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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Recensão do livro "Arquitectura Popular: Tradição e Vanguarda / Tradición y Vanguardia"]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana" size="2"><b>RESENHA</b></font></p>     <p align="right"></p>     <p>&nbsp;</p> <b><font face="Verdana" size="4"><b>Recensão do livro &quot;Arquitectura Popular: Tradição e Vanguarda / Tradición y Vanguardia&quot;</b></font></b>     <p></p>     <p> <b><font face="Verdana" size="3"><b>Review of &quot;Arquitectura Popular: Tradição e Vanguarda / Tradición y Vanguardia&quot;</b></font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <b><font face="Verdana" size="2">Manuel Villaverde Cabral<a name="top1" id="top1"></a><a href="#1">I</a></font></b>     <p></p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="1" id="1"></a>[<a href="#top1">I</a>]</font></font><font size="2" face="Verdana">Instituto de Ciências Sociais &#8211; Universidade de Lisboa, Portugal. e-mail: <a href="mailto:mvillaverdecabral14@gmail.com" target="_blank">mvillaverdecabral14@gmail.com</a></font>.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Arquitectura Popular: Tradição e Vanguarda / Tradición y Vanguardia</font></b></p>     <p><b><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Paula André e Carlos Sambricio</font></b></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Lisboa: DINÂMIA'CET-IUL, 2016</font><br/>     <p align="center">&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> </font>  <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     <p> O tema abordado é claramente enunciado no título e a colectânea coordenada por Paula André e Carlos Sambricio insere-se num conjunto bibliográfico já relativamente abundante entre nós. [<a name="top2" id="top2"></a><a href="#2">2</a>] A presente colectânea tem, pois, como objecto relacionar a chamada arquitectura popular com a vanguarda arquitectónica difundida a partir do movimento modernista internacional, com referência em particular a Portugal e Espanha no século XX. Entre nós, o primeiro texto que abordou o tema, ainda que indirectamente, terá sido um pequeno artigo do arquitecto Victor Palla intitulado «O lugar da tradição», publicado há 70 anos [<a name="top3" id="top3"></a><a href="#3">3</a>] , onde o futuro co-autor do foto-livro Lisboa &#8211; cidade triste e alegre (1959), procurava reconstruir a noção de «tradição» manipulada pelo regime ditatorial português de então contra o modernismo no sentido de conceber a «tradição» não como algo estático e intocável, mas sim como um momento evolutivo e inspirador do processo de modernização da arquitectura. </p>     <p> Não é possível, no espaço de que disponho, comentar aprofundadamente as breves apresentações dos coordenadores e os sete textos individuais deste volume bilingue. Anote-se, contudo, a convergência da maioria dos autores ao assumirem a polissemia da noção de arquitectura popular ora como regional, tradicional ou rural; ou ora ainda, mais recentemente, como vernacular, isto é, caracterizada pelo anonimato <i>versus</i> a autoria. Em suma, a arquitectura popular seria distinta mas não necessariamente oposta à erudita na medida em que ambas teriam em comum a sua base funcional e adaptada aos materiais construtivos e às circunstâncias da construção. </p>     <p> Os dois primeiros textos &#8211; de Paulo Simões Rodrigues sobre Portugal e de Eric Storm sobre Espanha &#8211; fornecem o «<i>background</i>» histórico desse confronto entre a arquitectura vernacular e a erudita. Com efeito, antes mesmo da eclosão da arquitectura moderna na sequência das vanguardas artísticas das décadas de 1910 e &#8216;20, já essa confrontação emergira do discurso político-intelectual sobre a identidade nacional e da própria pesquisa etnográfica, contribuindo para a busca de «estilos nacionais» que