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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Rompendo uma clandestinidade legal: génese e evolução do movimento dos cuidadores e das cuidadoras informais em Portugal]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Capable of forcing a political discussion around a crucial dimension of unpaid reproductive work, the informal carers' movement in Portugal disrupted the logic of invisibility that was circumscribing its existence, rescuing its free-work from a “taken for granted” existence, which entailed serious restrictions, in practice, to their social freedom. In this article, we seek to historicize the recent past of the informal carers' in Portugal, analyzing its process of formalization, its social alliances and its media strategies, its claims and repertoires of action. From the study on this collective action experience, it is traced the trajectory of the recent evolution of informal care as a social problem, which mobilized several political agents, and triggered a legislative process that led to the approval of an Informal Caregiver Statute.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana" size="2"><b>ARTIGO ORIGINAL</b></font></p>     <p>&nbsp;</p> <b><font face="Verdana" size="4">Rompendo uma clandestinidade legal: g&eacute;nese e evolu&ccedil;&atilde;o do movimento dos cuidadores e das cuidadoras informais em Portugal</font></b>     <p></p>     <p> <b><font face="Verdana" size="3"> Breaking a legal clandestinity: Genesis and evolution of the caregiver movement and informal caregivers in Portugal </font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font face="Verdana" size="2">Jos&eacute; Soeiro<a name="top1" id="top1"></a><a href="#1">I</a></font></b><b><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">; Mafalda Ara&uacute;jo<a name="top2" id="top2"></a><a href="#2">II</a></font></b></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="1" id="1"></a>[<a href="#top1">I</a>]</font><font size="2" face="Verdana">Universidade do Porto, Portugal. e-mail: <a href="mailto:josemourasoeiro@gmail.com" target="_blank">josemourasoeiro@gmail.com</a></font>.</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="2" id="2"></a>[<a href="#top2">II</a>]University of Amsterdam, The Netherlands. e-mail: <a href="mailto:mafaldagomesdearaujo@gmail.com" target="_blank">mafaldagomesdearaujo@gmail.com</a>.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade="noshade" /> <font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b>RESUMO</b></font><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Capaz de for&ccedil;ar a discuss&atilde;o pol&iacute;tica em torno de uma das dimens&otilde;es mais importantes do trabalho reprodutivo n&atilde;o remunerado, o movimento dos cuidadores informais em Portugal rompeu com as l&oacute;gicas da invisibilidade que circunscreviam a sua exist&ecirc;ncia, resgatando do plano do &laquo;natural&raquo; o seu trabalho gratuito com restri&ccedil;&otilde;es importantes, na pr&aacute;tica, &agrave; sua liberdade social. Neste artigo, procura-se historicizar o passado recente do movimento dos cuidadores e cuidadoras informais em Portugal, analisando os seus processos de formaliza&ccedil;&atilde;o, as suas alian&ccedil;as sociais, as suas estrat&eacute;gias medi&aacute;ticas, as suas reivindica&ccedil;&otilde;es e os seus repert&oacute;rios de a&ccedil;&atilde;o. Pretende-se, a partir do estudo dessa experi&ecirc;ncia de a&ccedil;&atilde;o coletiva, tra&ccedil;ar a trajet&oacute;ria da evolu&ccedil;&atilde;o recente dos cuidados informais como um problema social, que mobilizou diversos agentes pol&iacute;ticos e desencadeou um processo legislativo que conduziu &agrave; aprova&ccedil;&atilde;o de um Estatuto do Cuidador Informal.</p> <b>Palavras-chave:</b> cuidados informais; movimentos sociais; associativismo; reconhecimento; feminismo; Estatuto do Cuidador Informal.     <p></p> </font> <hr size="1" noshade="noshade"/>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Capable of forcing a political discussion around a crucial dimension of unpaid reproductive work, the informal carers&rsquo; movement in Portugal disrupted the logic of invisibility that was circumscribing its existence, rescuing its free-work from a &ldquo;taken for granted&rdquo; existence, which entailed serious restrictions, in practice, to their social freedom. In this article, we seek to historicize the recent past of the informal carers&rsquo; in Portugal, analyzing its process of formalization, its social alliances and its media strategies, its claims and repertoires of action. From the study on this collective action experience, it is traced the trajectory of the recent evolution of informal care as a social problem, which mobilized several political agents, and triggered a legislative process that led to the approval of an Informal Caregiver Statute.</font> </p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b>Keywords:</b> informal care, social movements, associativism, acknowledgement, feminism, Informal Caregiver Statute.</font></p> <hr size="1" noshade="noshade" /> <font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">     <p>&nbsp;</p> </font> <font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"> </font><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">     <p> Talvez se possa dizer do surgimento de um movimento de cuidadores e cuidadoras informais em Portugal aquilo que Bourdieu declarou acerca das mobiliza&ccedil;&otilde;es de desempregados em Fran&ccedil;a. Trata-se de um verdadeiro &ldquo;milagre social&rdquo;, por arrancar &ldquo;&agrave; invisibilidade, ao isolamento, ao sil&ecirc;ncio, em suma, &agrave; inexist&ecirc;ncia&rdquo; (Bourdieu, 1998: 122) um grupo de pessoas cujas condi&ccedil;&otilde;es materiais e subjetivas tenderiam, precisamente, a contribuir para o afastamento da a&ccedil;&atilde;o coletiva. A dispers&atilde;o e atomiza&ccedil;&atilde;o social das cuidadoras, as circunst&acirc;ncias que as remetem para uma esp&eacute;cie de confinamento dom&eacute;stico que tende a isol&aacute;-las de redes de sociabilidade mais alargadas, o registo fatalista em que se vivencia a presta&ccedil;&atilde;o de cuidados como um encargo necessariamente decorrente das obriga&ccedil;&otilde;es familiares, a aus&ecirc;ncia de um antagonista claro contra o qual opor-se ou ao qual dirigir-se, a pr&oacute;pria escassez ou mesmo aus&ecirc;ncia de tempo para si e para outras tarefas para al&eacute;m das que decorrem da assist&ecirc;ncia prestada aos outros, s&atilde;o tudo fatores que concorrem pesadamente para a improbabilidade sociol&oacute;gica de um tal movimento. E no entanto, contrariando dificuldades estruturais e disposi&ccedil;&otilde;es conformistas, ele irrompeu no nosso pa&iacute;s. </p>     <p> A primeira conquista deste movimento, como notou Bourdieu acerca dessa outra experi&ecirc;ncia de meados da d&eacute;cada de 1990, &ldquo;&eacute; o pr&oacute;prio movimento&rdquo; (1998: 122). Isto &eacute;, a transforma&ccedil;&atilde;o de uma experi&ecirc;ncia vivida de forma isolada e frequentemente num registo de sofrimento numa identidade de luta, a cria&ccedil;&atilde;o de espa&ccedil;os de encontro e o estabelecimento de um programa de objetivos comuns. Mas al&eacute;m disso, esse movimento conseguiu alcan&ccedil;ar, no espa&ccedil;o de tempo relativamente curto que aqui analisaremos (entre junho de 2016 e julho de 2019), n&atilde;o apenas o &ldquo;direito a existir&rdquo; mas tamb&eacute;m uma r&aacute;pida centralidade no debate p&uacute;blico e no campo pol&iacute;tico. </p>     <p> Se as premissas presentes nos movimentos por uma cidadania dos cuidados (Casas-Cortes, 2019) podem ter bases comunicantes com as que subjazem ao regime familialista de organiza&ccedil;&atilde;o dos cuidados (centralidade da fam&iacute;lia e dos cuidados n&atilde;o-profissionais; rela&ccedil;&otilde;es n&atilde;o mercantis de apoio, de reciprocidade e de solidariedade intra e intergeracional; divis&atilde;o sexual do trabalho reprodutivo), valer&aacute; a pena assinalar tamb&eacute;m o quanto a sua exist&ecirc;ncia pode contribuir para repensar esse mesmo regime e as rela&ccedil;&otilde;es que nele se estabelecem entre Estado, &laquo;sociedade civil secund&aacute;ria&raquo;, fam&iacute;lia e redes de solidariedade no campo dos cuidados (Santos, 1990; Ferreira, 2000). </p>     <p> Assim, analisaremos o modo como se construiu a tem&aacute;tica dos cuidadores e cuidadoras informais como um problema p&uacute;blico, o quadro de oportunidades pol&iacute;ticas que foram potenciadas, o surgimento de uma gal&aacute;xia de coletivos e de organiza&ccedil;&otilde;es social e politicamente mobilizadas, o tecimento de amplas alian&ccedil;as, os mecanismos de formaliza&ccedil;&atilde;o e institucionaliza&ccedil;&atilde;o que se iniciaram, os repert&oacute;rios de a&ccedil;&atilde;o mobilizados, a agenda de reivindica&ccedil;&otilde;es e o processo pol&iacute;tico-legislativo desencadeado por este movimento. O que pretendemos apresentar &eacute; mais do que um mero invent&aacute;rio de acontecimentos e de epis&oacute;dios. &Eacute;, acima de tudo, uma reflex&atilde;o sobre as estrat&eacute;gias postas em marcha e sobre as possibilidades que este processo abriu no sentido de se repensar a pr&oacute;pria organiza&ccedil;&atilde;o social dos cuidados no nosso pa&iacute;s. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp; </p> <font size="3"><b>     <p>Breve nota metodol&oacute;gica </p> </b></font>     <p> Nas pr&oacute;ximas linhas, procuraremos retomar o fio dos acontecimentos que explicam a estrutura&ccedil;&atilde;o desta experi&ecirc;ncia de mobiliza&ccedil;&atilde;o em torno dos cuidados informais e oferecer uma interpreta&ccedil;&atilde;o sobre o percurso, as tens&otilde;es e as caracter&iacute;sticas deste processo de subjetiva&ccedil;&atilde;o coletiva. Por cuidados informais entendemos aqui aqueles que s&atilde;o prestados por familiares e amigos (vizinhos, nomeadamente), a tempo inteiro ou de forma parcial, sem remunera&ccedil;&atilde;o ou contrapartida mercantil, e que incluem atividades de assist&ecirc;ncia na alimenta&ccedil;&atilde;o, na higiene pessoal, em tarefas b&aacute;sicas de sa&uacute;de e de manuten&ccedil;&atilde;o quotidiana ou no apoio emocional, por exemplo (C&egrave;s et al., 2019; ILO, 2018; Lopes et al, 2017; Lopes, 2017; Alves, 2015; S&atilde;o Jos&eacute;, 2012). Opt&aacute;mos por falar em subjetiva&ccedil;&atilde;o coletiva para acentuar a dimens&atilde;o processual da constitui&ccedil;&atilde;o de um movimento de auto-representa&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica dos cuidadores e cuidadoras informais enquanto ator coletivo, no per&iacute;odo entre 2016 e 2019, que ter&aacute; como principal resultado organizativo a constitui&ccedil;&atilde;o de uma Associa&ccedil;&atilde;o Nacional de Cuidadores Informais, mas que compreende, como apontaremos, uma gal&aacute;xia de alian&ccedil;as mais vasta. </p>     <p> Do ponto de vista metodol&oacute;gico, sublinhamos quatro elementos fundamentais sob os quais assenta a an&aacute;lise que aqui propomos a debate. </p>     <p> Em primeiro lugar, foi realizado um levantamento exaustivo de todas as iniciativas p&uacute;blicas organizadas pelos promotores da peti&ccedil;&atilde;o pela cria&ccedil;&atilde;o de um Estatuto do Cuidador Informal e, mais tarde, pela Associa&ccedil;&atilde;o Nacional de Cuidadores Informais (ANCI). Essa identifica&ccedil;&atilde;o assentou na an&aacute;lise quer das not&iacute;cias da imprensa no per&iacute;odo identificado (junho de 2016 a julho de 2019), quer de uma cronologia criada por uma das protagonistas deste movimento e primeira presidente da ANCI, cronologia essa que traduz a sele&ccedil;&atilde;o dos momentos significativos identificados pelos pr&oacute;prios protagonistas destas a&ccedil;&otilde;es. Nesse levantamento procurou caracterizar-se as iniciativas tendo em conta: i) os repert&oacute;rios de a&ccedil;&atilde;o mobilizados; ii) o n&uacute;mero de participantes; iii) as alian&ccedil;as estabelecidas em cada a&ccedil;&atilde;o; iv) e o eco medi&aacute;tico produzido. </p>     <p> Em segundo lugar, foi feita a transcri&ccedil;&atilde;o e an&aacute;lise de conte&uacute;do de todas as interven&ccedil;&otilde;es realizadas no debate p&uacute;blico sobre as &laquo;Medidas de Apoio ao Cuidador Informal&raquo; que ocorreu em fevereiro de 2018 no Parlamento e que contou com a participa&ccedil;&atilde;o e o testemunho de dezenas de cuidadores e cuidadoras informais. Esse material &eacute; de uma enorme riqueza: pelo conte&uacute;do do conjunto de narrativas biogr&aacute;ficas de uma amostra muito plural de cuidadores e cuidadoras informais (do ponto de vista territorial, et&aacute;rio e de grupos de pessoas cuidadas) mas tamb&eacute;m pelo valor performativo do discurso, num contexto em que tomar a palavra n&atilde;o era apenas um ato narrativo, mas era j&aacute; uma a&ccedil;&atilde;o de inscri&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, a partir da experi&ecirc;ncia subjetiva, do tema dos cuidados informais. </p>     <p> Em terceiro lugar, fez-se o levantamento de todas as iniciativas legislativas (projetos de resolu&ccedil;&atilde;o, projetos de lei e propostas de lei) relativas ao tema dos Cuidadores Informais, procedendo-se