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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Relação médico-doente: uma aliança nos cuidados de saúde]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Introduction: The reasons that lead patients to seek health care, the value of symptoms, and their perception of problems depend on the personal history, cultural, socioeconomic and family context of the patient. Illness (the disease experience of the patient) and disease (the medical disease) are terms used to describe what the patient feels when he goes to the doctor and what he has when he returns home after the consultation. This case aims to highlight the importance of the presenting complaint and its exploration by the Family Physician. Case Description: A 56 year-old unemployed man came to his first consultation in four years because of a lesion on his forearm, which has been present for five years. He was not receiving medication, did not smoke, and had moderate alcohol consumption. There was one visit recorded in 2007 with a diagnosis of hypertension. The blood pressure at the current visit was found to be elevated. In addition, a vegetative tumor was noted on his forearm. The patient agreed to renew follow-up, to perform the necessary tests, and accepted a referral to the dermatology clinic. A squamous cell carcinoma was diagnosed. The patient returned to clinic to obtain the results of his tests. A diagnosis of diabetes mellitus was suspected and confirmed. His blood pressure remained elevated and medication was prescribed. Comment: The family physician must try to understand why patients choose to consult or delay consultation. Is there a fear of being labeled as a sick person? Is the social network weak? This patient, who considered himself healthy, was labeled with a different disease at each visit. The family physician should manage expectations, explore them, discuss them and negotiate with the patient so that care is more effective and better accepted by patients. This can have implications for adherence to treatment and patient satisfaction with the consultation.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Relação Médico-Doente]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Motivo de Consulta]]></kwd>
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<kwd lng="en"><![CDATA[Disease]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>RELATOS DE CASOS</b></p>       <p><font size="4"><b>Rela&ccedil;&atilde;o m&eacute;dico-doente: uma alian&ccedil;a nos     cuidados de sa&uacute;de</b></font></p>       <p><font size="3"><b>Patient-doctor   relationships: an alliance in health care</b></font></p>       <p><b>Ana Cristina Pereira,* Filipa Alves Rocha**</b></p>       <p>*Interna de     Medicina Geral e Familiar/ USF Nova Via, ACES Grande Porto VIII &#8211;     Espinho/Gaia</p>       <p>**Interna de     Medicina Geral e Familiar/ USF Egas Moniz, ACES Entre Douro e Vouga I &#8211;     Feira/Arouca</p>         <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a> | <a href="#c0">Direcci&oacute;n para correspondencia</a> | <a href="#c0">Correspondence</a><a name="topc0"></a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>      <p><b>RESUMO</b></p>       <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o:</b> Os motivos que levam um     utente a recorrer aos cuidados de sa&uacute;de e a forma como valoriza os sintomas e     os perceciona como problema v&atilde;o depender da hist&oacute;ria pessoal e do contexto     familiar, cultural e socioecon&oacute;mico. A &laquo;doen&ccedil;a do doente&raquo; <i>(illness)</i> e a &laquo;doen&ccedil;a do m&eacute;dico&raquo; <i>(disease)</i> s&atilde;o termos usados para descrever o que &laquo;o doente sente     quando vai ao m&eacute;dico&raquo; e &laquo;o que ele tem quando volta para casa ap&oacute;s a consulta&raquo;.     Este caso pretende real&ccedil;ar a import&acirc;ncia do motivo de consulta e da sua     explora&ccedil;&atilde;o pelo M&eacute;dico de Fam&iacute;lia (MF).</p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Descri&ccedil;&atilde;o do Caso:</b> Homem, 56 anos,     desempregado. Separado, fam&iacute;lia unit&aacute;ria. Recorreu &agrave; consulta, pela primeira     vez nos &uacute;ltimos quatro anos, por les&atilde;o no antebra&ccedil;o com cinco anos de evolu&ccedil;&atilde;o.     