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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Vícios e vicissitudes na adesão à terapêutica: um relato de caso]]></article-title>
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<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S2182-51732016000600006&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S2182-51732016000600006&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S2182-51732016000600006&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><abstract abstract-type="short" xml:lang="pt"><p><![CDATA[Introdução: A não adesão à terapêutica crónica é muito frequente, sobretudo no contexto da multimorbilidade. O objetivo da apresentação deste caso é sensibilizar para a aplicação do método clínico centrado no paciente (MCCP) como um instrumento eficaz para lidar com esta problemática. Descrição do caso: Mulher, 49 anos, solteira, família unitária, com diagnósticos de tabagismo, diabetes mellitus tipo dois, hepatite C crónica e com história prévia de consumo de heroína. Apresentava um mau controlo metabólico, que persistia após sofrer um AVC isquémico aos 48 anos, com parésia do membro superior esquerdo sequelar. Perante este contexto, convocou-se a utente para a realização de uma entrevista que englobava o estudo familiar, a exploração das crenças, expectativas, receios e importância atribuídos aos seus problemas de saúde, bem como a revisão dos hábitos e adesão à terapêutica. Apurou-se não haver evidência de disfunção familiar. Ao rever os hábitos identificou-se uma compulsão para doces, consumo atual de haxixe e tabaco, que eram desvalorizados pela própria enquanto problemas de saúde. Confirmou-se a suspeita de incumprimento da posologia de cinco dos oito fármacos prescritos, por desconhecimento da razão da sua prescrição e por receio de efeitos secundários. Como plano mobilizou-se a equipa de cuidados de saúde primários e secundários com vista a reavaliar a terapêutica não farmacológica e farmacológica, de acordo com as necessidades atuais da utente. Nas consultas subsequentes verificou-se total adesão à medicação e autocontrolo glicémico e parcial adesão à dieta. Constatou-se então um melhor controlo metabólico (HgA1c passou de 10,7% para 7,8%). Discussão: Este é um caso de multimorbilidade e de não adesão à terapêutica. Para abordá-lo é necessária multidisciplinaridade, uma relação médico-doente e comunicação eficazes. Nesse sentido, o MCCP é um instrumento essencial e o médico de família é o especialista privilegiado para o aplicar.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Introduction: Non-adherence to therapy is a prevalent problem, especially among patients with multiple comorbidities. The aim of this case report is to raise awareness of the importance of the patient-centered clinical method in dealing with this issue. Case report: We present the case of a 49-year-old single female living alone with type 2 diabetes, hepatitis C infection, and a previous history of drug abuse. She had poor metabolic control even after suffering an ischemic stroke at 48 years of age, which left her with weakness of her left arm. The patient was invited by her family physician for a family assessment interview, including a review of her habits and medications and an exploration of her beliefs, fears, and expectations about her health problems and their importance to her. There was no evidence of family dysfunction but she was found to have a compulsion to eat sweets and she reported current hashish and tobacco consumption. Her poor adherence to therapy was confirmed. She was only taking three out of eight medications prescribed, due to a lack of awareness of their indications and fear of adverse effects. The patient's ideas and fears about her treatment were explored and clarified, and therapy was optimized according to her expectations. Nursing support was obtained and contact was made with her neurologist and endocrinologist. In subsequent visits, adherence to therapy reported by the patient was improved along with partial adherence to the recommended diet, resulting in improved metabolic control. Discussion: This is a case report of a patient with multimorbidity and non-adherence to therapy. The patient benefitted from a multidisciplinary approach, a good doctor-patient relationship, and effective communication. The patient centered clinical method was helpful in achieving these goals and the family physician was well placed to apply it.