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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[(Des)encontros entre Academia e Política: Conhecimento, Engajamento e Habitação em Portugal]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[(Mis)matches between Academia and Politics: Knowledge, Involvement and Housing in Portugal]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade de Coimbra Centro de Estudos Sociais ]]></institution>
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<institution><![CDATA[,Universidade de Lisboa Instituto de Ciências Sociais ]]></institution>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana" size="2"><b>ENSAIO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p> <b><font face="Verdana" size="4">(Des)encontros entre Academia e Política: Conhecimento,  Engajamento e Habitação em Portugal </font></b>      <p></p>     <p> <b><font face="Verdana" size="3"> (Mis)matches between Academia and Politics:    Knowledge, Involvement and Housing in Portugal </font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font face="Verdana" size="2">Ana Rita Alves<a name="top1" id="top1"></a><a href="#1">I</a>;    Roberto Falanga<a name="top2" id="top2"></a><a href="#2">II</a></font></b></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="1" id="1"></a>[<a href="#top1">I</a>]</font><font size="2" face="Verdana">Centro    de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra, Portugal. e-mail: <a href="mailto:ritaalves@ces.uc.pt" target="_blank">ritaalves@ces.uc.pt</a>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="2" id="2"></a>[<a href="#top2">II</a>]</font><font size="2" face="Verdana">Instituto    de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa, Portugal. e-mail: <a href="mailto:roberto.falanga@ics.ulisboa.pt" target="_blank">roberto.falanga@ics.ulisboa.pt</a>.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade="noshade" />     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <font size="3" face="Verdana, Geneva, sans-serif"></font> <font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">      <p> No decurso deste ensaio procuraremos sublinhar a relação historicamente comprometida    entre academia e política e, em particular, a forma como a produção de conhecimento    no espaço académico tem concorrido para informar, legitimar ou contestar projetos    políticos diversos no campo da habitação em Portugal. Embora esta relação possa    parecer evidente, predomina ainda, em grande medida, a ideia de que a objetividade    ou a intersubjetividade, conferidas pelo método científico, atribuem ao conhecimento    académico um estatuto tácito de neutralidade, deixando de fora do debate as    dimensões ideológicas que o constituem. É neste sentido que pretendemos aferir    que, à imagem de outras instituições, a academia é ontologicamente um espaço    de tensões político-ideológicas já que a sua essência é inerente aos processos    históricos que lhe conferiram, dialogicamente, poder e existência. Assim, não    pode descurar-se a existência de cânones disciplinares dominantes e a forma    como estes, em conjunto com a experiência vivida das académicas e dos académicos,    determinam, amiúde, a escolha dos temas de investigação, bem como o enquadramento    teórico a partir do qual determinada realidade é (ou não) olhada, destacada    e (re)pensada. Ademais, estas tensões parecem surgir, também, de um percurso    histórico de interdependência, material e simbólica, entre Estado e academia,    traduzido num diálogo permanente por meio de órgãos ministeriais, políticas    científicas e financiamentos públicos. É neste contexto que entendemos a academia    como um espaço em tensão, perpassado por um conjunto de relações de poder (i.e.    classe, raça e género) que ultrapassam largamente o campo estritamente científico    e se espraiam das/nas esferas de decisão e de contestação públicas. </p>     <p> Como tal, este ensaio é uma tentativa de mapear e debater a persistência de    diferentes formas de engajamento académico, entendendo aqui engajamento como    o estabelecimento de parcerias e compromissos políticos a curto, médio ou longo    prazo com instituições estatais ou com a sociedade civil. Este texto centrar-se-á    sobre as formas de engajamento académico mais visíveis no campo dos trabalhos    sobre Habitação e Cidade em Portugal e, em particular, na Área