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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Imigração, patrimónios culturais e coesão social em contexto de superdiversidade: Estudo de caso de uma abordagem participativa na Freguesia de Arroios]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[In recent decades, new concepts have sought to make sense in increasing migratory flows and in the diversification of incorporation models for migrant populations. Changes in travel and communication have had an impact on mobility and the way people stay connected and plan their lives as migrants. As a consequence, diversity has become a central feature of urban environments. This article is a result of a pilot study on local participation and cultural heritage in a Lisbon neighbourhood. Focusing on the development of a participative tool created with migrants and focus group with stakeholders we outline the determinant structural characteristic that migrants recognise in their everyday life as places of identification, regarding the city they live in. The main objective is to determine the relation between strategic areas of intervention, in order to boost social cohesion and cosmopolitanism in a context of superdiversity.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana" size="2"><b>ARTIGO ORIGINAL</b></font></p>     <p>&nbsp;</p> <b><font face="Verdana" size="4">Imigra&ccedil;&atilde;o, patrim&oacute;nios culturais e coes&atilde;o social em contexto de superdiversidade: Estudo de caso de uma abordagem participativa na Freguesia de Arroios</font></b>     <p></p>     <p> <b><font face="Verdana" size="3"> Immigration, cultural heritage and social cohesion in a context of superdiversity: case study of a participatory approach in Arroios</font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font face="Verdana" size="2">Nuno Dias<a name="top1" id="top1"></a><a href="#1">I</a></font></b></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="1" id="1"></a>[<a href="#top1">I</a>]</font><font size="2" face="Verdana">DIN&Acirc;MIA'CET-IUL, Instituto Universit&aacute;rio de Lisboa, Portugal. e-mail: <a href="mailto:nuno.dias@iscte-iul.pt" target="_blank">nuno.dias@iscte-iul.pt</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade="noshade" /> <font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b>RESUMO</b></font><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">     <p>Nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas t&ecirc;m surgido, nos estudos das migra&ccedil;&otilde;es e dos fen&oacute;menos urbanos, novos conceitos te&oacute;rico-interpretativos que resultam do aumento dos fluxos migrat&oacute;rios e da diversifica&ccedil;&atilde;o dos modelos de incorpora&ccedil;&atilde;o das popula&ccedil;&otilde;es migrantes. As mudan&ccedil;as ocorridas nos transportes e nas comunica&ccedil;&otilde;es tiveram impacto na mobilidade e nos modos como as pessoas se relacionam e planificam as suas vidas enquanto migrantes. Consequentemente, a diversidade cultural tornou-se constitutiva dos contextos urbanos. Este artigo resulta de um estudo piloto sobre participa&ccedil;&atilde;o local e legados culturais numa parte do centro de Lisboa. A partir do processo de desenvolvimento de uma ferramenta participativa, criada com popula&ccedil;&otilde;es migrantes e de focus group com atores-chave, foram definidos elementos estruturantes da identifica&ccedil;&atilde;o quotidiana das popula&ccedil;&otilde;es imigrantes com o territ&oacute;rio que habitam. O principal objetivo da problematiza&ccedil;&atilde;o apresentada &eacute; identificar a rela&ccedil;&atilde;o entre diferentes &aacute;reas de interven&ccedil;&atilde;o, no sentido de aumentar a coes&atilde;o social e a disposi&ccedil;&atilde;o cosmopolita num contexto de superdiversidade.</p> <b>Palavras-chave:</b> superdiversidade, interculturalismo, coes&atilde;o social, metodologias participativas.     ]]></body>
<body><![CDATA[<p></p> </font> <hr size="1" noshade="noshade"/>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">In recent decades, new concepts have sought to make sense in increasing migratory flows and in the diversification of incorporation models for migrant populations. Changes in travel and communication have had an impact on mobility and the way people stay connected and plan their lives as migrants. As a consequence, diversity has become a central feature of urban environments. This article is a result of a pilot study on local participation and cultural heritage in a Lisbon neighbourhood. Focusing on the development of a participative tool created with migrants and focus group with stakeholders we outline the determinant structural characteristic that migrants recognise in their everyday life as places of identification, regarding the city they live in. The main objective is to determine the relation between strategic areas of intervention, in order to boost social cohesion and cosmopolitanism in a context of superdiversity.</font> </p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b>Keywords:</b> superdiversity, interculturalism, social cohesion, participatory methods.</font></p> <hr size="1" noshade="noshade" /> <font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></font></p> </font> <font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">     <p> Este artigo pretende contribuir para o debate sobre processos de incorpora&ccedil;&atilde;o de popula&ccedil;&otilde;es migrantes em contextos urbanos caracterizados por uma acentuada diversidade cultural, a partir da problematiza&ccedil;&atilde;o da rela&ccedil;&atilde;o entre coes&atilde;o social e identidades culturais. No seguimento de uma candidatura ao programa europeu <i> Building specialisation strategies on local participation and heritage resources (STEPS) </i> – coordenada pela C&acirc;mara Municipal de Lisboa e realizada por um conjunto de entidades envolvidas na organiza&ccedil;&atilde;o de processos participativos na cidade de Lisboa – foi concebido um conjunto integrado de iniciativas, no sentido de mapear marcadores culturais identit&aacute;rios referentes &agrave;s popula&ccedil;&otilde;es migrantes que habitam um territ&oacute;rio espec&iacute;fico da cidade e captar, a partir desse mapeamento, os principais fatores de identifica&ccedil;&atilde;o destas popula&ccedil;&otilde;es com a cidade. O programa STEPS, efeito de uma parceria entre o Concelho da Europa e a Uni&atilde;o Europeia, elege como objetivos priorit&aacute;rios o est&iacute;mulo da ‘confian&ccedil;a, do di&aacute;logo e da compreens&atilde;o m&uacute;tua em sociedades diversas por via do mapeamento e mobiliza&ccedil;&atilde;o de dispositivos culturais identit&aacute;rios' e, dessa forma, contribuir para a produ&ccedil;&atilde;o e o refor&ccedil;o das din&acirc;micas locais de produ&ccedil;&atilde;o de coes&atilde;o comunit&aacute;ria[<a name="top2" id="top2"></a><a href="#2">2</a>]. O programa &eacute; resultado de uma orienta&ccedil;&atilde;o europeia mais alargada, que toma as cidades como unidades centrais no processo de gest&atilde;o da diversidade e de pontos de conflito entre diferentes popula&ccedil;&otilde;es que habitam os mesmos territ&oacute;rios. A rede/programa de Cidades Interculturais (ICC)[<a name="top3" id="top3"></a><a href="#3">3</a>], no interior da qual &eacute; criado o STEPS, interv&eacute;m ao n&iacute;vel municipal promovendo uma revis&atilde;o e orienta&ccedil;&atilde;o das pol&iacute;ticas locais. No &acirc;mbito dessas pol&iacute;ticas, a diversidade &eacute; tratada como um recurso e um elemento positivo intr&iacute;nseco &agrave; org&acirc;nica urbana, ao inv&eacute;s do seu entendimento como um obst&aacute;culo a transpor, por meio de pol&iacute;ticas espec&iacute;ficas com o objetivo de diluir ou apenas preservar patrim&oacute;nios identit&aacute;rios. </p>     <p> O