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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Esquizofrenia: papel-chave do Médico de Família e recurso ao internamento em regime compulsivo]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Schizophrenia: the role of the family doctor and the use of compulsory admission]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Introduction: Schizophrenia is a syndrome characterized by changes in thinking, mood and behaviour. Patients with this disorder lack insight into the disease, which often leads to non-adherence to treatment and worsening of symptoms. Compulsory admission is a last resort in these situations. Because of the difficulty in assessing these patients, close monitoring by the family doctor is required. Thus it is possible to assess the effects of the disease and permit timely initiation of psychiatric treatment. Case description: A 48 year-old woman, divorced, unemployed, and living alone, who was diagnosed with schizophrenia at age 30, consulted her family doctor with persecutory delusions and delusional interpretations. Over a period of four months, she consulted with her family doctor for the same reasons, with a progressive deterioration in her condition. The situation evolved to a state of aggression with immediate danger to herself and others. Because she refused the necessary treatment, the health authority was contacted to arrange for compulsory admission. Comment: Schizophrenia is a highly debilitating disease. When not under control, exacerbations in clinical status are difficult to manage. Portuguese law permits compulsory admission. The family doctor has health resources available and a privileged knowledge of the patient and the family, which can be used effectively to manage psychiatric deterioration.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Esquizofrenia]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Internamento Compulsivo de Pessoa com Doença Mental]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS BREVES</b></p>      <p><font size="4"><b>Esquizofrenia: papel-chave do M&#233;dico de     Fam&#237;lia e recurso ao internamento em regime compulsivo</b></font></p>     <p><font size="3"><b>Schizophrenia:   the role of the family doctor and the use of compulsory admission</b></font></p>       <p><b>Jos&#233; Eduardo Mendes,<sup>1</sup> Ana Vaz     Ferreira,<sup>1</sup> Sofia Morais,<sup>2,3</sup> Carolina Gil<sup>4</sup></b></p>       <p><sup>1</sup>M&#233;dico     Interno de Medicina Geral e Familiar, USF Mondego, ACES Baixo Mondego</p>       <p><sup>2</sup>M&#233;dica     Interna de Psiquiatria, Servi&#231;o de Psiquiatria, CHUC</p>       <p><sup>3</sup>Faculdade     de Medicina, Universidade de Coimbra</p>       <p><sup>4</sup>M&#233;dica     Assistente de Medicina Geral e Familiar, USF Mondego, ACES Baixo Mondego</p>       <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a> | <a href="#c0">Direcci&oacute;n para correspondencia</a> | <a href="#c0">Correspondence</a><a name="topc0"></a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>RESUMO</b></p>       <p><b>Introdu&#231;&#227;o:</b> A esquizofrenia &#233; uma     s&#237;ndroma psiqui&#225;trica caracterizada por altera&#231;&#245;es cognitivas, comportamentais     e emocionais associadas a uma marcada disfun&#231;&#227;o social. Os doentes com esta     patologia n&#227;o apresentam cr&#237;tica face &#224; pr&#243;pria doen&#231;a, o que muitas vezes     conduz &#224; falta de ades&#227;o &#224; terap&#234;utica, condicionando descompensa&#231;&#227;o e     agravamento do quadro cl&#237;nico. O internamento em regime compulsivo &#233; uma     ferramenta de &#250;ltimo recurso para estas situa&#231;&#245;es. Devido &#224; dificuldade de     avalia&#231;&#227;o destes doentes, muitas vezes s&#243; atrav&#233;s de um acompanhamento de proximidade     conseguido pelo m&#233;dico de fam&#237;lia &#233; poss&#237;vel determinar as reais consequ&#234;ncias     da doen&#231;a e desta forma permitir o in&#237;cio do tratamento psiqui&#225;trico mais     r&#225;pido.