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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>CLUBE DE LEITURA</b></font></p>     <p><font size="4"><b>Consumo de açúcares adicionados na infância: epidemia do século XXI?</b></font></p>     <p><font size="3"><b>Added sugars' consumption in children: an epidemic of the 21st century?</b></font></p>     <p><b>Ana Rute Ferreira Marques*, Ana Margarida Magalhães Gomes*, Gema Ponce Revilla*, Ana Maria Marques Raposo*</b></p>     <p>*USF Travessa da Saúde</p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>Vos MB, Kaar JL, Welsh JA, Van Horn LV, Feig DI, Anderson CA, et al. Added sugars and cardiovascular disease risk in children: a scientific statement from the American Heart Association. Circulation. 2017;135(19):e1017-34. DOI: 10.1161/CIR.0000000000000439</p>     <p><b>Introdução</b></p>     <p>A doença aterosclerótica é a primeira causa de morte nos Estados Unidos da América, parecendo ter início na infância devido à ingestão de açúcar. O seu consumo contribui para cerca de 16% das calorias diárias das crianças americanas. Os objetivos deste trabalho são: fazer uma revisão da evidência da relação entre o consumo de açúcares adicionados e o risco cardiovascular (RCV) em idade pediátrica, identificar lacunas e formular recomendações.</p>     <p><b>Método</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Foi conduzida uma pesquisa na PubMed, com várias palavras-chave, limitada a estudos originais, estudos em humanos e revisões sistemáticas. Os trabalhos foram resumidos e discutidos por peritos, estabelecendo-se recomendações por consenso de grupo. Foi também consultado o <i>National Health and Nutrition Examination Survey,</i> de 2009 a 2012.</p>     <p>Foram definidos os termos a utilizar, destacando-se os açúcares adicionados (AD), todos os açúcares usados como ingredientes em alimentos processados e preparados, bem como aqueles adicionados à mesa, separadamente.</p>     <p><b>Resultados</b></p>     <p>Nos últimos anos, várias entidades recomendaram o consumo limitado de AD como estratégia para diminuir a prevalência de obesidade e reduzir o RCV. A Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2003, propôs um limite no consumo de AD para &lt;10% do valor energético total (VET) diário e, em 2015, acrescentou que uma redução para &lt;5% (equivalente a &#8776;25g para um adulto saudável) teria benefícios adicionais em crianças e adultos. As crianças e jovens entre 2-19 anos consomem em média 80g/dia, sendo maior em rapazes e aumentando com a idade.</p>     <p>Em 2014, Jacome-Sousa e colaboradores constataram que a frutose e glucose podem ser tão aterogénicas como os ácidos gordos saturados, ainda que seja importante ter em conta a variabilidade da resposta individual devido a fatores genéticos. Vários trabalhos indicam ainda que os hidratos de carbono consumidos em alimentos sólidos são mais saciantes que aqueles em alimentos líquidos, o que provocaria menor ganho de peso. Assim, importa reduzir a ingestão de todos os AD, mas principalmente das bebidas açucaradas para diminuição do RCV. Adicionalmente, estudos randomizados controlados, em que foi feita a substituição de bebidas açucaradas por bebidas não calóricas, constataram reduções de peso, o que veio fortalecer a relação entre o consumo de AD e o aumento de peso.</p>     <p>Durante vários anos suspeitou-se de uma eventual relação entre açúcares e HTA. Tanto a evidência epidemiológica como a que resulta de ensaios clínicos sugerem que o consumo de AD (particularmente por serem fonte de frutose em excesso) conduz ao aumento da pressão arterial em crianças e adultos jovens. Existem dados que comprovam que este efeito pode ser mitigado através do uso de terapêutica dirigida à diminuição dos níveis de ácido úrico, o que vem apoiar a hipótese de que o efeito hipertensivo dos AD é indireto.</p>     <p>Múltiplos estudos demonstraram também uma associação entre o consumo de AD e o aumento dos níveis dos triglicéridos e/ou diminuição dos níveis de colesterol HDL. Apesar de tudo, os valores de colesterol LDL e/ou colesterol total foram menos relatados e/ou inversamente associados ao consumo de AD em alguns trabalhos, pelo que são necessários mais estudos nesta área.</p>     <p>No que diz respeito aos AD e diabetes mellitus, os estudos nesta área são inconclusivos. Parece existir uma relação entre os primeiros e a resistência à insulina em crianças com excesso de peso, não demonstrada, contudo, em crianças com peso adequado.</p>     <p>Quanto ao uso de adoçantes artificiais em substituição dos AD, os estudos são escassos na população pediátrica relativamente às vantagens ou desvantagens a longo prazo, pelo que não podem ser feitas recomendações contra ou a favor. </p>     <p><b>Conclusões</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A evidência atual apoia a associação entre o consumo de AD e o aumento do aporte calórico, obesidade e dislipidemia, fatores importantes no aumento do RCV.