objetivo do programa &eacute; o desenvolvimento de compet&ecirc;ncias interculturais alargadas e a elimina&ccedil;&atilde;o de espa&ccedil;os segregados (ou limitados) por fronteiras percetivas, por via da constru&ccedil;&atilde;o ativa de &aacute;reas de participa&ccedil;&atilde;o igualit&aacute;ria refor&ccedil;adas pela melhor correspond&ecirc;ncia entre as val&ecirc;ncias institucionais, as popula&ccedil;&otilde;es e os espa&ccedil;os p&uacute;blicos. As iniciativas acionadas s&atilde;o avaliadas a partir de um conjunto de indicadores e, eventualmente, exportadas para as restantes cidades que fazem parte da rede. A cria&ccedil;&atilde;o de um espa&ccedil;o consolidado de forma&ccedil;&atilde;o na &aacute;rea das compet&ecirc;ncias culturais e da integra&ccedil;&atilde;o intercultural &eacute; uma das prioridades definidas no quadro do crescimento continuado do programa, que conta mais de 100 cidades participantes. O acesso a peritos na &aacute;rea do planeamento urbano e gest&atilde;o da diversidade, bem como o est&iacute;mulo de parcerias colaborativas intermunicipais transnacionais pretende facilitar e incentivar o desenho das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, no sentido de um envolvimento coletivo das popula&ccedil;&otilde;es que constituem a cidade. </p>     <p> Lisboa, cidade com uma din&acirc;mica de intensifica&ccedil;&atilde;o dos fluxos migrat&oacute;rios e da diversidade das popula&ccedil;&otilde;es residentes, &eacute; um territ&oacute;rio privilegiado para a observa&ccedil;&atilde;o de l&oacute;gicas de apropria&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o por parte de diferentes popula&ccedil;&otilde;es ao longo do tempo e, consequentemente, de processos de produ&ccedil;&atilde;o identit&aacute;ria refor&ccedil;ados, em parte, pela aus&ecirc;ncia de l&oacute;gicas interculturais. Em pleno processo de turistifica&ccedil;&atilde;o dos principais bairros da cidade de Lisboa, em particular dos que se debru&ccedil;am sobre o rio, a freguesia de Arroios &eacute; o epicentro, nos termos de Vertovec (2007), da ‘diversifica&ccedil;&atilde;o da diversidade' que caracteriza os principais centros globais cosmopolitas. A freguesia tem aproximadamente 40 mil residentes e conta, na sua circunscri&ccedil;&atilde;o, com 92 nacionalidades e mais de 100 l&iacute;nguas faladas, enquanto vai assistindo a uma mudan&ccedil;a nos fluxos e nos padr&otilde;es residenciais[<a name="top4" id="top4"></a><a href="#4">4</a>]. </p>     <p> Este artigo &eacute; um <i>output</i> do projeto que entende este territ&oacute;rio como espa&ccedil;o privilegiado de interven&ccedil;&atilde;o sobre a realidade das popula&ccedil;&otilde;es migrantes. A sua particularidade metodol&oacute;gica consiste na implementa&ccedil;&atilde;o de um quadro participativo, que toma a realidade dessas popula&ccedil;&otilde;es como componente central no desenho e implementa&ccedil;&atilde;o do quadro de inquiri&ccedil;&atilde;o e de an&aacute;lise. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> O artigo sistematiza um processo extenso de forma&ccedil;&atilde;o de uma equipa de inquiridores constitu&iacute;da por sujeitos de diferentes nacionalidades, bem como o trabalho de discuss&atilde;o conceptual e de desenvolvimento dos instrumentos de mapeamento da diversidade cultural na cidade. A especificidade deste contributo para a emerg&ecirc;ncia de novos modelos de produ&ccedil;&atilde;o de conhecimento e interpreta&ccedil;&atilde;o da realidade social converge na necessidade de nos distanciarmos de modelos cl&aacute;ssicos de abordagem &agrave; quest&atilde;o da diversidade nas cidades, geralmente subordinados a matrizes nacionais e quadros interpretativos balizados pelo eixo assimila&ccedil;&atilde;o-multiculturalidade. </p>     <p>&nbsp; </p>     <p><font size="3"><b>Urbanidades, (super)diversidade e coes&atilde;o social</b></font> </p>     <p> Os centros urbanos s&atilde;o, historicamente, sin&oacute;nimo de heterogeneidade cultural, social, &eacute;tnica, etc. &Eacute; nas cidades que perfis e express&otilde;es de ordens m&uacute;ltiplas encontram cabimento. A globaliza&ccedil;&atilde;o e os fluxos transnacionais que a preenchem t&ecirc;m contribu&iacute;do para a generaliza&ccedil;&atilde;o da diversidade enquanto atributo da urbanidade e para a ‘era das migra&ccedil;&otilde;es', uma denomina&ccedil;&atilde;o que define o per&iacute;odo desde a segunda metade do s&eacute;culo passado at&eacute; ao presente (Castles e Miller, 2009). Todavia, na &uacute;ltima d&eacute;cada tem-se assistido a uma acelera&ccedil;&atilde;o das din&acirc;micas de mudan&ccedil;a dos fen&oacute;menos migrat&oacute;rios e das mobilidades, por via do alargamento dos pontos de origem; dos motivos para a migra&ccedil;&atilde;o; das rela&ccedil;&otilde;es que as popula&ccedil;&otilde;es migrantes mant&ecirc;m com diversos pontos do mundo; das rela&ccedil;&otilde;es destas popula&ccedil;&otilde;es com os contextos de rece&ccedil;&atilde;o e com as suas institui&ccedil;&otilde;es, muitas delas produzindo novas formas e novas possibilidades de perten&ccedil;a. A ideia de ‘superdiversidade' (Vertovec, 2007) instalou-se no debate p&uacute;blico e permitiu um novo entendimento alternativo aos paradigmas estabelecidos de conceptualiza&ccedil;&atilde;o dos fen&oacute;menos migrat&oacute;rios e dos modelos de integra&ccedil;&atilde;o de popula&ccedil;&otilde;es migrantes. Em particular, admite a maior relev&acirc;ncia dos fluxos, intera&ccedil;&otilde;es e processos de mobilidade na produ&ccedil;&atilde;o de l&oacute;gicas de perten&ccedil;a e de reconhecimento, face aos esquemas interpretativos que atribuem primazia &agrave;s identidades de car&aacute;ter &eacute;tnico-nacional como unidade de an&aacute;lise prim&aacute;ria. A ‘diversifica&ccedil;&atilde;o da diversidade' representa o reconhecimento de novas realidades sociais e a necessidade de abordagens adaptadas &agrave; crescente complexidade e multidimensionalidade dos padr&otilde;es e intensidade da mudan&ccedil;a nos contextos urbanos, em particular na rela&ccedil;&atilde;o desta com os fen&oacute;menos migrat&oacute;rios (Ramadan, 2011; Foner, 2017). </p>     <p> A cidade de Lisboa n&atilde;o &eacute; excecional no modo como se tem transformado nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas. A industrializa&ccedil;&atilde;o tardia, com maior express&atilde;o na d&eacute;cada de 60 do s&eacute;culo passado, foi uma for&ccedil;a de atra&ccedil;&atilde;o para as popula&ccedil;&otilde;es rurais do interior. Ap&oacute;s 1974, com a descoloniza&ccedil;&atilde;o dos territ&oacute;rios africanos, surgem os primeiros fluxos migrat&oacute;rios internacionais. Um dos principais motivos foi a impossibilidade de manuten&ccedil;&atilde;o da nacionalidade portuguesa para a maioria da popula&ccedil;&atilde;o residente nos territ&oacute;rios agora independentes. Na d&eacute;cada de 1990 surge uma primeira vaga de imigra&ccedil;&atilde;o brasileira e de pa&iacute;ses do leste europeu. Ap&oacute;s a viragem do mil&eacute;nio, uma segunda vaga de imigra&ccedil;&atilde;o brasileira, com novos perfis migrat&oacute;rios, consolidou o estatuto de Portugal enquanto pa&iacute;s recetor de migra&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o passaram muito anos at&eacute; que a crise financeira global tivesse for&ccedil;ado a sa&iacute;da de um n&uacute;mero substantivo de cidad&atilde;os estrangeiros e nacionais e o saldo migrat&oacute;rio voltasse a ser negativo (Peixoto e Iorio, 2011). Contudo, o n&uacute;mero de entradas voltou a subir consecutivamente[<a name="top5" id="top5"></a><a href="#5">5</a>] desde 2015, com o turismo a ter um impacto direto sobre os modos de organiza&ccedil;&atilde;o urbana das principais cidades. O turismo e a gentrifica&ccedil;&atilde;o s&atilde;o fen&oacute;menos que se desenvolvem paralelamente