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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Quanto mais me bates, menos gosto de mim - abordagem da violência doméstica em Cuidados de Saúde Primários]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,ACES de Matosinhos Unidade de Saúde Familiar Horizonte ]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Introduction: Domestic violence is an epidemic that is present in society across all socio-economic, cultural and educational groups. Family physicians experience difficulty in managing these situations, torn between a passive, supportive attitude and action to empower victims with support in the community. Case description: Fiona, aged 37, came from a deprived socio-economic background and had recent changes in her family. She came to an appointment and revealed that she had recently been a victim of physical abuse by her spouse after weeks of intimidation, emotional, verbal and psychological abuse, and death threats. She called the police for help and was referred to community institutions specialized in managing these situations, but she refused to stay in a shelter with her 7 year-old son. This situation allowed regular contact between the child and his father (the abuser), resulting in a negative influence on the child’s relationship with Fiona. Given the desperate situation of the patient, a follow-up visit was arranged to monitor developments. The perception of increased risk led the healthcare team to build a tertiary prevention plan for domestic violence to be presented to the patient. Enablement of the patient, including providing knowledge of the community support programs available, allowed her to agree to go to live in a shelter with her son. Comment: This case explores the role of the family doctor in the management of domestic violence. A more active approach, aiming to empower victims, promoting their safety, making them aware of their rights, and providing appropriate referral to community resources with specialized help for these situations is required. Integrated effort by the healthcare team is critical for the design of effective guidance to victims.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Violência doméstica]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>RELATOS DE CASOS</b></p>       <p><font size="4"><b>Quanto mais me bates, menos gosto de mim     - abordagem da viol&ecirc;ncia dom&eacute;stica em Cuidados de Sa&uacute;de Prim&aacute;rios</b></font></p>       <p><font size="3"><b>The   more you hit me, the less I love myself…</b></font></p>       <p><b>Alexandra Pina*</b></p>       <p>*Interna de     Medicina Geral e Familiar na Unidade de Sa&uacute;de Familiar Horizonte, ACES de     Matosinhos</p>         <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a> | <a href="#c0">Direcci&oacute;n para correspondencia</a> | <a href="#c0">Correspondence</a><a name="topc0"></a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>      <p><b>RESUMO</b></p>       <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o:</b> A viol&ecirc;ncia dom&eacute;stica &eacute; uma     epidemia que tem estado presente desde sempre na sociedade, sendo transversal a     todas as classes socioecon&oacute;micas e culturais ou educacionais. O m&eacute;dico da     fam&iacute;lia tem tradicionalmente dificuldade em gerir estas situa&ccedil;&otilde;es, ficando     dividido entre ter uma atitude de apoio e escuta passiva ou em tomar alguma     a&ccedil;&atilde;o no sentido de capacitar a v&iacute;tima das op&ccedil;&otilde;es que existem na comunidade para     a apoiar.