Registo de consulta em 2007 com diagn&oacute;stico de hipertens&atilde;o arterial mas negava     antecedentes relevantes. Fumador, consumo moderado de &aacute;lcool, n&atilde;o fazia     medica&ccedil;&atilde;o. Verificou-se tens&atilde;o arterial (TA) elevada e les&atilde;o tumoral     vegetativa, do tipo couve-flor, no antebra&ccedil;o. Aceitou reiniciar cuidados de     sa&uacute;de, pediu-se estudo anal&iacute;tico e referenciou-se para dermatologia.     Diagn&oacute;stico posterior de carcinoma espinocelular. Voltou &agrave; consulta para     mostrar resultados. Perante a possibilidade de ser diab&eacute;tico o doente     desvalorizou. Confirmou-se o diagn&oacute;stico e mantendo TA elevada prop&ocirc;s-se     anti-hipertensor, anti-diab&eacute;tico oral e anti-dislipid&eacute;mico, a que o utente     aderiu.</p>       <p><b>Coment&aacute;rio:</b> O MF deve tentar perceber o     porqu&ecirc; do doente ter recorrido apenas agora aos cuidados de sa&uacute;de. Medo de ser     rotulado de doente? Pela rede social ser escassa? Este paciente, que at&eacute; ent&atilde;o     se considerava saud&aacute;vel, foi rotulado com um problema/doen&ccedil;a diferente em cada     consulta. Compete ao MF fazer a gest&atilde;o das suas expectativas, que devem ser     exploradas, discutidas e negociadas, para que os cuidados prestados sejam mais     efetivos e melhor aceites pelo paciente, o que ter&aacute; implica&ccedil;&otilde;es na ades&atilde;o     terap&ecirc;utica e satisfa&ccedil;&atilde;o com este encontro.</p>       <p><b>Palavras-chave:</b> Rela&ccedil;&atilde;o M&eacute;dico-Doente;     Motivo de Consulta; Doen&ccedil;a; Dol&ecirc;ncia.</p>     <hr/>     <p>&nbsp;</p>       <p><b>ABSTRACT</b></p>       <p><b>Introduction:</b> The reasons that lead     patients to seek health care, the value of symptoms, and their perception of     problems depend on the personal history, cultural, socioeconomic and family     context of the patient. Illness (the disease experience of the patient) and     disease (the medical disease) are terms used to describe what the patient feels     when he goes to the doctor and what he has when he returns home after the     consultation. This case aims to highlight the importance of the presenting   complaint and its exploration by the Family Physician.</p>       <p><b>Case Description:</b> A 56 year-old     unemployed man came to his first consultation in four years because of a lesion     on his forearm, which has been present for five years. He was not receiving     medication, did not smoke, and had moderate alcohol consumption. There was one     visit recorded in 2007 with a diagnosis of hypertension. The blood pressure at     the current visit was found to be elevated. In addition, a vegetative tumor was     noted on his forearm. The patient agreed to renew follow-up, to perform the     necessary tests, and accepted a referral to the dermatology clinic. A squamous     cell carcinoma was diagnosed. The patient returned to clinic to obtain the     results of his tests. A diagnosis of diabetes mellitus was suspected and     confirmed. His blood pressure remained elevated and medication was prescribed.</p>       <p><b>Comment:</b> The family physician must try     to understand why patients choose to consult or delay consultation. Is there a     fear of being labeled as a sick person? Is the social network weak? This     patient, who considered himself healthy, was labeled with a different disease     at each visit. The family physician should manage expectations, explore them,     discuss them and negotiate with the patient so that care is more effective and     better accepted by patients. This can have implications for adherence to     treatment and patient satisfaction with the consultation.</p>       <p><b>Keywords:</b> Patient-Doctor Relationship;     Reason for Consultation; Disease; Illness.</p>     <hr/>     <p>&nbsp;</p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>       <p>Os motivos     que levam os utentes a recorrer ou n&atilde;o aos cuidados de sa&uacute;de s&atilde;o muito     vari&aacute;veis. Mesmo quando existem sinais ou sintomas, estes podem n&atilde;o ser     valorizados pelo indiv&iacute;duo no sentido de o fazer consultar o seu m&eacute;dico ou     tomar a iniciativa de &laquo;se tratar&raquo;. A forma como o indiv&iacute;duo perceciona o     problema e valoriza os sintomas como sendo doen&ccedil;a vai depender da sua hist&oacute;ria     pessoal e do seu contexto familiar, cultural e socioecon&oacute;mico. Quando um ou     mais sintomas s&atilde;o classificados como doen&ccedil;a e a rede social de apoio (fam&iacute;lia,     amigos, vizinhos) do indiv&iacute;duo confirma esse diagn&oacute;stico, poder&aacute; ser necess&aacute;rio     que seja rotulado de doente e tal exige que esteja disposto