a partir das condi&ccedil;&otilde;es criadas pela crise financeira da &uacute;ltima d&eacute;cada e com impacto particular sobre os bairros mais antigos da cidade (Mendes, 2017 e Baptista, Nofre e Jorge, 2018). </p>     <p> Com a acentua&ccedil;&atilde;o e a diversifica&ccedil;&atilde;o dos fluxos migrat&oacute;rios globais, as sociedades e os Estados confrontam-se com mudan&ccedil;as significativas na rela&ccedil;&atilde;o entre popula&ccedil;&otilde;es e institui&ccedil;&otilde;es, nos padr&otilde;es de organiza&ccedil;&atilde;o social e nos valores dominantes. No&ccedil;&otilde;es como nacionalidade e etnicidade s&atilde;o desafiadas nos seus significados e significantes convencionais. As novas configura&ccedil;&otilde;es demogr&aacute;ficas implicam novas pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, desde logo ao n&iacute;vel do ensino da l&iacute;ngua e dos canais de comunica&ccedil;&atilde;o necess&aacute;rios, no sentido da diminui&ccedil;&atilde;o das din&acirc;micas de isolamento das popula&ccedil;&otilde;es rec&eacute;m-chegadas. As popula&ccedil;&otilde;es escolares mudam e os desafios colocados &agrave;s autoridades educativas alargam-se, na medida em que a pr&oacute;pria sociedade se transforma e se orienta em dire&ccedil;&atilde;o a um modelo mais cosmopolita de quebra de um c&iacute;rculo menos amplo de mundivid&ecirc;ncias e de valores. As possibilidades identit&aacute;rias multiplicam-se e o desafio nos contextos de superdiversidade remetem para a necessidade de criar liga&ccedil;&otilde;es e espa&ccedil;os comuns entre as diferentes realidades culturais em contacto nos espa&ccedil;os urbanos. Neste sentido, a partilha cultural &eacute; entendida como um instrumento que produz reciprocidades do ponto de vista do sentimento de perten&ccedil;a e do reconhecimento, o que contraria as l&oacute;gicas de fechamento e de resist&ecirc;ncia &agrave; mudan&ccedil;a que produzem desidentifica&ccedil;&atilde;o com o meio (tanto por parte das popula&ccedil;&otilde;es aut&oacute;ctones como das popula&ccedil;&otilde;es al&oacute;ctones). O incremento das possibilidades de intera&ccedil;&atilde;o ao longo do espetro etno-cultural representa o esteio da abordagem intercultural e da supera&ccedil;&atilde;o de paradigmas limitativos das possibilidades de intera&ccedil;&atilde;o entre diferentes popula&ccedil;&otilde;es. A perspetiva intercultural sugere a diversidade enquanto espa&ccedil;o de trocas, de comunica&ccedil;&atilde;o e de vantagem no aumento da coes&atilde;o social, mais do que uma inevitabilidade das sociedades urbanas necessitadas de ordenamento sist&eacute;mico (Oliveira, 2017). </p>     <p> A ideia de que o aumento do n&uacute;mero de grupos etnicamente diferenciados representa um obst&aacute;culo &agrave; coes&atilde;o social marcou o planeamento p&uacute;blico desde o in&iacute;cio do mil&eacute;nio, no sentido da produ&ccedil;&atilde;o de um esquema comum de valores, em torno dos quais os diferentes grupos poderiam agregar-se e partilhar um sentimento de perten&ccedil;a a um ideal maior que seria a na&ccedil;&atilde;o. O caso ingl&ecirc;s &eacute; paradigm&aacute;tico (Cheong et al., 2007). A coes&atilde;o das sociedades passaria pela produ&ccedil;&atilde;o de pontos de converg&ecirc;ncia moral e pol&iacute;tica, cuja atra&ccedil;&atilde;o seria refor&ccedil;ada por via do desenho de pol&iacute;ticas do ensino da l&iacute;ngua, etc. </p>     <p> Em 2004 o Concelho da Europa elege uma abordagem &agrave; coes&atilde;o social assente no acesso a direitos para o espa&ccedil;o europeu e para o desenvolvimento das rela&ccedil;&otilde;es sociais no territ&oacute;rio. Esta orienta&ccedil;&atilde;o seria central para o desenho dos programas de enquadramento dos fluxos migrat&oacute;rios em Portugal e para definir coes&atilde;o social como a &ldquo; <i> capacity of a society to ensure the welfare of all its members, minimizing disparities and avoiding polarization. </i> <i> A cohesive society is a mutually supportive community of free individuals pursuing these common goals by democratic means </i> .&rdquo; (CoE, 2004, p. 3). Neste sentido, o acesso aos direitos sociais deve considerar: a igualdade de direitos para toda a popula&ccedil;&atilde;o sem discrimina&ccedil;&atilde;o; a exist&ecirc;ncia de servi&ccedil;os de qualidade acess&iacute;veis a toda a popula&ccedil;&atilde;o; a considera&ccedil;&atilde;o das categorias mais vulner&aacute;veis dentro de uma sociedade; evitar a estigmatiza&ccedil;&atilde;o das popula&ccedil;&otilde;es com necessidades especiais; o desenvolvimento de pol&iacute;ticas fiscais sustent&aacute;veis e equitativas; e a participa&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o (<i>Ibidem</i>). Deste compromisso resulta a import&acirc;ncia do reconhecimento de categorias vulner&aacute;veis e identifica, para os processos de coes&atilde;o social, a centralidade da rela&ccedil;&atilde;o entre popula&ccedil;&atilde;o maiorit&aacute;ria e grupos minorit&aacute;rios. </p>     <p> O problema da mensura&ccedil;&atilde;o da coes&atilde;o acentua-se em contextos de superdiversidade, com a necessidade de pensar criticamente sobre a rela&ccedil;&atilde;o entre conceitos, sistemas de medida e pol&iacute;ticas consequentes. Tradicionalmente, a avalia&ccedil;&atilde;o da coes&atilde;o social &eacute; realizada a partir de instrumentos que comparam o acesso e a capacidade de mobiliza&ccedil;&atilde;o de recursos por parte de diferentes grupos sociais, e que apurem o papel das institui&ccedil;&otilde;es na promo&ccedil;&atilde;o ou exclus&atilde;o desses grupos, de pr&aacute;ticas comuns de cidadania. Todavia, a combina&ccedil;&atilde;o entre uma perspetiva intercultural e a operacionaliza&ccedil;&atilde;o de um conceito como o de superdiversidade implica um reordenamento do planeamento estrat&eacute;gico ao n&iacute;vel local, e tamb&eacute;m uma transforma&ccedil;&atilde;o nos modos de produ&ccedil;&atilde;o e de recolha de dados que informam as pol&iacute;ticas p&uacute;blicas. O desafio colocado pela necessidade de operacionaliza&ccedil;&atilde;o de novos paradigmas conceptuais e a sua rela&ccedil;&atilde;o estreita com o universo das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas &eacute; captado por Padilla, Azevedo e Olmos-Alcaraz (2015) num exerc&iacute;cio comparativo entre Lisboa e Granada. As autoras prop&otilde;em-se testar o desenvolvimento de ferramentas metodol&oacute;gicas que permitam traduzir as no&ccedil;&otilde;es de convivialidade (Gilroy, 2004) e de superdiversidade (Vertovec, 2007). A combina&ccedil;&atilde;o destas propostas conceptuais no sentido de promover a interculturalidade ocorre,no plano anal&iacute;tico, a partir da observa&ccedil;&atilde;o de eventos de celebra&ccedil;&atilde;o da diversidade e &eacute; entendida como um modelo de contesta&ccedil;&atilde;o da dicotomia ‘n&oacute;s/eles' (Padilla, Azevedo e Olmos-Alcaraz, 2015: 12) </p>     <p> O desenvolvimento de um quadro metodol&oacute;gico assente em ferramentas participativas foi, no &acirc;mbito do projeto piloto STEPS, o elo de liga&ccedil;&atilde;o entre os conceitos de identidade cultural e de coes&atilde;o social e a rela&ccedil;&atilde;o com um territ&oacute;rio habitado por popula&ccedil;&otilde;es provenientes de mais de 90 pa&iacute;ses. Foi a partir desse elo que se encontraram novos elementos de enquadramento da rela&ccedil;&atilde;o entre popula&ccedil;&otilde;es imigrantes e o territ&oacute;rio que habitam, assumindo elas um papel ativo no processo de pesquisa.