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Multimorbilidade]]></kwd>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Método Clínico Centrado no Paciente]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[Multimorbidity]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>RELATOS DE CASO</b></font></p>     <p><font size="4"><b>V&#237;cios e vicissitudes na ades&#227;o &#224; terap&#234;utica: um relato de caso</b></font></p>     <p><font size="3"><b>Addictions and other obstacles to adherence to therapy: a case report</b></font></p>     <p><b>Sofia Lages Fernandes,* Diogo Barata de Almeida,** Isabel Rebelo de Andrade,*** M&#225;rcia Gon&#231;alves Lopes****</b></p>     <p>*M&#233;dica interna de Medicina Geral e Familiar na USF Descobertas</p>     <p>**M&#233;dico interno de Medicina Geral e Familiar na USF Descobertas</p>     <p>***M&#233;dica assistente graduada de Medicina Geral e Familiar na USF Descobertas</p>     <p>****M&#233;dica assistente graduada de Medicina Geral e Familiar na USF Descobertas</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a> | <a href="#c0">Direcci&oacute;n para correspondencia</a> | <a href="#c0">Correspondence</a><a name="topc0"></a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>RESUMO</b></p>     <p><b>Introdu&#231;&#227;o:</b> A n&#227;o ades&#227;o &#224; terap&#234;utica cr&#243;nica &#233; muito frequente, sobretudo no contexto da multimorbilidade. O objetivo da apresenta&#231;&#227;o deste caso &#233; sensibilizar para a aplica&#231;&#227;o do m&#233;todo cl&#237;nico centrado no paciente (MCCP) como um instrumento eficaz para lidar com esta problem&#225;tica.</p>     <p><b>Descri&#231;&#227;o do caso:</b> Mulher, 49 anos, solteira, fam&#237;lia unit&#225;ria, com diagn&#243;sticos de tabagismo, diabetes mellitus tipo dois, hepatite C cr&#243;nica e com hist&#243;ria pr&#233;via de consumo de hero&#237;na. Apresentava um mau controlo metab&#243;lico, que persistia ap&#243;s sofrer um AVC isqu&#233;mico aos 48 anos, com par&#233;sia do membro superior esquerdo sequelar. Perante este contexto, convocou-se a utente para a realiza&#231;&#227;o de uma entrevista que englobava o estudo familiar, a explora&#231;&#227;o das cren&#231;as, expectativas, receios e import&#226;ncia atribu&#237;dos aos seus problemas de sa&#250;de, bem como a revis&#227;o dos h&#225;bitos e ades&#227;o &#224; terap&#234;utica.</p>     <p>Apurou-se n&#227;o haver evid&#234;ncia de disfun&#231;&#227;o familiar. Ao rever os h&#225;bitos identificou-se uma compuls&#227;o para doces, consumo atual de haxixe e tabaco, que eram desvalorizados pela pr&#243;pria enquanto problemas de sa&#250;de. Confirmou-se a suspeita de incumprimento da posologia de cinco dos oito f&#225;rmacos prescritos, por desconhecimento da raz&#227;o da sua prescri&#231;&#227;o e por receio de efeitos secund&#225;rios.</p>     <p>Como plano mobilizou-se a equipa de cuidados de sa&#250;de prim&#225;rios e secund&#225;rios com vista a reavaliar a terap&#234;utica n&#227;o farmacol&#243;gica e farmacol&#243;gica, de acordo com as necessidades atuais da utente.</p>     <p>Nas consultas subsequentes verificou-se total ades&#227;o &#224; medica&#231;&#227;o e autocontrolo glic&#233;mico e parcial ades&#227;o &#224; dieta. Constatou-se ent&#227;o um melhor controlo metab&#243;lico (HgA1c passou de 10,7% para 7,8%).</p>     <p><b>Discuss&#227;o:</b> Este &#233; um caso de multimorbilidade e de n&#227;o ades&#227;o &#224; terap&#234;utica. Para abord&#225;-lo &#233; necess&#225;ria multidisciplinaridade, uma rela&#231;&#227;o m&#233;dico-doente e comunica&#231;&#227;o eficazes. Nesse sentido, o MCCP &#233; um instrumento essencial e o m&#233;dico de fam&#237;lia &#233; o especialista privilegiado para o aplicar.</p>     <p><b>Palavras-chave:</b> Multimorbilidade; Ades&#227;o &#224; Terap&#234;utica; M&#233;todo Cl&#237;nico Centrado no Paciente.</p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Introduction:</b> Non-adherence to therapy is a prevalent problem, especially among patients with multiple comorbidities. The aim of this case report is to raise awareness of the importance of the patient-centered clinical method in dealing with this issue.</p>     <p><b>Case report:</b> We present the case of a 49-year-old single female living alone with type 2 diabetes, hepatitis C infection, and a previous history of drug abuse. She had poor metabolic control even after suffering an ischemic stroke at 48 years of age, which left her with weakness of her left arm. The patient was invited by her family physician for a family assessment interview, including a review of her habits and medications and an exploration of her beliefs, fears, and expectations about her health problems and their importance to her.</p>     <p>There was no evidence of family dysfunction but she was found to have a compulsion to eat sweets and she reported current hashish and tobacco consumption. Her poor adherence to therapy was confirmed. She was only taking three out of eight medications prescribed, due to a lack of awareness of their indications and fear of adverse effects.