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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>DOSSIER</b></p>     <p><b>Reflexos invertidos: As migra&ccedil;&otilde;es clandestinas no filme de fic&ccedil;&atilde;o e document&aacute;rio</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Carlos Nolasco*, Elsa Lechner** e Joana Sousa Ribeiro***</b></p>     <p>*Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Col&eacute;gio de S. Jer&oacute;nimo, Largo D. Dinis, Apartado 3087, 3000-995 Coimbra, Portugal  <a href="mailto:cmsnolasco@ces.uc.pt">cmsnolasco@ces.uc.pt</a></p>     <p>** Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Col&eacute;gio de S. Jer&oacute;nimo, Largo D. Dinis, Apartado 3087, 3000-995 Coimbra, Portugal <a href="mailto:elsalechner@ces.uc.pt">elsalechner@ces.uc.pt</a></p>     <p>*** Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Col&eacute;gio de S. Jer&oacute;nimo, Largo D. Dinis, Apartado 3087, 3000-995 Coimbra, Portugal <a href="mailto:joanasribeiro@ces.uc.pt">joanasribeiro@ces.uc.pt</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i>As not&iacute;cias sobre a chegada de migrantes clandestinos &agrave;s fronteiras da Europa s&atilde;o uma constante da atualidade. Relata-se a press&atilde;o na fronteira terrestre do continente, a leste da Gr&eacute;cia e Turquia, ou conta-se a impressionante odisseia na bacia do Mediterr&acirc;neo, onde chegam milhares de migrantes oriundos dos continentes africano e asi&aacute;tico, todos tentando entrar no espa&ccedil;o idealizado da Europa, fugindo de guerras, repress&atilde;o, pobreza e falta de perspetivas. Nos &uacute;ltimos tempos, as not&iacute;cias dos naufr&aacute;gios ocorridos ao largo das ilhas de Lampedusa, Sic&iacute;lia e Malta, transportando refugiados s&iacute;rios, somalis, eritreus e libaneses, mostram ao mundo a dimens&atilde;o do problema e as suas v&aacute;rias vertentes, humanit&aacute;ria, pol&iacute;tica, econ&oacute;mica e diplom&aacute;tica. Mas a novidade destes factos reside apenas na dimens&atilde;o da trag&eacute;dia, pois os mesmos dramas s&atilde;o vividos desde h&aacute; muito na costa espanhola e nos campos de reten&ccedil;&atilde;o de migrantes no Norte de &Aacute;frica e na fronteira a leste da Europa.</i> <i>S&atilde;o</i> <i>not&iacute;cias de longas e perigosas viagens de homens, mulheres e crian&ccedil;as, que pagam avultadas somas de dinheiro a passadores, agentes informais de uma verdadeira ind&uacute;stria migrat&oacute;ria (Castles, 2000).</i></p>     <p><i>Migrantes, refugiados, pol&iacute;cias, pol&iacute;ticos e cidad&atilde;os aut&oacute;ctones dos pa&iacute;ses de passagem e de destino, todos s&atilde;o atores de um cen&aacute;rio de incontest&aacute;vel viol&ecirc;ncia que n&atilde;o deixa ningu&eacute;m indiferente. O Papa Francisco, na sua recente visita &agrave; ilha de Lampedusa, onde se deslocou para chorar “as v&iacute;timas dos naufr&aacute;gios”, denunciou a “globaliza&ccedil;&atilde;o da indiferen&ccedil;a” perante o drama destas “pessoas em viagem rumo a qualquer coisa de melhor” e apelou &agrave;s consci&ecirc;ncias contra essa mesma indiferen&ccedil;a, pela solidariedade, responsabilidade de cada um/a no sofrimento do outro, o “migrante clandestino”, ignorado ou desprezado por ser radicalmente estranho, vulner&aacute;vel ou simplesmente estrangeiro.</i></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>Perante esta realidade, a Uni&atilde;o Europeia e os pa&iacute;ses que a integram insistem em encarar o problema numa l&oacute;gica securit&aacute;ria, como se de uma amea&ccedil;a de invas&atilde;o se tratasse. No entanto, uma an&aacute;lise cr&iacute;tica do fen&oacute;meno em causa impele para a necessidade de se reequacionar a quest&atilde;o numa l&oacute;gica de responsabilidade hist&oacute;rica dos pa&iacute;ses europeus, ex-colonizadores dos pa&iacute;ses de origem destes migrantes e refugiados, bem como dos compromissos atuais com pol&iacute;ticas econ&oacute;micas neoliberais. O problema &eacute; politicamente complexo e revelador de um dilema existencial