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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>DOSSIER</b></p>     <p><b>Ciclo de cinema e debates “Migra&ccedil;&otilde;es clandestinas”: Sinopses e coment&aacute;rios</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Carlos Nolasco* e Elsa Lechner**</b></p>     <p>* Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Col&eacute;gio de S. Jer&oacute;nimo, Largo D. Dinis, Apartado 3087, 3000-995 Coimbra, Portugal <a href="mailto:cmsnolasco@ces.uc.pt">cmsnolasco@ces.uc.pt</a></p>     <p>** Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Col&eacute;gio de S. Jer&oacute;nimo, Largo D. Dinis, Apartado 3087, 3000-995 Coimbra, Portugal <a href="mailto:elsalechner@ces.uc.pt">elsalechner@ces.uc.pt</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Elsa Lechner e Carlos Nolasco s&atilde;o respons&aacute;veis pela organiza&ccedil;&atilde;o deste documento, que conta com a colabora&ccedil;&atilde;o dos seguintes comentadores: Ant&oacute;nio Sousa Ribeiro, Catarina Martins, Fabrice Schurmans, K&aacute;tia Cardoso, Khalid Fekhari, Maria Jos&eacute; Canelo, Silvia Rodr&iacute;guez Maeso.</p>     <p>O ciclo de cinema e debates “Migra&ccedil;&otilde;es clandestinas” resultou do olhar perplexo sobre estes fluxos e da necessidade de os entender: o que faz com que algu&eacute;m se meta dentro de um fr&aacute;gil bote e tente atravessar o mar, sabendo antecipadamente que a possibilidade de sucesso dessa viagem &eacute; muito reduzida? Quem s&atilde;o os homens e mulheres que empreendem esta odisseia? Que mundo &eacute; este onde tudo circula, das imagens &agrave;s mercadorias, dos capitais a algumas pessoas (essencialmente turistas ou indiv&iacute;duos altamente qualificados), mas onde os desapossados da globaliza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o podem movimentar-se? Que mundo &eacute; este onde a Declara&ccedil;&atilde;o Universal dos Direitos do Homem no n.&ordm; 2 do artigo 13.&ordm; diz que “toda a pessoa tem o direito de abandonar o pa&iacute;s em que se encontra, incluindo o seu”, mas depois n&atilde;o afirma o direito de entrada num outro pa&iacute;s?</p>     <p>Por considerarmos que estas quest&otilde;es simples n&atilde;o podiam deixar de ser refletidas, e essencialmente n&atilde;o podiam passar sem ser denunciadas, tomou-se a iniciativa de organizar um ciclo de cinema e debates sobre migra&ccedil;&otilde;es clandestinas. Por isso tamb&eacute;m se assume que esta &eacute; uma iniciativa emocionada e comprometida. Comprometida com o desespero de quem quer passar fronteiras, com a aus&ecirc;ncia de direitos de quem quer imigrar, com a exclus&atilde;o e o encobrimento destas vidas. Emocionada com dimens&atilde;o humana implicada na odisseia de cada uma das viagens empreendida.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O ciclo de cinema come&ccedil;ou com o cad&aacute;ver de um rapaz marroquino resgatado das &aacute;guas do Mediterr&acirc;neo. Mais um desse n&uacute;mero incont&aacute;vel de pessoas que olham desde T&acirc;nger para a m&iacute;tica Europa, que esperam a oportunidade de seguir em barcos surrealistas, numa viagem alucinante. S&atilde;o muitas as formas de se morrer nestas viagens: afogados na imensid&atilde;o do mar; desidratados pela inclem&ecirc;ncia dos c&eacute;us; sufocados com as cabe&ccedil;as enfiadas em sacos de pl&aacute;stico; esmagados pela mec&acirc;nica de cami&otilde;es.</p>     <p>O rapaz marroquino morreu afogado junto &agrave; costa de Espanha. Tamb&eacute;m Bilal, o jovem curdo iraquiano de 17 anos, <i>[not] Welcome</i> em Fran&ccedil;a nem em Inglaterra, morreu afogado ao tentar atravessar o Canal da Mancha a nado. Os 39 africanos, que tentam chegar num miser&aacute;vel <i>cayuco</i> da costa da Maurit&acirc;nia &agrave;s Ilhas Can&aacute;rias, com um <i>Destino clandestino</i>, n&atilde;o se afogaram pela divina provid&ecirc;ncia de um telefone por sat&eacute;lite.</p>     <p>Por isso, quando do lado de l&aacute; da fronteira se olha para o “condom&iacute;nio fechado” da Europa de Schengen, ou para a Am&eacute;rica do Norte barricada no seu <i>Wall</i> fronteiri&ccedil;o, o olhar torna-se apreensivo e os sil&ecirc;ncios religiosos. Bilal desesperou pelo seu amor do outro lado do mar, e por isso se lan&ccedil;ou nessa fronteira l&iacute;quida que o engoliu. O desespero torna-se raz&atilde;o. E a quest&atilde;o &eacute; simples de se colocar: <i>Partir ou mourir</i>? Partir ou morrer, mesmo sabendo que a possibilidade de se morrer na viagem &eacute; muito grande. Partir ou morrer, mesmo sabendo que o s&iacute;tio para onde se parte os pode encerrar e maltratar como em <i>La forteresse</i>.</p>     <p>Os sete filmes exibidos entre 23 de mar&ccedil;o e 12 de julho de 2011, no ciclo de cinema e debates “Migra&ccedil;&otilde;es clandestinas”, narraram epis&oacute;dios desta odisseia. <i>Les passeurs</i> de La&euml;titia Moreau, <i>Tanger: le r&ecirc;ve des br&ucirc;leurs</i> de Le&iuml;ka Kilar&iacute;, <i>Destino clandestino</i> de Dominique Mollard, <i>The Wall</i> de Viva Zapata Productions, <i>Welcome</i> de Philippe Lioret, <i>Partir ou mourir</i> de Rodrigo Saez e <i>La forteresse</i> de Fernand Melgar foram os filmes exibidos. Os coment&aacute;rios a cada um dos filmes foram efetuados por Silvia Rodr&iacute;guez Maeso, Khalid Fekhari, Catarina Martins, Maria Jos&eacute; Canelo, Fabrice Schurmans, K&aacute;tia Cardoso e Ant&oacute;nio Sousa Ribeiro, a quem agradecemos a forma como se disponibilizaram para colaborar connosco, bem como a pertin&ecirc;ncia e riqueza dos seus coment&aacute;rios.</p>     <p>As interven&ccedil;&otilde;es de cada comentador chamam a aten&ccedil;&atilde;o para as estrat&eacute;gias narrativas desenvolvidas nos filmes, para as mensagens de cada narrativa, para os contextos sociais de cada filme, para a realidade concreta de cada uma das vidas filmadas, para as din&acirc;micas entre o centro e a periferia, para os argumentos pol&iacute;ticos, para os ditames jur&iacute;dicos, para os imperativos econ&oacute;micos, para os fundamentos culturais e para a eros&atilde;o da moral.</p>     <p>&Agrave; medida que estes filmes se foram sucedendo, a comunica&ccedil;&atilde;o social foi dando conta das transposi&ccedil;&otilde;es n&atilde;o autorizadas de fronteiras. Estas fronteiras s&atilde;o as linhas radicais de que fala Boaventura de Sousa Santos, quando se refere ao pensamento abissal:</p>     <p>    <blockquote>As linhas radicais dividem a realidade social em dois universos distintos: o universo ‘deste lado da linha’ e o universo ‘do outro lado da linha’. A divis&atilde;o &eacute; tal que ‘o outro lado da linha’ desaparece enquanto realidade, torna-se inexistente, e &eacute; mesmo produzido como inexistente. Inexist&ecirc;ncia significa n&atilde;o existir sob qualquer forma de ser relevante ou compreens&iacute;vel (2007: 3 e 4).<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a></blockquote></p>     <p>Os migrantes que transp&otilde;em essa fronteira abissal, e que passam do universo do lado de l&aacute; para o universo do lado de c&aacute;, ganham a estranha consist&ecirc;ncia da opacidade. Como diz Mano Chao, <i>Mi vida la dej&eacute; / Entre Ceuta y Gibraltar / Soy una raya en el mar / Fantasma en la ciudad / Mi vida va prohibida / Dice la autoridad.</i></p>     <p>Foi com Mano Chao que come&ccedil;ou este ciclo de cinema, com um pequeno filme onde ele, a prop&oacute;sito do campo de reten&ccedil;&atilde;o de migrantes de Calamocarro, pr&oacute;ximo de Ceuta, diz que “a&iacute; p&aacute;ra-se a migra&ccedil;&atilde;o, as pessoas n&atilde;o podem passar. E quando se param as migra&ccedil;&otilde;es n&atilde;o &eacute; bom, porque as migra&ccedil;&otilde;es s&atilde;o como um rio, e se o rio se estanca, a &aacute;gua apodrece”.<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a> Esta frase representa integralmente as pretens&otilde;es da organiza&ccedil;&atilde;o deste ciclo de cinema. Em seguida apresentam-se breves fichas t&eacute;cnicas dos filmes exibidos, as respetivas sinopses e os argumentos apresentados pelos comentadores.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>***</p>     <p><b>T&iacute;tulo:<i>Les passeurs</i></p></b>     <p><b>Realiza&ccedil;&atilde;o:    </b>La&euml;titia Moreau <b>Ano:     </b>2003 <b>Origem: </b>Fran&ccedil;a <b>Dura&ccedil;&atilde;o:            </b>110 minutos <b>G&eacute;nero:  </b>Document&aacute;rio</p>     <p>&nbsp;</p>    <p><b>Sinopse</p></b>     <p>O filme documenta o caminho inverso daqueles que desde a costa marroquina anseiam por chegar a Espanha. Narra o percurso do cad&aacute;ver de um jovem marroquino, Aziz de 24 anos, morto por afogamento no Mediterr&acirc;neo em 14 de julho de 2003, que desde a costa espanhola &eacute; conduzido pela funer&aacute;ria at&eacute; &agrave; sua terra natal para que o funeral seja feito pela sua fam&iacute;lia. Este &eacute; o trabalho de Mart&iacute;n e &Aacute;ngel Zamora, dois irm&atilde;os que em Algeciras, numa ag&ecirc;ncia funer&aacute;ria, se dedicam a identificar os corpos dos jovens falecidos, informar as fam&iacute;lias, tratar das formalidades e fazer o repatriamento dos restos mortais de homens e mulheres para as rec&ocirc;nditas aldeias marroquinas. Os <i>passeurs</i> de que trata este filme n&atilde;os s&atilde;o os traficantes de seres vivos que facilitam a passagem do Sul para o Norte, mas os passadores de gente morta e recolhida no mar, que de Norte para Sul conduzem os corpos at&eacute; &agrave;s suas fam&iacute;lias.</p>     <p>Na longa viagem f&uacute;nebre desenha-se uma rota de migra&ccedil;&otilde;es clandestinas, percorrida por milhares de indiv&iacute;duos. Quando o corpo de Aziz chega &agrave; sua aldeia, j&aacute; de noite, familiares e amigos choram-no. Chora-se o destino de Aziz, mas tamb&eacute;m o destino de todos aqueles que at&eacute; ao momento pereceram na viagem e de todos os que nela se aventurar&atilde;o a seguir. No vel&oacute;rio, os amigos de Aziz insistem, “n&atilde;o h&aacute; escolha”, o caminho da migra&ccedil;&atilde;o &eacute; a alternativa, acentuando com dramaticidade de vida e morte um percurso de destino incerto.</p>     <p>&nbsp;</p>    <p><b>Coment&aacute;rio de Silvia Rodr&iacute;guez Maeso</p></b> <b><i>Les passeurs:</i> a den&uacute;ncia como despolitiza&ccedil;&atilde;o ou a encena&ccedil;&atilde;o do sofrimento/ da empatia</b>     <p>Uma primeira descri&ccedil;&atilde;o geral do document&aacute;rio <i>Les passeurs</i> (La&euml;titia Moreau, 2003) – coprodu&ccedil;&atilde;o franco-su&iacute;&ccedil;a-belga – poderia ser feita com base em tr&ecirc;s elementos: a) o seu objetivo, b) a estrat&eacute;gia narrativa escolhida e c) a sua operacionaliza&ccedil;&atilde;o.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>a)      O document&aacute;rio procura denunciar o que acontece no processo de “migra&ccedil;&atilde;o clandestina” – neste caso atravessar o estreito de Gibraltar que divide o Norte de &Aacute;frica, e mais concretamente Marrocos, da costa espanhola – mostrando o que rotineiramente tem acontecido a milhares de jovens que morrem afogados na tentativa de alcan&ccedil;ar os “bordes” da Europa e o sofrimento dos seus familiares. Uma grande parte destas mortes ficam no anonimato e os corpos s&atilde;o enterrados em fossas comuns na cidade de Algeciras.</p>     <p>b)      A estrat&eacute;gia narrativa &eacute; dupla: por um lado, o olhar e a experi&ecirc;ncia dos espanh&oacute;is – dos trabalhadores da empresa funer&aacute;ria que fazem a translada&ccedil;&atilde;o do corpo dos migrantes falecidos – como “espectadores morais” do sofrimento das fam&iacute;lias marroquinas, simultaneamente num esfor&ccedil;o por as ajudar; por outro lado o do olhar dos jovens marroquinos que relatam/justificam o porqu&ecirc; do seu desejo de emigrar, apesar do previs&iacute;vel final a que est&atilde;o destinados – a morte.</p>     <p>c)      Esta estrat&eacute;gia &eacute; operacionalizada mediante a narra&ccedil;&atilde;o em “tempo real” dos preparativos e da traslada&ccedil;&atilde;o/do regresso do corpo do jovem falecido de Algeciras &agrave; pequena aldeia em Marrocos, utilizando assim a efic&aacute;cia do impressionismo e do naturalismo das emo&ccedil;&otilde;es; e a apresenta&ccedil;&atilde;o num cen&aacute;rio <i>ad hoc</i>, uma esp&eacute;cie de grupo de discuss&atilde;o, das declara&ccedil;&otilde;es dos potenciais migrantes – jovens marroquinos que visam cruzar o estreito.</p>     <p>&Eacute; na inter-rela&ccedil;&atilde;o destes tr&ecirc;s aspetos que <i>Les passeurs</i> constr&oacute;i a den&uacute;ncia como uma <i>quest&atilde;o</i> <i>moral</i> que impossibilita a produ&ccedil;&atilde;o de uma narrativa pol&iacute;tica de liga&ccedil;&atilde;o entre a experi&ecirc;ncia a n&iacute;vel micro, marcada pela morte – geralmente an&oacute;nima – dos que tentam alcan&ccedil;ar os “bordes” da Europa, e os limites da legalidade/ilegalidade que determinam a emigra&ccedil;&atilde;o de cidad&atilde;os de chamados “pa&iacute;ses terceiros”, no &acirc;mbito dos mecanismos de regula&ccedil;&atilde;o/controlo da Uni&atilde;o Europeia e dos Estados-membros. Esta situa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e os seus contornos raciais s&atilde;o mais um pressuposto naturalizado ao longo do document&aacute;rio do que um conflito pol&iacute;tico sobre o qual se interroga; a den&uacute;ncia &eacute; portanto um relato humanista/humanit&aacute;rio no qual “os migrantes” s&atilde;o v&iacute;timas (seres dolentes) ou reprodutores dos gestos que recentram a “Europa” como projeto pol&iacute;tico – <i>i.e</i>. como lugar <i>desejado</i>.