</p>       <p><b>Descri&ccedil;&atilde;o do caso:</b> Fiona, 37 anos,     apresenta um contexto socioecon&oacute;mico adverso e altera&ccedil;&otilde;es da din&acirc;mica familiar     recente. Recorre a consulta programada referindo ter sido v&iacute;tima recente de     maus tratos f&iacute;sicos conjugais, ap&oacute;s semanas de intimida&ccedil;&atilde;o, viol&ecirc;ncia     emocional, verbal e psicol&oacute;gica e amea&ccedil;as de morte. Pediu aux&iacute;lio &agrave; pol&iacute;cia mas     recusou o apoio imediato de emerg&ecirc;ncia social para si e filho de sete anos, que     inclu&iacute;a ficar numa Casa-Abrigo. Esta recusa possibilitou um contacto do     agressor com o filho, influenciando negativamente a sua rela&ccedil;&atilde;o com Fiona.     Perante o desespero da doente, foi agendada nova consulta para acompanhar a     evolu&ccedil;&atilde;o da situa&ccedil;&atilde;o. A equipa de sa&uacute;de foi ativada, visando a constru&ccedil;&atilde;o de     uma proposta de Plano de Preven&ccedil;&atilde;o Terci&aacute;ria da Viol&ecirc;ncia Dom&eacute;stica. A     capacita&ccedil;&atilde;o da utente e dissec&ccedil;&atilde;o das alternativas de futuro e do apoio     comunit&aacute;rio dispon&iacute;vel culminaram no consentimento da mesma em reingressar no     circuito de prote&ccedil;&atilde;o de v&iacute;timas e ir com o filho para uma Casa-Abrigo.</p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Coment&aacute;rio:</b> O caso explora a forma como     o papel do M&eacute;dico de Fam&iacute;lia na gest&atilde;o de situa&ccedil;&otilde;es de viol&ecirc;ncia dom&eacute;stica pode     ser mais ativa no sentido de capacitar as v&iacute;timas e incentivar a sua seguran&ccedil;a,     fazendo-as conhecer os seus direitos ou fornecendo refer&ecirc;ncias apropriadas para     que possam procur&aacute;-las. O trabalho integrado da equipa de sa&uacute;de &eacute; fundamental     para uma orienta&ccedil;&atilde;o global e mais efetiva da v&iacute;tima.</p>       <p><b>Palavras-chave:</b> Viol&ecirc;ncia dom&eacute;stica;     Equipa de Sa&uacute;de; Capacita&ccedil;&atilde;o.</p>     <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT</b></p>       <p><b>Introduction:</b> Domestic violence is an     epidemic that is present in society across all socio-economic, cultural and     educational groups. Family physicians experience difficulty in managing these     situations, torn between a passive, supportive attitude and action to empower     victims with support in the community.</p>       <p><b>Case description:</b> Fiona, aged 37, came     from a deprived socio-economic background and had recent changes in her family.     She came to an appointment and revealed that she had recently been a victim of     physical abuse by her spouse after weeks of intimidation, emotional, verbal and     psychological abuse, and death threats. She called the police for help and was     referred to community institutions specialized in managing these situations,     but she refused to stay in a shelter with her 7 year-old son. This situation     allowed regular contact between the child and his father (the abuser),     resulting in a negative influence on the child’s relationship with Fiona. Given     the desperate situation of the patient, a follow-up visit was arranged to     monitor developments. The perception of increased risk led the healthcare team     to build a tertiary prevention plan for domestic violence to be presented to     the patient. Enablement of the patient, including providing knowledge of the     community support programs available, allowed her to agree to go to live in a     shelter with her son.</p>       <p><b>Comment:</b> This case explores the role of     the family doctor in the management of domestic violence. A more active     approach, aiming to empower victims, promoting their safety, making them aware     of their rights, and providing appropriate referral to community resources with     specialized help for these situations is required. Integrated effort by the     healthcare team is critical for the design of effective guidance to victims.</p>       <p><b>Key-words:</b> Domestic violence;     Healthcare team; Enablement.