para o continente ber&ccedil;o da democracia, dos direitos humanos e dos valores iluministas de igualdade, liberdade e fraternidade. Por um lado, traduz uma contradi&ccedil;&atilde;o fundamental entre a cultura de justi&ccedil;a da Europa e o pragmatismo di&aacute;rio de viola&ccedil;&atilde;o dos direitos humanos destes migrantes sem autoriza&ccedil;&atilde;o de entrada; por outro lado, revela um paradoxo hist&oacute;rico representado pelo Mediterr&acirc;neo, </i>Mare nostrum, Mare chiuso<i>, agora transformado em cemit&eacute;rio. Enuncia ainda um dilema existencial para os Estados, que, segundo Itamar Mann, se traduz em “ou tratar as pessoas como seres humanos, correndo o risco de mudar quem se &eacute; (em termos de composi&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o), ou desistir de direitos humanos, correndo o risco de se alterar quem se &eacute; (em termos de seus compromissos estruturais)” (2013: 315). Neste sentido, &eacute; tamb&eacute;m a linguagem que utilizamos para nomear esta realidade que deve ser equacionada desde logo na designa&ccedil;&atilde;o destas migra&ccedil;&otilde;es clandestinas como movimentos populacionais cujas causas, caracter&iacute;sticas e consequ&ecirc;ncias ultrapassam uma vis&atilde;o normativa e legal que, afinal, se trai a si pr&oacute;pria.</i></p>     <p><i>O crescente controlo legal e securit&aacute;rio das fronteiras da Uni&atilde;o Europeia do espa&ccedil;o Schengen tem vindo a transformar os limites territoriais do continente europeu numa barreira de passagem a importantes contingentes de migrantes e refugiados que n&atilde;o deixam, mesmo assim, de tentar a Europa. Se as migra&ccedil;&otilde;es Norte-Sul se est&atilde;o a aproximar em n&uacute;mero das migra&ccedil;&otilde;es Sul-Norte (Withol de Wenden, 2012), o respetivo regime de vigil&acirc;ncia fronteiri&ccedil;a altera-se, no entanto, em fun&ccedil;&atilde;o de quem se apresenta &agrave; passagem. Consoante o perfil e a dire&ccedil;&atilde;o de quem migra, as fronteiras s&atilde;o mais abertas ou fechadas, assim produzindo e reproduzindo presen&ccedil;as legais ou clandestinas nos territ&oacute;rios em defesa desta alteridade frequentemente associada &agrave; ideia de “invas&atilde;o”, “amea&ccedil;a”, “contamina&ccedil;&atilde;o”.</i></p>     <p><i>&Eacute; neste complexo tecido de diferen&ccedil;as culturais, entre aut&oacute;ctones e estrangeiros, que a quest&atilde;o da subjetividade e intersubjetividade no entendimento destas migra&ccedil;&otilde;es &eacute; mais perniciosa. Mas &eacute; tamb&eacute;m a&iacute; que podemos antever, ou melhor, imaginar, poss&iacute;veis exerc&iacute;cios de di&aacute;logo e interculturalidade capazes de ensinar, a um lado e outro da fronteira, o respeito, a aceita&ccedil;&atilde;o e a conviv&ecirc;ncia pac&iacute;fica. </i></p>     <p><i>Um tal exerc&iacute;cio n&atilde;o pode ignorar um outro, mais diacr&oacute;nico do que sincr&oacute;nico, mais hist&oacute;rico do que cultural, de consciencializa&ccedil;&atilde;o do sil&ecirc;ncio constru&iacute;do e mantido ao longo do tempo, sobre as rela&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o material e simb&oacute;lica do velho continente, sobre os povos origin&aacute;rios do Sul do mundo, muito particularmente do continente africano. Esse duplo exerc&iacute;cio, aliado &agrave; no&ccedil;&atilde;o da n&atilde;o neutralidade da linguagem e da comunica&ccedil;&atilde;o (a l&iacute;ngua fala-nos, a cultura situa-nos), e ainda da perce&ccedil;&atilde;o (moldada pela l&iacute;ngua e cultura), constituem para n&oacute;s o necess&aacute;rio ponto de partida para uma reflex&atilde;o s&eacute;ria e aprofundada sobre os desafios colocados aos estudos migrat&oacute;rios pelas atuais migra&ccedil;&otilde;es do Sul rumo &agrave; Europa. Assim, se tentarmos desenhar os mapas dos v&aacute;rios contornos desta Europa – que se abre ao mundo para globalizar a sua cultura e os seus interesses, mas que se fecha ao mesmo para evitar a entrada dos “aculturados localizados da globaliza&ccedil;&atilde;o”, ou localizados globalizados &agrave; procura do territ&oacute;rio europeu para trabalhar –, encontraremos diversas contradi&ccedil;&otilde;es e paradoxos, que &eacute; importante identificar e nomear.