a aceitar esse     papel e que se tomem medidas, recorrendo a algum dos setores do sistema local     de sa&uacute;de. Segundo Kleinman<sup>1</sup>, este &eacute; definido como um conjunto de     recursos que existem numa determinada comunidade para responder &agrave;s situa&ccedil;&otilde;es de     doen&ccedil;a, dividindo esse sistema em tr&ecirc;s setores: popular, <i>&laquo;folk&raquo;</i> e profissional. No setor popular est&atilde;o inclu&iacute;dos os     auto-cuidados, os cuidados prestados pela fam&iacute;lia, vizinhos e amigos e a rede     social de apoio em geral. Os especialistas locais, como por exemplo os     &laquo;endireitas&raquo;, curandeiros, etc., e alguns representantes de medicinas     alternativas (acupuntura, homeopatia, etc.) pertencem ao setor <i>&laquo;folk&raquo;.</i> Os m&eacute;dicos, enfermeiros e outros     representantes de medicina complementar est&atilde;o inclu&iacute;dos no setor profissional.</p>       <p>Quando um     doente procura o m&eacute;dico tem j&aacute; alguma ideia sobre o seu problema de sa&uacute;de, que     adv&eacute;m da sua experi&ecirc;ncia, cultura local e da rede social de apoio.     Frequentemente, esse mesmo doente j&aacute; tentou algumas solu&ccedil;&otilde;es terap&ecirc;uticas e     seguiu uma cadeia de conselhos, desde auto-medica&ccedil;&atilde;o, fam&iacute;lia, amigos, vizinhos     e farmac&ecirc;utico.<sup>2</sup> O m&eacute;dico est&aacute; geralmente apenas no final desta     cadeia. A decis&atilde;o de recorrer a este ir&aacute; depender ainda da disponibilidade dos     cuidados m&eacute;dicos e da capacidade econ&oacute;mica para os suportar. Assim, o doente s&oacute;     ir&aacute; recorrer ao m&eacute;dico quando ele e aqueles ao seu redor se sentem incapazes de     lidar com o problema, perante a falha do tratamento &laquo;popular&raquo; e/ou quando     atinge o seu limiar de ansiedade ou toler&acirc;ncia. Quando este encontro entre o     m&eacute;dico e o doente acontece, d&aacute;-se tamb&eacute;m o encontro entre duas perspetivas     diferentes, que devem ser esclarecidas, discutidas e negociadas em cada     consulta. Como aux&iacute;lio nesta abordagem &eacute; importante ter em considera&ccedil;&atilde;o as     diferen&ccedil;as entre as defini&ccedil;&otilde;es &laquo;leigas&raquo; e &laquo;m&eacute;dicas&raquo; do que &eacute; a sa&uacute;de, bem como     o conceito de &laquo;doen&ccedil;a do doente&raquo; <i>(illness)</i> e de &laquo;doen&ccedil;a do m&eacute;dico&raquo; <i>(disease).</i> O     termo <i>&laquo;illness&raquo;</i> &eacute; usado para     classificar o que &laquo;o doente sente quando vai ao m&eacute;dico&raquo; e a palavra <i>&laquo;disease&raquo;</i> para descrever &laquo;o que ele tem     quando volta para casa ap&oacute;s a consulta com o m&eacute;dico&raquo;.<sup>1,2</sup> O conceito     de dol&ecirc;ncia deve tamb&eacute;m ser tido em conta, isto &eacute;, os efeitos psicossociais da     doen&ccedil;a, a dor e o sofrimento que a doen&ccedil;a/problema causa &agrave;quele doente. Alguns     autores consideram que numa consulta devem ser avaliadas quatro dimens&otilde;es da     dol&ecirc;ncia: os medos e sentimentos relacionados com o problema, as explica&ccedil;&otilde;es     acerca das queixas/problema, o impacto do problema na vida di&aacute;ria e as     expectativas do doente face ao m&eacute;dico.<sup>3</sup></p>       <p>Este caso     pretende real&ccedil;ar a import&acirc;ncia da perspetiva do doente sobre o problema de     sa&uacute;de que o levou a procurar o seu m&eacute;dico (motivo da consulta) e compreender a     diferen&ccedil;a entre <i>&laquo;illness&raquo;</i> e <i>&laquo;disease&raquo;</i> como aux&iacute;lio na abordagem em     Medicina Geral e Familiar (MGF) e na rela&ccedil;&atilde;o estabelecida desde o primeiro     contacto com o M&eacute;dico de Fam&iacute;lia (MF).</p>       <p><b>Descri&ccedil;&atilde;o     do Caso</b></p>       <p>Apresenta-se     o caso de um doente, o Sr. Jos&eacute; (nome fict&iacute;cio), sexo masculino, 56 anos de     idade, ex-empregado de armaz&eacute;m (desempregado), com o quarto ano de     escolaridade. Separado h&aacute; cinco anos. Tinha duas filhas, casadas e com filhos.     Pertencia a uma fam&iacute;lia unit&aacute;ria. Vivia num anexo da casa da irm&atilde; com a qual     mantinha rela&ccedil;&atilde;o conflituosa. A rela&ccedil;&atilde;o com as filhas foi sempre distante mas     agravou-se desde a separa&ccedil;&atilde;o (<a href="#f1">Figura 1</a>).</p>       <p>&nbsp;</p>    <p align="center"><a name="f1"></a><img src="/img/revistas/rpmgf/v29n5/29n5a06f1.jpg"/></p>    