</p>     <hr/>     <p>&nbsp;</p>       <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A viol&ecirc;ncia     dom&eacute;stica &eacute; um crime p&uacute;blico que se encontra ainda demasiado presente na nossa     sociedade. O aumento do n&uacute;mero de den&uacute;ncias decorrer&aacute;, em parte, da maior     consci&ecirc;ncia das v&iacute;timas em rela&ccedil;&atilde;o aos seus direitos.<sup>1</sup> Trata-se de     uma designa&ccedil;&atilde;o que engloba todo o tipo de agress&otilde;es, f&iacute;sicas ou psicol&oacute;gicas,     que existam no seio de uma rela&ccedil;&atilde;o emocional/familiar, atingindo qualquer     elemento dessa rela&ccedil;&atilde;o,<sup>2</sup> e cerca de um quarto dos casais portugueses     admite ter vivido uma situa&ccedil;&atilde;o de viol&ecirc;ncia deste tipo.<sup>3</sup></p>       <p>As mulheres     s&atilde;o as v&iacute;timas mais frequentes, estimando-se que &laquo;a viol&ecirc;ncia contra as     mulheres no espa&ccedil;o dom&eacute;stico &eacute; a maior causa de morte e invalidez entre     mulheres dos 16 aos 44 anos, ultrapassando o cancro, acidentes de via&ccedil;&atilde;o e at&eacute;     a guerra.&raquo;<sup>4</sup></p>       <p>No entanto,     face a este tipo de situa&ccedil;&otilde;es de viol&ecirc;ncia, foi constatado, num inqu&eacute;rito     nacional de 1995, que a maioria das mulheres se limita meramente a ter uma     rea&ccedil;&atilde;o passiva &agrave; agress&atilde;o (78%), e que s&oacute; 1% das v&iacute;timas recorre aos tribunais     ou pede aux&iacute;lio &agrave; pol&iacute;cia.<sup>5</sup></p>       <p>No que     respeita aos cuidados de sa&uacute;de, esta situa&ccedil;&atilde;o entra dentro do gabinete do     M&eacute;dico de Fam&iacute;lia (MF) com a v&iacute;tima, frequentemente escondida atr&aacute;s de um muro     de vergonha e de auto-culpabilidade, queixas f&iacute;sicas inespec&iacute;ficas ou desculpas     relacionadas com acidentes dom&eacute;sticos repetidos. Um estudo de 2005 sobre     Viol&ecirc;ncia F&iacute;sica Conjugal na Mulher, realizado em Cuidados de Sa&uacute;de Prim&aacute;rios,     identificou uma preval&ecirc;ncia de 20,5%, independentemente da idade, estado civil,     ou n&iacute;vel socioecon&oacute;mico da v&iacute;tima.<sup>6</sup></p>       <p>Frequentemente,     mesmo quando as marcas f&iacute;sicas ou psicol&oacute;gicas levantam a suspeita deste crime,     gera-se uma &laquo;conspira&ccedil;&atilde;o do sil&ecirc;ncio&raquo; perante estas situa&ccedil;&otilde;es, na qual colabora     a pr&oacute;pria v&iacute;tima, que frequentemente tem pouca consciencializa&ccedil;&atilde;o da natureza     criminal e vive uma ambiguidade de sentimentos que n&atilde;o a deixam agir. Existe     ainda uma certa toler&acirc;ncia e cumplicidade para com o homem quando este &eacute; o     agressor.</p>       <p>Por&eacute;m,     quando h&aacute; o <i>gut feeling</i>&nbsp;de um     desfecho fatal, existir&atilde;o mais medidas que o M&eacute;dico de Fam&iacute;lia poder&aacute; adotar,     de modo a procurar capacitar a v&iacute;tima e proteger os elementos da fam&iacute;lia que     segue.</p>       <p><b>Descri&ccedil;&atilde;o do caso</b></p>       <p><b>Identifica&ccedil;&atilde;o</b></p>       <p>Fiona &eacute; uma     utente de 37 anos, que consentiu a transposi&ccedil;&atilde;o da sua hist&oacute;ria, garantindo-se     a confidencialidade.</p>       <p>De ra&ccedil;a     caucasiana e natural do Alentejo, reside numa cidade do norte do pa&iacute;s h&aacute; 19     anos e tem o 6.<sup>o</sup> ano de escolaridade. Trabalhava num &laquo;restaurante&raquo;     gerido pela fam&iacute;lia.</p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Como     antecedentes pessoais apresentava registos de distimia, ansiedade e baixa     autoestima. N&atilde;o existiam antecedentes familiares de relevo.</p>       <p>Pertencia a     uma classe de Graffar m&eacute;dia-baixa e o seu agregado familiar era constitu&iacute;do     pelo marido, com quem est&aacute; casada desde os 17 anos, e pelos dois filhos de     ambos (rapazes com 19 e 7 anos), encontrando-se na fase V do ciclo de Duvall. O     &uacute;nico outro contacto relevante &eacute; a m&atilde;e, que mora no Alentejo.