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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Hematúria microscópica: abordagem no âmbito dos cuidados de saúde primários]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Introduction: Microscopic hematuria (MH) is defined by the presence of at least three erythrocytes per high power field in the urine sediment, when properly collected, and without evidence of infection. This laboratory finding is often accidently detected by family physicians (FP), therefore its diagnostic approach should not be overlooked. MH can be classified as asymptomatic/symptomatic, transient/persistent and may be of benign or malignant nature. Objectives: To discuss the clinical evaluation of MH in adulthood, and to create an algorithm to guide FP on the differential diagnosis and clinical management. Methods: Search of meta-analysis, review articles and clinical guidelines (CG) published since 2010, in Portuguese and English. Databases: PubMed, Cochrane Library, DARE, NICE, UpToDate, Medscape. MeSH Keywords: ‘Hematuria’, ‘Microscopic findings’ and ‘Adult’. Free search in the American Urological Association and European Association of Urology. Results: A total of 265 articles were obtained. After duplicates’ removal, title screening, abstract screening and assessment of inclusion and exclusion criteria, one CG and two review articles were selected. Using the selected articles, we created an algorithm that synthesizes, in a practical way, the clinical management of MH in an adult patient. After excluding the possibility of contamination of the urine sample, the medical history and the physical examination of the urine sediment, combined with urine culture and the evaluation of kidney function, can provide clues for a specific diagnostic. In an asymptomatic patient, MH should be confirmed by performing a new urine sediment analysis, combined with urine culture and evaluation of kidney function. If the second laboratory test is negative, it is diagnosed as transient MH, which should be managed according to the patient’s risk for malignant disease. If MH is maintained, further information obtained from the sediment analysis (presence of proteins, dysmorphic erythrocytes, cylinders and/or clots) determines if the cause is glomerular or extra-glomerular. In the presence of extra-glomerular HM, the clinical management will depend on the presence of risk factors for malignant disease. Appointment referral to nephrology is mandatory in case of glomerular HM. Discussion: Microscopic hematuria is a laboratory sign that may indicate the presence of renal or/and urological pathology. A correct evaluation of the patient with MH shall include the determination of its etiology, upon which the subsequent clinical management will depend. As a frequent laboratory finding in primary care, FP should be aware of its main causes, and refer to secondary care whenever indicated.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Hematúria microscópica]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>ARTIGOS BREVES</b></font></p>     <p><font size="4"><b>Hematúria microscópica: abordagem no âmbito dos cuidados de saúde primários</b></font></p>     <p><font size="3"><b>Microscopic hematuria: approach within the framework of primary health care</b></font></p>     <p><b>Marta Sofia Cardoso Lopes,<sup>1</sup> Catarina Ferreira Magalhães,<sup>2</sup> David Alexandre Neves,<sup>3</sup> Joana Silva Abreu,<sup>4</sup> Melinda Pereira,<sup>1</sup> Patricia Duarte   Reis,<sup>4</sup> Telma Gameiro<sup>2</sup></b></p>     <p>1. USF   Carnide Quer</p>     <p>2. USF   Tílias</p>     <p>3. UCSP Sete   Rios</p>     <p>4. USF   Conchas</p>       <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a> | <a href="#c0">Direcci&oacute;n para correspondencia</a> | <a href="#c0">Correspondence</a><a name="topc0"></a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>RESUMO</b></p>     <p><b>Introdução:</b> A hematúria microscópica   (HM) é definida pela presença de pelo menos três eritrócitos por campo de alta   potência no estudo do sedimento urinário, devidamente coletado e sem evidência   de infeção. Este achado laboratorial é muitas vezes detetado acidentalmente   pelos médicos de família (MF), pelo que a sua abordagem diagnóstica não deve   ser menosprezada. Classifica-se em assintomática/sintomática,   transitória/persistente e pode ser de causa benigna ou maligna.</p>     <p><b>Objetivos:</b> Abordar a avaliação do   adulto com o achado incidental de HM, criando um algoritmo que assista o MF no   diagnóstico diferencial e orientação clínica.