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p> <font size="3"><b> Metodologias participativas e a interculturalidade: a constru&ccedil;&atilde;o de sentidos partilhados </b></font> </p>     <p> A equipa que trabalhou neste projeto foi formada em torno de duas entidades com uma presen&ccedil;a consolidada no terreno: o <i>GABIP Almirante Reis</i>[<a name="top6" id="top6"></a><a href="#6">6</a>], um gabinete gerido pela Funda&ccedil;&atilde;o Aga Khan; e a <i>SOLIM – Solidariedade Imigrante</i>, uma associa&ccedil;&atilde;o de defesa dos direitos dos imigrantes criada em 2001 e com uma componente participativa pioneira no setor associativo[<a name="top7" id="top7"></a><a href="#7">7</a>]. Estas entidades recrutaram o grupo respons&aacute;vel pelo mapeamento dos aspetos significativos na rela&ccedil;&atilde;o entre popula&ccedil;&otilde;es imigrantes e os seus contextos de rece&ccedil;&atilde;o, a partir de uma perspetiva intercultural. A prioridade foi a constitui&ccedil;&atilde;o de um grupo que refletisse, ainda que parcialmente, a diversidade de proveni&ecirc;ncias e de patrim&oacute;nios culturais presentes no territ&oacute;rio abrangido pelo projeto e que simultaneamente privilegiasse a identifica&ccedil;&atilde;o de pontos de encontro entre as popula&ccedil;&otilde;es de diferentes origens. O car&aacute;cter pluricultural do territ&oacute;rio permitiu que esse grupo fosse constitu&iacute;do por elementos provenientes da Argentina, do Bangladesh, do Nepal, da Nig&eacute;ria e da S&iacute;ria. Para o desenvolvimento pretendido tamb&eacute;m foi fundamental que a constitui&ccedil;&atilde;o do grupo antecedesse o desenho dos instrumentos de recolha e a defini&ccedil;&atilde;o dos quadros conceptuais que balizariam esses instrumentos. </p>     <p> Neste sentido, a ideia de processo participativo tornou-se estruturante de todo o desenho metodol&oacute;gico, da cria&ccedil;&atilde;o dos instrumentos de recolha dos dados &agrave;s ferramentas conceptuais de apoio &agrave; sua interpreta&ccedil;&atilde;o. O ponto de partida foi a discuss&atilde;o em torno dos sentidos atribu&iacute;dos a no&ccedil;&otilde;es-chave, como ‘espa&ccedil;o p&uacute;blico', ‘patrim&oacute;nio cultural' ou ‘coes&atilde;o', ocorrida ao longo de um conjunto de sess&otilde;es, cuja modera&ccedil;&atilde;o e formato permitiu construir uma rela&ccedil;&atilde;o de confian&ccedil;a entre os diferentes membros do grupo e relativamente ao processo em curso. Os percursos a p&eacute; e a referencia&ccedil;&atilde;o direta de elementos arquitet&oacute;nicos e formais do territ&oacute;rio que ativassem mem&oacute;rias remetendo aos territ&oacute;rios de origem dos membros do grupo (mapeadores) facilitaram o processo de constru&ccedil;&atilde;o de uma grelha conceptual, cujos sentidos fossem partilhados por todos os envolvidos e se traduzisse em modos de questionamento respeitosos de todas as popula&ccedil;&otilde;es a inquirir posteriormente. </p>     <p> As sess&otilde;es com os peritos do projeto para as quest&otilde;es de diversidade e urbanismo, Phil Wood e Rennen Zunder, foram importantes na defini&ccedil;&atilde;o de uma ‘cultura de mapeador', posteriormente concretizada pelo grupo numa l&oacute;gica de partilha intercultural e de valoriza&ccedil;&atilde;o dos percursos e perspetivas relativas &agrave; experi&ecirc;ncia individual de cada um na cidade. As ferramentas de mapeamento foram produzidas neste contexto de desoculta&ccedil;&atilde;o das perce&ccedil;&otilde;es individuais, em di&aacute;logos rec&iacute;procos em torno da condi&ccedil;&atilde;o migrante e do(s) olhar(es) do(s) estrangeiro(s). O objetivo foi o de perceber como a coes&atilde;o social pode tamb&eacute;m ser pensada a partir da rela&ccedil;&atilde;o entre patrim&oacute;nios culturais diversos – dos imigrantes e da cidade. A abordagem participativa permitiu ainda a desconstru&ccedil;&atilde;o das pr&eacute;-no&ccedil;&otilde;es dos t&eacute;cnicos que integraram a equipa do projeto relativas &agrave; perce&ccedil;&atilde;o das popula&ccedil;&otilde;es imigrantes sobre integra&ccedil;&atilde;o, estrat&eacute;gias de adapta&ccedil;&atilde;o, patrim&oacute;nios e identidades culturais. A interculturalidade construiu-se no debate aberto sobre os diferentes significantes que cada um transportou para o processo de desenho dos instrumentos de mapeamento. Uma parte substantiva das quest&otilde;es discutidas durante as sess&otilde;es com os mapeadores remetia para quest&otilde;es de identifica&ccedil;&atilde;o e de partilha, quer face a um patrim&oacute;nio cultural de origem, quer perante o contexto de rece&ccedil;&atilde;o, com a perce&ccedil;&atilde;o sobre a ‘abertura' da cidade e das suas institui&ccedil;&otilde;es. Por exemplo: </p>     <p> – <i>Em que aspetos sinto a cidade de Lisboa como minha?</i> </p>     <p> <i>– Em que medida o bairro em que vivo me &eacute; familiar?</i> </p>     <p> <i> – A cidade &eacute; segura e favor&aacute;vel para o crescimento e a aprendizagem dos meus filhos? </i> </p>     <p> <i> – Como &eacute; que os meus filhos podem aprender sobre a sua cultura de origem no bairro em que vivo? </i> </p>     <p> <i> – De que modo poderia partilhar a minha origem cultural com os meus vizinhos? </i> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <i> – O que eu gostaria que fosse transmitido nas escolas sobre a minha cultura? </i> </p>     <p> <i> – O que gostaria que o bairro em que vivo soubesse sobre a minha cultura? </i> </p>     <p> Neste sentido, o processo &eacute; consequ&ecirc;ncia do reconhecimento da multidimensionalidade do fen&oacute;meno migrat&oacute;rio e da complexidade do seu impacto na constru&ccedil;&atilde;o da cidade. Ao longo das diferentes etapas foram-se tornando evidentes as m&uacute;ltiplas dimens&otilde;es envolvidas e os efeitos desencadeados junto do grupo de mapeadores (ver <a href="#f1">figura 1</a>). </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1" id="f1"></a><img src="/img/revistas/cct/n39/n39a11f1.jpg"/>     
<p>&nbsp;</p>     <p> A rela&ccedil;&atilde;o entre o processo participativo, o dom&iacute;nio da l&iacute;ngua em contextos n&atilde;o-formais, o alargamento das redes sociais, a maior familiaridade com modos de organiza&ccedil;&atilde;o institucionais e l&oacute;gicas de participa&ccedil;&atilde;o c&iacute;vica (integradas numa rotina quotidiana) aumenta as oportunidades de envolvimento e interven&ccedil;&atilde;o na sociedade de acolhimento. Tudo isto conduz, desejavelmente, &agrave; amplia&ccedil;&atilde;o do sentimento de perten&ccedil;a e de representa&ccedil;&atilde;o. Consequentemente, as estrat&eacute;gias definidas no &acirc;mbito de processos participativos resultam de quadros percetivos criados pelos imigrantes, a partir de rela&ccedil;&otilde;es sociais que se apresentam mais significativas na experi&ecirc;ncia do seu quotidiano (Spies, 2010). Este processo permite novos modelos de cidadania e de participa&ccedil;&atilde;o na vida urbana e de representa&ccedil;&atilde;o positiva da mudan&ccedil;a social. </p>     <p> A interculturalidade emerge, assim, como possibilidade de supera&ccedil;&atilde;o dos sentimentos de oposi&ccedil;&atilde;o e de amea&ccedil;a cultural entre popula&ccedil;&atilde;o maiorit&aacute;ria e popula&ccedil;&otilde;es minorit&aacute;rias, por via da intensifica&ccedil;&atilde;o dos pontos de contacto e de partilha cultural entre diferentes grupos (Taylor, 2012: 421). A ideia da ‘diversidade como vantagem' &eacute; produzida a partir de um paradigma p&oacute;s-multiculturalista. Este paradigma tem como prop&oacute;sito central a cria&ccedil;&atilde;o de uma cultura p&uacute;blica comum, que promova e reforce uma ideia de perten&ccedil;a partilhada por diferentes popula&ccedil;&otilde;es em contextos de diversidade (Zapata-Barrero, 2017; Cantle, 2012). </p>     <p> Uma parte do desafio do reconhecimento das cidades, do fen&oacute;meno migrat&oacute;rio e da diversidade enquanto sistemas complexos, e condi&ccedil;&atilde;o para o desenvolvimento de uma perspetiva intercultural, encontra no processo participativo um instrumento importante de transforma&ccedil;&atilde;o da rela&ccedil;&atilde;o entre diferentes