</p> <b>“O privil&eacute;gio da solidariedade”:<sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a> os espanh&oacute;is/europeus como “espectadores morais”</b>     <p>Podemos ler na sinopse que a produtora oferece do document&aacute;rio o seguinte:</p>     <p>    <blockquote>Nos &uacute;ltimos cinco anos, cerca de 4000 imigrantes clandestinos, a maior parte marroquinos, morreram afogados na tentativa de atravessar o estreito de Gibraltar. <i>Comovidos por estes terr&iacute;veis destinos</i>, dois irm&atilde;os, Mart&iacute;n e &Aacute;ngel Zamora, <i>puseram a sua empresa ao servi&ccedil;o dos defuntos</i>. Identificam os corpos, avisam as fam&iacute;lias, tratam das formalidades e repatriam os restos destes homens e mulheres para as suas aldeias, as mais rec&ocirc;nditas de Marrocos.  Eles s&atilde;o os mediadores (<i>les passeurs</i>) entre os mortos e os vivos, recolhendo os seus corpos perdidos e permitindo aos familiares e chegados come&ccedil;ar o seu luto<i>. Atrav&eacute;s do seu trabalho e do seu longo caminho vai</i><i>-se desenhando pouco a pouco a hist&oacute;ria destes an&oacute;nimos que arriscam tudo para vir trabalhar para a Europa.</i> (it&aacute;lico da autora)<sup><a href="#4">4</a></sup><a name="top4"></a>  </blockquote></p>     <p>&Eacute; portanto evidente que no document&aacute;rio, os cidad&atilde;os espanh&oacute;is, brancos, donos da empresa funer&aacute;ria, s&atilde;o os principais atores da hist&oacute;ria, entendida como uma hist&oacute;ria da “humaniza&ccedil;&atilde;o” de uma trag&eacute;dia que acontece no quotidiano mas que, geralmente, fica no anonimato dos corpos dos migrantes afogados. Parece-me crucial aqui apontar que o problem&aacute;tico n&atilde;o reside no privilegiar do olhar dos espanh&oacute;is, mas precisamente no paradigma narrativo/interpretativo que &eacute; veiculado: &eacute; mediante os gestos e a&ccedil;&otilde;es “humanit&aacute;rias” dos espanh&oacute;is (a sua “como&ccedil;&atilde;o” perante estes acontecimentos) que os “outros” etnicamente marcados – os migrantes “clandestinos” e as suas fam&iacute;lias – adquirem “humanidade” (saem do anonimato). Os cidad&atilde;os espanh&oacute;is s&atilde;o “espectadores morais” no sentido dado por Boltanski (2007) na an&aacute;lise das l&oacute;gicas narrativas do humanitarismo, que incluem n&atilde;o s&oacute; a descri&ccedil;&atilde;o do sofrimento dos <i>desafortunados</i> mas tamb&eacute;m do espectador que o observa. &Eacute; uma narrativa moral da solidariedade e da empatia transmitida sobre a premissa de estes valores humanos (entendidos como universais) n&atilde;o estarem sujeitos &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es do poder e ao privil&eacute;gio das situa&ccedil;&otilde;es hist&oacute;rico-pol&iacute;ticas. Neste enquadramento, os ‘outros’ s&atilde;o seres dolentes reduzidos ao seu sofrimento, capturado pelas c&acirc;maras que partem da perspetiva do olhar dos espanh&oacute;is que os observam – como por exemplo no momento de reconhecimento do corpo do falecido pelo seu tio, e quando o ve&iacute;culo chega &agrave; aldeia e os familiares e vizinhos, sobretudo as mulheres e a sua m&atilde;e, gritam desconsoladamente ao tempo em que um dos espanh&oacute;is no ve&iacute;culo exclama “que situa&ccedil;&atilde;o lixada…!”.<sup><a href="#5">5</a></sup><a name="top5"></a>  </p> <b>A Europa: objeto de desejo e <i>dilema moral</i></b>     <p>Depois de 19 horas de viagem, como confirma um dos condutores do ve&iacute;culo, na chegada &agrave; aldeia, de noite, assim como no decurso do resto do document&aacute;rio, encena-se uma representa&ccedil;&atilde;o <i>clich&eacute;</i> do “outro lado” – a origem da viagem dos “migrantes clandestinos” – como espa&ccedil;o n&atilde;o ocidental, de uma ruralidade “rec&ocirc;ndita” onde os jovens est&atilde;o retidos. A narrativa desenvolve-se pelo lugar-comum de questionar os jovens – alguns dos quais j&aacute; tentaram no passado migrar – o porqu&ecirc; da sua inten&ccedil;&atilde;o de migrar, ainda que conhecendo os perigos, reproduzindo assim relatos sobre os “sonhos” de uma vida melhor e a “curiosidade” pela Europa. A pobreza, o atraso – “n&atilde;o h&aacute; nada que fazer aqui” – s&atilde;o, no enquadramento do document&aacute;rio, os definidores de uma “situa&ccedil;&atilde;o” (um pressuposto n&atilde;o questionado) do que a migra&ccedil;&atilde;o tenta superar, colocando assim a Europa como objeto de desejo. </p>     <p>Nesta encena&ccedil;&atilde;o a escolha da narrativa &eacute;, de certo modo, patente, pois alguns dos argumentos captados pelas c&acirc;maras v&atilde;o para al&eacute;m da hist&oacute;ria do desejo de supera&ccedil;&atilde;o, como nestes dois exemplos seguintes: “Antes [de 1999] o pessoal preferia sair dentro da legalidade, agora querem sair por todos os meios”; “Se o Estado desse trabalho, ningu&eacute;m partiria, as pessoas ficariam nos seus pa&iacute;ses e seriam livres; n&atilde;o como na Europa, onde podes ser explorado, ser tratado como um animal”. O contexto das medidas pol&iacute;ticas de regula&ccedil;&atilde;o e controlo da migra&ccedil;&atilde;o dos “pa&iacute;ses terceiros” como geradoras da “clandestinidade” e o questionamento de uma ideia da Europa como espa&ccedil;o de liberdade e prosperidade poderiam ter sido o fio condutor desta viagem de “regresso”. <i>Les passeurs</i> opta, pelo contr&aacute;rio, pela formula&ccedil;&atilde;o de um dilema moral: a Europa produz a ilegalidade (o “migrante clandestino”), ao mesmo tempo que se constr&oacute;i como o &uacute;nico espa&ccedil;o de “prosperidade” real para os “outros” <i>ilegalizados</i>. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>Les passeurs </i>reproduz um enquadramento narrativo que faz parte de um paradigma euroc&ecirc;ntrico de produ&ccedil;&atilde;o da imigra&ccedil;&atilde;o – e os seus contornos raciais, n&atilde;o ditos mas presentes – como “problema”, sedimentado desde a d&eacute;cada de 50 do s&eacute;culo passado e que tem adquirido contornos mais ou menos espec&iacute;ficos nos contextos do Sul da Europa nas &uacute;ltimas duas d&eacute;cadas – nos chamados “novos pa&iacute;ses de imigra&ccedil;&atilde;o”. Este paradigma &eacute; forjado mediante a <i>despolitiza&ccedil;&atilde;o</i>, entendida como um processo que nos impede de interrogar as fontes dos problemas pol&iacute;ticos, isto &eacute;, de interrogar as hist&oacute;rias e as rela&ccedil;&otilde;es de poder que os constituem (Brown, 2006) e que portanto protege determinados privil&eacute;gios de serem questionados. Um dos sintomas da despolitiza&ccedil;&atilde;o &eacute; a produ&ccedil;&atilde;o de narrativas de den&uacute;ncia sob a forma de quest&otilde;es morais que derivam numa discuss&atilde;o sobre as “boas” ou as “m&aacute;s” inten&ccedil;&otilde;es dos que est&atilde;o situados do lado do privil&eacute;gio, ficando aqueles no “outro lado” simultaneamente como <i>recetores</i> dessa “boa vontade” – do exerc&iacute;cio dos valores <i>universais –, </i>como eventuais protagonistas de hist&oacute;rias de “supera&ccedil;&atilde;o pessoal”, ou como seres dolentes. </p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias bibliogr&aacute;ficas </b>Boltanski, Luc (2007), <i>La souffrance &agrave; distance</i>. Paris: Gallimard [ed. orig.: 1993]. Boutledja, Houria (2010), “As mulheres brancas e o privil&eacute;gio da Solidariedade”, interven&ccedil;&atilde;o no IV Congresso Internacional sobre feminismo isl&acirc;mico, Madrid: 21-24 de outubro.Consultado a 10.06.2012, em <a href="http://www.decolonialtranslation.com/portugues/as-mulheres-brancas-eo-privilegio-de-solidariedade.html" target="blank">http://www.decolonialtranslation.com/portugues/as-mulheres-brancas-eo-privilegio-de-solidariedade.html</a>. Brown, Wendy (2006), <i>Regulating Aversion. Tolerance in the Age of Identity and Empire</i>. Princeton, New Jersey: Princeton University Press.</p>     <p>***</p>     <p><b>T&iacute;tulo: <i>Tanger, le r&ecirc;ve des br&ucirc;leurs</i></p></b>     <p><b>Realiza&ccedil;&atilde;o:    </b>Le&iuml;la Kilani <b>Ano:     </b>2002 <b>Origem: </b>Fran&ccedil;a <b>Dura&ccedil;&atilde;o:            </b>53 minutos <b>G&eacute;nero:  </b>Document&aacute;rio</p>     <p>&nbsp;</p>    <p><b>Sinopse</p></b>     <p>O filme tem como cen&aacute;rio a cidade de T&acirc;nger, cidade janela para o Mediterr&acirc;neo, cidade fronteira para os que a ela chegam, cidade miradouro para a miragem europeia. A cidade &eacute; habitada por marroquinos, malianos, senegaleses, mauritanos e outros que subiram &Aacute;frica acima e que, retidos pela fronteira de &aacute;gua mediterr&acirc;nea, olham para a linha de terra espanhola l&aacute; ao longe. Estes s&atilde;o os <i>br&ucirc;leurs</i>, e <i>br&ucirc;leur</i> &eacute; aquele que est&aacute; disposto a tudo para partir, aquele que est&aacute; pronto a queimar o seu passado, a sua identidade, os seus documentos, para tornar essa partida irrevers&iacute;vel, sem regresso. Partir, mais do que uma fantasia &eacute; uma obsess&atilde;o. T&acirc;nger &eacute; assim um lugar e um tempo onde os destinos individuais e as hist&oacute;rias coletivas se encontram.</p>     <p>Le&iuml;la Kilani, a realizadora, segue o percurso de alguns desses indiv&iacute;duos, tornando vis&iacute;vel o seu territ&oacute;rio pessoal e coletivo. Recusa a imagem jornal&iacute;stica que trata os migrantes clandestinos como v&iacute;timas de circunst&acirc;ncias que os transcendem, e procura atrav&eacute;s da narrativa est&eacute;tica retratar a obsess&atilde;o, o sonho que se tornou uma esp&eacute;cie de transcend&ecirc;ncia quase metaf&iacute;sica e que empurra esses indiv&iacute;duos para a epopeia da travessia. Segundo Kilani, na geografia intemporal de T&acirc;nger h&aacute; a for&ccedil;a do sonho que d&aacute; coragem para desafiar a fronteira, tornando os indiv&iacute;duos her&oacute;is. Em T&acirc;nger h&aacute; uma fronteira f&iacute;sica, mas a miragem da Europa do outro lado do Mediterr&acirc;neo torna esta uma fronteira on&iacute;rica.</p>     <p>&nbsp;</p>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Coment&aacute;rio de Khalid Fekhari</p></b>     <p>Correndo o risco de um certo exibicionismo ou egocentrismo, nesta minha interven&ccedil;&atilde;o n&atilde;o irei proceder a um coment&aacute;rio no sentido acad&eacute;mico do termo, mas apenas partilhar algumas notas e reflex&otilde;es sucintas suscitadas pelo filme <i>Tanger, le r&ecirc;ve des br&ucirc;leurs. </i> </p>     <p>Perante o t&iacute;tulo-tema, e tendo em conta que a realidade em quest&atilde;o (emigra&ccedil;&atilde;o clandestina) &eacute;, no plano pol&iacute;tico local, extremamente sens&iacute;vel, obrigando assim quem pretende relatar o mesmo a uma abordagem espec&iacute;fica e um posicionamento claro, a expectativa inicial era de ver um filme document&aacute;rio, um relato do real. Ora estamos perante algo de at&iacute;pico: por um lado, a realizadora Le&iuml;la Kilani, historiadora de forma&ccedil;&atilde;o, refere o “trabalho de escrita” e a “est&eacute;tica da obsess&atilde;o e da espera” como se de fic&ccedil;&atilde;o se tratasse;<sup><a href="#6">6</a></sup><a name="top6"></a> por outro lado, a ess&ecirc;ncia e din&acirc;mica do filme remetem claramente para um “testemunho” vivencial, um “relato” do real. </p>     <p>O filme relata essencialmente a espera de tr&ecirc;s candidatos &agrave; emigra&ccedil;&atilde;o a salto: Denis, Abdelaziz e Rhimou. Tr&ecirc;s protagonistas, tr&ecirc;s hist&oacute;rias diferentes e um objetivo comum: a emigra&ccedil;&atilde;o, sob o risco da morte. Eis a t&oacute;nica do filme que, de forma “diplom&aacute;tica”, reduz toda a complexidade das causas da emigra&ccedil;&atilde;o clandestina dos jovens marroquinos e africanos a uma expeditiva nota: “mis&eacute;ria e seca”.</p>     <p>Ao mesmo tempo, uma voz <i>off</i>, personifica&ccedil;&atilde;o do aut&oacute;ctone – percet&iacute;vel pelo sotaque –, o <i>Tangerois</i>, lastima consistentemente a invas&atilde;o de T&acirc;nger pelos <i>herragas </i>(candidatos &agrave; emigra&ccedil;&atilde;o clandestina), emporcalhando-a. Um discurso chauvinista e nost&aacute;lgico de tempos “m&iacute;ticos” e imagin&aacute;rios<sup><a href="#7">7</a></sup><a name="top7"></a> que apresenta o Outro (campon&ecirc;s, berbere e, no caso presente, candidato &agrave; emigra&ccedil;&atilde;o) como respons&aacute;vel pelos efeitos negativos do espantoso crescimento das cidades marroquinas durante o s&eacute;culo passado. </p>     <p>As sequ&ecirc;ncias do filme relativas aos subsarianos candidatos &agrave; emigra&ccedil;&atilde;o, em particular o momento da ora&ccedil;&atilde;o coletiva, s&atilde;o, para o antrop&oacute;logo que sou, momentos de grande “felicidade”, n&atilde;o s&oacute; porque me aproximam de uma realidade por mim desconhecida, mas tamb&eacute;m por serem, sen&atilde;o “aut&ecirc;nticos”, pelo menos de grande intensidade, at&eacute; porque retratam a situa&ccedil;&atilde;o dos emigrantes candidatos &agrave; imigra&ccedil;&atilde;o, aqueles que se encontram entre o aqui e o al&eacute;m.</p>     <p>Enquanto o caso de Denis d&aacute; a conhecer uma realidade que eu, pessoalmente, desconhecia (ao contr&aacute;rio de Abdelaziz que, em suma, &eacute; representativo de algo mais difundido e que observei junto de jovens marroquinos que imigraram ilegalmente para Portugal, passando por Espanha), o caso de Rhimou &eacute; at&iacute;pico a v&aacute;rios n&iacute;veis. Primeiro por se tratar de uma mulher, adulta, acompanhada de um beb&eacute; e um companheiro, que parece ser a empreendedora do projeto de emigra&ccedil;&atilde;o (atendendo &agrave; realidade sociocultural marroquina, a imigra&ccedil;&atilde;o clandestina &eacute; essencialmente de homens jovens) e que usufrui dos rendimentos (200 ou 300€ mensais) de um parque de estacionamento (a t&iacute;tulo comparativo, o sal&aacute;rio m&iacute;nimo, em Marrocos, &eacute; de cerca de 180€, e o de um professor em in&iacute;cio de carreira &eacute; de 350€).