</p>       <p><b>Descri&#231;&#227;o do caso:</b> Mulher de 48 anos,     divorciada, desempregada, constituindo uma fam&#237;lia unit&#225;ria, com diagn&#243;stico de     esquizofrenia desde os 30 anos de idade, que recorre &#224; consulta da sua m&#233;dica     de fam&#237;lia por queixas de descompensa&#231;&#227;o do quadro psiqui&#225;trico, com idea&#231;&#227;o     delirante persecut&#243;ria e interpreta&#231;&#245;es delirantes. Ao longo de quatro meses     recorre v&#225;rias vezes &#224; consulta da sua m&#233;dica de fam&#237;lia pelos mesmos motivos,     verificando-se uma deteriora&#231;&#227;o progressiva do seu funcionamento global, tendo     a situa&#231;&#227;o evolu&#237;do at&#233; um estado de agressividade com perigo iminente para si     e para os outros. Como mantinha a recusa para se submeter ao necess&#225;rio     tratamento m&#233;dico, foi contactada a autoridade de sa&#250;de para se proceder ao     internamento em regime compulsivo.</p>       <p><b>Coment&#225;rio:</b> A esquizofrenia &#233; uma     doen&#231;a altamente incapacitante. Quando n&#227;o controlada leva inevitavelmente a     agudiza&#231;&#245;es do estado cl&#237;nico que s&#227;o dif&#237;ceis de gerir. A lei portuguesa     contempla estes casos e prev&#234; o recurso ao internamento em regime compulsivo. O     m&#233;dico de fam&#237;lia tem v&#225;rios recursos de sa&#250;de ao seu dispor e um conhecimento     privilegiado do doente e do meio familiar que podem ser usados na gest&#227;o eficaz     da deteriora&#231;&#227;o psiqui&#225;trica. </p>       <p><b>Palavras-chave:</b> Esquizofrenia;     Internamento Compulsivo de Pessoa com Doen&#231;a Mental.</p>  <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT</b></p>       <p><b>Introduction:</b> Schizophrenia is a     syndrome characterized by changes in thinking, mood and behaviour. Patients     with this disorder lack insight into the disease, which often leads to     non-adherence to treatment and worsening of symptoms. Compulsory admission is a     last resort in these situations. Because of the difficulty in assessing these     patients, close monitoring by the family doctor is required. Thus it is     possible to assess the effects of the disease and permit timely initiation of   psychiatric treatment.</p>       <p><b>Case description:</b> A 48 year-old woman,     divorced, unemployed, and living alone, who was diagnosed with schizophrenia at     age 30, consulted her family doctor with persecutory delusions and delusional     interpretations. Over a period of four months, she consulted with her family     doctor for the same reasons, with a progressive deterioration in her condition.     The situation evolved to a state of aggression with immediate danger to herself     and others. Because she refused the necessary treatment, the health authority     was contacted to arrange for compulsory admission.</p>       <p><b>Comment:</b> Schizophrenia is a highly     debilitating disease. When not under control, exacerbations in clinical status     are difficult to manage. Portuguese law permits compulsory admission. The     family doctor has health resources available and a privileged knowledge of the     patient and the family, which can be used effectively to manage psychiatric     deterioration.</p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Keywords:</b> Schizophrenia; Commitment of     Mentally Ill.</p>   <hr/>     <p>&nbsp;</p>    <p><b>Introdu&#231;&#227;o</b></p>       <p>Aesquizofrenia     &#233; uma doen&#231;a psiqui&#225;trica, considerada uma das mais severas e incapacitantes do     foro psiqui&#225;trico.