<p>&nbsp;</p>       <p><i>&laquo;Nunca gostou de ir ao m&eacute;dico&raquo;</i> (sic).     Tinha <i>&laquo;medo de estar doente&raquo;, &laquo;de tirar     sangue&raquo;</i> (sic). Ia &agrave; consulta sempre acompanhado pela esposa ou pelas     filhas, o que deixou de acontecer ap&oacute;s a separa&ccedil;&atilde;o. Consequentemente cessou de     procurar e manter os cuidados de sa&uacute;de.</p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>2/Maio/2011 - 1.<sup>a</sup> consulta</b></p>       <p>Recorreu a     uma consulta em maio de 2011, pela primeira vez nos &uacute;ltimos quatro anos, por     iniciativa pr&oacute;pria. O motivo de consulta foi uma les&atilde;o no antebra&ccedil;o, com cerca     de cinco anos de evolu&ccedil;&atilde;o, crescimento gradual e atualmente pruriginosa. <i>&laquo;N&atilde;o percebia de onde vinha aquela les&atilde;o&raquo;</i> mas <i>&laquo;como n&atilde;o incomodava…&raquo;</i> (sic).     Come&ccedil;ou a preocupar-se pelas hemorragias frequentes associadas e decidiu marcar     consulta por press&atilde;o dos vizinhos.</p>       <p>No processo     cl&iacute;nico informatizado constava apenas o registo de uma consulta em 2007, ainda     com a anterior MF, &agrave; qual ter&aacute; recorrido por se sentir doente. Nessa consulta     estava registado o diagn&oacute;stico de hipertens&atilde;o arterial (HTA), tendo sido     medicado com losartan 50 mg id, e na lista de problemas acrescia o abuso do     tabaco, abuso cr&oacute;nico do &aacute;lcool e doen&ccedil;a do f&iacute;gado n&atilde;o especificada.</p>       <p>Quando     questionado pela atual MF, negava antecedentes cir&uacute;rgicos, internamentos e at&eacute;     mesmo antecedentes patol&oacute;gicos, incluindo HTA. N&atilde;o fazia medica&ccedil;&atilde;o regular e     negava alergias conhecidas. Mantinha h&aacute;bitos tab&aacute;gicos (20 cigarros/dia) e     consumo moderado de &aacute;lcool (336 g/semana). Negava consumo de drogas de abuso,     fazia uma alimenta&ccedil;&atilde;o sem restri&ccedil;&otilde;es e n&atilde;o praticava qualquer exerc&iacute;cio f&iacute;sico.     Dos antecedentes familiares, apenas a referir hist&oacute;ria de alcoolismo do pai.     Neste contacto com o Sr. Jos&eacute; foi avaliada a tens&atilde;o arterial (TA). Perante     valores de 160/95 mmHg, o doente continuou a negar ser hipertenso. Apresentava,     ainda, &iacute;ndice de massa corporal (IMC) de 27,3 kg/m<sup>2</sup> e uma les&atilde;o     tumoral, vegetativa, do tipo couve-flor, no antebra&ccedil;o direito. Discutiu-se o     plano proposto com o doente, que aceitou reiniciar cuidados de sa&uacute;de e fazer     estudo anal&iacute;tico. Explicou-se a probabilidade de se confirmar o diagn&oacute;stico de     HTA, pediram-se an&aacute;lises e programou-se uma consulta de seguimento. Foram     tiradas fotografias da les&atilde;o e enviadas pelo TRIAD (Triagem R&aacute;pida com Imagem &Agrave;     Dist&acirc;ncia), projeto do Servi&ccedil;o de Dermatologia do Centro Hospitalar de Vila     Nova de Gaia/Espinho para abreviar o processo de referencia&ccedil;&atilde;o. Obteve-se     resposta ap&oacute;s cinco dias &uacute;teis com marca&ccedil;&atilde;o de consulta de dermatologia. Nesta     foram colocadas as hip&oacute;teses diagn&oacute;sticas de carcinoma espinocelular ou verruga     v&iacute;rica de grandes dimens&otilde;es e agendada a ex&eacute;rese da les&atilde;o.</p>       <p><b>01/julho/2011 - 2.<sup>a</sup> consulta</b></p>       <p>Voltou na     consulta programada para mostrar os resultados dos meios complementares de     diagn&oacute;stico pedidos. Fez refer&ecirc;ncia &agrave; marca&ccedil;&atilde;o da cirurgia pela dermatologia e     falou, discretamente, dos problemas familiares com as filhas e com a ex-mulher.</p>       <p>Reavaliou-se     a TA (150/80 mmHg), com confirma&ccedil;&atilde;o do diagn&oacute;stico de HTA. Analiticamente,     apresentava altera&ccedil;&otilde;es de par&acirc;metros indicadores de consumo excessivo de &aacute;lcool     (Volume globular m&eacute;dio 100,3 fL, Gama GT 196 U/L e TGO 43 U/L), hiperglicemia     em jejum (Glicose 162 g/dL) e Colesterol total 235 mg/dL, HDL Colesterol 67     mg/dL, Triglicer&iacute;dos 98 mg/dL (LDL Colesterol 148,4). Colocou-se a hip&oacute;tese de     diagn&oacute;stico de diabetes mellitus tipo 2 (DM2), da qual o doente desconfia,     afirmando <i>&laquo;n&atilde;o posso ser diab&eacute;tico porque     n&atilde;o como a&ccedil;&uacute;car!&raquo;</i> (sic).