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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Da ficção cinematográfica à realidade pandémica: um ensaio sobre parasitas, vírus e outras maleitas]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[From cinematographic fiction to pandemic reality: an essay on parasites, viruses and other diseases]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana" size="2"><b>ENSAIO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p> <b><font face="Verdana" size="4">Da fic&ccedil;&atilde;o cinematogr&aacute;fica &agrave; realidade pand&eacute;mica: um ensaio sobre parasitas, v&iacute;rus e outras maleitas</font></b>     <p></p>     <p> <b><font face="Verdana" size="3"> From cinematographic fiction to pandemic reality: an essay on parasites, viruses and other diseases</font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font face="Verdana" size="2">Ana El&iacute;sia da Costa<a name="top1" id="top1"></a><a href="#1">I</a></font></b></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="1" id="1"></a>[<a href="#top1">I</a>]</font><font size="2" face="Verdana">Departamento de Arquitetura, Faculdade de Arquitetura - UFRGS, Brasil. e-mail: <a href="mailto:ana_elisia_costa@hotmail.com" target="_blank">ana_elisia_costa@hotmail.com</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade="noshade" /> <font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Uma paisagem urbana &aacute;rida – pontes, viadutos, escadarias, avenidas – e duas casas. Esses s&atilde;o os cen&aacute;rios mais importantes do filme Parasita (2019), do diretor sul-coreano Bong Joon-ho. Apesar da pot&ecirc;ncia po&eacute;tica do cen&aacute;rio urbano dist&oacute;pico que separa essas duas casas, s&atilde;o elas que ganham protagonismo no filme. Uma casa &eacute; de fam&iacute;lia abastada, fam&iacute;lia Park, cujo bom gosto parece ter suas matrizes no modernismo americano dos anos 1950 (Wisnik, 2020) e que ainda hoje &eacute; palat&aacute;vel ou de f&aacute;cil consumo, como evidenciam revistas e <i>websites</i> de arquitetura contempor&acirc;nea. De outro lado, a decad&ecirc;ncia da casa da fam&iacute;lia Kim, com suas sobreposi&ccedil;&otilde;es e ac&uacute;mulos de coisas, explora uma atmosfera n&atilde;o menos atraente – a &laquo;estetiza&ccedil;&atilde;o da pobreza&raquo; –, cuja pot&ecirc;ncia pode ser verificada na vida real, quando milhares de turistas invadem &aacute;reas urbanas empobrecidas, para o consumo de &laquo;exotismos&raquo;, como ocorre nas favelas brasileiras (Figuras <a href="#f1a">1a</a> e <a href="#f1b">1b</a>). </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1a" id="f1a"></a><img src="/img/revistas/cct/n40/n40a17f1a.jpg"/>     
<p>&nbsp;</p> <a name="f1b" id="f1b"></a><img src="/img/revistas/cct/n40/n40a17f1b.jpg"/>     
<p>&nbsp;</p>     <p> Com o sucesso do filme, principalmente com os quatro pr&ecirc;mios no Oscar de 2020 – Melhor Filme, Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original –, pode-se dizer que suas casas se transformaram em simulacros eternizados na mem&oacute;ria do cinema, apesar de serem apenas cen&aacute;rios. Idealizados pelo cen&oacute;grafo (e n&atilde;o arquiteto) Lee Ha Jun, o cen&aacute;rio da &laquo;casa-rica&raquo; envolveu a execu&ccedil;&atilde;o das fachadas, de todo andar t&eacute;rreo e dos jardins. O seu andar superior s&oacute; foi constru&iacute;do virtualmente. A &laquo;casa-pobre&raquo;, por sua vez, foi erguida junto com um quarteir&atilde;o de 40 casas e com um enorme tanque de &aacute;gua usado para as cenas de inunda&ccedil;&atilde;o (Farinha, 2020). </p>     <p> Dezenas de publica&ccedil;&otilde;es sobre Cinema e Arquitetura expressam um especial, e presum&iacute;vel, encantamento pela &laquo;casa-rica&raquo;. [<a name="top2" id="top2"></a><a href="#2">2</a>] (Figuras <a href="#f2a">2a</a>, <a href="#f2b">2b</a>, <a href="#f2c">2c</a>). E h&aacute; aquelas que j&aacute; destacam o aumento de turistas na ex&oacute;tica pobreza de Seul [<a name="top3" id="top3"></a><a href="#3">3</a>] ou a transforma&ccedil;&atilde;o, de decadente a <i>cool</i>, dos <i>banjiha</i>, apartamentos semienterrados t&iacute;picos da periferia da cidade que inspiraram o cen&aacute;rio da &laquo;casa-pobre&raquo;. [<a name="top4" id="top4"></a><a href="#4">4</a>] O sucesso da <i>hashtag</i> #<i>banjiha</i> nas redes sociais atesta a efici&ecirc;ncia do sistema em transformar tudo, at&eacute; a pobreza, em bem de consumo. </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2a" id="f2a"></a><img src="/img/revistas/cct/n40/n40a17f2a.jpg"/>     
<p>&nbsp;</p> <a name="f2b" id="f2b"></a><img src="/img/revistas/cct/n40/n40a17f2b.jpg"/>     
<p>&nbsp;</p> <a name="f2c" id="f2c"></a><img src="/img/revistas/cct/n40/n40a17f2c.jpg"/>     