<sup>1</sup> Os doentes com esta patologia n&#227;o apresentam     cr&#237;tica <i>(insight)</i> face &#224; pr&#243;pria     doen&#231;a, o que muitas vezes conduz &#224; falta de ades&#227;o &#224; terap&#234;utica e consequente     descompensa&#231;&#227;o e agravamento do quadro cl&#237;nico. Estas descompensa&#231;&#245;es, que     cursam com a recrudesc&#234;ncia de sintomas psic&#243;ticos (ideias delirantes,     alucina&#231;&#245;es, altera&#231;&#245;es graves do comportamento), s&#227;o muitas vezes o epis&#243;dio     final de uma descompensa&#231;&#227;o gradual. Para al&#233;m disso, a esquizofrenia pode     cursar com deteriora&#231;&#227;o cognitiva, que se deve ao curso natural da doen&#231;a, mas     tamb&#233;m aos epis&#243;dios de descompensa&#231;&#227;o que agravam o progn&#243;stico da doen&#231;a.</p>       <p>Na doen&#231;a     psiqui&#225;trica, o m&#233;dico de fam&#237;lia (MF) ocupa uma posi&#231;&#227;o privilegiada por ser     conhecedor do doente e do seu meio familiar, o que &#233; &#250;til na preven&#231;&#227;o da     descompensa&#231;&#227;o; no entanto, quando esta acontece este deve ser conhecedor dos     recursos &#224; sua disposi&#231;&#227;o e do encaminhamento que pode ser feito. Quando a     referencia&#231;&#227;o aos cuidados de sa&#250;de secund&#225;rios (CSS) falha &#233; necess&#225;ria uma     outra op&#231;&#227;o - o desencadear do internamento em regime compulsivo. O     internamento em regime compulsivo &#233; uma interven&#231;&#227;o cl&#237;nica de tratamento     psiqui&#225;trico de &#250;ltimo recurso.<sup>2</sup> Esta ferramenta destina-se ao     doente psiqui&#225;trico sem capacidade de autocr&#237;tica para a sua situa&#231;&#227;o cl&#237;nica,     quando este representa um perigo para o pr&#243;prio e/ou para terceiros.<sup>3</sup></p>       <p>Neste     artigo, os autores analisam um caso cl&#237;nico e pretendem mostrar o papel fulcral     do MF na gest&#227;o das descompensa&#231;&#245;es psiqui&#225;tricas, servindo como um guia para o     internamento em regime compulsivo accionado nos cuidados de sa&#250;de prim&#225;rios.</p>       <p><b>Descri&#231;&#227;o     do caso</b></p>       <p>Manuela     (nome fict&#237;cio), mulher de 48 anos de idade, divorciada, com dois filhos,     caucasiana, de nacionalidade portuguesa, natural de uma zona rural da regi&#227;o     Centro, reside actualmente numa das freguesias da &#225;rea de influ&#234;ncia da nossa     USF.</p>       <p>Conforme     representado na linha de vida de Medalie (<a href="#q1">Quadro I</a>), Manuela casou e teve o     primeiro filho aos 18 anos e emigrou para a Su&#237;&#231;a aos 19 anos. L&#225; nasceu a     segunda filha em 1995. Neste ano s&#227;o descritos del&#237;rios de ci&#250;me dirigidos ao     marido que ter&#227;o motivado o div&#243;rcio do casal. Regressou a Portugal em 1995 e,     segundo registos dos CSS, no ano seguinte foi diagnosticada com esquizofrenia.     Ap&#243;s processo judicial foi-lhe retirado o poder paternal e a filha regressou &#224;     Su&#237;&#231;a.</p>       <p>&nbsp;</p>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><a name="q1"></a><img src="/img/revistas/rpmgf/v31n5/31n5a08q1.jpg"/></p>    
<p>&nbsp;</p>       <p>Entre os 41     e os 45 anos (2007 a 2011) registam-se quatro internamentos no p&#243;lo Hospital     Sobral Cid - Centro Hospitalar e Universit&#225;rio de Coimbra (CHUC), com a     dura&#231;&#227;o m&#237;nima de um m&#234;s e m&#225;xima de tr&#234;s meses, sempre por agudiza&#231;&#245;es do     quadro base e incumprimento da terap&#234;utica prescrita. Desde ent&#227;o manteve o     seguimento em consultas de psiquiatria nesse p&#243;lo hospitalar, sendo a &#250;ltima     consulta em Outubro de 2013, ap&#243;s a qual abandonou o seguimento por iniciativa     pr&#243;pria.