a uma an&aacute;lise categorial (apresentada de forma mais detalhada pelos autores num outro artigo) a partir da identifica&ccedil;&atilde;o das principais quest&otilde;es levantadas pelas organiza&ccedil;&otilde;es de cuidadores e cuidadoras informais e de uma tipologia sobre as respostas de pol&iacute;tica p&uacute;blica apresentadas pelos agentes pol&iacute;ticos, num enquadramento para os cuidados informais que oscila entre um eixo mais familialista, assente no reconhecimento dos cuidados por via de transfer&ecirc;ncias diretas &agrave;s fam&iacute;lias; e um eixo mais baseado na desfamiliariza&ccedil;&atilde;o destes cuidados pelo refor&ccedil;o da sua provis&atilde;o profissional, seja diretamente pelos servi&ccedil;os p&uacute;blicos, seja atrav&eacute;s do incremento de respostas sociais do setor particular e cooperativo financiadas pelo Estado. </p>     <p> Em quarto lugar, este trabalho foi complementado com o registo &aacute;udio de conversas (preferimos o termo a entrevistas, para refor&ccedil;ar a import&acirc;ncia e o valor epistemol&oacute;gico do car&aacute;ter convivial e pouco hier&aacute;rquico desses momentos de troca de conhecimentos e de confronto de interpreta&ccedil;&otilde;es) com tr&ecirc;s das pessoas que estiveram na origem deste processo, isto &eacute;, da cria&ccedil;&atilde;o da peti&ccedil;&atilde;o e, posteriormente, da Associa&ccedil;&atilde;o Nacional. </p>     <p> Por &uacute;ltimo, vale a pena sublinhar que a reflex&atilde;o que aqui se oferece &agrave; discuss&atilde;o resulta tamb&eacute;m – e precisamente – dessas conversas e da nossa participa&ccedil;&atilde;o e observa&ccedil;&atilde;o implicada em alguns dos processos aqui descritos. O reconhecimento da experi&ecirc;ncia social da luta como fonte de produ&ccedil;&atilde;o de conhecimento, de re-significa&ccedil;&atilde;o e de trabalho cognitivo coletivo &eacute; para n&oacute;s um instrumento epistemol&oacute;gico de autodefesa dos investigadores e investigadoras contra as armadilhas da &laquo;curiosidade diletante&raquo; e da &laquo;confian&ccedil;a arrogante&raquo; na pr&aacute;tica cient&iacute;fica (Santos 2018: 60). Assim, a triangula&ccedil;&atilde;o de saberes e de experi&ecirc;ncias – que se somam aos mecanismos de objetiva&ccedil;&atilde;o sociol&oacute;gica que nos s&atilde;o dados pela observa&ccedil;&atilde;o rigorosa das t&eacute;cnicas e dos protocolos de cientificidade da disciplina – desenvolveu-se no processo de escrita deste artigo, mas far-se-&aacute; sobretudo, assim o desejamos, no debate e na intera&ccedil;&atilde;o que ele possa suscitar por parte dos seus leitores e leitoras.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <font size="3"><b>Trabalho reprodutivo e lutas sociais pela cidadania dos cuidados</b></font> </p>     <p> O movimento das cuidadoras e dos cuidadores informais n&atilde;o &eacute; um processo isolado na luta pelo reconhecimento e visibiliza&ccedil;&atilde;o do trabalho reprodutivo. De facto, j&aacute; nas d&eacute;cadas de 60 e 70 do s&eacute;culo XX, a luta pela visibiliza&ccedil;&atilde;o social do trabalho reprodutivo (principalmente o dom&eacute;stico) tornou-se ent&atilde;o, no entendimento de algumas autoras feministas, no &laquo;principal campo de batalha para as mulheres&raquo;, denunciando-se a divis&atilde;o sexual do trabalho e as dimens&otilde;es opressoras, ao n&iacute;vel do g&eacute;nero e das pol&iacute;ticas sociais, subjacentes a essa divis&atilde;o (Federici, 2013: 72). Ao tornar evidente a produtividade da &ldquo;f&aacute;brica social&rdquo; (James, 2012: 51-2), ao descrever &ldquo;como a for&ccedil;a de trabalho &eacute; produzida e reproduzida quando &eacute; diariamente consumida na f&aacute;brica ou no escrit&oacute;rio&rdquo;, a identifica&ccedil;&atilde;o desse &ldquo;trabalho das mulheres&rdquo; pretendia enfatizar o quanto esta realidade as colocava as numa posi&ccedil;&atilde;o social considerada &ldquo;degradante&rdquo;: a de serem &ldquo;as funcion&aacute;rias pessoais dos homens&rdquo;. </p>     <p> A reivindica&ccedil;&atilde;o em torno de um sal&aacute;rio dom&eacute;stico era, no quadro destes movimentos e destas correntes pol&iacute;ticas, uma luta com o alcance estrat&eacute;gico de promover uma transforma&ccedil;&atilde;o radical do modelo de reprodu&ccedil;&atilde;o social existente. Contrariando a institucionaliza&ccedil;&atilde;o das mulheres no lar (Federici, 2013: 94), esta era uma proposta t&aacute;tica com vista &agrave; transforma&ccedil;&atilde;o deste destino for&ccedil;ado; isto &eacute;, tinha como objetivo retirar da clandestinidade pol&iacute;tica o trabalho feminino n&atilde;o reconhecido com vista a extingui-lo (e n&atilde;o a reific&aacute;-lo) enquanto trabalho n&atilde;o livre, imposto, gratuito, embora socialmente &uacute;til e produtivo. Segundo Silvia Federici, a campanha pelo sal&aacute;rio dom&eacute;stico teria tamb&eacute;m o m&eacute;rito de criar uma identifica&ccedil;&atilde;o coletiva e uma mobiliza&ccedil;&atilde;o em torno de um objetivo concreto: o de rejeitar o trabalho dom&eacute;stico enquanto trabalho gratuito subjacente a uma suposta miss&atilde;o de g&eacute;nero que as mulheres deveriam concretizar. </p>     <p> N&atilde;o faltam, na literatura sociol&oacute;gica e particularmente nas perspetivas feministas, reflex&otilde;es tamb&eacute;m sobre a quest&atilde;o dos cuidados. Elas foram sendo propostas a partir de uma cr&iacute;tica feminista da economia centrada no chamado &laquo;trabalho produtivo&raquo; (Waring, 1988; Ferber e Nelson, 1993), trabalhando analiticamente com conceitos como a &laquo;racionalidade dos cuidados&raquo; (Waerness, 1987), desenvolvendo considera&ccedil;&otilde;es sobre o problema de saber como &laquo;cuidar dos cuidadores&raquo; (Kittay et al., 2005), a partir de uma perspetiva que procurou problematizar a pr&oacute;pria &laquo;l&oacute;gica dos cuidados&raquo; (Mol, 2008), ou da sugest&atilde;o de uma &laquo;economia p&uacute;rpura&raquo; como vis&atilde;o alternativa aos paradigmas dominantes na macroenomia, capaz de tratar o cuidado como um bem p&uacute;blico e um direito humano b&aacute;sico (Ilkkaracan, 2013). </p>     <p> Tamb&eacute;m a afirma&ccedil;&atilde;o da categoria de &laquo;cuidador&raquo; e de &laquo;cuidadora&raquo; informais foi analisada tendo em conta as disputas com os profissionais e as lutas pela valoriza&ccedil;&atilde;o dos conhecimentos end&oacute;genos, produzidos pela experi&ecirc;ncia &laquo;a partir de dentro&raquo;, atrav&eacute;s dos grupos de &laquo;auto-ajuda&raquo;, apresentando-se assim os cuidadores informais como sujeitos de um conhecimento rival ao dos &laquo;especialistas&raquo; externos (Barnes, 2005). Os pr&oacute;prios movimentos das pessoas com defici&ecirc;ncia produziram, nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, um questionamento das pol&iacute;ticas centradas numa abordagem m&eacute;dica da depend&ecirc;ncia, do baixo n&iacute;vel de apoio e de servi&ccedil;os disponibilizados, que abrangia tamb&eacute;m uma cr&iacute;tica &agrave; desconsidera&ccedil;&atilde;o dos cuidados nos paradigmas dominantes e aos obst&aacute;culos &agrave; autonomia das pessoas cuidadas (Fontes, 2016). Por outro lado, v&aacute;rios estudos sobre o &laquo;trabalho do cuidado informal&raquo; procuraram estimar o seu peso econ&oacute;mico e identificar os aspetos subjetivamente positivos e negativos da experi&ecirc;ncia informal de cuidar (Keating et al, 2013; Alves, 2015; C&egrave;s et al., 2019) </p>     <p> As lutas sociais e pol&iacute;ticas em torno desta quest&atilde;o foram tamb&eacute;m abordadas abundantemente a partir da &eacute;tica dos cuidados (Gilligan, 1982), das teorias da justi&ccedil;a (Fraser, 2008) e do reconhecimento (Fraser e Honneth, 2013), dos cuidados como dimens&atilde;o da democracia (Tronto, 2013) ou dos conflitos em torno dos mecanismos de silenciamento e invisibiliza&ccedil;&atilde;o dos cuidados e das lutas pela sua regula&ccedil;&atilde;o na esfera formal da pol&iacute;tica, nomeadamente tendo em conta diferentes &laquo;regimes emocionais&raquo; (Dahl, 2017). Finalmente, no contexto dos ativismos contra a precariedade um pouco por toda a europa, coletivos feministas propuseram, no caso do Estado espanhol, um novo termo, &laquo;cuidadan&iacute;a&raquo; (uma cidadania dos cuidados) para interpretar estas disputas. Como escreve Maribel Casas-Cortes (2019), este novo signo altera radicalmente o prefixo da palavra cidadania e, com isso, a sua etimologia: o lugar dianteiro do conceito deixa de ter por base a cidade, cedendo prioridade agora ao reconhecimento dos cuidados como a ra&iacute;z de uma comunidade. Desenha-se, portanto, uma nova conce&ccedil;&atilde;o de cidadania (e de imagina&ccedil;&atilde;o de direitos fundamentais a ela associados) que chama a si a constru&ccedil;&atilde;o coletiva de la&ccedil;os de solidariedade e rela&ccedil;&otilde;es cuidadoras, ou cuidadosas, real&ccedil;ando e reconhecendo a vulnerabilidade da vida humana num contexto de precariedade social crescente, e a import&acirc;ncia do refor&ccedil;o da interdepend&ecirc;ncia como ato disruptivo das l&oacute;gicas atomizadoras neoliberais [<a name="top3" id="top3"></a><a href="#3">3</a>](Gilligan, 2003; Puar, 2012; Tronto, 2013; Lorey, 2015). </p>     <p> A premissa basilar que &eacute; coincidente nos dois movimentos – da &eacute;tica dos cuidados e do ativismo contra a precariedade – assenta na no&ccedil;&atilde;o de relacionalidade; isto &eacute;, inerente &agrave; condi&ccedil;&atilde;o humana est&aacute; a interdepend&ecirc;ncia m&uacute;tua para a satisfa&ccedil;&atilde;o das mais b&aacute;sicas necessidades, &agrave; conquista de &laquo;uma vida que valha a pena ser vivida&raquo;. O reconhecimento desta relacionalidade surge assim como proposta fundamental para uma &eacute;tica &laquo;feminista&raquo; dos cuidados, contrariando a racionalidade econ&oacute;mica de um modelo que desvaloriza as disposi&ccedil;&otilde;es cuidadoras (associadas a uma &laquo;&eacute;tica feminina&raquo;) como uma &laquo;fraqueza moral&raquo;, por oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; independ&ecirc;ncia e &agrave; auto-governa&ccedil;&atilde;o (associadas ao &laquo;masculino&raquo;), que privilegia as conquistas individuais, que despromove a cria&ccedil;&atilde;o de la&ccedil;os afetivos e que prepara mais para &ldquo;uma vida aut&oacute;noma de trabalho [<a name="top4" id="top4"></a><a href="#4">4</a>]&rdquo; do que para &ldquo;uma interdepend&ecirc;ncia de amor e cuidado&rdquo; (Gilligan, 2003: 17, tradu&ccedil;&atilde;o livre). A &eacute;tica dos cuidados ou a luta pela cidadania cuidadora pode ser entendida, deste ponto de vista, como uma pr&aacute;tica de resist&ecirc;ncia, na qual todas as cidad&atilde;s e cidad&atilde;os s&atilde;o simultaneamente cuidadoras/es e receptoras/es de cuidado, sendo esta reciprocidade, interdepend&ecirc;ncia e reconhecimento m&uacute;tuos condi&ccedil;&atilde;o essencial para a constru&ccedil;&atilde;o da igualdade social (Tronto, 2013: 29). &Eacute; tamb&eacute;m ela que, implicitamente, parece permear as mobiliza&ccedil;&otilde;es dos cuidadores e cuidadoras.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <font size="3"><b>Cuidados informais, modelo familialista e pol&iacute;ticas p&uacute;blicas</b></font> </p>     <p> Partindo das tipologias relativas &agrave; configura&ccedil;&atilde;o dos Estados de bem-estar propostas por Esping-Andersen, Pedro Ad&atilde;o e Silva (2002) chama a aten&ccedil;&atilde;o para a especificidade do modelo caracter&iacute;stico dos pa&iacute;ses do Sul da Europa, argumentando pela necessidade de um quarto modelo, para al&eacute;m dos tr&ecirc;s identificados pelo soci&oacute;logo dinamarqu&ecirc;s (corporativo, liberal e social-democr&aacute;tico): o de tipo familialista. Nestes pa&iacute;ses, caracterizados pela cria&ccedil;&atilde;o tardia de um Estado-Social e pela doutrina social do catolicismo, as fam&iacute;lias s&atilde;o chamadas a preencher uma lacuna deixada pela fraca provis&atilde;o de servi&ccedil;os p&uacute;blicos dispon&iacute;veis e acess&iacute;veis &agrave;s mesmas: &eacute; este o modelo de reprodu&ccedil;&atilde;o social &laquo;familialista&raquo; que configura a forma&ccedil;&atilde;o social portuguesa. Em Portugal, este modelo de &ldquo;<i>welfare mix</i> pluralista&rdquo; (Ferreira, 2000) traduz-se numa estrutura&ccedil;&atilde;o da presta&ccedil;&atilde;o de cuidados com uma das menores taxas de cobertura ao n&iacute;vel dos cuidados profissionais (Lopes, 2017), ao mesmo tempo que se estima que 80% dos cuidados sejam prestados por cuidadores informais (Lopes et al, 2017). Entre o papel fundamental exercido pela sociedade-provid&ecirc;ncia (Santos, 1993) e as respostas privadas financiadas pelo Estado, que impulsionou um Terceiro Setor que &eacute; na realidade uma &ldquo;sociedade civil secund&aacute;ria&rdquo; (Santos, 1990), o desenho de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas tem vindo a desenvolver-se, nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, atrav&eacute;s de dois eixos fundamentais (Lopes, 2017). O primeiro diz respeito &agrave;s transfer&ecirc;ncias monet&aacute;rias diretas do Estado para as fam&iacute;lias, como &eacute; o caso do subs&iacute;dio por assist&ecirc;ncia &agrave; terceira pessoa e do complemento por depend&ecirc;ncia. Estas medidas compensat&oacute;rias – destinadas a &ldquo;ajudar as fam&iacute;lias a amparar os custos adicionais&rdquo; por prestarem servi&ccedil;os n&atilde;o remunerados na qualidade de cuidadores principais – s&atilde;o, contudo, t&atilde;o reduzidas que servem essencialmente para acudir a situa&ccedil;&otilde;es de pobreza e car&ecirc;ncia econ&oacute;mica. O segundo pilar assenta na provis&atilde;o de cuidados pelos servi&ccedil;os p&uacute;blicos (o Servi&ccedil;o Nacional de Sa&uacute;de, particularmente no &acirc;mbito dos cuidados de sa&uacute;de prim&aacute;rios e das equipas de cuidados na comunidade) ou pelo setor semi-privado de cuidados, protagonizado pelas Institui&ccedil;&otilde;es Privadas de Solidariedade Social (IPSSs) – com as quais o Estado celebra acordos de coopera&ccedil;&atilde;o, atrav&eacute;s dos quais financia as entidades que det&ecirc;m e gerem os equipamentos e as respostas, e no qual assenta a Rede de Servi&ccedil;os e Equipamentos Sociais (RSES). Esta resposta, na qual o Estado aparece essencialmente como co-financiador (a par das fam&iacute;lias, que pagam tamb&eacute;m uma comparticipa&ccedil;&atilde;o) tem um peso relevante no Or&ccedil;amento do Minist&eacute;rio do Trabalho, da Solidariedade e da Seguran&ccedil;a Social: em 2019, estes acordos de coopera&ccedil;&atilde;o entre o Estado e estas entidades do setor social privado correspondiam a 1.531,7 milh&otilde;es de euros. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Ora, o movimento dos cuidadores e das cuidadoras informais procurou inscrever na agenda pol&iacute;tica n&atilde;o apenas o reconhecimento do seu papel na ecologia dos cuidados (Nunes, 2019), mas tamb&eacute;m uma reflex&atilde;o sobre a insufici&ecirc;ncia ao n&iacute;vel daquele primeiro eixo da resposta p&uacute;blica, isto &eacute;, das transfer&ecirc;ncias diretas &agrave;s fam&iacute;lias pela presta&ccedil;&atilde;o n&atilde;o-remunerada de cuidados ou aos indiv&iacute;duos pelas situa&ccedil;&otilde;es de depend&ecirc;ncia; e um questionamento da forma como esses apoios se articulam, ou contrastam, com o investimento p&uacute;blico nos cuidados formais, sobretudo aqueles que s&atilde;o providos pelo setor particular e solid&aacute;rio, chamando a aten&ccedil;&atilde;o para o que consideravam ser uma discrep&acirc;ncia entre o financiamento das respostas de institucionaliza&ccedil;&atilde;o, por compara&ccedil;&atilde;o com a aposta na domicilia&ccedil;&atilde;o e no apoio direto aos cuidadores informais. </p>     <p> Considerando os documentos internacionais e as diretivas europeias produzidas na &uacute;ltima d&eacute;cada, &eacute; indiscut&iacute;vel que o debate p&uacute;blico sobre os cuidados informais n&atilde;o come&ccedil;ou quando, em 2016, apareceram em Portugal as primeiras manifesta&ccedil;&otilde;es de uma auto-organiza&ccedil;&atilde;o dos cuidadores e das cuidadoras. De facto, e s&oacute; para assinalar alguns exemplos, o relat&oacute;rio da Comiss&atilde;o Europeia <i>Caring and Post Caring in Europe</i> (CE, 2010) assinalava no in&iacute;cio da d&eacute;cada existirem 9,6 milh&otilde;es de fam&iacute;lias que proporcionam 35 horas ou mais de cuidados semanais. Em 2011, o Parlamento Europeu aprovou um Relat&oacute;rio que convidava &ldquo;os Estados-Membros a valorizar e reconhecer o papel dos cuidados informais prestados pelos membros da fam&iacute;lia&rdquo; [<a name="top5" id="top5"></a><a href="#5">5</a>]. Tamb&eacute;m na ONU, o valor das atividades cuidadoras n&atilde;o remuneradas era explicitamente reconhecido pelo Relat&oacute;rio do Secret&aacute;rio-Geral em 2016. A rede EuroCarers, e a Associa&ccedil;&atilde;o &laquo;Cuidadores Portugal&raquo; nela integrada, vinha insistindo, desde 2015, na necessidade de respostas para os cuidadores informais, quer atrav&eacute;s da press&atilde;o junto dos decisores europeus, quer das institui&ccedil;&otilde;es portuguesas. Contudo, s&oacute; muito recentemente esta tem&aacute;tica foi objeto, quer a n&iacute;vel europeu, quer a n&iacute;vel internacional, de documentos e relat&oacute;rios que produziram uma abordagem mais compreensiva do fen&oacute;meno, concretamente atrav&eacute;s do estudo &laquo;Informal care in Europe. Exploring Formalisation, Availability and Quality&raquo;, promovido pela Comiss&atilde;o Europeia em abril de 2018 e, em junho desse mesmo ano, do relat&oacute;rio <i>Care work and care jobs for the future of decent work</i>, da autoria da Organiza&ccedil;&atilde;o Internacional do Trabalho. Em Portugal, a centralidade do debate n&atilde;o pode ser desligada da emerg&ecirc;ncia do pr&oacute;prio movimento que aqui procuramos retratar.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <font size="3"><b>Quantos s&atilde;o os cuidadores e as cuidadoras informais em Portugal?</b></font> </p>     <p> Em 2014, o Inqu&eacute;rito Nacional de Sa&uacute;de estimava que existiam, aproximadamente, 1,1 milh&otilde;es de pessoas &ldquo;com 15 ou mais anos [que] prestava[m] assist&ecirc;ncia ou cuidados informais a outras pessoas que tinham problemas de sa&uacute;de ou relacionados com a velhice&rdquo;. Daquelas, &ldquo;mais de 85% (948 mil) prestava esses cuidados sobretudo a familiares&rdquo; [<a name="top6" id="top6"></a><a href="#6">6</a>], e 470 mil dedicam-se a estes mais de dez horas por semana. Mas o que &eacute; facto &eacute; que a verdadeira dimens&atilde;o dos cuidadores informais permanece, ainda hoje, relativamente desconhecida no que ao nosso pa&iacute;s diz respeito. Os dados dispon&iacute;veis resultam, essencialmente, a partir de quatro fontes. </p>     <p> Por um lado, de extrapola&ccedil;&otilde;es a partir de estudos noutros pa&iacute;ses. &Eacute; o caso, por exemplo, dos n&uacute;meros avan&ccedil;ados pela Eurocarers (Alves, 2015; Goodwin, 2017), que apontam para a exist&ecirc;ncia de cerca de 8% de cuidadores informais entre o total da popula&ccedil;&atilde;o (o que significaria um valor absoluto na ordem dos 800 mil cuidadores em Portugal) e de cerca de 25% de cuidadores &ldquo;a tempo inteiro&rdquo; dentro do total das pessoas que prestam cuidados (o que corresponderia a cerca de 200 mil no nosso pa&iacute;s). Estima-se que 80% dos cuidados em Portugal sejam prestados por n&atilde;o-profissionais e, destes, a maioria por mulheres [<a name="top7" id="top7"></a><a href="#7">7</a>]. &Eacute; o caso, tamb&eacute;m, das proje&ccedil;&otilde;es da Comiss&atilde;o Europeia, a partir do Inqu&eacute;rito &agrave; Qualidade de Vida de 2016, o qual, tomando o crit&eacute;rio da presta&ccedil;&atilde;o de cuidados &ldquo;uma ou mais vezes por semana&rdquo;, situa essa percentagem em 13% da popula&ccedil;&atilde;o total e em 3,6% entre os trabalhadores assalariados (CE, 2018: 19- 21). </p>     <p> Por outro lado, &eacute; poss&iacute;vel tentar estimar o n&uacute;mero de cuidadores informais a partir de uma realidade relacionada: o n&uacute;mero de pessoas dependentes. De acordo com o Observat&oacute;rio Portugu&ecirc;s dos Sistemas de Sa&uacute;de (OPSS, 2015: 38), existiam em 2015 cerca de 110.355 pessoas dependentes no autocuidado no domic&iacute;lio, das quais 48.500 estariam acamadas. </p>     <p> O mesmo tipo de condi&ccedil;&atilde;o poder&aacute; ser calculada tomando por refer&ecirc;ncia as presta&ccedil;&otilde;es sociais destinadas a pessoas dependentes. O Complemento por depend&ecirc;ncia, &ldquo;uma presta&ccedil;&atilde;o em dinheiro dada aos pensionistas que se encontram numa situa&ccedil;&atilde;o de depend&ecirc;ncia e que precisam da ajuda de outra pessoa para satisfazer as necessidades b&aacute;sicas da vida quotidiana&rdquo; (ISS, 2019: 4) &eacute; atribu&iacute;do em Portugal a cerca de 220 mil pessoas, distribu&iacute;das pelo complemento por depend&ecirc;ncia de primeiro grau (atribu&iacute;do a &ldquo;pessoas sem autonomia para satisfazer as necessidades b&aacute;sicas da vida quotidiana&rdquo;), de que eram benefici&aacute;rios, em janeiro de 2020, 178.895 indiv&iacute;duos e pelo complemento por depend&ecirc;ncia de segundo grau (destinado a pessoas que, al&eacute;m da depend&ecirc;ncia de 1.&ordm; grau, se encontrem acamadas ou com dem&ecirc;ncia grave), que abrangia, no mesmo per&iacute;odo, 40.733 benefici&aacute;rios. A estes n&uacute;meros de pensionistas dependentes pode somar-se o das pessoas a quem &eacute; atribu&iacute;do o Subs&iacute;dio por assist&ecirc;ncia de terceira pessoa (uma presta&ccedil;&atilde;o mensal para compensar as fam&iacute;lias com descendentes, a receber abono de fam&iacute;lia com bonifica&ccedil;&atilde;o por defici&ecirc;ncia, que estejam em situa&ccedil;&atilde;o de depend&ecirc;ncia e que necessitem do acompanhamento permanente), que totalizavam, em finais de 2019, cerca de 13 mil pessoas. </p>     <p> Contudo, para l&aacute; de um conhecimento quantitativo mais rigoroso do fen&oacute;meno, ainda por realizar, o que constituiu novidade nos &uacute;ltimos anos n&atilde;o foi apenas uma desclandestiniza&ccedil;&atilde;o estat&iacute;stica dos cuidadores informais de pessoas dependentes. Foi sobretudo a emerg&ecirc;ncia, pela primeira vez, de uma voz pr&oacute;pria organizada dos cuidadores e cuidadoras informais, que fez com que estes deixassem de ser apenas falados para tomarem, tamb&eacute;m eles e elas, a palavra no debate. </p>     <p>&nbsp; </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>Do espa&ccedil;o <i>online</i> aos Encontros Nacionais: da auto-ajuda &agrave; cria&ccedil;&atilde;o de um sujeito pol&iacute;tico</b></font> </p>     <p> &ldquo;Decorria o ano de 2015, quando eu, o Joaquim Ribeiro e a Anabela Lima come&ccedil;&aacute;mos a comunicar entre n&oacute;s atrav&eacute;s das redes sociais. Os tr&ecirc;s cuid&aacute;vamos de familiares com dem&ecirc;ncia e partilh&aacute;vamos a necessidade de obter informa&ccedil;&atilde;o e estrat&eacute;gias para melhor cuidar. Sent&iacute;amo-nos frustrados e indignados com a escassez de forma&ccedil;&atilde;o e informa&ccedil;&atilde;o prestada. Consider&aacute;vamos uma profunda injusti&ccedil;a os cuidadores serem abandonados &agrave; sua sorte, sem lhes ser reconhecida a carreira contributiva, direitos laborais ou apoio psicossocial.&rdquo; [<a name="top8" id="top8"></a><a href="#8">8</a>] </p>     <p> O relato &eacute; de Sofia Figueiredo, que viria a ser, pouco mais de dois anos depois, a primeira presidente da Associa&ccedil;&atilde;o Nacional de Cuidadores Informais. Passados poucos meses das primeiras conversas, decorria a campanha para as elei&ccedil;&otilde;es presidenciais e Joaquim Ribeiro, um dos tr&ecirc;s cuidadores que partilhavam inquieta&ccedil;&otilde;es atrav&eacute;s das redes sociais, telefona para um f&oacute;rum da TSF no qual interv&eacute;m uma das candidatas &agrave; presid&ecirc;ncia, a eurodeputada Marisa Matias. &ldquo;O Joaquim telefonou para l&aacute; e perguntou-lhe que pol&iacute;ticas pretendia adotar relativamente aos cuidadores&rdquo;, explica Sofia. &ldquo;No final do programa, a Marisa Matias informou que tinha sido a relatora da Estrat&eacute;gia Europeia de combate ao Alzheimer e outras dem&ecirc;ncias&rdquo;. Sofia Figueiredo, cuidadora da av&oacute; com Alzheimer, aproveitou a deixa e contactou a candidata por e-mail. Combinaram que iriam conhecer-se pessoalmente &agrave; margem de uma iniciativa p&uacute;blica da campanha, em Almada. &ldquo;Propus-lhe organizar um Encontro de cuidadores e ela aceitou&rdquo;. </p>     <p> O Encontro Nacional aconteceria em julho daquele ano em Lisboa, no Audit&oacute;rio Cardeal Cerejeira, da Universidade Cat&oacute;lica de Lisboa. Os contactos e a divulga&ccedil;&atilde;o foram feitos essencialmente atrav&eacute;s dos grupos de Facebook que, h&aacute; alguns anos, vinham sendo criados. Na realidade, os cuidadores e cuidadoras que se encontrariam em Lisboa naquele ver&atilde;o n&atilde;o se conheciam a n&atilde;o ser do espa&ccedil;o virtual. Num contexto em que eram escassas as informa&ccedil;&otilde;es sobre o tipo de apoios de que podiam beneficiar, em que a capacita&ccedil;&atilde;o para os cuidados parecia ser uma tarefa sob a responsabilidade exclusiva dos pr&oacute;prios e em que a maior parte dos cuidadores tinha grande dificuldade em deslocar-se e em dispor de tempo para sair de casa, foram esses grupos nas redes sociais que criaram os primeiros espa&ccedil;os de sociabilidade, assente essencialmente na troca de informa&ccedil;&otilde;es e de &laquo;dicas&raquo; sobre como lidar com as patologias, em desabafos sobre o cansa&ccedil;o e as dificuldades e numa din&acirc;mica pr&oacute;xima de grupos de auto-ajuda. Mas foram tamb&eacute;m esses grupos que, involuntariamente, foram forjando os mecanismos de identifica&ccedil;&atilde;o e o embri&atilde;o do que poderia chamar-se uma &laquo;consci&ecirc;ncia coletiva&raquo; dos cuidadores e das cuidadoras, que viria depois a ganhar corpo, nos anos seguintes, num processo de subjetiva&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica. </p>     <p> O 1&ordm; Encontro Nacional de Cuidadores Informais de Alzheimer e Dem&ecirc;ncias Similares, para o qual foi endere&ccedil;ado um convite a todos os partidos pol&iacute;ticos com representa&ccedil;&atilde;o parlamentar, teve a participa&ccedil;&atilde;o de 220 pessoas. Para al&eacute;m de dezenas de testemunhos de cuidadores e cuidadoras, que se iam