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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>EDITORIAL</b></font></p>     <p><font size="4"><b>Andar a par: sa&#250;de mental, psiquiatria e     cuidados de sa&#250;de prim&#225;rios</b></font></p>     <p><font size="4"><b>Paula Teresa Carvalho*</b></font></p>       <p>*Psiquiatra,     Grupanalista, fundadora e ex-coordenadora do Servi&#231;o de Psiquiatria e Sa&#250;de     Mental do actual Centro Hospitalar do Oeste.</p>       <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a> | <a href="#c0">Direcci&oacute;n para correspondencia</a> | <a href="#c0">Correspondence</a><a name="topc0"></a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>&#8220;N&#227;o h&#225;     sa&#250;de sem sa&#250;de mental&#8221;</p>       <p>Uma frase,     uma afirma&#231;&#227;o feliz que condensa algo de &#243;bvio e consensual e que j&#225; ouvimos e     lemos at&#233; &#224; exaust&#227;o, em documentos oficiais, em congressos e encontros, em     directrizes da OMS e da Uni&#227;o Europeia e por a&#237; adiante.</p>       <p>Ali&#225;s, nunca     como agora, com a investiga&#231;&#227;o e o conhecimento produzidos pela neuroci&#234;ncia,     esta no&#231;&#227;o da interac&#231;&#227;o mente/corpo e do impacto dos aspectos relacionais,     emocionais e afectivos no sentir corporal e na nossa narrativa biol&#243;gica foi     t&#227;o clara.</p>       <p>Mas, e na     pr&#225;tica? De que modo esta dimens&#227;o transversal da sa&#250;de mental se traduz na     cl&#237;nica e na estrutura&#231;&#227;o dos cuidados de sa&#250;de?</p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>H&#225; anos,     muitos, que temos conhecimento de trabalhos e de investiga&#231;&#227;o que demonstram a     import&#226;ncia dos cuidados de sa&#250;de prim&#225;rios e da articula&#231;&#227;o com os servi&#231;os de     psiquiatria nas quest&#245;es da sa&#250;de mental. A n&#237;vel nacional temos conhecimento     de experi&#234;ncias e de projectos s&#243;lidos e v&#225;lidos nestas &#225;reas, temos um Plano     Nacional de Sa&#250;de Mental e a sa&#250;de mental surge nos programas priorit&#225;rios do     Plano Nacional de Sa&#250;de&#8230; sempre com destaque para a articula&#231;&#227;o de cuidados&#8230;     Por&#233;m, na realidade, o panorama est&#225; longe de ser satisfat&#243;rio, antes pelo     contr&#225;rio.</p>       <p>Haver&#225;     muitas formas de olhar, de pegar no assunto e de tentar compreender o porqu&#234; das     dificuldades. Uma delas &#233; pegar a partir das pessoas, pois s&#227;o as pessoas que     materializam os projectos e escolho partir da&#237; e da minha pr&#243;pria experi&#234;ncia     profissional.</p>       <p>H&#225; 21 anos,     rec&#233;m-especialista em psiquiatria, vim iniciar uma consulta de psiquiatria de     liga&#231;&#227;o no ent&#227;o Centro Hospitalar das Caldas da Rainha. Era a &#250;nica psiquiatra     no hospital e, infelizmente pouco tempo depois, com o desaparecimento do     psiquiatra que trabalhava no Centro de Sa&#250;de, fiquei a ser a &#250;nica a n&#237;vel     institucional, numa &#225;rea de influ&#234;ncia que inclu&#237;a os concelhos de Caldas da     Rainha, &#211;bidos, Bombarral e Peniche.</p>       <p>Trazia na     bagagem o internato da especialidade feito no Hospital Miguel Bombarda, na     equipa de Sintra, chefiada pelo Dr. Jo&#227;o Sennfelt. Trazia, portanto, conhecimento     e pr&#225;tica dum modelo funcional em que a articula&#231;&#227;o e o trabalho em grupo com     os m&#233;dicos de fam&#237;lia, de sa&#250;de p&#250;blica e com outras estruturas comunit&#225;rias     foi parte estrutural da forma&#231;&#227;o como psiquiatra.<sup>1</sup></p>       <p>Falo disto,     pois penso que a experi&#234;ncia e a forma&#231;&#227;o s&#227;o fundamentais na constru&#231;&#227;o do     saber e da identidade cl&#237;nicas, em termos de pr&#225;tica m&#233;dica. Independentemente     dos normativos e do conhecimento te&#243;rico, a experi&#234;ncia que desenvolvemos e que     observamos nos outros &#233; determinante na nossa constru&#231;&#227;o como profissionais de     sa&#250;de.