</p>     <p>Embora tenha a compet&ecirc;ncia cultural pr&oacute;pria de quem conhece uma sociedade por viv&ecirc;ncia e/ou como objeto de estudo, n&atilde;o me &eacute; poss&iacute;vel localizar Rhimou no quadrante sociocultural marroquino. Talvez a compet&ecirc;ncia cultural seja insuficiente; no entanto, o caso de Rhimou est&aacute; claramente em desfasamento com os restantes protagonistas do filme. </p>     <p>Embora o filme n&atilde;o pretenda nem a exaustividade nem a representatividade, a resposta &agrave; pergunta: ser&aacute; o filme representativo da imigra&ccedil;&atilde;o clandestina? &eacute; negativa, j&aacute; que refere apenas uma das suas m&uacute;ltiplas configura&ccedil;&otilde;es.</p>     <p>De facto, as vias da imigra&ccedil;&atilde;o ilegal variam desde o recurso a um falso contrato de trabalho, que permite ter um visto e imigrar pela “grande porta”, atravessando “legalmente” as fronteiras mediante o pagamento de um valor que ronda os 7000€, at&eacute; &agrave; imigra&ccedil;&atilde;o propriamente clandestina por meio de esquemas “seguros”, isto &eacute; clandestinamente escondido algures num autocarro ou num cami&atilde;o (mediante o pagamento de cerca de 5000€), ou ainda viajando por mar numa lancha, com um risco importante de morte (via cujo custo &eacute;, obviamente, menor, de aproximadamente 1000€).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A mais-valia do filme reside no facto de mostrar (mais) uma configura&ccedil;&atilde;o da imigra&ccedil;&atilde;o clandestina: aqueles que t&ecirc;m de inventar o(s) meio(s) para emigrar. Assim, Abdelaziz escrutina as formalidades de despejo dos caixotes de lixo dos <i>ferries</i>, barcos que assumem a travessia de Gibraltar, a fim de encontrar a falha que lhe permitir&aacute; materializar o seu sonho, concretizar a desejada viagem para a Europa. No entanto, em nenhum momento, ou quase, s&atilde;o referidos: a) os circuitos, as organiza&ccedil;&otilde;es, os traficantes e as redes; b) o duplo jogo da pol&iacute;tica interna marroquina relativa &agrave; emigra&ccedil;&atilde;o (n&atilde;o obstante as inten&ccedil;&otilde;es declaradas e at&eacute; mesmo os acordos celebrados sob press&atilde;o do Ocidente, a emigra&ccedil;&atilde;o &eacute; uma importante fonte numer&aacute;ria e de investimento no pa&iacute;s); c) os mecanismo de atra&ccedil;&atilde;o, nomeadamente a imagem destorcida que os emigrantes transmitem quando regressam de f&eacute;rias, exibindo certas riquezas materiais de forma ostentat&oacute;ria, propositadamente ou n&atilde;o, participando assim na constru&ccedil;&atilde;o de uma ilus&atilde;o.</p>     <p>De referir tamb&eacute;m que certas imagens ilustrativas da “obsess&atilde;o e da espera”, nomeadamente as dos rapazes sentados num caf&eacute;, presumivelmente virado para o mar, me parecem dissonantes, no sentido em que vejo nelas mais “a cultura do caf&eacute;” do que a espera da passagem para a outra margem.    </p>     <p>Deste modo, no meu entender, o filme esconde mais do que mostra. Ao resumir as causas da migra&ccedil;&atilde;o clandestina &agrave; seca, esconde “os maus da fita”. Ao centrar-se naqueles que t&ecirc;m de inventar os meios para migrar, esconde todas as outras configura&ccedil;&otilde;es, que em muitos casos beneficiam de duvidosas cumplicidades. Ao centrar-se nos objetivos e na determina&ccedil;&atilde;o para os alcan&ccedil;ar, esconde as trajet&oacute;rias e os mecanismos que participam na constru&ccedil;&atilde;o destes mesmos objetivos. Afinal, quem &eacute; Rhimou e quem &eacute; Abdelaziz?</p>     <p>Apesar do ceticismo das notas anteriores, o filme aponta uma pista a explorar para quem procura entender o fen&oacute;meno em quest&atilde;o: “a emigra&ccedil;&atilde;o (de) aventura”.</p>     <p><i>Lehrigue</i>, isto &eacute; “queimar as fronteiras”, emigrar clandestinamente, &eacute; antes de mais um desafio. Assim, um dos intervenientes sublinha que, conseguindo chegar &agrave; outra margem, n&atilde;o importa ser apanhado e reconduzido &agrave; fronteira: basta pisar a terra do outro lado. Um desafio que vive da masculinidade (j&aacute; que, como &eacute; referido no filme, <i>at&eacute; as raparigas hoje conseguem emigrar clandestinamente</i>) edos seus “atributos”: lidar com o imprevisto, arriscar e persistir, s&atilde;o os trunfos de quem embarca na aventura de <i>lehrigue.</i></p>     <p>***</p>     <p><b>T&iacute;tulo: <i>Destinos clandestinos</i></p></b>     <p><b>Realiza&ccedil;&atilde;o:    </b>Dominique Mollard <b>Ano:     </b>2009 <b>Origem: </b>Espanha <b>Dura&ccedil;&atilde;o:            </b>90 minutos <b>G&eacute;nero:  </b>Document&aacute;rio</p>     <p>&nbsp;</p>    <p><b>Sinopse</p></b>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Dominique Mollard &eacute; um jornalista franc&ecirc;s que ao longo de dois anos tentou documentar a viagem dos migrantes clandestinos da costa africana para a Europa. Estabeleceu contacto com redes de tr&aacute;fico humano na Maurit&acirc;nia, conseguindo finalmente embarcar num <i>cayuco</i> e acompanhar a aventura de 39 migrantes africanos com destino &agrave;s Can&aacute;rias. Munido de c&acirc;maras de v&iacute;deo, alguma comida, um telefone por sat&eacute;lite e sem gui&atilde;o pr&eacute;vio, Mollard conta na primeira pessoa a experi&ecirc;ncia dos migrantes clandestinos para conseguir espa&ccedil;o na embarca&ccedil;&atilde;o, o in&iacute;cio da viagem, o percurso e o destino de quem fica &agrave; deriva em mar alto. <i>Destinos clandestinos</i> relata a hist&oacute;ria dessa viagem, a pior das viagens imaginadas.</p>     <p>Tudo se inicia algures na costa da Maurit&acirc;nia, a 800 quil&oacute;metros de dist&acirc;ncia, e com uma expetativa de 5 dias de viagem. No pequeno espa&ccedil;o do barco, Mollard fica pr&oacute;ximo do motor, junto dos “capit&atilde;es” que mandam no <i>cayuco</i>. As imagens mostram um amontoado de pessoas tapadas por um oleado, numa embarca&ccedil;&atilde;o que avan&ccedil;a mar adentro, subindo e descendo ondas. Quase todos est&atilde;o nauseados, outros com fome, e o cansa&ccedil;o acumula-se. A meio da viagem percebem que foram enganados porque os reservat&oacute;rios de combust&iacute;vel afinal cont&ecirc;m &aacute;gua. Na terceira noite ficam &agrave; deriva, pois os motores deixaram de funcionar. Como diz Mollar, toda a viagem se pode resumir a uma hist&oacute;ria de esfor&ccedil;o, sofrimento, trai&ccedil;&otilde;es, amizade e solidariedade.</p>     <p>Documento &uacute;nico, hiper-realista, narra a epopeia de milhares de africanos que, numa luta que vai para l&aacute; da sua dimens&atilde;o humana, enfrentam a morte em busca de uma vida em territ&oacute;rio europeu. Uma viagem que resume a lenta agonia do suic&iacute;dio de &Aacute;frica.</p>     <p>&nbsp;</p>    <p><b>Coment&aacute;rio de Catarina Martins</p></b>     <p>&Eacute; dif&iacute;cil avaliar o document&aacute;rio <i>Destinos clandestinos</i> de Dominique Mollard sem que dessa aprecia&ccedil;&atilde;o resulte uma inevit&aacute;vel ambival&ecirc;ncia. &Eacute; um filme elogiado pela cr&iacute;tica, com justi&ccedil;a, pois o documentarista coloca-se numa situa&ccedil;&atilde;o inaudita e corajosa, ao enfrentar, com um grupo de 38 imigrantes clandestinos, os perigos do Atl&acirc;ntico numa embarca&ccedil;&atilde;o prec&aacute;ria, desvendando, assim, o espa&ccedil;o e o tempo que sempre ficam invis&iacute;veis nas not&iacute;cias destas viagens de imigra&ccedil;&atilde;o, das quais conhecemos, atrav&eacute;s da imprensa ou relat&oacute;rios, quase sempre somente os resultados, nunca a viv&ecirc;ncia da viagem propriamente dita. Mollard deve ser, por isso, elogiado por abordar com coragem e numa perspetiva humana e solid&aacute;ria as perplexidades que provocam, no p&uacute;blico ocidental, em particular europeu, os sil&ecirc;ncios sobre as travessias do oceano por parte de clandestinos. Mollard mostra como &eacute; entrar no mar numa canoa de fortuna, pagando com o risco ou com a realidade da morte o sonho do eldorado europeu. O facto de ele pr&oacute;prio subir a bordo de uma piroga, tornando-se, com a sua c&acirc;mara, numa testemunha direta, e as imagens e os relatos que nos transmite s&atilde;o, de facto, a vertente mais impressionante do trabalho de Mollard.</p>     <p>O realizador e jornalista d&aacute;-nos identidades, rostos e hist&oacute;rias para sobrepor aos n&uacute;meros de imigrantes clandestinos naufragados ou malogrados, que comp&otilde;em as not&iacute;cias. D&aacute;-nos, tamb&eacute;m, o concreto: a fragilidade das canoas perante a viol&ecirc;ncia do mar e as ondas; a desorienta&ccedil;&atilde;o, a escurid&atilde;o, a sede, a fome e o abandono; a doen&ccedil;a, o cansa&ccedil;o, a solid&atilde;o; o barulho dos motores e do casco contra as ondas impede a comunica&ccedil;&atilde;o, e a necessidade de sobreviv&ecirc;ncia torna cada um dos migrantes rival dos restantes; a estreiteza dos “camarotes”, ou seja, dos poucos cent&iacute;metros de que cada viajante disp&otilde;e, a aus&ecirc;ncia de privacidade, a falta de espa&ccedil;o para os movimentos, que acaba por paralisar o corpo e tolher a mente. Mollard mostra-nos o medo, o p&acirc;nico, a impot&ecirc;ncia de quem coloca a vida nas m&atilde;os da transcend&ecirc;ncia, mas tamb&eacute;m, paradoxalmente, mostra-nos a coragem e o &uacute;ltimo resqu&iacute;cio de esperan&ccedil;a de quem se entrega a um jogo de vida ou morte, porque h&aacute; muito deixou de esperar. Mostra-nos os que sucumbem e os que, nesta fronteira extrema, revelam a mais admir&aacute;vel for&ccedil;a e a mais profunda humanidade, como o timoneiro camaron&ecirc;s, altivo e seguro como um mastro enfrentando as vagas, ou o mestre-escola do Burkina Faso que sai de um reduto mudo para dar de beber aos companheiros. E sempre a ternura e a coragem inabal&aacute;vel da jovem m&atilde;e congolesa, que afinal enfrenta o combate pela vida do seu beb&eacute;, quando, tamb&eacute;m paradoxalmente, o faz embarcar numa aventura talvez fatal.</p>     <p>&Eacute; a capacidade de aproximar o espectador desta dimens&atilde;o humana que distingue o document&aacute;rio de Mollard. Esta abordagem, por&eacute;m, comporta alguns riscos de leitura. Se o perigo de vida que o jornalista enfrentou para conferir realidade e humanidade ao abstrato dos n&uacute;meros &eacute;, de facto, de assinalar, um dos riscos da sua op&ccedil;&atilde;o &eacute; que o filme seja interpretado da perspetiva da aventura e que seja o destino do jornalista e a sua coragem (porque, afinal, n&atilde;o precisava de ter embarcado) a assumir o primeiro plano. Penso que esta leitura acaba por acontecer, com alguma naturalidade, da parte de um p&uacute;blico ocidental que se identifica com o &uacute;nico branco a bordo, e que est&aacute; educado, nem que seja pela tradi&ccedil;&atilde;o cinematogr&aacute;fica hollywoodiana, a associar-se, atrav&eacute;s da empatia, a um “her&oacute;i” singular. Da mesma maneira, o relato que preenche o sil&ecirc;ncio (mesmo que barulhento) das imagens mon&oacute;tonas de tr&ecirc;s dias no mar comporta riscos &eacute;ticos, uma vez que a voz narrativa do jornalista e a sua interpreta&ccedil;&atilde;o do que v&ecirc; colam uma leitura pr&eacute;via &agrave;s imagens, a qual dirige inevitavelmente o olhar e o pensamento do espectador. E se esta leitura &eacute; solid&aacute;ria e de uma boa-f&eacute; inquestion&aacute;vel, evidentes, por exemplo, na admira&ccedil;&atilde;o pelas manifesta&ccedil;&otilde;es de coragem dos homens e mulheres que conheceu, n&atilde;o deixa de ser algo paternalista, quer em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s pessoas do filme, em concreto, quer em rela&ccedil;&atilde;o aos africanos – o “material humano riqu&iacute;ssimo” que o realizador sublinha no coment&aacute;rio final, na entrevista com a apresentadora da TVE que enquadra o document&aacute;rio.