</p>       <p>N&atilde;o existiu     possibilidade para fazer entrevista e avalia&ccedil;&atilde;o familiar por limita&ccedil;&atilde;o de tempo     e urg&ecirc;ncia na resolu&ccedil;&atilde;o do caso cl&iacute;nico.</p>       <p><b>Contexto familiar e social</b></p>       <p>Em julho de     2011 o filho mais velho abandona a casa e trabalho no restaurante, em conflito     com o pai, quando se descobre que este tem uma rela&ccedil;&atilde;o extraconjugal e um filho     com a outra companheira.</p>       <p>Na sequ&ecirc;ncia     desta situa&ccedil;&atilde;o, o marido abandonou tamb&eacute;m a casa.</p>       <p>Fiona passou     a gerir as d&iacute;vidas da casa e do restaurante sozinha, o que ainda dificultou     mais a situa&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica do agora agregado monoparental (ela e o filho mais     novo).</p>       <p><b>Hist&oacute;ria da doen&ccedil;a atual</b></p>       <p>Em setembro     de 2011, numa consulta de planeamento familiar e vigil&acirc;ncia oncol&oacute;gica,     aborda-se a situa&ccedil;&atilde;o familiar atual e a utente refere estar &laquo;cansada e triste,     com medo de n&atilde;o ter capacidade para gerir as d&iacute;vidas e as despesas da casa e     restaurante&raquo;. &Eacute; disponibilizado apoio em nova consulta, sugerindo-se a     realiza&ccedil;&atilde;o de uma avalia&ccedil;&atilde;o familiar, mas Fiona refere estar atualmente muito     ocupada com o trabalho e fica de agendar novo contacto quando tiver     possibilidade.</p>       <p>Em fevereiro     de 2012, Fiona regressa a uma consulta na USF e refere ter sido v&iacute;tima de     viol&ecirc;ncia dom&eacute;stica f&iacute;sica pelo marido h&aacute; 15 dias, na sequ&ecirc;ncia de semanas de     insist&ecirc;ncia para reatarem o casamento, associada a persistente viol&ecirc;ncia     psicol&oacute;gica, incluindo amea&ccedil;as de morte. Mesmo no local de trabalho tornaram-se     persistentes os insultos a Fiona e aos clientes, assim como demonstra&ccedil;&otilde;es de     ci&uacute;me.</p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ap&oacute;s ter     contactado a pol&iacute;cia, foi ativada a linha 144 (Emerg&ecirc;ncia Social), que a     encaminhou para o servi&ccedil;o local &laquo;Primeiro Passo&raquo;, um Centro de Atendimento a     V&iacute;timas de Viol&ecirc;ncia da delega&ccedil;&atilde;o da Cruz Vermelha Portuguesa, e alertou a     Comiss&atilde;o de Prote&ccedil;&atilde;o de Crian&ccedil;as e Jovens por haver um menor envolvido. Nesse     servi&ccedil;o de apoio &agrave; v&iacute;tima, foram realizados acompanhamento psicol&oacute;gico e     aconselhamento jur&iacute;dico e foi aconselhada a abandonar a casa e fechar o     restaurante. Recusou a resposta de emerg&ecirc;ncia imediata que lhe ofereceram, e     que inclu&iacute;a ser alojada numa Casa Abrigo. Preferiu pedir a uma amiga para a     acolher em sua casa com o filho.</p>       <p>Como o     ex-companheiro conhecia esta amiga, passou a ir ver a crian&ccedil;a todos os dias,     manipulando-a psicologicamente para insultar e duvidar da m&atilde;e. At&eacute; o filho mais     velho foi influenciado pelo pai e encontrava-se solid&aacute;rio para com este.</p>       <p>Fiona     contemplou o suic&iacute;dio v&aacute;rias vezes e a sua baixa autoestima encontrava-se ainda     mais exacerbada. Apesar de j&aacute; ter adquirido algum conhecimento dos seus     direitos no primeiro contacto com a APAV, n&atilde;o conseguia evitar sentimentos de     ambiguidade emocional, vergonha, auto-culpabilidade, medo e impot&ecirc;ncia.</p>       <p>Foi agendada     uma nova consulta para a semana seguinte, para apoio da utente e acompanhamento     da situa&ccedil;&atilde;o familiar. Este intervalo de tempo serviu como espa&ccedil;o de reflex&atilde;o     relativamente ao caso cl&iacute;nico e de interroga&ccedil;&atilde;o relativamente &agrave; forma como     deveria ser abordado.