</p>     <p>The patient&#8217;s ideas and fears about her treatment were explored and clarified, and therapy was optimized according to her expectations. Nursing support was obtained and contact was made with her neurologist and endocrinologist.</p>     <p>In subsequent visits, adherence to therapy reported by the patient was improved along with partial adherence to the recommended diet, resulting in improved metabolic control.</p>     <p><b>Discussion:</b> This is a case report of a patient with multimorbidity and non-adherence to therapy. The patient benefitted from a multidisciplinary approach, a good doctor-patient relationship, and effective communication. The patient centered clinical method was helpful in achieving these goals and the family physician was well placed to apply it.</p>     <p><b>Keywords:</b> Multimorbidity; Adherence to Therapy; Patient-centered Clinical Method.</p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&#231;&#227;o</b></p>     <p>A n&#227;o ades&#227;o &#224; terap&#234;utica cr&#243;nica nos pa&#237;ses desenvolvidos &#233; estimada em 50%.<sup>1-2</sup> Esta pode causar complica&#231;&#245;es m&#233;dicas e psicossociais, reduzir a qualidade de vida e desperdi&#231;ar recursos de cuidados de sa&#250;de.<sup>1</sup> Acresce ainda a sua dificuldade diagn&#243;stica, sendo necess&#225;rio o profissional de sa&#250;de estar sensibilizado para esta problem&#225;tica. Quanto &#224; sua abordagem, segundo uma revis&#227;o da Cochrane de 2014, a evid&#234;ncia atual &#233; insuficiente para recomendar interven&#231;&#245;es significativamente eficazes.<sup>2</sup></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O presente caso cl&#237;nico retrata uma mulher de 49 anos com multimorbilidade e com complica&#231;&#245;es graves das suas patologias. Por esse motivo, a utente foi convocada para realiza&#231;&#227;o do estudo familiar, para conhecer melhor a sua perspetiva sobre os seus problemas de sa&#250;de, para revis&#227;o dos seus h&#225;bitos e avalia&#231;&#227;o da ades&#227;o &#224; terap&#234;utica n&#227;o farmacol&#243;gica e farmacol&#243;gica. Esta abordagem baseou-se na aplica&#231;&#227;o do m&#233;todo cl&#237;nico centrado no paciente (MCCP).<sup>3</sup></p>     <p>Pretende-se, assim, alertar para a import&#226;ncia da identifica&#231;&#227;o e contextualiza&#231;&#227;o da n&#227;o ades&#227;o &#224; terap&#234;utica, de forma a abord&#225;-la eficazmente atrav&#233;s da aplica&#231;&#227;o do MCCP.</p>     <p><b>Descri&#231;&#227;o do caso</b></p>     <p><b>Identifica&#231;&#227;o</b></p>     <p>Isabel (nome fict&#237;cio), sexo feminino, 49 anos, caucasiana, natural e residente no concelho de Lisboa, com mestrado na &#225;rea da educa&#231;&#227;o, &#224; data da realiza&#231;&#227;o da entrevista encontrava-se desempregada. Tem, como ocupa&#231;&#245;es preferidas, ler e ouvir m&#250;sica.</p>     <p>A utente constitui uma fam&#237;lia unit&#225;ria, &#233; solteira, pertence &#224; classe social m&#233;dia-alta (Graffar Familiar de classe social grau II) e &#233; independente para as atividades de vida di&#225;ria b&#225;sicas e instrumentais.</p>     <p><b>Contexto cl&#237;nico</b></p>     <p>Isabel iniciou o seu seguimento na atual m&#233;dica de fam&#237;lia em outubro de 2013 e, nessa data, eram conhecidos, como problemas de sa&#250;de ativos, o tabagismo desde os 11 anos de idade, hepatite C diagnosticada aos 26 anos e diabetes mellitus tipo 2 aos 33 anos e, como problema de sa&#250;de passivo, o abuso de drogas com consumo de hero&#237;na at&#233; aos 38 anos de idade.</p>     <p>Revelava persistentemente um mau controlo metab&#243;lico (<a href="#q1">Quadro I</a>), grande dificuldade em alterar os h&#225;bitos alimentares, em efetuar autocontrolo glic&#233;mico e recusava ser encaminhada para tratamento da hepatite C. Revelava-se uma pessoa ass&#237;dua nas consultas, diferenciada, com conhecimento cient&#237;fico e cultural significativo.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><a name="q1"></a><img src="/img/revistas/rpmgf/v32n6/32n6a06q1.jpg"/></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Em maio de 2014 sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) isqu&#233;mico direito no contexto de estenose da art&#233;ria car&#243;tida interna direita com 75-80% de obstru&#231;&#227;o, sendo submetida a angioplastia. Ap&#243;s alta hospitalar apresentava, como sequela, par&#233;sia do membro superior esquerdo e ficou com seguimento em consulta hospitalar de medicina f&#237;sica e reabilita&#231;&#227;o, neurologia, cirurgia vascular, endocrinologia e de infecciologia.