</i></p>     <p><i>De facto, o mapa da Europa n&atilde;o &eacute; apenas um: os limites territoriais do continente europeu apenas desenham o respetivo mapa geogr&aacute;fico. Por sua vez, a organiza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica no interior deste espa&ccedil;o geogr&aacute;fico tra&ccedil;a fronteiras geopol&iacute;ticas diferentes das territoriais; as diferentes culturas e l&iacute;nguas existentes no territ&oacute;rio indicam v&aacute;rios pa&iacute;ses, regi&otilde;es e zonas lingu&iacute;sticas que n&atilde;o coincidem necessariamente com as fronteiras nacionais, antes expandindo os pa&iacute;ses (como no caso da Europa franc&oacute;fona) ou dividindo-os (como nos casos de It&aacute;lia e Espanha). Tamb&eacute;m podemos desenhar mapas temporais (pr&eacute;&shy; e p&oacute;s-imp&eacute;rios coloniais, pr&eacute;&shy; e p&oacute;s-Segunda Guerra Mundial ou queda do Muro de Berlim); tal como ainda podemos tra&ccedil;ar mapas econ&oacute;mico-financeiros de separa&ccedil;&atilde;o entre ricos e pobres</i><i>; </i><i>e mapas cognitivos de separa&ccedil;&atilde;o entre globalizadores e globalizados do espa&ccedil;o p&oacute;s- e neocolonial.</i></p>     <p><i>O espa&ccedil;o Schengen fez estender as fronteiras da Europa para o sul e leste do continente. Como refere Etienne Balibar (2007), as fronteiras da Europa n&atilde;o coincidem hoje com o seu espa&ccedil;o f&iacute;sico, encontrando-se mais a sul, em Marrocos, na Maurit&acirc;nia, no Senegal, no deserto do Saara, em Cabo-Verde, ou mais a leste, na fronteira oriental da Turquia, da Gr&eacute;cia e no Ir&atilde;o. Tal como no quadro “Le&otilde;es e cordeiros” de Salvador Dal&iacute;, onde vemos as imagens dos rel&oacute;gios derreter, os limites desta Europa deformam o espa&ccedil;o de partida, tra&ccedil;ando fronteiras protecionistas fora do lugar protegido. Estas t&ecirc;m a particularidade de separar o mundo que se diz civilizado e desenvolvido, do mundo julgado de incivilizado e subdesenvolvido. A Ag&ecirc;ncia Europeia de Gest&atilde;o das Fronteiras Externas – Frontex, que gere este espa&ccedil;o securitizado, alimenta um verdadeiro “neg&oacute;cio da xenofobia”, utilizando os termos de Claire Rodier (2012).</i></p>     <p><i>Essas fronteiras separam um mundo pobre, de bairros da lata, de doen&ccedil;as e desemprego, de viol&ecirc;ncias e viola&ccedil;&otilde;es, de prepot&ecirc;ncias e ditaduras, de um outro mundo supostamente rico, democr&aacute;tico, defensor de direitos fundamentais como a educa&ccedil;&atilde;o, sa&uacute;de, habita&ccedil;&atilde;o e participa&ccedil;&atilde;o c&iacute;vica. Por essa raz&atilde;o, as fronteiras n&atilde;o cessam de ser transpostas por migrantes que tentam o “El Dorado”. Esta palavra &eacute;, ali&aacute;s, recorrente nos testemunhos pessoais dos protagonistas destas migra&ccedil;&otilde;es. Testemunhos esses posteriormente aproveitados para divulgar a ideia de que n&atilde;o vale a pena vir para a Europa. Um caso recente ocorreu no Reino Unido, onde o governo lan&ccedil;ou uma campanha publicit&aacute;ria anti-imigra&ccedil;&atilde;o dizendo: “No Reino Unido chove e faz frio. N&atilde;o venham para c&aacute;.”</i></p>     <p><i>A express&atilde;o “El Dorado” est&aacute; para a imigra&ccedil;&atilde;o no Ocidente como a express&atilde;o “Descobrimentos” est&aacute; para a emigra&ccedil;&atilde;o dos primeiros europeus em terras amer&iacute;ndias. Um equ&iacute;voco primordial batiza cada uma destas palavras. Mas apesar de equivocadas, ambas as imagens t&ecirc;m perdurado no tempo e constru&iacute;do um imagin&aacute;rio que continua a alimentar falsas ideias sobre as migra&ccedil;&otilde;es Sul-Norte. O que as duas express&otilde;es traduzem de verdadeiro, isso sim, &eacute; a perspetiva dos europeus sobre a chegada aos outros continentes e as suas sempre eternas ambi&ccedil;&otilde;es de conquista e riqueza material. A