<p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Os contrapontos entre as duas casas, muito al&eacute;m do simples aspecto est&eacute;tico, s&atilde;o explorados para desenvolver uma severa cr&iacute;tica social. Os<i>banjiha</i>, somados &agrave;s casas improvisadas na cobertura dos edif&iacute;cios (<i>oktapbang</i>) e aos quartos enclausurados em casas compartilhadas ( <i>gosiwon</i>), s&atilde;o retratos atuais da pobreza e da crise habitacional sul-coreana (Minji, 2020), especialmente em Seul, onde a popula&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s assiste a uma escalada assustadora no pre&ccedil;o dos alugu&eacute;is e a processos de gentrifica&ccedil;&atilde;o. Problemas de saneamento sobrep&otilde;em-se a esse problema habitacional, como ilustram inunda&ccedil;&otilde;es decorrentes do represamento do rio Han que, na d&eacute;cada de 1980, levou ao alagamento de &aacute;reas de baixa renda (Balhorn, 2020). Ao afetar mais diretamente jovens e pobres, esses cen&aacute;rios levam a questionar a imagem de &laquo;prosperidade&raquo; do pa&iacute;s que ocupa a 11&ordf; posi&ccedil;&atilde;o no <i>ranking</i> da economia mundial. </p>     <p> No filme, problemas urbanos e habitacionais servem de cen&aacute;rio para escancarar conflitos sociais que, hoje, s&atilde;o universais. &Eacute; talvez a universalidade da realidade urbana e social apresentada, muitas vezes ocultada pela sociedade dominante nos quatro cantos do mundo, que justifica o sucesso do filme. </p>     <p> Por outro lado, pode-se pensar que a tem&aacute;tica do filme tamb&eacute;m antecipa a pr&oacute;pria realidade. Ao explorar met&aacute;foras ligadas ao mundo biol&oacute;gico – presentes n&atilde;o s&oacute; no Parasita, mas tamb&eacute;m em diversos outros filmes do diretor, como <i>O Hospedeiro</i> [<a name="top5" id="top5"></a><a href="#5">5</a>] – Joon-ho engatilha reflex&otilde;es que ganham ainda mais for&ccedil;a diante da pandemia virulenta que assola o mundo. Parasitas e hospedeiros s&atilde;o partes de um sistema em que o primeiro, desprovido de metabolismo independente, usa c&eacute;lulas vivas do segundo para se replicar. Essas rela&ccedil;&otilde;es na natureza, contudo, podem ser tanto harmoniosas como predat&oacute;rias, o que parece levar o diretor do filme a sugerir o questionamento – quem parasita quem? Onde? Como? A parasitagem, apesar de abstrata, &eacute; altamente contagiante. &Eacute; como o cheiro retratado no filme, que &laquo;atravessa&raquo; espa&ccedil;os e pessoas de distintas classes sociais. </p>     <p> Essas met&aacute;foras f&iacute;lmicas e a sincronicidade das mesmas com a pandemia, bem como o meu pr&oacute;prio isolamento social, motivaram-me a assistir ao filme novamente. [<a name="top6" id="top6"></a><a href="#6">6</a>] O &oacute;cio, como sugere Domenico De Masi (2001), &eacute; produtivo e, num &iacute;mpeto fantasioso, levou-me a questionar: Se as fam&iacute;lias Park e Kim n&atilde;o fossem v&iacute;timas da trag&eacute;dia retratada no filme, como viveriam o isolamento imposto pelo Covid-19 na Coreia do Sul? Como se comportariam naquelas duas casas? </p>     <p> As respostas a estes questionamentos permitem compor um conto, uma fic&ccedil;&atilde;o sobre fic&ccedil;&atilde;o ou uma p&oacute;s-fic&ccedil;&atilde;o, cujo &laquo;roteiro-outro&raquo; pode ser uma forma de refletir e dar visibilidade ao problema das condi&ccedil;&otilde;es desiguais – econ&ocirc;micas e emocionais – de enfrentamento dos isolamentos sociais impostos [<a name="top7" id="top7"></a><a href="#7">7</a>]. Ela, apesar de baseada em medidas efetivas do governo sul-coreano no combate ao v&iacute;rus (Han, 2020), pode permitir reflex&otilde;es sobre dramas similares vividos em v&aacute;rias partes do mundo, como o pr&oacute;prio filme assim o fez. </p>     <p> Essa p&oacute;s-fic&ccedil;&atilde;o, portanto, retoma a discuss&atilde;o de temas universais que j&aacute; eram sens&iacute;veis antes da pandemia e que, provavelmente, ir&atilde;o persistir ou ser&atilde;o ampliados ap&oacute;s a crise – o direito &agrave; moradia e &agrave; cidade; o direito &agrave; privacidade e &agrave; liberdade. Ao fazer isso, procura-se estabelecer um outro sentido para a pr&oacute;pria realidade, n&atilde;o a assimilando como inevit&aacute;vel. Tenta-se denunciar essa realidade e indicar a necessidade de construir novos caminhos para a sua constitui&ccedil;&atilde;o futura. </p>     <p> Alguns novos caminhos v&ecirc;m sendo especulados por pensadores em publica&ccedil;&otilde;es lan&ccedil;adas em paralelo &agrave; pr&oacute;pria pandemia, ou seja, ao mesmo tempo em que este ensaio p&oacute;s-ficcional &eacute; escrito. Ele &eacute; ent&atilde;o confrontado com alguns desses ensaios te&oacute;ricos, especificamente os de David Harvey (2020) e Boaventura de Sousa Santos (2020), de modo a fazer aproxima&ccedil;&otilde;es e testar limites entre realidade e teoria. O exerc&iacute;cio, contudo, n&atilde;o pretende seguir caminhos seguros, nem persegue resultados assertivos, mas apenas ampliar reflex&otilde;es ou, como sugere Boaventura de Sousa Santos, fazer &laquo;sub-teoriza&ccedil;&otilde;es&raquo;. Para ele, qualquer teoriza&ccedil;&atilde;o absoluta na realidade ca&oacute;tica da pandemia &eacute; beirar o abismo, o fracasso, pois &ldquo;a realidade vai sempre adiante do que pensamos ou sentimos sobre ela&rdquo; (Santos, 2020, n.p.). </p>     <p>&nbsp; </p>     <p><b><font size="3">1. A p&oacute;s-fic&ccedil;&atilde;o</font></b></p>     <p> Um (poss&iacute;vel) di&aacute;rio pand&ecirc;mico das fam&iacute;lias Park e Kim: </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> 20 de janeiro de 2020 </p>     <p> Sr. Park toma caf&eacute; na bancada da cozinha, iluminada pela luz do sol. Dali, ele v&ecirc; a sala e, atrav&eacute;s da sua grande janela, o p&aacute;tio. Pelo <i>smartphone</i>, l&ecirc; not&iacute;cias sobre o primeiro registro do coronav&iacute;rus na Coreia do Sul e nos Estados Unidos, ambos no mesmo dia! A mensagem tamb&eacute;m chega ao <i>smartphone</i> da filha dos Kim que, sentada no vaso sanit&aacute;rio do banheiro do seu apartamento, rouba sinais de conex&atilde;o com a <i>internet</i> do vizinho. </p>     <p> Democraticamente, a informa&ccedil;&atilde;o chega aos dois que reagem com certa indiferen&ccedil;a: ele, por acreditar na imunidade do poder financeiro; ela, pela certeza daquilo ser s&oacute; mais um dos riscos