</p>       <p>&#192; data vive     sozinha, constituindo uma fam&#237;lia unit&#225;ria, tendo-se afastado progressivamente     ao longo dos anos de praticamente toda a fam&#237;lia. Quando o quadro cl&#237;nico     agrava, com del&#237;rios persecut&#243;rios mais evidentes, refugia-se na casa dos pais,     j&#225; idosos, que habitam a cerca de 30km da resid&#234;ncia actual da utente. Estes     per&#237;odos s&#227;o curtos, sendo o suporte parental baixo, pois o pai tem v&#225;rias     comorbilidades, sendo cuidador da esposa dependente para as actividades da vida     di&#225;ria. Manuela tem uma rela&#231;&#227;o conflituosa com a irm&#227;, que se op&#245;e a que passe     essas temporadas em casa dos pais por considerar que os sobrecarrega e por     recusar o tratamento. N&#227;o tem nenhuma rela&#231;&#227;o com os irm&#227;os e sobrinhos e, por     proximidade geogr&#225;fica, tem contacto ocasional superficial com duas primas. N&#227;o     foi poss&#237;vel apurar se estabelece rela&#231;&#245;es de amizade.</p>       <p>O genograma     (<a href="#f1">Figura 1</a>) permite-nos identificar patologia psiqui&#225;trica na fam&#237;lia,     possivelmente tamb&#233;m esquizofrenia, no irm&#227;o mais novo.</p>       <p>&nbsp;</p>    <p align="center"><a name="f1"></a><img src="/img/revistas/rpmgf/v31n5/31n5a08f1.jpg"/></p>    
<p>&nbsp;</p>       <p>Trata-se de     uma utente grande utilizadora dos cuidados de sa&#250;de, que ao longo dos quatro     primeiros meses de 2014 apresentou 10 consultas na USF, tr&#234;s observa&#231;&#245;es no     Servi&#231;o de Urg&#234;ncia (SU) do p&#243;lo do Hospital Geral (HG) - CHUC e uma     observa&#231;&#227;o no SU do p&#243;lo dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC) -     CHUC.</p>       <p>A hist&#243;ria     da doen&#231;a actual referente a este epis&#243;dio de agudiza&#231;&#227;o iniciou-se a 8 de     Janeiro de 2014, quando a utente recorre &#224; consulta da sua MF, depois de duas     idas consecutivas ao SU do HG-CHUC por queixas de &#8220;desgastes corporais e     alergias m&#225;gicas&#8221; (sic) com tr&#234;s meses de evolu&#231;&#227;o e c&#227;ibras nos membros     inferiores. Nessa consulta manteve as queixas j&#225; referidas no SU, pediu     medica&#231;&#227;o para &#8220;cortar esse efeito&#8221; (sic) e referiu tamb&#233;m sentir &#8220;gases e     cheiros enviados pela central nuclear&#8221; (sic). Apurou-se tamb&#233;m que n&#227;o cumpria     a medica&#231;&#227;o prescrita nas consultas de psiquiatria, que abandonou por mote     pr&#243;prio, justificando que &#8220;se sentia paralisada&#8221;. </p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ap&#243;s     tentativa de contacto sem sucesso com a sua psiquiatra assistente,     referenciou-se a utente ao SU do HUC-CHUC, sendo-lhe transmitido que iria ser     observada pela especialidade de medicina interna, visto a utente recusar ser     observada por psiquiatria. Contudo, a utente volta algumas horas depois,     pedindo nova c&#243;pia da carta de referencia&#231;&#227;o, pois tinha ido ao HG-CHUC em vez     de HUC-CHUC.</p>       <p>Nas     consultas subsequentes verificou-se que n&#227;o recorreu ao SU do HUC-CHUC,     justificando-se com a falta de transporte para se deslocar. Sucedem-se queixas     que comprovam que o quadro de descompensa&#231;&#227;o psic&#243;tica se mantinha, incluindo     ideias delirantes persecut&#243;rias (&#8220;ando a ser perseguida por agentes da pol&#237;cia,     mas n&#227;o sei porqu&#234;&#8221; (sic)) e resist&#234;ncia &#224; toma da medica&#231;&#227;o. Contactou-se a     sua psiquiatra assistente, que recomendou nova referencia&#231;&#227;o para o SU do     HUC-CHUC, dirigido &#224; medicina interna, notificando os colegas de servi&#231;o no SU     para estarem alerta na avalia&#231;&#227;o cl&#237;nica desta utente. A utente dirigiu-se ao     HUC-CHUC, mas n&#227;o ao SU, abandonando esse hospital sem a avalia&#231;&#227;o e orienta&#231;&#227;o     necess&#225;ria.</p>       <p>Dadas as     dificuldades nas referencia&#231;&#245;es para o SU/CSS, optou-se pela referencia&#231;&#227;o ao     psiquiatra da comunidade, consulta &#224; qual efectivamente compareceu em Mar&#231;o de     2014, 15 dias ap&#243;s a referencia&#231;&#227;o, onde se confirmou a descompensa&#231;&#227;o da     doen&#231;a psiqui&#225;trica, apresentando-se a utente sem cr&#237;tica para a doen&#231;a e sem     cumprimento da medica&#231;&#227;o. Nesta consulta foi prescrito um antipsic&#243;tico oral,     que a utente tamb&#233;m n&#227;o cumpriu.