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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>EDITORIAL</b></p>       <p><font size="4"><b>Certificados e outros comprovativos: uma     miss&#227;o do Servi&#231;o Nacional de Sa&#250;de?</b></font></p>       <p><b>Raquel Braga*</b></p>       <p>*Directora     da Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar</p>         <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a> | <a href="#c0">Direcci&oacute;n para correspondencia</a> | <a href="#c0">Correspondence</a><a name="topc0"></a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>        <p>A emiss&#227;o de     atestados e certificados m&#233;dicos &#233; uma actividade inerente &#224; actividade cl&#237;nica,     quer para certificar o estado de boa sa&#250;de, quer para comprovar a doen&#231;a. No     entanto, grande parte destes atestados, solicitados a m&#233;dicos que exercem     fun&#231;&#245;es no Servi&#231;o Nacional de Sa&#250;de, s&#227;o utilizados no &#226;mbito profissional, de     actividades de lazer, para condu&#231;&#227;o de ve&#237;culos, entre outras finalidades, n&#227;o     estando ligados a um benef&#237;cio directo da sa&#250;de do utente ou a uma protec&#231;&#227;o     relativa &#224; doen&#231;a.</p>       <p>Argumentam     os colegas mais prest&#225;veis, mais atentos &#224;s necessidades dos utentes, quer     sejam estas do &#226;mbito da sa&#250;de, quer sejam do &#226;mbito social, que ningu&#233;m melhor     que o M&#233;dico de Fam&#237;lia para emitir certificados, pois &#233; o m&#233;dico que melhor     conhece o doente e que est&#225; mais habilitado, de forma bem circunstanciada, a     faz&#234;-lo.</p>       <p>No entanto,     entre estes m&#233;dicos que conhecem bem os seus doentes e que encaram de bom-grado     a emiss&#227;o de atestados de qualquer tipo (n&#227;o sentindo que esta actividade lhes     retira tempo para efectuar outras consultas relacionadas directamente com a     resolu&#231;&#227;o de problemas de sa&#250;de), h&#225; sensibilidades diversas. H&#225; alguns a quem     choca o uso e porte de armas, as actividades de ca&#231;a ou venat&#243;rias, embora     possam n&#227;o chocar as actividades relacionadas com a condu&#231;&#227;o de ve&#237;culos     autom&#243;veis, seja no &#226;mbito profissional ou n&#227;o. Esta pl&#234;iade de sensibilidades,     completamente l&#237;cita no exerc&#237;cio da actividade cl&#237;nica de cada m&#233;dico, n&#227;o se     torna pr&#225;tica nem leg&#237;tima do ponto de vista do cliente, por n&#227;o ser     igualit&#225;ria no acesso aos servi&#231;os prestados por um servi&#231;o p&#250;blico.</p>       <p>Todas estas     situa&#231;&#245;es a atestar, para as quais &#233; necess&#225;rio estar de boa sa&#250;de e que podem     afectar a vida de outros seres, merecem ser encaradas com toda a seriedade,     &#233;tica e deontologia, mas n&#227;o podem ser confundidas com actos m&#233;dicos que     beneficiam a sa&#250;de do doente ou o protegem de adoecer.</p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Nesse     sentido, consultas para emiss&#227;o de atestados n&#227;o deveriam constituir uma     obriga&#231;&#227;o do Estado, isto &#233;, serem comparticipados pelo er&#225;rio p&#250;blico, j&#225; que     n&#227;o s&#227;o motivadas por raz&#245;es de sa&#250;de, mas sim por quest&#245;es pr&#225;ticas (como a     habilita&#231;&#227;o para conduzir) ou permiss&#227;o para a pr&#225;tica de actividades     desportivas ou de lazer (como atestados para ca&#231;a, pesca submarina, ou pr&#225;tica     desportiva, etc.) e, repare-se, sempre por interesse ou conveni&#234;ncia     individual...</p>       <p>Dever&#225; um     qualquer contribuinte comparticipar atrav&#233;s dos seus impostos uma consulta que     vai resultar na emiss&#227;o de um atestado para licen&#231;a de porte de arma ou para     uma licen&#231;a de ca&#231;a? Por que raz&#227;o dever&#227;o contribuintes que n&#227;o t&#234;m capacidade     econ&#243;mica para ser propriet&#225;rios de um carro, ve&#237;culo motorizado ou veloc&#237;pede     ajudar a comparticipar as consultas dos candidatos a condutores ou, sobretudo,     verem o seu tempo de acesso a cuidados m&#233;dicos condicionado por este tipo de     actividades secund&#225;rias do ponto de vista da finalidade do Servi&#231;o Nacional de     Sa&#250;de?