reconhecendo nos relatos uns dos outros, destacou-se a necessidade de lutar pela cria&ccedil;&atilde;o de um Estatuto do Cuidador Informal (ECI) capaz de dar resposta, ao n&iacute;vel das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, a muitas das necessidades identificadas. </p>     <p> Do encontro saiu ent&atilde;o uma comiss&atilde;o respons&aacute;vel pela reda&ccedil;&atilde;o de uma peti&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica, dirigida ao Governo e ao Parlamento, que seria colocada <i>online</i> no in&iacute;cio de agosto de 2016. [<a name="top9" id="top9"></a><a href="#9">9</a>] Ao longo de catorze pontos, a peti&ccedil;&atilde;o dos Cuidadores Informais de Alzheimer e outras dem&ecirc;ncias exp&ocirc;s a sua lista de reivindica&ccedil;&otilde;es, na qual surgia em primeiro lugar a cria&ccedil;&atilde;o do ECI, para que se reconhecesse &ldquo;social e juridicamente a condi&ccedil;&atilde;o de cuidar, assegurando os direitos e as necessidades espec&iacute;ficas do/a cuidador/a&rdquo;. Ao n&iacute;vel dos apoios sociais, a peti&ccedil;&atilde;o exigiu: o apoio &agrave; terceira pessoa para estes/as cuidadores/as e atribui&ccedil;&atilde;o do subs&iacute;dio por morte da pessoa cuidada, bem como a cria&ccedil;&atilde;o de dedu&ccedil;&otilde;es fiscais. Ao n&iacute;vel de apoio psicossocial, sugeriu-se a divulga&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&atilde;o e promo&ccedil;&atilde;o da forma&ccedil;&atilde;o, psicoeduca&ccedil;&atilde;o e aconselhamento para quem cuida, mediante a cria&ccedil;&atilde;o de estruturas de acompanhamento, do fomento de grupos de entreajuda e da cria&ccedil;&atilde;o de equipas de interven&ccedil;&atilde;o neste sentido; o refor&ccedil;o da Rede Nacional de Cuidados Continuados para estes efeitos e para o descanso do/a cuidador/a. Ao n&iacute;vel laboral, as exig&ecirc;ncias fixaram-se na redu&ccedil;&atilde;o de hor&aacute;rio laboral para 50% da jornada, sem perda de vencimento, bem como a contabiliza&ccedil;&atilde;o do tempo dedicado ao servi&ccedil;o de cuidados informais para efeitos de c&aacute;lculo da reforma. Seria apenas o in&iacute;cio de um percurso. </p>     <p> A evolu&ccedil;&atilde;o cronol&oacute;gica do processo de mobiliza&ccedil;&atilde;o iniciado pelos cuidadores e pelas cuidadoras informais [<a name="top10" id="top10"></a><a href="#10">10</a>] que dinamizaram aquela peti&ccedil;&atilde;o pode encontrar-se na <a href="#q1">tabela seguinte</a>. Ela documenta a evolu&ccedil;&atilde;o da trajet&oacute;ria deste assunto e deste movimento na agenda social e pol&iacute;tica entre 2016 e 2020. </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="q1" id="q1"></a><img src="/img/revistas/cct/n40/n40a06q1.jpg"/>     
<p>&nbsp;</p>     <p> Como demonstra a cronologia dos acontecimentos, o Encontro Nacional decorrido em Lisboa foi o in&iacute;cio da cria&ccedil;&atilde;o de uma rede e de uma articula&ccedil;&atilde;o entre pessoas que, at&eacute; ent&atilde;o, nem sequer se auto-designavam como cuidadoras. Provou tamb&eacute;m o potencial de mobiliza&ccedil;&atilde;o em torno dessa categoria. Ao colocarem-se como objetivo a dinamiza&ccedil;&atilde;o de uma peti&ccedil;&atilde;o, os seus organizadores e organizadoras estavam ainda a dar in&iacute;cio a um processo que os obrigou a traduzir politicamente a sua condi&ccedil;&atilde;o, a formular um conjunto de exig&ecirc;ncias que cimentavam uma agenda comum e que faziam com que, de uma experi&ecirc;ncia vivida a partir de um posi&ccedil;&atilde;o de isolamento, pudesse nascer uma subjetividade de luta que identificava simultaneamente os interesses comuns daqueles cuidadores e um interlocutor para eles – o Estado. Do ciberespa&ccedil;o como lugar de encontro e de partilha, emergiu ent&atilde;o um &laquo;espa&ccedil;o p&uacute;blico h&iacute;brido&raquo; (Castells, 2012), feito da comunica&ccedil;&atilde;o <i>online</i> mas tamb&eacute;m, a partir daquele momento, de convocat&oacute;rias para encontros presenciais que seriam marcados pelo ritmo do processo pol&iacute;tico que acabava de ser lan&ccedil;ado com aquela iniciativa. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp; </p>     <p><font size="3"><b>A constru&ccedil;&atilde;o dos cuidadores informais como um problema p&uacute;blico</b></font></p>     <p> A constru&ccedil;&atilde;o de uma realidade como um problema p&uacute;blico &eacute; tudo menos natural ou espont&acirc;nea. Com efeito, ela remete para um processo atrav&eacute;s do qual um dado problema social, muitas vezes latente ou experienciado num registo privado e de sofrimento individual, adquire uma dimens&atilde;o p&uacute;blica, em consequ&ecirc;ncia das m&uacute;ltiplas formas de investimento social e de mobiliza&ccedil;&atilde;o coletiva de diferentes atores (Henry, 2009). Para isso contribuiu a estrutura&ccedil;&atilde;o de um campo militante em torno do fen&oacute;meno dos cuidados e a capacidade de &laquo;marcar a agenda&raquo; do debate p&uacute;blico, isto &eacute;, de criar um processo de visibilidade p&uacute;blica daquele problema social por via da sua inscri&ccedil;&atilde;o no espa&ccedil;o medi&aacute;tico e nas preocupa&ccedil;&otilde;es dos agentes pol&iacute;ticos. </p>     <p> Na sequ&ecirc;ncia do primeiro Encontro Nacional, h&aacute; uma clara orienta&ccedil;&atilde;o, por parte dos cuidadores e cuidadoras, de introduzir a sua causa no espa&ccedil;o p&uacute;blico, recorrendo desde logo a duas inst&acirc;ncias de media&ccedil;&atilde;o determinantes para o efeito: a comunica&ccedil;&atilde;o social e o poder pol&iacute;tico. Essa opera&ccedil;&atilde;o constituiu, de algum modo, a primeira forma de reconhecimento pela qual o movimento dos cuidadores e cuidadoras lutou: afirmar a exist&ecirc;ncia de uma categoria de pessoas cuja experi&ecirc;ncia era preciso tornar vis&iacute;vel e, consequentemente, garantir uma aten&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica por parte dos <i>media</i> que fosse tamb&eacute;m uma forma de press&atilde;o para que o Estado se sentisse na obriga&ccedil;&atilde;o de desenhar respostas pol&iacute;ticas para esse problema. </p>     <p> A realidade dos cuidadores informais foi assim suscitando – sobretudo na sequ&ecirc;ncia da entrega da peti&ccedil;&atilde;o e da emerg&ecirc;ncia de um interlocutor capaz de representar este fen&oacute;meno publicamente na primeira pessoa – um interesse crescente por parte da comunica&ccedil;&atilde;o social. Desde o in&iacute;cio, os<i> media</i> foram identificados pelos cuidadores como um aliado potencial e a aten&ccedil;&atilde;o dedicada aos seus problemas beneficiou tamb&eacute;m do &laquo;efeito novidade&raquo;, que permitiu ampliar o impacto das suas a&ccedil;&otilde;es. Buscando os casos que podiam dar rosto &agrave; experi&ecirc;ncia dos cuidadores, a cobertura das a&ccedil;&otilde;es promovidas pelo grupo de peticion&aacute;rios assentou no resgate dessas hist&oacute;rias, raz&atilde;o pela qual, mais at&eacute; do que uma abordagem feita a partir das sec&ccedil;&otilde;es de pol&iacute;tica, os cuidadores e cuidadoras informais come&ccedil;aram a ser chamados para dar o seu testemunhos em programas classificados como de &laquo;entretenimento&raquo; ou <i>talk-shows</i> generalistas [<a name="top11" id="top11"></a><a href="#11">11</a>]. Esse espa&ccedil;o medi&aacute;tico contribuiu para trazer para a esfera p&uacute;blica as narrativas biogr&aacute;ficas de pessoas que, para utilizar um dos t&iacute;tulos das v&aacute;rias reportagens sobre o tema, foram durante muito tempo &ldquo;consideradas figuras clandestinas para o governo&rdquo;. [<a name="top12" id="top12"></a><a href="#12">12</a>] </p>     <p> &Eacute; imposs&iacute;vel compreender a afirma&ccedil;&atilde;o e o espa&ccedil;o conquistado pelo movimento dos cuidadores sem ter em conta, tamb&eacute;m, a &ldquo;estrutura de oportunidades pol&iacute;ticas&rdquo; (McAdam, 1982) em que ele se desenvolveu, isto &eacute;, o ambiente pol&iacute;tico externo no qual ele operou, a rela&ccedil;&atilde;o que estabeleceu com os agentes institucionais, designadamente os partidos pol&iacute;ticos e o Presidente da Rep&uacute;blica, a posi&ccedil;&atilde;o estrat&eacute;gica dos aliados que foi capaz de conquistar e a conjuntura pol&iacute;tica em que se dinamizou, na qual a pr&oacute;pria Assembleia da Rep&uacute;blica, pela natureza da distribui&ccedil;&atilde;o de mandatos e da solu&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica encontrada entre 2015 e 2019 (um Governo minorit&aacute;rio, sustentado em acordos parlamentares), teve uma grande centralidade. Com efeito, o movimento dos cuidadores e cuidadoras parece ter gerado um aparente consenso sobre a pertin&ecirc;ncia das suas reivindica&ccedil;&otilde;es, facto ao qual uma certa predisposi&ccedil;&atilde;o familialista da sociedade portuguesa, aliada ao &laquo;apadrinhamento&raquo; da causa pela Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica, n&atilde;o ser&atilde;o alheios. </p>     <p>&nbsp; </p>     <p><font size="3"><b>Uma gal&aacute;xia de coletivos e uma ampla pol&iacute;tica de alian&ccedil;as</b></font></p>     <p> A estrutura&ccedil;&atilde;o de um campo de organiza&ccedil;&otilde;es e coletivos informais de cuidadores e cuidadoras foi um processo que resultou de uma crescente intera&ccedil;&atilde;o entre diferentes grupos, representativos de v&aacute;rias das facetas da realidade dos cuidados informais. Apesar de o processo pol&iacute;tico-legislativo ter sido impulsionado por uma peti&ccedil;&atilde;o organizada por cuidadoras e cuidadores informais de doentes com Alzheimer e outras dem&ecirc;ncias, rapidamente a reivindica&ccedil;&atilde;o de um Estatuto foi acolhida por uma mir&iacute;ade de outros grupos, que a tomaram tamb&eacute;m como sua. Esta gal&aacute;xia de organiza&ccedil;&otilde;es, com diversos graus de formaliza&ccedil;&atilde;o e de hist&oacute;ria passada, acabou por envolver-se no debate legislativo e por tecer, a partir dessa participa&ccedil;&atilde;o, alian&ccedil;as importantes de geometria vari&aacute;vel. </p>     <p> Na audi&ccedil;&atilde;o realizada no Parlamento no dia 15 de junho de 2018, no &acirc;mbito da aprecia&ccedil;&atilde;o dos projetos de lei do Bloco de Esquerda, do PCP, e dos projetos de resolu&ccedil;&atilde;o do CDS e do PAN, estiveram presentes entidades associadas &agrave;s v&aacute;rias realidades dos cuidados informais. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Os promotores da peti&ccedil;&atilde;o inicial encontravam-se sobretudo distribu&iacute;dos por tr&ecirc;s grupos: a Associa&ccedil;&atilde;o Nacional de Cuidadores Informais (ANCI), o grupo &laquo;Peticion&aacute;rios da peti&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica pela Cria&ccedil;&atilde;o de um Estatuto do Cuidador Informal da Pessoa com Alzheimer&raquo; e o Grupo de Facebook &laquo;Estatuto do Cuidador Informal J&aacute;&raquo;. Da &aacute;rea das doen&ccedil;as neurodegenerativas, das dem&ecirc;ncias e do envelhecimento precoce marcaram presen&ccedil;a as associa&ccedil;&otilde;es Alzheimer Portugal e Agir no Tempo. Pelas organiza&ccedil;&otilde;es relacionadas com o envelhecimento e os direitos das pessoas idosas estiveram a APRe! - Aposentados, Pensionistas e Reformados, o MURPI - Confedera&ccedil;&atilde;o Nacional de Reformados, Pensionistas e Idosos, o MODERP – Movimento Democr&aacute;tico de Reformados e Pensionistas (ligado &agrave; UGT) e a Inter-Reformados (ligada &agrave; CGTP). A estes juntaram-se ainda um conjunto de organiza&ccedil;&otilde;es do universo da defici&ecirc;ncia, como o Me-CDPD – Mecanismo Nacional para a Monitoriza&ccedil;&atilde;o da Implementa&ccedil;&atilde;o da Conven&ccedil;&atilde;o sobre os Direitos das Pessoas com Defici&ecirc;ncia, a Associa&ccedil;&atilde;o Portuguesa de Deficientes e a Humanitas – Federa&ccedil;&atilde;o Portuguesa para a Defici&ecirc;ncia Mental. </p>     <p> Por &uacute;ltimo, &eacute; importante referir a presen&ccedil;a um dos setores que mais se mobilizou neste processo e cujos testemunhos acabaram por ter uma grande repercuss&atilde;o: o das fam&iacute;lias de crian&ccedil;as com defici&ecirc;ncia, presentes por via da Associa&ccedil;&atilde;o Pais em Rede, da Acreditar – Associa&ccedil;&atilde;o de Pais e Amigos de Crian&ccedil;as com Cancro, do grupo informal &laquo;O c&eacute;u &eacute; o limite&raquo;, do movimento &laquo;Filhos sem Voz&raquo; e da Familiarmente – Federa&ccedil;&atilde;o Portuguesa das Associa&ccedil;&otilde;es das Fam&iacute;lias de Pessoas com Experi&ecirc;ncia de Doen&ccedil;a Mental. Presentes estiveram ainda a Plataforma Sa&uacute;de em Di&aacute;logo e a associa&ccedil;&atilde;o Cuidadores Portugal. </p>     <p> Apesar da especificidade de cada abordagem e de preocupa&ccedil;&otilde;es e experi&ecirc;ncias distintas, as mobiliza&ccedil;&otilde;es dos cuidadores acabaram por conseguir unificar estas dimens&otilde;es dos cuidados informais em palavras de ordem com as quais todos podiam identificar-se. &ldquo;O que &eacute; que n&oacute;s somos? Cuidadores! O que &eacute; que n&oacute;s queremos? Dignidade!", gritou-se, por exemplo, na primeira manifesta&ccedil;&atilde;o, em setembro de 2017. &ldquo;Justi&ccedil;a pelo Estatuto do cuidador informal&rdquo;- resumia um dos cartazes do movimento. </p>     <p> Nesta fase inicial, de