Metropolitana    de Lisboa. Fruto da nossa experiência, porosa, enquanto académicos que têm trabalhado    em proximidade ora com as populações, ora com as instituições do Estado, é nosso    objetivo problematizar e complexificar a noção de engajamento. Isto porque se,    grosso modo, a ideia de engajamento é utilizada como marcador dos trabalhos    que se solidarizam com lutas sociais (mais) periféricas, entendemos que o trabalho    de académicos em proximidade com instituições governamentais é também perpassado    por tensões que interessa, aqui, desnaturalizar. Neste sentido, quando falamos    de engajamento deve notar-se que este implica, sem exceção, uma contenda pela    redistribuição, redefinição ou reafirmação das relações de poder vigentes num    determinado espaço-tempo. </p>     <p>&nbsp; </p>     <p><font size="3"><b>Engajamento(s) nas políticas da habitação em Portugal</b></font>  </p>     <p> Em Portugal, a produção de conhecimento académico sobre habitação parece ter-se    centrado, essencialmente, na análise das carências habitacionais e dos seus    contextos, bem como das políticas públicas que, ao longo do último século, se    preocuparam em dirimir as desigualdades no acesso à habitação, assim como epitomizado    por um conjunto de estudos e análises centrados no Serviço Ambulatório de Apoio    Local (Portas, 1986; Bandeirinha, 2007) ou no Programa Especial de Realojamento    (Freitas, 1994; Cachado, 2013). Perante uma precariedade habitacional que sempre    se agigantou face à timidez da iniciativa pública, muitos foram os académicos    que, no curso do mapeamento e análise destes processos, utilizaram os seus trabalhos    como plataforma de crítica e denúncia e, claro está, se implicaram na tentativa    de os solucionar. É neste sentido que se pode afirmar que, desde cedo, no campo    da Habitação, Academia e Política se intercetaram, apoiaram ou digladiaram,    tornando o campo de estudos sobre habitação um espaço paradigmático para pensar    questões de engajamento político-científico. Destaque-se, a este propósito,    os trabalhos de Nuno Teotónio Pereira, Raul Silva Pereira, Nuno Portas, Helena    Roseta, António Fonseca Ferreira, Isabel Guerra, Isabel Raposo, Jorge Malheiros,    João Ferrão, Maria João Freitas ou Ana Pinho, entre muitos outros, já que, na    consequência do seu trabalho, cooperaram de formas diversas com projetos estatais,    tanto à escala local como nacional, que envolveram ou não directamente as populações-alvo    dessas mesmas políticas (i.e. Programa das Casas Económicas, Serviço de Apoio    Ambulatório Local, Pacote de Políticas de Habitação (Guerra, 1997), Nova Geração    de Políticas de Habitação) e que influenciaram, de forma mais ou menos direta,    a gestão do parque habitacional em zonas periféricas (i.e. Iniciativa Bairros    Críticos, Programa de Parcerias Locais BIP/ZIP). Deste modo, embora o mote fosse    essencialmente institucional, estes trabalhos parecem ter tentado, inequivocamente,    dirimir as desigualdades no acesso à habitação e ampliar o direito à cidade.  </p>     <p> Mais recentemente, o envolvimento das pessoas que trabalham no espaço académico    parece tender no sentido de exceder os corredores das instituições, tateando    os espaços associativos, as assembleias de bairro e as mobilizações de rua como    espaços preferenciais de ação. Exemplo disso mesmo é a crescente participação    de académicos num conjunto de iniciativas e processos à escala local e supralocal,    tais como a Assembleia de Moradores e a Caravana pelo Direito à Habitação, bem    como o apoio a pessoas, coletivos, bairros e a sua sinergia com associações    empenhadas em travar despejos forçados, demolições ou em lutar por melhores    condições de habitação (Falanga et al., 2019). Este engajamento pode ser lido,    em certa medida, como sintomático do actual debate público sobre a crise no    acesso à habitação – numa altura em que uma suposta classe média branca que    habita o centro da cidade começa a ser forçada a abandonar as suas casas à medida    que se consolida o processo de financeirização da habitação em curso em Portugal.    Interessa sublinhar a tomada de posição de muitos académicos, expressa num conjunto    de conferências, seminários, debates, textos e livros empenhados, de forma inequívoca,    na defesa do direito à habitação e à cidade - num processo poroso, de diálogo,    entre o conhecimento produzido no espaço académico e aquele proveniente dos    movimentos sociais. Para além do mais, não são alheias a este debate: i) a Recomendação    n.