</p>     <p>O que mais perturba, por&eacute;m, e cria o sentimento de ambival&ecirc;ncia, &eacute; o cariz pouco mais que impression&iacute;stico dos apontamentos sobre as hist&oacute;rias de vida e os percursos das pessoas que Mollard escolhe acompanhar como exemplos de destinos clandestinos. Ou seja, seria preciso conhecer muito mais das hist&oacute;rias e dos contextos de vida de Cheila, Cheikh ou Sulei, por exemplo, para dar resposta &agrave; perplexidade maior do p&uacute;blico europeu sens&iacute;vel a estas quest&otilde;es – e n&atilde;o &eacute; a quest&atilde;o do “como” se faz esta migra&ccedil;&atilde;o possivelmente fatal, mas do “porqu&ecirc;” do correr deste risco. Isto &eacute;, que raz&otilde;es podem conduzir a enfrentar, aparentemente sem sentido, uma morte mais que prov&aacute;vel. &Eacute; certo que Mollard nos mostra o depoimento pungente de Sulei sobre a sua recusa em morrer na extrema pobreza em que nasceu. &Eacute; certo que, atrav&eacute;s de v&aacute;rios testemunhos, menciona o sofrimento provocado pela guerra, a desilus&atilde;o relativa aos pol&iacute;ticos das d&eacute;cadas p&oacute;s-coloniais, a den&uacute;ncia da corrup&ccedil;&atilde;o, de popula&ccedil;&otilde;es abandonadas a si mesmas e sem quaisquer perspetivas de futuro. &Eacute; certo que contrasta tudo isto com o teimoso sonho europeu de um jovem que recobre as paredes da sua barraca de her&oacute;is desportivos e musicais de um mundo que n&atilde;o &eacute; o seu, sugerindo, de algum modo, as consequ&ecirc;ncias da globaliza&ccedil;&atilde;o na dissemina&ccedil;&atilde;o de determinados modos e <i>standards</i> de vida, com um <i>glamour</i> que, como sabemos, n&atilde;o corresponde ao real, e que n&atilde;o deixam de ter grande relev&acirc;ncia no impulso para a migra&ccedil;&atilde;o. &Eacute; certo ainda que nos confronta com a acusa&ccedil;&atilde;o aberta do racismo que motiva o fechamento de fronteiras perante um Outro que &eacute; visto como amea&ccedil;a – por isso Sulei afirma, com uma pung&ecirc;ncia que deveria funcionar, para cada um dos espectadores ocidentais, como uma facada na consci&ecirc;ncia, que os migrantes n&atilde;o querem fazer mal algum aos europeus, apenas ter meios para construir algo nos respetivos pa&iacute;ses, rejeitando a etiqueta de criminosos e aproveitadores que &eacute; colada aos imigrantes na Europa. E &eacute; ainda certo que, desta feita mesmo muito ao de leve, surge a acusa&ccedil;&atilde;o da explora&ccedil;&atilde;o de que o continente africano foi (&eacute;) objeto por parte da Europa, o qual mereceria uma compensa&ccedil;&atilde;o. Falta, por&eacute;m, o aprofundamento de tudo isto – que n&atilde;o passa de pequenos apontamentos – de modo a criar uma verdadeira inteligibilidade dos motivos desta migra&ccedil;&atilde;o para a morte (se &eacute; que esta inteligibilidade &eacute; poss&iacute;vel de alcan&ccedil;ar com um tipo de abordagem exclusivamente l&oacute;gica), e a assun&ccedil;&atilde;o de uma posi&ccedil;&atilde;o mais pol&iacute;tica. Nesta perspetiva, h&aacute;, mais uma vez, a tend&ecirc;ncia para uma sobreposi&ccedil;&atilde;o do registo da “aventura” do “her&oacute;i” Mollard, quando &eacute; dada prefer&ecirc;ncia a sequ&ecirc;ncias, filmadas por uma c&acirc;mara oculta, que mostram as negocia&ccedil;&otilde;es efetuadas pelo jornalista com as “m&aacute;fias” que organizam estas viagens, de modo a poder subir a bordo de uma das pirogas. A espera de Mollard acaba por surgir, aos olhos do espectador ocidental, como tendo um peso maior do que a espera dos pr&oacute;prios emigrantes – a qual, como se depreende do pr&oacute;prio document&aacute;rio (se bem que este, infelizmente, n&atilde;o se focalize sobre isto), &eacute;, na maioria dos casos, caracterizada por dura&ccedil;&otilde;es, situa&ccedil;&otilde;es de prova&ccedil;&atilde;o, de exclus&atilde;o, de sofrimento e mis&eacute;ria, e de ang&uacute;stia existencial &agrave;s quais devia ser dada visibilidade, pois tamb&eacute;m elas fazem parte do processo migrat&oacute;rio em causa, em diversas perspetivas: psicol&oacute;gica, sociol&oacute;gica, econ&oacute;mica, cultural.</p>     <p>Regresso, por&eacute;m, ao que me parece mais relevante: a posi&ccedil;&atilde;o mais pol&iacute;tica que o document&aacute;rio devia assumir. Esta teria de pronunciar, sem rebu&ccedil;o, as palavras colonialismo e neocolonialismo, o que jamais acontece, incluindo no debate final com a apresentadora da TVE, em que Mollard faz afirma&ccedil;&otilde;es de alguma ingenuidade ou cautela, inclusivamente no que diz respeito &agrave; chamada ajuda ao desenvolvimento, ou no coment&aacute;rio &agrave;s pol&iacute;ticas do Frontex, &agrave; Europa fortaleza. Se o filme interpela necessariamente o p&uacute;blico pela humanidade que oferece, pela interroga&ccedil;&atilde;o dos comportamentos humanos na situa&ccedil;&atilde;o limite entre a vida e a morte, e se a pergunta pelo porqu&ecirc; de tudo isto &eacute; inevitavelmente suscitada, a resposta, por&eacute;m, perde-se, quer na origem da viagem, porque os fios dos antecedentes n&atilde;o s&atilde;o suficientemente trabalhados, quer no final da mesma, pois os fios da hist&oacute;ria perdem-se tal como os clandestinos se espalham algures por Marrocos. Isto &eacute;, as suas hist&oacute;rias acabam por ficar aqu&eacute;m da Europa, que pode continuar a olh&aacute;-los de longe, como um problema que n&atilde;o &eacute; seu, do qual n&atilde;o &eacute; respons&aacute;vel. Falta sobretudo, a liga&ccedil;&atilde;o concreta a esta responsabilidade pol&iacute;tica e &eacute;tica, a qual n&atilde;o seria, certamente, dif&iacute;cil de estabelecer, refor&ccedil;ando, desta forma, a interpela&ccedil;&atilde;o da opini&atilde;o p&uacute;blica europeia.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&Eacute; certo que uma pequena reportagem f&iacute;lmica como o document&aacute;rio de Mollard n&atilde;o pode pretender esgotar temas t&atilde;o complexos como o colonialismo, o subdesenvolvimento, ou compreender, numa perspetiva econ&oacute;mica, pol&iacute;tica, sociol&oacute;gica, psicol&oacute;gica, filos&oacute;fica, existencial, o que significa a mis&eacute;ria. E que esta reportagem faz o que pode – suscitar estas quest&otilde;es, embora com as limita&ccedil;&otilde;es que mencionei. N&atilde;o vou entrar nestes assuntos, porque, como &eacute; evidente, dada a sua complexidade, faz t&atilde;o pouco sentido aqui como no espa&ccedil;o de um filme de uma hora.</p>     <p>Todavia, de um ponto de vista n&atilde;o sei se filos&oacute;fico, se amargamente ir&oacute;nico, gostaria apenas de refletir um pouco sobre como a viagem dos clandestinos nestas pirogas inverte, de algum modo, o motivo da viagem original das Descobertas, o momento inici&aacute;tico do colonialismo, em particular na vis&atilde;o muito especificamente portuguesa. As nossas narrativas heroicas t&ecirc;m como fundamental pedra de toque o combate (que aqui se recupera, at&eacute; na terminologia) com o mar, imensid&atilde;o que continha todos os perigos, tempestades e monstros. Venc&ecirc;-los, diz-nos Cam&otilde;es n’<i>Os Lus&iacute;adas</i>, &eacute; alcan&ccedil;ar estatuto sobre-humano, o qual, por&eacute;m, implica tamb&eacute;m a ideia de chegada a um porto, conquista de uma “nova” terra. Ora, o combate dos africanos com o mar redunda em tudo menos hero&iacute;smo, em tudo menos conquista, nem sequer em chegada. &Eacute; a recusa desta chegada, ou o seu car&aacute;cter clandestino, quando acontece, que transforma a viagem de expans&atilde;o, um mito de liberdade, crescimento, plenitude, numa pris&atilde;o intranspon&iacute;vel: o c&aacute;rcere paradoxal cujos muros n&atilde;o foram constru&iacute;dos no local de partida, mas no destino ambicionado; o c&aacute;rcere refor&ccedil;ado pelo sofrimento das tentativas sucessivas, dos enganos, das pris&otilde;es, dos repatriamentos, das not&iacute;cias de destinos clandestinos malogrados; o c&aacute;rcere mais profundo que &eacute; o da pr&oacute;pria condi&ccedil;&atilde;o – de v&iacute;tima de guerra, pobreza, mis&eacute;ria, marginaliza&ccedil;&atilde;o e opress&atilde;o racista. Tal como em tempos coloniais, esta condi&ccedil;&atilde;o continua a aparecer indissociavelmente fixada a uma geografia e a uma cor de pele – a africana negra –, por oposi&ccedil;&atilde;o a uma outra geografia e a uma outra cor de pele – a europeia branca –, que se naturaliza numa posi&ccedil;&atilde;o de superioridade, de opress&atilde;o, de explora&ccedil;&atilde;o, manifesta at&eacute; na liberdade de movimentos atrav&eacute;s das fronteiras, a qual refor&ccedil;a a humilha&ccedil;&atilde;o do africano, afinal ainda colonizado, e tantas vezes sofrendo ainda do complexo que Frantz Fanon diagnosticou h&aacute; j&aacute; quatro d&eacute;cadas, no indispens&aacute;vel ensaio “Peau noire, masques blancs”.</p>     <p>O que, afinal, perturba no document&aacute;rio de Mollard &eacute; a diferen&ccedil;a de condi&ccedil;&otilde;es entre o jornalista ocidental e os migrantes africanos, expressa na liberdade de que o primeiro faz uso quando entra na piroga, a liberdade que n&atilde;o t&ecirc;m os seus companheiros quando sobem a bordo da mesma embarca&ccedil;&atilde;o (para al&eacute;m, &eacute; claro, da tecnologia de que se mune para diminuir os riscos da viagem e que acaba por salvar todos os viajantes). &Eacute; evidente que a viagem constitui, para os clandestinos, uma escolha, mas uma escolha &agrave; qual um conjunto de fatores de diversa ordem, e que se conjugam na no&ccedil;&atilde;o de desespero decorrente do estatuto de neocolonizado, imp&otilde;e um cariz de necessidade. E esta necessidade, esta pris&atilde;o a uma indispens&aacute;vel busca, eventualmente fatal, da liberdade e de condi&ccedil;&otilde;es de sobreviv&ecirc;ncia, &eacute; que se torna dif&iacute;cil de compreender para o p&uacute;blico ocidental. Nesta vertente, o document&aacute;rio de Mollard, ao sobrepor a viagem pessoal do jornalista aos destinos dos clandestinos, fica aqu&eacute;m das expectativas. A m&aacute;scara de clandestino que Mollard ostenta s&oacute; deixa entrever a verdadeira pele desta condi&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>***</p>     <p><b>T&iacute;tulo: <i>The Wall</i></p></b>     <p><b>Realiza&ccedil;&atilde;o:           </b>Ricardo Martinez <b>Ano:   </b>2010 <b>Origem:          </b>EUA <b>Dura&ccedil;&atilde;o:        </b>78 minutos <b>G&eacute;nero:          </b>Document&aacute;rio</p>     <p>&nbsp;</p>    <p><b>Sinopse</p></b>     <p>Em 2006 o congresso norte-americano, com base na argumenta&ccedil;&atilde;o da guerra contra o tr&aacute;fico de drogas e do debate relativo &agrave; regulamenta&ccedil;&atilde;o das migra&ccedil;&otilde;es, aprovou o <i>The Secure Fence Act</i>, no qual se prop&otilde;e construir um muro com cerca de 1126 quil&oacute;metros de extens&atilde;o, ao longo da fronteira entre os Estados Unidos e o M&eacute;xico, com o prop&oacute;sito de controlar e regular as transa&ccedil;&otilde;es de estupefacientes e a circula&ccedil;&atilde;o pessoas. O muro foi constru&iacute;do por sec&ccedil;&otilde;es, come&ccedil;ando por cada uma das extremidades da fronteira e avan&ccedil;ando para o interior, sendo que em determinadas zonas nada foi constru&iacute;do, havendo como que um muro virtual.</p>     <p>Filmado ao longo de dois anos, <i>The Wall</i> documenta os problemas que a constru&ccedil;&atilde;o do muro suscitou no quotidiano dos que vivem na fronteira, o aumento de mortes de quem tenta atravessar a fronteira de forma clandestina, e os custos associados &agrave; vigil&acirc;ncia e manuten&ccedil;&atilde;o do muro. Narra a indigna&ccedil;&atilde;o dos que de repente se confrontam com a ordem de constru&ccedil;&atilde;o do muro no seu quintal. Relata o trabalho de vigil&acirc;ncia dos pol&iacute;cias que consideram que o muro devia ser maior, para maior efic&aacute;cia na conten&ccedil;&atilde;o dos fluxos fronteiri&ccedil;os. Conta o que representa o muro para os migrantes clandestinos e as estrat&eacute;gias imaginadas para o ultrapassar. Ricardo Martinez explora a complexa rela&ccedil;&atilde;o entre pol&iacute;cia e imigrantes, uns munidos da lei e ideologia, outros da sua condi&ccedil;&atilde;o e vontade, cada um de um dos lados do muro.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>    <p><b>Coment&aacute;rio de Maria Jos&eacute; Canelo</p></b>     <p>Realizado por Ricardo Martinez, este document&aacute;rio debru&ccedil;a-se sobre a constru&ccedil;&atilde;o de um muro na fronteira entre os Estados Unidos e o M&eacute;xico – um muro eufemisticamente designado, na linguagem das leis que legitima a sua constru&ccedil;&atilde;o, como ‘cerca’.</p>     <p>Esta ‘veda&ccedil;&atilde;o’ tem uma altura m&eacute;dia de seis metros e &eacute; feita de cerca de sete materiais de constru&ccedil;&atilde;o diferentes – incluindo bet&atilde;o; em algumas zonas, &eacute; rematado com arame farpado. Capitalizando na paranoia da seguran&ccedil;a que grassou no pa&iacute;s depois dos atentados de 11 de Setembro de 2001 (embora o refor&ccedil;o do policiamento da fronteira a Sul remonte &agrave; administra&ccedil;&atilde;o de Bill Clinton), a lei que autorizou a constru&ccedil;&atilde;o da ‘Secure Fence’ foi aprovada no Congresso em 2006, com votos favor&aacute;veis de republicanos e democratas. Barack Obama e Hillary Clinton, futuros candidatos presidenciais que moveram multid&otilde;es com a promessa de uma mudan&ccedil;a radical das pol&iacute;ticas de Bush, votaram ambos a favor da proposta. A ‘cerca’ previa a cobertura de 1130 quil&oacute;metros ao longo da fronteira entre os EUA e o M&eacute;xico, desde Brownsville, no Texas, at&eacute; San Diego e tinha um custo de 2 milhares de milh&otilde;es de d&oacute;lares.</p>     <p>O document&aacute;rio de Ricardo Martinez come&ccedil;a, por&eacute;m, com imagens da terra aberta, livre, a paisagem pura, limitada apenas pelas montanhas, numa moldura natural. E come&ccedil;o por chamar a aten&ccedil;&atilde;o para este aspeto, porque, naturalmente, a preponder&acirc;ncia do elemento visual &eacute; essencial para o entendimento de qualquer document&aacute;rio e, neste caso, a abertura com esta imagem cria uma expectativa importante em rela&ccedil;&atilde;o ao tema. A mim, fez-me esperar uma den&uacute;ncia da constru&ccedil;&atilde;o do muro, que invadir&aacute; sem direito a realidade livre ali exposta; por outras palavras, o filme come&ccedil;a com a codifica&ccedil;&atilde;o da fronteira como n&atilde;o fronteira, como espa&ccedil;o de liberdade.</p>     <p>A esta imagem da paisagem livre &eacute; justaposta outra: uma fenda funda, rasgada na terra. A minha leitura destas imagens n&atilde;o &eacute;, por&eacute;m, inocente; elas remeteram-me imediatamente para outras leituras e outras representa&ccedil;&otilde;es da fronteira entre os EUA e o M&eacute;xico, que tem sido alvo das mais variadas formas de esteticiza&ccedil;&atilde;o, desde a arte &agrave; m&uacute;sica e &agrave; literatura. Embora os EUA tenham duas fronteiras terrestres e a do Norte, com o Canad&aacute;, at&eacute; seja muito mais extensa, a fronteira a Sul tem sido de longe mais inspiradora em termos est&eacute;ticos, mais pol&eacute;mica, em termos pol&iacute;ticos e muito mais problem&aacute;tica, em termos sociais.