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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>EDITORIAL</b></font></p>     <p><font size="4"><b>A necessidade do ensino do profissionalismo</b></font></p>     <p><b>Raquel Braga*</b></p>     <p>*Médica de família. USF Lagoa, ULS Matosinhos.</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a> | <a href="#c0">Direcci&oacute;n    para correspondencia</a> | <a href="#c0">Correspondence</a><a name="topc0"></a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>Profissionalismo pode ser definido como o nível de competência, bom senso e    cortesia esperados, em pessoas treinadas para executarem bem o seu trabalho.    Mas o que encerra o profissionalismo não se esgota nesta definição.</p>     <p>Há valores contidos no profissionalismo que são inatos ou fazem parte da formação    pessoal, cultivada pela educação que alguns trazem de casa. No entanto, há características    do profissionalismo que têm de ser ensinadas, a par da restante aprendizagem    de uma profissão, sendo para alguns a única e primeira oportunidade de potenciar    determinadas qualidades do caráter ou da atitude fundamentais ao correto desempenho    da profissão médica.</p>     <p>Sejam parte do <i>curriculum</i> formal ou do <i>curriculum</i> escondido,    as questões do profissionalismo, sobretudo na área da medicina, devem ser devidamente    escalpelizadas e objetivadas para que corretamente transmitidas e efetivamente    apreendidas.</p>     <p>A par do ensino médico formal em aulas, o ensino ombro-a-ombro, resultante    do contacto com os colegas mais velhos, modelos de conduta clínica, ética e    profissional, é uma excelente forma de transmissão do conhecimento, sendo que    o profissionalismo não foge a esta regra.<sup>1</sup> Um bom modelo de profissionalismo    como tutor é, provavelmente, mais eficaz do que várias aulas magistrais.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Estar inserido em instituições com práticas que cultivem o altruísmo, a responsabilidade,    a excelência, a honra, a integridade, o respeito pelos outros e o sentido de    dever e de voluntariado, levam quase inevitavelmente ao contágio e aquisição    destes comportamentos, que são a essência do profissionalismo.<sup>2</sup> Este    tipo de ambiente profissional torna-se contagiante e potencia um círculo virtuoso.    Um ambiente institucional em que haja falta destes valores levará inevitavelmente    a um círculo vicioso de falhas repetidas e de comportamentos desajustados.</p>     <p>Vejamos algumas atitudes importantes para que um médico tenha um desempenho    profissional.</p>     <p><b>Colocar os interesses dos doentes acima dos interesses dos médicos</b> é    uma postura que envolve alguma abnegação, mas sempre necessária a uma atitude    profissional. É essa atitude que leva os médicos ao esforço e dispêndio de tempo    numa permanente formação e atualização de conhecimentos,<sup>3</sup> a uma curiosidade    incessante e um real interesse por aumentar a diversidade e quantidade de contacto    com novas oportunidades formativas, ou seja, com novos casos da prática clínica    que vêm sustentar um saber abrangente e diversificado, a que chamamos experiência    clínica. É o bem maior do <b>interesse do doente</b><sup>4</sup> que deve também    potenciar a disseminação do conhecimento científico que os médicos fazem, no    ensino ombro-a-ombro e através das atividades de investigação e divulgação científica.</p>     <p>Fomentar a <b>autonomia do doente,</b><sup>2-3</sup> potenciar a sua capacitação    é também parte de uma atitude profissional, em que o médico não cultiva a dependência    do doente de si próprio, ou do sistema de saúde, por motivos de egocentrismo    ou de carência afetiva, mas antes cultiva a honestidade e a comunicação eficaz.    Sem paternalismos e com uma atitude centrada no doente, uma boa transmissão    da informação pode levar o doente a conseguir tomar decisões acerca do seu tratamento,    com base nas informações dadas. Esta é uma forma de altruísmo e respeito pelos    outros.</p>     <p>Promover <b>a justiça e equidade</b> é outra finalidade do profissionalismo,    que visa o equilíbrio dos recursos no atendimento e no acesso, evitando todas    as formas de discriminação, mas procurando dar mais aos que mais precisam.</p>     <p>A <b>responsabilidade profissional</b> é uma atitude fundamental que não se    limita a não ser negligente, mas implica não ser omisso, não tentando fugir    ou demitir-se das responsabilidades que as atribuições do desempenho da função    imputam. Procrastinar, evitar envolvimento com casos clínicos incómodos ou difíceis,    distorcer a realidade de forma a contornar os obstáculos, afastar tarefas morosas    ou aborrecidas são atitudes que revelam pouca responsabilidade profissional    e até, por vezes, pouca integridade e sentido de dever.</p>     <p>Existem algumas responsabilidades profissionais específicas que os médicos    devem ter sempre presentes. Uma delas é o compromisso com a <b>competência profissional,</b><sup>2</sup>    que obriga à procura do conhecimento, da atualização científica e da evicção    do isolamento. Deste compromisso deriva a garantia da melhoria contínua da <b>qualidade    dos cuidados</b> prestados e da <b>acessibilidade,</b> evitando os obstáculos    de acesso relacionados com a educação, legislação, finanças, geografia, sexo,    raça, etnia, religião, promovendo a <b>equidade no acesso.</b> Do compromisso    <b>de justiça</b> que promove a <b>equidade</b> surge o compromisso de <b>distribuição    de recursos limitados,</b><sup>5</sup> prestando cuidados com uma boa relação    custo-eficiência, articulando os cuidados com outros profissionais de saúde,    evitando criteriosamente exames complementares de diagnóstico e tratamentos    desnecessários. A par deste compromisso de gestão dos processos clínicos, o    profissionalismo envolve o compromisso com <b>outras responsabilidades profissionais,</b>    cooperando e alocando tempo para a participação na formação dos pares, para    a investigação, para a avaliação interna e externa, entre outras das múltiplas    tarefas a que um médico é desafiado.