di&aacute;rios. Ele toma um gole da x&iacute;cara de caf&eacute; e embarca no carro com motorista que o espera. Ela desenrola o papel higi&ecirc;nico, se limpa, d&aacute; descarga e n&atilde;o lava as m&atilde;os. </p>     <p> 25 de janeiro de 2020 </p>     <p> O Sr. e a Sra. Kim embarcam no metr&ocirc; que cheira limpeza, mais uma das medidas do governo no combate ao v&iacute;rus, contrastando com o odor que exala dos seus corpos e roupas. A testagem negativa de ambos, feita ali na mesma esta&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o exala, &eacute; inodora e silenciosa. </p>     <p> No outro extremo da cidade, a Sra. Park pinga duas gotas de Chanel no pulso. Ap&oacute;s contratar um pacote de viagem para recuperar o &acirc;nimo do marido e talvez o sentido do casamento, ordena o jantar &agrave; governanta e embarca no carro com os filhos para fazer uma testagem r&aacute;pida num dos muitos postos m&oacute;veis da cidade. Com resultados negativados, todos seguem aliviados. Caso contr&aacute;rio, o aplicativo governamental <i>corona-app</i> imporia o constrangimento da notifica&ccedil;&atilde;o do cont&aacute;gio a parentes e, ainda, da intima&ccedil;&atilde;o dos mesmos a tamb&eacute;m testar. </p>     <p> 02 de mar&ccedil;o de 2020 </p>     <p> Enquanto faz compras <i>on-line</i>, a Sra. Park recebe mensagem informando que o epicentro do v&iacute;rus no pa&iacute;s est&aacute; entre fi&eacute;is da Igreja de Jesus Shincheonji. Seus olhos lacrimejam – &eacute; a igreja da sua governanta. At&ocirc;nita, procura os filhos pela casa com um ilus&oacute;rio sentimento de imuniz&aacute;-los com a sua presen&ccedil;a. Com as aulas suspensas, os filhos est&atilde;o, provavelmente, reclusos no microcosmo dos seus quartos – a filha adolescente, em conflitos existenciais; o filho, numa esp&eacute;cie de autismo; ambos, ignorados pelo r&iacute;gido sistema educacional coreano que molda indiv&iacute;duos competentes e infelizes. O facto da poss&iacute;vel contamina&ccedil;&atilde;o da governanta deve ser, a qualquer custo, omitido do marido que se isola no confort&aacute;vel escrit&oacute;rio da casa, de onde controla remotamente os empregados da sua empresa de inform&aacute;tica. Com nervos &agrave; flor da pele, ele estuda os impactos da crise sobre as metas de crescimento da empresa e alternativas para fazer da crise uma oportunidade. Vislumbra desenvolver um <i>software</i> de vigil&acirc;ncia digital, j&aacute; que esta &eacute; uma das estrat&eacute;gias do governo para o controle epid&ecirc;mico. Sorrateiramente, a Sra. Park atravessa o corredor que comunica com a porta do escrit&oacute;rio, desce a escada e encontra a governanta na cozinha. Mantendo a dist&acirc;ncia e um certo olhar de pavor, dispensa seus servi&ccedil;os. A governanta implora por uma quarentena remunerada, por um retorno, mas em v&atilde;o. Servil e resignada, como todos os empregados, curva-se e sai. Sra. Park equipa-se com luvas e m&aacute;scaras e higieniza tudo com &aacute;lcool gel. A casa parece pequena para comportar o seu medo. Naquela noite, sem jantar, iriam encomendar uma pizza pelo Uber Eats. </p>     <p> Sem luvas e m&aacute;scaras, os filhos da fam&iacute;lia Kim trabalham em casa num servi&ccedil;o tempor&aacute;rio, dobrando embalagens para pizza, a mesma que ir&aacute; ser servida mais tarde na casa dos Park. Apinham-se na pequena sala do &ldquo; <i>banjiha</i>&rdquo;, iluminada pela janela que se abre no n&iacute;vel da rua. Escuta-se um k-pop em alto volume, vindo do apartamento vizinho. Com pouca ventila&ccedil;&atilde;o e entulhado de pertences, o apartamento cheira a roupas guardadas-mofo-sujeira, com tons de comida-suor. Sem testagem, &agrave; noite os filhos Kim interagem com amigos do bairro, excitados por um exerc&iacute;cio simb&oacute;lico de desobedi&ecirc;ncia civil. O governo n&atilde;o proibiu propriamente as pessoas saud&aacute;veis de sa&iacute;rem durante a epidemia, nem ordenou que o com&eacute;rcio fosse fechado, mas eles sentem uma vigil&acirc;ncia social em curso, um constrangimento coletivo. Eles saem &agrave; rua mascarados, menos para ocultar uma identidade e mais para corresponder ao que os sul-coreanos fazem cotidianamente. Sabem que a m&aacute;scara n&atilde;o impedir&aacute; de serem descobertos pela v&iacute;deo-vigil&acirc;ncia do governo ou pelo rastreio do cart&atilde;o de cr&eacute;dito e celular. Sentado na cal&ccedil;ada em frente a uma pizzaria, o filho dos Kim recebe mais um alarme do <i>corona-app</i> que notifica casos de vizinhos contaminados. Desta vez &eacute; denunciado um senhor que insistentemente fuma e urina junto &agrave; janela da sua sala. Deseja-lhe a morte, mas ao mesmo tempo, teme ser o pr&oacute;ximo a perder a liberdade e privacidade. </p>     <p> Dia 11 de mar&ccedil;o de 2020 </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Os Park e os Kim recebem a not&iacute;cia de que a OMS decretou o coronav&iacute;rus como pandemia. Pronunciamentos do presidente, com m&aacute;scara de nanofiltros, s&atilde;o feitos com mais frequ&ecirc;ncia. A Sra. Park j&aacute; enfrenta jornadas dom&eacute;sticas sem servi&ccedil;ais. Sem habilidade para cozinhar, &eacute; criticada pela fam&iacute;lia e se cobre de culpas. O isolamento do marido &eacute; social, dom&eacute;stico e conjugal. N&atilde;o partilham as atividades de casa e a partilha de corpos deixa a desejar. Ela, carente, tem desejos obscenos, impens&aacute;veis e impronunci&aacute;veis para uma senhora recatada. Ele deambula pela casa. A sua cabe&ccedil;a est&aacute; nos dados de provedores de <i>internet</i> e de telefonia m&oacute;vel