</p>       <p>Apesar de se     tratar de uma consulta m&eacute;dica, este caso era um exemplo tamb&eacute;m de uma velha     quest&atilde;o social de um crime p&uacute;blico (artigo 152.<sup>o</sup> do C&oacute;digo Penal     Portugu&ecirc;s)<sup>7</sup> que como cidad&atilde;o se tem a obriga&ccedil;&atilde;o de denunciar. Esta     mulher estava a ser v&iacute;tima de Viol&ecirc;ncia Conjugal com vitima&ccedil;&atilde;o m&uacute;ltipla, tendo     sofrido maus tratos f&iacute;sicos, intimida&ccedil;&atilde;o, maus tratos emocionais, verbais e     psicol&oacute;gicos, amea&ccedil;as, e recurso ao privil&eacute;gio masculino.<sup>8</sup></p>       <p>Uma vez que     a situa&ccedil;&atilde;o j&aacute; tinha sido denunciada, e como m&eacute;dico de toda a fam&iacute;lia, surgiu o     dilema entre adotar uma atitude passiva de apoio ou decidir investir em     capacitar a utente para outras solu&ccedil;&otilde;es. Tratando-se o marido de um indiv&iacute;duo     que ter&iacute;amos dificuldade em persuadir no sentido da mudan&ccedil;a de atitudes e dada     a perce&ccedil;&atilde;o de que se trataria de uma situa&ccedil;&atilde;o grave, optou-se por discutir este     problema com a equipa de sa&uacute;de, e pedir a colabora&ccedil;&atilde;o da assistente social.</p>       <p>Procedeu-se     ao contacto com o local onde a utente tinha sido primeiramente observada ap&oacute;s a     ocorr&ecirc;ncia, para se averiguar se o <i>gut     feeling</i> corresponderia &agrave; realidade. Foi contactada a &laquo;Primeiro Passo&raquo;, e os     profissionais que tinham apoiado Fiona ainda se recordavam perfeitamente da     situa&ccedil;&atilde;o, mesmo ap&oacute;s terem passado duas semanas, porque tamb&eacute;m tinham ficado     apreensivos com a decis&atilde;o da utente. Aproveitou-se para se discutir com esses     profissionais as op&ccedil;&otilde;es e possibilidade de a reintegrar no circuito de apoio &agrave;     v&iacute;tima, caso aceitasse, e foi confirmada a disponibilidade.</p>       <p>Antes do     contacto com Fiona, foi realizado um exerc&iacute;cio de avalia&ccedil;&atilde;o do contexto e das     suas necessidades conhecidas: n&atilde;o existia possibilidade de apoio familiar     pr&oacute;ximo e n&atilde;o havia rede econ&oacute;mica de suporte; o apoio por pessoas conhecidas     pelo marido revestia-se de perigos paralelos; e tornava-se clara a necessidade     de cuidados especializados e regulares a n&iacute;vel psicol&oacute;gico, quer para si, quer     para o filho.</p>       <p>O objetivo     estabelecido pela equipa foi no sentido de tentar capacitar a utente dos seus     direitos e rever o seu contexto atual, de modo a promover a ades&atilde;o a um Plano     de Preven&ccedil;&atilde;o Terci&aacute;ria da Viol&ecirc;ncia Dom&eacute;stica,<sup>8</sup> que inclu&iacute;sse as     vertentes de reabilita&ccedil;&atilde;o, reintegra&ccedil;&atilde;o na sociedade e redu&ccedil;&atilde;o dos traumas     psicol&oacute;gicos e incapacidade a longo prazo associada com a viol&ecirc;ncia. Este apoio     poderia ser realizado, com mais dificuldade, em ambulat&oacute;rio, ou poderia ser     facilitado e protegido, caso aceitasse a integra&ccedil;&atilde;o num dos Centros de Apoio     especializado.</p>       <p>A consulta     de reavalia&ccedil;&atilde;o agendada pelo prestador de cuidados foi realizada com a     colabora&ccedil;&atilde;o da Assistente Social. Mantinham-se as amea&ccedil;as, a persegui&ccedil;&atilde;o e     tinha-se agravado a incapacidade para gerir os sentimentos e rea&ccedil;&otilde;es do filho,     que j&aacute; apresentava comportamentos agressivos para com Fiona.</p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A Equipa     colocou em pr&aacute;tica o plano pr&eacute;-estabelecido, e debateram-se os pr&oacute;s e contras     de manter a situa&ccedil;&atilde;o atual, para si mas tamb&eacute;m para o seu filho, tendo em conta     o seu contexto s&oacute;cio-familiar, econ&oacute;mico e emocional. A utente decidiu aceitar     ajuda para reativar novo contacto com a &laquo;Primeiro Passo&raquo;. Foi confirmada a     disponibilidade de integrar Fiona e o filho numa Casa Abrigo, de modo a poder     construir-se um plano de apoio para ambos (Z45, Z58). A dificuldade em gerir o     comportamento do filho mais novo foi a principal for&ccedil;a motriz para a mudan&ccedil;a de     atitude da utente.