidades ou de desenvolver algum vetor de expans&atilde;o das regi&otilde;es de moradia que rompam a duradoura liga&ccedil;&atilde;o com a regi&atilde;o central. Desta maneira, podemos falar de um centro expandido t&iacute;pico, que acaba por concentrar &ndash; &agrave; medida que a cidade se desenvolve &ndash; servi&ccedil;os, funcionalidades, com&eacute;rcios, empresas e empregos voltados para as classes mais altas formando uma regi&atilde;o com suas partes razoavelmente pouco fragmentadas muito bem conectadas entre si e com a regi&atilde;o central.</p>     <p>Nas &Aacute;reas de Maior Rendimento (AMR), o valor de uso das localidades &eacute; atrelado ao valor de troca por meio do mecanismo de valoriza&ccedil;&atilde;o do solo explicitado por Villa&ccedil;a (2007), que garante aos seus propriet&aacute;rios das &aacute;reas que a posse de uma localidade dentro do centro expandido funcione como um <i>ticket</i> que d&aacute; acesso a toda a cidade, como se esta fosse um sistema de recursos utilizado para a reprodu&ccedil;&atilde;o social de uma classe espec&iacute;fica, embora produzida socialmente.</p>     <p>&nbsp;J&aacute; o <i>cluster</i> representado pela mancha LL n&atilde;o repete nenhum padr&atilde;o de distribui&ccedil;&atilde;o espacial, mas todos s&atilde;o perif&eacute;ricos e coincidem com as &aacute;reas mais fragmentadas e, deste modo, desconectadas do tecido mais denso e cont&iacute;nuo das cidades. A <a href="#f3">figura 3</a> mostra que os centros m&eacute;dios da elipse representativa das AMenR est&atilde;o sempre muito pr&oacute;ximos de grandes infraestruturas rodovi&aacute;rias o que mostra a proximidade dos loteamentos ou ocupa&ccedil;&otilde;es regulares ou n&atilde;o voltados para as fam&iacute;lias de renda <i>per capita</i> mais baixa dos grandes eixos de transporte rodovi&aacute;rio convertidos para vias urbanas.</p>     <p>Nas &Aacute;reas de Menor Rendimento (AMenR), o valor de uso da terra &eacute;, em regra, descolado do valor de troca o que amplia a condi&ccedil;&atilde;o de mera mercadoria. O mercado imobili&aacute;rio produz in&uacute;meras localidades praticamente indistintas nessas &aacute;reas e a homogeneidade e baixo valor das localidades resultantes facilita sua divis&atilde;o e venda em peda&ccedil;os sem preocupar com o papel destes lugares dentro da cidade. O espa&ccedil;o segregado (fragmentado, disperso e periferizado) tem pouco a oferecer no esquema de hierarquiza&ccedil;&atilde;o dos lugares dentro do munic&iacute;pio, uma vez que conta com pouqu&iacute;ssimas fun&ccedil;&otilde;es que n&atilde;o aquelas de mercadoria e estoque de contingente populacional (excedente?) determinada pela divis&atilde;o capitalista do trabalho.</p>     <p>Temos tamb&eacute;m a presen&ccedil;a, em maior ou menor quantidade, em todas as cidades analisadas, de algumas regi&otilde;es (LH e HL) que apresentam moradias pertencentes aos dois extremos de renda convivendo em relativa proximidade, mas essa realidade n&atilde;o chega a formar um padr&atilde;o, de modo que em Goi&acirc;nia, por exemplo, temos uma grande &aacute;rea do tipo LH em volta da mancha HH. O que percebemos &eacute; que todas as cidades t&ecirc;m a regi&atilde;o que aqui chamamos de &ldquo;centros expandidos&rdquo; envolvida completamente por uma &aacute;rea cuja leitura estat&iacute;stica do <i>I de Moran</i> local marcou como &ldquo;n&atilde;o relevante&rdquo;, ou seja, n&atilde;o havia casos suficientes de moradias afluentes ou muito prec&aacute;rias para que apontasse um processo de <i>clustering</i>, indicando que consider&aacute;vel parcela da grande cidade brasileira &eacute; formada por uma periferia mais ou menos fragmentada composta por uma mir&iacute;ade de tipos edil&iacute;cios habitados por uma popula&ccedil;&atilde;o de renda mediana (ainda que em termos absolutos seja uma renda <i>per capita</i> familiar baixa).