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<article-id pub-id-type="doi">10.15847/cct.jun2020.040.ess01</article-id>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Fendas numa cidade dividida: Habitação popular na cidade de São Paulo]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Cracks in a split city: Popular Housing in the City of Sao Paulo]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade de São Paulo Faculdade de Arquitetura e Urbanismo ]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This essay brings considerations about the popular neighborhoods of the city of São Paulo (peripheries, slums, occupation of buildings by housing movements and housing estates), based on a decade of systematic observation work. It seeks to observe the various movements towards the configuration of the space of popular housing in São Paulo, from the first efforts to reverse the split established in the city from the modern experience that settled there at the end of the 19th century, passing through reviews of some actions of the Public Power throughout the 20th century and recent planning instruments. The text presented here looks for possibilities in facing the great challenge with regard to housing in the city of São Paulo, namely, its popular neighborhoods, with their multiple precariousness. Housing is understood here in its full sense, that is, housing associated with urban infrastructure and public facilities.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana" size="2"><b>ENSAIO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p> <b><font face="Verdana" size="4">Fendas numa cidade dividida: Habita&ccedil;&atilde;o popular na cidade de S&atilde;o Paulo</font></b>     <p></p>     <p> <b><font face="Verdana" size="3"> Cracks in a split city: Popular Housing in the City of Sao Paulo</font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font face="Verdana" size="2">Luis Octavio P. L. de Faria e Silva<a name="top1" id="top1"></a><a href="#1">I</a></font></b></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="1" id="1"></a>[<a href="#top1">I</a>]</font><font size="2" face="Verdana">Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de S&atilde;o Paulo, Brasil. e-mail: <a href="mailto:lifariaesilva@gmail.com" target="_blank">lifariaesilva@gmail.com</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade="noshade" /> <font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b>RESUMO</b></font><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">     <p>Este ensaio traz considera&ccedil;&otilde;es sobre os bairros populares da cidade de S&atilde;o Paulo (periferias, favelas, ocupa&ccedil;&otilde;es de edif&iacute;cios por parte de movimentos de moradia e conjuntos habitacionais), tendo por base uma d&eacute;cada de trabalho sistem&aacute;tico de observa&ccedil;&atilde;o. Nele se observam os v&aacute;rios movimentos no sentido da configura&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o da habita&ccedil;&atilde;o popular paulistana, desde os primeiros esfor&ccedil;os de reverter a cis&atilde;o estabelecida na cidade a partir da experi&ecirc;ncia moderna que ali se instala no final do s&eacute;culo XIX, passando em revista algumas a&ccedil;&otilde;es do Poder P&uacute;blico ao longo do s&eacute;culo XX e instrumentos recentes de planejamento. O texto aqui apresentado vai em busca de possibilidades no enfrentamento do grande desafio relativo &agrave; habita&ccedil;&atilde;o na cidade de S&atilde;o Paulo, a saber, seus bairros populares, com suas m&uacute;ltiplas precariedades. Habita&ccedil;&atilde;o &eacute; aqui entendida no seu sentido pleno, ou seja, moradia associada a infraestrutura urbana e equipamentos p&uacute;blicos.</p> <b>Palavras-chave:</b> Habita&ccedil;&atilde;o popular, habita&ccedil;&atilde;o social em S&atilde;o Paulo, bairros prec&aacute;rios paulistanos.     ]]></body>
<body><![CDATA[<p></p> </font> <hr size="1" noshade="noshade"/>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">This essay brings considerations about the popular neighborhoods of the city of S&atilde;o Paulo (peripheries, slums, occupation of buildings by housing movements and housing estates), based on a decade of systematic observation work. It seeks to observe the various movements towards the configuration of the space of popular housing in S&atilde;o Paulo, from the first efforts to reverse the split established in the city from the modern experience that settled there at the end of the 19th century, passing through reviews of some actions of the Public Power throughout the 20th century and recent planning instruments. The text presented here looks for possibilities in facing the great challenge with regard to housing in the city of S&atilde;o Paulo, namely, its popular neighborhoods, with their multiple precariousness. Housing is understood here in its full sense, that is, housing associated with urban infrastructure and public facilities..</font> </p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b>Keywords:</b> popular housing, social housing in Sao Paulo, precarious neighbourhoods of Sao Paulo.</font></p> <hr size="1" noshade="noshade" />     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"> &ldquo;(...) todos os dias aparece um pobre coitado aqui na favela, encosta num parente e v&atilde;o vivendo (...).&rdquo;</font></p>     <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"> Di&aacute;rio de Carolina Maria de Jesus, p.132, referente ao dia 4 de Janeiro de 1959 [<a name="top2" id="top2"></a><a href="#2">2</a>]</font> </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b>Paisagem e ocupa&ccedil;&atilde;o humana em S&atilde;o Paulo at&eacute; ao fim do s&eacute;culo XIX</b></font></p> <font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">     <p> O s&iacute;tio onde se desenvolveu a ocupa&ccedil;&atilde;o humana que resultou na megacidade de S&atilde;o Paulo corresponde a parte da Bacia Hidrogr&aacute;fica do Alto Tiet&ecirc;. Trata-se de um vale encravado no Planalto Atl&acirc;ntico, a menos de 100 quil&oacute;metros do mar, mas a partir deste &eacute; necess&aacute;rio escalar uma serra com desn&iacute;vel de pelo menos 800 metros para atingir aquela regi&atilde;o antigamente chamada de Campos de Piratininga </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> O rio Tiet&ecirc;, eixo central daquela Bacia, quando chega &agrave; regi&atilde;o hoje intensamente urbanizada de S&atilde;o Paulo, corre numa plan&iacute;cie relativamente ampla, leito maior daquele curso de &aacute;gua que se inicia junto a morros da face ocidental da chamada Serra do Mar. Essa plan&iacute;cie junto ao Tiet&ecirc;, na regi&atilde;o da cidade de S&atilde;o Paulo, &eacute; assim&eacute;trica: na sua margem esquerda &eacute; ampla enquanto na margem direita encontra colinas e morraria das serras ao norte, de onde brotam muitos ribeir&otilde;es e rios, que percorrem uma morfologia acidentada pouco urbanizada at&eacute; meados do s&eacute;culo XX. Divisores de &aacute;guas entre o Tiet&ecirc; e os afluentes da sua margem esquerda, por sua vez, foram ocupados com mais intensidade desde o seiscentos e ali se iniciou a urbaniza&ccedil;&atilde;o paulistana [<a name="top3" id="top3"></a><a href="#3">3</a>]. </p>     <p> A ocupa&ccedil;&atilde;o desse compartimento do Planalto Atl&acirc;ntico inicialmente buscava s&iacute;tios estrat&eacute;gicos quanto &agrave; provis&atilde;o de v&iacute;veres e para defesa, al&eacute;m, tamb&eacute;m, em fun&ccedil;&atilde;o de significados simb&oacute;licos neles presentes. At&eacute; meados do s&eacute;culo XIX, a regi&atilde;o de S&atilde;o Paulo assim foi ocupada: as vilas e bairros rurais se estabeleciam em topos de colinas e, por uma s&eacute;rie de raz&otilde;es, n&atilde;o se via nelas uma n&iacute;tida separa&ccedil;&atilde;o espacial entre ricos e pobres, cujo cotidiano era significativamente semelhante quanto &agrave; relativa escassez de recursos e austeridade, ainda que vigorasse um sistema escravagista. </p>     <p> No Planalto paulista n&atilde;o se via a riqueza proveniente da cana de a&ccedil;&uacute;car que fazia do nordeste brasileiro