</p>       <p>No in&#237;cio de     Abril de 2014 agravou a sintomatologia pr&#233;via, com idea&#231;&#227;o delirante persecut&#243;ria     que condicionava o autocuidado e a higiene pessoal (&#8220;n&#227;o tomo banho h&#225; tr&#234;s     semanas porque eles apanham-me e mandam radia&#231;&#245;es e fico com o corpo pequeno em     segundos&#8221; (sic)). Refere tamb&#233;m caminhar grandes dist&#226;ncias por dia,     justificando para &#8220;eles n&#227;o a conseguirem sintonizar&#8221; (sic) e evidencia     interpreta&#231;&#245;es delirantes, pois apesar de ser observ&#225;vel uma abras&#227;o na face     plantar do p&#233; esquerdo devido &#224; marcha, a utente justifica-a dizendo &#8220;levei h&#225;     pouco tempo uma chumbada no p&#233;&#8221; (sic). Viu-se nestas repercuss&#245;es f&#237;sicas     objectiv&#225;veis pela utente nova oportunidade dissimulada de referencia&#231;&#227;o para o     SU/CSS. Manuela recorreu ao SU-HUC dias depois, por iniciativa pr&#243;pria, com a     queixa da les&#227;o no p&#233;, onde foi encaminhada para observa&#231;&#227;o por psiquiatria,     mas novamente teve alta por abandono do SU.</p>       <p>A 28 de     Abril de 2014, as duas primas de Manuela dirigiram-se &#224; USF e informaram-nos     que a sintomatologia se havia alterado recentemente, apresentando agora     epis&#243;dios de agressividade verbal dirigida a familiares e sendo-nos relatado     que seria portadora de arma branca (faca) na carteira, motivos que preocupam as     familiares, a quem frequentemente pede ajuda. As familiares referem frustra&#231;&#227;o,     desalento e ang&#250;stia com esta situa&#231;&#227;o. Desta forma, e por se terem esgotado     todos os outros meios ao alcance do MF, optou-se pela elabora&#231;&#227;o de informa&#231;&#227;o     cl&#237;nica para o m&#233;dico de sa&#250;de p&#250;blica e assim se proceder &#224; avalia&#231;&#227;o     cl&#237;nico-psiqui&#225;trica de urg&#234;ncia, com internamento em regime compulsivo.</p>       <p>A utente     acaba por ser acompanhada por agentes da GNR at&#233; ao SU do CHUC-HUC, no dia 2 de     Maio de 2014, onde foi avaliada por psiquiatria e objectivado quadro de del&#237;rio     persecut&#243;rio, aus&#234;ncia de cr&#237;tica para a sua sintomatologia e recusa em cumprir     terap&#234;utica, com heteroagressividade dirigida a familiares e risco para si e     para terceiros, ficando em observa&#231;&#227;o. Nesta ida ao SU, a utente fugiu e foi     reconduzida no dia seguinte, tendo-se optado pelo internamento em regime     compulsivo. Esteve internada no p&#243;lo do Hospital Sobral Cid - CHUC     durante mais de um m&#234;s e actualmente encontra-se no domic&#237;lio, mantendo     seguimento em consultas de psiquiatria. Ap&#243;s a alta teve uma consulta na nossa     USF, mantendo-se est&#225;vel do ponto de vista psicopatol&#243;gico.</p>       <p><b>Coment&#225;rio</b></p>       <p>A     esquizofrenia &#233; uma doen&#231;a psiqui&#225;trica extremamente incapacitante e &#233; a     patologia que mais motiva o recurso ao internamento compulsivo.<sup>4</sup> Provoca a diminui&#231;&#227;o da cr&#237;tica e consci&#234;ncia <i>(awareness)</i> das necessidades do pr&#243;prio. A percep&#231;&#227;o da doen&#231;a &#233;     essencial para a ades&#227;o terap&#234;utica e o internamento demonstrou um aumento     dessa ades&#227;o.<sup>5</sup></p>       <p>Em Portugal,     os cuidados de sa&#250;de mental come&#231;aram a ser integrados no Sistema Nacional de     Sa&#250;de em 1985.<sup>6</sup> Em 1998, com a cria&#231;&#227;o da Lei de Sa&#250;de Mental, como     expresso na Lei n.<sup>o</sup> 36/98, de 24 de Julho, fica previsto o recurso     ao internamento em regime compulsivo, ou seja, o internamento por decis&#227;o     judicial para doentes com mais de 14 anos de idade com anomalia psiqui&#225;trica     grave.