</p>     <p>Ap&#243;s alta revelou uma melhoria inicial do controlo metab&#243;lico, mas apenas transit&#243;ria (<a href="#q1">Quadro I</a>), voltando a n&#227;o aderir &#224;s medidas terap&#234;uticas propostas com consequente mau controlo metab&#243;lico. Perante este contexto, convocou-se a utente para uma entrevista com o objetivo de tentar compreend&#234;-la melhor no seu todo e de ajud&#225;-la a melhorar o seu estado de sa&#250;de de forma mais eficaz. </p>     <p><b>Aplica&#231;&#227;o do m&#233;todo cl&#237;nico centrado no paciente (MCCP) na entrevista</b></p>     <p>Na operacionaliza&#231;&#227;o do MCCP devem ser consideradas seis componentes: explora&#231;&#227;o da doen&#231;a e da dol&#234;ncia; compreens&#227;o da pessoa no seu todo e no seu contexto; estabelecimento de um terreno comum; promo&#231;&#227;o da sa&#250;de e preven&#231;&#227;o da doen&#231;a; constru&#231;&#227;o da rela&#231;&#227;o m&#233;dico-doente e ser-se realista.<sup>4</sup></p>     <p>A aplica&#231;&#227;o do MCCP deve decorrer de forma flu&#237;da, de acordo com as pistas verbais e n&#227;o verbais que o utente d&#225; ao longo da entrevista, tendo como base a escuta ativa.<sup>5</sup></p>     <p>Sem prejudicar este princ&#237;pio, procurou-se conhecer melhor a utente, a sua hist&#243;ria de vida e familiar, bem como as suas ideias, cren&#231;as, expectativas e receios sobre os seus problemas de sa&#250;de. Assim, foi poss&#237;vel rever os seus h&#225;bitos, conhecer o seu estilo de vida, as suas motiva&#231;&#245;es e preocupa&#231;&#245;es, bem como a ades&#227;o &#224; terap&#234;utica n&#227;o farmacol&#243;gica e farmacol&#243;gica.</p>     <p>Como resultado, o conhecimento aprofundado da agenda da utente permitiu estabelecer um terreno comum na identifica&#231;&#227;o dos problemas de sa&#250;de e na negocia&#231;&#227;o do plano terap&#234;utico.</p>     <p><b><i>1.</i></b><b><i> Compreens&#227;o da pessoa no seu todo e no seu contexto</i></b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No genograma (<a href="#f1">Figura 1</a>) destacou-se que Isabel viveu em uni&#227;o de facto durante seis anos, at&#233; 1997, e que atualmente vive sozinha. Tem uma irm&#227; onze anos mais nova, casada, que teve um filho recentemente. Salientava-se ainda que a m&#227;e falecera em 2014 por uma doen&#231;a neurol&#243;gica - polineuropatia perif&#233;rica sensitivo-motora desmielinizante cr&#243;nica (s&#237;ndroma POEMS). N&#227;o se verificou um padr&#227;o familiar de depend&#234;ncias, de fatores de risco ou de patologias.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a name="f1"></a><img src="/img/revistas/rpmgf/v32n6/32n6a06f1.jpg"/></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Relativamente &#224; psicofigura de Mitchell (<a href="#f2">Figura 2</a>), Isabel revelava ter uma &#243;tima rela&#231;&#227;o com os pais. Contudo, sentia que o pai se distanciava mais dela e via a sua toxicodepend&#234;ncia como uma escolha, por oposi&#231;&#227;o &#224; m&#227;e, que se mostrava mais pr&#243;xima e considerava-a como uma doen&#231;a. Quanto &#224; rela&#231;&#227;o entre os pais e a irm&#227;, revelou que &#8220;a minha irm&#227; sempre foi a filha que os pais querem ter&#8221;, em tom factual, sem &#237;ndice de ci&#250;me. Isabel considerou ter uma rela&#231;&#227;o muito pr&#243;xima com a irm&#227;, que se preocupava muito com ela, assumindo &#8220;a minha irm&#227; &#233; mais nova onze anos que eu mas tem sido como minha m&#227;e&#8221;. Quando se abordou a rela&#231;&#227;o com o cunhado, revelou n&#227;o gostar dele (&#8220;N&#227;o me faz nada de mal, mas irrita-me&#8221;). Quando questionada sobre a causa da sua irrita&#231;&#227;o, confessou que talvez sentisse ci&#250;mes dele porque lhe &#8220;roubou&#8221; a irm&#227; que agora tinha de despender mais tempo com a sua nova fam&#237;lia.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a name="f2"></a><img src="/img/revistas/rpmgf/v32n6/32n6a06f2.jpg"/></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Ao realizar o c&#237;rculo familiar de Thrower (<a href="#f3">Figura 3</a>), Isabel mostrou-se satisfeita com a representa&#231;&#227;o que fez e quando se questionou sobre a quem recorreria, caso precisasse de ajuda, referiu a irm&#227; e o pai. Ap&#243;s assinalar-se a aus&#234;ncia do cunhado na representa&#231;&#227;o, Isabel referiu que o fez propositadamente pois n&#227;o o considerava parte da sua fam&#237;lia. </p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><a name="f3"></a><img src="/img/revistas/rpmgf/v32n6/32n6a06f3.jpg"/></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Ao realizar a biopatografia (<a href="#q2">Quadro II</a>), destacou-se:</p>     <p>&#8226; In&#237;cio do tabagismo aos 11 anos, coincidente com o nascimento da irm&#227;.</p>     <p>&#8226; In&#237;cio do consumo de haxixe aos 14 anos como &#8220;s&#237;mbolo de rebeldia, por influ&#234;ncia social, sem nenhuma consequ&#234;ncia negativa&#8221;.</p>     <p>&#8226; In&#237;cio do consumo de hero&#237;na aos 18 anos, porque &#8220;surgiu este novo produto quando havia crise nacional de haxixe e desconhecia as consequ&#234;ncias...