uma regi&atilde;o de maiores contrastes sociais. Esse quadro se transforma com vigor sobretudo no &uacute;ltimo quartel do s&eacute;culo XIX, com a liberta&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o at&eacute; ent&atilde;o escravizada e que passou a viver frequentemente segregada em lugares mais distantes e pouco valorizados. Estas condi&ccedil;&otilde;es de vida eram em geral partilhadas por outros exclu&iacute;dos, como muitos dos imigrantes que aflu&iacute;am &agrave; cidade em fun&ccedil;&atilde;o de incentivos estatais brasileiros, que atra&iacute;am m&atilde;o de obra estrangeira em troca das viagens para aqueles que viessem fugidos das crises socioecon&oacute;micas em seus pa&iacute;ses de origem. </p>     <p> A infraestrutura que se estabeleceu para a produ&ccedil;&atilde;o, algum processamento e escoamento do caf&eacute; paulista, importante produto do agroneg&oacute;cio naquele per&iacute;odo, trouxe a reboque n&atilde;o s&oacute; imigrantes em busca de novas perspectivas de vida, mas tamb&eacute;m novos costumes e din&acirc;micas econ&oacute;micas. Tamb&eacute;m j&aacute; a partir do final do oitocentos se estabeleceram em S&atilde;o Paulo as primeiras ind&uacute;strias e, consequentemente, seus oper&aacute;rios, que compartilhavam com seus congeneres na Europa e Am&eacute;rica do Norte os baixos n&iacute;veis de sal&aacute;rios e prec&aacute;ria qualidade de vida. </p>     <p> Assim nasce a cidade dividida de S&atilde;o Paulo, onde bairros novos s&atilde;o desenhados para os ricos, enquanto bairros pobres surgem junto &agrave;s f&aacute;bricas e entrepostos relacionados com a ferrovia, abrigando oper&aacute;rios e rec&eacute;m libertos – os pobres que naquela condi&ccedil;&atilde;o inaugurada n&atilde;o t&ecirc;m lugar junto aos remediados. Ao longo do s&eacute;culo XX, a cidade de S&atilde;o Paulo v&ecirc; aumentar a separa&ccedil;&atilde;o entre uma parte pr&oacute;spera, onde existem equipamentos e infraestrutura, em detrimento de outra parte onde a precariedade &eacute; a regra dominante. </p>     <p>&nbsp; </p>     <p><font size="3"><b>O lugar dos pobres em S&atilde;o Paulo</b></font> </p>     <p> &ldquo;Poucas vezes na hist&oacute;ria do urbanismo ter&aacute; ocorrido um fen&ocirc;meno semelhante, uma cidade reconstru&iacute;da duas vezes sobre o mesmo assentamento. A descoberta de uma cidade inteiramente constru&iacute;da de barro surpreendeu os viajantes no in&iacute;cio do s&eacute;culo XIX (...) e, a partir do momento em que a ferrovia chegou &agrave;s novas terras produtoras de caf&eacute;, a cidade [de S&atilde;o Paulo] conheceu um crescimento incontrolado. (...) Com os imigrantes vieram novas t&eacute;cnicas de construir e a cidade foi reconstru&iacute;da integralmente (...). At&eacute; a Segunda Grande Guerra a cidade conservou sua imagem de metr&oacute;pole do caf&eacute;. A partir de ent&atilde;o, os grandes empreendimentos imobili&aacute;rios vieram destruir, um a um, os documentos arquitet&ocirc;nicos da cidade. Os poderes p&uacute;blicos sempre ficaram para tr&aacute;s da iniciativa privada e um c&oacute;digo de obras anacr&ocirc;nico permitiu um uso abusivo do solo. (...)&rdquo; (Toledo, 2004: 181) </p>     <p> Entre o final do s&eacute;culo XIX e o in&iacute;cio do XX, quando j&aacute; &eacute; caracter&iacute;stico da cidade de S&atilde;o Paulo esse processo de sua destrui&ccedil;&atilde;o e reconstru&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua, constru&ccedil;&otilde;es esparsas num meio entendido como rural abrigavam fam&iacute;lias despossu&iacute;das, que tamb&eacute;m se instalavam nos ambientes urbanos em corti&ccedil;os (conjuntos de c&ocirc;modos que compartilham banheiros, cozinha e lavandaria) constru&iacute;dos por especuladores que contavam com lucros importantes, obtidos de uma popula&ccedil;&atilde;o locat&aacute;ria sem recursos nem prote&ccedil;&atilde;o legal ou do Estado. Houve tamb&eacute;m uma produ&ccedil;&atilde;o rentista que resultava em vilas para aluguel, habitadas sobretudo por fam&iacute;lias de pouca renda que conseguiam escapar da vida nos corti&ccedil;os, ainda que sempre com inseguran&ccedil;a quanto &agrave; sua capacidade financeira e sob a amea&ccedil;a constante de despejo. Algumas ind&uacute;strias mantinham vilas oper&aacute;rias, algo que significava uma dupla condi&ccedil;&atilde;o para aqueles que ali moravam, j&aacute; que a rela&ccedil;&atilde;o de depend&ecirc;ncia decorrente levava a situa&ccedil;&otilde;es em que hor&aacute;rios de descanso n&atilde;o eram necessariamente respeitados e patr&otilde;es ou encarregados n&atilde;o hesitavam em insinuar a possibilidade de despejo em caso de insubordina&ccedil;&atilde;o. Ecos p&aacute;lidos dos falanst&eacute;rios, apropria&ccedil;&atilde;o burguesa de vis&otilde;es dos chamados socialistas ut&oacute;picos, as vilas oper&aacute;rias em S&atilde;o Paulo tiveram na Vila Maria Z&eacute;lia um exemplo m&aacute;ximo. Outras ind&uacute;strias mantiveram vilas oper&aacute;rias, mas raras foram aquelas que contavam com equipamentos como a escola e a igreja do conjunto da Vila Maria Z&eacute;lia, inaugurada em 1917 na margem esquerda do rio Tiet&ecirc;, pr&oacute;ximo &agrave; ind&uacute;stria propriedade da fam&iacute;lia Street (<a href="#f1">Figura1</a>). </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1" id="f1"></a><img src="/img/revistas/cct/n40/n40a15f1.jpg"/>     
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p> At&eacute; aos anos de 1930 os pobres paulistanos viviam, em geral, em conjuntos de casas de aluguel que representavam a aposentadoria de muitos idosos paulistanos que delas eram propriet&aacute;rios e locadores, em vilas oper&aacute;rias e em corti&ccedil;os, al&eacute;m de em alguns casebres esparsos nas &aacute;reas menos urbanizadas. </p>     <p> Nos anos 1940, alguns aglomerados de constru&ccedil;&otilde;es muito prec&aacute;rias passaram a fazer parte da paisagem urbana paulistana. &Eacute; o caso da favela da Vila Prudente, considerada como a primeira a se formar em S&atilde;o Paulo, e da favela do Ibirapuera (removida na altura da constru&ccedil;&atilde;o do parque no 4&ordm; centen&aacute;rio da cidade, em 1954) (<a href="#f2">Figura 2</a>), entre outras: &ldquo;Em S&atilde;o Paulo, julga-se que as primeiras favelas apareceram na d&eacute;cada de 40. <i>O Di&aacute;rio de S&atilde;o Paulo</i> (1/10/1950) relata uma pesquisa feita pela Divis&atilde;o de Estat&iacute;stica e Documenta&ccedil;&atilde;o da Prefeitura de S&atilde;o Paulo (hoje extinta) sobre a favela do Orat&oacute;rio, na Mooca, zona leste de S&atilde;o Paulo. Ali moravam 245 pessoas em moradias de t&aacute;buas, com apenas 6 vasos sanit&aacute;rios para uso de todos. Tamb&eacute;m no mesmo ano encontrou-se refer&ecirc;ncia &agrave; favela da Rua Guaicurus, na Lapa (zona central) com 230 domic&iacute;lios e 926 pessoas. No <i>Di&aacute;rio de S&atilde;o Paulo</i> de 6/8/1950, um artigo sobre a favela do Ibirapuera (27 domic&iacute;lios, 144 pessoas) j&aacute; comentava que os moradores desse assentamento eram pessoas pobres e n&atilde;o vadios e malfeitores, fortalecendo uma evid&ecirc;ncia emp&iacute;rica retomada na d&eacute;cada de 70. Datam tamb&eacute;m da d&eacute;cada de 40 a favela Ordem e Progresso, na Barra Funda, zona central do munic&iacute;pio (hoje erradicada), a favela do Vergueiro, na zona sul (tamb&eacute;m erradicada) e a de Vila Prudente, na zona leste, ainda existente.&rdquo; (Pasternak, 2001: 9) </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2" id="f2"></a><img src="/img/revistas/cct/n40/n40a15f2.jpg"/>     