</p>     <p>Se os mapas da <a href="#f2">figura 2</a> indicam padr&otilde;es espaciais que aproximam as cidades estudadas, o mapa 3 real&ccedil;a suas diferen&ccedil;as, mostrando que processos hist&oacute;ricos particulares ajudaram a moldar a forma&ccedil;&atilde;o das &aacute;reas segregadas. H&aacute; dois padr&otilde;es espaciais importante que podemos extrair dos mapas da <a href="#f3">figura 3</a> que dizem respeito &agrave; grande concentra&ccedil;&atilde;o da AMR em volta do ponto central e a relativa concentra&ccedil;&atilde;o das AMenR, que pode ser explicada pelo fato de que como estas &uacute;ltimas est&atilde;o relacionadas com as &aacute;reas mais fregmentadas da cidade &eacute; natural que esse grupo n&atilde;o se espalhe uniformemente por todo o sistema urbano.</p>     <p>Os mapas da <a href="#f3">figura 3</a> apontam para um limite importante dos esquemas explicativos concentrados apenas nos processos socioecon&ocirc;micos cl&aacute;ssicos na literatura brasileira. As diversas maneiras como as elipses das AMenR se distribuem no territ&oacute;rio indicam, ao nosso ver, que processos hist&oacute;ricos da evolu&ccedil;&atilde;o urbana de cada cidade precisam ser trazidos para a an&aacute;lise para o pleno entendimento de como a segrega&ccedil;&atilde;o espacial se formou em cada uma delas. No caso de Goi&acirc;nia, por exemplo, a cidade mais desigual do pa&iacute;s s&oacute; pode ter o processo formador da segrega&ccedil;&atilde;o da sua &aacute;rea mais pobre efetivamente compreendido a partir do processo hist&oacute;rico de forma&ccedil;&atilde;o, nos anos 1970, de um importante movimento articulado de luta popular pela moradia, que alcan&ccedil;a a condi&ccedil;&atilde;o de conflito aberto entre popula&ccedil;&atilde;o e estado, com a ocupa&ccedil;&atilde;o de fazendas da regi&atilde;o noroeste da cidade o d&aacute; o in&iacute;cio da ocupa&ccedil;&atilde;o da regi&atilde;o que a <a href="#f3">figura 3</a> indica como AmenR.</p>     <p>Por fim, &eacute; preciso tamb&eacute;m compreender que todo o processo descrito neste estudo n&atilde;o pode ser assimilado, conforme explica Carlos (2013), sem alus&atilde;o ao processo hist&oacute;rico da urbaniza&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s que se realiza em um quadro de depend&ecirc;ncia em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s economias centrais. As enormes metr&oacute;poles latino-americanas se d&atilde;o no processo de acelera&ccedil;&atilde;o da urbaniza&ccedil;&atilde;o decorrente de uma industrializa&ccedil;&atilde;o poupadora de m&atilde;o de obra, com altas taxas de explora&ccedil;&atilde;o da for&ccedil;a de trabalho e com extrema concentra&ccedil;&atilde;o de riqueza. Esse encadeamento deixa &agrave; margem um contingente populacional que encontrar&aacute; moradia apenas em locais acess&iacute;veis &agrave;s suas rendas irris&oacute;rias (periferiza&ccedil;&atilde;o) ou localidades criadas em antigas &aacute;reas rurais para al&eacute;m da periferia existente e de locais in&uacute;teis (fundos de vales, encostas, alagadi&ccedil;os etc.) para o mercado formal de terras (fragmenta&ccedil;&atilde;o). Nos casos mais extremos da vulnerabilidade social, certos grupos encontrar&atilde;o moradia em lugares que conjugam perversamente as duas caracter&iacute;sticas.