</p>       <p>Centremo-nos     na quest&#227;o de fundo deste editorial: a nova legisla&#231;&#227;o<sup>1</sup> acerca das     cartas de condu&#231;&#227;o, que ignora por completo os projectos de legisla&#231;&#227;o que     previam a cria&#231;&#227;o de Centros de Inspec&#231;&#227;o privados<sup>2</sup> para passar a     imputar a responsabilidade pela emiss&#227;o de atestados para carta de condu&#231;&#227;o a     qualquer m&#233;dico no exerc&#237;cio da sua fun&#231;&#227;o, empurrando-a descaradamente para os     M&#233;dico de Fam&#237;lia.</p>       <p>Esta     legisla&#231;&#227;o encerra dois aspectos contradit&#243;rios:</p>       <p>&#8226; Permite a     qualquer m&#233;dico no exerc&#237;cio da sua profiss&#227;o emitir um atestado para a carta     de condu&#231;&#227;o de qualquer grupo &#8211; o que &#233; pr&#225;tico;</p>       <p>&#8226; Impede     qualquer m&#233;dico respeitador da lei de o fazer sem recorrer ao parecer de outros     m&#233;dicos, na esmagadora maioria dos casos &#8211; o que &#233; deveras limitador.</p>       <p>Esta     legisla&#231;&#227;o parece ainda padecer de alguns complexos de culpa: ao ultrapassar a     cria&#231;&#227;o dos Centros de Inspec&#231;&#227;o, parece querer redimir-se dando a oportunidade     de se poder resolver o assunto a expensas e com o aval de um servi&#231;o p&#250;blico,     usando os M&#233;dicos de Fam&#237;lia do Servi&#231;o Nacional de Sa&#250;de e o parecer dos     m&#233;dicos de especialidades hospitalares. No entanto, cria tr&#226;mites t&#227;o rigorosos     e espec&#237;ficos que inviabiliza a emiss&#227;o de atestados em tempo &#250;til, pela     necessidade de m&#250;ltiplos pedidos de parecer.</p>       <p>Este facto,     que n&#227;o ser&#225; pr&#225;tico, nem c&#243;modo para o utente, vai-se reverter em press&#227;o     sobre o M&#233;dico de Fam&#237;lia. Este ver-se-&#225; tentado ou at&#233; coagido a ultrapassar a     lei para, usando argumentos interiores que passam pela sensatez do seu ju&#237;zo     cl&#237;nico, ir ao encontro da vontade e da &#171;urg&#234;ncia&#187; do utente para cumprir     prazos que lhe permitam continuar a conduzir ou a trabalhar. Ningu&#233;m &#233; imune ou     insens&#237;vel a este constrangimento da vida pr&#225;tica... Mas, desenganem-se os     benem&#233;ritos, a sensatez do ju&#237;zo cl&#237;nico ou os pl&#225;cidos argumentos l&#243;gicos n&#227;o     se sobrep&#245;em &#224;s exig&#234;ncias da actual lei.</p>       <p>Porque j&#225; me     deparei com essas situa&#231;&#245;es, interrogo-me se, na sequ&#234;ncia das exigentes     premissas da avalia&#231;&#227;o cl&#237;nica consignadas na nova legisla&#231;&#227;o, os m&#233;dicos dispostos     a ir ao encontro das necessidades dos utentes, facilitando-lhes a emiss&#227;o     desses atestados, est&#227;o dispostos a incumprir a lei, ultrapassando a     necessidade de pareceres que a esmagadora maioria dos casos condiciona?!</p>       <p>Por &#250;ltimo,     mas deveras perturbador e perverso: solicitar, sob a capa enganosa da     facilita&#231;&#227;o e da proximidade com o doente, que o M&#233;dico de Fam&#237;lia, aquele que     &#233; o m&#233;dico mais pr&#243;ximo e assume um papel de defesa e advocacia do doente, seja     o fiscal e executor que coloca as restri&#231;&#245;es e as inibi&#231;&#245;es de conduzir.</p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Se esta     quest&#227;o j&#225; se colocava anteriormente acerca da emiss&#227;o de atestados para a     condu&#231;&#227;o de ve&#237;culos do grupo 1, sobretudo nos indiv&#237;duos idosos em que a     restri&#231;&#227;o de conduzir pode ser sentida como uma grave perda de independ&#234;ncia ou     autonomia,<sup>3,4</sup> passa-se agora tamb&#233;m para os condutores     profissionais.