<p>&nbsp;</p>     <p> Essas primeiras favelas paulistanas surgem num contexto de crescimento populacional da cidade, novo f&ocirc;lego na sua industrializa&ccedil;&atilde;o e de remo&ccedil;&otilde;es resultantes de transforma&ccedil;&otilde;es urbanas, al&eacute;m de profunda mudan&ccedil;a no sistema de loca&ccedil;&atilde;o e incapacidade do Estado no sentido de atender a uma demanda crescente de moradias para fam&iacute;lias de poucos recursos. Em S&atilde;o Paulo, no entanto, mais do que nas favelas, os pobres instalavam-se nos chamados loteamentos de periferia, frequentemente irregulares, que se tornaram uma constante na paisagem, associados &agrave; autoconstru&ccedil;&atilde;o por parte de seus moradores (Bonduki, 1998: 281). </p>     <p> &Eacute; tamb&eacute;m na d&eacute;cada de 1940 que come&ccedil;am a ser constru&iacute;dos conjuntos habitacionais viabilizados pelos Institutos de Aposentadoria e Pens&otilde;es: uma produ&ccedil;&atilde;o importante, ainda que insuficiente diante da grande demanda que se colocava. Em S&atilde;o Paulo, alguns conjuntos de porte significativo s&atilde;o constru&iacute;dos junto a bairros industriais, al&eacute;m de edif&iacute;cios isolados e conjuntos menores dispersos em &aacute;reas mais centrais. Esses conjuntos habitacionais passam a abrigar a classe oper&aacute;ria e empregada nos servi&ccedil;os que se desenvolviam com vigor nos anos finais da segunda guerra mundial e nos anos subsequentes. </p>     <p> Embora presente desde h&aacute; muito, o fen&ocirc;meno favela, em S&atilde;o Paulo, s&oacute; vai se desenvolver em larga escala nos anos 70. A montagem de um Cadastro de Favelas, na Secretaria do Bem-Estar Social, em 1973, permitiu uma mensura&ccedil;&atilde;o bastante exata do n&uacute;mero de favelas e domic&iacute;lios. Nas moradias, aplicou-se um formul&aacute;rio abrangente, numa amostra ampla, sobre caracteriza&ccedil;&atilde;o domiciliar e populacional. Atrav&eacute;s do dado &ldquo;pessoas por unidade domiciliar&rdquo; foi estimado o n&uacute;mero da popula&ccedil;&atilde;o favelada total. Em 1973/1974 a popula&ccedil;&atilde;o favelada paulistana n&atilde;o alcan&ccedil;ava 72 mil pessoas (71.840), cerca de 1,1 % da popula&ccedil;&atilde;o municipal. ( Pasternak, 2001: 10) </p>     <p> Ainda que ocupa&ccedil;&otilde;es de &aacute;reas p&uacute;blicas e privadas continuassem a verificar-se nos anos entre 1950 e o final da d&eacute;cada de 1960, vai-se dar um novo crescimento vertiginoso e faveliza&ccedil;&atilde;o de grandes propor&ccedil;&otilde;es em S&atilde;o Paulo no per&iacute;odo do regime militar brasileiro, numa &eacute;poca que se apregoava um &ldquo;milagre econ&oacute;mico&rdquo; devido ao elevado n&iacute;vel de crescimento da economia do pa&iacute;s. &Eacute; naqueles anos de 1970 que muitas das v&aacute;rzeas dos rios paulistanos v&ecirc;em seus habituais campos de futebol e s&iacute;tios de produ&ccedil;&atilde;o agr&iacute;cola intermitentemente alagados serem ocupados a uma velocidade surpreendente. Lagoas e charcos no leito maior do rio Tiet&ecirc; e de seus afluentes (tanto naturais como resultantes de dragagens de areia para a constru&ccedil;&atilde;o civil e argila para ind&uacute;stria local) s&atilde;o aterrados e ocupados, ora por armaz&eacute;ns industriais, ora por favelas. </p>     <p> Sobretudo ao longo da d&eacute;cada de 1970 foram realizados muitos conjuntos habitacionais de baixa qualidade construtiva para os pobres da cidade de S&atilde;o Paulo, com recursos do Banco Nacional de Habita&ccedil;&atilde;o (BNH). O BNH era refer&ecirc;ncia na estrutura estatal da ditadura militar brasileira, &oacute;rg&atilde;o que acabou por financiar tamb&eacute;m a constru&ccedil;&atilde;o de im&oacute;veis para a classe m&eacute;dia paulistana num per&iacute;odo que se caracterizou por uma grande produ&ccedil;&atilde;o imobili&aacute;ria. Os conjuntos destinados &agrave;s classes menos favorecidas, cujo exemplo m&aacute;ximo em S&atilde;o Paulo &eacute; representado pela Cidade Tiradentes, eram em grande parte feitos fora da &aacute;rea urbanizada, sem equipamentos p&uacute;blicos, com infraestrutura incipiente e incompleta. &Eacute; apenas a partir da primeira d&eacute;cada deste s&eacute;culo que o Estado se fez efetivamente presente naqueles conjuntos, implantando equipamentos e infraestrutura articulada de mobilidade p&uacute;blica. A demanda por moradia para a popula&ccedil;&atilde;o desfavorecida, no entanto, seguiu crescendo a um ritmo maior que o da produ&ccedil;&atilde;o habitacional governamental e do mercado imobili&aacute;rio pouco voltado para aquele segmento. Assim sendo, bairros prec&aacute;rios na periferia, distantes da infraestrutura urbana, e favelas ocupando terrenos cada vez mais impr&oacute;prios em fun&ccedil;&atilde;o de riscos de deslizamentos e afundamentos resultantes de eros&atilde;o continuaram a surgir nas bordas e &ldquo;fendas&rdquo; da cidade que se expande para todos os lados. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Na d&eacute;cada de 1980, em fun&ccedil;&atilde;o de uma valoriza&ccedil;&atilde;o imobili&aacute;ria crescente, instala-se nas regi&otilde;es de v&aacute;rzeas dos grandes rios da Bacia do Alto Tiet&ecirc; uma tens&atilde;o entre expans&atilde;o de &aacute;reas ocupadas por favelas e remo&ccedil;&otilde;es promovidas em nome de projetos imobili&aacute;rios. Simultaneamente, a press&atilde;o por ocupa&ccedil;&atilde;o das &aacute;reas de prote&ccedil;&atilde;o dos mananciais da cidade de S&atilde;o Paulo intensifica-se, algo que segue at&eacute; &agrave; atualidade. A mancha urbana paulistana, conurbada com &aacute;reas urbanizadas de uma s&eacute;rie de munic&iacute;pios vizinhos atinge uma extens&atilde;o imensa e com baixa densidade demogr&aacute;fica, algo desfavor&aacute;vel em termos ambientais e quanto &agrave; viabilidade de implanta&ccedil;&atilde;o e manuten&ccedil;&atilde;o de redes de infraestrutura. </p>     <p> Segundo dados apresentados por Pasternak a partir dos Censos Demogr&aacute;ficos de 1980 e 1991 e Contagem populacional de 1996, a popula&ccedil;&atilde;o favelada em S&atilde;o Paulo era de 335.344 pessoas em 1980 (aumento de quase 500% em rela&ccedil;&atilde;o aos n&uacute;meros referentes a 1974), 711.032 em 1991 e 747.322 em 1996 (Pasternak, 2001:16) [<a name="top4" id="top4"></a><a href="#4">4</a>]. </p>     <p> A mesma autora fala de um crescimento das favelas de 3,06% de 1991 a 1996 em anel perif&eacute;rico da cidade de S&atilde;o Paulo, sendo negativo o crescimento em seus an&eacute;is centrais, algo que demonstra a expuls&atilde;o dos pobres para as bordas da cidade e espraiamento urbano (Pasternak, 2001: 17). </p>     <p> No final dos anos de 1960 e ao longo da d&eacute;cada de 1970, no Rio de Janeiro, o arquiteto Carlos Nelson Ferreira dos Santos (que foi assessor de uma organiza&ccedil;&atilde;o de favelas [<a name="top5" id="top5"></a><a href="#5">5</a>] e trabalhou num &oacute;rg&atilde;o p&uacute;blico que se dedicava a lidar com elas [<a name="top6" id="top6"></a><a href="#6">6</a>]), j&aacute; chamava a aten&ccedil;&atilde;o para o que via como uma constru&ccedil;&atilde;o coletiva com intensas rela&ccedil;&otilde;es, que deveriam ser compreendidas e n&atilde;o desprezadas como era de praxe – suas contribui&ccedil;&otilde;es e levantamentos de favelas cariocas (como Br&aacute;s de Pina e Catacumba) foram inaugurais na mudan&ccedil;a de paradigma da a&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica em favelas, algo que em S&atilde;o Paulo teve reflexos nos anos de 1980. </p>     <p> Os movimentos sociais na cidade de S&atilde;o Paulo nasceram, de uma forma geral, a partir das Comunidades Eclesiais de Base (CEB) surgidas nos anos 1970 e ligadas &agrave; Igreja Cat&oacute;lica, e foram fortalecidos com a redemocratiza&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s a partir dos anos 1980. Entre eles cabe destacar o MDF - Movimento de Defesa do Favelado, que se estabelece desde 1978 no sentido de lutar por melhorias nas favelas paulistanas. Alguns anos depois do seu surgimento (j&aacute; no final da d&eacute;cada de 1980), nasce a UMM - Uni&atilde;o dos Movimentos de Moradia, entidade que acolheria uma s&eacute;rie de movimentos que buscavam melhores condi&ccedil;&otilde;es de vida para a popula&ccedil;&atilde;o pobre, com &ecirc;nfase no direito a uma moradia digna. </p>     <p> Desde os anos 2000 que os movimentos de moradia passam a reivindicar habita&ccedil;&atilde;o para os pobres em &aacute;reas centrais e pr&oacute;ximas ao emprego. Surgem Pol&iacute;ticas P&uacute;blicas de provis&atilde;o de habita&ccedil;&atilde;o social no centro paulistano e ocupa&ccedil;&otilde;es de edif&iacute;cios