</p>     <p><b>Métodos:</b> Pesquisa de meta-análises,   artigos de revisão e normas de orientação clínica (NOC) publicados desde 2010   em português e inglês. Bases de dados: PubMed, <i>Cochrane Library,</i> DARE, NICE, UpToDate, Medscape. Termos MeSH: <i>hematuria, microscopic findings</i> e <i>adult.</i> Pesquisa livre na <i>American Urological Association</i> e na <i>European Association of Urology.</i></p>     <p><b>Resultados:</b> Obtiveram-se 265 artigos na   pesquisa. Após remoção de duplicados, exclusão pelo título/resumo e pelo   cumprimento dos critérios de inclusão e exclusão pré-definidos, foram selecionados:   uma NOC e dois artigos de revisão. Com base nestes artigos foi elaborado um   algoritmo que sintetiza, de forma prática, a abordagem da HM no adulto. Após   excluída a possibilidade de contaminação da amostra de urina, a história   clínica dirigida e o exame físico pode dar pistas para um diagnóstico   específico. Se assintomática, a HM deverá ser confirmada através de um novo   exame do sedimento urinário, em conjunto com uma urocultura e avaliação da   função renal. Caso o novo exame laboratorial seja negativo, estamos perante uma   HM transitória, que deverá ser abordada consoante o risco do doente para   patologia maligna. Caso a HM seja mantida, o restante exame do sedimento   (presença de proteínas, eritrócitos dismósficos, cilindros e/ou coágulos)   determina a origem glomerular ou extraglomerular. Perante uma HM   extraglomerular, a abordagem será definida em função dos fatores de risco para   doença maligna. A HM glomerular obriga à referenciação para consulta de   nefrologia.</p>     <p><b>Discussão:</b> A hematúria microscópica é   um sinal laboratorial que poderá indiciar patologia renal e/ou urológica. Uma   correta avaliação do doente com uma HM prende-se com a necessidade de   determinar a sua etiologia, da qual dependerá a subsequente abordagem. Sendo um   achado laboratorial frequente na consulta de MGF, o MF deverá estar   sensibilizado para as suas principais causas, referenciando para a   especialidade hospitalar sempre que indicado.</p>     <p><b>Palavras-chave:</b> Hematúria microscópica;   Adulto</p>   <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT</b></p>     <p><b>Introduction:</b> Microscopic hematuria   (MH) is defined by the presence of at least three erythrocytes per high power   field in the urine sediment, when properly collected, and without evidence of   infection. This laboratory finding is often accidently detected by family   physicians (FP), therefore its diagnostic approach should not be overlooked. MH   can be classified as asymptomatic/symptomatic, transient/persistent and may be of benign or malignant nature.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Objectives:</b> To discuss the clinical   evaluation of MH in adulthood, and to create an algorithm to guide FP on the   differential diagnosis and clinical management.</p>     <p><b>Methods:</b> Search of meta-analysis,   review articles and clinical guidelines (CG) published since 2010, in   Portuguese and English. Databases: PubMed, Cochrane Library, DARE, NICE,   UpToDate, Medscape.</p>     <p><b>MeSH Keywords:</b> ‘Hematuria’,   ‘Microscopic findings’ and ‘Adult’. Free search in the American Urological   Association and European Association of Urology.</p>     <p><b>Results:</b> A total of 265 articles were   obtained. After duplicates’ removal, title screening, abstract screening and   assessment of inclusion and exclusion criteria, one CG and two review articles   were selected. Using the selected articles, we created an algorithm that   synthesizes, in a practical way, the clinical management of MH in an adult   patient. After excluding the possibility of contamination of the urine sample,   the medical history and the physical examination of the urine sediment,   combined with urine culture and the evaluation of kidney function, can provide   clues for a specific diagnostic. In an asymptomatic patient, MH should be   confirmed by performing a new urine sediment analysis, combined with urine   culture and evaluation of kidney function. If the second laboratory test is negative,   it is diagnosed as transient MH, which should be managed according to the   patient’s risk for malignant disease. If MH is maintained, further information   obtained from the sediment analysis (presence of proteins, dysmorphic   erythrocytes, cylinders and/or clots) determines if the cause is glomerular or   extra-glomerular. In the presence of extra-glomerular HM, the clinical   management will depend on the presence of risk factors for malignant disease.   