que alimentar&atilde;o o seu aplicativo de vigil&acirc;ncia. Atrav&eacute;s do teletrabalho, finge-se de vivo e sublima desejos. O &uacute;nico desejo verdadeiro remete-o ao seu amante, um menino de 20 anos agora prisioneiro da periferia sob o sombrio medo de contamina&ccedil;&atilde;o. A dist&acirc;ncia entre o casal e a habitual frieza na rela&ccedil;&atilde;o com os filhos alargam ainda mais a metragem quadrada dos espa&ccedil;os que ela limpa diariamente. Sente saudades da governanta que, segundo o <i>corona-app</i>, morreu em decorr&ecirc;ncia do v&iacute;rus. Percebe que n&atilde;o sabia nada sobre a fam&iacute;lia da governanta, se tinha marido e filhos. A casa cheira mal, por mais que a limpe. Algum animal morto? </p>     <p> A fam&iacute;lia Kim, em quarentena depois da testagem positiva da filha, vive dias de p&acirc;nico. Tosse e calafrios definem o ritmo da casa, envolto no medo de agravamento do quadro. Na sala, os corpos desobedecem a distanciamentos sanitaristas. Dois metros ali &eacute; luxo. N&atilde;o h&aacute; espa&ccedil;o para estabelecer quaisquer protocolos, de entrada-sa&iacute;da da casa, de isolamento de corpos contaminados; n&atilde;o h&aacute; espa&ccedil;o para respirar e, t&atilde;o pouco nariz para cheirar; n&atilde;o h&aacute; espa&ccedil;o para caber tamanho medo da morte; mas, contrariamente, cabe ali alguma cumplicidade afetiva. Resignados, sabem que, provavelmente, todos v&atilde;o se contaminar. Na urg&ecirc;ncia do agora, o &uacute;nico cont&aacute;gio certeiro &eacute; o da fome! Sem receberem doa&ccedil;&otilde;es de cestas de mantimentos, o esvaziamento da geladeira leva o filho dos Kim, mais uma vez, &agrave; rua. Desta vez, ele n&atilde;o &eacute; movido pelo desejo rebelde de desobedi&ecirc;ncia civil, mas pela necessidade primitiva de sobreviv&ecirc;ncia. Vai buscar trabalho, pedir esmolas, o que for... </p>     <p> Atravessa o pobre gueto Ahyeon-dong, onde vivem, correndo. Tem urg&ecirc;ncia. Atravessa &aacute;ridas pontes, viadutos, escadarias, avenidas. Como sempre, ningu&eacute;m no caminho. No distrito de Seongbuk-dong, onde ricos se isolam e talvez ofere&ccedil;am alguma oportunidade, encontra poucas pessoas na rua. O <i>corona-app</i> alerta para edif&iacute;cios em que h&aacute; registro de infectados. O v&iacute;rus contamina ali tamb&eacute;m e ele afasta-se. Teme, em breve, ser detectado pela vigil&acirc;ncia virtual. Algo nas ruas mudou, seja no pobre Ahyeon-dong, seja no rico Seongbuk-dong. &Eacute; como se o espa&ccedil;o &aacute;rido que atravessou correndo estivesse contaminando, aos poucos, os espa&ccedil;os adjacentes. Ofegante, chora! H&aacute; nuvens no c&eacute;u. Se chover, a casa dos Kim poder&aacute; sofrer alagamento, como j&aacute; ocorreu outras vezes. Ele clama por algo pr&oacute;ximo a Deus e, ao mesmo tempo, num impulso profundo, deseja a pr&oacute;pria morte, a morte do mundo, um apocalipse, um fim. </p>     <p> 27 de mar&ccedil;o de 2020 </p>     <p> Depois do controle relativo da epidemia, os Sr. e Sra. Park entram com pedido de separa&ccedil;&atilde;o. O isolamento desvelava o que o cotidiano encobria. Enterram um casamento. A fam&iacute;lia Kim tamb&eacute;m enterra um amor, a filha que, num caix&atilde;o lacrado, desapareceu deste mundo sem vel&oacute;rio, padecendo do que ela mesma subestimou no dia 20 de janeiro. A morte naturaliza-se entre todos, exigindo cuidados dos vivos ou dos restos-dos-vivos. Nessa urg&ecirc;ncia, perde-se a percep&ccedil;&atilde;o do real inimigo, se o &laquo;v&iacute;rus&raquo;, se o &laquo;eu&raquo;, se o &laquo;outro&raquo;. O &laquo;outro&raquo;, por certo, n&atilde;o lhes &eacute; a salva&ccedil;&atilde;o. Isolados e vigiados, cada um busca garantir a sua pr&oacute;pria sobreviv&ecirc;ncia, sem desejos de ressignificar o vivido, sem desejos de outras formas de viver e habitar. </p>     <p> ****** </p>     <p> O <i>corona-app</i> notifica – &ldquo;Estuda-se a possibilidade de retomar o isolamento, pois novos casos de contamina&ccedil;&atilde;o e morte s&atilde;o registrados&rdquo;. A mensagem &eacute; emitida j&aacute; com o temor de lidar com a resist&ecirc;ncia da popula&ccedil;&atilde;o para se isolar novamente. A primavera chegou e as flores est&atilde;o desabrochando. </p>     <p>&nbsp; </p>     <p><b><font size="3">2. O desabrochar de primaveras ou o voltar ao <i>bunker</i></font></b> </p>     <p> O imagin&aacute;rio dos mundos retratados pelas casas parece apoiar-se num aspecto geogr&aacute;fico – alto-baixo – e no decorrente aspecto luminoso a ele associado – claro-escuro. Grandes janelas e implanta&ccedil;&atilde;o em cota elevada garantem luz abundante aos Park; pequenas aberturas em cota abaixo do n&iacute;vel da rua condenam os Kim a uma vida sombria [<a name="top8" id="top8"></a><a href="#8">8</a>]. Esta polaridade, que explicita de facto condi&ccedil;&otilde;es de habitabilidade, permite ao diretor do filme in&uacute;meras met&aacute;foras, como a do <i>bunker</i> que poderia representar o espa&ccedil;o mais baixo e mais escuro (Figuras <a href="#f3">3</a> e <a href="#f4">4</a>). </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <a name="f3" id="f3"></a><img src="/img/revistas/cct/n40/n40a17f3.jpg"/>     
<p>&nbsp;</p> <a name="f4" id="f4"></a><img src="/img/revistas/cct/n40/n40a17f4.jpg"/>     