subutilizados ou vazios tamb&eacute;m se tornam uma constante na paisagem urbana central da cidade. Assim, desde a primeira d&eacute;cada do s&eacute;culo XXI que edif&iacute;cios no centro paulistanos t&ecirc;m sido convertidos em habita&ccedil;&atilde;o de interesse social, a partir de reformas com atualiza&ccedil;&atilde;o de sistemas prediais – processos atualmente chamados de retrofit (<a href="#f3">Figura 3</a>) - que se defrontam com dificuldades quanto &agrave; aprova&ccedil;&atilde;o dos projetos em fun&ccedil;&atilde;o de nova legisla&ccedil;&atilde;o, que muitas vezes torna as obras excessivamente onerosas. Por outro lado, as ocupa&ccedil;&otilde;es de edif&iacute;cios foram-se consolidando como realidade paulistana, sendo uma maneira de chamar a aten&ccedil;&atilde;o para os movimentos de moradia, j&aacute; que ocupar no centro paulistano ganha uma ampla divulga&ccedil;&atilde;o, diferente do impacto da ocupa&ccedil;&atilde;o de terrenos nas bordas da cidade (<a href="#f4">Figura 4</a>). Os movimentos de moradia, de uma forma geral, t&ecirc;m origem em bairros afastados do centro paulistano e, mesmo atualmente, grande parte dos seus participantes ocupa terrenos distantes dos bairros centrais. </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f3" id="f3"></a><img src="/img/revistas/cct/n40/n40a15f3.jpg"/>     
<p>&nbsp;</p> <a name="f4" id="f4"></a><img src="/img/revistas/cct/n40/n40a15f4.jpg"/>     
<p>&nbsp;</p>     <p> Alguns planos, programas e projetos habitacionais t&ecirc;m sido empreendidos ou facilitados pelo Poder P&uacute;blico em S&atilde;o Paulo desde a extin&ccedil;&atilde;o do BNH no final dos anos 1980, o que resultou em alguns conjuntos habitacionais de grande qualidade arquitet&oacute;nica. Tamb&eacute;m o Programa Minha Casa Minha Vida (PMCMV) produziu, na sua modalidade Entidade, importantes conjuntos de boa qualidade na cidade, n&atilde;o obstante a dificuldade em construir em S&atilde;o Paulo devido aos custos envolvidos. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> O PMCMV como um todo, no entanto, n&atilde;o contribuiu propriamente para qualificar as &aacute;reas onde os empreendimentos s&atilde;o implantados e reduzir a sua precariedade (Rolnik, 2015). A maior parte desses empreendimentos s&atilde;o erguidos por construtoras (modalidade Empresas) associadas ao que Rolnik refere como parte do complexo imobili&aacute;rio-financeiro que se estabeleceu com vigor no Brasil nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas: &ldquo;A forma do condom&iacute;nio fechado e murado, obrigat&oacute;ria para conjuntos verticais do programa, reproduz enclaves fortificados sobre um tecido urbano – das periferias consolidadas – fragmentado e desconexo, n&atilde;o contribuindo para transform&aacute;-lo ou qualific&aacute;-lo&rdquo; (2015: 314). </p>     <p> Complementarmente ao exposto verifica-se uma tens&atilde;o cont&iacute;nua em S&atilde;o Paulo quanto &agrave;s transforma&ccedil;&otilde;es urbanas em rela&ccedil;&atilde;o ao lugar dos pobres na cidade. As margens ou bordas da cidade, internas ou externas, t&ecirc;m sido os lugares permitidos &agrave; popula&ccedil;&atilde;o pobre, desde os libertos e m&atilde;o de obra imigrante na viragem do s&eacute;culo XIX para o XX, aos migrantes brasileiros que desde meados do s&eacute;culo XX t&ecirc;m abandonado o campo para se lan&ccedil;arem &agrave; aventura na cidade/metr&oacute;pole brasileira. Toda esta popula&ccedil;&atilde;o tem sido entendida como reserva de m&atilde;o de obra barata para servi&ccedil;os, constru&ccedil;&atilde;o civil e ind&uacute;stria, vivendo em margens ou interst&iacute;cios que s&atilde;o ocupados e crescem &laquo;sem Estado e sem Mercado&raquo; em &aacute;reas de risco geol&oacute;gico ou ambientalmente fr&aacute;geis (Maricato, 2003: 154). Estes espa&ccedil;os correspondem &agrave; &laquo;cidade informal&raquo;, como se n&atilde;o tivessem forma pr&oacute;pria. Hoje fala-se de &aacute;reas de ocupa&ccedil;&atilde;o prec&aacute;ria na Macrometr&oacute;pole paulista, j&aacute; que o fen&oacute;meno das ocupa&ccedil;&otilde;es prec&aacute;rias passou a ter essa escala, com densifica&ccedil;&atilde;o de favelas existentes e ocupa&ccedil;&otilde;es de terras em v&aacute;rios munic&iacute;pios, num padr&atilde;o de moradia e urbaniza&ccedil;&atilde;o com precariedades. </p>     <p>&nbsp; </p>     <p><font size="3"><b>Terra de quem? A quest&atilde;o fundi&aacute;ria no pa&iacute;s</b></font> </p>     <p> O Brasil resulta de uma &laquo;ocupa&ccedil;&atilde;o&raquo; com pouco mais de 500 anos. Nesse sentido, a maneira como os povos origin&aacute;rios s&atilde;o tratados n&atilde;o deixa de ser emblem&aacute;tica, j&aacute; que quem ali habita desde tempos imemoriais tem que lutar para garantir o seu modo de vida, que n&atilde;o tem como prerrogativa a posse da terra, nos termos da propriedade documentada em cart&oacute;rio – forma de propriedade que se efetiva no Brasil a partir da Lei de Terras, no s&eacute;culo XIX. Antes desta Lei, a terra era uma concess&atilde;o, pertencendo em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, &agrave; Coroa (primeiro &agrave; Coroa portuguesa e, depois da Independ&ecirc;ncia, &agrave; Coroa brasileira). Nos primeiros s&eacute;culos da experi&ecirc;ncia colonial portuguesa na Am&eacute;rica do Sul, os donat&aacute;rios de terra escolhidos pela Coroa podiam conceder a posse da terra e tinham o direito de estabelecer vilas. </p>     <p> O modelo atualmente vigente, derivado das transforma&ccedil;&otilde;es decorrentes da Lei de Terras e referendado pela Rep&uacute;blica proclamada no final do s&eacute;culo XIX, trata a terra como patrim&oacute;nio inviol&aacute;vel e como mercadoria. A origem da propriedade da terra no Brasil, no entanto, &eacute; a posse e a ocupa&ccedil;&atilde;o em tempos antigos. N&atilde;o raramente surgem situa&ccedil;&otilde;es em que documentos de posse t&ecirc;m base em declara&ccedil;&otilde;es de presen&ccedil;a atestada de muitos anos num determinado terreno. H&aacute; grandes disputas e resist&ecirc;ncias quanto a esses t&iacute;tulos de propriedade. Ao mesmo tempo persistem no Brasil outros modelos de propriedade: a concess&atilde;o segue quanto &agrave;s terras nas faixas marinhas e ilhas. Terras p&uacute;blicas t&ecirc;m sido tamb&eacute;m, em algumas cidades brasileiras, objeto de termos de concess&atilde;o de uso por parte de popula&ccedil;&atilde;o de poucos recursos que as ocupam, gra&ccedil;as a instrumentos criados a partir de marcos regulat&oacute;rios recentes e socialmente comprometidos. A terra, no entanto, segue como uma grande limita&ccedil;&atilde;o na busca por igualdade de condi&ccedil;&otilde;es para a popula&ccedil;&atilde;o brasileira em geral, paulistana em particular. </p>     <p> De quem &eacute; a terra? Esta &eacute; uma pergunta que fica frequentemente no ar. A Constitui&ccedil;&atilde;o Federal Brasileira de 1988 trouxe a perspectiva da Fun&ccedil;&atilde;o Social da Propriedade – algo regulado no Estatuto da Cidade, um marco referencial no pa&iacute;s que foi base para muitas a&ccedil;&otilde;es no sentido de consolidar locais de moradia dos pobres, habitualmente removidos em opera&ccedil;&otilde;es impiedosas envolvendo a pol&iacute;cia. A terra, na nova concep&ccedil;&atilde;o, tem que servir &agrave; sociedade como um todo e n&atilde;o dever&aacute; ser tratada como privil&eacute;gio de poucos. A concentra&ccedil;&atilde;o de terras no Brasil em m&atilde;os de um pequeno grupo &eacute; um paradoxo a ser enfrentado. Levanta-se a perspectiva de que os propriet&aacute;rios s&atilde;o zeladores das terras, mas o seu uso dever&aacute; ter indica&ccedil;&atilde;o social, em resultado de pacto coletivo e democr&aacute;tico. </p>     <p> Um dos procedimentos para lidar com a quest&atilde;o da habita&ccedil;&atilde;o em S&atilde;o Paulo tem sido a regulariza&ccedil;&atilde;o fundi&aacute;ria, cuja defesa &eacute; associada a um projeto de urbaniza&ccedil;&atilde;o quando necess&aacute;rio, mas que em geral traz &agrave; luz a quest&atilde;o da seguran&ccedil;a da manuten&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o pobre em bairros e casas de autoconstru&ccedil;&atilde;o, onde frequentemente as redes de infraestrutura e equipamentos j&aacute; foram instalados, mas a aus&ecirc;ncia da posse fragiliza fam&iacute;lias que ali vivem algumas vezes h&aacute; algumas gera&ccedil;&otilde;es. </p>     <p> H&aacute; nas pol&iacute;ticas p&uacute;blicas brasileiras uma &ecirc;nfase na ideia de propriedade individual da terra, deixando-se de lado outras possibilidades, como a manuten&ccedil;&atilde;o da condi&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica de conjuntos edificados a partir de recursos governamentais, que poderiam ser geridos atrav&eacute;s de programas de loca&ccedil;&atilde;o social, numa parceria com movimentos sociais organizados. Nesse sentido, Rolnik refere que &ldquo;(...) o sistema oficial de financiamento da habita&ccedil;&atilde;o e do desenvolvimento urbano federal (...) jamais reconheceu outros instrumentos que n&atilde;o a propriedade plena escriturada como pass&iacute;veis de garantir a total seguran&ccedil;a da posse, apesar de o ordenamento jur&iacute;dico incluir outros instrumentos.