caracterizariam e preservariam a «alma da nação». Tal chegou a acontecer com o «neo-manuelino» em Portugal e com estilos «historicistas» equivalentes em Espanha, vindo a dar origem a propostas como a «casa portuguesa» de Raul Lino, a qual acabou por chocar com as primeiras experiências arquitectónicas modernizadoras já no Estado Novo. Entretanto, a comparação que os dois textos citados permitem fazer entre Portugal e Espanha mostra que, se é exacto que as tendências portuguesas são paralelas às espanholas, já o movimento em Espanha era bastante mais intenso e possuía bases materiais muito mais sólidas. </p>     <p> Por seu turno, o importante texto de Paula André intitulado «Etnogenia, fotogenia, etnologia» vai abordar a bibliografia e a documentação, nomeadamente fotográfica, existentes sobre a arquitectura popular em Portugal na primeira metade do século XX, dando particular atenção à investigação do antropólogo Jorge Dias (formado na Alemanha durante o período hitleriano, viria a falecer em 1973) e da sua equipa, bem como do geógrafo Orlando Ribeiro, os quais colaboraram activamente no Congresso Internacional de Geografia realizado em Lisboa em 1949 a propósito do qual publicaram ampla informação ilustrada. Porém, se é exacto que um colaborador do grupo de Jorge Dias como Fernando Galhano iniciara desde 1926 a produção de desenhos e fotos sobre a arquitectura popular, não é menos certo que os grandes livros abundantemente ilustrados dos sobreviventes dessa equipa sobre as actividades rurais e marítimas populares só foram publicados por eles depois do 25 de Abril pela Imprensa Nacional num contexto histórico e arquitectónico completamente diferente. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Em contraste com as concepções nacionalistas de Jorge Dias e de Orlando Ribeiro, que mantiveram nos anos &#8216;40 ligações ao SNI de António Ferro e à sua campanha de «ressurgimento étnico» ligada à criação do futuro «Museu de Arte Popular», a autora evoca o papel da imagem fotográfica &#8211; por assim dizer, objectivista &#8211; no grande inquérito à habitação rural realizado pelo Instituto Superior de Agronomia [<a name="top4" id="top4"></a><a href="#4">4</a>] , cujos primeiros volumes funcionaram na altura como um «contra-discursos» oposto à propaganda do regime. Segundo as pesquisas de Paula André, os Arquitectos apenas vão entrar nesse debate no pós-guerra, sendo de citar as significativas palavras de um jovem aluno da Escola de Belas-Artes do Porto, concretamente em 1945: «A arte moderna não é uma criação artificial mas vem em consequência do desenvolvimento da cultura, da técnica, da indústria do nosso tempo&#8230; Entre nós&#8230; está ainda muito balbuciante: anda-se muito em volta dos &#8220;manuelinos&#8221;, dos &#8220;pombalinos&#8221;, dos &#8220;raulinos&#8221;»! No mesmo ano, Fernando Távora, num artigo sobre «O problema da casa portuguesa», preconiza a promoção de estudos tanto populares como eruditos numa linha timidamente funcionalista. No ano seguinte, Keil do Amaral advoga na revista Arquitectura um tal inquérito como «uma iniciativa necessária». </p>     <p> Finalmente, em 1955, Távora faz um modesto ensaio de inquérito às expressões e técnicas arquitectónicas tradicionais portuguesas no âmbito da Exposição Magna da ESBAP, onde foi também exibida abundante documentação fotográfica coordenada por Keil do Amaral nos anos '50 e que levará mais tarde ao lançamento dessa obra famosa que é hoje o Inquérito à Arquitectura Popular publicado em 1961 pelo Sindicato Nacional dos Arquitectos. Neste percurso se encontraria, tanto para a autora como para outros pesquisadores mencionados de início, um elo virtuoso de ligação entre o estudo da arquitectura vernacular então ainda sobrevivente e a consagração do estilo erudito moderno. </p>     <p> Ao pormenorizado texto de Paula André sobre Portugal corresponde, de algum modo, o