</p>     <p>A introdução de AD durante a infância parece ser nefasta e deve ser evitada. Este grupo de trabalho recomenda:</p>     <p>&#8226; Reduzir o consumo de bebidas açucaradas para &#8804;240mL/semana &#8211; (Classe I, Evidência A)</p>     <p>&#8226; Limitar AD &lt;25g/dia em crianças &gt;2 anos &#8211; (Classe IIa, Evidência C)</p>     <p>&#8226; Evitar o consumo deste tipo de açúcares em &lt;2 anos &#8211; (Classe III, Evidência C)</p>     <p>Apesar de toda a investigação desenvolvida nesta área, permanecem por esclarecer várias questões, nomeadamente relativas ao limiar abaixo do qual o consumo de AD não tem impacto no RCV.</p>     <p><b>Comentário</b></p>     <p>Os hábitos alimentares inadequados, incluindo a ingestão excessiva de açúcares simples, constituem um dos quatro fatores de risco modificáveis para o desenvolvimento de doenças crónicas.<sup>1-2</sup> Em Portugal, segundo o estudo Global Burden of Diseases, este fator de risco é o principal responsável pelo número de anos de vida com saúde perdidos.<sup>3</sup> A realidade portuguesa é preocupante, especialmente atentando aos dados relativos às doenças cardiovasculares (DCV) entre 2013 e 2014, que mantêm um peso significativo como causa de mortalidade em Portugal (&#8776;29,5%).<sup>4</sup> Para além disso:</p>     <p>&#8226; 52,8% da população portuguesa com 18 ou mais anos tinha excesso de peso;<sup>5</sup></p>     <p>&#8226; 31,6% das crianças portuguesas com idades compreendidas entre os seis e os oito anos apresentavam peso acima do normal;<sup>6</sup></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&#8226; 18,2% dos adolescentes apresentavam peso acima do normal.<sup>7</sup></p>     <p>Internacionalmente, a OMS publicou, em 2015, recomendações relativas ao consumo de açúcar. Estas surgiram da preocupação com o facto de a ingestão de açúcar (particularmente na forma de bebidas açucaradas) aumentar a proporção calórica e reduzir o consumo de alimentos nutricionalmente adequados, contribuindo para o aumento ponderal e maior risco de doenças crónicas.<sup>2</sup> As recomendações para uma dieta saudável são semelhantes para adultos e crianças, embora com algumas sugestões específicas para os mais novos. Nos primeiros dois anos de vida, uma boa nutrição promove o crescimento saudável e desenvolvimento cognitivo, reduzindo o risco de doenças crónicas na idade adulta, recomendando-se:<sup>8</sup></p>     <p>&#8226; Aleitamento materno (AM) exclusivo durante os primeiros seis meses;</p>     <p>&#8226; AM complementado com alimentos ricos em nutrientes, sem adição de sal ou açúcar, após os seis meses; </p>     <p>&#8226; AM mantido até aos dois anos.</p>     <p>A OMS defende que a ingestão de açúcar deve ser reduzida a menos de 10% do VET diário ou a menos de 5% para benefícios adicionais. Esta redução pode ser alcançada limitando o consumo de alimentos e bebidas contendo grandes quantidades de açúcar e substituindo <i>snacks</i> doces por frutas e vegetais.<sup>2,8</sup></p>     <p>Em Portugal, durante 2013-2014, a disponibilidade de açúcar <i>per capita</i> foi de 34,4kg/ano,<sup>9</sup> equivalente a 94g/dia ou 376kcal/dia.<sup>1</sup> Considerando um VET de 2.000kcal, as recomendações da OMS sugerem um consumo de açúcar máximo de 200kcal/dia, constatando-se uma ingestão claramente exagerada na população portuguesa. Relativamente às bebidas açucaradas, a disponibilidade de refrigerantes em 2012 foi de 208,5ml/hab/dia e de sumos de 34,8ml/hab/dia.<sup>10</sup> Atendendo à quantidade de açúcar presente nestas bebidas, metade da recomendação de consumir até 200kcal/dia pode ser facilmente ultrapassada com a ingestão de apenas 330mL de alguns dos refrigerantes à venda.<sup>1</sup></p>     <p>Subscrevendo as recomendações da OMS, foi criado em 2012 o Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável (PNPAS), pela Direção-Geral da Saúde. O objetivo é fomentar o consumo alimentar adequado e a melhoria do estado nutricional para conseguir impacto direto na prevenção e controlo das doenças mais prevalentes a nível nacional.<sup>11</sup></p>     <p>Procurando conciliar as medidas propostas pela OMS com as particularidades culturais, geográficas e governamentais portuguesas,<sup>11</sup> o PNPAS propõe atividades em seis áreas: estudo de indicadores do estado nutricional; reformulação nutricional na indústria alimentar e regulamentação do fornecimento de alimentos ricos em gorduras, sal e açúcar em estabelecimentos sociais de saúde e de ensino; reforço da literacia alimentar; promoção de um padrão alimentar mediterrânico sustentável e economicamente acessível; formação de profissionais e facilitação da sua articulação com estruturas influentes nesta área.