</p>       <p>Foi, assim,     poss&#237;vel partir para um trabalho de envolvimento com os m&#233;dicos de fam&#237;lia e     com outras estruturas comunit&#225;rias, no sentido de criar respostas e abordagens     referentes &#224;s necessidades das pessoas nestas mat&#233;rias de sa&#250;de. E n&#227;o falo s&#243;     das necessidades dos pacientes e fam&#237;lias e das complexidades multifactoriais e     multidisciplinares inerentes &#224;s coisas da sa&#250;de mental; falo das minhas     pr&#243;prias, das dos colegas e das de outras pessoas, outros t&#233;cnicos, de     diferentes institui&#231;&#245;es e estruturas comunit&#225;rias, pois que sozinhos e cada um     por si nos sent&#237;amos incapazes de responder minimamente ao que nos era     solicitado, sentindo frequentemente que todo o esfor&#231;o se perdia na falta de     recursos e de respostas adequadas e articuladas, criando um sentimento de     exaust&#227;o e de frustra&#231;&#227;o. Uma boa articula&#231;&#227;o surgia como sin&#243;nimo de     rentabiliza&#231;&#227;o de recursos, de melhores respostas, de melhores resultados e de     maior satisfa&#231;&#227;o para todos os envolvidos.</p>       <p>Foi, assim,     poss&#237;vel acontecer um protocolo de colabora&#231;&#227;o entre o hospital e os centros de     sa&#250;de da regi&#227;o que inclu&#237;a reuni&#245;es e consultas ombro-a-ombro com os m&#233;dicos     de fam&#237;lia, nas instala&#231;&#245;es dos centros de sa&#250;de, e mais tarde at&#233; via <i>skype,</i> com o m&#233;dico de fam&#237;lia e     paciente dum lado e o psiquiatra do outro.</p>       <p>Foi, assim,     poss&#237;vel acontecer um n&#250;cleo de interven&#231;&#227;o na &#225;rea da sa&#250;de mental, o NIASM,     numa parceria que cresceu para mais de vinte parceiros comunit&#225;rios e onde se     desenham planos alargados de interven&#231;&#227;o terap&#234;utica numa perspectiva     biopsicossocial.</p>       <p>Foi, assim,     poss&#237;vel organizar semin&#225;rios anuais e v&#225;rios <i>workshops</i> sobre sa&#250;de mental.</p>       <p>Foi, assim,     poss&#237;vel fazer na pr&#225;tica muitas das coisas que &#8220;vinham nos livros&#8221;, tentar     replicar boas pr&#225;ticas desenvolvidas por outros e adaptar modelos &#224; realidade e     aos recursos locais.</p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Foi     poss&#237;vel, assim, porque na altura houve gente, pessoas no terreno, nas chefias     e nas administra&#231;&#245;es que foram capazes de perceber e de estar dispon&#237;veis para     apostar, apoiar, investir num trabalho de grupo criativo, adaptativo,     colaborativo. Porque fazia sentido e era necess&#225;rio que fosse assim. Porque     funcionava e os n&#250;meros apareciam. Porque se tentava desenvolver uma matriz e     um trabalho de equipa, entre pares, com supervis&#227;o e intervis&#227;o cl&#237;nicas, em     que o grupo, a pr&#243;pria equipa desempenhava a fun&#231;&#227;o de supervisor e de gestor     de caso(s). Em que, mantendo a dimens&#227;o formativa e de forma&#231;&#227;o em contexto de     trabalho, se procurava encontrar respostas transdisciplinares, numa perspectiva     em que o todo &#233; superior &#224; soma das partes, sem que a responsabilidade e a     especificidade de cada um fossem dilu&#237;das ou desleixadas.</p>       <p>Escolhi     pegar nas pessoas, pois trabalhar em sa&#250;de implica trabalhar com pessoas e para     as pessoas, sendo que as rela&#231;&#245;es humanas s&#227;o sempre coisas complexas.     Hierarquias, estatutos, poder, interesses, estilos, objectivos, competi&#231;&#245;es,     culturas, forma&#231;&#227;o, preconceitos, medos, alian&#231;as, resist&#234;ncias, ambi&#231;&#245;es&#8230;     enfim, uma pan&#243;plia multifactorial que complexifica e interfere no     funcionamento e nas din&#226;micas relacionais de grupos e institui&#231;&#245;es. Mas s&#227;o     sempre pessoas, as pessoas que duma forma ou de outra fazem as diferen&#231;as. Para     o bem e para o mal.</p>       <p>Sendo     complexa a cria&#231;&#227;o duma din&#226;mica relacional de trabalho saud&#225;vel e funcionante,     em que os membros do grupo/organiza&#231;&#227;o, da equipa, sintam que sem perder a sua     individualidade e capacidade de pensar e fazer o grupo lhes devolve um     sentimento de perten&#231;a e de realiza&#231;&#227;o, assume particular import&#226;ncia o modo     como as institui&#231;&#245;es aplicam e desenvolvem normativos e regras de     funcionamento, definem objectivos e valorizam determinadas pr&#225;ticas em     detrimento de outras. Quantas vezes boas ideias, bons projectos falham porque     falharam o envolvimento e a prepara&#231;&#227;o adequadas das pessoas que teriam que o     p&#244;r e manter em pr&#225;tica? Quantas vezes n&#227;o surgem clivagens fatais entre aquilo     que &#233; definido como objectivo principal dum determinado projecto ou plano de     interven&#231;&#227;o e o modo e/ou condi&#231;&#245;es como &#233; implementado? T&#227;o verdade como n&#227;o     se fazerem omeletes sem ovos &#233; n&#227;o bastar haver ovos para se fazerem omeletes.