<p>&nbsp;</p>     <p> <i>Bunkers</i> s&atilde;o espa&ccedil;os semienterrados, constru&iacute;dos para resistir a &laquo;ataques&raquo; b&eacute;licos, como na &eacute;poca da guerra fria, a tornados e furac&otilde;es e, mais recentemente, a pandemias, como t&ecirc;m demonstrado milion&aacute;rios americanos (Labbate, 2020). Na casa dos Park, o <i>bunker</i> &eacute; a despensa que o arquiteto fict&iacute;cio Namgoong Hyeonja projetou para a prote&ccedil;&atilde;o de poss&iacute;veis ataques norte-coreanos. O apartamento dos Kim &eacute; o pr&oacute;prio <i>bunker</i>. Assim como um <i>banjiha</i>, foi constru&iacute;do ap&oacute;s 1970, quando o governo temeroso aos mesmos ataques passou a exigir que edif&iacute;cios residenciais com menos de quatro andares tivessem por&otilde;es-abrigo para situa&ccedil;&otilde;es de emerg&ecirc;ncia. Essa fun&ccedil;&atilde;o original foi preservada at&eacute; aos anos 1980, quando uma crise imobili&aacute;ria levou a consolidar esses espa&ccedil;os como habita&ccedil;&atilde;o (BBC, 2020). </p>     <p> No bunker dos Park vive clandestinamente o marido da governanta que, provendo-o de alimentos e afetos, lhe garante a sobreviv&ecirc;ncia frente a press&otilde;es de agiotas. O Sr. Kim, posteriormente, tamb&eacute;m sobreviver&aacute; ali. Os sinais de vida vindos desse <i>bunker</i> expressam-se em forma de &laquo;luz&raquo;, no acende-apaga de l&acirc;mpadas que eles acionam. De qualquer modo, eles n&atilde;o existem, s&atilde;o fantasmas invis&iacute;veis no espa&ccedil;o mais baixo e escuro da luminosa e radiante casa dos Park. No <i>bunker</i> dos Kim, m&iacute;nimo, h&uacute;mido e escuro, vivem quatro pessoas semienterradas. S&atilde;o mortos-vivos e os seus sinais vitais tamb&eacute;m s&atilde;o invis&iacute;veis, aparecem em forma de &laquo;cheiro&raquo; que &eacute; exalado por eles. Espa&ccedil;o, luz e ventila&ccedil;&atilde;o s&atilde;o condi&ccedil;&otilde;es essenciais para a sobreviv&ecirc;ncia que lhes s&atilde;o vedadas. </p>     <p> A sobreviv&ecirc;ncia, portanto, transcorridos mais de 40 anos ap&oacute;s a constru&ccedil;&atilde;o das casas-<i>bunkers</i>, ainda define os seus <i>modus operandi</i>. A sobreviv&ecirc;ncia a poss&iacute;veis ataques b&eacute;licos dos anos 1970-80 foi substitu&iacute;da pela sobreviv&ecirc;ncia a um sistema econ&ocirc;mico que, deflagrado a partir da d&eacute;cada de 1980, acentuou diferen&ccedil;as sociais, concentrando a riqueza na m&atilde;o de poucos e condenando muitos &agrave; pobreza extrema. A crise, a sua situa&ccedil;&atilde;o de excepcionalidade, portanto, n&atilde;o foi superada e a aparente normalidade &eacute; uma simula&ccedil;&atilde;o. Vive-se um permanente estado de crise ou uma &laquo;normalidade da exce&ccedil;&atilde;o&raquo; que, como sugere Boaventura de Sousa Santos (2020), se estende al&eacute;m da Coreia do Sul, &eacute; global. </p>     <p> &Eacute; essa mesma &laquo;crise permanente&raquo;, ainda segundo o autor, que tem sido usada para justificar cortes a financiamentos de pol&iacute;ticas sociais de diversas ordens – sa&uacute;de, educa&ccedil;&atilde;o, previd&ecirc;ncia social, habita&ccedil;&atilde;o, infraestrutura. A crise justifica redu&ccedil;&otilde;es salariais. Ela isenta o Estado do seu papel, delegando servi&ccedil;os a terceiras entidades e parcerias p&uacute;blico-privadas. Ela justifica, inclusive, a atua&ccedil;&atilde;o de comunidades solid&aacute;rias no rent&aacute;vel com&eacute;rcio das filantropias (Santos, 2020). </p>     <p> Neste contexto vivem os Kim – os filhos n&atilde;o estudam, os pais n&atilde;o est&atilde;o aposentados, fazem trabalhos provis&oacute;rios de baixa remunera&ccedil;&atilde;o e &laquo;parasitagens&raquo;, n&atilde;o s&oacute; a ricos, mas tamb&eacute;m aos seus iguais. Vivem com um prec&aacute;rio acesso &agrave; <i>internet</i>, condi&ccedil;&atilde;o indispens&aacute;vel para o teletrabalho e a educa&ccedil;&atilde;o &agrave; dist&acirc;ncia. Vivem numa casa que n&atilde;o os comporta ou conforta, e num bairro que se inunda mediante temporais. Vivem quarentenas sobrepostas (Santos, 2020), aqui, uma tripla quarentena, imposta pela pandemia, pela comunica&ccedil;&atilde;o digital e pelo bairro delimitado por &aacute;reas dist&oacute;picas que os segregam do resto da cidade. Est&atilde;o presos! O sistema e a cidade j&aacute; lhes concederam essa condi&ccedil;&atilde;o, antes mesmo da pandemia. Est&atilde;o ali, sem amparo do Estado e nem mesmo de comunidades filantr&oacute;picas. Est&atilde;o ali, sozinhos, sem articula&ccedil;&atilde;o social. </p>     <p> A n&atilde;o resolu&ccedil;&atilde;o desta crise, mesmo antes da epidemia, tem objetivos claros – concentrar riquezas como a ostentada pelos Park. Protegidos na sua &laquo;casa de revista&raquo; e numa empresa bem sucedida, eles mascaram h&aacute;bitos vorazes de consumo e descarte. O minimalismo da sua casa decorre menos de um bom gosto e mais do facto de que j&aacute; gozaram do &laquo;muito&raquo; e podem definir, ao seu crit&eacute;rio e prazer, onde, como e o que consumir. (Carini, 2020). Num &laquo;consumo compensat&oacute;rio&raquo; para abrandar frustra&ccedil;&otilde;es, compram pacotes de viagens e roupas de que n&atilde;o necessitam; ou, para abrandar inseguran&ccedil;as, adquirem planos de sa&uacute;de, seguros, sistemas de seguran&ccedil;a, e terapias. Meritocr&aacute;ticos, os seus servi&ccedil;ais s&atilde;o tratados com arrog&acirc;ncia ou falsa cordialidade, sem admitir que os mesmos sejam v&iacute;timas do sistema social operante (Harvey, 2020). </p>     <p> De qualquer modo, os mundos dos Kim e dos Park s&atilde;o condenados com a pandemia. Ambos sofrem com a suspens&atilde;o da liberdade e da privacidade imposta pela pol&iacute;tica de vigil&acirc;ncia do Estado que, autorit&aacute;rio, n&atilde;o constr&oacute;i coletivamente alternativas. Eis o &laquo;estado de exce&ccedil;&atilde;o&raquo;. As demais medidas desse estado, contudo, n&atilde;o se d&atilde;o de modo equitativo. Precarizado, o Estado tem dificuldades em responder &agrave;s emerg&ecirc;ncias. A trag&eacute;dia vai ganhando maiores propor&ccedil;&otilde;es e, aos poucos, desmontando o mito de que o cont&aacute;gio n&atilde;o reconhece classes sociais. Como observa David Harvey (2020: 21), &ldquo;o COVID-19 exibe todas as caracter&iacute;sticas de uma pandemia de classe, de g&ecirc;nero e de ra&ccedil;a&rdquo;, o que vem ao encontro da afirma&ccedil;&atilde;o de Boaventura Sousa Santos (2020, n.p.) – &ldquo;Sabemos que a pandemia n&atilde;o &eacute; cega e tem alvos privilegiados.