</p>     <p>Foi essa hist&oacute;ria de representa&ccedil;&atilde;o da fronteira que eu reconheci: enquanto a imagem da terra pura entre os Estados Unidos e o M&eacute;xico me lembrou imediatamente a met&aacute;fora (feliz) do escritor mexicano Carlos Fuentes, o t&iacute;tulo da sua colet&acirc;nea de contos sobre a terra e as gentes da regi&atilde;o,<i> A fronteira de cristal</i> (1996), j&aacute; a imagem do rasg&atilde;o na terra imediatamente me trouxe &agrave; mem&oacute;ria <i>Borderlands, La frontera, </i>a obra h&iacute;brida da escritora, tamb&eacute;m de origem mexicana, Gloria Anzald&uacute;a (1987), respons&aacute;vel em larga parte pelo in&iacute;cio daquele que veio a ser designado como o discurso esteticizante da fronteira, mas evocativo tamb&eacute;m da viol&ecirc;ncia inerente &agrave; hist&oacute;ria que produziu a fronteira – e que Anzald&uacute;a mant&eacute;m viva na sua mistura desconcertante de l&iacute;nguas, culturas e mitos.</p>     <p>Claro que o document&aacute;rio aqui em quest&atilde;o fala do muro da fronteira; n&atilde;o da fronteira em si. Mas, tanto Carlos Fuentes como Gloria Anzald&uacute;a, nas imagens que para mim se sobrepuseram imediatamente &agrave;s primeiras cenas do document&aacute;rio, falam da fronteira como muro mesmo antes de o muro se ter materializado, mesmo antes de o muro ser uma hip&oacute;tese. O t&iacute;tulo de Fuentes denuncia a artificialidade desta fronteira: como ela foi imposta aos mexicanos, que teimaram todavia em continuar a ver a parte anexada aos EUA simplesmente como <i>El Norte </i>(do M&eacute;xico). A geografia, a l&iacute;ngua, as pessoas, a cultura, tinham sido subitamente atravessadas por uma linha pol&iacute;tica – mas esta era t&atilde;o-somente isso mesmo e n&atilde;o mudava a realidade substancialmente, portanto, era transparente, de vidro – como se n&atilde;o existisse… Mas existe; foi feita a ferro e fogo e continua a ferir: Anzald&uacute;a, representando essa hist&oacute;ria de forma pl&aacute;stica e subjetiva, chama-lhe <i>una herida abierta</i>, para manter viva a mem&oacute;ria da hist&oacute;ria que produziu a ilegalidade dos migrantes e sugerindo claramente, por um lado, que a imigra&ccedil;&atilde;o ‘ilegal’ se assemelha a uma hemorragia permanente, que as v&aacute;rias pol&iacute;ticas emigrat&oacute;rias dos EUA nunca conseguiram estancar; e, por outro, remetendo-nos para o ressentimento que persiste a Sul acerca dessa usurpa&ccedil;&atilde;o imperial, que, al&eacute;m de amputar o M&eacute;xico de quase metade do corpo da na&ccedil;&atilde;o, colonizou as popula&ccedil;&otilde;es de origem mexicana das zonas anexadas, humilhando-as com uma cidadania de faz-de-conta, que, efetivamente, fez delas estrangeiras na sua pr&oacute;pria casa.</p>     <p>Falamos certamente de uma mitologia da fronteira que se vem configurando desde 1848 e da guerra que originou essa divis&atilde;o entre as Am&eacute;ricas do Norte e do Sul. Curiosamente, e como o document&aacute;rio tamb&eacute;m referir&aacute;, a fronteira com o Canad&aacute;, tamb&eacute;m ela produto de guerras e outras formas de apropria&ccedil;&atilde;o de territ&oacute;rio, jamais inspirou tantos cuidados – como jamais inspirou uma mitologia semelhante &agrave; do Sul. Sem querer contribuir para o fundo de excecionalismo de que os EUA usam e abusam para justificar especialmente a sua a&ccedil;&atilde;o fora das suas fronteiras, &eacute; preciso ter em mente, todavia, que a fronteira com o M&eacute;xico tem a sua dose de excecionalidade. Isto, na medida em que n&atilde;o s&atilde;o comuns as fronteiras que separam pa&iacute;ses economicamente t&atilde;o d&iacute;spares: ela separa – ao mesmo tempo que coloca em contacto – o ‘terceiro ’ e o ‘primeiro’ mundos; separa o Norte rico de toda a Am&eacute;rica Central e do Sul ditas pobres ou subdesenvolvidas (salvo raras exce&ccedil;&otilde;es). Por isso &eacute; do Sul, da(s) terra(s) da desigualdade econ&oacute;mica tremenda, que v&ecirc;m os migrantes mais desesperados, aqueles que ainda acreditam que os  EUA s&atilde;o a terra prometida, aqueles que teimam na mitifica&ccedil;&atilde;o da fronteira como passagem para o eldorado.</p>     <p>Mas, embora este tenha sido o imagin&aacute;rio que eu mais rapidamente mobilizei, &agrave; medida que fui vendo, e lendo, o filme, a for&ccedil;a das imagens iniciais n&atilde;o perdurou. Elas n&atilde;o se conseguiram sobrepor a outros aspetos que acabaram por ter mais peso na representa&ccedil;&atilde;o que o document&aacute;rio vai construindo. O meu coment&aacute;rio vai pois no sentido de detetar as estrat&eacute;gias formais e de ret&oacute;rica que conduzem o argumento da constru&ccedil;&atilde;o do muro por caminhos que me surpreenderam ou contrariaram as minhas expectativas. Come&ccedil;o por assinalar a articula&ccedil;&atilde;o das narrativas dos v&aacute;rios intervenientes, em alguns casos, circular, que acaba n&atilde;o s&oacute; por colocar em evid&ecirc;ncia, mas por conferir coer&ecirc;ncia a uma dessas narrativas em particular, e que me levou a questionar qual era, afinal, a perspetiva privilegiada. &Eacute; um facto que a quest&atilde;o da imigra&ccedil;&atilde;o est&aacute; l&aacute;, mas a forma como &eacute; exposta denuncia outros pontos de vista e interesses que n&atilde;o necessariamente os do migrante.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O efeito final &eacute; que os testemunhos de cidad&atilde;os norte-americanos revelam um entendimento da constru&ccedil;&atilde;o do muro como um processo praticamente isolado em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s pol&iacute;ticas federais de imigra&ccedil;&atilde;o. As pessoas que partilham com o realizador a autoridade sobre esta ‘hist&oacute;ria’ consideram fundamentalmente a sua rela&ccedil;&atilde;o individual com a estrutura material do muro: seja a cerca alta que invade quintais e empreendimentos tur&iacute;sticos, seja o radar, a fronteira virtual, que amea&ccedil;a espreitar o interior do espa&ccedil;o dom&eacute;stico. &Eacute; o caso das hist&oacute;rias de Gloria e de Bob Lucio, do Texas, por um lado, e da comunidade de Arivaca, no Arizona, por outro (a quest&atilde;o ambiental, em Welasco, n&atilde;o deixa de ponderar quest&otilde;es locais tamb&eacute;m, mas, sendo de natureza ambiental, apresentam um caso ligeiramente diferente dos outros). Ao insinuar-se como o fio narrativo principal, o testemunho de Gloria acaba por sublinhar aquele que &eacute;, a meu ver, o argumento que sobressai do filme: a “privatiza&ccedil;&atilde;o” do projeto de constru&ccedil;&atilde;o do muro. A luta pol&iacute;tica que da&iacute; decorre acaba por entroncar assim numa tradi&ccedil;&atilde;o de individualismo e de defesa da propriedade que acrescentam contornos culturais &agrave; representa&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica do tema, neste document&aacute;rio.</p>     <p>A meu ver, a obra &eacute; bem-sucedida, de uma forma geral, na identifica&ccedil;&atilde;o e den&uacute;ncia de uma estrat&eacute;gia governamental que se pauta pelo atropelamento indiscriminado dos direitos de cada um, seja dos direitos humanos dos migrantes da Am&eacute;rica Latina, que querem cruzar a fronteira para trabalhar, seja dos direitos individuais dos cidad&atilde;os dos EUA, aqueles que est&atilde;o dentro da fronteira. Esta inten&ccedil;&atilde;o explica o foco no policiamento e na arquitetura pol&iacute;tica da imigra&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o &eacute;, portanto, que se esconda a realidade dura da fronteira e a xenofobia quotidiana, que move grupos como os dos ‘vigilantes’. Mas as estrat&eacute;gias formais e ret&oacute;ricas acabam por tornar secund&aacute;ria a experi&ecirc;ncia do migrante.</p>     <p>Esta escolha por cruzar a constru&ccedil;&atilde;o do muro (um projeto que, ali&aacute;s, se revestiu do maior secretismo, decorrendo sem consulta das comunidades) com a cruzada antiterrorista da seguran&ccedil;a nacional levada a cabo pelo Homeland Security Department coloca em evid&ecirc;ncia o efeito da constru&ccedil;&atilde;o do muro sobre os direitos individuais dos cidad&atilde;os, reduzindo a acess&oacute;ria a quest&atilde;o da imigra&ccedil;&atilde;o – o que o muro significa para os migrantes, ou o que os migrantes significam para os Estados Unidos, que se arroga a esta fortifica&ccedil;&atilde;o das suas fronteiras. Ou seja, esta op&ccedil;&atilde;o pelo foco nos direitos dos cidad&atilde;os invisibiliza a quest&atilde;o dos direitos humanos dos que est&atilde;o para l&aacute; do muro. Nos seus testemunhos, os habitantes das localidades visadas reduzem o problema a uma quest&atilde;o de viola&ccedil;&atilde;o dos seus direitos individuais, sejam de propriedade ou de privacidade, armando-se da ret&oacute;rica do esp&iacute;rito ‘Un-American’ da lei. O muro &eacute; reduzido a um inc&oacute;modo, que invade, sem direito, quintais e campos de golfe.</p>     <p>Nestes depoimentos obcecados com a legalidade, incomodou-me profundamente a aus&ecirc;ncia de uma perspetiva &eacute;tica ou de uma manifesta&ccedil;&atilde;o forte de responsabilidade ou solidariedade, enfim – para com quem vem do lado de l&aacute; e esbarra no muro; ou morre ao tentar transp&ocirc;-lo. Al&eacute;m da inutilidade manifesta de todo o projeto, como demonstram as autoridades em Nogales. Ao fim e ao cabo, a necessidade extrema inventa e inventar&aacute; sempre mil engenhos mais para furar o muro.</p>     <p>A quest&atilde;o que se me colocou ao longo do filme foi, de facto, que objetivos guiavam o debate e que metas ele efetivamente alcan&ccedil;a. A constru&ccedil;&atilde;o de uma obra p&uacute;blica desta envergadura tem origem na legisla&ccedil;&atilde;o federal – mas o cidad&atilde;o comum n&atilde;o tem voz sen&atilde;o nos estados onde o muro &eacute; erguido. A meu ver, esse &eacute; um dos aspetos que limita a discuss&atilde;o, porque os envolvidos privatizam o problema. Um leque mais alargado de testemunhos podia ter resultado numa perspetiva mais equilibrada do impacto da constru&ccedil;&atilde;o do muro na opini&atilde;o p&uacute;blica dos EUA. Gostava de ter ouvido, por exemplo, cidad&atilde;os da Calif&oacute;rnia, cuja economia &eacute; sustentada em larga parte pelo trabalho dos imigrantes latinos, legais e ilegais; como de outros estados da costa oeste, nos quais a imigra&ccedil;&atilde;o latina tamb&eacute;m &eacute; fundamental &agrave; economia; e cidad&atilde;os da costa Leste, por exemplo, de grandes cidades como Nova Iorque, onde o p&uacute;blico tende a ser mais bem informado. Parece-me tamb&eacute;m importante uma contextualiza&ccedil;&atilde;o do problema que trouxesse &agrave; cena outros aspetos menos conhecidos desta realidade, como a da espera dos cami&otilde;es das grandes propriedades agr&iacute;colas aos imigrantes-escravos que os <i>coyotes </i>de l&aacute; entregam aos <i>badajeros </i>de c&aacute;,para os conduzirem diretamente &agrave;s f&aacute;bricas e grandes propriedades, que os exploram sem defesa – porque n&atilde;o existem. Como gostava de ter visto alguma discuss&atilde;o de alternativas a estas pol&iacute;ticas de imigra&ccedil;&atilde;o, da possibilidade de programas de descriminaliza&ccedil;&atilde;o dos imigrantes, dos quais houve experi&ecirc;ncias no passado, como o programa <i>Bracero</i>, nos anos 40, que, por muitas defici&ecirc;ncias que tivesse, ainda ensina que &eacute; poss&iacute;vel pensar a imigra&ccedil;&atilde;o de formas dignas para os migrantes. Isto, se deixarmos completamente para tr&aacute;s a imagem inicial do document&aacute;rio…</p>     <p>&Eacute;, sem d&uacute;vida, galvanizadora a vit&oacute;ria da comunidade que denuncia o muro e consegue a suspens&atilde;o da constru&ccedil;&atilde;o, a associa&ccedil;&atilde;o No Border Wall, no Texas. Diz-nos que a uni&atilde;o faz a for&ccedil;a e que o muro n&atilde;o &eacute; uma fatalidade. Que os cidad&atilde;os americanos sabem lutar pelos seus direitos. Que ousam defrontar leis injustas e, com a raz&atilde;o e o direito do seu lado, vencer gigantes como o Departamento de Seguran&ccedil;a Interna. A respeito de solidariedade com comunidades n&atilde;o nacionais e do entendimento do problema da imigra&ccedil;&atilde;o como um problema sem fronteiras, &eacute; que nos diz muito pouco. “We are not loosing our land – it won’t affect us at all…” – as palavras vitoriosas de Gloria, ao ver alterado o trajeto do muro, desfazem qualquer d&uacute;vida que pudesse restar acerca da perspetiva dominante deste document&aacute;rio.</p>     <p>Ainda assim, parece-me um documento de coragem, no sentido de estimular o debate acerca das pol&iacute;ticas de imigra&ccedil;&atilde;o, ao expor a op&ccedil;&atilde;o da fortifica&ccedil;&atilde;o da na&ccedil;&atilde;o norte-americana – ao mesmo tempo que os EUA pregam contra a imoralidade de alguns dos outros muros da hist&oacute;ria ocidental. A constru&ccedil;&atilde;o do muro era e continua a ser desconhecida de uma grande parte dos cidad&atilde;os dos EUA.