</p>     <p>O <b>compromisso de honestidade</b> para com os doentes deve promover uma comunicação    eficaz, com informações completas e ajustadas. A honestidade não deve ser sinónimo    de crueldade e, na ótica de uma comunicação que se quer empática, antevê-se    que não pode haver verdade sem compaixão. A honestidade implica ainda o reconhecimento    do <b>erro médico</b> e do seu uso ao serviço da melhoria contínua dos processos,    bem como para propósitos formativos interpares.</p>     <p>Outra importante responsabilidade profissional é o <b>compromisso de manter    um relacionamento adequado com os doentes,</b> entendendo a sua vulnerabilidade,    evitando todas as espécies de abuso do poder, mantendo uma relação verdadeiramente    centrada no doente. É neste compromisso que se deve atentar na cortesia, uma    característica que pode vir da formação de base de um médico, mas que, em certas    situações, também tem de ser ensinada e aprendida, se não de forma observada,    através, por exemplo, da transmissão de códigos de etiqueta.</p>     <p>O <b>compromisso da confidencialidade</b> é outra importante responsabilidade    ética e um dever profissional que não se esgota no sigilo médico, mas que, atualmente,    gera importantes reflexões em torno dos dados eletrónicos, com impacto na população    em geral. A Deontologia Médica é uma disciplina que aborda estes aspetos de    forma mais ou menos exaustiva nos cursos de medicina, mas a diversidade de desafios    que os sistemas de informação atualmente encerram obriga a uma reflexão contínua    e pró-ativa.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Existe uma espécie de contrato entre a profissão médica e a sociedade, que    é relativamente simples e que gera todos os compromissos atrás enunciados. A    medicina tem (cada vez menos&hellip;) o monopólio sobre o uso de um corpo de conhecimento,    bem como considerável autonomia, prestígio e recompensas financeiras, no entendimento    de que garantirá competência, prestará serviço altruísta e conduzirá a sua profissão    com moralidade e integridade.<sup>2</sup></p>     <p>Há ameaças ao profissionalismo, intrínsecas à personalidade de um médico, que    podem passar pela ganância, desonestidade, fraude, negligência, corrupção ou    mentira. Há ainda, presentemente, outras ameaças que são extrínsecas ao médico,    ao seu entendimento do profissionalismo e à sua vontade de atuar de forma profissional.    Diretrizes profissionais, ditadas pela crise económica, fruto de más políticas    de saúde, devidas a pressões económicas ou derivadas de má gestão, podem constituir    um entrave a um desemprenho médico profissional adequado e condicionar situações    conflituantes. Uma ética profissional sólida, aliada à valorização do juramento    hipocrático do médico, entendido como aquele que cura, podem defender a classe    médica de corromper o seu compromisso social, cedendo a pressões laborais, fruto    de políticas economicistas, garantindo uma atitude verdadeiramente profissional,    responsável e comprometida com o bem maior do doente.<sup>1,4</sup></p>     <p>No que toca a profissionalismo, não há necessidade de sermos pessimistas, uma    vez que a medicina, apesar de toda a crítica, continua a ser uma profissão socialmente    respeitada. Os abalos sociais ocorridos nas últimas décadas,<sup>1</sup> com    a progressiva implementação dos sistemas de saúde e com o declínio na deferência    pela classe médica e uma maior disposição por parte do público em questionar    decisões profissionais,<sup>5</sup> não têm sido suficientes para aniquilar    a confiança nesta profissão.</p>     <p>Todos aqueles que se dedicam ao ensino da medicina são tocados pelo compromisso    e idealismo que os estudantes de medicina revelam. Acarinhar, estruturar, sedimentar    e acalentar este idealismo é parte importante do caminho para que o profissionalismo    floresça e vingue pela vida fora.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</b></p>     <!-- ref --><p>1. Cruess RL, Cruess SR. Teaching medicine as a profession in the service of    healing. Acad Med. 1997;72(11):941-52.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1386402&pid=S2182-5173201900040000100001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>2. Cruess SR, Johnston S, Cruess RL. Professionalism for medicine: opportunities    and obligations. Med J Aust. 2002;177(4):208-11.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1386404&pid=S2182-5173201900040000100002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>3. Abadel FT, Hattab AS. Patients&rsquo; assessment of professionalism and communication    skills of medical graduates. BMC Med Educ. 2014;14:28. </p>     <!-- ref --><p>4. Cruess RL, Cruess SR, Johnston SE. Renewing professionalism: an opportunity    for medicine. Acad Med. 1999;74(8):878-84.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1386407&pid=S2182-5173201900040000100004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>5. Ham C, Alberti KG. The medical profession, the public, and the government.    BMJ. 2002;324(7341):838-42.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1386409&pid=S2182-5173201900040000100005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a> | <a href="#topc0">Direcci&oacute;n    para correspondencia</a> | <a href="#topc0">Correspondence</a><a name="c0"></a></p>     <p>E-mail: <a href="mailto:raquel31braga@gmail.com">raquel31braga@gmail.com</a></p>      ]]></body><back>
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