&rdquo; </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Como alvo privilegiado da pandemia, somam-se aos Kim outros grupos para os quais a quarentena &eacute; mais dif&iacute;cil ou imposs&iacute;vel – os que n&atilde;o possuem casa; os que possuem casas que, prec&aacute;rias, inviabilizam medidas higienistas; os que possuem casas e que n&atilde;o podem isolar-se, ou porque atuam na &laquo;linha de frente do sistema&raquo; (sa&uacute;de, abastecimento) ou porque precisam optar entre a prote&ccedil;&atilde;o e a provis&atilde;o de seus lares (supermercado, planos de sa&uacute;de, etc.) (Harvey, 2020; Santos, 2020) [<a name="top9" id="top9"></a><a href="#9">9</a>]. Esses grupos foram-se avolumando nos &uacute;ltimos 40 anos. Permanecendo mais ou menos despercebidos, ganham agora maior notoriedade por comprometer o sistema como um todo. Em muitos pa&iacute;ses, contudo, s&atilde;o assumidos como parte descart&aacute;vel de um &laquo;darwinismo social&raquo; que se desfaz dos que n&atilde;o s&atilde;o produtivos ou n&atilde;o s&atilde;o consumidores potenciais (Santos, 2020). </p>     <p> Tamb&eacute;m na p&oacute;s-fic&ccedil;&atilde;o a morte s&oacute; acontece entre os Kim, restando aos Park mortes mais simb&oacute;licas. Al&eacute;m do fim da uni&atilde;o conjugal, talvez a morte mais penosa para os Park seja a do seu padr&atilde;o de consumo, inoperante nas condi&ccedil;&otilde;es atuais da pandemia (Harvey, 2020). </p>     <p> E &eacute; essa inoper&acirc;ncia – essa possibilidade do (hiper) capitalismo cair por terra, como sugere Boaventura de Sousa Santos (2020) –, que ir&aacute; talvez acelerar aquilo que transcorria lentamente, que ir&aacute; dar visibilidade ao que era despercebido, que ir&aacute; viabilizar o que era, at&eacute; ent&atilde;o, inconceb&iacute;vel. </p>     <p> &ldquo;Torna-se poss&iacute;vel ficar em casa e voltar a ter tempo para ler um livro e passar mais tempo com os filhos, consumir menos, dispensar o v&iacute;cio de passar o tempo nos centros comerciais, olhando para o que est&aacute; &agrave; venda e esquecendo tudo o que se quer, mas que s&oacute; se pode obter por outros meios que n&atilde;o a compra. A ideia conservadora de que n&atilde;o h&aacute; alternativa ao modo de vida imposto pelo hipercapitalismo em que vivemos cai por terra&rdquo; (Santos, 2020, n.p.). </p>     <p> E o que vir&aacute; em alternativa?</p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <b><font size="3">3. Da p&oacute;s-fic&ccedil;&atilde;o &agrave; p&oacute;s-pandemia – um fim ou considera&ccedil;&otilde;es finais</font></b> </p>     <p> O porvir pand&ecirc;mico &eacute; t&atilde;o incerto quanto aos arrastados dia-a-dia de quarentena e quanto &agrave; condi&ccedil;&atilde;o mutante dos v&iacute;rus. Os mais otimistas sugerem o surgimento de novos tempos e de alternativas individuais e coletivas aos modos de viver e consumir que, de t&atilde;o longamente impostos, s&atilde;o como <i>bunkers</i> que nos impedem de ver luzes e de respirar. Num sentido oposto, o porvir pand&ecirc;mico parece sugerir aos pessimistas, ou aos mais realistas, o receio de um endurecimento do poder dominante para a retomada da &laquo;normalidade&raquo;, aquilo que se tinha antes da quarentena, ou da &laquo;normalidade de exce&ccedil;&atilde;o&raquo;, em que seremos submetidos a crises cont&iacute;nuas e futuras quarentenas, como questiona Boaventura de Sousa Santos: </p>     <p> &ldquo;Desaparecer&aacute; o Estado de excep&ccedil;&atilde;o que foi criado para responder &agrave; pandemia t&atilde;o rapidamente quanto a pandemia? Nos casos em que se adoptaram medidas de protec&ccedil;&atilde;o para defender a vida acima dos interesses da economia, o regresso &agrave; normalidade implicar&aacute; deixar de dar prioridade &agrave; defesa da vida?&rdquo; (Santos, 2020, n.p.) </p>     <p> De qualquer forma, o regresso &agrave; normalidade n&atilde;o ser&aacute; f&aacute;cil. Ser&aacute; dif&iacute;cil para todos, sobretudo para aqueles representados pelos Kim, os desabrigados, os desempregados, os precarizados. A esses restar&aacute; aceitar o &laquo;novo normal&raquo;, cavando mais fundo o seu <i>bunker</i>, invisibilizando-se ainda mais, para ent&atilde;o morrer ou, em pequenas escapadelas, &laquo;parasitar com civilidade&raquo; fam&iacute;lias como a dos Park ou, em desobedi&ecirc;ncia civil, saquear o supermercado da esquina. Aos representados pelos Park, restar&atilde;o ainda sobras econ&ocirc;micas para ajustes financeiros, pagamentos de planos de sa&uacute;de e terapeutas e, se restar algum saldo, para o <i>e-market</i>, o que, contudo, n&atilde;o deixar&aacute; de ser uma leg&iacute;tima condi&ccedil;&atilde;o de sofrimento. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Todos seguir&atilde;o s&oacute;s, no isolamento social que vem na contram&atilde;o de qualquer como&ccedil;&atilde;o e mobiliza&ccedil;&atilde;o para a solidariedade. S&oacute;s, &oacute;rf&atilde;os de entes queridos mortos e enterrados em vala comum, sem rituais de despedida. S&oacute;s, ignorados por um Estado que, desmantelado, &eacute; incapaz de articular novas solu&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas, econ&ocirc;micas e sociais. S&oacute;s, pela pot&ecirc;ncia do poder econ&ocirc;mico e das <i>fake news</i> que apagam as pequenas fagulhas de esperan&ccedil;a que partem de articula&ccedil;&otilde;es comunit&aacute;rias e da educa&ccedil;&atilde;o. S&oacute;s, pela impossibilidade de planejar o amanh&atilde;, ficando &agrave; deriva de vidas sem prop&oacute;sito. S&oacute;s... </p>     <p> Sem conseguir romper tamanha solid&atilde;o, aos Kim e aos Park n&atilde;o foi concedido final feliz, e tampouco triste. O fim assume a atmosfera melanc&oacute;lica de algo reticente, como a realidade ca&oacute;tica dos seus mundos durante a pandemia, que anestesia o que &eacute; sentido e pensado. O destino de suas vidas, apesar de confrontado com as recentes reflex&otilde;es, ainda se mostrou fugidio, &agrave; beira de um abismo. </p>     <p> Reticentemente, o &uacute;nico fim poss&iacute;vel &eacute;: &laquo;Mas a primavera chegou e as flores est&atilde;o desabrochando&raquo;. </p>     <p>&nbsp; </p>     <p><font size="3"><b>Bibliografia</b></font> </p>     <p> Ambr&oacute;sio, R. V. (2020) &ldquo;Um Tour pelas Loca&ccedil;&otilde;es do Filme Parasita&rdquo;, <i>Korea Post- Corean Culture</i>, dispon&iacute;vel em <a href="https://www.koreapost.com.br/conheca-a-coreia/turismo/um-tour-pelas-locacoes-do-filme-parasita/" target="_blank">https://www.koreapost.com.br/conheca-a-coreia/turismo/um-tour-pelas-locacoes-do-filme-parasita/</a>. </p>     <p> Balhorn, M. (2020) &ldquo;O filme ‘Parasita&rsquo; &eacute; um retrato do neoliberalismo sul-coreano&rdquo;, <i>Di&aacute;rio do Centro do Mundo</i>, dispon&iacute;vel em <a         href="https://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-filme-parasita-e-um-retrato-do-neoliberalismo-sul-coreano-por-max-balhorn/" target="_blank"     > https://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-filme-parasita-e-um-retrato-do-neoliberalismo-sul-coreano-por-max-balhorn/</a>. </p>     <p> BBC (2020) &ldquo;Parasita: as pessoas reais que vivem nos por&otilde;es de Seul retratados pelo filme&rdquo;, <i>Jornal G1</i>, dispon&iacute;vel em <a         href="https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/oscar/2020/noticia/2020/02/05/parasita-as-pessoas-reais-que-vivem-nos-poroes-de-seul-retratados-pelo-filme.ghtml" target="_blank"     > https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/oscar/2020/noticia/2020/02/05/parasita-as-pessoas-reais-que-vivem-nos-poroes-de-seul-retratados-pelo-filme.ghtml</a>. </p>     <p> Belin, L. (2020) &ldquo;Minimalista e deslumbrante: conhe&ccedil;a a casa do filme Parasita&rdquo;, <i>Jornal Gazeta do Povo</i>, dispon&iacute;vel em <a         href="https://www.gazetadopovo.com.br/haus/estilo-cultura/parasita-casa-filme-coreano-oscar/" target="_blank"     > https://www.gazetadopovo.com.br/haus/estilo-cultura/parasita-casa-filme-coreano-oscar/</a>. </p>     <p> Carini, M. (2019) &ldquo;A casa do filme Parasita e seu arquiteto fict&iacute;cio, apaixonado pelo Sol&rdquo;, <i>Casa Abril</i>, dispon&iacute;vel em <a         href="https://casa.abril.com.br/arquitetura/a-casa-do-filme-parasita-e-seu-arquiteto-ficticio-apaixonado-pelo-sol/" target="_blank"     > https://casa.abril.com.br/arquitetura/a-casa-do-filme-parasita-e-seu-arquiteto-ficticio-apaixonado-pelo-sol/</a>. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p> De Masi, D. (2001) <i>O &oacute;cio criativo</i>, Rio de Janeiro: Sextante.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1702864&pid=S2182-3030202000010001700006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p> Farinha, R. (2020) &ldquo;A hist&oacute;ria da casa de &ldquo;Parasitas&rdquo; – que foi constru&iacute;da de prop&oacute;sito para o filme&rdquo;, <i>NIT-PT</i>, dispon&iacute;vel em <a         href="https://nit.pt/coolt/cinema/historia-da-casa-parasitas-construida-proposito-filme" target="_blank"     > https://nit.pt/coolt/cinema/historia-da-casa-parasitas-construida-proposito-filme</a>. </p>     <p> Han, B. (2020) &ldquo;La emergencia viral y el mundo de ma&ntilde;ana&rdquo;, in ASPO (edit.) <i>Sopa de Wuhan. Pensamiento Contemporaneo en tempos de Pandemias</i>, dispon&iacute;vel em <a         href="http://tiempodecrisis.org/wp-content/uploads/2020/03/Sopa-de-Wuhan-ASPO.pdf?fbclid=IwAR386959-_q7FG9ZCeGsEFSxGBOerZNNMf3s1hmLn8nYjcieT4QA-yyx6zE&gt;" target="_blank"     > http://tiempodecrisis.org/wp-content/uploads/2020/03/Sopa-de-Wuhan-ASPO.pdf?fbclid=IwAR386959-_q7FG9ZCeGsEFSxGBOerZNNMf3s1hmLn8nYjcieT4QA-yyx6zE%3E</a>. </p>     <p> Harvey, D. (2020) &ldquo;Pol&iacute;tica Anticapitalista em Tempos de Covid-19&rdquo;, in M. Davis et al., <i>Coronav&iacute;rus e a luta de classes</i>, Brasil: Terra sem Amos, pp. 13-24. </p>     <p> Labbate, M. (2020) &ldquo;Bunkers milion&aacute;rios: o novo jeito de escapar da pandemia&rdquo;, <i>Forbes</i>, dispon&iacute;vel em <a         href="https://forbes.com.br/negocios/2020/03/bunkers-milionarios-o-novo-jeito-de-escapar-da-pandemia/" target="_blank"     > https://forbes.com.br/negocios/2020/03/bunkers-milionarios-o-novo-jeito-de-escapar-da-pandemia/</a>. </p>     <p> Minji, L. (2020) &ldquo;Parasite shines light on semi-basement apartments in S. Korea&rdquo;, <i>Yonhap News Agency</i>, dispon&iacute;vel em <a href="https://en.yna.co.kr/view/AEN20200212006500315" target="_blank"> https://en.yna.co.kr/view/AEN20200212006500315</a>. </p>     <!