</p>     <p>***</p>     <p><b>T&iacute;tulo: <i>Welcome</i></p></b>     <p><b>Realiza&ccedil;&atilde;o:    </b>Phillippe Lioret <b>Int&eacute;rpretes:        </b>Audrey Dana, Derya Ayverdi, Firat Ayverdi, Karzan Sherabayani, Vincent Lindon <b>Ano:     </b>2009 <b>Origem: </b>Fran&ccedil;a <b>Dura&ccedil;&atilde;o:            </b>110 minutos <b>G&eacute;nero:  </b>Fic&ccedil;&atilde;o</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>    <p><b>Sinopse</p></b>     <p>Bilal &eacute; um jovem curdo de 17 anos, acabado de chegar a Calais depois de atravessar toda a Europa. Tem inten&ccedil;&atilde;o de continuar viagem, atravessar o Canal da Mancha, chegar a Londres e juntar-se &agrave; namorada que para l&aacute; emigrara com a fam&iacute;lia. Depois de uma tentativa frustrada de embarcar clandestinamente em dire&ccedil;&atilde;o a Inglaterra, e de perceber que n&atilde;o consegue aventurar-se da mesma forma que os outros utilizam, Bilal decide atravessar o Canal da Mancha a nado. Para o efeito tem algumas aulas de nata&ccedil;&atilde;o nas piscinas municipais de Calais. O professor de nata&ccedil;&atilde;o &eacute; Simon, que se apercebe da inten&ccedil;&atilde;o de Bilal e que progressivamente se vai envolvendo e emocionando com a hist&oacute;ria do jovem curdo. Simon tenta dissuadir Bilal, mostra-lhe os riscos que corre e a impossibilidade de a aventura ter sucesso. Ao mesmo tempo, e por dar abrigo a Bilal, Simon &eacute; denunciado pelos seus vizinhos por prestar apoio &agrave; migra&ccedil;&atilde;o clandestina, come&ccedil;ando a ter problemas com a pol&iacute;cia. At&eacute; que um dia Bilal desaparece, fez-se ao mar.</p>     <p><i>Welcome</i> &eacute; o t&iacute;tulo ir&oacute;nico de um filme que aborda o drama daqueles que n&atilde;o s&atilde;o bem recebidos, dos sem pap&eacute;is retidos em Calais, e da persegui&ccedil;&atilde;o aos que lhe prestam algum tipo de apoio. &Eacute; um filme que retrata o drama da migra&ccedil;&atilde;o clandestina, mas que mostra essencialmente a indiferen&ccedil;a, a falta de solidariedade, as restri&ccedil;&otilde;es legais impostas aos que querem receber bem.</p>     <p>&nbsp;</p>    <p><b>Coment&aacute;rio de Fabrice Schurmans</p></b>     <p>&Agrave; semelhan&ccedil;a de duas longas-metragens sensivelmente da mesma altura, <i>Gran Torino</i> (Eastwood, 2008) e <i>The Visitor (</i>Mc Carthy, 2007), o filme de Philippe Lioret fala dos imigrantes atrav&eacute;s de um intermedi&aacute;rio (Simon) que apresenta semelhan&ccedil;as com as personagens de Walt (<i>Gran Torino</i>) e de Walter (<i>The Visitor</i>). Os tr&ecirc;s homens, de meia-idade (Simon, Walter) ou j&aacute; na velhice (Walt), partilham a experi&ecirc;ncia da perda da mulher amada (o div&oacute;rcio para Simon, a morte da esposa para Walt e Walter), um quotidiano infeliz marcado pela repeti&ccedil;&atilde;o dos mesmos gestos e ainda uma certa tend&ecirc;ncia para o &aacute;lcool. &Eacute; neste momento de crise que surgem os Outros (Thao, Tarek e Bilal), homens mais jovens, &agrave; procura de um destino melhor, desejosos de lutar para o obter. Nos tr&ecirc;s filmes, a possibilidade de reencontro consigo pr&oacute;prio passa, de facto, pelo encontro com o Estrangeiro, em situa&ccedil;&atilde;o legal (Thao) ou ilegal (Tarek e Bilal). A media&ccedil;&atilde;o significa nos tr&ecirc;s filmes mais do que a simples vontade de comover o espectador ocidental contando-lhe a hist&oacute;ria do ponto de vista de uma personagem assaz familiar, pois o que &eacute; aqui essencial &eacute; a transforma&ccedil;&atilde;o pela qual passam Simon, Walt e Walter. Em sociedades desencantadas, com tend&ecirc;ncias fortes para o encerramento sobre si mesmas, estes homens encontram uma abertura inesperada no encontro com aquele que &eacute; tido por um certo senso comum como o b&aacute;rbaro, o invasor vindo do Leste ou do Sul e que deveria ter ficado do outro lado da fronteira. </p>     <p>Em <i>Welcome</i>, como ali&aacute;s nos outros dois filmes, a “fronteira” volta a desempenhar um papel fulcral. De um lado, a ordem legal, a possibilidade de mostrar a cara, de circular de dia, do outro lado (os “ilegais”), a arbitrariedade, a obriga&ccedil;&atilde;o de andar disfar&ccedil;ado, ou ainda de circular de noite. Qualquer atividade ganha assim contornos perigosos para o clandestino. Na sequ&ecirc;ncia do supermercado, por exemplo (26’06 – 29’14), dois clandestinos veem proibida a entrada em nome da sua condi&ccedil;&atilde;o: o seguran&ccedil;a que os impede de entrar remete-os definitivamente para l&aacute; da “fronteira”. Afirmam que s&oacute; querem comprar sab&atilde;o e comida, mas a sua condi&ccedil;&atilde;o coloca-os na margem (em todos os sentidos da palavra). Mas h&aacute; mais: a “fronteira” assim erguida v&ecirc; a sua fun&ccedil;&atilde;o segregadora refor&ccedil;ada gra&ccedil;as &agrave; indiferen&ccedil;a (ou ao racismo) da maior parte das pessoas. Marion, revoltada pela atitude do gerente, apela em v&atilde;o &agrave; interven&ccedil;&atilde;o de outros clientes, Simon inclu&iacute;do. Nota-se que a sequ&ecirc;ncia serve igualmente para evidenciar a solid&atilde;o de Simon, perdido por causa do div&oacute;rcio. Em tr&ecirc;s minutos, a trag&eacute;dia &iacute;ntima (Simon) e a trag&eacute;dia coletiva (os clandestinos, tamb&eacute;m na solid&atilde;o, tamb&eacute;m perdidos) est&atilde;o entrela&ccedil;adas.</p>     <p>Em <i>Welcome</i>, a “fronteira” que n&atilde;o se perpassa, a “fronteira” com a qual sonham Bilal e os outros clandestinos, &eacute; claramente simbolizada pelo canal da Mancha. “Fronteira” fluida para alguns (os cidad&atilde;os do espa&ccedil;o Schengen) assim como para as mercadorias (veja-se o rodar dos cami&otilde;es no in&iacute;cio do filme), mas estanque para muitos outros. Ter-se-&aacute; reparado que os planos da Mancha t&ecirc;m muitas vezes em pano de fundo <i>ferries</i> de passageiros, para aqueles com direito a circular no espa&ccedil;o Schengen, ou petroleiros, que provavelmente trazem petr&oacute;leo dos pa&iacute;ses de origem de muitos clandestinos. Estes navios surgem como s&iacute;mbolos de um mundo para o qual a “fronteira” nem chega a ser encarada como tal, uma “fronteira” que por assim dizer n&atilde;o causa obst&aacute;culo. Pelo contr&aacute;rio, para Bilal, o migrante “ilegal”, os escassos trinta quil&oacute;metros de mar significam ilegalidade, proibi&ccedil;&atilde;o, perigo de vida. N&atilde;o seria exagerado ver na Mancha uma met&aacute;fora do percurso do clandestino: correntes violentas que o arrastam para longe sem que possa lutar, m&uacute;ltiplos perigos para a sua integridade f&iacute;sica, at&eacute; o seu estatuto de “entre-dois” (entre Fran&ccedil;a e Reino Unido) remetem para esta zona de “fronteira” na qual vive o clandestino. Talvez uma das sequ&ecirc;ncias finais o ilustre melhor: Bilal nada no meio de um mar bravo, gelado, percorrido por <i>supertankers</i>, uma esp&eacute;cie de “fronteira” onde os limites desaparecem (n&atilde;o se avisam as costas francesas nem inglesas), onde a Mancha parece confundir-se com o c&eacute;u na mesma tonalidade cinzenta. A este respeito, acrescentaria que neste filme os meios de comunica&ccedil;&atilde;o, barcos, cami&otilde;es, telefone, em suma, tudo o que poderia aproximar Bilal da namorada Mina, afasta os jovens na realidade. Ao clandestino, s&oacute; lhe resta o corpo despejado de qualquer posse para, andando ou nadando, tentar atravessar a “fronteira”.</p>     <p>Por fim, existe ainda outra “fronteira” em <i>Welcome</i>, t&atilde;o desesperante como todas as outras: a que divide os clandestinos entre os que possuem dinheiro e podem pagar a um passador e os que n&atilde;o t&ecirc;m nada. Lioret descreve o meio dos clandestinos como um mundo sem solidariedade, um mundo onde a sobreviv&ecirc;ncia e o objetivo (atravessar a Mancha) dominam e se sobrep&otilde;em a tudo. Assim, a sequ&ecirc;ncia da primeira refei&ccedil;&atilde;o noturna de Bilal com os outros imigrantes evidencia logo o essencial: a tens&atilde;o, a concorr&ecirc;ncia, a viol&ecirc;ncia entre os homens. Isto num cen&aacute;rio onde n&atilde;o h&aacute; luz. <i>Welcome</i> &eacute; um filme noturno, um filme com pouca luminosidade, ou melhor, com uma luz trabalhada de maneira a dar a sensa&ccedil;&atilde;o de falta de luz (trabalho espantoso de Laurent Dailland na fotografia, nomeadamente no apartamento de Simon, completamente criado em est&uacute;dio). N&atilde;o &eacute; com certeza por acaso que <i>Welcome</i> tem muitas sequ&ecirc;ncias noturnas, pois a noite desempenha neste contexto um papel importante: &eacute; durante a noite que Bilal chega a Calais, &eacute; de noite que tenta a passagem de cami&atilde;o, &eacute; de noite que treina. Como o sugeria h&aacute; pouco, o clandestino, por causa do seu estatuto de sem pap&eacute;is n&atilde;o consegue evitar a noite e os seus mundos. Quase que se poderia dizer que os clandestinos s&atilde;o aqui representados como pertencendo a um mundo invis&iacute;vel, pelo menos aos olhos de um certo senso comum que preferia n&atilde;o os ver (o vizinho representa neste caso o cidad&atilde;o m&eacute;dio, vagamente racista, abertamente xen&oacute;fobo, que n&atilde;o hesita em denunciar Simon &agrave; pol&iacute;cia).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Como se percebeu, o filme de Philippe Lioret integra-se num <i>corpus</i> de filmes que tratam de quest&otilde;es de migra&ccedil;&atilde;o e de migrantes. O paralelismo com <i>Gran Torino</i> e <i>The Visitor</i>, que lhe s&atilde;o contempor&acirc;neos, foi evidenciado por v&aacute;rios cr&iacute;ticos. Poder-se-ia acrescentar &agrave; lista um filme menos citado, <i>Pour un instant, la libert&eacute;</i> de Arash T. Riahi (2009), que descreve os percursos, felizes ou infelizes, de migrantes oriundos do Ir&atilde;o e do Curdist&atilde;o (como Bilal) rumo &agrave; Europa. Ao contr&aacute;rio dos outros tr&ecirc;s, que focalizam o homem ocidental e o seu encontro com o Outro, o filme de Riahi, cujo enredo se desenrola em Istambul, adota a perspetiva do migrante em busca de uma porta de entrada na Europa. Assim, faz sentido que a atriz principal, Behi Djanati Ata&iuml;, que representa o fracasso da tentativa (tem de voltar para o Ir&atilde;o com o filho depois do suic&iacute;dio do marido), entra no filme de Lioret no papel de outra m&atilde;e (&eacute; a m&atilde;e de Mina) e esposa, desta vez do outro lado da “fronteira” (em Londres). Ela &eacute; o reflexo inverso da primeira personagem, o que lhe poderia ter acontecido se tivesse conseguido chegar &agrave; Europa. Como Lioret sugere nas breves sequ&ecirc;ncias inglesas, esse &ecirc;xito &eacute; por&eacute;m acompanhado de fortes tens&otilde;es e de outras fronteiras: a subjuga&ccedil;&atilde;o da vontade feminina a ditames patriarcais, o quotidiano dos imigrantes como mundo &agrave; parte (casamentos “arranjados”/for&ccedil;ados). As “fronteiras” aparentemente invis&iacute;veis n&atilde;o deixam de marcar a vida dos migrantes.</p>     <p>***</p>     <p><b>T&iacute;tulo: <i>Partir ou mourir</i></p></b>     <p><b>Realiza&ccedil;&atilde;o:    </b>Rodrigo Saez <b>Ano:     </b>2007 <b>Origem: </b>Fran&ccedil;a <b>Dura&ccedil;&atilde;o:            </b>28 minutos <b>G&eacute;nero:  </b>Document&aacute;rio</p>     <p>&nbsp;</p>    <p><b>Sinopse</p></b>     <p><i>Partir ou mourir</i>, filme rodado em Dakar por Rodrigo Saez, d&aacute; voz aos senegaleses que partem clandestinamente, em pequenas embarca&ccedil;&otilde;es, atrav&eacute;s do oceano Atl&acirc;ntico, em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; Europa, e que s&atilde;o devolvidos ao pa&iacute;s de origem numa experi&ecirc;ncia migrat&oacute;ria frustrada. Para al&eacute;m dos testemunhos pungentes de quem viveu esta experi&ecirc;ncia, o filme &eacute; um importante documento que mostra as condi&ccedil;&otilde;es de vida de quem n&atilde;o tem alternativas sen&atilde;o emigrar. Partir ou morrer &eacute; este o dilema invocado pelos senegaleses, sendo que ficar significa uma morte lenta dada a precariedade das condi&ccedil;&otilde;es de vida, sem esperan&ccedil;a, sem dignidade. Partir podendo significar a morte dados os riscos da viagem, pode significar uma emancipa&ccedil;&atilde;o, outras condi&ccedil;&otilde;es, uma outra vida. A equa&ccedil;&atilde;o &eacute; de f&aacute;cil resolu&ccedil;&atilde;o, partir tornou-se uma obriga&ccedil;&atilde;o, um des&iacute;gnio.</p>     <p>O document&aacute;rio d&aacute; voz aos senegaleses que querem partir. Eles denunciam o seu governo, que ap&oacute;s os receber de volta de um processo migrat&oacute;rio clandestino malsucedido, os abandona &agrave; sua sorte. Acusam os governos dos pa&iacute;ses do Norte de pilhagem do Senegal ao longo de s&eacute;culos, atrav&eacute;s da escravatura, do colonialismo, da d&iacute;vida, dos acordos de pesca, dos acordos de coopera&ccedil;&atilde;o desiguais que desestruturam a economia senegalesa. Questionam a livre circula&ccedil;&atilde;o dos homens como um direito inalien&aacute;vel e referem a facilidade com que as mat&eacute;rias circulam e com que os homens s&atilde;o retidos. Partir ou morrer, &eacute; a frase que traduz um combate por direitos e dignidade.