º 3/B/2016 (2016) da Provedoria de Justiça, que preconiza a revisão do Programa    Especial de Realojamento; ii) a visita oficial da Relatora das Nações Unidas    para a Habitação Adequada, que tece duras críticas aos despejos sem alternativa    (2016); iii) o Levantamento Nacional das Necessidades de Realojamento Habitacional    (2018), que exprime a atualidade das carências habitacionais; iv) a promulgação    da Nova Geração de Políticas de Habitação (2018) e o debate sobre a Lei de Bases    da Habitação (2018-2019), que dão conta da iniciativa governamental face a uma    realidade que passou definitivamente para a esfera do visível. Deve notar-se    que no decorrer destes processos, com diferentes posições, à imagem do que havia    acontecido no âmbito do desenho e promulgação do Programa Especial de Realojamento,    a presença de académicos foi uma constante. </p>     <p> É neste contexto que distinguimos dois possíveis arquétipos de engajamento    académico no campo da habitação, que denominámos de engajamento institucional    e engajamento periférico. Enquanto o primeiro se pauta por uma relação directa    da academia com o Estado, o segundo caracteriza-se pela solidarização com pessoas,    colectivos ou associações que defendem o Direito à Habitação. Considerando que    muitos dos processos de luta dos moradores por uma habitação condigna acontece    devido a processos de antagonização ou (in)ação do Estado, seria de esperar    que estes dois tipos de engajamento pudessem ser, de certa forma, antagónicos,    o que não é necessariamente verdadeiro. Contudo, realça-se que, se historicamente    o engajamento da Academia com o Estado tem sido considerado como naturalmente    ligado às atividades de investigação e/ou docência, o engajamento da Academia    com a sociedade civil tem sido entendido como essencialmente alheio aos mesmos    fins e, em alguns casos, problemático. Ou seja, enquanto o primeiro aparenta    não gerar qualquer debate em relação à idoneidade do conhecimento produzido,    o segundo - ao questionar o <i>statu quo</i> - é entendido como parcial, ideológico    ou mesmo radical e, por isso, muitas vezes, desvalorizado no espaço académico.    Assim, interessa aqui mapear as formas que podem tomar estes dois tipos de engajamento,    debatendo as suas causas, consequências e implicações, certos de que o engajamento    da academia com o Estado ou com os movimentos sociais é caracterizado por fronteiras    mais porosas e móveis do que é comumente admitido. </p>     <p>&nbsp; </p>     <p><font size="3"><b>Arquétipo I: Engajamento Institucional</b></font> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> No campo da habitação, argumenta-se que o Engajamento Institucional se conjuga    na reciprocidade da relação entre Academia e Entidades Governamentais ou Para-Governamentais    interessadas em utilizar, incluir e capitalizar o conhecimento académico, num    processo dialógico que visa desenhar, reforçar e legitimar racionalidades e    políticas estatais. A este propósito distinguimos quatro formas distintas de    engajamento institucional. </p>     <p> Uma primeira forma poderia denominar-se de consulta, já que consiste em chamar    académicos, considerados peritos em determinadas áreas, a pronunciarem-se, avaliar,    propor e criticar medidas ou políticas públicas pensadas, planeadas ou em processo    de revisão. Este processo de consulta pode acontecer através de encontros ou    reuniões e da elaboração de documentos ou estratégias de ação que sirvam de    guião à sua viabilidade, planeamento e implementação de medidas públicas. Sublinhe-se    que estes processos podem exigir um compromisso mais efetivo dos académicos    quando lhes são encomendados estudos ou levantamentos que mapeiem determinadas    realidades ou processos de forma mais abrangente. Uma segunda forma de engajamento    institucional poderia ser apelidada de monitorização e implica a contratação    de académicos, por parte de entidades governamentais ou para-governamentais,    para que estes produzam relatórios e estudos que envolvem o acompanhamento de    determinada realidade ou a avaliação de medidas, projetos, programas e políticas    públicas implementadas pelo