Appointment referral to nephrology is mandatory in case of glomerular HM.</p>     <p><b>Discussion:</b> Microscopic hematuria is a   laboratory sign that may indicate the presence of renal or/and urological   pathology. A correct evaluation of the patient with MH shall include the   determination of its etiology, upon which the subsequent clinical management   will depend. As a frequent laboratory finding in primary care, FP should be   aware of its main causes, and refer to secondary care whenever indicated.</p>     <p><b>Keywords:</b> Microscopic hematuria; Adult</p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdução</b></p>     <p>Apesar de   não existir um limite quantitativo seguro a partir do qual possa ser excluída   doença significativa, a hematúria microscópica (HM) é habitualmente definida   pela presença de pelo menos três eritrócitos por campo de alta potência no   estudo do sedimento urinário, devidamente coletado.<sup>1-3</sup></p>     <p>A   prevalência na população adulta varia em função da idade, género, frequência do   teste, limiar usado para definir HM e características da população estudada,   nomeadamente quanto aos fatores de risco. Em vários estudos de base   populacional, a prevalência de HM variou entre 0,19 a 16,1%, mas atingiu os 21%   no subgrupo de homens mais velhos, com risco mais elevado de patologia   urológica significativa.<sup>1-2</sup></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A HM pode   ser classificada em sintomática ou assintomática, transitória ou persistente.   As causas para esta alteração laboratorial são múltiplas e podem ser benignas   (e.g., infeção urinária, hiperplasia benigna da próstata, cálculos urinários)   ou malignas (e.g., neoplasia vesical, renal, prostática). Na maioria dos casos,   a etiologia é desconhecida (43-68%).<sup>1</sup></p>     <p>Sabe-se que   em muitos doentes, em particular os jovens, a hematúria é transitória,   incidental e sem consequências. No entanto, há um risco significativo de   malignidade em pacientes com idade acima de 35 anos, mesmo que seja hematúria   transitória. Até 5% dos doentes com HM assintomática têm uma neoplasia.<sup>3</sup></p>     <p>Os médicos   de família (MF) são muitas vezes os primeiros a reconhecer este achado, pelo   que se torna fundamental uma abordagem sistematizada que permita excluir as   situações potencialmente graves.</p>     <p><b>Objetivos</b></p>     <p>Neste artigo   é apresentada uma proposta de abordagem do adulto com o achado incidental de   HM, criando um algoritmo que assista o MF no diagnóstico diferencial e   orientação clínica.</p>     <p><b>Método</b></p>     <p>Os autores   realizaram uma pesquisa bibliográfica a 5 de fevereiro de 2015, com os termos   MeSH <i>hematuria, microscopic findings </i>e <i>adult.</i> Incluíram-se meta-análises,   artigos de revisão e normas de orientação clínica (NOC) publicados desde 2010,   em português e inglês, nas seguintes bases de dados: PubMed, <i>Cochrane Library,</i> DARE, NICE, UpToDate,   Medscape. Adicionalmente foi realizada pesquisa livre na <i>American Urological Association</i> e na <i>European Association of Urology.</i></p>     <p>Concluída a   pesquisa bibliográfica, foram eliminados os artigos duplicados. De seguida, dois   dos autores realizaram a seleção dos artigos, inicialmente por título e depois   pelo resumo, recorrendo a um terceiro elemento em caso de discordância. Esta   seleção foi guiada pelos seguintes critérios de elegibilidade: idade superior a   18 anos, presença de HM em urina II ocasional e presença de uma proposta de   orientação diagnóstica.</p>     <p>Os artigos   selecionados foram analisados por todos os autores que, após discussão,   consensualizaram uma proposta de algoritmo de abordagem de HM no adulto.</p>     <p><b>Resultados</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Foram   obtidos 265 artigos. Após remoção dos duplicados e aplicação dos critérios de   elegibilidade foram selecionados uma NOC e dois artigos de revisão. Com base   nestes documentos foi elaborado um algoritmo (<a href="#f1">Figura 1</a>) que sintetiza a abordagem da HM do adulto quando detetada em urina II.</p>     <p>&nbsp;</p>    <p align="center"><a name="f1"></a><img src="/img/revistas/rpmgf/v34n5/34n5a09f1.jpg"/></p>    