&#8221;. </p>     <p>&#8226; Inconst&#226;ncia acad&#233;mica e ocupacional.</p>     <p>&#8226; Relato de uma &#250;nica rela&#231;&#227;o amorosa duradoura: aos 25 anos emigrou para Espanha na tentativa de abstin&#234;ncia dos consumos toxicof&#237;licos. Contudo, agravou-os e iniciou rela&#231;&#227;o com um toxicodependente com quem viveu em uni&#227;o de facto durante seis anos, chegando com o mesmo a &#8220;viver na rua&#8221;. &#8220;Depois de ter dado um mergulho muito maior no mundo da hero&#237;na&#8221; e por car&#234;ncia econ&#243;mica decidiu terminar a rela&#231;&#227;o amorosa e voltar para Portugal para tentar deixar a hero&#237;na, uma vez que o companheiro queria continuar.</p>     <p>&#8226; Viveu com os pais e teve v&#225;rias tentativas para deixar a droga, tendo conseguido, por fim, em 2004, com apoio da m&#233;dica de fam&#237;lia. Referiu que a dece&#231;&#227;o causada na fam&#237;lia foi a sua principal motiva&#231;&#227;o, assim como a vontade de deixar de viver para uma depend&#234;ncia.</p>     <p>&#8226; Concomit&#226;ncia entre problemas de sa&#250;de e acontecimentos vitais: diagn&#243;stico de infe&#231;&#227;o por v&#237;rus da hepatite C tr&#234;s anos depois de iniciar consumo de hero&#237;na; AVC isqu&#233;mico no ano da morte da m&#227;e e do casamento da irm&#227;.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a name="q2"></a><img src="/img/revistas/rpmgf/v32n6/32n6a06q2.jpg"/></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p><b>2. Revis&#227;o dos h&#225;bitos</b></p>     <p>H&#225;bitos tab&#225;gicos: Fuma desde os onze anos de idade, carga tab&#225;gica de 37,5 unidades ma&#231;o ano. &#218;nico per&#237;odo de interrup&#231;&#227;o: durante internamento por AVC isqu&#233;mico.</p>     <p>H&#225;bitos alco&#243;licos: Consumo social (quinzenalmente), em cada um dos eventos sociais bebe 58g &#225;lcool. Aplicou-se o question&#225;rio AUDIT, cujo resultado foi de 4 pontos.</p>     <p>H&#225;bitos toxicof&#237;licos: Aos 14 anos iniciou consumo de haxixe que mant&#233;m atualmente em eventos sociais (cerca de uma vez por m&#234;s). Aos 18 anos iniciou consumo de hero&#237;na inalada e, posteriormente, injet&#225;vel at&#233; aos 38 anos de idade. Consumiu tamb&#233;m LSD, coca&#237;na e metanfetaminas, estas at&#233; h&#225; cerca de tr&#234;s anos.</p>     <p>H&#225;bitos alimentares: Isabel descreveu a sua alimenta&#231;&#227;o num dia tipo e apurou-se que ingeria quatro refei&#231;&#245;es por dia e que consumia diariamente cerca de seis por&#231;&#245;es de hidratos de carbono, excluindo a&#231;ucares, seis pe&#231;as de fruta, duas vezes latic&#237;nios, duas a tr&#234;s vezes vegetais e em m&#233;dia dois a tr&#234;s doces por dia. Ingeria peixe ou carne em m&#233;dia em cinco refei&#231;&#245;es numa semana.</p>     <p>H&#225;bitos de exerc&#237;cio f&#237;sico: N&#227;o praticava.</p>     <p><b>3. Explora&#231;&#227;o da doen&#231;a e da dol&#234;ncia</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Quando se questionou qual o problema de sa&#250;de que tinha maior import&#226;ncia para a utente, esta referiu ser a par&#233;sia do membro superior esquerdo, uma vez que tinha repercuss&#227;o no seu dia-a-dia. Apesar de conseguir executar todas as atividades de vida di&#225;ria de forma aut&#243;noma, referiu uma maior lentid&#227;o e dificuldade em realizar algumas dessas atividades. Contudo, mostrou-se otimista, pois tem notado uma melhoria significativa com o apoio da medicina f&#237;sica e reabilita&#231;&#227;o.</p>     <p>A segunda preocupa&#231;&#227;o manifestada pela utente foi a possibilidade de sofrer novo AVC. Isabel atribu&#237;a como poss&#237;vel causa para o AVC pr&#233;vio uma queda que tinha tido h&#225; quatro meses, desvalorizando os fatores de risco vasculares na sua etiologia, nomeadamente o tabagismo. Efetivamente, assumiu que n&#227;o estava motivada para deixar de fumar, pois &#8220;podia ser fator de risco mas n&#227;o (lhe garantiam) que n&#227;o (tinha) novo AVC se deixasse de fumar&#8221;.</p>     <p>Em terceiro lugar, a utente considerou a diabetes como uma das suas maiores preocupa&#231;&#245;es pois &#8220;tem sido uma complica&#231;&#227;o&#8221;. Revelou sofrimento porque, por um lado, sentia-se incapaz de controlar o consumo de doces, classificando-o como uma depend&#234;ncia pior que a droga (&#8220;a droga &#233; mais f&#225;cil de lidar do que os doces porque n&#227;o h&#225; montras de drogas&#8221;). Por outro lado, revelou dificuldade em efetuar a insulinoterapia, nomeadamente no que respeita &#224; insulina r&#225;pida, &#224; qual atribu&#237;a aumento ponderal. Manifestou ainda relut&#226;ncia em vigiar a glic&#233;mia capilar, por &#8220;n&#227;o gostar de picadas&#8221; que a remetiam para o seu passado de consumo de hero&#237;na.