Estado. Este trabalho centra-se essencialmente na    elaboração de relatórios de monitorização, avaliação e, sempre que necessário,    inclui algumas recomendações com vista à sua melhoria. Nestas situações deve    notar-se que os académicos poderão encontrar-se num lugar politicamente sempre    que o seu contributo seja funcional à tomada de decisões. Por exemplo, do seu    contributo poderão advir novas medidas públicas, bem como a interrupção ou a    continuação de medidas existentes. A colaboração pode acabar por tornar-se mais    definitiva, originando uma segunda forma de engajamento – a ocupação de um cargo    administrativo – que dita uma relação permanente (ou semipermanente) entre os    investigadores e as estruturas do Estado. De acordo com o grau de responsabilidade    no interior da administração pública, as obrigações poderão envolver funções    técnicas ou de direção, com níveis diversos de tomada de decisão (cf. Falanga,    2018). Por último, pode dar-se que os académicos sejam convidados a ocupar um    cargo político, assumindo, por um lado, um poder decisório e esbatendo tacitamente    a fronteira entre a produção de conhecimento académico e a elaboração e execução    de políticas e programas de habitação e, por outro, um compromisso de médio-longo    prazo com um determinado projecto de governo. </p>     <p>&nbsp; </p>     <p><font size="3"><b>Arquétipo II: Engajamento Periférico</b></font> </p>     <p> O Engajamento Periférico é um processo tendencialmente auto-organizado com    as populações ou associações em luta por melhores condições de habitação, contra    as proposições e consequências de medidas públicas ou a reivindicação pela sua    existência. Este tipo de engajamento, muitas vezes equiparado ao activismo,    corresponde à mobilização de académicos e do conhecimento por eles produzido    em solidariedade com indivíduos, coletivos ou associações na reivindicação de    direitos, conduzindo a sinergias entre as funções desempenhadas na academia    e as lutas políticas por habitação, e que se articula em pelo menos quatro tipologias    distintas. </p>     <p> Em primeiro lugar, sublinhe-se que no espaço académico se faz notar, cada    vez mais, a presença de investigadores que, vindos de um percurso de ativismo,    se interessaram, posteriormente, pela investigação. Este interesse pode traduzir    uma vontade dos mesmos em utilizar o espaço académico como campo e tempo de    reflexão que lhes permita desenvolver conhecimento sobre os processos em disputa    nos quais se encontram, de certa forma, já implicados. No sentido inverso, alguns    são os académicos que a partir das suas investigações, ao tomarem conhecimento    das situações de precariedade enfrentadas pelas pessoas com quem trabalham,    decidem tornar-se parte ativa das lutas, ora capitalizando o seu conhecimento,    ora produzindo trabalhos que vão mais no sentido das demandas das populações    do que da curiosidade académica. Interessante será pensar como estes trabalhos    podem ser posteriormente utilizados pelas populações como base de reivindicação    de direitos e legitimação de lutas. Note-se, ainda, que estas sinergias entre    academia e populações podem materializar-se em cooperações mais alargadas, por    meio de projetos de extensão universitária, raros, mas existentes. Em terceiro    lugar, existem académicos que usam o engajamento como porta de entrada para    as suas pesquisas. Esta simbiose fomenta a contribuição imediata da produção    do conhecimento académico para as lutas sociais, mas pode também facilitar o    trabalho de muitos académicos no acesso privilegiado a pessoas, espaços, debates    e informações, tendo assim um viés mais instrumentalizador. No entanto, este    engajamento a priori pode relacionar-se com o próprio campo de estudo, ou seja,    investigadores que têm como objeto de pesquisa os próprios processos de resistência.    É o caso de académicos que estudam, por exemplo, as mobilizações e os movimentos    sociais e, portanto, poderão tomar parte ativa nas mesmas porque, para além    da identificação, que poderão ter ou não, com os temas em disputa, produzem    metaconhecimento sobre estes. Finalmente, identificámos alguns casos em que    os académicos partem da experiência e resistência vividas para fazer investigação.    Em muitas situações falamos de pessoas que, ao experienciar processos estruturais    de opressão, marginalização e silenciamento, dedicam os seus trabalhos académicos    a debater a partir dos seus contextos e do seu lugar de fala. </p>     <p>&nbsp; </p>     <p><font size="3"><b>Como concluir este ensaio?</b></font> </p>     <p> Os dois arquétipos de engajamento acima descritos tentaram organizar, ainda    que de forma abstrata, uma breve genealogia das diferentes formas de engajamento    académico no campo da habitação (<a href="#f1">figura 1</a>). </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1"></a><img src="/img/revistas/cct/n38/n38a05f1.jpg">      