</p>       <p>Atualizou-se     a lista de problemas, acrescentando dislipidemia e hiperglicemia. Negociou-se     novamente o plano com o doente e tentou-se integrar a agenda do doente com a do     t&eacute;cnico. Discutiu-se a import&acirc;ncia das altera&ccedil;&otilde;es e o papel do Sr. Jos&eacute; no     controlo das mesmas. Verificou-se que estava disposto a esclarecer o     diagn&oacute;stico de DM2 mas ainda n&atilde;o aceitava medica&ccedil;&atilde;o por n&atilde;o se sentir doente.     Optou-se por pedir a Prova de Toler&acirc;ncia &agrave; Glicose Oral (PTGO) com 75 gramas,     para envolver o doente no processo de consciencializa&ccedil;&atilde;o do diagn&oacute;stico de DM2.</p>       <p><b>25/julho/2011 - 3.<sup>a</sup> consulta</b></p>       <p>Veio a     consulta n&atilde;o programada, nesse mesmo m&ecirc;s, para mostrar o resultado. Perante     PTGO positiva (Glicemia &agrave;s 0h=173 g/dL e &agrave;s 2h= 406 g/dL), TA de 175/114 mmHg e     IMC de 27,3 kg/m<sup>2</sup>, explicaram-se as iner&ecirc;ncias e as poss&iacute;veis     complica&ccedil;&otilde;es de cada diagn&oacute;stico e a import&acirc;ncia de cumprir a medica&ccedil;&atilde;o,     alterar estilos de vida e manter uma vigil&acirc;ncia peri&oacute;dica em consulta.     Prop&ocirc;s-se iniciar anti-hipertensor (ramipril 5 mg), anti-diab&eacute;tico oral     (metformina 850 mg com aumento gradual da dose) e anti-dislipid&eacute;mico     (sinvastatina 20 mg); o doente pareceu aceitar. Marcou-se consulta de     vigil&acirc;ncia, para um m&ecirc;s depois, para avaliar a ades&atilde;o &agrave; terap&ecirc;utica, eventuais     efeitos laterais e fundamentalmente a adapta&ccedil;&atilde;o &agrave; sua nova condi&ccedil;&atilde;o. Voltaria o     Sr. Jos&eacute; &agrave; consulta?</p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Consultas seguintes</b></p>       <p>Sim,     regressou &agrave; consulta programada (26/08/2011 - 4.<sup>a</sup> consulta) e     demonstrou confian&ccedil;a na sua MF queixando-se de disfun&ccedil;&atilde;o er&eacute;til, tem&aacute;tica     muitas vezes considerada tabu. Percebia que tinha doen&ccedil;as que necessitavam de     acompanhamento e que n&atilde;o teriam sido detetadas se n&atilde;o fossem investigadas, pois     sentia-se saud&aacute;vel.</p>       <p>Objetivamente     apresentava TA controlada (135/85 mmHg), tinha perdido quatro quilogramas (IMC     = 25,8 kg/m<sup>2</sup>) e o estudo anal&iacute;tico mostrava uma Hemoglobina     Glicosilada de 7,2%. Felicitou-se o doente pelas mudan&ccedil;as no estilo de vida e     altera&ccedil;&otilde;es conseguidas e incentivou-se a sua manuten&ccedil;&atilde;o.</p>       <p>Na consulta     seguinte (21/11/2011), o doente referiu que se <i>&laquo;emociona&raquo;</i> (sic) sempre que vem &agrave; consulta por saber que tem ali <i>&laquo;uma pessoa que se preocupa com a sua sa&uacute;de&raquo;</i> (sic). E at&eacute; ele come&ccedil;ou a interessar-se pela mesma, questionando sobre o     problema que teve no bra&ccedil;o, uma vez que <i>&laquo;ningu&eacute;m     lhe tinha dito o que era...&raquo;</i> (sic). Tinha uma &oacute;tima ades&atilde;o &agrave; terap&ecirc;utica     farmacol&oacute;gica institu&iacute;da, apesar de manter os consumos de &aacute;lcool e tabaco e de     n&atilde;o realizar exerc&iacute;cio f&iacute;sico. Referiu <i>&laquo;estar     melhor&raquo;</i> (sic) da disfun&ccedil;&atilde;o er&eacute;til e falou novamente da sua ex-fam&iacute;lia,     talvez uma das suas maiores preocupa&ccedil;&otilde;es. Agora vinha sozinho &agrave;s consultas, <i>&laquo;teve que se desenrascar&raquo;</i> (sic) sem o     apoio das filhas. Mas sempre que vem &agrave; consulta vem <i>&laquo;nervoso e com medo&raquo;</i> (sic). Pela rela&ccedil;&atilde;o de confian&ccedil;a estabelecida     com a sua MF, que esclareceu as suas d&uacute;vidas e receios, este medo j&aacute; n&atilde;o se     relacionava com a sua sa&uacute;de mas sim com a possibilidade de encontrar a     ex-mulher ou filhas, utentes da mesma MF.