</p>     <p>De seguida, Isabel revelou recear os poss&#237;veis efeitos secund&#225;rios da terap&#234;utica para a hepatite C, por relatos de amigos, valorizando-os mais do que a pr&#243;pria doen&#231;a. Esta nunca lhe causou queixas ou sofrimento, pelo que para si n&#227;o era um problema.</p>     <p>De salientar ainda que a utente n&#227;o considerou o consumo atual de haxixe como um problema de sa&#250;de, declarando &#8220;chamar-lhe abuso (de drogas) &#233; abusar&#8221;. Explicitou que &#8220;para um toxicodependente o haxixe n&#227;o &#233; uma droga&#8221; e manifestou desconhecimento sobre os riscos do seu consumo. Pelo contr&#225;rio, referiu v&#225;rios benef&#237;cios, como a melhoria da concentra&#231;&#227;o e da capacidade de trabalho, negando qualquer receio.</p>     <p><b>4. Revis&#227;o da ades&#227;o &#224; terap&#234;utica farmacol&#243;gica</b></p>     <p>&#192; data da primeira sess&#227;o da convocat&#243;ria apurou-se a perspetiva da utente em rela&#231;&#227;o &#224; terap&#234;utica farmacol&#243;gica prescrita e respetiva ades&#227;o:</p>     <p>&#8226; Omeprazol 20mg/1 comprimido em jejum - Tomava diariamente &#8220;porque &#233; protetor para o est&#244;mago&#8221;. </p>     <p>&#8226; Ramipril 5mg/1 comprimido ao pequeno-almo&#231;o - Por auto iniciativa, no &#250;ltimo m&#234;s tomava em dias alternados por desconhecer o seu motivo (&#8220;nunca tive problemas de tens&#227;o, achei um exagero darem este medicamento desde o meu internamento&#8221;).</p>     <p>&#8226; Carbamazepina 200mg/1 comprimido ao pequeno--almo&#231;o e ao jantar - Apurou-se que apenas tomava um comprimido di&#225;rio por desconhecer o seu motivo (&#8220;n&#227;o sou epil&#233;tica&#8221;).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&#8226; Clopidogrel 75mg/1 comprimido ao almo&#231;o - Tomava diariamente.</p>     <p>&#8226; &#193;cido acetilsalic&#237;lico 150mg/1 comprimido ao almo&#231;o - Tomava apenas em dias alternados por receio de hemorragias.</p>     <p>&#8226; Atorvastatina 40mg/1 comprimido ao deitar - Tomava em dias alternados por desconhecer a raz&#227;o da sua prescri&#231;&#227;o (&#8220;nunca tive problemas de colesterol&#8221;).</p>     <p>&#8226; Insulina glargina 30 UI ao deitar e insulina r&#225;pida asp&#225;rtico 3UI+3UI+3UI - Fazia a insulina glargina, mas recusava-se a fazer insulina r&#225;pida porque referia aumentar de peso.</p>     <p>Concluindo, &#224; data do in&#237;cio do relato, a utente recusava tomar um dos oito f&#225;rmacos prescritos, cumpria a posologia prescrita apenas em tr&#234;s deles e tomava os restantes de acordo com as suas cren&#231;as e expectativas. </p>     <p><b>Plano</b></p>     <p>Confirmou-se a suspeita de n&#227;o ades&#227;o &#224;s medidas n&#227;o farmacol&#243;gicas e farmacol&#243;gicas prescritas. Tendo em conta os problemas ativos e passivos atualizados da utente (<a href="#q3">Quadro III</a>), foram planeadas as seguintes estrat&#233;gias n&#227;o farmacol&#243;gicas em conjunto com a utente e a enfermeira de fam&#237;lia:</p>     <p>&#8226; Alimenta&#231;&#227;o: negociou-se um novo plano alimentar que visava sobretudo o polifracionamento das refei&#231;&#245;es ao longo do dia e a redu&#231;&#227;o da ingesta de fruta e de doces.</p>     <p>&#8226; Exerc&#237;cio f&#237;sico: a utente n&#227;o demonstrou interesse na pr&#225;tica desportiva, mas sugeriu aumentar a utiliza&#231;&#227;o de transportes p&#250;blicos e caminhar mais vezes a p&#233;, n&#227;o determinando uma dura&#231;&#227;o m&#237;nima para as caminhadas.</p>     <p>&#8226; H&#225;bitos nocivos: uma vez que Isabel estava em fase pr&#233;-contemplativa no ciclo de mudan&#231;a para a cessa&#231;&#227;o tab&#225;gica e consumo de haxixe, exploraram-se os riscos em manter estes consumos, bem como a relev&#226;ncia dos benef&#237;cios, as recompensas e as resist&#234;ncias em cess&#225;-los. A utente n&#227;o manifestou vontade de alterar os seus h&#225;bitos, pelo que se planeou a repeti&#231;&#227;o desta interven&#231;&#227;o breve dos cinco &#8220;Rs&#8221; em pr&#243;ximas consultas.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&#8226; Auto controlo da glic&#233;mia capilar: foram revistos os ensinos sobre a medi&#231;&#227;o da glic&#233;mia capilar, valores-alvo, bem como o reconhecimento dos sintomas de hipoglicemia e respetiva abordagem adequada. A utente concordou iniciar o registo de glic&#233;mias.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a name="q3"></a><img src="/img/revistas/rpmgf/v32n6/32n6a06q3.jpg"/></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Relativamente &#224; terap&#234;utica farmacol&#243;gica foram esclarecidas as d&#250;vidas e cren&#231;as identificadas sobre a medica&#231;&#227;o, nomeadamente: foram explicadas as raz&#245;es da prescri&#231;&#227;o da estatina (refor&#231;ando a sua a&#231;&#227;o antiaterog&#233;nica e consequente redu&#231;&#227;o da probabilidade de ter novo AVC); da dupla antiagrega&#231;&#227;o (para evitar a trombose do <i>stent</i> vascular) e da insulinoterapia (import&#226;ncia deste f&#225;rmaco para melhorar o controlo metab&#243;lico e reduzir as complica&#231;&#245;es associadas &#224; diabetes). Isabel demonstrou ter compreendido e pareceu aceitar estes esclarecimentos.