grupos socias. Ao alterar a epistemologia subjacente &agrave; constru&ccedil;&atilde;o dos instrumentos de recolha e de produ&ccedil;&atilde;o dos dados (sobre a diversidade e as popula&ccedil;&otilde;es minorit&aacute;rias e a sua circunst&acirc;ncia) no &acirc;mbito do desenho de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, &eacute; aberto o espa&ccedil;o de reflex&atilde;o cr&iacute;tica sobre as categorias instaladas de integra&ccedil;&atilde;o e imigra&ccedil;&atilde;o, em torno das quais o debate p&uacute;blico se cristalizou[<a name="top8" id="top8"></a><a href="#8">8</a>]. </p>     <p> Neste projeto foram realizadas duas sess&otilde;es de <i>focus group</i>[<a name="top9" id="top9"></a><a href="#9">9</a>] com <i>stakeholders</i>, com o objetivo de desenvolver um di&aacute;logo entre as diferentes entidades participantes nos processos de organiza&ccedil;&atilde;o e gest&atilde;o da diversidade na cidade de Lisboa, mais concretamente na freguesia de Arroios. Essas sess&otilde;es contaram com a presen&ccedil;a de representantes do GABIP Almirante Reis (o que neste caso envolve a Funda&ccedil;&atilde;o Aga Khan e a C&acirc;mara Municipal de Lisboa), da Junta de Freguesia de Arroios, da dire&ccedil;&atilde;o do Agrupamento Escolar Nuno Gon&ccedil;alves e da associa&ccedil;&atilde;o Solidariedade Imigrante. Al&eacute;m de outros elementos, pretendeu-se captar e compreender as din&acirc;micas de comunica&ccedil;&atilde;o entre os diferentes intervenientes, bem como as ferramentas que cada uma das entidades presentes no terreno disp&otilde;e, com o intuito de interpretar outros dados qualitativos recolhidos durante o acompanhamento das sess&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o do instrumento de mapeamento. O objetivo final era perceber as circunst&acirc;ncias determinantes da rela&ccedil;&atilde;o entre as diferentes entidades no territ&oacute;rio e eventuais programas de coopera&ccedil;&atilde;o em curso, ou que pudessem resultar em parcerias entre as entidades. </p>     <p> A natureza <i>bottom-up</i> do processo fomentou rela&ccedil;&otilde;es proveitosas entre popula&ccedil;&otilde;es, associa&ccedil;&otilde;es, academia e autoridades institucionais. Permitiu igualmente a recolha de informa&ccedil;&atilde;o sobre os processos de produ&ccedil;&atilde;o dos di&aacute;logos interculturais e a identifica&ccedil;&atilde;o de espa&ccedil;os de promo&ccedil;&atilde;o da pluralidade e do cosmopolitismo. O Mapeamento de sentidos de exclus&atilde;o e de perten&ccedil;a relativos aos espa&ccedil;os ocupados pelas popula&ccedil;&otilde;es imigrantes (a partir de uma l&oacute;gica de identifica&ccedil;&atilde;o das possibilidades de refor&ccedil;o da partilha intercultural) comprovou ser um passo positivo no sentido de um melhor entendimento sobre a complexidade constitutiva dos contextos de superdiversidade. N&atilde;o anula, por si s&oacute;, os efeitos de exclus&atilde;o e da desigualdade presentes nos contextos de rece&ccedil;&atilde;o. Mas contribui para a cria&ccedil;&atilde;o de espa&ccedil;os alargados de partilha intercultural, no interior dos quais as popula&ccedil;&otilde;es sentem maior representa&ccedil;&atilde;o e legitimidade participativa. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Os resultados obtidos apontam no sentido de uma realidade complexa onde, apesar da confirma&ccedil;&atilde;o da a&ccedil;&atilde;o das pol&iacute;ticas urbanas de governa&ccedil;&atilde;o e das ferramentas provenientes do setor associativo sobre a realidade das popula&ccedil;&otilde;es imigrantes, as iniciativas de est&iacute;mulo &agrave; partilha intercultural parecem preliminares.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <font size="3"><b> Patrim&oacute;nios culturais, di&aacute;logos urbanos na produ&ccedil;&atilde;o do sentimento de perten&ccedil;a e da coes&atilde;o social </b></font> </p>     <p> Num trabalho que j&aacute; &eacute; uma refer&ecirc;ncia cl&aacute;ssica da abordagem intercultural ao planeamento da diversidade urbana, Phil Wood e Charles Landry referem que al&eacute;m da informa&ccedil;&atilde;o quantitativa obtida atrav&eacute;s de dados oficiais para medir a grandeza da diversidade numa cidade, h&aacute; quest&otilde;es que raramente aparecem nos question&aacute;rios sobre estas tem&aacute;ticas e cuja raridade decorre da dificuldade do seu tratamento e interpreta&ccedil;&atilde;o (2008, p. 293). As quest&otilde;es s&atilde;o: &ldquo; <i> How easily or frequently do different ethnicities mix? How open is the city, that is, how easy is it to enter and move between different communities or institutional networks? To what extent do people of different ethnic and cultural backgrounds actually cooperate and collaborate? </i> &rdquo; Por um lado, &eacute; clara a dificuldade na tradu&ccedil;&atilde;o destas quest&otilde;es – ou de quaisquer outras com possibilidades de resposta condicionadas por um leque t&atilde;o alargado de dimens&otilde;es – em indicadores pass&iacute;veis de construir uma grelha replic&aacute;vel em diferentes contextos. Por outro lado, estas quest&otilde;es surgem como pontos imprescind&iacute;veis no debate necess&aacute;rio &agrave; implementa&ccedil;&atilde;o de um modelo intercultural. Sem compreender a natureza e a extens&atilde;o dos bloqueios &agrave; partilha e &agrave; convivialidade entre diferentes grupos ser&aacute; mais dif&iacute;cil a constru&ccedil;&atilde;o de plataformas integradoras da diversidade existente nas cidades contempor&acirc;neas, que superem perspetivas de ‘dramatiza&ccedil;&atilde;o da diversidade' (Cantle, 2016). </p>     <p> Neste sentido, as sess&otilde;es de <i>focus groups</i> centraram-se na tem&aacute;tica da diversidade e do seu enquadramento hist&oacute;rico na cidade de Lisboa. Surgiram de imediato na discuss&atilde;o os padr&otilde;es de diversifica&ccedil;&atilde;o cultural e &eacute;tnica ocorridos nas &uacute;ltimas quatro d&eacute;cadas, bem como as respetivas implica&ccedil;&otilde;es nas rela&ccedil;&otilde;es e sociabilidades entre as diferentes popula&ccedil;&otilde;es que a&iacute; se t&ecirc;m estabelecido. A ideia de que a cidade de Lisboa, em particular o eixo Intendente/Mouraria/Martim Moniz, &eacute; historicamente produzida pela diversidade &eacute;tnica &eacute; consensual. Todavia, a transversalidade da convivialidade inter-&eacute;tnica aos m&uacute;ltiplos temas discutidos revelou tamb&eacute;m uma perce&ccedil;&atilde;o generalizada de relativa aus&ecirc;ncia de din&acirc;micas interculturais, n&atilde;o obstante a presen&ccedil;a de marcadores dessa diversidade no espa&ccedil;o p&uacute;blico. </p>     <p> Em conjunto com a quest&atilde;o da convivialidade surge uma dimens&atilde;o institucional, que agregou tr&ecirc;s espa&ccedil;os considerados priorit&aacute;rios, pelo impacto que t&ecirc;m na organiza&ccedil;&atilde;o dos projetos individuais e familiares das popula&ccedil;&otilde;es imigrantes e na determina&ccedil;&atilde;o da perce&ccedil;&atilde;o sobre os contextos de rece&ccedil;&atilde;o: </p>     <p> • Em primeiro lugar, &eacute; referida uma a&ccedil;&atilde;o insuficiente da escola relativamente &agrave; necessidade de adapta&ccedil;&atilde;o das estrat&eacute;gias educativas &agrave; transforma&ccedil;&atilde;o dos seus p&uacute;blicos e ao aumento da presen&ccedil;a de contingentes educativos cada vez mais diversos. Os hor&aacute;rios de ensino de Portugu&ecirc;s L&iacute;ngua N&atilde;o-Materna s&atilde;o considerados insuficientes como pol&iacute;tica integradora (uma conting&ecirc;ncia com consequ&ecirc;ncias diretas sobre a rela&ccedil;&atilde;o das popula&ccedil;&otilde;es estudantis estrangeiras com os curr&iacute;culos gerais e com o horizonte de possibilidades de participa&ccedil;&atilde;o c&iacute;vica). A mobilidade elevada destas popula&ccedil;&otilde;es, decorrente da