</p>       <p><b>Coment&aacute;rio</b></p>       <p>Neste caso,     o doente recorreu ao seu MF por sua iniciativa, por considerar que a les&atilde;o do     antebra&ccedil;o, que continuava a crescer desde h&aacute; cinco anos, n&atilde;o era normal. O MF     deve tentar perceber o porqu&ecirc; de ter recorrido &agrave; consulta apenas agora. Pelo     medo de ser rotulado de doente? Pela sua rede social de apoio ser escassa? Este     doente que vivia sozinho, sem contacto com a fam&iacute;lia, desempregado e por isso     sem colegas de trabalho e, aparentemente, sem amigos, n&atilde;o tinha uma rede social     de apoio que o incentivasse a procurar ajuda e, talvez por isso, n&atilde;o     valorizasse o seu problema. N&atilde;o havendo resolu&ccedil;&atilde;o da les&atilde;o, verificando at&eacute; um     agravamento pela hemorragia (sinal que habitualmente alarma os doentes) e com a     insist&ecirc;ncia dos vizinhos para marcar consulta, o doente ter&aacute; atingido o seu     limiar de toler&acirc;ncia, sem contudo se mostrar muito preocupado com a sua     poss&iacute;vel origem. Apenas com a continuidade das consultas e a rela&ccedil;&atilde;o     estabelecida com a sua MF, o Sr. Jos&eacute; foi-se lentamente capacitando dos seus     problemas e da import&acirc;ncia de cumprir o plano de tratamento acordado para a sua     resolu&ccedil;&atilde;o.</p>       <p>Motivos de     consulta s&atilde;o as raz&otilde;es expressas pelo paciente para justificar a procura de     cuidados m&eacute;dicos. A pergunta-chave, numa fase inicial da consulta, &eacute; <i>&laquo;por que &eacute; que este doente veio consultar-me     hoje?&raquo;</i> Os motivos ou raz&otilde;es para o encontro dependem da perce&ccedil;&atilde;o do     paciente do seu estado de sa&uacute;de bem como das suas expectativas. Esta     clarifica&ccedil;&atilde;o inicial das ideias e expectativas do doente, quer em rela&ccedil;&atilde;o a si     quer em rala&ccedil;&atilde;o &agrave; atua&ccedil;&atilde;o do m&eacute;dico, &eacute; fundamental para uma melhor negocia&ccedil;&atilde;o     do plano e concord&acirc;ncia com os objetivos e metas a atingir.<sup>4,5</sup> Compete assim ao MF identificar e clarificar o motivo de consulta, tal como foi     expresso pelo paciente, sem ju&iacute;zos de valor, explorar esse motivo e as ideias     pr&eacute;vias sobre o seu problema e discuti-las durante a consulta. Considera-se que     o determinante para procurar os servi&ccedil;os de sa&uacute;de n&atilde;o &eacute; o sintoma mas aquilo     que o doente &laquo;pensa&raquo; sobre o sintoma.<sup>3</sup> Dever&aacute; ainda investigar     poss&iacute;veis motivos ocultos de consulta, que poder&atilde;o constituir a verdadeira     raz&atilde;o da procura dos cuidados, e aproveitar cada contacto para prestar cuidados     oportun&iacute;sticos.<sup>4</sup> Os motivos de consulta s&atilde;o a senha para o acesso     aos cuidados de sa&uacute;de e, da interpreta&ccedil;&atilde;o que o utente e o MF deles fazem,     resulta todo o processo subsequente da presta&ccedil;&atilde;o desses cuidados.<sup>4</sup> Deve ter-se em aten&ccedil;&atilde;o que quando o doente procura o m&eacute;dico tem j&aacute; um conjunto     de ideias sobre aquele problema de sa&uacute;de, a sua causa, consequ&ecirc;ncias, gravidade     e tratamentos desej&aacute;veis (pode at&eacute; j&aacute; ter consultado outros terapeutas que lhe     ter&atilde;o oferecido os seus diagn&oacute;sticos e os seus tratamentos).<sup>1</sup> Fundamental &eacute; nunca esquecer o motivo, expl&iacute;cito ou oculto, que levou o doente     a procurar os cuidados de sa&uacute;de. Se este n&atilde;o for valorizado, se n&atilde;o forem     exploradas e discutidas as ideias pr&eacute;vias do doente sobre o seu problema,     corre-se o risco do MF se perder nos novos problemas por ele identificados e,     consequentemente, o doente ficar insatisfeito com o encontro cl&iacute;nico,     perdendo-se uma oportunidade de criar uma alian&ccedil;a.<sup>1</sup></p>       <p>Como aux&iacute;lio     desta investiga&ccedil;&atilde;o, o MF pode fazer a gest&atilde;o entre os conceitos de <i>&laquo;illness&raquo;</i> e <i>&laquo;disease&raquo;</i> ou <i>&laquo;dol&ecirc;ncia&raquo;</i> e <i>&laquo;doen&ccedil;a&raquo;.</i></p>       <p>A &laquo;doen&ccedil;a&raquo; e     &laquo;dol&ecirc;ncia&raquo; n&atilde;o coexistem obrigatoriamente. Pode haver doen&ccedil;a sem dol&ecirc;ncia e     dol&ecirc;ncia sem doen&ccedil;a.<sup>3</sup> Neste caso, em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; HTA, DM2 ou     dislipidemia, uma vez que n&atilde;o tinha quaisquer sintomas, este doente n&atilde;o     apresentava <i>&laquo;illness&raquo;</i> (dol&ecirc;ncia) e     por isso mesmo n&atilde;o via necessidade de recorrer ao m&eacute;dico para vigil&acirc;ncia ou     tratamento. Considerava-se saud&aacute;vel e foi rotulado com um problema/uma doen&ccedil;a     diferente em cada consulta, com implica&ccedil;&otilde;es importantes no seu padr&atilde;o de vida.     