</p>       <p>Vamos ter     situa&#231;&#245;es perversas de condutores profissionais que passar&#227;o a esconder     sintomas e problemas de sa&#250;de que limitem a emiss&#227;o destes atestados aos seus     M&#233;dicos de Fam&#237;lia? Como ser&#225; a rela&#231;&#227;o de confian&#231;a entre o M&#233;dico de Fam&#237;lia     e o seu doente, depois de este lhe retirar a possibilidade de aceder &#224; sua     forma de sustento ou ao s&#237;mbolo da sua autonomia?</p>       <p>A avalia&#231;&#227;o     m&#233;dica para a condu&#231;&#227;o pode ser uma quest&#227;o deveras sens&#237;vel e dificil,     particularmente quando envolver determinadas condi&#231;&#245;es de sa&#250;de.<sup>5</sup> Estas quest&#245;es dizem respeito ao paciente e ao m&#233;dico e deveriam envolver uma     entidade reguladora com responsabilidades n&#227;o s&#243; relativamente ao avaliado     (sobretudo se se tratar de uma pessoa doente) como a toda comunidade     rodovi&#225;ria. Em certos pa&#237;ses, como na Austr&#225;lia, em que se imputou a maior     responsabilidade pela aptid&#227;o para a condu&#231;&#227;o ao m&#233;dico assistente,     verificou-se terem-se criado condi&#231;&#245;es para surgirem conflitos de interesse que     podem conduzir a situa&#231;&#245;es de falta de seguran&#231;a e de preju&#237;zo da rela&#231;&#227;o     m&#233;dico-doente, interfer&#234;ncia na orienta&#231;&#227;o cl&#237;nica do doente e vulnerabilidade     legal para o m&#233;dico. Neste enquadramento sugere-se que o m&#233;dico assistente     forne&#231;a informa&#231;&#227;o cl&#237;nica em vez de emitir um parecer. Este deve ser emitido     por peritos independentes e sem conflitos de interesses para com os avaliados.<sup>5</sup></p>       <p>Como     m&#233;dicos, n&#227;o podemos misturar pap&#233;is antag&#243;nicos, nem pactuar com situa&#231;&#245;es     absurdas. Esta legisla&#231;&#227;o deve ser revista, a bem da seguran&#231;a p&#250;blica, do     servi&#231;o de sa&#250;de, dos M&#233;dicos de Fam&#237;lia e muito em breve dos m&#233;dicos de     especialidades hospitalares, que n&#227;o poder&#227;o suportar o peso de tantas     consultas com a finalidade de pedidos de pareceres...</p>       <p>Esta lei     deve ser revista, sobretudo por causa dos cidad&#227;os que circulam nas ruas e que,     por acaso e noutra condi&#231;&#227;o muito distinta, s&#227;o utentes do Servi&#231;o Nacional de     Sa&#250;de.</p>     <p>N&#227;o     sobrecarreguemos ainda mais o Servi&#231;o Nacional de Sa&#250;de, j&#225; em condi&#231;&#245;es     prec&#225;rias na sua sustentabilidade. N&#227;o esque&#231;amos que este tem obriga&#231;&#227;o de dar     resposta a quest&#245;es de sa&#250;de e n&#227;o deve ser desviado disso por quest&#245;es     acess&#243;rias...</p>       <p>&nbsp;</p>       <p><b>REFER&#202;NCIAS BIBLIOGR&#193;FICAS</b></p>       <p>1.     Decreto-Lei n.<sup>o</sup> 138/2012. Di&#225;rio da Rep&#250;blica, 1.<sup>a</sup> s&#233;rie     - N.<sup>o</sup> 129 - 5 de Julho de 2012.</p>       <p>2.     Decreto-Lei n.<sup>o</sup> 313/2009. Di&#225;rio da Rep&#250;blica, 1.<sup>a</sup> s&#233;rie     - N.<sup>o</sup> 208 - 27 de Outubro de 2009.</p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>3. 1. Carr     DB, Duchek JM, Meuser TM, Morris JC. Older adult drivers with     cognitiveimpairment. Am Fam Physician 2006 Mar 15; 73 (6): 1029-34.</p>     <!-- ref --><p>4. Sayanda     I. Idoso e condu&#231;&#227;o. Rev Port Clin Geral 2006 Nov-Dec; 22 (6): 755-60&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000034&pid=S2182-5173201200060000100002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>5. Somerville     ER, Black AB, Dunne JW. Driving to distraction: certification of fitness to     drive with epilepsy. Med J Aust 2010 Mar 15; 192 (6): 342-4.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000035&pid=S2182-5173201200060000100003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>       <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a> | <a href="#topc0">Direcci&oacute;n para correspondencia</a> | <a href="#topc0">Correspondence</a><a name="c0"></a></p>        <p><a href="mailto:director@rpcg.apmcg.pt">director@rpcg.apmcg.pt</a></p>       <p>&nbsp;</p>       <p><b>Conflito   de interesses</b></p>       <p>A autora &#233;     Presidente do Conselho Cl&#237;nico do ACeS de Matosinhos</p>     ]]></body>
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