chamada globaliza&ccedil;&atilde;o, por sua vez, traduz esta vers&atilde;o da hist&oacute;ria em detrimento da vers&atilde;o dos globalizados a Sul. Ela traduz o imagin&aacute;rio globalizador mesmo quando incorporado no imagin&aacute;rio dos globalizados que, assim, buscam a miragem. Da&iacute; que uma reflex&atilde;o te&oacute;rica cr&iacute;tica da globaliza&ccedil;&atilde;o permita captar a complexidade dos fen&oacute;menos a&iacute; envolvidos e a disparidade dos interesses que nela se confrontam:  </i></p>     <p>    <blockquote><i>Aquilo a que chamamos globaliza&ccedil;&atilde;o &eacute; sempre a globaliza&ccedil;&atilde;o bem&shy;-sucedida de determinado localismo. Por outras palavras, n&atilde;o existe condi&ccedil;&atilde;o global para a qual n&atilde;o consigamos encontrar uma raiz local, uma imers&atilde;o cultural espec&iacute;fica. [...] seria igualmente correcto definir a presente situa&ccedil;&atilde;o e os nossos t&oacute;picos de investiga&ccedil;&atilde;o em termos de localiza&ccedil;&atilde;o, em vez de globaliza&ccedil;&atilde;o. (Santos, 2004: 334)</i></blockquote></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>O entendimento das migra&ccedil;&otilde;es Sul-Norte em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; Europa, neste sentido, &eacute; um entendimento local globalizado e normalizado pela lei de restri&ccedil;&atilde;o de passagem pela fronteira e pelo discurso do senso comum. Da&iacute; que a linguagem do filme document&aacute;rio e de fic&ccedil;&atilde;o seja mais eficaz na tomada de conhecimento dos complexos fen&oacute;menos em causa e na sensibiliza&ccedil;&atilde;o para a necessidade de se repensarem compromissos e decis&otilde;es.</i></p>     <p><i>Ap&oacute;s a trag&eacute;dia de Lampedusa que, em 3 e 11 de outubro de 2013, se saldou na morte por naufr&aacute;gio de mais de 600 migrantes, um conjunto de organiza&ccedil;&otilde;es da sociedade civil iniciou um processo de constitui&ccedil;&atilde;o de uma alternativa &agrave;s atuais pol&iacute;ticas migrat&oacute;rias de vis&atilde;o mais securit&aacute;ria. Essa din&acirc;mica plasmou-se num documento – A Carta de Lampedusa –, apresentado em fevereiro de 2014, no qual se defende uma verdadeira mudan&ccedil;a paradigm&aacute;tica na interven&ccedil;&atilde;o que subjaz ao fen&oacute;meno migrat&oacute;rio: fim do mecanismo de vigil&acirc;ncia, acionado pela ag&ecirc;ncia europeia Frontex; liberdade total de circula&ccedil;&atilde;o; fim das fronteiras; regulariza&ccedil;&atilde;o de todos os migrantes e o seu acesso aos direitos sociais, culturais, econ&oacute;micos e pol&iacute;ticos.</i></p>     <p><i>Aqu&eacute;m e al&eacute;m de uma reflex&atilde;o sobre as quest&otilde;es de legalidade destas migra&ccedil;&otilde;es Sul-Norte, organizou-se no Centro de Estudos Sociais, em Coimbra, em 2011, um ciclo de cinema e debates intitulado “Migra&ccedil;&otilde;es Clandestinas”, o qual est&aacute; na origem do presente dossier. Assim, a partir do olhar do cinema documental e de fic&ccedil;&atilde;o, suscitou-se uma discuss&atilde;o cr&iacute;tica e sens&iacute;vel, dos conte&uacute;dos substantivos, subjetivos e intersubjetivos desta realidade vivida de forma oposta do lado de c&aacute; e do lado de l&aacute; das fronteiras. O ciclo de cinema e debates foi composto de sete filmes, os quais abordaram a consist&ecirc;ncia das fronteiras, sejam elas f&iacute;sicas ou simb&oacute;licas, e a for&ccedil;a da vontade em ultrapass&aacute;&shy;las. Cada filme foi comentado e debatido de forma cr&iacute;tica, por refer&ecirc;ncia ao contexto que deu origem &agrave; narrativa cinematogr&aacute;fica.  </i></p>     <p><i>Sobre as migra&ccedil;&otilde;es clandestinas o cinema permite um outro olhar: por um lado distante da sobriedade da argumenta&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica que aborda as quest&otilde;es com a frieza das suas concetualiza&ccedil;&otilde;es; por outro lado, sem o pudor da exibi&ccedil;&atilde;o da express&atilde;o humana das mis&eacute;rias do mundo, das vulnerabilidades de uns e prepot&ecirc;ncia de outros. Em cen&aacute;rios reais, em que todos s&atilde;o convertidos em atores, e onde a realidade &eacute; ampliada pelo zoom das c&acirc;maras, a argumenta&ccedil;&atilde;o cinematogr&aacute;fica permite questionar a adequa&ccedil;&atilde;o da linguagem usualmente utilizada para designar quem deixa as suas fam&iacute;lias, comunidades e pa&iacute;ses de origem, efetivamente mais pr&oacute;xima de uma situa&ccedil;&atilde;o de fuga do que de migra&ccedil;&atilde;o. Ou, para designar os comportamentos dos agentes de autoridade europeia e do Norte de &Aacute;frica, mais pr&oacute;ximos da ofensa e ataque do que da seguran&ccedil;a e respeito por quem se encontra em situa&ccedil;&atilde;o de maior vulnerabilidade.</i></p>     <p><i>Este dossier, do qual se faz aqui a apresenta&ccedil;&atilde;o, resultou do ciclo de cinema e debates sobre as migra&ccedil;&otilde;es clandestinas, de um conjunto de textos produzidos tendo como preocupa&ccedil;&atilde;o o tema em causa, e ainda da necessidade de se produzir conhecimento sobre estas migra&ccedil;&otilde;es e da urg&ecirc;ncia social em se falar sobre o assunto. O dossier inicia-se com um artigo de Fabrice Schurmans onde se aborda a rela&ccedil;&atilde;o entre o cinema e as migra&ccedil;&otilde;es, seguido por um outro artigo de Iside Gjergji, no qual se analisa a express&atilde;o hist&oacute;rica, pol&iacute;tica e social do Mediterr&acirc;neo como lugar de migra&ccedil;&otilde;es. O dossier &eacute; ainda composto pelo conjunto das sinopses dos filmes e dos respetivos coment&aacute;rios que constitu&iacute;ram o ciclo de cinema, terminando com uma entrevista a Pierre Delagrange, camaron&ecirc;s, ativista dos direitos dos migrantes em Marrocos. </i></p>     <p><i>Como no complexo jogo de espelhos das c&acirc;maras que invertem as imagens, tamb&eacute;m as migra&ccedil;&otilde;es clandestinas s&atilde;o o reflexo invertido das migra&ccedil;&otilde;es convencionais. Esse reflexo n&atilde;o resulta apenas da ilegalidade que lhe &eacute; atribu&iacute;da, da express&atilde;o pol&iacute;tica que lhe &eacute; inerente, mas essencialmente das consequ&ecirc;ncias humanas que lhe est&atilde;o associadas. &Eacute; destes reflexos que trata o presente dossier. </i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Balibar, &Eacute;tienne (2007), <i>Tr&egrave;s loin et tout pr&egrave;s: petite conf&eacute;rence sur la fronti&egrave;re</i>. Paris: Bayard.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000031&pid=S2182-7435201400030000500001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Castles, Stephen (2000), “International Migration at the Beginning of the Twenty-First Century: Global Trends and Issues”, <i>International Social Science Journal</i>, 52(165), 269-281.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000033&pid=S2182-7435201400030000500002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Mann, Itamar (2013), “Dialectic of Transnationalism: Unauthorized Migration and Human Rights”, <i>Harvard International Law Journal</i>, 54(2), 315-391.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000035&pid=S2182-7435201400030000500003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Rodier, Claire (2012), <i>X&eacute;nophobie business, a quoi servent les contr&ocirc;les migratoires</i>. Paris: La D&eacute;couverte.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000037&pid=S2182-7435201400030000500004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Santos, Boaventura de Sousa (2004), <i>Reconhecer para libertar</i>. Porto, Afrontamento.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000039&pid=S2182-7435201400030000500005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Withol de Wenden, Catherine (2012), <i>Atlas des migrations: un &eacute;quilibre mondial &agrave; inventer</i>. Paris: Autrement.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000041&pid=S2182-7435201400030000500006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p> </html>     ]]></body>
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