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>6. Considera&ccedil;&otilde;es Finais</b></p>     <p>Ao discutirmos a rela&ccedil;&atilde;o entre espa&ccedil;o constru&iacute;do e desigualdade social, com a ajuda das ferramentas de an&aacute;lise espacial, compreendemos, em uma sintonia mais fina, os padr&otilde;es e tend&ecirc;ncias da segrega&ccedil;&atilde;o das classes sociais indicando um padr&atilde;o espacial t&iacute;pico da grande cidade brasileira, estabelecido pela conjuga&ccedil;&atilde;o de tr&ecirc;s atributos espaciais, a fragmenta&ccedil;&atilde;o e a dispers&atilde;o do tecido urbano e a periferiza&ccedil;&atilde;o de diversos fragmentos.</p>     <p>&nbsp;Importante notar que esses atributos s&atilde;o o resultado de uma forma peculiar de desenvolvimento urbano que associa as condicionantes socioecon&ocirc;micas presentes na especula&ccedil;&atilde;o e na primazia do valor de troca da terra urbana em detrimento de seu valor de uso traduzidas na produ&ccedil;&atilde;o social do espa&ccedil;o com a apropria&ccedil;&atilde;o das localidades de maior acessibilidade por parte das fam&iacute;lias mais ricas, com a matriz de sociabillidade herdada de s&eacute;culos de escravid&atilde;o, que deste sempre dividiu a popula&ccedil;&atilde;o brasileira entre aqueles que vivem nos sobrados e os que vivem nos mucambos, para usar a c&eacute;lebre figura elaborada por Gilberto Freyre.</p>     <p>A despeito de a segrega&ccedil;&atilde;o, enquanto din&acirc;mica espacial resultante da desigualdade de renda, ser entendida, em regra, de modo uniforme como resultado apenas de din&acirc;micas socioecon&ocirc;micas, as an&aacute;lises trazidas aqui mostram que os estudos sobre desigualdade e segrega&ccedil;&atilde;o nas cidades brasileiras deveriam levar em considera&ccedil;&atilde;o a morfologia urbana como um componente importante do problema.</p>     <p>Ainda que os dados n&atilde;o apontem para um &ldquo;efeito gueto&rdquo;, o processo de evolu&ccedil;&atilde;o urbana das cidades brasileiras aponta uma intensa segrega&ccedil;&atilde;o dos mais pobres em algumas &aacute;reas da cidade. O car&aacute;ter da segrega&ccedil;&atilde;o neste caso est&aacute; em que ao longo da hist&oacute;ria os mais pobres foram empurrados para &aacute;reas com baixo acesso a equipamentos coletivos e, principalmente, baixa integra&ccedil;&atilde;o com o restante da cidade.</p>     <p>Assim, apesar de alguma melhora dos indicadores sociais brasileiros nos &uacute;ltimos anos, as grandes cidades brasileiras seguem sendo cidades segregadas, sobretudo no que diz respeito &agrave;s suas regi&otilde;es centrais, melhor integradas e &agrave;s camadas de mais alta renda que buscam estas localidades que propiciam melhores condi&ccedil;&otilde;es para sua reprodu&ccedil;&atilde;o social. Ressalta-se a aus&ecirc;ncia de dados mais desagregados no n&iacute;vel dos setores censit&aacute;rios, o que dificulta investiga&ccedil;&otilde;es mais profundas neste sentido.</p>     <p>As pol&iacute;ticas p&uacute;blicas da d&eacute;cada de 2000 foram relativamente exitosas no enfrentamento das desigualdades de renda, especialmente entre os setores mais pobres, contudo apontamos que o componente espacial da desigualdade &eacute;, em parte, respons&aacute;vel pela perman&ecirc;ncia desta din&acirc;mica social. Isso se deve ao simples fato que distribui&ccedil;&atilde;o de renda em si n&atilde;o resolve problemas urbanos cr&ocirc;nicos como habita&ccedil;&atilde;o, transporte p&uacute;blico ou integra&ccedil;&atilde;o aos recursos do restante da cidade.</p>     <p>Aos espacializarmos os dados, percebemos que certas regi&otilde;es que combinam graus diferentes de fragmenta&ccedil;&atilde;o, dispers&atilde;o e periferiza&ccedil;&atilde;o parecem exercer um papel importante na reprodu&ccedil;&atilde;o da pobreza tornando-a estrutural. A aus&ecirc;ncia de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas mais profundas de reforma urbana buscando integrar fisicamente regi&otilde;es segregadas ao restante das cidades contribui para a manuten&ccedil;&atilde;o da condi&ccedil;&atilde;o de pobreza de seus habitantes, enquanto que nos espa&ccedil;os centrais das cidades, onde &eacute; poss&iacute;vel desfrutar de infraestrutura, acessibilidade e integra&ccedil;&atilde;o est&aacute; restrita, em grande medida, aos grupos tradicionalmente privilegiados em termos de renda.