precariedade das rela&ccedil;&otilde;es laborais, tem sido acentuada nos &uacute;ltimos anos pela press&atilde;o das novas l&oacute;gicas de alojamento local, o que cria problemas ao acompanhamento de alguns alunos por parte da escola. </p>     <p> • Em segundo lugar, a rela&ccedil;&atilde;o das popula&ccedil;&otilde;es imigrantes com a sa&uacute;de foi identificada como sendo mediada por diferentes padr&otilde;es no acesso aos servi&ccedil;os, e por uma relativa arbitrariedade no contacto com o <i>front office</i>. Esta situa&ccedil;&atilde;o traduz-se em incerteza e desconfian&ccedil;a relativamente &agrave;s institui&ccedil;&otilde;es. A import&acirc;ncia de forma&ccedil;&atilde;o intercultural dos t&eacute;cnicos e da presen&ccedil;a de mediadores socioculturais nos centros de sa&uacute;de foi nomeada como medida fundamental para a perce&ccedil;&atilde;o da qualidade da rela&ccedil;&atilde;o entre popula&ccedil;&otilde;es imigrantes e sociedades de acolhimento. </p>     <p> • Em terceiro lugar surge a rela&ccedil;&atilde;o com as autoridades locais por duas vias: uma, a das pol&iacute;ticas de habita&ccedil;&atilde;o; outra, a do envolvimento do munic&iacute;pio nos projetos de interven&ccedil;&atilde;o sobre o territ&oacute;rio atrav&eacute;s de parcerias com associa&ccedil;&otilde;es locais. A quest&atilde;o das novas din&acirc;micas de alojamento local e de encolhimento severo do mercado de arrendamento acess&iacute;vel &agrave; generalidade das popula&ccedil;&otilde;es que habitam a cidade, tem sido um polo agregador das diferentes popula&ccedil;&otilde;es da cidade de Lisboa na resist&ecirc;ncia &agrave; press&atilde;o sobre o mercado imobili&aacute;rio[<a name="top10" id="top10"></a><a href="#10">10</a>]. O efeito limitador que estas l&oacute;gicas t&ecirc;m sobre o desenho urbano contempor&acirc;neo foi igualmente destacado. Outro aspeto em que a rela&ccedil;&atilde;o com as autoridades locais &eacute; marcada pela incerteza &eacute; o horizonte muito limitado dos projetos de &acirc;mbito participativo desenvolvidos no territ&oacute;rio e a impossibilidade de assegurar, em tempo &uacute;til, a continuidade dos mesmos. Em alguns casos, o limite temporal anula por completo o impacto imediato dos projetos ap&oacute;s a sua conclus&atilde;o e a desmobiliza&ccedil;&atilde;o das pessoas respons&aacute;veis pela sua operacionaliza&ccedil;&atilde;o. </p>     <p> A cartografia do territ&oacute;rio produzida pelos mapeadores &eacute; o ‘cora&ccedil;&atilde;o' metodol&oacute;gico do projeto STEPS e traduz o car&aacute;ter precursor da iniciativa. Embora a abordagem intercultural esteja mais focada em aspetos da perten&ccedil;a que possam determinar o sentido da evolu&ccedil;&atilde;o da coes&atilde;o social, os aspetos referentes &agrave; rela&ccedil;&atilde;o com as institui&ccedil;&otilde;es e eventuais disparidades no acesso &agrave;s mesmas surgem espontaneamente no mapeamento realizado pelo grupo, destacando-se as quest&otilde;es sobre os servi&ccedil;os que promovem um melhor entendimento da sociedade de acolhimento. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Talvez o aspeto mais saliente e inesperado do mapeamento remeta, justamente, para uma correla&ccedil;&atilde;o afirmada repetidamente entre Diversidade, Sentimento de perten&ccedil;a e Familiaridade (ver<a href="#f2"> figura 2</a>). Pesquisas recentes t&ecirc;m demonstrado o caracter menos est&aacute;tico de no&ccedil;&otilde;es como Perten&ccedil;a e Lar nos novos modos transnacionais de organiza&ccedil;&atilde;o da experi&ecirc;ncia migrat&oacute;ria (Meissner e Vertovec, 2015). Na quest&atilde;o que relaciona tra&ccedil;os que recordavam a origem dos mapeadores com espa&ccedil;os onde se sentiam mais confort&aacute;veis, &eacute; referida a rua do Benformoso (ao Martim Moniz) e uma ideia de espa&ccedil;os plurais, multi-&eacute;tnicos e com sinais visuais de superdiversidade como locais onde o sentimento de perten&ccedil;a &eacute; mais forte. A pra&ccedil;a do Martim Moniz e as fontes p&uacute;blicas s&atilde;o locais de encontro e de socializa&ccedil;&atilde;o, valorizados pela semelhan&ccedil;a com a organiza&ccedil;&atilde;o social do quotidiano na origem. No mesmo sentido, a ideia de felicidade e de familiaridade &eacute; ligada aos jardins do Martim Moniz e &agrave; perce&ccedil;&atilde;o de Lisboa enquanto cidade com uma identidade arquitet&oacute;nica marcada por estilos de diferentes momentos hist&oacute;ricos, n&atilde;o obstante o conhecimento dos legados culturais de Lisboa n&atilde;o serem temas presentes na comunica&ccedil;&atilde;o com a fam&iacute;lia na origem. Nesse dom&iacute;nio, o da partilha com a origem, a afabilidade da popula&ccedil;&atilde;o aut&oacute;ctone e o clima s&atilde;o os elementos mais referidos. </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2" id="f2"></a><img src="/img/revistas/cct/n39/n39a11f2.jpg"/>     
<p>&nbsp;</p>     <p> O car&aacute;cter diverso do territ&oacute;rio mapeado contribui para um certo sentimento de representa&ccedil;&atilde;o dos patrim&oacute;nios culturais da origem no contexto de rece&ccedil;&atilde;o. Isso deve-se &agrave; presen&ccedil;a do com&eacute;rcio &eacute;tnico (quer pr&oacute;prio, quer de conterr&acirc;neos), &agrave;s festividades organizadas pelas associa&ccedil;&otilde;es de base &eacute;tnica e/ou nacional, ou ainda ao reconhecimento de s&iacute;mbolos culturais ou pol&iacute;ticos da origem em montras comerciais e outros espa&ccedil;os urbanos. Tamb&eacute;m a exist&ecirc;ncia de modos de vestir diversos contribui para um sentimento de representa&ccedil;&atilde;o das identidades culturais com que se identificam. Nos dados recolhidos durante os <i>focus group</i> a aus&ecirc;ncia de portugueses nas celebra&ccedil;&otilde;es organizadas pelas associa&ccedil;&otilde;es &eacute; mencionada, destacando-se a possibilidade de vir a obter maior representatividade cultural da sociedade local durante o mapeamento. </p>     <p> Os lugares de culto – como os centros culturais e as mesquitas – ao longo do eixo Martim Moniz-Mouraria-Intendente (e.g. Mapril, 2010; Mendes, 2012) s&atilde;o espa&ccedil;os de refor&ccedil;o ontol&oacute;gico e associados ao sentimento de comunidade e &agrave; rede de seguran&ccedil;a que as sociabilidades entre co-&eacute;tnicos representam. A dimens&atilde;o pol&iacute;tica do sentimento de perten&ccedil;a &eacute; mencionada sob duas express&otilde;es: na primeira &eacute; referida a import&acirc;ncia da possibilidade de voto para o sentimento de envolvimento com a comunidade local e para outras formas de participa&ccedil;&atilde;o c&iacute;vica; na segunda &eacute; referida a presen&ccedil;a de pol&iacute;ticos em eventos organizados pelas associa&ccedil;&otilde;es e comunidades locais, como sinal de fortalecimento do sentimento de perten&ccedil;a e de reconhecimento. A <a href="#f2">figura 2</a> sintetiza o exerc&iacute;cio de mapeamento realizado no &acirc;mbito do STEPS e uma constela&ccedil;&atilde;o identificada de &aacute;reas sobre as quais &eacute; poss&iacute;vel e desej&aacute;vel agir atrav&eacute;s da cria&ccedil;&atilde;o de espa&ccedil;os de partilha intercultural. Num territ&oacute;rio historicamente associado &agrave;s margens, ao desvio e &agrave; diferen&ccedil;a, a dissemina&ccedil;&atilde;o e a banaliza&ccedil;&atilde;o da abordagem participativa e do di&aacute;logo intercultural s&atilde;o centrais, quer para o alargamento dos debates sobre a diversidade, quer para o aumento da qualidade da cidadania e da legitimidade dos processos democr&aacute;ticos. O resultado aponta a presen&ccedil;a de modalidades de constitui&ccedil;&atilde;o dos espa&ccedil;os p&uacute;blicos, que ultrapassam os modos cl&aacute;ssicos de abordagem da quest&atilde;o da diversidade e sublinha a necessidade de considerarmos, como refere Vertovec, &ldquo; <i> multi-dimensional conditions and processes affecting immigrants in contemporary society </i> &rdquo; e o seu reconhecimento, que desejavelmente conduzir&atilde;o a pol&iacute;ticas p&uacute;blicas &ldquo; <i> better suited to the needs and conditions of immigrants, ethnic minorities and the wider population of which they are inherently part </i> .