&rdquo; (2015: 321) </p>     <p>&nbsp; </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>Caracter&iacute;sticas das favelas paulistanas</b></font> </p>     <p align="right"> &ldquo;Quando eu vou na cidade tenho a impress&atilde;o que estou no paraizo [sic]. Acho sublime ver aquelas mulheres e crian&ccedil;as t&atilde;o bem vestidas. T&atilde;o diferente da favela. As casas com seus vasos de flores e suas cores variadas. Aquelas paisagens h&aacute; [sic] de encantar os olhos dos visitantes de S&atilde;o Paulo, que ignoram que a cidade mais afamada da Am&eacute;rica do Sul est&aacute; enferma. Com as suas &uacute;lceras. As favelas.&rdquo; </p>     <p align="right"> Jesus, p.76, referente ao dia 7 de Julho de 1958 </p>     <p> Carolina de Jesus, no seu di&aacute;rio cujo fragmento est&aacute; acima reproduzido, refere-se &agrave;s favelas paulistanas da d&eacute;cada de 1950. O contraste entre elas e os bairros ditos formais mant&eacute;m-se, ainda que atualmente as favelas em S&atilde;o Paulo apresentem constru&ccedil;&otilde;es em alvenaria, em que tijolos cer&acirc;micos s&atilde;o assentados com argamassa de cimento, e tamb&eacute;m em lajes compostas por vigotas de cimento armado entremeadas de tijolos cer&acirc;micos. N&atilde;o &eacute; comum a utiliza&ccedil;&atilde;o de telhados sobre as lajes de cobertura. Habitualmente, estas lajes s&atilde;o base para futuras amplia&ccedil;&otilde;es, quando filhos ou parentes ali constroem as suas moradias. Tamb&eacute;m s&atilde;o utilizados pilares de bet&atilde;o com fun&ccedil;&atilde;o estabilizadora, de travamento, al&eacute;m de ajudar na resist&ecirc;ncia das paredes (<a href="#f5">Figura 5</a>). </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f5" id="f5"></a><img src="/img/revistas/cct/n40/n40a15f5.jpg"/>     
<p>&nbsp;</p>     <p> Raramente as constru&ccedil;&otilde;es recebem acabamentos – algumas vezes, apenas internamente e nas fachadas voltadas para as vias, sendo ent&atilde;o pintadas de cores variadas, algo que Carolina de Jesus admirava na &ldquo;cidade formal&rdquo; dos anos 1950. S&atilde;o utilizadas janelas e portas compradas a presta&ccedil;&otilde;es em lojas de material de constru&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o &eacute; rara a reutiliza&ccedil;&atilde;o de janelas e portas retiradas de im&oacute;veis reabilitados ou demolidos na dita &ldquo;cidade formal&rdquo;. </p>     <p> Contrariamente &agrave;s favelas da cidade at&eacute; aos anos 1980, a madeira &eacute; hoje pouco utilizada. Casas constru&iacute;das com placas de madeira s&atilde;o vistas nos lugares mais prec&aacute;rios das favelas: esp&eacute;cie de &laquo;favela dentro da favela&raquo; no interior do conjunto mais consolidado. </p>     <p> Ainda que com um aspecto frequentemente semelhante, as favelas em S&atilde;o Paulo s&atilde;o heterogeneas, albergando grupos sociais com diversos n&iacute;veis de rendimentos (tal como os bairros da &ldquo;cidade formal&rdquo;) e de diversas origens. H&aacute; por vezes a presen&ccedil;a destacada de pessoas com origem noutros Estados brasileiros ou cidade espec&iacute;fica, mas a grande maioria dos seus moradores j&aacute; &eacute; paulistana h&aacute; pelo menos uma gera&ccedil;&atilde;o. </p>     <p> As escolas est&atilde;o presentes em quase toda a malha urbana paulistana, com exce&ccedil;&atilde;o das creches, que n&atilde;o atendem plenamente a demanda. A qualidade do ensino &eacute; ainda um desafio, mas existem equipamentos educacionais nos bairros pobres perif&eacute;ricos e nos arredores das favelas. Os postos de sa&uacute;de e hospitais n&atilde;o t&ecirc;m a mesma incid&ecirc;ncia nos bairros populares paulistanos, ainda que esfor&ccedil;os nesse sentido tenham sido feitos nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas. Organiza&ccedil;&otilde;es N&atilde;o Governamentais (ONG) e institui&ccedil;&otilde;es religiosas realizam trabalhos de inclus&atilde;o social, com capacita&ccedil;&atilde;o para o trabalho, educa&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica e musical, apoio espiritual e refor&ccedil;o escolar. H&aacute; ativistas que t&ecirc;m procurado inserir na agenda desses bairros a produ&ccedil;&atilde;o de alimentos e cuidados com o meio ambiente. Hortas na periferia s&atilde;o vistas com certa frequ&ecirc;ncia atualmente, muitas em terrenos sob linhas el&eacute;tricas de alta tens&atilde;o. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Os res&iacute;duos s&atilde;o igualmente um problema vis&iacute;vel, j&aacute; que nas favelas a recolha n&atilde;o &eacute; sempre regular e os locais de acomoda&ccedil;&atilde;o dos sacos de lixo s&atilde;o muitas vezes inadequados. Continua a observar-se um lan&ccedil;amento intenso de res&iacute;duos nas ruas e rios. Contudo, o grande desafio &eacute; sensibilizar tanto os residentes dos bairros pobres como dos ricos para este problema, ainda que nestes &uacute;ltimos haja uma log&iacute;stica convencional de limpeza mais estruturada. No &acirc;mbito do Poder P&uacute;blico paulistano t&ecirc;m surgido esfor&ccedil;os no sentido de ampliar a recolha e universaliza&ccedil;&atilde;o do servi&ccedil;o de limpeza p&uacute;blica, que costuma chegar tardiamente em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; ocupa&ccedil;&atilde;o dos bairros perif&eacute;ricos e ser pouco eficaz nas condi&ccedil;&otilde;es existentes nas favelas. </p>     <p> Muito frequentes s&atilde;o as atividades relacionadas com a chamada &laquo;economia informal&raquo; entre os habitantes das favelas e das ocupa&ccedil;&otilde;es centrais (grande percentagem dos moradores das ocupa&ccedil;&otilde;es dedica-se &agrave; venda ambulante), ainda que haja tamb&eacute;m muitos desempregados e mesmo empregados formalizados. O n&iacute;vel de desemprego no Brasil mant&eacute;m-se elevado e o aumento do n&uacute;mero de pessoas em situa&ccedil;&atilde;o de sem-abrigo denuncia dificuldades encontradas pela popula&ccedil;&atilde;o pobre da cidade. H&aacute; tamb&eacute;m um vis&iacute;vel aumento de popula&ccedil;&atilde;o em algumas favelas, com press&atilde;o por ocupa&ccedil;&atilde;o de &aacute;reas prestadoras de servi&ccedil;os ambientais, em geral geologicamente fr&aacute;geis. </p>     <p> Perante o cen&aacute;rio descrito justifica-se ainda pensar nas favelas nos termos em que Carolina Maria de Jesus a elas se referiu, como a &uacute;lcera da cidade ou o seu &ldquo;quarto de despejo&rdquo;? </p>     <p>&nbsp; </p>     <p><font size="3"><b>Espa&ccedil;o p&uacute;blico nos bairros populares prec&aacute;rios</b></font> </p>     <p> De uma forma geral, os espa&ccedil;os p&uacute;blicos nas favelas s&atilde;o os caminhos de acesso &agrave;s casas (Figuras <a href="#f6">6</a> e <a href="#f7">7</a>). Tal como nas vilas tradicionais brasileiras, por vezes h&aacute; alguns largos – alargamentos dos caminhos que se consolidam como lugar de encontro, n&atilde;o raro com a presen&ccedil;a de um bar ou estabelecimento comercial. </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f6" id="f6"></a><img src="/img/revistas/cct/n40/n40a15f6.jpg"/>     