</p>     <p>&nbsp;</p>    <p><b>Coment&aacute;rio de K&aacute;tia Cardoso</p></b>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ao comentar com uma das organizadoras do ciclo de cinema a escolha deste filme, ela reagiu dizendo que tinha escolhido o mais aborrecido de todos. Confesso ter pensado que a op&ccedil;&atilde;o era m&aacute;, uma vez que tinha tido outras alternativas aparentemente mais interessantes. Confesso tamb&eacute;m que esta foi uma motiva&ccedil;&atilde;o extra para ver e analisar o filme, de modo a poder coment&aacute;-lo. A escolha n&atilde;o poderia ter sido mais acertada para algu&eacute;m dos estudos p&oacute;s-coloniais com forma&ccedil;&atilde;o de base em rela&ccedil;&otilde;es internacionais. Como acab&aacute;mos de ver, trata-se de um filme que aborda as causas mais estruturais da emigra&ccedil;&atilde;o dita clandestina, dando o enquadramento hist&oacute;rico do fen&oacute;meno. Apresentando o Senegal como exemplo, o filme revela a emigra&ccedil;&atilde;o clandestina como um problema com causas globais, requerendo por conseguinte solu&ccedil;&otilde;es igualmente globais, concertadas entre os atores do Norte e do Sul, como sublinha o coordenador do F&oacute;rum Social Senegal&ecirc;s. Para al&eacute;m dos elementos end&oacute;genos, como por exemplo, a inc&uacute;ria do governo do Senegal – ao n&atilde;o garantir as condi&ccedil;&otilde;es de perman&ecirc;ncia dos seus jovens, ou ao tratar estes de forma desumana e n&atilde;o apresentar alternativas aquando do retorno – o realizador destaca fatores internacionais/globais que levam a rela&ccedil;&otilde;es Norte/Sul desiguais e injustas e desestruturam a economia nacional e for&ccedil;am a sa&iacute;da de milh&otilde;es de jovens. O simbolismo da sa&iacute;da for&ccedil;ada &eacute; muito bem real&ccedil;ado logo no in&iacute;cio do filme com as imagens da Ilha de Gor&eacute;e (escravatura sa&iacute;da for&ccedil;ada; emigra&ccedil;&atilde;o atual: sa&iacute;da for&ccedil;ada por motivos econ&oacute;micos). De entre estes fatores est&atilde;o os Acordos com a Uni&atilde;o Europeia, como os Acordos de Pesca e os Acordos de Parceria Econ&oacute;mica – que tamb&eacute;m refor&ccedil;am a ideia de desapropria&ccedil;&atilde;o e de pilhagem, centrais no tr&aacute;fico de escravos.</p>     <p>Ao longo do filme importa real&ccedil;ar alguns aspetos importantes:</p> <ul>     <li>o filme traz para o debate temas cruciais das rela&ccedil;&otilde;es Norte/Sul: a livre circula&ccedil;&atilde;o de pessoas como um direito humano, cada vez mais violado e desconsiderado por parte dos pa&iacute;ses ocidentais; o perd&atilde;o da d&iacute;vida; a proposta de uma invers&atilde;o da rela&ccedil;&atilde;o devedor-credor. “O Ocidente &eacute; quem deve a &Aacute;frica.”, como diz o <i>rapper</i>.</li>     <li>o car&aacute;cter altru&iacute;sta da decis&atilde;o de sa&iacute;da. “N&atilde;o se trata de suic&iacute;dio” mas algo que &eacute; feito para a fam&iacute;lia (v&aacute;rias cenas onde aparecem as crian&ccedil;as – filhos e as m&atilde;es), como sublinha o membro do CERPAC (Centre de Recherches Populaires pour l’Action Citoyenne).</li>     <li>“Pior que a partida &eacute; o retorno” – t&ecirc;m sido ensaiadas algumas respostas sem os efeitos certos: Plano REVA (Regresso &agrave; Agricultura). O objetivo geral deste plano &eacute; criar condi&ccedil;&otilde;es f&iacute;sicas e institucionais para o exerc&iacute;cio de atividades agr&iacute;colas remuner&aacute;veis e duradouras que garantam a fixa&ccedil;&atilde;o das popula&ccedil;&otilde;es. Em termos espec&iacute;ficos pretende: criar oportunidades de empregos lucrativos no mundo rural; promover um estatuto mais valorizado da agricultura; promover novos modelos de explora&ccedil;&atilde;o agr&iacute;cola familiares, modernos e vi&aacute;veis; contribuir para as exporta&ccedil;&otilde;es agr&iacute;colas do pa&iacute;s e garantir a cobertura das necessidades do mercado nacional em rela&ccedil;&atilde;o aos legumes, leite e carne.</li>     <li>a falta de perspetivas em termos profissionais, quer para profiss&otilde;es “n&atilde;o qualificadas”, quer para pessoas com forma&ccedil;&atilde;o. Como se pode ver pelo depoimento do jovem estudante.</li>     <li>outro dos simbolismos marcantes do filme &eacute; o mar (imagem de introdu&ccedil;&atilde;o e conclus&atilde;o): mar que trouxe as caravelas e que leva agora as pirogas; mar que une, que separa, que alimenta a esperan&ccedil;a de uma vida melhor. Esperan&ccedil;a &eacute; de resto um dos motes principais do filme. Esperan&ccedil;a, a &uacute;ltima a morrer mas a que muitas vezes leva &agrave; morte.</li>     </ul>     <p>Como a emigra&ccedil;&atilde;o clandestina &eacute; um fen&oacute;meno marcadamente masculino, a sua face feminina &eacute; muitas vezes desconhecida. Neste filme &eacute;-nos dado a conhecer um pouco deste rosto feminino – mulheres que viajam, mulheres que perderam o filho –, quer atrav&eacute;s da descri&ccedil;&atilde;o da travessia feita por um dos jovens, quer pelo discurso da presidente da Associa&ccedil;&atilde;o de V&iacute;timas da Imigra&ccedil;&atilde;o Clandestina, em que apresenta e explica as atividades da Associa&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o pude aqui deixar de fazer um paralelo com as m&atilde;es que perdem os filhos em contextos de viol&ecirc;ncia urbana, como por exemplo no Rio de Janeiro.</p>     <p>Termino utilizando as palavras da m&uacute;sica: “Chegar&atilde;o de qualquer maneira… apesar dos muros e do mar…” enquanto n&atilde;o forem encontradas respostas globais e consistentes para estas quest&otilde;es; enquanto continuarem a existir presidentes como Bongo e, outros tantos, e empresas multinacionais como a ELF; enquanto l&iacute;deres como Thomas Shankara, o Che Guevara Africano, forem eliminados; enquanto o olhar dominante sobre &Aacute;frica continuar a ser aquele apresentado por Sarkozy na Universidade Cheik Anta Diop, em 2007.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>***</p>     <p><b>T&iacute;tulo: <i>La forteresse</i></p></b>     <p><b>Realiza&ccedil;&atilde;o:    </b>Fernand Melgar <b>Ano:     </b>2008 <b>Origem: </b>Su&iacute;&ccedil;a <b>Dura&ccedil;&atilde;o:            </b>104 minutos <b>G&eacute;nero:  </b>Document&aacute;rio</p>     <p>&nbsp;</p>    <p><b>Sinopse</p></b>     <p><i>La forteresse</i> documenta a vida de cerca de 200 pessoas no centro para requerimento de asilo de Vallorbe, na Su&iacute;&ccedil;a, que esperam que a Confedera&ccedil;&atilde;o Helv&eacute;tica se decida sobre o destino a dar a mulheres, homens e crian&ccedil;as. Antigo hotel de luxo, Vallorbe converteu-se num lugar austero onde os migrantes s&atilde;o submetidos a um regime de semideten&ccedil;&atilde;o for&ccedil;ada. Fugidos de guerras e ditaduras, de desequil&iacute;brios clim&aacute;ticos e econ&oacute;micos, com percursos migrat&oacute;rios prec&aacute;rios, sujeitos a conting&ecirc;ncias que envolvem a sua integridade e a pr&oacute;pria vida, chegam &agrave; Su&iacute;&ccedil;a com o estatuto de ilegais, sem pap&eacute;is, clandestinos, como se a sua exist&ecirc;ncia fosse criminosa. Numa narrativa pr&oacute;xima da fic&ccedil;&atilde;o, o filme documenta o quotidiano dessas personagens, as suas expetativas, incertezas, sofrimentos e alegrias com sensibilidade e emo&ccedil;&atilde;o. &Eacute; tamb&eacute;m mostrado o outro lado, o dos guardi&otilde;es de <i>La forteresse</i>, aqueles a quem cabe vigiar, controlar e fazer as audi&ccedil;&otilde;es, na forma como olham para os migrantes e com eles se relacionam. Assim, o filme mostra tamb&eacute;m o choque de culturas, distintas vis&otilde;es do mundo e diferentes <i>status</i> nos relacionamentos dentro deste espa&ccedil;o fechado.</p>     <p>O filme de Fernand Melgar &eacute; importante na forma como questiona o tratamento dos migrantes enquanto cidad&atilde;os e seres humanos, reabrindo o debate num pa&iacute;s que em 2006 aprovou as leis europeias mais restritivas em mat&eacute;ria de asilo. Mas <i>La forteresse</i> serviu tamb&eacute;m para acentuar o debate mundial sobre a postura dos Estados de direito relativamente aos direitos de quem n&atilde;o os tem.</p>     <p>&nbsp;</p>    <p><b>Coment&aacute;rio de Ant&oacute;nio Sousa Ribeiro</p></b> <b>Fronteiras intranspon&iacute;veis. Notas sobre <i>La forteresse</i>, de Fernand Melgar</b>     <p>A perce&ccedil;&atilde;o mais elementar de uma fenomenologia da fronteira, como lembra Jaspers, &eacute; a simples constata&ccedil;&atilde;o de que “existe um outro”. Uma perspetiva euf&oacute;rica como a cultivada por alguma teoria contempor&acirc;nea a partir de conceitos indiferenciados de hibrida&ccedil;&atilde;o ou mesti&ccedil;agem privilegia um conceito de fronteira como espa&ccedil;o de encontro e de conviv&ecirc;ncia com esse outro. Mas n&atilde;o pode esquecer-se o reverso da medalha: em muitos contextos, esse outro pode ser aquele com quem dialogamos e nos articulamos; noutros, por&eacute;m, &eacute;, frequentemente, o exclu&iacute;do, por vezes mesmo t&atilde;o radicalmente exclu&iacute;do que surge condenado a permanecer em zonas de sil&ecirc;ncio ativamente produtoras de modos de n&atilde;o exist&ecirc;ncia. A ideia de que as fronteiras existem para serem facilmente transpostas poder&aacute; corresponder &agrave; perspetiva do intelectual cosmopolita, do executivo de topo ou do turista com recursos. Da perspetiva dos exclu&iacute;dos, a experi&ecirc;ncia da fronteira &eacute; uma experi&ecirc;ncia de sofrimento e de risco, incluindo o risco de morte.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Esta peculiar dial&eacute;tica da fronteira – espa&ccedil;o de integra&ccedil;&atilde;o ou linha de exclus&atilde;o – marca a Europa contempor&acirc;nea de modos extremamente complexos. O <i>limes</i>, o muro defensivo contra a amea&ccedil;a de invasores b&aacute;rbaros, n&atilde;o est&aacute; agora virado para Norte, mas para Sul, e nele esbarram os novos migrantes vindos sobretudo de pa&iacute;ses africanos. Para al&eacute;m do sobressalto c&iacute;clico das not&iacute;cias de imprensa noticiando mais um caso de naufr&aacute;gio de uma das prec&aacute;rias embarca&ccedil;&otilde;es que quotidianamente cruzam o Mediterr&acirc;neo, existe um enorme manto de sil&ecirc;ncio a recobrir esta realidade. Na verdade, o discurso dominante sobre a Europa continua a esquecer que uma parte substancial da hist&oacute;ria da Europa ocorreu fora da Europa,<sup><a href="#8">8</a></sup><a name="top8"></a> que a hist&oacute;ria da modernidade europeia &eacute; insepar&aacute;vel da hist&oacute;ria do colonialismo e que esta hist&oacute;ria colonial n&atilde;o constitui um cap&iacute;tulo encerrado, mas, pelo contr&aacute;rio, se perpetua, nomeadamente na figura dos milh&otilde;es de emigrantes do Sul global que vivem na Europa ou batem &agrave; porta da Europa. &Eacute; pr&oacute;prio da rela&ccedil;&atilde;o colonial integrar na forma da exclus&atilde;o: o escravo ou o trabalhador for&ccedil;ado est&atilde;o integrados no sistema que os violenta e explora, est&atilde;o, por outras palavras, aparentemente do lado de “c&aacute;”, sem deixarem de permanecer do outro lado da linha abissal caracterizada por Boaventura de Sousa Santos como a grande fronteira definidora da rela&ccedil;&atilde;o colonial (Santos, 2007). O que significa que mesmo os que est&atilde;o estabelecidos em pa&iacute;ses ditos de acolhimento, muitas vezes j&aacute; em segunda ou terceira gera&ccedil;&atilde;o, continuam submetidos &agrave; l&oacute;gica da fronteira e ao risco de exclus&atilde;o, como &eacute; vis&iacute;vel, nomeadamente, na preval&ecirc;ncia do racismo.</p>     <p>Na Europa contempor&acirc;nea, os espa&ccedil;os fechados dos aeroportos internacionais onde os viajantes a quem foi recusada a entrada aguardam o momento da expuls&atilde;o tipificam de modo particularmente dram&aacute;tico a distopia de um n&atilde;o lugar fronteiri&ccedil;o. Mas os movimentos migrat&oacute;rios conhecem outros n&atilde;o-lugares, em que a perman&ecirc;ncia pode estender-se durante anos sem que os seus habitantes tempor&aacute;rios saiam nunca da penumbra de uma zona de indefini&ccedil;&atilde;o em que a pr&oacute;pria ideia de futuro se torna dificilmente pens&aacute;vel. &Eacute; um desses n&atilde;o lugares, esp&eacute;cie de terra de ningu&eacute;m, que o document&aacute;rio <i>La forteresse</i>, de Fernand Melgar (2008), escolheu como objeto – um “Empfangs- und Verfahrenszentrum/ Centre d’enregistrement et de proc&eacute;dure” na pequena cidade su&iacute;&ccedil;a de Vallorbe, em que indiv&iacute;duos ou fam&iacute;lias inteiras candidatos ao estatuto de refugiado aguardam o veredicto que se traduzir&aacute; na possibilidade de entrada na terra prometida ou, pelo contr&aacute;rio, redundar&aacute; na expuls&atilde;o for&ccedil;ada e no reenvio for&ccedil;ado a uma problem&aacute;tica terra de origem.</p>     <p>Como refere Melgar, ele pr&oacute;prio filho de imigrantes espanh&oacute;is chegados &agrave; Su&iacute;&ccedil;a em 1962, a ideia de filmar o quotidiano deste“Centro de Rece&ccedil;&atilde;o e de Processamento Administrativo” nasceu num momento muito preciso: em referendo realizado na Su&iacute;&ccedil;a a 24 de setembro de 2006, 68% dos votantes pronunciaram-se a favor de restri&ccedil;&otilde;es dr&aacute;sticas da lei de asilo. Segundo o testemunho do realizador, n&atilde;o foi o resultado, previs&iacute;vel, do escrut&iacute;nio, “mas sim o n&uacute;mero de votos favor&aacute;veis e a sua unanimidade em todo o territ&oacute;rio que me chocaram profundamente”.<sup><a href="#9">9</a></sup><a name="top9"></a> As principais medidas aprovadas implicavam, nomeadamente: a cessa&ccedil;&atilde;o imediata de apoio social ap&oacute;s a rejei&ccedil;&atilde;o do pedido de asilo; pena de pris&atilde;o at&eacute; dois anos para quem, sendo maior de quinze anos, permanecesse em territ&oacute;rio su&iacute;&ccedil;o ap&oacute;s essa rejei&ccedil;&atilde;o; expuls&atilde;o no prazo de 48 horas de todos os indocumentados; possibilidade de buscas domicili&aacute;rias sem mandato judicial. Perante este quadro, tratava-se, para Melgar, de “procurar saber o que &eacute; que se esconde por detr&aacute;s do medo perante o outro, o que &eacute; que nos leva a aferrolhar as nossas portas e transformar este pa&iacute;s numa fortaleza inexpugn&aacute;vel”.