&rdquo; (Vertovec, 2007: 1050). </p>     <p> Do exerc&iacute;cio de mapeamento descrito surgiu, efetivamente, um mapa/itiner&aacute;rio do eixo Intendente/Mouraria/Martim Moniz, um territ&oacute;rio de superdiversidade na cidade de Lisboa. Um mapa que foi constru&iacute;do pelo grupo de mapeadores a partir da referencia&ccedil;&atilde;o de marcos da cidade, que s&atilde;o representativos para si e que avan&ccedil;am o di&aacute;logo intercultural[<a name="top11" id="top11"></a><a href="#11">11</a>]. A virtude deste trabalho participativo materializado em mapa reside na possibilidade da sua transforma&ccedil;&atilde;o numa ferramenta modular e aplic&aacute;vel a diferentes contextos. Depois de v&aacute;rios testes realizados com diferentes popula&ccedil;&otilde;es e da identifica&ccedil;&atilde;o da melhor metodologia de utiliza&ccedil;&atilde;o enquanto instrumento de promo&ccedil;&atilde;o do sentimento de identifica&ccedil;&atilde;o com o territ&oacute;rio e com a cidade, est&aacute; prevista a sua transfer&ecirc;ncia para os contextos escolares, com sobrerepresenta&ccedil;&atilde;o de contingentes imigrantes em formato ainda a definir. </p>     <p>&nbsp; </p>     <p><font size="3"><b>Notas finais </b></font> </p>     <p> Esta experi&ecirc;ncia permitiu, em particular, a operacionaliza&ccedil;&atilde;o de um quadro metodol&oacute;gico inovador, a partir de refer&ecirc;ncias conceptuais desenvolvidas num contexto de proximidade entre o dom&iacute;nio acad&eacute;mico e o dom&iacute;nio das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas. A constata&ccedil;&atilde;o da acelera&ccedil;&atilde;o, da escala e do &acirc;mbito das mudan&ccedil;as associadas ao fen&oacute;meno migrat&oacute;rio requer novos entendimentos e novas ferramentas de interpreta&ccedil;&atilde;o e de a&ccedil;&atilde;o estrat&eacute;gica sobre configura&ccedil;&otilde;es sociais emergentes (Meissner e Vertovec, 2015: 550). Novas configura&ccedil;&otilde;es remetem n&atilde;o para a elimina&ccedil;&atilde;o de rela&ccedil;&otilde;es de poder ou de desigualdades no campo da pesquisa e da an&aacute;lise, mas sim para o reconhecimento da abertura de diferentes possibilidades criativas de acelerar a partilha intercultural e, igualmente importante, compreender o seu efeito nas estruturas e institui&ccedil;&otilde;es urbanas presentes no terreno (Foner, 2017: 55). </p>     <p> Embora os impactos do projeto STEPS sejam dif&iacute;ceis de calcular a curto prazo, &eacute; poss&iacute;vel verificar evid&ecirc;ncias positivas ao n&iacute;vel das rela&ccedil;&otilde;es desenvolvidas entre as entidades e as popula&ccedil;&otilde;es migrantes que participaram no exerc&iacute;cio de mapeamento nele enquadrado. O mesmo pode ser dito relativamente &agrave; rela&ccedil;&atilde;o destas popula&ccedil;&otilde;es com a cidade. A import&acirc;ncia de estudos longitudinais e o alargamento destas iniciativas de car&aacute;cter participativo s&atilde;o fundamentais para avaliar graus de impacto sobre os territ&oacute;rios e a durabilidade dos seus efeitos. Mas s&atilde;o, do mesmo modo, cruciais para o desenvolvimento de instrumentos capazes de medir e acompanhar a evolu&ccedil;&atilde;o de efeitos diversos no quotidiano das popula&ccedil;&otilde;es/grupos sociais/comunidades que habitam a cidade e captar narrativas alternativas aos discursos dominantes. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> A circunst&acirc;ncia estrutural dos indiv&iacute;duos tem consequ&ecirc;ncias diretas na avalia&ccedil;&atilde;o destes sobre a sua realidade e sobre a valoriza&ccedil;&atilde;o do territ&oacute;rio em que se encontram. Este projeto n&atilde;o s&oacute; confirmou isso, como permitiu perceber que a participa&ccedil;&atilde;o &eacute; tamb&eacute;m um instrumento de transforma&ccedil;&atilde;o da perce&ccedil;&atilde;o dos indiv&iacute;duos sobre a realidade que os envolve e de est&iacute;mulo a novas pr&aacute;ticas e sociabilidades. As popula&ccedil;&otilde;es imigrantes s&atilde;o, geralmente, enquadradas numa moldura penalizadora em termos de acesso a direitos de cidadania. Contudo, a sua participa&ccedil;&atilde;o – enquanto agentes ativos no processo de constru&ccedil;&atilde;o dos gui&otilde;es e de mapeamento dos patrim&oacute;nios culturais em tr&acirc;nsito na cidade – pode contribuir para alterar esse cen&aacute;rio. Os sujeitos que integraram o projeto piloto STEPS demonstraram isso mesmo, contribuindo atrav&eacute;s da sua participa&ccedil;&atilde;o para um processo que pode ser relevante em iniciativas que tenham implica&ccedil;&otilde;es sobre as suas vidas e revelando novas possibilidades epistemol&oacute;gicas de pensar a cidadania e as dimens&otilde;es que (conjuntamente) a determinam. </p>     <p>&nbsp; </p>     <p><font size="3"><b>Bibliografia</b></font> </p>     <p> Allegretti, G., Dias N. (2019) &ldquo;Participa&ccedil;&atilde;o c&iacute;vica e pol&iacute;ticas habitacionais: que desafios para Portugal?&rdquo;, <i>Cidades, Comunidades e Territ&oacute;rios</i>, 38, pp. 20-26. </p>     <p> Baptista, L. V., Nofre J., Jorge, M. R. (2018) &ldquo;Mobilidade, Cidade e Turismo: pistas para analisar as transforma&ccedil;&otilde;es em curso no centro hist&oacute;rico de Lisboa&rdquo;, <i>Sociologia: Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto</i>, N&uacute;mero tem&aacute;tico – Cidade, cultura e turismo: novos cruzamentos, pp. 14-32. </p>     <p> Berger-Schmitt, R. (2002) &ldquo;Considering Social Cohesion in Quality of Life Assessments: Concepts and Measurement&rdquo;, <i>Social Indicators Research</i>, 58(3): 403-428. </p>     <p> Cachado, R., Estevens, A., Ascens&atilde;o, E. (2019) &ldquo;‘Estamos numa febre de especula&ccedil;&atilde;o pela procura de mais-valias': Entrevista com Rita Silva, Presidente da associa&ccedil;&atilde;o Habita&rdquo;, <i>Cidades, Comunidades e Territ&oacute;rios</i>, 38, pp. 36-44. </p>     <!-- ref --><p> Cantle, T. (2012) <i>Interculturalism: for the era of cohesion and diversity</i>, Basingstoke: Palgrave Macmillan.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1697550&pid=S2182-3030201900020001100005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p> Cantle T. (2016) &ldquo;The Case for Interculturalism and Plurality&rdquo; in N. Meer, T. Modood, R. Zapata-Barrero (eds.) <i>Multiculturalism and Interculturalism Debating the Dividing</i>, Edinburgh: Edinburgh University Press. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p> Castles, S., Miller, M. (2009) <i> The Age of Migration: International Population Movements in the Modern World </i> , New York: The Guilford Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1697553&pid=S2182-3030201900020001100007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p> Cheong, P. et al. (2007) &ldquo;Immigration, social cohesion and social capital: A critical review&rdquo;, <i>Critical Social Policy</i>, Vol. 27(1): 24-49. </p>     <!-- ref --><p> European Committee for Social Cohesion (2004) <i>A New Strategy for Social Cohesion</i>, CoE.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1697556&pid=S2182-3030201900020001100009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p> Foner, N. (2017) &ldquo;A Research Comment: What's New About Superdiversity?&rdquo;, <i>Journal of American Ethnic History</i> 36 (4) pp. 49-57. </p>     <!-- ref --><p> Gilroy, P. (2004) <i>After Empire: Melancholia or Convivial Culture?</i>, London: Routledge.