<p>&nbsp;</p> <a name="f7" id="f7"></a><img src="/img/revistas/cct/n40/n40a15f7.jpg"/>     
<p>&nbsp;</p>     <p> A grande exce&ccedil;&atilde;o &eacute; o campo de futebol, espa&ccedil;o quase sagrado que se mant&eacute;m livre no interior da intensa disputa por &aacute;reas para constru&ccedil;&otilde;es. As favelas paulistanas s&atilde;o frequentemente constru&iacute;das junto a c&oacute;rregos ou mesmo cursos de &aacute;gua de maior porte, junto dos quais ora se encontram caminhos um pouco mais largos, com a presen&ccedil;a da &aacute;gua em geral polu&iacute;da e onde se lan&ccedil;am res&iacute;duos de todo tipo, ora casas que se sobrep&otilde;em &agrave;s &aacute;guas e se tornam suscet&iacute;veis de serem carregadas por enxurradas. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Os espa&ccedil;os entendidos como p&uacute;blicos – caminhos, raros largos e campos de futebol – s&atilde;o muito frequentados pelas crian&ccedil;as, que s&atilde;o observadas e socialmente controladas pelos moradores. Os forasteiros ali s&atilde;o rapidamente identificados. H&aacute;, por vezes, uma interdi&ccedil;&atilde;o velada quanto a aceder a determinadas zonas da favela quando dominadas pelo crime organizado ou mesmo por pequenos infratores, mas de uma forma geral, em S&atilde;o Paulo &eacute; relativamente fluida a transi&ccedil;&atilde;o entre estes bairros pobres e a cidade dita formal. Contudo, existem &laquo;muros socioculturais&raquo; percebidos no preconceito contra o morador da favela, que frequentemente vive em constru&ccedil;&otilde;es muito semelhantes aos vizinhos da suposta &laquo;cidade formal&raquo;, esta constru&iacute;da a partir de loteamentos perif&eacute;ricos, muitos deles realizados ilegalmente, sem que seus empreendedores tivessem a propriedade da terra retalhada e vendida. </p>     <p> Na periferia de S&atilde;o Paulo e tamb&eacute;m nas suas favelas percebe-se um reflexo da desigualdade racial brasileira. N&atilde;o existe, no entanto, uma condi&ccedil;&atilde;o marcada de gueto como nas cidades norte-americanas, mas a igualdade &eacute; visivelmente problem&aacute;tica nesse sentido. </p>     <p> O sistema vi&aacute;rio urbano perde geralmente continuidade quando chega na favela devido a uma s&eacute;rie de circunst&acirc;ncias – uma das diretrizes de obras de urbaniza&ccedil;&atilde;o nas favelas &eacute; a de conquistar, atrav&eacute;s de sua articula&ccedil;&atilde;o com vias no seu entorno, uma maior integra&ccedil;&atilde;o dos caminhos com os bairros pr&oacute;ximos. H&aacute; um com&eacute;rcio vibrante em muitas das favelas paulistanas e os moradores do seu entorno tamb&eacute;m se utilizam dele. </p>     <p> As obras de infraestrutura na favela contam tamb&eacute;m com a consolida&ccedil;&atilde;o de caminhos internos e ordena&ccedil;&atilde;o de redes relacionadas com servi&ccedil;os p&uacute;blicos. Assim sendo, para um manejo de &aacute;guas pluviais e racionaliza&ccedil;&atilde;o do sistema de tubula&ccedil;&otilde;es e fia&ccedil;&otilde;es, tem sido desenvolvido em S&atilde;o Paulo um conhecimento t&eacute;cnico de como estabelecer canteiros de obra e avan&ccedil;ar com transforma&ccedil;&otilde;es dos espa&ccedil;os de circula&ccedil;&atilde;o, levando em considera&ccedil;&atilde;o condicionantes locais como dimens&otilde;es e geometria pr&oacute;prias, al&eacute;m de atentar para um cotidiano que n&atilde;o poder&aacute; ser interrompido. Outra prerrogativa das obras em favelas &eacute; a elimina&ccedil;&atilde;o do risco: geol&oacute;gico, de inc&ecirc;ndio, de afundamentos resultantes de eros&atilde;o em fun&ccedil;&atilde;o das &aacute;guas e visando a sa&uacute;de da popula&ccedil;&atilde;o. Grandes conhecedores da realidade das favelas paulistanas s&atilde;o, nesse sentido, os agentes p&uacute;blicos de sa&uacute;de e com um papel fundamental para a compreens&atilde;o de processos e de projetos que buscam melhorias. </p>     <p> H&aacute; poucas &aacute;rvores nos espa&ccedil;os p&uacute;blicos das favelas e a sua arboriza&ccedil;&atilde;o &eacute; tamb&eacute;m um grande desafio. Obras de urbaniza&ccedil;&atilde;o t&ecirc;m inserido nas favelas espa&ccedil;os de brincadeira para as crian&ccedil;as e algumas pra&ccedil;as, mas permanecem problemas antigos: a ilumina&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica &eacute; pouco frequente fora das vias de circula&ccedil;&atilde;o de ve&iacute;culos; o esgoto &eacute; habitualmente lan&ccedil;ado <i>in natura</i> nos rios e ribeir&otilde;es. Segue como um desafio encontrar possibilidades de redesenho das favelas sem que a cidade formal (que necessita de revis&atilde;o de paradigmas) siga como par&acirc;metro dominante. </p>     <p> Diferente de algumas situa&ccedil;&otilde;es na &Iacute;ndia, em S&atilde;o Paulo (e no Brasil, em geral) as favelas n&atilde;o s&atilde;o lugar de produ&ccedil;&atilde;o relacionada com a ind&uacute;stria. Em bairros mais centrais, onde h&aacute; uma presen&ccedil;a expressiva de corti&ccedil;os, existem pequenas oficinas em que se realizam etapas de produ&ccedil;&atilde;o, sobretudo da ind&uacute;stria t&ecirc;xtil. Nessas oficinas, algumas vezes os trabalhadores (muitos dos quais imigrantes n&atilde;o legalizados que t&ecirc;m sido tratados como uma inaceit&aacute;vel vers&atilde;o contempor&acirc;nea de m&atilde;o de obra escrava) dormem em ambientes insalubres. Mas essa pr&aacute;tica n&atilde;o acontece, ao menos de forma significativa, nas favelas ou bairros perif&eacute;ricos. </p>     <p> Os equipamentos e a infraestrutura chegam sempre tardiamente &agrave;s periferias e favelas de S&atilde;o Paulo. Mas existem favelas j&aacute; mais consolidadas e onde j&aacute; se realizam obras h&aacute; algumas d&eacute;cadas. H&aacute; outras ainda sem interven&ccedil;&atilde;o alguma por parte do Estado. Desde os anos 1980, quando mudou o paradigma de remo&ccedil;&atilde;o como princ&iacute;pio para urbaniza&ccedil;&atilde;o e com remo&ccedil;&atilde;o apenas em situa&ccedil;&otilde;es extremas, o Estado tem-se ocupado mais das favelas. Equipamentos p&uacute;blicos t&ecirc;m sido instalados, ainda que frequentemente sem recursos suficientes para fornecerem servi&ccedil;os de qualidade. Uma honrosa exce&ccedil;&atilde;o s&atilde;o os CEU (Centros de Educa&ccedil;&atilde;o Unificada), grandes escolas com biblioteca, teatro e &aacute;rea desportiva utilizada pelos moradores do entorno, que representam uma a&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica marcante no sentido de uma nova possibilidade urbana (<a href="#f8">Figura 8</a>). </p>     <p align="center">     <p>&nbsp;</p> <a name="f8" id="f8"></a><img src="/img/revistas/cct/n40/n40a15f8.jpg"/>     
<p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> As transforma&ccedil;&otilde;es nas favelas, no &acirc;mbito de projetos provenientes tanto do Poder P&uacute;blico como da Academia, s&atilde;o frequentemente objeto de avalia&ccedil;&atilde;o quanto a serem alvo de melhorias em detrimento da demoli&ccedil;&atilde;o de formas de espacializa&ccedil;&atilde;o produzidas pelos pr&oacute;prios usu&aacute;rios. Isto tamb&eacute;m resulta da exist&ecirc;ncia de uma Cultura da Favela que cada vez mais se afirma, com o rap, o graffiti, modo de vestir e falar, e que se estende para a compreens&atilde;o da sua forma como detentora de valor. Algumas r&aacute;dios comunit&aacute;rias persistem, ainda que tenham sido mais populares h&aacute; algumas d&eacute;cadas. Acontecem nas favelas festas que se tornam grandes eventos, com nomes conhecidos no cen&aacute;rio musical. H&aacute; mesmo alguns saraus de poesia e literatura, que embora ainda em pequeno n&uacute;mero, demonstram um potencial vigoroso. </p>     <p>&nbsp; </p>     <p><font size="3"><b>Pol&iacute;ticas p&uacute;blicas </b></font> </p>     <p align="right"> &ldquo;Conversei com um senhor. Disse-me que circula um boato que a favela vai acabar porque v&atilde;o fazer avenida. Ele disse que n&atilde;o &eacute; pra j&aacute;. Que a Prefeitura est&aacute; sem dinheiro.