artigo sobre a experiência espanhola do outro coordenador desta colectânea, Carlos Sambricio, com um título algo paradoxal pedido de empréstimo a Ortega y Gasset mas, neste caso, claramente programático: « <i>Tradición significa cambio</i>»! Desde logo, Sambricio coloca o problema no contexto do primeiro pós-guerra e, concretamente, da crise da construção popular em sentido não só vernacular mas também da habitação urbana. Segundo ele, foi a indústria da construção civil e a engenharia que responderam à emergência socioeconómica da crise, ao mesmo tempo que haverá da parte da ditadura do General Primo de Rivera (1923-1930) uma actuação estatal muito mais firme do que em Portugal, com uma exposição e concurso sobre a «Casa Regional» em 1926 e a reforma dos estudos de Arquitectura, até à Exposição de Sevilha em 1929, tudo isto sob a nostalgia do «popular» e/ou do «histórico»... </p>     <p> Pelo seu lado, antecipando o que sucederia mais tarde em Portugal, Sambricio debate-se com a interrogação tipicamente corporativa dos arquitectos modernistas acerca daquilo que estes designam por «sinceridade arquitectónica», desdobrada em Espanha em debates acesos sobre «a verdadeira e a falsa arquitectura popular» evocadas a propósito do exemplo de Ibiza de uma «arquitectura sem arquitectos». Entretanto, o Estado espanhol &#8211; com o advento da República democrática (1931) &#8211; continua a ter neste campo uma actuação sem medida comum em Portugal até à consolidação do Estado Novo, com a criação dos «<i>paradores</i>», dos quais o SNI se inspiraria até ao famoso pavilhão na Exposição de Paris já durante a Guerra Civil (1937), onde a Espanha republicana pretende apresentar a « <i>realidad de un pueblo</i>» distinta das imagens «folcloristas». </p>     <p> Sem prejuízo dos textos que ficaram por analisar, é possível concluir que Carlos Sambricio não só não contradiz como vai mais longe do que Paula André ao afirmar que já então « <i> vanguardia y arquitectura popular constituían &#8211; tras algo más de 30 años de reflexión &#8211; no un binómio sinó una única forma de pensar la arquitectura». </i> Na minha opinião, contudo, esta conclusão, que se abona no «realismo crítico» de um Kenneth Frampton e se estenderia de Alvar Aalto a Siza Vieira, carece ainda de uma demonstração cabal que não se arrisque a ser tomada como especulação retrospectiva e metafórica, embora haja autores portuguesas que defendem em Portugal ideias próximas das de Sambricio sobre o elo virtuoso entre arquitectura popular e arquitectura moderna, como Pedro Vieira de Almeida e Helena Maia. [<a name="top5" id="top5"></a><a href="#5">5</a>] </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>NOTAS</p> </font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> <a name="2" id="2"></a>[<a href="#top2">2</a>] Tanto do lado da arquitectura, nomeadamente Pedro Vieira de Almeida e Helena Maia (ver citação final), como da antropologia (João Leal, «Arquitectos, engenheiros, antropólogos: estudos sobre a arquitectura popular no século XX português, Fundação Marques da Silva, Porto, 2008).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="3" id="3"></a>[<a href="#top3">3</a>] V. Palla, «O lugar da tradição», Arquitectura (2.ª série), n.º 28 de Jan.º de 1947.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="4" id="4"></a>[<a href="#top4">4</a>] Cf. Lima Basto & Henrique de Barros, ISA, 1943 e 1947, sendo o terceiro volume proibido pela Ditadura e apenas reconstituído em 2102 por Fernando Oliveira Baptista e editado pela Imprensa Nacional</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="5" id="5"></a>[<a href="#top5">5</a>] Cf. <a href="http://www.ceaa.pt/wp-content/uploads/2012/11/PVA-and-the-Survey.pdf" target="_blank">http://www.ceaa.pt/wp-content/uploads/2012/11/PVA-and-the-Survey.pdf</a></font></p>      ]]></body>
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