facto, do que se tratava era essencialmente de retirar esta realidade da invisibilidade e de uma certa clandestinidade legal, atrav&eacute;s de reivindica&ccedil;&otilde;es que, no fundo, articulavam, para utilizar as categorias de Nancy Fraser (2018), a luta pelo reconhecimento (de um segmento da popula&ccedil;&atilde;o cujo trabalho n&atilde;o era identificado enquanto tal e que, at&eacute; ali, n&atilde;o tinha acesso a formas de representa&ccedil;&atilde;o coletiva dos seus interesses enquanto cuidadores) com a luta pela redistribui&ccedil;&atilde;o (isto &eacute;, por um conjunto de pol&iacute;ticas sociais capazes de valorizar esse trabalho dos cuidados informais e de o tomar como plataforma de acesso a direitos e a prote&ccedil;&atilde;o social). </p>     <p> Esta articula&ccedil;&atilde;o entre reconhecimento e redistribui&ccedil;&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel de verificar analisando as inscri&ccedil;&otilde;es das pancartas e dos cartazes – todos eles fabricados manualmente – que os cuidadores e cuidadoras envergavam na concentra&ccedil;&atilde;o convocada pela Associa&ccedil;&atilde;o Nacional de Cuidadores Informais frente ao Parlamento, &agrave; qual se juntaram outros grupos informais, no dia em que os projetos de lei dos partidos e a proposta de lei do Governo foram debatidos no plen&aacute;rio da Assembleia da Rep&uacute;blica (tendo acabado por baixar ao debate na especialidade). Nesse dia 8 de mar&ccedil;o de 2019, podia ler-se nos cartazes: &ldquo;Basta de ignorarem, os Cuidadores existem&rdquo;, &ldquo;Os cuidadores informais trabalham 24 horas, 365 dias por ano! Respeito&rdquo;, &ldquo;Os Cuidadores exigem dignidade. Queremos o Estatuto do Cuidador aprovado&rdquo;. </p>     <p> Nessa iniciativa, era poss&iacute;vel perceber como o Estado se tornara j&aacute; o principal interlocutor em rela&ccedil;&atilde;o ao qual os cuidadores faziam as suas exig&ecirc;ncias, apontando-se a inexist&ecirc;ncia de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas especificamente dirigidas a este grupo social: &ldquo;N&atilde;o existe vontade pol&iacute;tica para apoiar os cuidadores informais. A culpa &eacute; do Governo&rdquo;, &ldquo;Srs. Pol&iacute;ticos: sabem quantos cuidadores existem em Portugal sem qualquer apoio do Estado?&rdquo;. Por outro lado, os materiais que os cuidadores e as cuidadoras carregavam nessa concentra&ccedil;&atilde;o exprimiam tamb&eacute;m a dualidade e a ambival&ecirc;ncia que atravessa a sua condi&ccedil;&atilde;o (C&egrave;s et al, 2019: 10-11), vivida frequentemente na tens&atilde;o entre um <i>ethos</i> associado &agrave; d&aacute;diva afetiva (&ldquo;S&oacute; pedimos dignidade e condi&ccedil;&otilde;es para cuidar com amor&rdquo;) e a constata&ccedil;&atilde;o das consequ&ecirc;ncias negativas que o exerc&iacute;cio dessa atividade de um modo coercivo tem para aqueles e aquelas que a desempenham sem qualquer tipo de apoio e de enquadramento (&ldquo;Devido ao stress e &agrave; exaust&atilde;o muitos cuidadores encontram-se de baixa m&eacute;dica! Precisamos de ajuda!&rdquo;). Simbolicamente, em mais do que uma destas a&ccedil;&otilde;es, foram colocadas no espa&ccedil;o p&uacute;blico silhuetas de figuras humanas feitas em cart&atilde;o, simbolizando aqueles e aquelas que n&atilde;o estavam presentes, precisamente, pela sua condi&ccedil;&atilde;o de cuidadores informais a tempo inteiro. </p>     <p> As alian&ccedil;as estabelecidas n&atilde;o se circunscreveram ao universo de associa&ccedil;&otilde;es e grupos informais relacionados com a quest&atilde;o da depend&ecirc;ncia, do envelhecimento, da defici&ecirc;ncia e dos cuidados. Destacam-se, a esse n&iacute;vel, os contactos estabelecidos com dois intervenentes pol&iacute;ticos. A liga&ccedil;&atilde;o inicial estabelecida com a eurodeputada Marisa Matias, vice-presidente da Alian&ccedil;a Alzheimer Europeia, que tinha sido autora do relat&oacute;rio sobre a iniciativa europeia em mat&eacute;ria de doen&ccedil;a de Alzheimer, aprovada em 2011 no Parlamento Europeu com uma larga maioria de votos (646 a favor, 6 contra e 6 absten&ccedil;&otilde;es), no qual se instava ao reconhecimento &ldquo;do papel dos cuidados informais prestados pelos membros da fam&iacute;lia das pessoas afectadas por estas patologias&rdquo;. E a rela&ccedil;&atilde;o estabelecida com o Presidente da Rep&uacute;blica, que participou no 2&ordm; Encontro Nacional de Cuidadores de Alzheimer e Dem&ecirc;ncias Similares, realizado no Semin&aacute;rio de Vilar, no Porto. Desde esse momento, em que manifestou publicamente o seu apoio &agrave; causa dos cuidadores e &agrave; aprova&ccedil;&atilde;o, em Portugal, de um Estatuto, o Presidente constituiu-se como um interlocutor privilegiado do movimento dos cuidadores e das cuidadoras informais. Com efeito, marcou presen&ccedil;a num terceiro encontro, realizado em Vila Nova de Cerveira a 8 de setembro de 2018, onde fez a interven&ccedil;&atilde;o de encerramento, na qual reiterou o seu compromisso com a luta dos cuidadores. [<a name="top13" id="top13"></a><a href="#13">13</a>] A 5 de novembro desse ano, a Presid&ecirc;ncia assinalou publicamente o Dia do Cuidador, com um comunicado em que apelava a que fossem vencidos os &ldquo;preconceitos e obst&aacute;culos institucionais &agrave; cria&ccedil;&atilde;o do Estatuto do Cuidador Informal&rdquo; [<a name="top14" id="top14"></a><a href="#14">14</a>] e, em fevereiro de 2019, em parceria com a Associa&ccedil;&atilde;o Nacional de Cuidadores Informais, promoveu um encontro p&uacute;blico, no Pal&aacute;cio de Bel&eacute;m, com cerca de 50 cuidadores e cuidadoras informais de todo o pa&iacute;s, insistindo na urg&ecirc;ncia de um Estatuto. </p>     <p> Nesse ano de 2019, a Associa&ccedil;&atilde;o Nacional de Cuidadores Informais, cuja constitui&ccedil;&atilde;o formal havia acontecido no ver&atilde;o de 2018, aglutinando elementos dos v&aacute;rios grupos informais criados at&eacute; ent&atilde;o, fez uma ronda de contactos por todos os partidos parlamentares e logrou constituir-se como a entidade que assumia a interlocu&ccedil;&atilde;o institucional e p&uacute;blica da experi&ecirc;ncia e das reivindica&ccedil;&otilde;es dos cuidadores informais. A capacidade de di&aacute;logo que foi sendo constru&iacute;da quer com os agentes pol&iacute;ticos, quer com os media, foi um fator que potenciou a constru&ccedil;&atilde;o da causa e ampliou o espa&ccedil;o que ela conquistou no debate p&uacute;blico. </p>     <p>&nbsp; </p>     <p><font size="3"><b>Um repert&oacute;rio de a&ccedil;&atilde;o ecl&eacute;tico e a import&acirc;ncia do testemunho biogr&aacute;fico</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> O repert&oacute;rio de a&ccedil;&atilde;o dos cuidadores informais neste per&iacute;odo foi variado, combinando os formatos mais recorrentes dos movimentos sociais. Entre setembro de 2017 e mar&ccedil;o de 2019 foram realizadas quatro concentra&ccedil;&otilde;es em frente ao Parlamento (a 20 de setembro de 2017, a 16 de mar&ccedil;o de 2018, a 23 de mar&ccedil;o de 2018 e a 8 de mar&ccedil;o de 2019). Estas a&ccedil;&otilde;es foram marcadas por uma diversidade crescente do tipo de cuidadores representados, com uma presen&ccedil;a cada vez mais forte dos pais e m&atilde;es de crian&ccedil;as com defici&ecirc;ncia, que foram ganhando proemin&ecirc;ncia no movimento. Notava-se, por outro lado, uma discrep&acirc;ncia entre o n&uacute;mero reduzido de pessoas presentes (realidade assumida e justificada pelos organizadores como resultado da dificuldade de a maioria dos cuidadores informais se deslocar e deixar sem apoio a pessoa cuidada), em regra entre as 15 e as 30, e o impacto comunicacional destas presen&ccedil;as no espa&ccedil;o p&uacute;blico. Desse ponto de vista, as tomadas de posi&ccedil;&atilde;o dos cuidadores dependeram em grande medida dos media para terem eco na sociedade. De facto, recorrendo &agrave; categoria criada por Patrick Champagne (1990) quando falava, a prop&oacute;sito do contexto franc&ecirc;s, das &laquo;manifesta&ccedil;&otilde;es de papel&raquo;, poderemos considerar que os <i>happennings</i> pol&iacute;ticos dos cuidadores, ainda que acontecendo na rua, tiveram lugar nas p&aacute;ginas dos jornais e nas televis&otilde;es, pois foi esse o lugar que fez com que eles existissem publicamente e fossem reconhecidos pelo campo pol&iacute;tico. </p>     <p> N&atilde;o foi apenas sob a forma de concentra&ccedil;&otilde;es, no entanto, que a mobiliza&ccedil;&atilde;o dos cuidadores informais aconteceu. No dia da entrega da peti&ccedil;&atilde;o, em outubro de 2017, existiu tamb&eacute;m um cord&atilde;o humano e, em setembro de 2018, um grupo de cuidadores e cuidadoras realizou uma vig&iacute;lia na escadaria do Parlamento, com o objetivo de pressionar o Governo a incluir verba no Or&ccedil;amento do Estado para tornar vi&aacute;vel o Estatuto do Cuidador. </p>     <p> Em maio de 2019, um novo passo &eacute; dado: realiza-se a primeira manifesta&ccedil;&atilde;o de cuidadores informais em Portugal, com cerca de 150 pessoas, que vai da Pra&ccedil;a da Figueira, em Lisboa, at&eacute; ao Terreiro do Pa&ccedil;o, numa marcha onde se destacavam bal&otilde;es de v&aacute;rias cores e cartazes desenhados por quem os erguia, e onde v&aacute;rios cuidadores e cuidadoras tomaram a palavra. A 23 de janeiro de 2018, o governo tornou p&uacute;blico um relat&oacute;rio sobre as pol&iacute;ticas p&uacute;blicas para esta &aacute;rea intitulado <i>Medidas de interven&ccedil;&atilde;o junto dos Cuidadores Informais</i> (Lopes et al., 2017), que viria a ser apresentado e debatido em fevereiro desse ano, numa sess&atilde;o p&uacute;blica promovida pela Comiss&atilde;o de Trabalho e Seguran&ccedil;a Social, onde mais de uma dezena de cuidadoras e cuidadoras informais tomaram a palavra para dar o seu testemunho. </p>     <p> A import&acirc;ncia do testemunho biogr&aacute;fico deve, de resto, ser destacada como uma das caracter&iacute;sticas mais fortes do discurso p&uacute;blico do movimento dos cuidadores informais, seja nas suas apari&ccedil;&otilde;es medi&aacute;ticas, seja nas manifesta&ccedil;&otilde;es de rua, seja na sua participa&ccedil;&atilde;o em momentos mais institucionais, como as sess&otilde;es p&uacute;blicas ou as audi&ccedil;&otilde;es parlamentares. Em todas elas, o discurso na primeira pessoa foi sempre dominante. Parece-nos, com efeito, que o ato performativo de contar a sua hist&oacute;ria deve ser entendido, na constru&ccedil;&atilde;o do movimento, de duas formas. Ele &eacute; um mecanismo pol&iacute;tico (mais ou menos consciente) capaz de tornar p&uacute;blico aquilo que tantas vezes &eacute; remetido para a esfera privada e individual. Mas &eacute; tamb&eacute;m uma forma de envolvimento que tem, por um lado, a for&ccedil;a da subjetividade e, por outro, o efeito terap&ecirc;utico que &eacute; reconhecido aos processos narrativos enquanto formas de atribui&ccedil;&atilde;o de significado &agrave; nossa pr&oacute;pria experi&ecirc;ncia (Gon&ccedil;alves, 2003: 37). Isto mesmo foi evidente na sess&atilde;o p&uacute;blica de apresenta&ccedil;&atilde;o do estudo <i>Medidas de interven&ccedil;&atilde;o junto dos Cuidadores Informais</i>, realizada em fevereiro de 2018, na qual cerca de uma dezena de cuidadores e cuidadoras tomaram a palavra. </p>     <p> &ldquo;Desde os dezoito anos que fui m&atilde;e e cuido do meu filho h&aacute; vinte e tr&ecirc;s anos. Ele nem sequer se sentava, era como um vegetal. Fui eu que tratei de toda a sua reabilita&ccedil;&atilde;o e tudo particularmente e com ajuda de familiares. (...) Eu moro perto da Ericeira, e venho quase todos os dias para Lisboa e &eacute; s&oacute; o meu marido a ganhar e a trabalhar que nem um mouro, desculpem l&aacute; a express&atilde;o. E eu a n&atilde;o poder ter vida social, a n&atilde;o poder ter ah... temos que fugir a muita coisa. Ele (apontando para o filho) por vezes quer ir a um concerto ou quer ir a algum lado e n&atilde;o pode ir, porque eu tenho que ir com ele e dois bilhetes s&atilde;o muito dinheiro e n&oacute;s n&atilde;o temos dinheiro. (...) H&aacute; vinte e tr&ecirc;s anos, eu vou-vos dizer, tinha dezoito anos, eu n&atilde;o estudei, agora tenho quarenta e um anos. Ah? Agora digam-me: o que eu vou fazer da minha vida agora? Com quarenta e um anos, vou lavar escadas? A empregada da limpeza? O que &eacute; que voc&ecirc;s t&ecirc;m para mim? Durante vinte e tr&ecirc;s anos ningu&eacute;m quis saber de mim! Se eu comia, se eu bebia, o que &eacute; que eu era, onde &eacute; que eu estava, que ser humano &eacute; que eu era. Eu sou um ser humano! Com necessidades tamb&eacute;m. E n&atilde;o &eacute; cento e um euros que me pagam as minhas necessidades. De certeza absoluta.