&rdquo; </p>     <p align="right"> Jesus, p. 115, referente ao dia 2 de Novembro de 1958 </p>     <p> Em meados dos anos 1980 iniciou-se a pr&aacute;tica de urbaniza&ccedil;&atilde;o de favelas na &aacute;rea metropolitana da Grande S&atilde;o Paulo, tendo sido precursor o munic&iacute;pio de Diadema. O munic&iacute;pio de S&atilde;o Paulo teve uma s&eacute;rie de a&ccedil;&otilde;es no sentido de tratar de bairros populares durante o per&iacute;odo da prefeita Lu&iacute;za Erundina (1989-92), assistente social de forma&ccedil;&atilde;o, afeita &agrave;s dificuldades vividas pela popula&ccedil;&atilde;o pobre paulistana. A crise econ&oacute;mica de ent&atilde;o n&atilde;o foi obst&aacute;culo para a&ccedil;&otilde;es de apoio a movimentos de moradia, que se organizaram atrav&eacute;s do que no Brasil se denominam mutir&otilde;es (quando trabalhos s&atilde;o feitos coletivamente, em prol da comunidade) e contaram com grupos de assist&ecirc;ncia t&eacute;cnica na recomposi&ccedil;&atilde;o de &aacute;reas ocupadas, constru&ccedil;&atilde;o de conjuntos de reassentamento e instala&ccedil;&atilde;o de infraestrutura, com os pr&oacute;prios futuros moradores trabalhando como oper&aacute;rios. </p>     <p> Essa importante fase no munic&iacute;pio de S&atilde;o Paulo foi interrompida por uma mudan&ccedil;a na pol&iacute;tica local: conjuntos habitacionais semelhantes ao que se produziu durante a exist&ecirc;ncia do BNH foram ent&atilde;o retomados como forma de superar os impasses sociais com que a cidade se deparava. </p>     <p> Nos anos 2000, com a consolida&ccedil;&atilde;o, atrav&eacute;s do Estatuto da Cidade (lei federal), do instrumento representado pelas Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS), a quest&atilde;o dos bairros populares chega efetivamente aos Planos Diretores em S&atilde;o Paulo (<a href="#f9">Figura 9</a>). </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f9" id="f9"></a><img src="/img/revistas/cct/n40/n40a15f9.jpg"/>     
<p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> &Aacute;reas demarcadas como ZEIS representam per&iacute;metros onde a popula&ccedil;&atilde;o residente, de poucos recursos, est&aacute; de certa forma protegida contra remo&ccedil;&otilde;es (h&aacute; tamb&eacute;m ZEIS que demarcam &aacute;reas destinadas &agrave; constru&ccedil;&atilde;o de conjuntos habitacionais de interesse social). </p>     <p> Outro instrumento que tamb&eacute;m se estabelece &eacute; o das Opera&ccedil;&otilde;es Urbanas Consorciadas (OUC), de est&iacute;mulo a transforma&ccedil;&otilde;es urbanas, sendo um dos seus objetivos destinar fundos obtidos para a produ&ccedil;&atilde;o de Habita&ccedil;&atilde;o de Interesse Social (HIS). Este objetivo foi pouco concretizado, o que denuncia a sua vincula&ccedil;&atilde;o, de forma n&atilde;o t&atilde;o expl&iacute;cita, com um modelo de financeiriza&ccedil;&atilde;o da cidade sem um olhar cuidadoso para a popula&ccedil;&atilde;o, em especial para comunidades vulner&aacute;veis. Na OUC Faria Lima foram destinados fundos para constru&ccedil;&atilde;o de HIS no Real Parque, um bairro fora do seu per&iacute;metro. Na OUC &Aacute;gua Espraiada foram constru&iacute;dos alguns conjuntos, mas foi not&oacute;ria a expuls&atilde;o de antigos moradores das favelas da regi&atilde;o atrav&eacute;s da compra dos seus barracos e oferta de apartamentos em bairros distantes. </p>     <p> A Secretaria de Habita&ccedil;&atilde;o (SEHAB) do munic&iacute;pio de S&atilde;o Paulo desenvolveu, em anos recentes, uma s&eacute;rie de a&ccedil;&otilde;es no sentido de racionalizar o atendimento por parte do Poder P&uacute;blico aos ditos bairros prec&aacute;rios. Foram realizados v&aacute;rios projetos e conjuntos de not&aacute;vel qualidade arquitet&oacute;nica (<a href="#f10">Figura 10</a>) e um Plano de Habita&ccedil;&atilde;o Municipal (PMH) concebido no sentido de organizar a&ccedil;&otilde;es e obras ao longo das gest&otilde;es seguintes. </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f10" id="f10"></a><img src="/img/revistas/cct/n40/n40a15f10.jpg"/>     
<p>&nbsp;</p>     <p> Conjuntos semelhantes aos realizados sob o BNH e PMCMV na sua modalidade Empresas continuam sendo constru&iacute;dos pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) do Estado de S&atilde;o Paulo, ainda que com esfor&ccedil;os renovados no sentido de maior qualidade da constru&ccedil;&atilde;o e com ado&ccedil;&atilde;o de t&eacute;cnicas de redu&ccedil;&atilde;o de consumo energ&eacute;tico e produ&ccedil;&atilde;o de energia de fontes alternativas. Curiosamente, a origem do CDHU foi a CECAP (Caixa Estadual de Casas para o Povo), atrav&eacute;s da qual se produziu um dos conjuntos habitacionais emblem&aacute;ticos da Arquitetura moderna em S&atilde;o Paulo, o CECAP Guarulhos, projeto de equipe coordenada pelo arquiteto Jo&atilde;o Vilanova Artigas (<a href="#f11">Figura 11</a>). </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f11" id="f11"></a><img src="/img/revistas/cct/n40/n40a15f11.jpg"/>     
<p>&nbsp;</p>     <p> Resultado do Plano Diretor de S&atilde;o Paulo de 2004, ratificado pelo Plano de 2014, o Conselho de Habita&ccedil;&atilde;o do Munic&iacute;pio de S&atilde;o Paulo (com assentos de lideran&ccedil;as de movimentos de moradia, Universidade, sociedade civil e &oacute;rg&atilde;os p&uacute;blicos) &eacute; um <i>locus</i> importante para a discuss&atilde;o de caminhos para o enfrentamento da quest&atilde;o habitacional numa das maiores aglomera&ccedil;&otilde;es humanas do planeta. Os fundos com os quais trabalha, no entanto, n&atilde;o fazem jus &agrave; dimens&atilde;o do d&eacute;ficit habitacional paulistano e aguarda-se uma maior consolida&ccedil;&atilde;o desse importante instrumento. </p>     <p>&nbsp; </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>Perspectivas</b></font> </p>     <p> Como superar a imagem apresentada por Carolina Maria de Jesus em seu di&aacute;rio, de que &ldquo;a cidade &eacute; um morcego que chupa nosso sangue&rdquo; (Jesus, referente ao dia 13 de Julho de 1959), quando a autora se refere aos moradores das favelas e, por extens&atilde;o, aos bairros populares de forma geral? Uma imagem corroborada pela vis&atilde;o apresentada por Rolnik, ao referir-se a paradoxos recentes que deixam antever o processo de financeiriza&ccedil;&atilde;o da terra e da moradia no Brasil: &ldquo;(...) no final dos anos 1990 e in&iacute;cio dos anos 2000, quando foram ampliados os recursos p&uacute;blicos dispon&iacute;veis para a urbaniza&ccedil;&atilde;o de assentamentos, o que se observa &eacute; a desconstitui&ccedil;&atilde;o de processos e f&oacute;runs participativos, a urbaniza&ccedil;&atilde;o seletiva de favelas e processos massivos de remo&ccedil;&atilde;o em decorr&ecirc;ncia da implementa&ccedil;&atilde;o de projetos e obras, muitas vezes com uso da viol&ecirc;ncia.&rdquo; (2015: 321) </p>     <p> Quais seriam, assim, as perspectivas para os bairros populares paulistanos – loteamentos perif&eacute;ricos e favelas? H&aacute; resist&ecirc;ncias quanto &agrave;s transforma&ccedil;&otilde;es no sentido de submeter a cidade a um lugar de extra&ccedil;&atilde;o de renda. H&aacute; perspectivas divergentes mas verifica-se um &ldquo;(...) modelo (...) organizado sob os imperativos de uma economia neoliberal globalizada, controlada pelo sistema financeiro, (...) [que] vai penetrando nas cidades e nas pol&iacute;ticas urbanas de moradia, capturando territ&oacute;rios, expulsando e colonizando espa&ccedil;os e formas de viver&rdquo; (Rolnik, 2015: 373). Paralelamente, tamb&eacute;m se observam muitos coletivos e ativistas naqueles bairros, algo que faz pensar em a&ccedil;&otilde;es base-topo que devem ser amparadas pela legisla&ccedil;&atilde;o e por Pol&iacute;ticas P&uacute;blicas. Entende-se que h&aacute; uma complementaridade destas com as a&ccedil;&otilde;es locais, de vi&eacute;s art&iacute;stico, associadas &agrave; Permacultura e &agrave; busca por uma condi&ccedil;&atilde;o ecol&oacute;gica, entre tantas. Existem organiza&ccedil;&otilde;es ligadas &agrave; Igreja cat&oacute;lica, que mant&eacute;m creches, locais de apoio &agrave; comunidade entre outras a&ccedil;&otilde;es relevantes ao quotidiano daquelas