-- ref --><p> Santos, B. de S (2020) <i>A Cruel Pedagogia do V&iacute;rus</i>, Coimbra: Almedina.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1702871&pid=S2182-3030202000010001700012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p> Willmersdorf, P. (2020) &ldquo;Pizzaria de &rsquo;Parasita&rsquo; vira ponto tur&iacute;stico ap&oacute;s Oscar de melhor filme&rdquo;, <i>Jornal O Globo</i>, dispon&iacute;vel em <a         href="https://oglobo.globo.com/cultura/pizzaria-de-parasita-vira-ponto-turistico-apos-oscar-de-melhor-filme-24249941" target="_blank"     > https://oglobo.globo.com/cultura/pizzaria-de-parasita-vira-ponto-turistico-apos-oscar-de-melhor-filme-24249941</a>. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Wisnik, G. (2020) &ldquo;Conflito de &rsquo;Parasita&rsquo; se revela em casas de ricos e pobres&rdquo;, <i>Jornal Folha de S&atilde;o Paulo</i>, dispon&iacute;vel em <a         href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2020/02/conflito-de-parasita-se-revela-em-casas-de-ricos-e-pobres-diz-wisnik.shtml" target="_blank"     > https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2020/02/conflito-de-parasita-se-revela-em-casas-de-ricos-e-pobres-diz-wisnik.shtml</a>.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <b>Refer&ecirc;ncias F&iacute;lmicas</b> </p>     <p> Flight, T. (2020) <i>The Visual Architecture of Parasite</i> (video), dispon&iacute;vel em <a href="https://www.youtube.com/watch?v=AvO8-925Edc" target="_blank"> https://www.youtube.com/watch?v=AvO8-925Edc</a>. </p>     <p> <i>O Hospedeiro</i> (longa-metragem) Dir. Bong Joon-ho, 2007 (120m). </p>     <p> <i>Okja</i> (longa-metragem) Dir. Bong Joon-ho, 2017 (118m). </p>     <p> <i>Parasita</i> (longa-metragem) Dir. Bong Joon-ho, 2020 (132m). </p> </font>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"> <i>Snowpiercer</i> (longa-metragem) Dir. Bong Joon-ho, 2013 (126m).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">NOTES</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"> <a name="2" id="2"></a>[<a href="#top2">2</a>] Podem Ilustrar o argumento Belin, 2020; Carini, 2019. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="3" id="3"></a>[<a href="#top3">3</a>] Podem Ilustrar o argumento: Ambr&oacute;sio, 2020;Willmersdorf, 2020. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="4" id="4"></a>[<a href="#top4">4</a>] Podem Ilustrar o argumento: BBC, 2020; Minji, 2020. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="5" id="5"></a>[<a href="#top5">5</a>] Neste filme, um monstro mutante da polui&ccedil;&atilde;o qu&iacute;mica invade uma cidade, devorando pessoas. Entre outros filmes do mesmo diretor com tem&aacute;ticas similares, pode-se citar: <i>Snowpiercer </i>ou <i>Expresso do Amanh&atilde;</i> (2013), em que um <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Experimento_cient&iacute;fico" target="_blank"> experimento cient&iacute;fico </a> leva a futuro dist&oacute;pico e a uma guerra de classes entre sobreviventes que transitam entre vag&otilde;es de um comboio em cont&iacute;nuo movimento; <i>Okja </i>(2017), em que uma porca, geneticamente modificada, &eacute; disputada por poderosa multinacional e o amor de uma crian&ccedil;a. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="6" id="6"></a>[<a href="#top6">6</a>] Assisti ao filme <i>Parasita</i> em Lisboa, quando os cinemas amparavam a prom&iacute;scua troca de v&iacute;rus entre o p&uacute;blico. Estava ali no &acirc;mbito de um p&oacute;s-doutoramento. Com a suspens&atilde;o das atividades acad&eacute;micas em Portugal devido &agrave; pandemia, voltei ao Brasil. Aqui, em quarentena e cuidando dos meus pais, o cinema tem sido ref&uacute;gio, onde assisti filmes de Bong Joon-ho – <i>Parasita</i> e <i>Okja</i> , revistos; e <i>O Hospedeiro</i> e <i>Expresso do Amanh&atilde;</i>, vistos pela primeira vez. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="7" id="7"></a>[<a href="#top7">7</a>] O conto isolado foi submetido ao concurso liter&aacute;rio Contos da Quarentena do site Brasil 247. Entre 1827 inscritos, foi selecionado entre os 68 melhores contos. Sobre o assunto, consultar: <a                 href="https://www.brasil247.com/cultura/concurso-contos-da-quarentena-do-247-divulga-68-finalistas" target="_blank"             > https://www.brasil247.com/cultura/concurso-contos-da-quarentena-do-247-divulga-68-finalistas </a> </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="8" id="8"></a>[<a href="#top8">8</a>] A ideia dos contrapostos no filme pode ser examinada em <i>Flight</i>, 2020. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="9" id="9"></a>[<a href="#top9">9</a>] No Cap&iacute;tulo 3, Santos elenca grupos mais afetados pela explora&ccedil;&atilde;o capitalista, denominas por ele como &ldquo;Sul&rdquo;, e que s&atilde;o mais vulner&aacute;veis &agrave; pandemia: mulheres, trabalhadores aut&ocirc;nomos (informais) e de rua, moradores de rua e das periferias pobres, refugiados e imigrantes, deficientes e idosos, presos e pessoas com defici&ecirc;ncia mental. </font></p>      ]]></body><back>
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<surname><![CDATA[Ambrósio]]></surname>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Um Tour pelas Locações do Filme Parasita]]></article-title>
<source><![CDATA[Korea Post- Corean Culture]]></source>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O filme ‘Parasita' é um retrato do neoliberalismo sul-coreano]]></article-title>
<source><![CDATA[Diário do Centro do Mundo]]></source>
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