</p>     <p>Tamb&#233;m foram tidos em conta os receios e expectativas da utente relativamente &#224; insulinoterapia, pelo que se ponderou acrescentar antidiab&#233;ticos orais com a&#231;&#227;o neutra ou negativa no peso, que a utente se mostrou recetiva a tomar. Foi, ent&#227;o, enviada carta ao endocrinologista onde se expuseram, com o consentimento da utente, os seus receios e incumprimento terap&#234;utico e foi sugerida a altera&#231;&#227;o mencionada. O endocrinologista iniciou ent&#227;o uma associa&#231;&#227;o de metformina com vildagliptina e alterou o esquema de insulinoterapia para o uso de uma insulina pr&#233;-mistura duas vezes por dia. A utente expressou agrado perante estas altera&#231;&#245;es da terap&#234;utica.</p>     <p>Quanto ao ramipril e &#224; carbamazepina, uma vez que a utente n&#227;o tinha hist&#243;ria pessoal ou familiar de hipertens&#227;o ou de epilepsia, enviou-se carta &#224; neurologista questionando a raz&#227;o da toma destes f&#225;rmacos e pedindo informa&#231;&#227;o acerca de eventuais diagn&#243;sticos desconhecidos de hipertens&#227;o ou epilepsia. Como resposta, a neurologista suspendeu o ramipril e, progressivamente, a carbamazepina e deu alta para a m&#233;dica de fam&#237;lia, esclarecendo que a prescri&#231;&#227;o tinha sido realizada por a utente ter tido crise hipertensiva e crise epil&#233;tica sintom&#225;tica aguda no contexto de instala&#231;&#227;o de les&#227;o cerebral aguda. Mais uma vez, estas altera&#231;&#245;es foram de encontro &#224;s expectativas da utente.</p>     <p>Promoveu-se, ainda, o esclarecimento sobre a hepatite C e respetivas complica&#231;&#245;es e tratamento, desmistificando os receios sobre os seus efeitos secund&#225;rios.</p>     <p><b>Seguimento</b></p>     <p>No seguimento da utente, cinco meses depois, a mesma refere que tem tomado todos os medicamentos, incluindo a insulina e que tem efetuado o autocontrolo glic&#233;mico. Refere que tem ainda muita dificuldade em melhorar os h&#225;bitos alimentares, sobretudo na redu&#231;&#227;o da ingesta de fruta e doces, apesar de fazer um maior n&#250;mero de refei&#231;&#245;es (cerca de cinco por dia). Objetivamente apura-se uma redu&#231;&#227;o significativa do valor de hemoglobina glicada (em que a 10.10.2015 era de 7,8%), sem se apurar hipoglic&#233;mias.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A utente tem cumprido as consultas de seguimento de infecciologia. Numa das consultas subsequentes de medicina geral e familiar, Isabel expressa vontade em tratar a hepatite C e preocupa&#231;&#227;o pelo seu estado de sa&#250;de, aguardando chamada para in&#237;cio de terap&#234;utica a n&#237;vel hospitalar.</p>     <p>A utente revela ter conseguido emprego como professora a tempo inteiro. No &#226;mbito familiar, n&#227;o voltou a ter conflitos com o cunhado. A irm&#227; da utente nota tamb&#233;m melhoria do compromisso de Isabel com a sua sa&#250;de e mostra-se muito satisfeita e grata aos prestadores dos cuidados de sa&#250;de.</p>     <p>Como desafios mant&#233;m-se a promo&#231;&#227;o da cessa&#231;&#227;o tab&#225;gica e do consumo de drogas, bem como a manuten&#231;&#227;o da ades&#227;o &#224;s medidas negociadas.</p>     <p><b>Coment&#225;rio</b></p>     <p>Este caso ilustra duas situa&#231;&#245;es complexas e comuns na pr&#225;tica cl&#237;nica: a n&#227;o ades&#227;o &#224; terap&#234;utica e a multimorbilidade.</p>     <p>Um fator determinante para a ades&#227;o terap&#234;utica &#233; uma rela&#231;&#227;o paciente-m&#233;dico eficaz que permita explorar alternativas terap&#234;uticas, negociar o plano, discutir a ades&#227;o e planear o <i>follow-up.</i><sup>1</sup> O desenvolvimento da rela&#231;&#227;o paciente-m&#233;dico &#233; a pedra basilar do MCCP<sup>4</sup> que, por sua vez, conduz a uma maior ades&#227;o aos tratamentos.<sup>5</sup> Para concretizar a aplica&#231;&#227;o deste m&#233;todo &#233; necess&#225;rio utilizar uma comunica&#231;&#227;o efetiva que englobe escutar, falar e compreender.<sup>4</sup></p>     <p>Neste caso, a compreens&#227;o do contexto familiar e hist&#243;ria de vida da utente bem como das suas cren&#231;as, receios e expectativas permitiu refor&#231;ar a rela&#231;&#227;o e esclarecer a agenda da utente. Esta abordagem levou a uma comunica&#231;&#227;o mais eficaz, ao estabelecimento de um terreno comum sobre os problemas de sa&#250;de e &#224; negocia&#231;&#227;o do plano terap&#234;utico.