Deve-se tentar compreender como o doente perceciona os novos epis&oacute;dios de     doen&ccedil;a identificados pelo m&eacute;dico, a forma como v&atilde;o afetar o seu comportamento e     relacionamento com outras pessoas, o que est&aacute; disposto a mudar e o que vai     fazer para lidar com a situa&ccedil;&atilde;o. Atendendo sempre &agrave;s suas dificuldades e     ritmos, foi fundamental explicar o conceito m&eacute;dico de doen&ccedil;a a este paciente     para que percebesse a import&acirc;ncia de cumprir a medica&ccedil;&atilde;o e mantivesse consultas     de vigil&acirc;ncia.<sup>2</sup> O inverso tamb&eacute;m pode acontecer, o doente pode     sentir-se doente e n&atilde;o objetivarmos doen&ccedil;a. Estas queixas devem ser tamb&eacute;m     valorizadas e exploradas. As duas situa&ccedil;&otilde;es devem ser tratadas de igual forma,     atrav&eacute;s de uma atitude centrada no doente, para que se crie uma melhor rela&ccedil;&atilde;o     m&eacute;dico-doente.</p>       <p>O     conhecimento do sofrimento da pessoa, em todas as suas dimens&otilde;es, exige     conhecer as suas experi&ecirc;ncias individuais e subjetivas: sentimentos,     pensamentos, emo&ccedil;&otilde;es, receios e impacto na sua vida micro e macrossocial. Para     este conhecimento ser&aacute; fundamental o MF manter uma escuta ativa, estando atento     e descodificando o que lhe &eacute; transmitido pelo doente (por comunica&ccedil;&atilde;o verbal e     n&atilde;o verbal).<sup>3</sup></p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Muitas     vezes, os doentes, quando, aparentemente, n&atilde;o cooperam, est&atilde;o a reagir n&atilde;o ao     tratamento mas ao modo &laquo;como s&atilde;o tratados&raquo;.<sup>4</sup> Estabelecendo-se uma     comunica&ccedil;&atilde;o eficaz, a mensagem ser&aacute; mais bem entendida ou aceite pelo doente,     que decide seguir ou n&atilde;o os conselhos do m&eacute;dico. Para tal &eacute; de extrema     import&acirc;ncia a discuss&atilde;o das agendas - do utente e do t&eacute;cnico de sa&uacute;de     - e a negocia&ccedil;&atilde;o com o doente do plano de tratamento proposto -     explicar e envolver o paciente nas medidas a eleger, esclarecer todas as     d&uacute;vidas colocadas, oferecer alternativas. Ao adotar uma atitude de negocia&ccedil;&atilde;o     ativa com o doente tenta-se mudar o conceito de &laquo;ades&atilde;o ao tratamento&raquo; para o     de &laquo;alian&ccedil;a terap&ecirc;utica&raquo;.<sup>6</sup> Pretende-se uma presta&ccedil;&atilde;o de cuidados     centrados na pessoa e baseados na confian&ccedil;a, de forma a fazer um percurso     educacional do doente, com o objetivo de o responsabilizar e capacitar quanto &agrave;     sua doen&ccedil;a, isto &eacute;, de promover o <i>empowerment,</i> fortalecendo assim a capacidade de decis&atilde;o conjunta perante os problemas     abordados no decorrer da consulta.<sup>5</sup> Com o m&eacute;todo cl&iacute;nico centrado no     paciente destaca-se a singularidade de cada indiv&iacute;duo, que &eacute; visto no seu     contexto biopsicossocial e cultural, o que ir&aacute; refletir-se na presta&ccedil;&atilde;o de     cuidados, tanto na forma como se apreende o que o doente diz como no modo como     lhe &eacute; devolvida essa compreens&atilde;o e se lhe exp&otilde;e o plano mais adequado, de forma     clara e ajustada &agrave; sua situa&ccedil;&atilde;o. Para tal, interessam ainda os medos, cren&ccedil;as e     ideias associadas por cada doente a determinada doen&ccedil;a/diagn&oacute;stico, que     interferem tamb&eacute;m na forma como se deve abordar a experi&ecirc;ncia do &laquo;estar doente&raquo;     e explorar os sentimentos desenvolvidos pelo paciente neste processo.<sup>5</sup></p>       <p>Na an&aacute;lise     da experi&ecirc;ncia da dol&ecirc;ncia devem ser considerados tr&ecirc;s est&aacute;dios:     consciencializa&ccedil;&atilde;o, desorganiza&ccedil;&atilde;o e reorganiza&ccedil;&atilde;o.<sup>3</sup> A     consciencializa&ccedil;&atilde;o &eacute; caracterizada pela ambival&ecirc;ncia entre o desejo de saber a     verdade e a recusa em aceitar que se est&aacute; doente. De seguida instala-se a     ang&uacute;stia e/ou depress&atilde;o, como consequ&ecirc;ncia da tomada de consci&ecirc;ncia da vulnerabilidade,     fragilidade e sensa&ccedil;&atilde;o de perda de controlo sobre a sua vida. Isto &eacute;, a fase da     desorganiza&ccedil;&atilde;o. Quando o doente re&uacute;ne as suas for&ccedil;as no sentido de encontrar     novo sentido face &agrave; sua dol&ecirc;ncia, passamos ao est&aacute;dio da reorganiza&ccedil;&atilde;o. A     capacidade de passar a esta fase ir&aacute; depender da gravidade da doen&ccedil;a e da     qualidade das estruturas de suporte social, sobretudo das rela&ccedil;&otilde;es mais     pr&oacute;ximas, e do tipo de suporte prestado pelo seu m&eacute;dico.