</p>       <p>Falemos,     ent&#227;o, de algumas destas clivagens: &#8220;N&#227;o h&#225; sa&#250;de sem sa&#250;de mental&#8221;. No     entanto, por exemplo no que respeita a indicadores de sa&#250;de, os de sa&#250;de mental     s&#227;o insuficientes e desadequados&#8230; Ora, como actualmente se promove o trabalho     por objectivos, se n&#227;o h&#225; indicadores mensur&#225;veis, como se faz?... Deixa de se     cuidar e de valorizar esta &#225;rea? N&#227;o se discute a import&#226;ncia de existirem     indicadores que permitam medir, comparar e avaliar as pr&#225;ticas individuais e     institucionais. No entanto, parece que perversamente deixaram de ser um     instrumento de avalia&#231;&#227;o para passarem a ser o fim em si, estimulando um     funcionamento acr&#237;tico, burocr&#225;tico, desligado da realidade das pessoas que     temos &#224; frente e das suas necessidades. E se o trabalho for valorizado apenas     atrav&#233;s dos indicadores de resultados, se o tempo e o investimento nas     consultas, numa boa anamnese, na compreens&#227;o das vicissitudes bioexistenciais e     vivenciais dos pacientes, nos processos de articula&#231;&#227;o, de discuss&#227;o, de     supervis&#227;o e de intervis&#227;o cl&#237;nicas, n&#227;o for contabilizado, &#233; natural que a     disponibilidade para envolvimento nestes processos v&#225; diminuindo ou mesmo     desapare&#231;a&#8230; Saber fazer um diagn&#243;stico m&#233;dico correcto &#233; fundamental, mas &#233;     pouco para se ser bom m&#233;dico e fazer boa Medicina&#8230; e&nbsp; todos sabemos isto. Como tamb&#233;m sabemos que nesta &#225;rea, como     noutras na Medicina, a prescri&#231;&#227;o farmacol&#243;gica &#233; uma parte do plano     terap&#234;utico, mas n&#227;o a exclusiva&#8230; N&#227;o deveriam ser criados tamb&#233;m indicadores de     processo? E n&#227;o se deveria priorizar de modo objectivo, de algum modo     quantific&#225;vel, um funcionamento interpares entre os diferentes n&#237;veis de     cuidados de sa&#250;de? Que grau de autonomia, de espa&#231;o pensante, de escolha e de     cr&#237;tica construtiva estamos dispostos a perder e a alienar, enquanto indiv&#237;duos     e enquanto grupo, em nome do cumprimento da norma s&#243; pela norma mesmo, quando     acr&#237;tica, ela surge contr&#225;ria ao que a evid&#234;ncia, o conhecimento e a pr&#225;tica     nos ensinam?... E sem sentir que somos todos descart&#225;veis e manipul&#225;veis?...</p>     <p>Muitos     doentes com depress&#227;o se queixam de que a sua doen&#231;a e o seu sofrimento n&#227;o s&#227;o     suficientes e objectivamente mensur&#225;veis, refor&#231;ando como tantas vezes se     sentiram incompreendidos e recriminados, agravando a viv&#234;ncia depressiva.     Brevemente, a depress&#227;o ocupar&#225; o primeiro lugar como causa de incapacidade por     doen&#231;a&#8230; N&#227;o se mede, mas l&#225; que existe, existe&#8230; e n&#227;o estamos a falar s&#243; da     depress&#227;o&#8230;</p>       <p>E ent&#227;o?     Temos anos de teorias&#8230; escolhemos o qu&#234;? Andar a par ou fecharmo-nos cada vez mais     dentro das nossas caixinhas?</p>       <p>&nbsp;</p>       <p><b>REFER&#202;NCIAS     BIBLIOGR&#193;FICAS</b></p>     <!-- ref --><p>1. Rebelo     MF, Gon&#231;alves MJ, Bolina FM. A 3&#170; face da Lua: sa&#250;de mental em cuidados de     sa&#250;de prim&#225;rios. Loures: Lusodidacta; 2014.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1363869&pid=S2182-5173201600050000300001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> ISBN 9789898075376</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a> | <a href="#topc0">Direcci&oacute;n para correspondencia</a> | <a href="#topc0">Correspondence</a><a name="c0"></a></p>      <p>E-mail: <a href="mailto:paulatcarvalho@gmail.com">paulatcarvalho@gmail.com</a></p>       <p>&nbsp;</p>       <p><b>Conflitos   de interesse</b></p>       <p>A autora     declara n&#227;o ter qualquer conflito de interesses.</p>     <p>&nbsp; </p>       <p><i>Artigo redigido ao abrigo do acordo     ortogr&#225;fico anterior a 1990.</i></p>      ]]></body><back>
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