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>7. Refer&ecirc;ncias bibliogr&aacute;ficas</b></p>     <!-- ref --><p>BAILEY, Trevor C.; GATRELL, Anthony C.&nbsp; <i>Interactive spatial data analysis</i>. 1&ordf; ed. Essex: Prentice Hall. 1995. ISBN 978-05-82244-93-1&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1750532&pid=S2182-1267201800010002100001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>CARLOS, Ana F.A. <i>A natureza do espa&ccedil;o fragmentado</i>. In: SANTOS, M.; SOUZA, M. A.; SILVEIRA, M.L. (Org.) <i>Territ&oacute;rio: globaliza&ccedil;&atilde;o e fragment</i>a&ccedil;&atilde;o. S&atilde;o Paulo: Hucitec, DL, 1998, p. 191-197.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1750533&pid=S2182-1267201800010002100002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>CARLOS, Ana F.A. <i>A pr&aacute;tica espacial urbana como segrega&ccedil;&atilde;o e o &ldquo;direito &agrave; cidade&rdquo; como horizonte ut&oacute;pico</i>. In: VASCONCELOS, Pedro de A; CORR&Ecirc;A, Roberto L; PINTAUDI, Silvana M (Org.) <i>A cidade contempor&acirc;nea &ndash; segrega&ccedil;&atilde;o espacial</i>. S&atilde;o Paulo: Contexto, DL 2013, p.95-109</p>     <p>CORR&Ecirc;A, Roberto L. <i>Segrega&ccedil;&atilde;o residencial: classes sociais e espa&ccedil;o urbano</i>. In: VASCONCELOS, Pedro de A; CORR&Ecirc;A, Roberto L; PINTAUDI, Silvana M (Org.) <i>A cidade contempor&acirc;nea &ndash; segrega&ccedil;&atilde;o espacial</i>. S&atilde;o Paulo: Contexto, DL 2013, p.39-59.</p>     <!-- ref --><p>FREYRE, Gilberto. Sobrados e mucambos. 5&ordf; ed. S&atilde;o Paulo: Global. 2003. ISBN 85-260-0835-8&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1750537&pid=S2182-1267201800010002100005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>GENOVEZ, Patr&iacute;cia C. 2002. <i>Territ&oacute;rio e desigualdade: An&aacute;lise Espacial intra-urbana no estudo da din&acirc;mica exclus&atilde;o/inclus&atilde;o social no espa&ccedil;o urbano em S&atilde;o Jos&eacute; dos Campos &ndash; SP</i>. MS thesis, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais de S&atilde;o Jos&eacute; dos Campos.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>GREENE, Richard; PICK, James. 2&ordf; ed. <i>Exploring the urban community: A GIS approach</i>. New Jersey: Prentice Hall. 2012. ISBN 13-978-0-321-75159-1&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1750539&pid=S2182-1267201800010002100007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>HOLANDA, F. de. <i>Bras&iacute;lia. Cidade moderna cidade eterna</i>. 1&ordf; ed. Bras&iacute;lia: Editora UnB. 2010. ISBN 978-85-60762-02-6&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1750540&pid=S2182-1267201800010002100008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>HOLANDA, Frederico, RIBEIRO, R&ocirc;mulo, MEDEIROS, Val&eacute;rio. Bras&iacute;lia, Brazil: economic and social costs os dispersion. In International Society of City and Regional Planners, 44, Dalian, 2008, Dalian &ndash; China: Dalian Publishing House. p 1-12. ISBN 978-90-75524-58-1</p>     <!-- ref --><p>Instituto Brasileiro de Geografia e Estat&iacute;stica, 2011. <i>Base de informa&ccedil;&otilde;es do Censo Demogr&aacute;fico 2010: Resultados do Universo por setor censit&aacute;rio</i>. Rio de Janeiro: IBGE.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1750542&pid=S2182-1267201800010002100010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>LEFEVBRE, Henri. <i>O direito &agrave; cidade</i>. 