popula&ccedil;&otilde;es. As ZEIS, enquanto garantia de que ocupa&ccedil;&otilde;es n&atilde;o ser&atilde;o removidas indiscriminadamente como no passado, s&atilde;o um marco referendado pelo Estatuto da Cidade e presente em Planos Diretores como o de S&atilde;o Paulo. A ideia &eacute; que essas &aacute;reas demarcadas como ZEIS sejam objeto de projeto, considerando a manuten&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o ali instalada. A Cultura de projeto para estas &aacute;reas n&atilde;o se efetivou ainda e h&aacute; um longo caminho a percorrer. Nessas zonas especiais h&aacute; a prerrogativa do estabelecimento de Conselhos participativos formados por lideran&ccedil;as locais – tampouco esses conselhos se disseminaram como seria necess&aacute;rio, possivelmente em decorr&ecirc;ncia do que Rolnik (2015) refere como efeito pol&iacute;tico-territorial de a&ccedil;&otilde;es do complexo imobili&aacute;rio-financeiro estabelecido no Brasil. Permanece o desafio da efetiva&ccedil;&atilde;o daqueles conselhos e, tamb&eacute;m o de serem inst&acirc;ncias representativas e deliberativas de facto, com poder decis&oacute;rio quanto &agrave; afecta&ccedil;&atilde;o de fundos e recursos. Nesse sentido &eacute; importante a identifica&ccedil;&atilde;o de agentes envolvidos na transforma&ccedil;&atilde;o destes bairros populares, clareza no debate e busca de pactos. &Eacute; igualmente fundamental a participa&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o local e a sua representa&ccedil;&atilde;o efetiva, junto com t&eacute;cnicos do Estado e da Universidade, e agentes relacionados como Mercado e institui&ccedil;&otilde;es financeiras. A presen&ccedil;a e equidade representativa de todos estes agentes &eacute; determinante para o sucesso de pactos a serem estabelecidos quanto a um futuro mais generoso e sustent&aacute;vel para os bairros populares, do ponto de vista social, econ&oacute;mico e ambiental. </p>     <p>&nbsp; </p>     <p><font size="3"><b>Refer&ecirc;ncias bibliogr&aacute;ficas</b></font> </p>     <!-- ref --><p> Bonduki, N. G. (1998) <i> Origens da habita&ccedil;&atilde;o social no Brasil, Arquitetura moderna, Lei do Inquilinato e difus&atilde;o da casa pr&oacute;pria S&atilde;o Paulo </i> . Esta&ccedil;&atilde;o Liberdade: FAPESP.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1701770&pid=S2182-3030202000010001500001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Governo do Brasil (2010) Censo Demogr&aacute;fico Brasil, dispon&iacute;vel em <a href="https://cidades.ibge.gov.br/" target="_blank">https://cidades.ibge.gov.br/</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1701772&pid=S2182-3030202000010001500002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p> Jesus, C. M. (1960) <i>Quarto de despejo. Edi&ccedil;&atilde;o Popular</i>, dispon&iacute;vel em <a         href="https://www.academia.edu/37114289/Quarto_de_despejo_Carolina_Maria_de_Jesus_1_" target="_blank"     > https://www.academia.edu/37114289/Quarto_de_despejo_Carolina_Maria_de_Jesus_1</a>, acesso em Novembro de 2019.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1701773&pid=S2182-3030202000010001500003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Maricato, E. (2003) &ldquo;Metr&oacute;pole, legisla&ccedil;&atilde;o e desigualdade&rdquo;, <i>Estudos Avan&ccedil;ados</i>,17. </p>     <!-- ref --><p> Movimento de Defesa do Favelado (s.d.), dispon&iacute;vel em <a href="https://www.mdf.org.br/historia" target="_blank"> https://www.mdf.org.br/historia </a> &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1701776&pid=S2182-3030202000010001500005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p> Pasternak, S. P. (2001) &ldquo;Favelas em S&atilde;o Paulo – censos, consensos e contra-sensos&rdquo;, <i>Cadernos Metr&oacute;pole</i>, 5, S&atilde;o Paulo: EDUC. </p>     <!-- ref --><p> Rolnik, R. (2015) <i> Guerra dos Lugares – a coloniza&ccedil;&atilde;o da terra e da moradia na era das finan&ccedil;as </i> , S&atilde;o Paulo: Boitempo.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1701778&pid=S2182-3030202000010001500007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p> TOLEDO, Benedito Lima de. S&atilde;o Paulo, tr&ecirc;s cidades em um s&eacute;culo. S&atilde;o Paulo: Cosac &amp; Naify, Duas Cidades, 2004.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Received: 09-11-2019; Accepted: 16-06-2020.</p>     <p>&nbsp;</p> </font>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">NOTAS</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"> <a name="2" id="2"></a>[<a href="#top2">2</a>] O di&aacute;rio de Carolina Maria de Jesus foi publicado em 1960 com o t&iacute;tulo Quarto de Despejo e refere-se a alguns dias de sua vida em S&atilde;o Paulo, na favela do Canind&eacute; (hoje desaparecida), em 1955 (15/07 a 28/07), e de forma mais ininterrupta de 02/05 de 1958 a 01/01 de 1960. Carolina nasceu em Minas Gerais e mudou-se para S&atilde;o Paulo, onde viveu em favelas grande parte do tempo. Seus di&aacute;rios foram publicados por um jornalista que percebeu o valor documental e de cr&ocirc;nica presente nos seus relatos e coment&aacute;rios, nos quais h&aacute; uma vis&atilde;o da favela a partir de seu &acirc;mago </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="3" id="32"></a>[<a href="#top3">3</a>] A regi&atilde;o &eacute; ocupada desde tempos remotos por povos origin&aacute;rios. J&aacute; no s&eacute;culo XVI se inicia a ocupa&ccedil;&atilde;o dos Campos de Piratininga por parte de colonos ib&eacute;ricos e jesu&iacute;tas. No seiscentos expande-se essa ocupa&ccedil;&atilde;o, quando se tem not&iacute;cia de ch&aacute;caras e pequenas aglomera&ccedil;&otilde;es na margem esquerda do rio Tiet&ecirc;. A funda&ccedil;&atilde;o de S&atilde;o Paulo de Piratininga, miss&atilde;o jesu&iacute;tica que se tornou cabe&ccedil;a de um sistema de miss&otilde;es na regi&atilde;o, foi em 1554. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="4" id="42"></a>[<a href="#top4">4</a>] Segundo o Censo Demogr&aacute;fico de 2010, o munic&iacute;pio de S&atilde;o Paulo tinha 11.253.503 habitantes (em 2019, a estimativa era a de sua popula&ccedil;&atilde;o ter aumentado para 12.252.023 pessoas), dos quais 31,6% vivem com um rendimento de at&eacute; 0,5 sal&aacute;rio m&iacute;nimo brasileiro, que corresponde a R$ 1.039,00 em 2020 (aproximadamente US$ 225.00 em Mar&ccedil;o de 2020) - o &iacute;ndice de pobreza no munic&iacute;pio indica que 30,02% (limite superior) de sua popula&ccedil;&atilde;o est&atilde;o abaixo da linha de pobreza. Essa porcentagem est&aacute; pr&oacute;xima dos 25% estimados pelo CEM (Centro de Estudos da Metr&oacute;pole) correspondentes &agrave; popula&ccedil;&atilde;o que vive em favelas e loteamentos irregulares - 14% em loteamentos irregulares e 11% aproximadamente vivendo em favelas, o que representa uma popula&ccedil;&atilde;o favelada de mais de 1,3 milh&otilde;es de pessoas, algo que indica um aumento de mais 170% nessa popula&ccedil;&atilde;o desde 1996, ainda que tenha sido verificada uma menor densidade nas favelas de forma geral, muito em fun&ccedil;&atilde;o de consolida&ccedil;&atilde;o de constru&ccedil;&otilde;es em alvenaria. Dados a partir de n&uacute;meros apresentados na postagem: <a                 href="http://agencia.fapesp.br/populacao-em-favelas-paulistanas-cresce-mais-do-que-no-restante-da-cidade/24676/" target="_blank"             > http://agencia.fapesp.br/populacao-em-favelas-paulistanas-cresce-mais-do-que-no-restante-da-cidade/24676/ </a> </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="5" id="52"></a>[<a href="#top5">5</a>] Federa&ccedil;&atilde;o de Favelas do Estado da Guanabara - Fafeg </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="6" id="6"></a>[<a href="#top6">6</a>] Companhia de Desenvolvimento de Comunidades - Codesco, com origem em um Grupo de Trabalho no &acirc;mbito da Companhia do Progresso do Estado da Guanabara - Copeg, em meados dos anos 1960, antes da incorpora&ccedil;&atilde;o do antigo Estado da Guanabara ao Estado do Rio de Janeiro </font></p>      ]]></body><back>
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