<sup>12</sup></p>     <p>Alicerçando estas medidas em evidência que corrobora a associação entre o consumo excessivo de AD e aumento do RCV também encontrada no trabalho em discussão, o PNPAS surge em resposta ao retrato da população portuguesa que mostra a necessidade de uma mudança do padrão alimentar. A redução do consumo de açúcar, entre outras modificações, terá certamente um impacto positivo na saúde, quer da população pediátrica quer da população em geral.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</b></p>     <!-- ref --><p>1. Graça P, Gregório MJ, Santos A, Sousa SM. Redução do consumo de açúcar em Portugal: evidência que justifica ação (Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável). Lisboa: Direção-Geral da Saúde; 2015.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1377233&pid=S2182-5173201800030000900001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> ISBN 9789726752509</p>     <!-- ref --><p>2. World Health Organization. Guideline: sugars intake for adults and children. Geneva: WHO; 2015.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1377235&pid=S2182-5173201800030000900002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> ISBN 9789241549028</p>     <!-- ref --><p>3. Direção-Geral da Saúde. A saúde dos Portugueses: perspetiva 2015. Lisboa: DGS; 2015.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1377237&pid=S2182-5173201800030000900003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>4. Direção-Geral da Saúde. Portugal, doenças cérebro-cardiovasculares em números, 2015. Lisboa: DGS; 2016.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1377239&pid=S2182-5173201800030000900004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>5. Instituto Nacional de Estatística. Inquérito nacional de saúde 2014: mais de metade da população com 18 ou mais anos tinha excesso de peso. Lisboa: INE; 2015.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1377241&pid=S2182-5173201800030000900005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>6. Rito A, Graça P. Childhood Obesity Surveillance Initiative: COSI Portugal 2013. Lisboa: Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge; 2015.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1377243&pid=S2182-5173201800030000900006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>7. Matos MG, Simões C, Camacho I, Reis M, Equipa Aventura Social. Relatório do estudo HBSC 2014: a saúde dos adolescentes portugueses em tempos de recessão &#8211; Dados nacionais do estudo HBSC de 2014. Lisboa: Centro de Malária e Outras Doenças Tropicais, IHMT, FMH; 2015.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1377245&pid=S2182-5173201800030000900007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>8. World Health Organization. Healthy diet: fact sheet nº 394 [homepage]. Geneva: WHO; 2015 [cited 2017 Jan 6]. Available from: <a href="http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs394/en/" target="_blank">http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs394/en/</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1377247&pid=S2182-5173201800030000900008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>9. Direção-Geral da Saúde. Portugal: alimentação saudável em números, 2015 (Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável). Lisboa: DGS; 2015.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1377248&pid=S2182-5173201800030000900009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>10. Instituto Nacional de Estatística. Balança alimentar Portuguesa (2012-2016). Lisboa: INE; 2017.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1377250&pid=S2182-5173201800030000900010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> ISBN 9789892503899</p>     <p>11. Graça P, Gregório MJ. A construção do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável: aspetos conceptuais, linhas estratégicas e desafios iniciais [The construction of the National Program for the Promotion of Healthy Eating: conceptual aspects, strategic guidelines and initial challenges]. Rev Nutrícias. 2013;18:26-9. Portuguese</p>     <!-- ref --><p>12. Direção-Geral da Saúde. Programa nacional para a promoção da alimentação saudável: orientações programáticas. Lisboa: DGS; 2012.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1377253&pid=S2182-5173201800030000900012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Conflitos de interesse</b></p>     <p>As autoras declaram não ter quaisquer conflitos de interesse.</p>      ]]></body><back>
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