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1697559&pid=S2182-3030201900020001100011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Jenson, J. (2010) <i>Defining and Measuring Social Cohesion</i>, London: Commonwealth Secretariat and United Nations Research Institute for Social Development.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1697561&pid=S2182-3030201900020001100012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p> Langfield, M., Logan, W., Craith M. N. (eds.) (2010) <i> Cultural Diversity, Heritage, and Human Rights: Intersections in Theory and Practice </i> , Oxon: Routledge.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1697563&pid=S2182-3030201900020001100013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p> Mapril, J. (2010) &ldquo;Banglapara: imigra&ccedil;&atilde;o, neg&oacute;cios e (in)formalidades em Lisboa&rdquo;, <i>Etnogr&aacute;fica</i>, 14 (2) pp. 243-263. </p>     <p> Meissner, F., Vertovec, S. (2015) &ldquo;Comparing super-diversity&rdquo;, <i>Ethnic and Racial Studies</i>, 38:4, pp. 541-555. </p>     <p> Mendes, L. (2017) &ldquo;Gentrifica&ccedil;&atilde;o tur&iacute;stica em Lisboa: neoliberalismo, financeiriza&ccedil;&atilde;o e urbanismo austerit&aacute;rio em tempos de p&oacute;s-crise capitalista 2008-2009&rdquo;, <i>Cadernos Metr&oacute;pole</i>, 19 (39), pp. 479-512. </p>     <p> Mendes, M. M. (2012) &ldquo;Bairro da Mouraria, territ&oacute;rio de diversidade: entre a tradi&ccedil;&atilde;o e o cosmopolitismo&rdquo;, <i>Sociologia, Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto</i>, N&uacute;mero tem&aacute;tico: Imigra&ccedil;&atilde;o, Diversidade e Conviv&ecirc;ncia Cultural, 15-41. </p>     <p> Oliveira, N. (2017) &ldquo;Novas configura&ccedil;&otilde;es da governan&ccedil;a da diversidade. O interculturalismo como modo de incorpora&ccedil;&atilde;o&rdquo;, in B. Padilla, J. Azevedo, T. Fran&ccedil;a (orgs.) <i>Migra&ccedil;&otilde;es Internacionais e Pol&iacute;ticas P&uacute;blicas Portuguesas</i>, Lisboa: Mundos Sociais. </p>     <p> Padilla, B., Azevedo J., Olmos-Alcaraz, A. (2015) &ldquo;Superdiversity and conviviality: exploring frameworks for doing ethnography in Southern European intercultural cities&rdquo;, <i>Ethnic and Racial Studies</i>, 38 (4). pp 621-635. </p>     <!-- ref --><p> Peixoto, J., Iorio, J. (2011) <i> Crise, Imigra&ccedil;&atilde;o e Mercado de Trabalho em Portugal: retorno, regula&ccedil;&atilde;o ou resist&ecirc;ncia? </i> , Lisboa: Principia/Funda&ccedil;&atilde;o Calouste Gulbenkian.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1697571&pid=S2182-3030201900020001100020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p> Ramadan, T. (2011) <i>On Super-Diversity</i>, Berlin: Sternberg Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1697573&pid=S2182-3030201900020001100021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p> Spies, M. (2010) &ldquo;Participation as a road to integration – the Danish case&rdquo;, in Ahokas, Tykkyl&auml;inen, Wilhelmsson, <i> Practicing Participation. Exchanging Good Practices for the Promotion of an Active Citizenship within the European Union. Good Citizen Participation Practices conference </i> . </p>     <p> Vertovec S. (2007) &ldquo;Super-diversity and its implications&rdquo;, <i>Ethnic and Racial Studies</i>, 30:6, pp. 1024-1054. </p>     <p> Taylor, C. (2012) &ldquo;Interculturalism or multiculturalism?&rdquo;, <i>Philosophy and Social Criticism</i>, 38(4-5), pp. 413-423. </p>     <p> Zapata-Barrero, R. (2017) &ldquo;Interculturalism in the post-multicultural debate: a defence&rdquo;, <i>Comparative Migration Studies</i>, 5. </p>     <!-- ref --><p> Wood, P., Landry, C. (2008)<font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"> <i>The Intercultural City: Planning for Diversity Advantage</i>, London: Earthscan.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1697579&pid=S2182-3030201900020001100026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p> </font>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Received: 16-07-2019; Accepted: 30-12-2019.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"> </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"> NOTES </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="2" id="2"></a>[<a href="#top2">2</a>] <a                 href="https://www.coe.int/en/web/interculturalcities/-/launch-of-steps-heritage-resources-for-inclusive-diversity" target="_blank"             > https://www.coe.int/en/web/interculturalcities/-/launch-of-steps-heritage-resources-for-inclusive-diversity</a>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="3" id="3"></a>[<a href="#top3">3</a>] <a href="https://www.coe.int/en/web/interculturalcities/home" target="_blank"> https://www.coe.int/en/web/interculturalcities/home</a>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="4" id="4"></a>[<a href="#top4">4</a>] <a href="http://www.jfarroios.pt/conheca-arroios/" target="_blank"> http://www.jfarroios.pt/conheca-arroios/</a>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="5" id="5"></a>[<a href="#top5">5</a>] <a href="https://sefstat.sef.pt/forms/evolucao.aspx" target="_blank"> https://sefstat.sef.pt/forms/evolucao.aspx</a>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="6" id="6"></a>[<a href="#top6">6</a>] Gabinete de Apoio aos Bairros de Interven&ccedil;&atilde;o Priorit&aacute;ria.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="7" id="7"></a>[<a href="#top7">7</a>] Quer o Atelier MOB quer o DIN&Acirc;MIA'CET-IUL participaram com &acirc;mbitos mais espec&iacute;ficos de a&ccedil;&atilde;o, nomeadamente ao n&iacute;vel da produ&ccedil;&atilde;o de uma mem&oacute;ria descritiva da zona e da monitoriza&ccedil;&atilde;o das atividades realizadas ao longo do projeto.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="8" id="8"></a>[<a href="#top8">8</a>] A pr&oacute;pria no&ccedil;&atilde;o de ‘superdiversidade' parece surgir enquanto causa e consequ&ecirc;ncia de um contexto de insufici&ecirc;ncia cr&iacute;tica dos referentes ‘cl&aacute;ssicos', em torno dos quais a no&ccedil;&atilde;o de ‘diversidade' se ancorou. A partir de uma leitura dos dados sobre imigra&ccedil;&atilde;o no Reino Unido, Vertovec observa uma diversifica&ccedil;&atilde;o de locais tradicionais de origem a partir dos anos 1990, mas tamb&eacute;m a emerg&ecirc;ncia de novos padr&otilde;es relevantes na determina&ccedil;&atilde;o de experi&ecirc;ncias, percursos e modos de organiza&ccedil;&atilde;o das popula&ccedil;&otilde;es e da resposta das autoridades e associa&ccedil;&otilde;es locais: os estatutos legais, diferentes modos de incorpora&ccedil;&atilde;o no mercado de trabalho, novas din&acirc;micas de g&eacute;nero e de idade e diferentes padr&otilde;es de distribui&ccedil;&atilde;o territorial (Vertovec, 2007: 1025).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="9" id="9"></a>[<a href="#top9">9</a>] A coordena&ccedil;&atilde;o destas sess&otilde;es de <i>focus group</i> esteve a cargo do autor.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="10" id="10"></a>[<a href="#top10">10</a>] Vejam-se, por exemplo, as iniciativas em torno do fechamento da pra&ccedil;a do Martim Moniz e da contesta&ccedil;&atilde;o organizada ao projeto apresentado para o local (<a                 href="https://www.dn.pt/pais/interior/cordao-humano-pede-suspensao-imediata-de-obras-no-martim-moniz-10527989.html" target="_blank"             >https://www.dn.pt/pais/interior/cordao-humano-pede-suspensao-imediata-de-obras-no-martim-moniz-10527989.html</a>) e Allegretti e Dias, 2019 e Cachado <i>et al.</i>, 2019.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="11" id="11"></a>[<a href="#top11">11</a>] <a href="https://rm.coe.int/map-lisbon-steps-project/16808edcf5" target="_blank"> https://rm.coe.int/map-lisbon-steps-project/16808edcf5</a>.</font></p>      ]]></body><back>
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