5&ordf; ed. S&atilde;o Paulo: Centauro. 2011. ISBN 978-85-88208-97-1&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1750544&pid=S2182-1267201800010002100011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>MARICATO, Erm&iacute;nia. Brasil, cidades: alternativas para a crise urbana. 2&ordf; ed. Petr&oacute;polis: Vozes. 2002. ISBN 85-326&mdash;2633-5</p>     <p>MITCHELL, Andy, 2009<i>. 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MS thesis, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais de S&atilde;o Jos&eacute; dos Campos.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1750548&pid=S2182-1267201800010002100015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>SABATINI, F., SIERRALTA, C. <i>Medi&ccedil;&atilde;o da segrega&ccedil;&atilde;o residencial: meandros te&oacute;ricos e metodol&oacute;gicos e especificidade latino-americana</i>. In: CUNHA, J.M.P. (Org.). <i>Novas metr&oacute;poles paulistas: popula&ccedil;&atilde;o, vulnerabilidade e segrega&ccedil;&atilde;o</i>. Campinas: Nepo/Editora da Unicamp, DL 2006, p.170-195.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1750550&pid=S2182-1267201800010002100016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>SANTOS, Milton. Metr&oacute;pole corporativa fragmentada: o caso de S&atilde;o Paulo. 2009. ISBN 878 -85-314-1159-5&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1750552&pid=S2182-1267201800010002100017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>SOARES, Sergei. <i>Desigualdade de renda</i>. In: CASTRO, Jorge, VAZ, F&aacute;bio (Org.). <i>Situa&ccedil;&atilde;o social brasileira: monitoramento das condi&ccedil;&otilde;es de vida</i>. Bras&iacute;lia: IPEA, DL 2011, p.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1750553&pid=S2182-1267201800010002100018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>United Nations Human Setlements Programm. <i>State of the world`s cities 2010/2011 &ndash; Bridging the urban divide</i>. Londres: UN-HABITAT. 2012. ISBN 978-1-84971-176-0</p>     <p>VASCONCELOS, Pedro A. Contribui&ccedil;&otilde;es para o debate sobre processos e formas socioespaciais nas cidades. In: VASCONCELOS, Pedro de A; CORR&Ecirc;A, Roberto L; PINTAUDI, Silvana M (Org.) <i>A cidade contempor&acirc;nea &ndash; segrega&ccedil;&atilde;o espacial</i>. 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<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1">[1]</a> O sal&aacute;rio m&iacute;nimo brasileiro desde 29/12/2017 &eacute; de R$ 954,00, equivalente a &euro; 228,23 em 18/04/2018.</p>     <p><a href="#_ftnref2" name="_ftn2">[2]</a> Local Indicators of Spatial Association &ndash; LISA.</p>     <p><a href="#_ftnref3" name="_ftn3">[3]</a> O z-score ajuda a entender onde um determinado escore se encontra em rela&ccedil;&atilde;o aos demais numa distribui&ccedil;&atilde;o. Indica o quanto acima ou abaixo da m&eacute;dia um escore est&aacute; em termos de unidades padronizadas de desvio, sendo calculado usando a m&eacute;dia e o desvio padr&atilde;o.</p>     <p><a href="#_ftnref4" name="_ftn4">[4]</a> Centrographic method, em ingl&ecirc;s.</p>     <p><a href="#_ftnref5" name="_ftn5">[5]</a> Na verdade, o m&eacute;todo centrogr&aacute;fico, tal qual um &iacute;ndice de dissimilaridade, mede a igualdade ou uniformidade de quaisquer grupos mutualmente excludentes: pobres e ricos, negros e brancos etc.</p>     <p><a href="#_ftnref6" name="_ftn6">[6]</a> Neste estudo, indicamos para cada sistema urbano um ponto central referente &agrave; localiza&ccedil;&atilde;o do marco inicial de constru&ccedil;&atilde;o da cidade.</p>      ]]></body><back>
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