&rdquo; </p>     <p align="right"> (Ana Isabel Almeida, 41 anos, Lisboa) </p>     <p> Relacionando a sua experi&ecirc;ncia biogr&aacute;fica com o debate em curso sobre o Estatuto do Cuidador Informal, os testemunhos das cuidadoras e dos cuidadores n&atilde;o devem ser lidos apenas como desabafos. Na realidade, a constru&ccedil;&atilde;o narrativa que o ato de contar a sua hist&oacute;ria pressup&otilde;e comporta j&aacute; uma dimens&atilde;o de distanciamento face &agrave; experi&ecirc;ncia e, portanto, um potencial de consciencializa&ccedil;&atilde;o e um efeito de politiza&ccedil;&atilde;o. De facto, se as narrativas nunca exprimem apenas a factualidade de uma viv&ecirc;ncia, mas s&atilde;o sim a express&atilde;o de uma forma de significa&ccedil;&atilde;o desses momentos vividos (Gon&ccedil;alves, 2003: 37), ent&atilde;o n&atilde;o devemos descurar o quanto elas poder&atilde;o ter contribu&iacute;do, tamb&eacute;m, para um processo de subjetiva&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica que foi essencial &agrave; constru&ccedil;&atilde;o da condi&ccedil;&atilde;o de &laquo;cuidador&raquo; como uma categoria de mobiliza&ccedil;&atilde;o. </p>     <p> &ldquo;Portanto, eu, o que me fica a mim, ainda, como ang&uacute;stia, e eu j&aacute; sou ex-cuidadora h&aacute; quatro anos, &eacute; que depois de tudo o que eu passei, depois de tudo o que aconteceu, n&oacute;s andamos constantemente a tentar que as coisas mudem, que algu&eacute;m oi&ccedil;a, que algu&eacute;m se mexa, e o que eu oi&ccedil;o e vejo essas pessoas todas e os problemas s&atilde;o todos iguais!&rdquo; </p>     <p align="right"> (Maria Anjos Catapirra, Grupo de Cuidadores Informais de Doentes de Alzheimer e Doen&ccedil;as Similares) </p>     <p> Se as cuidadoras e os cuidadores informais eram j&aacute; representados como um grupo particularmente vulner&aacute;vel, fr&aacute;gil, aquilo para que estes testemunhos v&ecirc;m contribuir e que n&atilde;o pode ser ignorado (nem pelo saber acad&eacute;mico nem pelo fazer pol&iacute;tico) &eacute; o seu auto-retrato enquanto sujeitos pol&iacute;ticos prec&aacute;rios, e essa experi&ecirc;ncia partilhada de precariedade &eacute; vivida em termos ontol&oacute;gicos, existenciais e materiais (Puar, 2012). O horizonte de certezas e a fonte de equil&iacute;brio que se espera dos cuidadores informais quando essencializadas em categorias (como sendo &laquo;a fam&iacute;lia&raquo;) torna-se precisamente uma fonte de incerteza e instabilidade, n&atilde;o por si s&oacute;, mas como consequ&ecirc;ncia do contexto da economia pol&iacute;tica em que se inserem. Neste sentido, dizia nessa mesma sess&atilde;o uma cuidadora informal: </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> &ldquo;Lamento tamb&eacute;m, mas estes cuidadores informais de fr&aacute;gil pouco t&ecirc;m. Estes cuidadores informais s&atilde;o muito fortes, s&atilde;o, sim, desamparados e esquecidos por todos n&oacute;s.&rdquo; </p>     <p align="right"> (Ivone Silva, Associa&ccedil;&atilde;o de Paralisia Cerebral de Lisboa) </p>     <p> De facto, nos testemunhos p&uacute;blicos das cuidadoras, podem identificar-se muitas das contradi&ccedil;&otilde;es que atravessam a significa&ccedil;&atilde;o subjetiva da experi&ecirc;ncia dos cuidados e das suas consequ&ecirc;ncias. Neles est&atilde;o presentes tamb&eacute;m os fundamentos materiais e simb&oacute;licos das principais reivindica&ccedil;&otilde;es do movimento e a identifica&ccedil;&atilde;o do que seriam, para as cuidadoras, as medidas de pol&iacute;tica que poderiam responder aos seus problemas, nomeadamente em termos laborais, de apoios sociais e educativos, da considera&ccedil;&atilde;o do trabalho que desempenharam para efeitos de prote&ccedil;&atilde;o social e de carreira contributiva futura, da possibilidade de descanso e a aus&ecirc;ncia de reais oportunidades de reconstru&ccedil;&atilde;o de uma vida profissional ap&oacute;s longas carreiras de cuidados informais. </p>     <p> &ldquo;A partir do momento em que o diagn&oacute;stico foi feito &agrave; minha m&atilde;e, eu entendo que o diagn&oacute;stico foi feito para mim tamb&eacute;m. Portanto, pesa todos os dias na minha cabe&ccedil;a porque eu n&atilde;o tenho vida pessoal, n&atilde;o tenho, tive que alterar a minha vida em digamos, em cem por cento para poder dar todo o apoio. Eu estou com 45 anos, a minha vida est&aacute; totalmente alterada (...). Devo dizer que no ano passado, todo o meu per&iacute;odo de f&eacute;rias foi usado &uacute;nica e exclusivamente para dar apoio &agrave; minha m&atilde;e, portanto eu pr&oacute;pria n&atilde;o tive f&eacute;rias. Eu para poder c&aacute; estar hoje, eu tive que pagar a um cuidador para poder cuidar da minha m&atilde;e e custou-me dez euros &agrave; hora, para poder pernoitar com a minha m&atilde;e. Durante o dia, pediram-me seis euros, como devem perceber isto d&aacute; um forte impacto a n&iacute;vel do rendimento.(...) Al&eacute;m disso, no meu trabalho, as pessoas come&ccedil;am a revelar alguma insatisfa&ccedil;&atilde;o porque as entidades laborais, a maioria das pessoas n&atilde;o entende que eu tenho que ter disponibilidade para poder acompanhar a minha m&atilde;e. (...) queria s&oacute; dizer que &eacute; urgente que se trate e que se fa&ccedil;a porque realmente isto &eacute; um &oacute;nus demasiado pesado para os cuidadores. N&oacute;s precisamos de prote&ccedil;&atilde;o&rdquo;. </p>     <p align="right"> (N&eacute;lida Aguiar, 45 anos, Madeira) </p>     <p> A especificidade de cada caso, que gradualmente foi sendo conhecida &agrave; medida que estas audi&ccedil;&otilde;es e manifesta&ccedil;&otilde;es tomavam lugar, criou alian&ccedil;as entre cuidadoras informais at&eacute; a&iacute; atomizadas, aproximando inclusivamente o que poder&iacute;amos designar de &laquo;subgrupos de especializa&ccedil;&atilde;o&raquo; dentro da pr&aacute;tica dos cuidados: a multiplicidade de patologias ou de condi&ccedil;&otilde;es de defici&ecirc;ncia traz consigo a correspondente diversidade de modos de cuidar, de aperfei&ccedil;oar esse of&iacute;cio, mas tamb&eacute;m de consequ&ecirc;ncias f&iacute;sicas, materiais e emocionais. Ao mesmo tempo, essa mesma especificidade n&atilde;o impediu que, perante esta partilha de experi&ecirc;ncias, tomasse lugar um sentimento de comunalidade social e de urg&ecirc;ncia pol&iacute;tica. </p>     <p>&nbsp; </p>     <p><font size="3"><b>Uma vit&oacute;ria incompleta: a aprova&ccedil;&atilde;o do Estatuto do Cuidador Informal</b></font></p>     <p> O desenvolvimento do processo de reconhecimento legal dos cuidadores e cuidadoras informais iniciado em 2016 come&ccedil;a a adquirir maior concretiza&ccedil;&atilde;o em 2018. &Eacute; em mar&ccedil;o daquele ano que se debate no Parlamento a &laquo;Peti&ccedil;&atilde;o para a cria&ccedil;&atilde;o do Estatuto do Cuidador Informal da pessoa com doen&ccedil;a de Alzheimer e outras dem&ecirc;ncias&raquo;, acompanhada de dois projetos de lei, do Bloco Esquerda e do PCP, e de dois projetos de resolu&ccedil;&atilde;o, do CDS-PP e do PAN, sobre o mesmo tema. As propostas n&atilde;o foram nesse momento votadas e os partidos mostraram-se dispon&iacute;veis para procurar um consenso e discutir as propostas na especialidade. </p>     <p> Em outubro de 2018, decorria ainda o debate na especialidade daqueles projetos, foi inscrita no Or&ccedil;amento do Estado uma norma legal que reconheceu a import&acirc;ncia dos cuidadores informais, apesar de n&atilde;o contemplar uma verba para concretizar essa inten&ccedil;&atilde;o e, em fevereiro de 2019, o Governo apresentou uma proposta de lei, que submeteu ao Parlamento, com um conjunto de &laquo;medidas de apoio aos Cuidadores Informais&raquo;. A 8 de mar&ccedil;o de 2019, a iniciativa do Governo, assim como novos projetos de lei do PSD, do CDS e do PAN, que visavam a cria&ccedil;&atilde;o do Estatuto, baixaram sem vota&ccedil;&atilde;o &agrave; Comiss&atilde;o de Trabalho, Solidariedade e Seguran&ccedil;a Social para se juntarem &agrave;s iniciativas legislativas do BE e do PCP que j&aacute; tinham sido entregues h&aacute; um ano. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Entre esse momento e julho de 2019, quando o texto final que daria origem ao Estatuto seria aprovado, desenvolveu-se um intenso debate p&uacute;blico sobre as v&aacute;rias dimens&otilde;es e solu&ccedil;&otilde;es que deveriam dar corpo ao reconhecimento legal dos cuidadores informais. As categorias em torno das quais se fez essa discuss&atilde;o revelam os diferentes entendimentos que os intervenientes tinham sobre sete aspetos fundamentais: i) o estatuto ontol&oacute;gico dos cuidados (concebidos como trabalho coercivo ou como pr&aacute;tica afetiva volunt&aacute;ria [<a name="top15" id="top15"></a><a href="#15">15</a>]), ii) a responsabilidade predominante das fam&iacute;lias ou do Estado em assegurar a presta&ccedil;&atilde;o de cuidados, iii) a defini&ccedil;&atilde;o do universo de cuidadores a quem se deveria dirigir o Estatuto, iv) a articula&ccedil;&atilde;o entre cuidados formais e informais e o tipo de apoios que deveriam ser desenhados para cuidadores e cuidadoras informais, v) o papel do terceiro setor na provis&atilde;o de respostas, vi) a retroatividade das medidas a implementar e, finalmente, vii) o processo e o ritmo de consolida&ccedil;&atilde;o das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas previstas no Estatuto. </p>     <p> De facto, uma quest&atilde;o preliminar prendia-se com a pr&oacute;pria natureza do diploma legal que seria aprovado. A proposta de lei do Governo, bem como a do PCP, apontava para &laquo;medidas de apoio&raquo; que n&atilde;o eram formalizadas enquanto &laquo;Estatuto&raquo;. J&aacute; as restantes, do Bloco de Esquerda, do PSD e do CDS, previam explicitamente a cria&ccedil;&atilde;o de um Estatuto. Sofia Figueiredo, &agrave; &eacute;poca presidente da Associa&ccedil;&atilde;o Nacional de Cuidadores coloca assim este debate: </p>     <p> &ldquo;O Governo anunciou um conjunto de medidas e foi questionado o porqu&ecirc; de n&atilde;o avan&ccedil;ar com um Estatuto do Cuidador. O Senhor Ministro Vieira da Silva referiu que n&atilde;o era esse o entendimento do Governo, que n&atilde;o era o Estatuto que era necess&aacute;rio, porque come&ccedil;ar com um Estatuto era come&ccedil;ar pelo teto. Mas o que n&oacute;s pretend&iacute;amos era um estatuto, porque s&oacute; o estatuto vai abranger as diversas dimens&otilde;es que n&oacute;s pretendemos – nomeadamente a &aacute;rea laboral, a &aacute;rea social e a &aacute;rea da sa&uacute;de&rdquo;. </p>     <p> A Ministra da Sa&uacute;de, por seu lado, explicava a op&ccedil;&atilde;o do Governo pela necessidade de maturar um processo antes de fechar o seu &laquo;edif&iacute;cio legislativo&raquo;: &ldquo;Eu compreendo que a vontade das pessoas seja de dar passos r&aacute;pidos, mas n&oacute;s n&atilde;o conseguimos fugir ao tempo e aos caminhos que temos de percorrer e at&eacute; &agrave; necessidade que temos de ir avaliando aquilo que vamos fazendo&rdquo; [<a name="top16" id="top16"></a><a href="#16">16</a>]. </p>     <p> Na verdade, a fixa&ccedil;&atilde;o do termo &laquo;Estatuto&raquo; acabou por ganhar um grande peso simb&oacute;lico, dado que foi em torno desse conceito que o movimento foi construindo a sua agenda de reivindica&ccedil;&otilde;es. A press&atilde;o p&uacute;blica e o eco medi&aacute;tico das posi&ccedil;&otilde;es da Associa&ccedil;&atilde;o Nacional de Cuidadores Informais ter&atilde;o pesado na escolha final do poder legislativo. Assim, a Lei 100/2019, de 6 de setembro, que &ldquo;Aprova o Estatuto do Cuidador Informal, altera o C&oacute;digo dos Regimes Contributivos do Sistema Previdencial de Seguran&ccedil;a Social e a Lei n.&ordm; 13/2003, de 21 de maio&rdquo; continha quer as altera&ccedil;&otilde;es legislativas relativas a um conjunto de medidas de apoio, quer, em anexo &agrave; lei, o desejado &laquo;Estatuto do Cuidador Informal&raquo;. </p>     <p> Um outro debate que atravessou o processo pol&iacute;tico-legislativo foi a considera&ccedil;&atilde;o dos cuidados informais a serem reconhecidos como sendo &laquo;trabalho&raquo;. Esta era, de resto, uma das tens&otilde;es mais presentes nas interven&ccedil;&otilde;es das cuidadoras ao longo do processo, e em particular na sess&atilde;o da Assembleia da Rep&uacute;blica j&aacute; mencionada: </p>     <p> &ldquo;Eu desempreguei-me, s&oacute; o meu marido &eacute; que trabalha e temos cinco filhos. Ah para eu ficar com a Rita e com a In&ecirc;s e para elas chegarem at&eacute; onde est&atilde;o a chegar, eu abdiquei da minha carreira, abdiquei de fins-de-semana, n&atilde;o tenho f&eacute;rias porque o dinheiro n&atilde;o d&aacute;, abdiquei de tudo. Porque o subs&iacute;dio de terceira pessoa s&atilde;o cem euros. Portanto, n&atilde;o d&aacute; nem para dois dias de assist&ecirc;ncia, l&aacute; em casa, se eu puser algu&eacute;m para pagar. (...) O que &eacute; que este estatuto me - se vai salvaguardar para mim? Posso ter a reforma antecipada? Vou ter algum, alguma benesse que estes anos - porque ningu&eacute;m me vai dar emprego. Quem &eacute; que vai dar emprego a uma contabilista desempregada h&aacute; trinta anos? Ningu&eacute;m!&rdquo; </p>     <p align="right"> (Helena Lagartinho, 56 anos, Lisboa) </p>     <p> Sem que nenhum interveniente pol&iacute;tico se arriscasse a propor uma equipara&ccedil;&atilde;o total entre os cuidados prestados informalmente e uma condi&ccedil;&atilde;o de emprego assalariado, a solu&ccedil;&atilde;o que acabou por vingar foi a de um reconhecimento mitigado do trabalho dos cuidadores. </p>     <p> Do ponto de vista de compensa&ccedil;&atilde;o pecuni&aacute;ria, ela aparece na lei sob a forma de um &laquo;subs&iacute;dio de apoio ao cuidador&raquo;, sujeito a condi&ccedil;&atilde;o de recursos, e que assume a forma de uma presta&ccedil;&atilde;o social de combate &agrave; pobreza dos cuidadores informais, mais do que de uma remunera&ccedil;&atilde;o de um trabalho entendido enquanto tal. Por outro lado, &agrave; aus&ecirc;ncia de prote&ccedil;&atilde;o social e de carreira contributiva dos cuidadores e cuidadoras informais, o Estatuto respondeu com a possibilidade de acesso ao Seguro Social Volunt&aacute;rio que, nos casos em que os cuidadores comprovem a sua situa&ccedil;&atilde;o de car&ecirc;ncia econ&oacute;mica, pode dar origem a uma majora&ccedil;&atilde;o do subs&iacute;dio de apoio, para apoiar o pagamento daquele seguro. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Estas solu&ccedil;&otilde;es, como se percebe, oscilam entre a manuten&ccedil;&atilde;o dos cuidados na esfera da responsabilidade familiar e a tentativa de criar formas de prote&ccedil;&atilde;o que, do ponto de vista da Seguran&ccedil;a Social, equiparem os cuidados a um trabalho que, mesmo n&atilde;o tendo remunera&ccedil;&atilde;o, deve ser tido em considera&ccedil;&atilde;o enquanto atividade. </p>     <p> O debate sobre a defini&ccedil;&atilde;o do universo dos cuidadores foi, tamb&eacute;m, uma express&atilde;o do confronto entre a remiss&atilde;o dos cuidados informais ao universo familiar e da esfera privada e, em alternativa, uma concep&ccedil;&atilde;o dos cuidados informais que pretendia alargar esse conceito tamb&eacute;m &agrave;s atividades de apoio prestadas por vizinhos, pelas &ldquo;&laquo;am&iacute;lias de afetos&raquo;, pelas redes de proximidade fora dos la&ccedil;os biol&oacute;gicos. Contudo, a solu&ccedil;&atilde;o que acabou por ser aprovada pelo Parlamento foi a da restri&ccedil;&atilde;o do conceito legal de cuidador informal aos familiares at&eacute; ao 4&ordm; grau, distinguindo-se, dentro destes, a figura do cuidador principal (cuidador a tempo inteiro sem qualquer trabalho remunerado), a quem seriam destinados os apoios pecuni&aacute;rios, e a do cuidador n&atilde;o-principal (aquele que mant&eacute;m um emprego assalariado), a quem se deveriam destinar outras medidas tendentes a promover a concilia&ccedil;&atilde;o entre a manuten&ccedil;&atilde;o do v&iacute;nculo laboral e a presta&ccedil;&atilde;o dos cuidados familiares. </p>     <p> A articula&ccedil;&atilde;o entre cuidados formais e informais foi tamb&eacute;m um dos campos em que as tens&otilde;es entre profissionais e familiares se revelou. Por um lado, o Estatuto aponta para um conjunto de deveres dos cuidadores informais que ficam, na pr&aacute;tica, sob a tutela de profissionais chamados a acompanhar a presta&ccedil;&atilde;o de cuidados e a capacitar os cuidadores. Por outro, no movimento de cuidadores assistiu-se a um processo de afirma&ccedil;&atilde;o desta condi&ccedil;&atilde;o, entre outras dimens&otilde;es, a partir da reivindica&ccedil;&atilde;o de que os cuidadores e cuidadoras eram, tamb&eacute;m eles, detentores de um conhecimento &laquo;local&raquo; e &laquo;espec&iacute;fico&raquo; que tinha de ser valorizado e n&atilde;o apenas como uma categoria percepcionada em termos dos seus d&eacute;fices (de prepara&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica, de conhecimento profissional ou de valida&ccedil;&atilde;o acad&eacute;mica para a presta&ccedil;&atilde;o de cuidados). </p>     <p>&nbsp; </p>     <p><font size="3"><b>Conclus&atilde;o – ou o reconhecimento por vir</b></font></p>     <p> O movimento das cuidadoras e dos cuidadores informais for&ccedil;ou a discuss&atilde;o pol&iacute;tica em torno do trabalho n&atilde;o remunerado dos cuidados, resgatando-o da invisibilidade, do plano do &laquo;&oacute;bvio&raquo; e da evid&ecirc;ncia. Emergindo dessa invisibilidade a que estavam votados, e deixando aceso um rastilho atrav&eacute;s dos seus f&oacute;runs de discuss&atilde;o e protestos, os cuidadores e as cuidadoras informais fizeram deslocar o retrato da sua atividade enquanto gesto meramente altru&iacute;sta e romperam com a sua localiza&ccedil;&atilde;o exclusiva no universo do &laquo;volunt&aacute;rio&raquo;. Desnaturalizando a representa&ccedil;&atilde;o dos cuidados como uma pr&aacute;tica &laquo;abnegada&raquo; e assinalando que ela tem tamb&eacute;m, frequentemente, uma dimens&atilde;o forte de pr&aacute;tica compuls&oacute;ria, colocaram o cuidado informal numa rela&ccedil;&atilde;o dial&eacute;tica em que o universo simb&oacute;lico do &laquo;altru&iacute;smo&raquo; e da &laquo;d&aacute;diva afetiva&raquo; coabita com a reprodu&ccedil;&atilde;o de rela&ccedil;&otilde;es de opress&atilde;o e de um padr&atilde;o de trabalho prec&aacute;rio, sem remunera&ccedil;&atilde;o, sem prote&ccedil;&atilde;o social e com um d&eacute;fice de apoios p&uacute;blicos. N&atilde;o negando a componente afetiva dos cuidados, as cuidadoras e cuidadores informais tornaram vis&iacute;vel a realidade de uma for&ccedil;a de trabalho explorada, ao demonstrarem que operavam na pr&aacute;tica numa esp&eacute;cie de substitui&ccedil;&atilde;o for&ccedil;ada do Estado, dada a escassez de respostas p&uacute;blicas para as pessoas dependentes. </p>     <p> Atravessado por tend&ecirc;ncias diferentes e contradit&oacute;rias, s&atilde;o identific&aacute;veis na agenda do movimento dos cuidadores elementos que apontam quer para medidas que tendem a reproduzir o regime familialista que regula a presta&ccedil;&atilde;o de cuidados, com as suas divis&otilde;es sexuais e hierarquias de g&eacute;nero, quer para uma transforma&ccedil;&atilde;o desse regime atrav&eacute;s de uma l&oacute;gica de democratiza&ccedil;&atilde;o e socializa&ccedil;&atilde;o dos cuidados, por via de pol&iacute;ticas redistributivas das tarefas, de rendimento e de bens sociais, mesmo que limitadas. A a&ccedil;&atilde;o coletiva de cuidadores e cuidadoras visibilizou e, em certo sentido, tamb&eacute;m parece ter questionado o modelo estatal de reprodu&ccedil;&atilde;o familialista isto &eacute;, uma organiza&ccedil;&atilde;o social dos cuidados marcada essencialmente pela informalidade, pela desigualdade de g&eacute;nero, pela condicionalidade no acesso aos apoios sociais e pela baixa taxa de servi&ccedil;os p&uacute;blicos de acesso universal. </p>     <p> Num curto per&iacute;odo de tempo, este movimento logrou conquistar a sua principal reivindica&ccedil;&atilde;o – a cria&ccedil;&atilde;o de um Estatuto do Cuidador Informal, embora os resultados alcan&ccedil;ados sejam ainda, em grande medida, do dom&iacute;nio da &laquo;lei escrita&raquo; e n&atilde;o da &laquo;lei na pr&aacute;tica&raquo;. </p>     <p> Na verdade, permanece em grande medida por saber qual &eacute; exactamente o objeto e o universo deste reconhecimento trazido pelo Estatuto e o que acabar&aacute; por ser a tradu&ccedil;&atilde;o em pol&iacute;ticas p&uacute;blicas concretas do enquadramento legal aprovado. O desenvolvimento dos projetos-piloto e a regulamenta&ccedil;&atilde;o daquele instrumento legislativo definir&atilde;o, nos pr&oacute;ximos meses e anos, muitas destas quest&otilde;es. A componente dos cuidados que est&aacute; a ser reconhecida refor&ccedil;ar&aacute; o entendimento do cuidado como uma disposi&ccedil;&atilde;o, isto &eacute;, uma inclina&ccedil;&atilde;o afetiva, ou como pr&aacute;tica, n&atilde;o remunerada, e perpetuada no seio da fam&iacute;lia (Tronto, 2013)? Os instrumentos de pol&iacute;tica p&uacute;blica ser&atilde;o pensados numa l&oacute;gica de apoio &agrave; visibiliza&ccedil;&atilde;o deste trabalho enquanto pr&aacute;tica compuls&oacute;ria (pior do que um emprego, nas palavras de uma cuidadora) ou enquanto forma de dedica&ccedil;&atilde;o volunt&aacute;ria, altru&iacute;sta e abnegada? O reconhecimento desencadeado pelo Estatuto ser&aacute; predominantemente um instrumento de afirma&ccedil;&atilde;o/confirma&ccedil;&atilde;o de um determinado regime em que os cuidados t&ecirc;m um estatuto social subalterno no quadro de um paradigma familialista, no qual se reproduz uma acentuada divis&atilde;o sexual do trabalho reprodutivo, ou, pelo contr&aacute;rio, ser&aacute; um dispositivo de transforma&ccedil;&atilde;o desse mesmo regime, designadamente assumindo e codificando legalmente os cuidados como responsabilidade coletiva e partilhada pelo pr&oacute;prio Estado? </p>     <p> Onde um olhar centrado na reprodu&ccedil;&atilde;o social poderia ver os fatores determinantes da domina&ccedil;&atilde;o, do isolamento e da constru&ccedil;&atilde;o de disposi&ccedil;&otilde;es conformistas, o movimento dos cuidadores e cuidadoras mostrou que a condi&ccedil;&atilde;o de cuidador informal era tamb&eacute;m a uma oportunidade para construir uma subjetividade de luta e um processo de a&ccedil;&atilde;o coletiva. Revelou, tamb&eacute;m, como pode ser ativada uma &eacute;tica dos cuidados como pr&aacute;tica de resist&ecirc;ncia e de constesta&ccedil;&atilde;o &agrave; ordem tendencialmente atomizadora e privatizadora da exist&ecirc;ncia humana, que concebe os cidad&atilde;os como agentes individuais equipar&aacute;veis a participantes num mercado &laquo;livre&raquo;, onde estas liberdades s&atilde;o tendencialmente medidas pelo poder de compra de cada interveniente. Por outro lado, confrontou-nos com as possibilidades de uma comunidade cuidadora, o que parece exigir um alargamento das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas j&aacute; existentes no campo dos cuidados, mas implicar tamb&eacute;m, provavelmente, o questionamento de uma governa&ccedil;&atilde;o familialista onde escasseiam servi&ccedil;os p&uacute;blicos de acesso universal com qualidade na &aacute;rea dos cuidados. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Reconhecer os cuidados informais, criar mais respostas p&uacute;blicas que possam fazer deles uma escolha e n&atilde;o uma obriga&ccedil;&atilde;o por aus&ecirc;ncia de alternativa e cuidar de quem cuida foram, no fundo, objetivos do movimento de cuidadores informais que se estruturou a partir de 2016 em Portugal. As ci&ecirc;ncias sociais podem ser parte deste processo e contribuir para escolhas pol&iacute;ticas mais informadas no que aos cuidados diz respeito (Mills, 1959; McDermont, 2013). Contudo, &eacute; provavelmente o desenvolvimento do pr&oacute;prio movimento, as suas escolhas program&aacute;ticas e estrat&eacute;gicas, as suas alian&ccedil;as e a sua capacidade de influenciar o debate pol&iacute;tico que acabar&atilde;o por condicionar decisivamente o caminho das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas futuras. </p>     <p>&nbsp; </p>     <p><font size="3"><b>Refer&ecirc;ncias</b></font> </p>     <!-- ref --><p> Alves, B. (2015) Ajustamento emocional e qualidade de vida dos cuidadores informais dos sujeitos com les&atilde;o v&eacute;rtebro-medular traum&aacute;tica, Tese de Doutoramento apresentada na Universidade de Santiago de Compostela.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1699434&pid=S2182-3030202000010000600001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Bourdieu, P. (1998) <i>Contrafogos</i>, Oeiras: Celta.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1699436&pid=S2182-3030202000010000600002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Santos, B. de Sousa (1990) <i>O Estado e a Sociedade em Portugal (1974-1998)</i>, Porto: Afrontamento &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1699438&pid=S2182-3030202000010000600003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p> Santos, B. de Sousa (1993) &ldquo;O Estado e a sociedade na semiperiferia do sistema mundial: O caso portugu&ecirc;s&rdquo; in Santos, B. de Sousa (org.) <i>Portugal: um retrato singular</i>, Porto: Afrontamento, pp. 15-56. </p>     <!-- ref --><p> Santos, B de Sousa (2018) <i>O Fim do Imp&eacute;rio Cognitivo</i>, Coimbra: Almedina.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1699440&pid=S2182-3030202000010000600005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p> Casas-Cortes, M. (2019) &ldquo;Care-tizenship: precarity, social movements, and the deleting/re-writing of citizenship&rdquo;, <i>Citizenship Studies</i>, 23:1, pp. 19-42, available at <a href="https://doi.org/10.1080/13621025.2018.1556248" target="_blank"> https://doi.org/10.1080/13621025.2018.1556248</a>. </p>     <!-- ref --><p> C&egrave;s S., Hlebec V., Yghemonos S. (2019) <i> Valuing informal care in Europe, analytical review of existing valuation methods </i> . Eurocarers.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1699443&pid=S2182-3030202000010000600007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p> Champagne, P. (1990) <i>Faire l&rsquo;opinion. Le nouveau jeu politique</i>, Paris: Minuit. </p>     <!-- ref --><p> Dahl, H.M, (2017) <i>Struggles in (Elderly) Care. A Feminist View</i>, Palgrave McMillan.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1699446&pid=S2182-3030202000010000600009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Dewey, J. (1927) <i>The public and its problems. An essay in political enquiry</i>, Athens: Ohio Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1699448&pid=S2182-3030202000010000600010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p> Ferber, M. e Nelson, Julie A. (1993) <i>Beyond Economic Man: Feminist Theory and Economics</i>, Chicago: University of Chicago Press. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Ferreira, S. (2000) &ldquo;As organiza&ccedil;&otilde;es do terceiro sector na reforma da Seguran&ccedil;a Social&rdquo;, in <i>Atas do IV Congresso Portugu&ecirc;s de Sociologia</i>, Coimbra. </p>     <p> Fraser, N. (2003) &ldquo;Social Justice in the Age of Identity Politics: Redistribution, Recognition, and Participation&rdquo;, in N. Fraser, A. Honneth (2003) <i>Redistribution or Recognition?: A Political-philosophical Exchange</i>, London: Verso. </p>     <!-- ref --><p> Fraser, N (2008) <i> Scales of Injustice – Reimagining political space in a globalizing world </i> , Malden: Polity Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1699453&pid=S2182-3030202000010000600014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Gilligan, C. (1982; 2003) <i>In a Different Voice Cambridge</i>, MA: Harvard University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1699455&pid=S2182-3030202000010000600015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Gon&ccedil;alves, O. (2003) <i>Viver Narrativamente</i>, Coimbra: Quarteto Editora.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1699457&pid=S2182-3030202000010000600016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Goodwin, F. (2017) <i>Eurocarers</i>. Documento policopiado.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1699459&pid=S2182-3030202000010000600017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Henry, E. (2009) &ldquo;Construction des probl&egrave;mes publiques&rdquo;, in O. Fillieule, L. Mathieu, C. P&eacute;chu (dir.), <i>Dictionnaire des mouvements sociaux</i>, Paris: presses de Sciences-Po. </p>     <!-- ref --><p> ILO (2018) <i>Care work and care jobs for the future of work</i>. ( <i>Online</i>) Geneva, ISBN: 978-92-2-131643-5.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1699462&pid=S2182-3030202000010000600019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> INS, (2016) <i>Inqu&eacute;rito Nacional de Sa&uacute;de: 2014</i>, Lisboa: INE.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1699464&pid=S2182-3030202000010000600020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> ISS (2019) <i>Guia Pr&aacute;tico - Complemento por Depend&ecirc;ncia</i>, Lisboa: ISS.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1699466&pid=S2182-3030202000010000600021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p> Jos&eacute;, S.J. (2012). &ldquo;A divis&atilde;o dos cuidados sociais prestados a pessoas idosas: complexidades, desigualdades e prefer&ecirc;ncias&rdquo;, <i>Sociologia, Problemas e Pr&aacute;ticas</i>, (69), pp. 63-85. </p>     <!-- ref --><p> Keating N. C., Lero D. S., Fast J., Lucas S. J., Eales J. (2013) <i> A framework and literature review on the economic costs of care: Research on Aging, Policies and Practice </i> , Department of Human Ecology.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1699469&pid=S2182-3030202000010000600023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p> Lorey, I. (2015) <i>State of Insecurity</i>, London: Verso.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1699471&pid=S2182-3030202000010000600024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p> Lopes, M. et al. (2017) &ldquo;Medidas de Interven&ccedil;&atilde;o Junto dos Cuidadores Informais: Documento Enquadrador, Perspetiva Nacional e Internacional&rdquo;. Dispon&iacute;vel em: <a         href="https://docplayer.com.br/89203061-Medidas-de-intervencao-junto-dos-cuidadores-informais.html" target="_blank"     > https://docplayer.com.br/89203061-Medidas-de-intervencao-junto-dos-cuidadores-informais.html </a> </p>     <p> Lopes, A. (2017) &ldquo;Long-term care in Portugal. Quasi-privatization of a dual system of care&rdquo;, in B. Greve, <i>Long-term care for the elderly: Development and Prospects</i>, New York: Routdledge. </p>     <!-- ref --><p> McAdam, D. (1982) <i>Political Process and the Development of Black Insurgency</i>, Chicago: Chicago University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1699475&pid=S2182-3030202000010000600027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p> McDermont, M. (2013) &ldquo;Acts of translation: UK advice agencies and the creation of matters-of-public-concern&rdquo;, <i>Critical Social Policy</i>, 33(2), DIY, pp. 218-242. </p>     <!-- ref --><p> Mills, C. W. (1959) <i>The sociological imagination</i>, Oxford: Oxford University Press. Chapter 1. The promise.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1699478&pid=S2182-3030202000010000600029&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Muehlebach, A. (2012) <i>The moral neoliberal</i>, Chicago: The University of Chicago Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1699480&pid=S2182-3030202000010000600030&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p> Nunes, J. A (2019) &ldquo;Da sa&uacute;de biomedicalizada &agrave;s ecologias do cuidado: para uma concep&ccedil;&atilde;o p&oacute;s-abissal da sa&uacute;de e do cuidado&rdquo;, in <i>Confer&ecirc;ncia realizada no Centro de Estudos Sociais</i>, Coimbra, 19 de novembro de 2019. </p>     <!-- ref --><p> OCDE/UE, (2018) <i>Health at a Glance: Europe 2018: State of Health in the EU Cycle</i>, OECD Publishing, Paris/UE, Brussels, available at <a href="https://doi.org/10.1787/health_glance_eur-2018-en" target="_blank"> https://doi.org/10.1787/health_glance_eur-2018-en</a>.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1699483&pid=S2182-3030202000010000600032&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> OPSS (2015) Acesso aos cuidados de sa&uacute;de. Um direito em risco? Relat&oacute;rio de Primavera 2015, dispon&iacute;vel em <a         href="http://opss.pt/wp-content/uploads/2018/06/RelatorioPrimavera2015.pdf" target="_blank"     > http://opss.pt/wp-content/uploads/2018/06/RelatorioPrimavera2015.pdf</a>.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1699485&pid=S2182-3030202000010000600033&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p> Puar, J. (2012) &ldquo;Precarity Talk: A Virtual Roundtable with Lauren Berlant, Judith Butler, Bojana Cvejic, Isabell Lorey, Jasbir Puar, and Ana Vujanovic&rdquo;, <i>The Drama Review</i>, 56(4), 163-177. </p>     <!-- ref --><p> Tronto, J. (2013) <i>Caring Democracy – Markets, equality and justice</i>, New York: New York University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1699488&pid=S2182-3030202000010000600035&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p> Kittay, E. F., B. Jennings, A. A. Wasunna (2005) &ldquo;Dependency, Difference and the Global Ethic of Longterm Care&rdquo;, <i>The Journal of Political Philosophy</i> 13 (4): 443-469. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p> Waring, M. (1989) <i>If Women Counted: A new feminist economics</i>, Toronto: University of Toronto Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1699491&pid=S2182-3030202000010000600037&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p> W&aelig;rness, K. (2018) </p> </font>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"> <i> On the rationality of caring: The Shifting Boundaries of Public and Private</i>, available at <a href="https://doi.org/10.4324/9780429401602-8" target="_blank"> https://doi.org/10.4324/9780429401602-8</a>. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Received: 01-02-2020; Accepted: 16-06-2020.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">NOTAS </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"> <a name="3" id="3"></a>[<a href="#top3">3</a>] Para efeitos de esclarecimento, segue-se aqui a defini&ccedil;&atilde;o de Joan Tronto a este respeito: o neoliberalismo pode ser caracterizado como &ldquo;o sistema econ&oacute;mico no qual as despesas governamentais s&atilde;o limitadas, o mercado &eacute; visto como o m&eacute;todo prefer&iacute;vel para alocar todos os recursos sociais, a prote&ccedil;&atilde;o da propriedade privada &eacute; tida como o mais importante princ&iacute;pio de governa&ccedil;&atilde;o, e os programas sociais limitam-se a servir de rede de seguran&ccedil;a&rdquo; (2013: 37). </font> </p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="4" id="4"></a>[<a href="#top4">4</a>] &laquo;Trabalho&raquo;, na &oacute;tica desta mundivis&atilde;o, como sin&oacute;nimo de trabalho remunerado, dito &laquo;produtivo&raquo;.</font> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="5" id="5"></a>[<a href="#top5">5</a>] A nota do Gabinete do Parlamento Europeu em Portugal pode ser encontrada no endere&ccedil;o <a                 href="https://www.europarl.europa.eu/portugal/resource/static/files/Alzheimer_Eurodeputados_apelam_a_mais_accao_da_UE_para_prevenir_e_tratar_doenca_-_19_01_11.doc" target="_blank"             > https://www.europarl.europa.eu/portugal/resource/static/files/Alzheimer_Eurodeputados_apelam_a_mais_accao_da_UE_para_prevenir_e_tratar_doenca_-_19_01_11.doc </a> [consultada a 30 de janeiro de 2020] </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="6" id="6"></a>[<a href="#top6">6</a>] Inqu&eacute;rito Nacional de Sa&uacute;de, 2014: p.296. </font> </p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="7" id="7"></a>[<a href="#top7">7</a>] cf CE, 2018. </font> </p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="8" id="8"></a>[<a href="#top8">8</a>] Testemunho recolhido em novembro de 2019. </font> </p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="9" id="9"></a>[<a href="#top9">9</a>] A peti&ccedil;&atilde;o pode ser encontrada no endere&ccedil;o eletr&oacute;nico <a href="https://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=pt82396" target="_blank"> https://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=pt82396</a>, acedido em 14 de janeiro de 2020. </font> </p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="10" id="10"></a>[<a href="#top10">10</a>] Os dados utilizados para a elabora&ccedil;&atilde;o desta cronologia foram cedidos por Sofia Figueiredo aos autores, a quem &eacute; deixado os devidos agradecimentos e refer&ecirc;ncia. </font> </p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="11" id="11"></a>[<a href="#top11">11</a>] Utilizamos aqui as categorias de classifica&ccedil;&atilde;o por g&eacute;nero televisivo adotadas pela Entidade Reguladora da Comunica&ccedil;&atilde;o Social (cf. ERC, 2016) </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="12" id="12"></a>[<a href="#top12">12</a>] Catarina Reis, &ldquo;Elas s&atilde;o a sombra dos filhos, &agrave; espera de uma lei que as proteja&rdquo;, <i>Di&aacute;rio de Not&iacute;cias</i>, 31 de outubro de 2018. A reportagem est&aacute; dispon&iacute;vel em <a                 href="https://www.dn.pt/edicao-do-dia/31-out-2018/elas-sao-a-sombra-dos-filhos-a-espera-de-uma-lei-que-as-proteja-10017770.html" target="_blank"             > https://www.dn.pt/edicao-do-dia/31-out-2018/elas-sao-a-sombra-dos-filhos-a-espera-de-uma-lei-que-as-proteja-10017770.html</a>, consultada a 20 de janeiro de 2020. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="13" id="13"></a>[<a href="#top13">13</a>] Nessa interven&ccedil;&atilde;o, o Presidente da Rep&uacute;blica interveio diretamente no debate que ent&atilde;o existia entre as pretens&otilde;es dos cuidadores e uma tend&ecirc;ncia do setor social para a defesa das respostas por via das institui&ccedil;&otilde;es, afirmando: &ldquo;Eu sei que h&aacute; ou pode haver retic&ecirc;ncias nesse setor, quanto ao papel dos Cuidadores Informais, mas porque sempre militei nesse setor, em miseric&oacute;rdias e IPSS, estou muito &agrave; vontade para poder dizer que essa realidade, que &eacute; muito importante n&atilde;o justifica que se esque&ccedil;a ou adie o drama de pais, filhos, netos, irm&atilde;os, primos, vizinhos, amigos que d&atilde;o 24 horas por dia, todos os dias, todas as semanas, todos os meses&rdquo;. </font> </p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="14" id="14"></a>[<a href="#top14">14</a>] No comunicado, dispon&iacute;vel em <a href="http://www.presidencia.pt/?idc=18&amp;idi=154895" target="_blank"> http://www.presidencia.pt/?idc=18&amp;idi=154895</a>, a Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica declara o seguinte: &ldquo;N&atilde;o podemos continuar a fingir que n&atilde;o existem milhares de compatriotas que s&atilde;o pais, filhos, netos, sobrinhos, primos, vizinhos, amigos, cuidadores de tantos e tantos outros portugueses. H&aacute; milhares de cuidadores informais e cada vez haver&aacute; mais. N&atilde;o podem continuar invis&iacute;veis e nessa condi&ccedil;&atilde;o ignorados. Sem vencimentos, sem folgas, sem f&eacute;rias, sem reformas, sem direitos sociais, numa miss&atilde;o tamb&eacute;m ela sem pre&ccedil;o. &Eacute; urgente conjugar o seu estatuto com o estado social. Assinalo, pois, este dia, renovando o apoio a esta causa e o apelo para que se fa&ccedil;a mais, vencendo preconceitos e obst&aacute;culos institucionais &agrave; cria&ccedil;&atilde;o do Estatuto do Cuidador Informal. &Eacute; uma causa que sei ser de todos. &Eacute; uma causa que merece o esfor&ccedil;o de todos.&rdquo; </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="15" id="15"></a>[<a href="#top15">15</a>] A este prop&oacute;sito, consultar artigo de (Autor e Autor, 2020). </font> </p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="16" id="16"></a>[<a href="#top16">16</a>] Declara&ccedil;&otilde;es de Marta Temido &agrave; imprensa, 8.03.2019.</font> </p>      ]]></body><back>
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