<sup>3</sup></p>       <p>O modelo     cl&iacute;nico integrado, um desenvolvimento do m&eacute;todo centrado na pessoa, combina     v&aacute;rias abordagens: biom&eacute;dica, psicossocial, centrada na pessoa, atenta ao     m&eacute;dico e &agrave; rela&ccedil;&atilde;o m&eacute;dico-doente, e procura equilibr&aacute;-las e harmoniz&aacute;-las, sem     menosprezar nenhuma delas.<sup>5</sup> Esta abordagem ser&aacute; essencial para     evitar a m&aacute; comunica&ccedil;&atilde;o m&eacute;dico-doente, bem como os fen&oacute;menos de auto-medica&ccedil;&atilde;o     e a t&atilde;o frequente m&aacute; ades&atilde;o terap&ecirc;utica. E em &uacute;ltima an&aacute;lise a insatisfa&ccedil;&atilde;o do     doente com os cuidados prestados, inefic&aacute;cia da consulta e o sentimento de     frustra&ccedil;&atilde;o n&atilde;o s&oacute; do doente mas tamb&eacute;m do MF.</p>       <p>Este dever&aacute;     investir na compreens&atilde;o destes conceitos e estar consciente que, quando     aplicados na pr&aacute;tica cl&iacute;nica, s&atilde;o uma mais-valia na melhoria dos cuidados     prestados, conseguindo-se uma melhor rela&ccedil;&atilde;o m&eacute;dico-doente e satisfa&ccedil;&atilde;o com     cada encontro cl&iacute;nico e, consequentemente, uma melhor gest&atilde;o das doen&ccedil;as     cr&oacute;nicas.</p>       <p>&nbsp;</p>       <p><b>REFER&Ecirc;NCIAS     BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></p>       <!-- ref --><p>1. Nunes B.     Sa&uacute;de e doen&ccedil;a: a perspectiva do doente e a decis&atilde;o de consultar. MGF2000.     Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.mgfamiliar.net/MMGF/textos/11/1_texto.html" target="_blank">http://www.mgfamiliar.net/MMGF/textos/11/1_texto.html</a> (acedido     em 05/10/2011).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000059&pid=S2182-5173201300050000600001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>       <!-- ref --><p>2. Helman     CG. Disease versus illness in general practice. J R Col Gen Pract 1981 Sep; 31     (230): 548-52.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000061&pid=S2182-5173201300050000600002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>3. Nunes JM.     Comunica&ccedil;&atilde;o em contexto cl&iacute;nico. Lisboa; Bayer Healthcare; 2007. Dispon&iacute;vel em:     <a href="http://www.mgfamiliar.net/itemgenerico/comunicacao-em-contexto-clinico" target="_blank">http://www.mgfamiliar.net/itemgenerico/comunicacao-em-contexto-clinico</a> (acedido     em 25/07/2013).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000063&pid=S2182-5173201300050000600003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>       <!-- ref --><p>4. Rodrigues     J. Motivos de consulta e sua interpreta&ccedil;&atilde;o. MGF2000.     <a href="http://www.mgfamiliar.net/MMGF/textos/12/11_texto.html" target="_blank">http://www.mgfamiliar.net/MMGF/textos/12/11_texto.html</a> (acedido em 25/07/2013).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000065&pid=S2182-5173201300050000600004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>       <!-- ref --><p>5. Ramos V.     A consulta em 7 passos - Execu&ccedil;&atilde;o e an&aacute;lise cr&iacute;tica de consultas em     medicina geral e familiar. Lisboa: VFBM Comunica&ccedil;&atilde;o; 2008.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000067&pid=S2182-5173201300050000600005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>       <!-- ref --><p>6. Pereira     J. Ser&aacute; poss&iacute;vel uma nova medicina? Rev Crit Cien Sociais 1987; 23: 185-93.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000069&pid=S2182-5173201300050000600006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a> | <a href="#topc0">Direcci&oacute;n para correspondencia</a> | <a href="#topc0">Correspondence</a><a name="c0"></a></p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ana Cristina     Pereira</p>       <p>Rua da Boa     Nova, 325 &#8211; 4405-551 Valadares</p>       <p><a href="mailto:cristinafmpereira@gmail.com">cristinafmpereira@gmail.com</a></p>       <p>&nbsp;</p>       <p><b>Conflito   de Interesses:</b></p>       <p>As autoras     declaram n&atilde;o ter conflito de interesses.</p>       <p>&nbsp;</p>       <p><b>Recebido em 31/10/2012</b></p>       <p><b>Aceite para publica&ccedil;&atilde;o em 11/07/2013</b></p>       <p>&nbsp;</p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>Artigo escrito ao abrigo do novo acordo     ortogr&aacute;fico.</i></p>      ]]></body><back>
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