</p>     <p>Se &eacute; patente, em declara&ccedil;&otilde;es como estas, o forte envolvimento pessoal do realizador, engana-se, no entanto, quem pensar que o choque e a indigna&ccedil;&atilde;o que estiveram na raiz de <i>La forteresse</i> se traduziram num discurso f&iacute;lmico de acusa&ccedil;&atilde;o direta ou de revolta mais ou menos panflet&aacute;ria. O filme – que registou uma consider&aacute;vel ades&atilde;o de p&uacute;blico e um excelente acolhimento da cr&iacute;tica, tendo recebido o Leopardo de Ouro do Festival de Locarno, em 2008, al&eacute;m de diversos outros pr&eacute;mios em v&aacute;rios festivais – foge a todo o excesso ret&oacute;rico e &eacute; guiado do princ&iacute;pio ao fim por um olhar distanciado, aparentemente de simples registo documental, confiando no poder das imagens e de uma montagem extremamente incisiva para mobilizar a intelig&ecirc;ncia e agitar as emo&ccedil;&otilde;es do espectador. N&atilde;o existe coment&aacute;rio, verbal, musical ou outro, tal como n&atilde;o se recorre a entrevistas diretas – os &uacute;nicos testemunhos em discurso direto s&atilde;o os que s&atilde;o captados nas v&aacute;rias sess&otilde;es de di&aacute;logo ou de interrogat&oacute;rio documentadas.</p>     <p>A ambiguidade do t&iacute;tulo diz tudo: o centro “de rece&ccedil;&atilde;o” que constitui o foco do document&aacute;rio revela-se, &agrave; medida que o filme se desenrola, n&atilde;o como um lugar de prote&ccedil;&atilde;o e de abrigo, mas sim de reclus&atilde;o; enquanto “fortaleza” constitui um microcosmos que funciona como meton&iacute;mia de uma Su&iacute;&ccedil;a cada vez mais fechada, defendendo-se da ansiedade perante o outro atrav&eacute;s de medidas crescentemente restritivas. &Eacute; certo que os ocupantes, embora submetidos a hor&aacute;rios estritos, n&atilde;o est&atilde;o proibidos de sair do edif&iacute;cio, mas &eacute; a pr&oacute;pria aus&ecirc;ncia de horizontes que os leva a um confinamento volunt&aacute;rio. Como comenta um dos respons&aacute;veis, “les faire sortir des murs est un atout majeur”, faz&ecirc;-los sair de entre as quatro paredes j&aacute; &eacute; uma grande coisa. N&atilde;o foi seguramente por acaso que o filme foi rodado durante o Inverno: os dias s&atilde;o invariavelmente cinzentos, o que faz com que as poucas cenas de exterior mostrem sempre espa&ccedil;os pouco convidativos e uma natureza tamb&eacute;m ela fechada e in&oacute;spita, transmitindo uma mesma atmosfera de isolamento e desesperan&ccedil;a.</p>     <p>O grupo de habitantes do centro constitui uma comunidade de contornos muito prec&aacute;rios. Provindos de locais muito diferentes, os ocupantes est&atilde;o unidos apenas pela circunst&acirc;ncia de estarem deslocados e submetidos aos mesmos condicionamentos. Mas, embora sejam vis&iacute;veis modos de relacionamento e de partilha, n&atilde;o &eacute; menos vis&iacute;vel que cada qual est&aacute; confinado na ang&uacute;stia do seu destino pessoal, sofrendo passivamente, numa inatividade for&ccedil;ada &agrave; incerteza quanto ao futuro. O olhar do realizador n&atilde;o &eacute; manique&iacute;sta. Os respons&aacute;veis pelos v&aacute;rios servi&ccedil;os do centro, incluindo os funcion&aacute;rios dos servi&ccedil;os de imigra&ccedil;&atilde;o a quem cabe a decis&atilde;o final sobre a possibilidade de perman&ecirc;ncia, n&atilde;o s&atilde;o retratados negativamente, surgindo mesmo por vezes a uma luz simp&aacute;tica. S&atilde;o manifestos, por exemplo, a boa vontade e o humanismo do diretor da institui&ccedil;&atilde;o, mas &eacute; igualmente claro que essas qualidades contam pouco num contexto estruturado como m&aacute;quina disciplinar em que as disposi&ccedil;&otilde;es subjetivas se tornam tragicamente irrelevantes perante a l&oacute;gica de um sistema invis&iacute;vel que imp&otilde;e regras inultrapass&aacute;veis.<sup><a href="#10">10</a></sup><a name="top10"></a> </p>     <p>Um dos aspetos mais interpelantes do filme est&aacute; no modo como aborda a quest&atilde;o do testemunho. De facto, uma boa parte da decis&atilde;o sobre perman&ecirc;ncia ou n&atilde;o perman&ecirc;ncia assenta na credibilidade do discurso que o candidato a refugiado &eacute; capaz de articular sobre o seu percurso pessoal. Esse candidato est&aacute; &agrave; partida numa situa&ccedil;&atilde;o de desvantagem, n&atilde;o s&oacute; por a sua posi&ccedil;&atilde;o ser, por muitos motivos f&aacute;ceis de entender, de fragilidade, por vezes tamb&eacute;m f&iacute;sica, mas igualmente por o testemunho que &eacute; capaz de produzir estar, desde logo, em inevit&aacute;vel contradi&ccedil;&atilde;o com o princ&iacute;pio jur&iacute;dico cl&aacute;ssico sobre a figura da testemunha, expresso na f&oacute;rmula latina <i>testis</i> <i>unus</i> <i>testis</i> <i>nullus</i> – uma &uacute;nica testemunha &eacute; o mesmo que nenhuma –, um princ&iacute;pio de suspeita liminar sobre a verdade produzida a partir de um lugar de enuncia&ccedil;&atilde;o definido por uma perspetiva puramente individual. A teoria do testemunho tem chamado a aten&ccedil;&atilde;o para a import&acirc;ncia que assume a figura do recetor ou do interlocutor, sobretudo nos casos que implicam reviver uma mem&oacute;ria traum&aacute;tica e em que a empatia com um outro constitui em elemento motivador e tranquilizador. Em <i>La forteresse</i>, no entanto, o interlocutor, mesmo quando, o que tantas vezes n&atilde;o acontece, n&atilde;o assume uma posi&ccedil;&atilde;o hostil, &eacute; o representante da m&aacute;quina do Estado e, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, o juiz, e a produ&ccedil;&atilde;o do testemunho faz-se num contexto puramente instrumental, sempre desfavor&aacute;vel. Os funcion&aacute;rios que conduzem o interrogat&oacute;rio est&atilde;o colocados na posi&ccedil;&atilde;o de analistas e de cr&iacute;ticos do discurso, mas os crit&eacute;rios de verdade que os condicionam dificilmente poder&atilde;o fazer justi&ccedil;a &agrave; complexidade da dimens&atilde;o performativa de uma situa&ccedil;&atilde;o de enuncia&ccedil;&atilde;o em que os sil&ecirc;ncios, os gestos, a linguagem corporal, podem ser t&atilde;o importantes como as palavras. Basta pensar como, num contexto como o das cenas captadas pela objetiva de Melgar, os espa&ccedil;os de sil&ecirc;ncio tantas vezes impostos a quem testemunha a partir de uma mem&oacute;ria traum&aacute;tica ir&atilde;o inevitavelmente prejudicar, do ponto de vista do interrogador, a credibilidade do candidato ao direito de perman&ecirc;ncia. A teoria do testemunho tem chamado a aten&ccedil;&atilde;o para o facto de que romper o sil&ecirc;ncio permite conquistar uma identidade social, transcender a condi&ccedil;&atilde;o de v&iacute;tima enquanto objeto de viol&ecirc;ncia e afirmar uma condi&ccedil;&atilde;o de sujeito coincidente com um ato de autoria enquanto inscri&ccedil;&atilde;o no espa&ccedil;o p&uacute;blico. &Eacute; justamente este processo que muito dificilmente est&aacute; ao alcance de quem bate em v&atilde;o aos port&otilde;es da fortaleza que o microcosmos retratado em <i>La forteresse</i> documenta, de um modo que, apesar da aparente tranquilidade das imagens de um quotidiano estreitamente regulado, est&aacute;, do princ&iacute;pio ao fim permeado por uma enorme viol&ecirc;ncia.</p>     <p>Na verdade, o motivo condutor omnipresente e a interroga&ccedil;&atilde;o mais profunda do document&aacute;rio de Fernand Melgar reside na quest&atilde;o da cidadania – no seu conjunto, o filme constitui uma interpela&ccedil;&atilde;o poderosa e uma proposta irrecus&aacute;vel de reflex&atilde;o sobre a pr&aacute;tica e os limites da cidadania. Num ensaio dos anos noventa, Giorgio Agamben, partindo de Hannah Arendt, prop&otilde;e pensar a figura do refugiado como “a &uacute;nica categoria que permite hoje em dia apreender a forma e os limites de uma comunidade pol&iacute;tica futura” (Agamben, 1995: 114). Como lembra Agamben, o problema central est&aacute; em que “a figura que deveria ter incarnado os direitos humanos <i>par excellence</i>, o refugiado, constitui, em vez disso, a crise radical desse conceito”, j&aacute; que, “num sistema de estados-na&ccedil;&atilde;o, os chamados direitos sagrados e inalien&aacute;veis do ser humano revelam-se inteiramente desprotegidos no preciso momento em que deixa de ser poss&iacute;vel defini-los como direitos do cidad&atilde;o de um estado” (<i>ibidem</i>: 116). No ensaio “We Refugees”, de 1943, a que Agamben se reporta, Arendt conclu&iacute;a a sua reflex&atilde;o, profundamente autobiogr&aacute;fica, sobre a condi&ccedil;&atilde;o do refugiado, escrevendo que “a civilidade dos povos europeus se fez em peda&ccedil;os no momento em que permitiu, e porque permitiu, que o seu membro mais fraco fosse perseguido e exclu&iacute;do” (Arendt, 1994: 119). &Agrave; escala global, a “sobreviv&ecirc;ncia pol&iacute;tica do ser humano” – s&oacute; poss&iacute;vel, segundo Agamben, quando “o cidad&atilde;o tiver aprendido a reconhecer o refugiado que ele pr&oacute;prio &eacute;” (1995: 119) – &eacute; insepar&aacute;vel da formula&ccedil;&atilde;o radical da quest&atilde;o dos direitos humanos. Fronteiras intranspon&iacute;veis como as que Fernand Melgar revela, na linguagem precisa e rigorosa da sua montagem documental, s&atilde;o o lugar em que essa quest&atilde;o de sobreviv&ecirc;ncia pode ser pensada at&eacute; ao limite mais extremo.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias bibliogr&aacute;ficas </b></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Agamben, Giorgio (1995), “We Refugees”, <i>Symposium</i>, 49(2), 114-119. </p>      <p>Arendt, Hannah (1994), “We Refugees”, <i>in</i> Marc Robinson (org.), <i>Altogether Elsewhere: Writers on Exile</i>. Boston/London: Faber and Faber, 110-119 [ed. orig.: 1943]. </p>      <p>Habermas, J&uuml;rgen; Derrida, Jacques (2003), “February 15, or What Binds Europeans Together: A Plea for a Common Foreign Policy, Beginning in the Core of Europe”, <i>Constellations,</i>10(3), 291-297. </p>      <p>Santos, Boaventura de Sousa (2007), “Para al&eacute;m do Pensamento Abissal. Das linhas globais a uma ecologia de saberes”, <i>Revista Cr&iacute;tica de Ci&ecirc;ncias Sociais</i>, 78, 3-46.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>NOTAS</b></p>     <p><Sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></Sup>Santos, Boaventura de Sousa (2007), “Para al&eacute;m do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia dos saberes”, <i>Revista Cr&iacute;tica de Ci&ecirc;ncias Sociais</i>, 78, 3-46.</p>       <p><Sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></Sup> Consultado a 16.06.2011, em <a href="https://www.youtube.com/watch?v=xS5ZYwQ_NwM" target="blank">https://www.youtube.com/watch?v=xS5ZYwQ_NwM</a>.</p>       <p><Sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></Sup>Tomo esta express&atilde;o do texto de Houria Boutledja (2010).</p>       <p><Sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></Sup>Consultado a 10.05.2011, em <a href="http://www.eurodoc-net.com/multilingue/download.php?fichier=film_111_k_les_passeurs_case_study_eurodoc&amp;type=pdf" target="blank">http://www.eurodoc-net.com/multilingue/download.php?fichier=film_111_k_les_passeurs_case_study_eurodoc&amp;type=pdf</a>.</p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></Sup>“La que se va a liar”, express&atilde;o no original castelhano.</p>       <p><Sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></Sup>Consultado a 15.05.2011, em <a href="http://www.africultures.com/php/index.php?nav=article&amp;no=3043" target="blank">http://www.africultures.com/php/index.php?nav=article&amp;no=3043</a>.</p>       <p><Sup><a name="7"></a><a href="#top7">7</a></Sup>Para uma aproxima&ccedil;&atilde;o de um certo T&acirc;nger nos meados do s&eacute;culo xx, ler a obra autobiogr&aacute;fica de Mohamed Choukri, <i>Le pain nu</i>, Librairie Fran&ccedil;ois Masp&eacute;ro, Paris, 1980.</p>       <p><Sup><a name="8"></a><a href="#top8">8</a></Sup>&Eacute; imensamente significativo que mesmo bem-intencionadas proje&ccedil;&otilde;es ut&oacute;picas, como o apelo “A nossa renova&ccedil;&atilde;o. Depois da guerra: o renascimento da Europa” lan&ccedil;ado em 2003, no contexto da Guerra do Golfo, por Habermas e Derrida nos jornais <i>Frankfurter Allgemeine Zeitung</i> e <i>Lib&eacute;ration </i>(Habermas e Derrida, 2003), partilhem dessa cegueira, construindo uma imagem da Europa que permanece presa a uma problem&aacute;tica fantasia de centralidade.</p>       <p><Sup><a name="9"></a><a href="#top9">9</a></Sup> Melgar refere expressamente “um enorme sentimento de dece&ccedil;&atilde;o e de vergonha em rela&ccedil;&atilde;o ao meu pa&iacute;s adotivo”<i>. De acordo com os dados biogr&aacute;ficos evocados pelo realizador, ele pr&oacute;prio chegou &agrave; Su&iacute;&ccedil;a indocumentado e viveu enquanto crian&ccedil;a a ang&uacute;stia do risco de deporta&ccedil;&atilde;o. Nesta biografia pessoal, a mem&oacute;ria traum&aacute;tica do referendo visando impor limites dr&aacute;sticos &agrave; imigra&ccedil;&atilde;o para a Su&iacute;&ccedil;a, protagonizado pelo deputado James Schwarzenbach e rejeitado por uma escassa maioria de votos em junho de 1970, ocupa um lugar relevante. </i>Cf. F. Melgar, “C’&eacute;tait un dimanche soir”, <a href="http://www.filmeeinewelt.ch/deutsch/files/52059_5.pdf" target="blank">http://www.filmeeinewelt.ch/deutsch/files/52059_5.pdf</a>.</p>       <p><Sup><a name="10"></a><a href="#top10">10</a></Sup> Refira-se que, traduzindo porventura uma inexplic&aacute;vel escassez de meios, &eacute; quase chocante o amadorismo de algumas interven&ccedil;&otilde;es, que procuram, bem intencionadamente, mas com limita&ccedil;&otilde;es evidentes, substituir-se &agrave; falta, por exemplo, de apoio psicol&oacute;gico por profissionais especializados.</p> </html>      ]]></body>
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