<p>&nbsp;</p>     <p>A HM é   diagnosticada apenas em urina II, devendo esta ser sempre realizada para   confirmação de um resultado positivo em tira-teste (grau de recomendação C).<sup>2</sup> Contudo, na prática clínica, caso nos deparemos com tira-teste positiva para   hematúria, mas urina II negativa, esta última deverá ser repetida três vezes.   Se forem consecutivamente negativas para hematúria, exclui-se a presença de HM,   não sendo necessário investigação adicional (grau de recomendação C). Este   procedimento ajuda o MF a distinguir se está perante um caso de HM ou um falso   positivo da tira-teste.</p>     <p>A avaliação   inicial do doente com HM deve incluir uma anamnese cuidada, exame objetivo   (incluindo medição de pressão arterial, exame pélvico na mulher e retal no   homem) e análises laboratoriais para excluir causas benignas de HM (grau de   recomendação C). Deverá ser também ser excluída a possibilidade de contaminação   da amostra de urina (grau de recomendação C).<sup>1-2</sup> Se identificada(s)   causa(s) benigna(s) (e.g., menstruação, trauma pélvico, exercício físico   vigoroso e/ou procedimento urológico recente) deve suspender-se o fator   desencadeante e repetir a urina II após pelo menos seis semanas (grau de   recomendação C).<sup>1</sup></p>     <p>Excluídas as   causas benignas de achado laboratorial de HM poderão existir dados da anamnese   e do exame objetivo que providenciem pistas para um diagnóstico específico (<a href="#q1">Quadro I</a>).<sup>3</sup></p>     <p>&nbsp;</p>    <p align="center"><a name="q1"></a><img src="/img/revistas/rpmgf/v34n5/34n5a09q1.jpg"/></p>    
<p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em doentes   assintomáticos, a abordagem inclui a repetição da urina II, a avaliação da   função renal (creatinina, taxa de filtração glomerular estimada e ureia) e   urocultura (grau de recomendação C).<sup>2</sup> Se o resultado da urocultura   for positivo (&gt; 10<sup>5</sup> colónias por campo de alta resolução)   recomenda-se o tratamento da bacteriúria e a repetição da urina II dentro de   seis semanas (grau de recomendação C).<sup>1</sup> Se HM persistir na reavaliação,   considerar como hematúria persistente (ver adiante). Se o resultado da   urocultura for negativo, importa distinguir HM transitória (i.e., repetição da   urina II sem HM) de HM persistente (i.e., repetição da urina II com HM).</p>     <p>A abordagem   da HM transitória depende do risco do doente para patologia maligna (<a href="#q2">Quadro II</a>). Assim, nos doentes de alto risco é razoável a sua vigilância com urina II   anual. Após dois anos consecutivos com urina II sem HM pode interromper-se o <i>follow up</i> (grau de recomendação C).<sup>3</sup> Se urina II com HM, os autores recomendam continuar pela abordagem como HM   persistente. Não estão descritas recomendações para abordagem de HM transitória   em doentes com baixo risco de neoplasia. Neste contexto, os autores não   recomendam investigação adicional.</p>     <p>&nbsp;</p>    <p align="center"><a name="q2"></a><img src="/img/revistas/rpmgf/v34n5/34n5a09q2.jpg"/></p>    
<p>&nbsp;</p>     <p>Na HM   persistente, com presença de proteinúria <i>de     novo</i> (&gt; 500mg/dia), eritrócitos dismórficos, cilindros celulares e/ou   insuficiência renal &#8211; características a favor de origem glomerular   &#8211; recomenda-se avaliação nefrológica, não&nbsp;excluindo, no entanto, a   necessidade de avaliação urológica (grau de recomendação C).<sup>1-2</sup></p>     <p>A avaliação   subsequente da HM persistente assintomática depende do nível de risco que o   doente apresenta para patologia maligna do sistema excretor. Em todos os casos   (alto ou baixo risco), a avaliação deve incluir um exame imagiológico, sendo a   Uro-TC o exame de eleição (grau de recomendação C).<sup>1-2</sup> Nos doentes   com contraindicação relativa ou absoluta para realização de Uro-TC   (insuficiência renal, alergia a contraste) é indicada a realização de ecografia   renal ou urografia TC sem contraste; no caso de mulher grávida está recomendada   a realização de ecografia renal e do sistema coletor (grau de recomendação C).<sup>2</sup> Nos doentes com alto risco de neoplasia, os autores recomendam que estes sejam   referenciados para consulta hospitalar de urologia, pela indicação de   realização de cistoscopia (grau de recomendação C).<sup>1-2</sup></p>     <p>Na HM   inexplicada está recomendada a repetição da urina II anualmente. Se ausência de   HM durante dois anos consecutivos suspende-se o <i>follow-up</i> (grau de recomendação C). Se a HM assintomática   persistir, ponderar a reavaliação completa uro/nefrológica ao fim de 3-5 anos,   tendo em consideração o risco do doente (grau de recomendação C).