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p> Em parte, a polarização destes dois campos - institucional e periférico -    reflete as experiências diversas dos autores. Num dos casos, e partindo da área    de investigação em torno das políticas de participação pública, a colaboração    com as instituições representa um campo de reflexão crítica sobre questões teóricas,    metodológicas e éticas que se avultam no decorrer da construção de processos    de produção de conhecimento em contextos organizacionais (Falanga, 2013). O    engajamento com instituições políticas tem-se baseado na possibilidade de estudar    e, sempre que oportuno, intervir, numa lógica de investigação/ação, na administração    pública, em linha com alguns trabalhos académicos que abordam a complexidade    da análise das políticas públicas, discutindo em particular o papel do analista    (cf. Schön e Rein, 1994; Forester, 1999). No outro, a produção de uma literatura    académica crítica face à violência dos despejos e ao racismo institucional acontece    num contexto de relação estreita e quotidiana com as populações que habitam    espaços auto-produzidos, periferizados, e que têm visto ruir as suas casas sem    que qualquer alternativa habitacional digna lhes seja apresentada (Alves, 2013).    Nas palavras da socióloga Ana Cristina Santos (2006), esta experiência &ldquo;demonstra    que a ciência se torna válida na medida em que respeita um compromisso com os    princípios de justiça e emancipação&rdquo;, não constituindo ameaça à objetividade    científica, já que esta implicação política &ldquo;obriga a um esforço redobrado de    vigilância constante acerca dos possíveis enviesamentos&rdquo;, enquanto se procura    aproximar ciência e pessoas, cercando-a de utilidade (ibidem: 106). </p>     <p> Com base em algumas das lições retiradas destas experiências de cooperação    e engajamento, o ensaio visou retratar e tipificar, ainda que de forma abrangente,    dois arquétipos possíveis de engajamento, com o objetivo de problematizar a    relação que a academia tem vindo a construir com aparatos estatais a vários    níveis e com aquelas e aqueles que resistem. Para o efeito, tentámos sublinhar,    nesta reflexão, a forma como o espaço académico se constituiu enquanto lugar    privilegiado de estabelecimento, legitimação ou contestação das relações de    poder vigentes nas sociedades contemporâneas. Os arquétipos informados, em larga    medida, pelas experiências dos autores, servem, essencialmente, como instrumentos    de reflexão. Para o efeito, e considerando a disparidade de poder efetivo entre    instituições estatais e sociedade civil auto-organizada, urge refletir sobre    as premissas, objetivos e consequências políticas das formas de engajamento    académico, tanto para a academia, como, essencialmente, para a sociedade, no    seu todo. Consideramos essencial a manutenção de um debate que permita adoptar    um olhar crítico face às diversas formas de engajamento e que possibilite, assim,    entender até que ponto as questões éticas que resultam dos (des)encontros entre    academia e política se encontram devidamente endereçadas e problematizadas.    Neste contexto de engajamento, é importante perceber como produzir e organizar    um conhecimento útil às pessoas que dão corpo e colaboram nas pesquisas que    elaboramos e que estão, de certo modo, envolvidas nas atividades e debates promovidos.    Certos da complexidade desta discussão, este ensaio pretende ser um contributo    e um convite à abertura e aprofundamento de um debate público sobre as relações    entre academia e política. Não se esgotando em si mesmo, propõe uma reflexão    crítica sobre as oportunidades e os limites do engajamento, de forma a alimentar    o debate sobre o papel da ciência na melhoria das condições de vida das populações.  </p>     <p>&nbsp; </p>     <p><font size="3"><b>Financiamento</b></font> <b></b> </p>     <p> Este trabalho resulta do financiamento recebido pelos dois autores por parte    da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (PD/BD/114056/2015; SFRH/BPD/109406/2015)    e pelo projeto &ldquo;exPERts Making sense of planning expertise: housing policy and    the role of experts in the Programa Especial de Realojamento (PER)&rdquo; (PTDC/ATP-EUR/4309/2014).  </p>     <p>&nbsp; </p>     <p><font size="3"><b>Referências bibliográficas</b></font> </p>     <!-- ref --><p> Alves, A.R. (2013), Para uma compreensão da segregação residencial: o Plano    Especial de Realojamento e o (Anti)Racismo, Dissertação de Mestrado em Migrações,    Inter-etnicidades e Transnacionalismos, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas,    Universidade Nova de Lisboa (FCSH-UNL).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1693977&pid=S2182-3030201900010000500001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p> Bourdieu, P. (2001), <i>Contrafogos 2: por um movimento social europeu</i>,    Rio de Janeiro: Jorge Zahar.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1693979&pid=S2182-3030201900010000500002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p> Cachado, R. (2013), &ldquo;O Programa Especial de Realojamento. Ambiente histórico,    político e social&rdquo;, <i>Análise Social</i>, 48 (206), pp. 134-152. </p>     <!-- ref --><p> Cardoso de Oliveira, R., Cardoso de Oliveira, L. R. (1996), <i>Ensaios Antropológicos    sobre moral e ética</i>, Rio de Janeiro: Tempo Universitário.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1693982&pid=S2182-3030201900010000500004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Falanga, R. (2013), Developing Change. A Psychosociological action research    with Civil Servants engaged in Participatory Processes, Dissertação de Doutoramento    em Democracia no Século XXI, Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1693984&pid=S2182-3030201900010000500005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->  </p>     <p> Falanga, R. (2018), &ldquo;Frontline Bureaucrat&rdquo;, <i> Global Encyclopedia of Public    Administration, Public Policy, and Governance </i> , Springer. </p>     <p> Falanga, R., Tulumello, S., Inch, A., Alves, A.R., Jorge, S.; Kühne, J., Silva,    R. (2019), &ldquo;The &lsquo;Caravana pelo Direito à Habitação&rsquo;: towards a new movement    for housing in Portugal?&rdquo;, <i>Radical Housing Journal</i>, 1(1), pp. 171-187.  </p>     <p> Freitas, M. J. (1994), &ldquo;Os paradoxos do realojamento&rdquo;, <i>Sociedade e Território</i>,    20, pp. 26-34. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p> Forester, F. (1999), <i> The deliberative practitioner: encouraging participatory    planning processes </i> , Cambridge: Cambridge University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1693989&pid=S2182-3030201900010000500009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Guerra, I. (coord.) (1997), <i> Diagnóstico sobre a Implementação do Programa    PER nos Municípios das Áreas Metropolitanas de Lisboa e Porto </i> , Lisboa,    Instituto Nacional de Habitação.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1693991&pid=S2182-3030201900010000500010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Leite, I. B. (org.) (2005), <i>Laudos Periciais Antropológicos em debate</i>.    Florianópolis: NUER/ABA.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1693993&pid=S2182-3030201900010000500011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p> Santos, A.C. (2006), &ldquo;Entre a academia e o activismo: Sociologia, estudos    queer e movimento LGBT em Portugal&rdquo;, <i>Revista Crítica de Ciências Sociais</i>,    76, pp. 91-108. </p>     <p> Portas, N. (1986), &ldquo;O Processo SAAL: entre o Estado e o Poder Local&rdquo;, <i>Revista    Crítica de Ciências Sociais</i>, 18/19/20, pp. 635-644. </p>     <!-- ref --><p> Schön, D.A., Rein, M. (1994), <i> Frame Reflection: Toward the Resolution    of Intractable Policy Controversies </i> , New York: Basic Books.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1693997&pid=S2182-3030201900010000500014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p> </font>      ]]></body>
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