</p>       <p><b>COMENT&Aacute;RIO</b></p>       <p>A abordagem     realizada neste caso de viol&ecirc;ncia dom&eacute;stica partiu da perce&ccedil;&atilde;o da sua gravidade     pelo MF, que entendeu ser seu dever capacitar a utente dos seus direitos, com o     apoio da equipa de sa&uacute;de.</p>       <p>O seu     racioc&iacute;nio cl&iacute;nico implicou uma vis&atilde;o da realidade biopsicossocial, emocional e     espiritual da utente, de modo a ajud&aacute;-la a desenhar um plano de preven&ccedil;&atilde;o     terci&aacute;ria da viol&ecirc;ncia dom&eacute;stica que beneficiaria em ser cumprido numa     institui&ccedil;&atilde;o especializada.</p>       <p>O papel do     M&eacute;dico de Fam&iacute;lia passar&aacute;, mais do que oferecer o ombro amigo, por apoiar nas     decis&otilde;es e ouvir as queixas das v&iacute;timas. &Eacute; necess&aacute;rio compreender a din&acirc;mica da     Viol&ecirc;ncia Conjugal, questionar sobre a exist&ecirc;ncia dos v&aacute;rios tipos de agress&atilde;o     para avaliar o risco/gravidade associado e, pelo menos, incentivar a seguran&ccedil;a     dos utentes e faz&ecirc;-los conhecer os seus direitos ou fornecer refer&ecirc;ncias     apropriadas para que possam procur&aacute;-las.</p>       <p>No <a href="#q1">Quadro I</a>     listam-se alguns dos contactos e locais na comunidade que se julgam importantes     para uma melhor orienta&ccedil;&atilde;o das v&iacute;timas deste crime p&uacute;blico, e que podem     facilmente ser sugeridos pelo m&eacute;dico de fam&iacute;lia, como gestor da sa&uacute;de dos seus utentes, mas tamb&eacute;m como cidad&atilde;o.</p>     <p>&nbsp;</p>    <p align="center"><a name="q1"></a><img src="/img/revistas/rpmgf/v29n4/29n4a07q1.jpg"/></p>    
<p>&nbsp;</p>     <p>&Eacute;     compreens&iacute;vel que para estas v&iacute;timas dificilmente h&aacute; finais felizes, mas o     relato deste caso pretende relembrar que &eacute; poss&iacute;vel que possamos tentar     contribuir para que os desfechos destas situa&ccedil;&otilde;es sejam menos dram&aacute;ticos do que     aqueles que nos acabam por chegar atrav&eacute;s dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o social, em     que muitas vidas v&atilde;o ficando pelo caminho.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>       <p><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></p>       <!-- ref --><p>1.     Associa&ccedil;&atilde;o Portuguesa de Apoio &agrave; V&iacute;tima. Relat&oacute;rio Anual 2011 - Estat&iacute;sticas     APAV. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://apav.pt/apav_v2/images/pdf/Estatisticas_APAV_RelatorioAnual_2011.pdf" target="_blank">http://apav.pt/apav_v2/images/pdf/Estatisticas_APAV_RelatorioAnual_2011.pdf</a> (acedido em 15/12/2012).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000065&pid=S2182-5173201300040000700001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>       <p>2. World     Health Organization. La violencia, un problema mundial de salud p&uacute;blica.     Cap&iacute;tulo 1. Informe mundial sobre la violencia y la salud. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.paho.org/Spanish/AM/PUB/capitulo_1.pdf" target="_blank">http://www.paho.org/Spanish/AM/PUB/capitulo_1.pdf</a> (acedido em 15/12/2012).</p>       <!-- ref --><p>3. Machado     C. Viol&ecirc;ncia nas fam&iacute;lias portuguesas: um estudo representativo na regi&atilde;o     norte. Psychologica (Coimbra) 2005; 40: 173-94.