<sup>3</sup></p>       <p>O     internamento em regime compulsivo tem duas modalidades: o internamento normal     ou comum e o internamento de urg&#234;ncia. O internamento comum, esclarecido pelo     artigo 12.<sup>o</sup> da Lei de Sa&#250;de Mental, destina-se ao <i>&#8220;portador de anomalia ps&#237;quica grave que     crie, por for&#231;a dela, uma situa&#231;&#227;o de perigo para bens jur&#237;dicos, de relevante valor,     pr&#243;prios ou alheios, de natureza pessoal ou patrimonial, e recuse submeter-se     ao necess&#225;rio tratamento m&#233;dico pode ser internado em estabelecimento adequado&#8221;</i> ou quando o doente <i>&#8220;n&#227;o possua o     discernimento necess&#225;rio para avaliar o sentido e alcance do consentimento,     quando a aus&#234;ncia de tratamento deteriore de forma acentuada o seu estado.&#8221;</i> O internamento de urg&#234;ncia aplica-se <i>&#8220;sempre     que, verificando-se os pressupostos do artigo 12.&#186;, exista perigo iminente para     os bens jur&#237;dicos a&#237; referidos, nomeadamente por deteriora&#231;&#227;o aguda do seu     estado.&#8221;</i></p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Para se     iniciar o processo de internamento compulsivo de urg&#234;ncia, o MF deve contactar     o delegado de sa&#250;de e, no caso de ser necess&#225;ria a condu&#231;&#227;o do utente ao     servi&#231;o de urg&#234;ncia, deve ser contactada a autoridade de pol&#237;cia. Em ambas as     situa&#231;&#245;es ser&#225; &#250;til recolher toda a informa&#231;&#227;o poss&#237;vel, incluindo informa&#231;&#245;es     cl&#237;nica e social, na maior parte dos casos acess&#237;veis e conhecidas pelo MF.</p>       <p>Por outro     lado, as autoridades de sa&#250;de e de pol&#237;cia podem ordenar, oficiosamente ou a     pedido (dos pais ou do representante legal do doente), a condu&#231;&#227;o imediata do     doente ao estabelecimento hospitalar com urg&#234;ncia psiqui&#225;trica mais pr&#243;ximo.     Este mandado de condu&#231;&#227;o &#233; comunicado de imediato pelas autoridades referidas     ao Minist&#233;rio P&#250;blico, pois n&#227;o &#233; poss&#237;vel a priva&#231;&#227;o de liberdade sem decis&#227;o     judicial. A condu&#231;&#227;o do doente a uma urg&#234;ncia psiqui&#225;trica pode tamb&#233;m ser     feita sem existir esse mandado, apenas quando se verifique uma situa&#231;&#227;o muito     urgente e de perigo na demora. Nesse caso ser&#225; lavrado um auto pelo agente     policial que faz essa condu&#231;&#227;o, igualmente com a comunica&#231;&#227;o imediata ao     Minist&#233;rio P&#250;blico.</p>       <p>Na urg&#234;ncia     psiqui&#225;trica, o doente dever&#225; ser avaliado por um m&#233;dico psiquiatra e,     confirmando-se a necessidade de internamento e mantendo-se a recusa do doente,     o m&#233;dico internar&#225; o doente para iniciar o tratamento, comunicando-o ao     tribunal competente da &#225;rea do hospital. Posteriormente um juiz proferir&#225;, no     prazo m&#225;ximo de 48 horas, a decis&#227;o de manter ou n&#227;o o internamento. Essa     decis&#227;o &#233; comunicada ao internado, ao familiar mais pr&#243;ximo e ao MF.</p>       <p>Durante o     internamento dever&#225; ser realizada dentro de 15 dias uma avalia&#231;&#227;o     cl&#237;nico-psiqui&#225;trica por dois psiquiatras, sendo o relat&#243;rio enviado para um     juiz que designar&#225; uma data para uma sess&#227;o onde estar&#225; presente o doente e o     seu defensor. Uma segunda reavalia&#231;&#227;o &#233; obrigat&#243;ria, decorridos dois meses     sobre o in&#237;cio do internamento ou sobre a decis&#227;o que o tiver mantido.</p>       <p>O     internamento termina quando estiverem resolvidas as causas que lhe deram     origem, depois de alta concedida pelo director cl&#237;nico do hospital ou por     decis&#227;o judicial.