<sup>1-3</sup></p>     <p><b>Discussão</b></p>     <p>Apesar dos   resultados da pesquisa bibliográfica serem pouco robustos, dada a fraca   qualidade da evidência que os suporta, os autores consideraram importante   avançar com a proposta de algoritmo em função da elevada prevalência deste   achado na prática diária do MF. Consideramos que estes dados não devem ser   ignorados mas antes analisados criticamente, de forma a permitir uma prática   assente na melhor evidência disponível.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Quando a   primeira suspeita de HM advém de uma tira-teste urinária devemos ter em atenção   que esta reage com a proteína heme, que pode ser detetável numa amostra de   urina com eritrócitos intactos, hemoglobina e/ou mioglobina. Embora a   tira-teste tenha uma sensibilidade acima dos 90%, existe um número de falsos   positivos de aproximadamente 35% (é mais provável se existir outras substâncias   na urina, um pH alcalino e/ou urina concentrada). Assim, o diagnóstico da HM   deverá ser estabelecido a partir de um exame do sedimento urinário. Neste   exame, os falsos negativos são incomuns, pois um exame negativo para o heme   teoricamente exclui a presença de hematúria.<sup>4</sup> Caso uma urina II   indique presença de hematúria é necessário prosseguir com a sua investigação   com base no algoritmo proposto.</p>     <p>Relativamente   à recomendação de instituir antibioterapia nos doentes com bacteriúria   assintomática e HM, os autores reconhecem que não vai de encontro à orientação   da Direção-Geral da Saúde. Esta última afirma que o tratamento da bacteriúria   assintomática só está recomendado em mulheres grávidas e em doentes candidatos   a resseção transuretral da próstata.<sup>5</sup> Contudo, visto que a   bacteriúria pode ser a causa da HM, consideramos fundamental excluir todos os   fatores de confundimento na avaliação da presença de HM persistente antes de   prosseguir a marcha diagnóstica. Este racional torna-se especialmente relevante   nos doentes com fatores de risco para neoplasia do trato urinário.</p>     <p>Nos doentes   com HM assintomática persistente, com fatores de risco para neoplasia do trato   urinário, a <i>guideline</i> da <i>American Urological Association</i> (AAU),   de 2012, sobre a HM assintomática recomenda a realização de cistoscopia.<sup>2</sup> Não sendo este um exame usado de forma frequente na prática da medicina geral e   familiar no nosso país, e tendo em conta que se trata de um exame invasivo (e,   consequentemente, com riscos), recomendamos que estes doentes sejam   primeiramente encaminhados à consulta hospitalar de urologia para uma avaliação   dirigida. De igual modo, esta <i>guideline</i> recomenda que a avaliação da HM deve incluir um estudo imagiológico do   parênquima renal e vias coletoras. O procedimento de primeira escolha é a   urografia por TC multifásica (sensibilidade: 91-100%, especificidade: 94-97%),   exame atualmente não convencionado. Contudo, a guideline da American Academy of   Family Physicians, de 2013, defende que a escolha do método de imagem   apropriado deverá ser determinada pelas circunstâncias clínicas, preferências   do utente e os recursos disponíveis. Admite-se que uma avaliação mais limitada   pode ser suficiente em doentes de baixo risco.<sup>1</sup> Dada a fraca   qualidade de evidência disponível, não é possível aos autores concluir sobre o   custo-benefício da abordagem diagnóstica proposta nos doentes de baixo risco.   Para além disso, a abordagem proposta não é isenta de riscos. A investigação   pode incluir a exposição a radiações e/ou exames invasivos que poderão não ser   justificáveis perante o risco basal ou comorbilidades do doente. Estudos   adicionais poderão contribuir para o esclarecimento de qual o benefício a longo   prazo, em termos de morbilidade, mortalidade e qualidade de vida.</p>     <p>Na suspeita   de hematúria glomerular (presença de glóbulos vermelhos dismórficos,   proteinúria, cilindros celulares e insuficiência renal) está recomendada a   avaliação em consulta de nefrologia. No entanto, estes achados não excluem a   presença, em simultâneo, de uma causa urológica de HM (grau de recomendação C).   Neste sentido, os autores reforçam a importância da pesquisa sistemática dos   fatores de risco para neoplasia do trato urinário.