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000068&pid=S2182-5173201300040000700003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>       <p>4. Plano     Nacional contra a Viol&ecirc;ncia Dom&eacute;stica. Resolu&ccedil;&atilde;o do Conselho de Ministros n&ordm;     55/99, de 27 de maio. Dispon&iacute;vel em:     <a href="http://app.parlamento.pt/violenciadomestica/conteudo/pdfs/legislacao/rcm551999.pdf" target="_blank">http://app.parlamento.pt/violenciadomestica/conteudo/pdfs/legislacao/rcm551999.pdf</a>     (acedido em 15/12/2012).</p>       <!-- ref --><p>5. Louren&ccedil;o     N, Lisboa M, Pais E. Inqu&eacute;rito Nacional “Viol&ecirc;ncia Contra as Mulheres”. Lisboa:     Universidade Nova de Lisboa/Comiss&atilde;o para a Igualdade e para os Direitos das     Mulheres; 1995.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000071&pid=S2182-5173201300040000700004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>6. Coelho P.     Viol&ecirc;ncia Conjugal - Viol&ecirc;ncia f&iacute;sica conjugal nas mulheres que recorrem aos     cuidados de sa&uacute;de prim&aacute;rios. Rev Port Clin Geral 2005 jul-ago; 21 (4): 343-51.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000073&pid=S2182-5173201300040000700005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>       <p>7. Portugal.     C&oacute;digo Penal. Art. 152&ordm; (Viol&ecirc;ncia dom&eacute;stica).</p>     <!-- ref --><p>8. Centers     for Disease Control and Prevention. The Social-Ecological Model: a Framework     for Prevention. Dispon&iacute;vel em:     <a href="http://www.cdc.gov/ViolencePrevention/overview/social-ecologicalmodel.html" target="_blank">http://www.cdc.gov/ViolencePrevention/overview/social-ecologicalmodel.html</a> (acedido     em 28/11/2012).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000076&pid=S2182-5173201300040000700006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>9.     Estruturas de Atendimento a V&iacute;timas de Viol&ecirc;ncia Dom&eacute;stica. Dispon&iacute;vel em:     <a href="http://195.23.38.178/cig/portalcig/bo/documentos/Estruturas_atendimento_Concelho.pdf" target="_blank">http://195.23.38.178/cig/portalcig/bo/documentos/Estruturas_atendimento_Concelho.pdf</a>     (acedido em 15/12/2012).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000078&pid=S2182-5173201300040000700007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a> | <a href="#topc0">Direcci&oacute;n para correspondencia</a> | <a href="#topc0">Correspondence</a><a name="c0"></a></p>        <p>Alexandra     Pina</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Rua Carlos     Alberto Morais, 122D, 11.<sup>o</sup> esq.<sup>o</sup>, 4450-349, Le&ccedil;a da     Palmeira</p>       <p><a href="mailto:amspina@gmail.com">amspina@gmail.com</a></p>         <p>&nbsp;</p>       <p><b>Agradecimentos</b></p>       <p>A autora     agradece o apoio e colabora&ccedil;&atilde;o da Assistente Social do ACES de Matosinhos, Dr.&ordf;     Sandra Ferreira, que foi fundamental na gest&atilde;o do caso relatado e na obten&ccedil;&atilde;o     do consentimento informado da utente, por contacto com as inst&acirc;ncias de apoio &agrave;     v&iacute;tima onde esta se encontra atualmente.</p>       <p><b>Conflitos de interesse</b></p>       <p>A autora     declara n&atilde;o possuir qualquer tipo de conflito de interesses.</p>       <p><b>Financiamento</b></p>       <p>Este estudo     n&atilde;o recebeu qualquer financiamento externo.</p>       <p></p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Recebido em 26/12/2012</b></p>       <p><b>Aceite para publica&ccedil;&atilde;o em 23/05/2013</b></p>       <p>&nbsp;</p>       <p><i>Artigo escrito ao abrigo do novo acordo     ortogr&aacute;fico.</i></p> </div>      ]]></body><back>
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<collab>Associação Portuguesa de Apoio à Vítima</collab>
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<label>2</label><nlm-citation citation-type="">
<collab>World Health Organization</collab>
<source><![CDATA[La violencia, un problema mundial de salud pública: Capítulo 1]]></source>
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