</p>     <p>Existe ainda evid&#234;ncia de que muitos pacientes com doen&#231;as cr&#243;nicas, incluindo a diabetes, t&#234;m dificuldade em aderir aos regimes terap&#234;uticos<sup>1</sup> e que o MCCP &#233; essencial quando se considera que um sistema de sa&#250;de deve cuidar de pessoas com multimorbilidade.<sup>6-7</sup> Por outro lado, os pacientes com multimorbilidade est&#227;o ligados a v&#225;rios m&#233;dicos e servi&#231;os, n&#227;o coordenados entre si e ficam confusos quanto a quem &#233; respons&#225;vel e por qu&#234;, podendo existir problemas insuficientemente controlados e outros duplamente tratados.<sup>7-8</sup> Infere-se que a multimorbilidade exige multidisciplinaridade, colocando-se a quest&#227;o de como &#233; que o m&#233;dico de fam&#237;lia pode concretizar o seu papel enquanto gestor de cuidados.</p>     <p>Neste caso optou-se por comunicar por escrito com os colegas as dificuldades e sugest&#245;es, de acordo com as preocupa&#231;&#245;es da utente. A multidisciplinaridade deve, ent&#227;o, refletir um esfor&#231;o coordenado por parte dos diferentes profissionais de sa&#250;de com o objetivo comum de melhorar a sa&#250;de da pessoa, ao inv&#233;s de reduzir-se ao tratamento de uma dada doen&#231;a.<sup>6-7</sup></p>     <p>A aplica&#231;&#227;o do m&#233;todo cl&#237;nico centrado no paciente &#233; essencial para fomentar a ades&#227;o &#224; terap&#234;utica cr&#243;nica e para cuidar de pessoas com multimorbilidade.<sup>3,5-6</sup></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>REFER&#202;NCIAS BIBLIOGR&#193;FICAS</b></p>     <!-- ref --><p>1. World Health Organization. Adherence to long-term therapies: evidence for action (Internet). Geneva: WHO; 2003. ISBN 9241545992. Available from: <a href="http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/42682/1/9241545992.pdf" target="_blank">http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/42682/1/9241545992.pdf</a> &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1365345&pid=S2182-5173201600060000600001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>2. Nieuwlaat R, Wilczynski N, Navarro T, Hobson N, Jeffery R, Keepanasseril A, et al. Interventions for enhancing medication adherence. Cochrane Database Syst Rev. 2014;(11):CD000011.pub4.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1365346&pid=S2182-5173201600060000600002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>3. Stewart M, Brown J, Levenstein J, McCracken E, McWhinney IR. The patient-centred clinical method. 3. Changes in residents&#8217; performance over two months of training. Fam Pract. 1986;3(3):164-7.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1365348&pid=S2182-5173201600060000600003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>4. Nunes JM. Comunica&#231;&#227;o em contexto cl&#237;nico. Lisboa: Bayer; 2010.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1365350&pid=S2182-5173201600060000600004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>5. McWhinney IR, Freeman T. Manual de medicina de fam&#237;lia e comunidade. 3&#170; ed. Porto Alegre: Artmed; 2010.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1365352&pid=S2182-5173201600060000600005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> ISBN 9788536321257</p>     <!-- ref --><p>6. Boyd CM, Fortin M. Future of multimorbidity research: how should understanding of multimorbidity inform health system design? Public Health Rev. 2011;33(2):451-74.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1365354&pid=S2182-5173201600060000600006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>7. Broeiro P. Multimorbilidade e comorbilidade: duas perspetivas da mesma realidade (Multimorbidity and comorbidity: two perspectives on the same reality). Rev Port Med Geral Fam. 2015;31(3):158-60. Portuguese</p>     <!-- ref --><p>8. Doessing A, Burau V. Care coordination of multimorbidity: a scoping study. J Comorbidity. 2015;5(1):15-28.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1365357&pid=S2182-5173201600060000600008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a> | <a href="#topc0">Direcci&oacute;n para correspondencia</a> | <a href="#topc0">Correspondence</a><a name="c0"></a></p>     <p>Sofia Lages Fernandes</p>     <p>USF Descobertas, ACES Lisboa Ocidental e Oeiras, ARS Lisboa e Vale do Tejo </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>E-mail: <a href="mailto:sofia.f3@gmail.com">sofia.f3@gmail.com</a> </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Conflito de interesses</b></p>     <p>Os autores declaram n&#227;o ter conflitos de interesses.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Recebido em 17-04-2015</b></p>     <p><b>Aceite para publica&#231;&#227;o em 18-11-2016</b></p>      ]]></body><back>
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