</p>     <p>A avaliação   do risco de doença maligna renal ou do sistema excretor no doente com HM   assintomática é um tema que ainda não reúne consenso dentro da comunidade   científica. A AAU reconhece a existência de uma falha crítica no conhecimento   adquirido até ao momento, que se deve aos altos níveis de incerteza criados   pela ausência de informação estratificada relativa à utilidade diagnóstica dos   diferentes exames complementares utilizados na avaliação da HM assintomática.   Contudo, o painel de peritos desta associação reconhece que os doentes de alto   risco submetidos a avaliação diagnóstica ativa e vigilância clínica regular   podem beneficiar de deteção e tratamento atempados. Apesar de não existirem   dados concretos que demonstrem este benefício, a HM pode proceder o diagnóstico   de neoplasia por muitos anos.</p>     <p>Os fatores   de risco identificados no <a href="#q2">Quadro II</a> são os expostos na <i>guideline</i> da AAU.<sup>2</sup> A descrição destes fatores de risco   baseia-se num artigo prévio da mesma associação, não sendo evidente a sua fundamentação.   Deste modo, os autores da presente revisão alertam que os fatores de risco   apresentados são meramente indicativos, pelo que a avaliação de risco de   patologia maligna caberá ao médico assistente. Esta decisão deverá ser baseada   nas características do doente, comorbilidades e risco acumulado. Dever-se-ão   ainda considerar as preferências do doente, pelo que a decisão clínica deve ser   precedida por uma discussão franca sobre o risco de existência de patologia   maligna e os benefícios/malefícios das intervenções propostas.</p>     <p><b>Conclusão</b></p>     <p>Na maior   parte dos casos, a HM representa uma situação benigna e autolimitada. Contudo,   pode também ser o primeiro sinal de patologia nefro-urológica grave.   Pretende-se, assim, que este algoritmo possa apoiar os MF na decisão clínica   dirigida à abordagem diagnóstica destes doentes.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>1. Sharp VJ,   Barnes KT, Erickson BA. Assessment of asymptomatic microscopic hematuria in   adults. Am Fam Physician. 2013;88(11):747-54.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1380338&pid=S2182-5173201800050000900001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>2. Davis R,   Jones JS, Barocas DA, Castle EP, Lang EK, Leveillee RJ, et al. Diagnosis,   evaluation and follow-up of asymptomatic microhematuria (AMH) in adults: AUA   guideline. J Urol. 2012 Dec;188(6 Suppl):2473-81.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1380340&pid=S2182-5173201800050000900002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>3. Kurtz M,   Feldman As, Perazella MA. Etiology and evaluation of hematuria in adults.   UpToDate [homepage]; 2018 [updated 2017 Nov 21]. Available from:   <a href="https://www.uptodate.com/contents/etiology-and-evaluation-of-hematuria-in-adults" target="_blank">https://www.uptodate.com/contents/etiology-and-evaluation-of-hematuria-in-adults</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1380342&pid=S2182-5173201800050000900003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>4. Wald R,   Curhan GC, Lam AQ. Urinalysis in the diagnosis of kidney disease. UpToDate   [homepage]; 2018 [updated 2016 Sep 15]. Available from:   <a href="https://www.uptodate.com/contents/urinalysis-in-the-diagnosis-of-kidney-disease" target="_blank">https://www.uptodate.com/contents/urinalysis-in-the-diagnosis-of-kidney-disease</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1380343&pid=S2182-5173201800050000900004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>5.   Direção-Geral da Saúde. Terapêutica de infeções do aparelho urinário   (comunidade): norma n.º 015/2011, de 30/08/2011. Lisboa: DGS; 2011.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1380344&pid=S2182-5173201800050000900005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a> | <a href="#topc0">Direcci&oacute;n para correspondencia</a> | <a href="#topc0">Correspondence</a><a name="c0"></a></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Marta Sofia   Cardoso Lopes</p>     <p>E-mail: <a href="mailto:msclopes13@gmail.com">msclopes13@gmail.com</a></p>     <p><a href="https://orcid.org/0000-0002-0275-926X" target="_blank">https://orcid.org/0000-0002-0275-926X</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Conflito de interesses</b></p>     <p>Os autores   declaram n&atilde;o ter quaisquer conflitos de interesse.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Recebido em 21-06-2016</b></p>     <p><b>Aceite para publicação em 11-02-2018</b></p>      ]]></body><back>
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