</p>       <p>O caso     descrito reflecte que o MF tem v&#225;rios recursos de sa&#250;de ao seu dispor, dos     quais deve fazer uso de forma a melhor gerir as agudiza&#231;&#245;es da doen&#231;a     psiqui&#225;trica cr&#243;nica. Concretamente, no caso apresentado, verifica-se como &#233;     dif&#237;cil a gest&#227;o das agudiza&#231;&#245;es desta doen&#231;a, tendo-se recorrido ao m&#233;dico     psiquiatra da comunidade, aos CSS atrav&#233;s de contactos telef&#243;nicos e     referencia&#231;&#245;es ao SU hospitalar at&#233; ao &#250;ltimo reduto, em articula&#231;&#227;o com a     sa&#250;de p&#250;blica.</p>       <p>Destaca-se     ainda que o isolamento social da utente, t&#227;o t&#237;pico da esquizofrenia, e a     consequente aus&#234;ncia de elementos de refer&#234;ncia pr&#243;ximos, como familiares,     amigos ou vizinhos, podem ter contribu&#237;do para a manuten&#231;&#227;o e agravamento do     quadro cl&#237;nico. O MF, conhecedor destes elementos, tem um papel chave no     acompanhamento e resolu&#231;&#227;o destes epis&#243;dios, podendo trabalhar em conjunto com     outros recursos da comunidade: assistentes sociais, familiares e outros     informantes, fazendo a articula&#231;&#227;o entre o doente, o m&#233;dico psiquiatra e o     m&#233;dico de sa&#250;de p&#250;blica. Estes elementos devem ser identificados pelo MF que     pode trabalhar em conjunto com outros recursos da comunidade, como os servi&#231;os     sociais, para actuar precoce e preventivamente, providenciando uma gest&#227;o     integrada do doente.</p>       <p>&nbsp;</p>       <p><b>REFER&#202;NCIAS     BIBLIOGR&#193;FICAS</b></p>       <!-- ref --><p>1. Per&#228;l&#228; J.     Epidemiology of psychotic disorders (Dissertation). Helsinki: University of     Helsinki; 2013.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000062&pid=S2182-5173201500050000800001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> ISBN 9789522458261</p>       <!-- ref --><p>2. Rodrigues     E, Ribeiro H, Lessa V, Moreira D, Almeida F. Internamentos compulsivos: leis de     sa&#250;de mental na Europa. Psiquiatr Psicol Justi&#231;a. 2014;(6):141-52.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000064&pid=S2182-5173201500050000800002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>       <p>3. Lei no     36/98, de 24 de Julho. Di&#225;rio da Rep&#250;blica. 1&#170; s&#233;rie(169). </p>       <!-- ref --><p>4. Salize     HJ, Dressing H. Epidemiology of involuntary placement of mentally ill people     across the European Union. Br J Psychiatry. 2004;184(2):163-8.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000067&pid=S2182-5173201500050000800003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>       <!-- ref --><p>5. Torrey     EF, Zdanowicz M. Outpatient commitment: what, why, and for whom. Psychiatr     Serv. 2001;52(3):337-41.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000069&pid=S2182-5173201500050000800004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>       <!-- ref --><p>6. Salize     HJ, Dressing H, Peitz M. Compulsory admission and involuntary treatment of     mentally ill patients: legislation and practice in EU-Member States (final     report).&nbsp; Mannheim: Central     Institute of Mental Health; 2002.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000071&pid=S2182-5173201500050000800005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a> | <a href="#topc0">Direcci&oacute;n para correspondencia</a> | <a href="#topc0">Correspondence</a><a name="c0"></a></p>      <p>Unidade de     Sa&#250;de Familiar Mondego</p>       <p>Estrada do     Esp&#237;rito Santo das Touregas - Quinta dos Vales</p>       <p>3045-059     COIMBRA</p>       <p>E-mail: <a href="mailto:josemendes.web@gmail.com">josemendes.web@gmail.com</a></p>            <p>&nbsp;</p>     <p><b>Conflitos de interesses</b></p>       <p>Os autores     declaram n&#227;o ter conflito de interesses.</p>     <p>&nbsp;</p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Recebido em 03-02-2015</b></p>       <p><b>Aceite para publica&#231;&#227;o em 30-08-2015</b></p>      ]]></body><back>
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