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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>DOSSIER</b></p>     <p><b>“Expulsaram-me no deserto!”</b></p>     <p><b>Entrevista com Pierre Delagrange<a href="#0">*</a><a name="top0"></a></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Elsa Lechner*, Carlos Nolasco**, Joana Sousa Ribeiro*** e Pierre Delagrange****</b></p>     <p>* Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Col&eacute;gio de S. Jer&oacute;nimo, Largo D. Dinis, Apartado 3087, 3000-995 Coimbra, Portugal <a href="mailto:elsalechner@ces.uc.pt">elsalechner@ces.uc.pt</a></p>     <p>** Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra Col&eacute;gio de S. Jer&oacute;nimo, Largo D. Dinis, Apartado 3087, 3000-995 Coimbra, Portugal <a href="mailto:cmsnolasco@ces.uc.pt">cmsnolasco@ces.uc.pt</a></p>     <p>*** Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Col&eacute;gio de S. Jer&oacute;nimo, Largo D. Dinis, Apartado 3087, 3000-995 Coimbra, Portugal <a href="mailto:joanasribeiro@ces.uc.pt">joanasribeiro@ces.uc.pt</a></p>     <p>**** Ativista e especialista sobre migra&ccedil;&otilde;es</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Centro de Estudos Sociais, Coimbra, 19 de abril de 2013</p>     <p>Delagrange &eacute; ativista pela defesa dos direitos humanos, fundador da Coletividade das Comunidades Subsarianas em Marrocos e signat&aacute;rio da Carta Mundial dos Migrantes. Camaron&ecirc;s nascido em 1977 com o nome de Kesseng &agrave; Beyeck, foi atleta de competi&ccedil;&atilde;o no seu pa&iacute;s natal at&eacute; se interessar pela situa&ccedil;&atilde;o dos migrantes subsarianos no Norte de &Aacute;frica numa viagem a Marrocos. Nesta entrevista, Pierre Delagrange conta como se envolveu na causa dos direitos dos migrantes e relata a sua experi&ecirc;ncia de migrante e ativista em Marrocos, apresentando as raz&otilde;es da sua a&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e c&iacute;vica. Foi cocoordenador de projetos multim&eacute;dia no Alto Comissariado das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para os Refugiados, consultor da CARITAS, dos M&eacute;dicos Sem Fronteiras, da Associa&ccedil;&atilde;o Marroquina dos Direitos Humanos e realizador dos filmes document&aacute;rios <i>Terre des migrants</i> (2012), <i>Visages cach&eacute;s</i> (2013) e <i>Sans papiers, sans clich&eacute;s, libre voix, mieux inform&eacute;</i> (2013).</p>     <p>Pierre Delagrange foi convidado pelo Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra no &acirc;mbito da proje&ccedil;&atilde;o do filme document&aacute;rio de Stefano Liberti e Andrea Segre, <i>Mare chiuso</i>, por iniciativa das investigadoras Iside Gjergji e Mariangela Palladino, do N&uacute;cleo das Humanidades, Migra&ccedil;&otilde;es e Estudos para a Paz. A presen&ccedil;a deste ativista camaron&ecirc;s no CES s&oacute; foi poss&iacute;vel depois de ultrapassadas as barreiras levantadas pelo Consulado Geral de Portugal em Marrocos.</p>     <p>A presente entrevista, realizada pelos organizadores deste dossier tem&aacute;tico, pretende dar a conhecer a vis&atilde;o e vers&atilde;o de algu&eacute;m que viveu “por dentro” as realidades dos migrantes subsarianos no Norte de &Aacute;frica, e se empenhou na luta pela defesa dos direitos humanos desses migrantes.</p>     <p><b>Pierre Delagrange (PDL)</b>: Em Marrocos, prefiro ser tratado por Pierre Delagrange. Este nome n&atilde;o me rotula como camaron&ecirc;s, faz de mim um cidad&atilde;o universal e permite-me integrar v&aacute;rias comunidades. Sou o presidente da Coletividade das Comunidades Subsarianas em Marrocos. No entanto, antes de ser presidente desta coletividade, fui tesoureiro de uma associa&ccedil;&atilde;o onde vi certas coisas que n&atilde;o batiam certo e decidi juntar-me a duas ou tr&ecirc;s pessoas para criar este grupo. Cheguei a Marrocos pela primeira vez em 2006, fiquei l&aacute; quinze dias e voltei para os Camar&otilde;es. Durante aqueles quinze dias vi migrantes a mendigar, nunca pensei que houvesse negros em Marrocos. Em 2007, volto a Marrocos e decido ficar l&aacute; durante um m&ecirc;s em vez de quinze dias, j&aacute; que tinha um visto de um m&ecirc;s. Durante a minha estadia, mudei de cidade e viajei muito para tentar perceber o fen&oacute;meno da migra&ccedil;&atilde;o. Porque &eacute; que h&aacute; negros em Marrocos? O que &eacute; que eles fazem aqui? Porque &eacute; que deixaram o pa&iacute;s deles para estar aqui? Informei-me, e com todas as informa&ccedil;&otilde;es fui para os Camar&otilde;es e voltei para Marrocos em 2008. Decidi desta vez ficar um ano. A minha &aacute;rea de compet&ecirc;ncia &eacute; a ci&ecirc;ncia experimental, portanto queria encontrar alguns cientistas marroquinos para n&atilde;o perder muito tempo e investir na aplica&ccedil;&atilde;o pr&aacute;tica, era preciso melhorar as minhas compet&ecirc;ncias nas aulas de ci&ecirc;ncia experimental. Integrei logo uma associa&ccedil;&atilde;o marroquina que faz anima&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas, podia, ao mesmo tempo dedicar-me &agrave;s quest&otilde;es das migra&ccedil;&otilde;es. Um ano depois voltei para os Camar&otilde;es porque cada ano tenho que voltar. Fiquei l&aacute; durante alguns meses e criei a associa&ccedil;&atilde;o de anima&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica dos Camar&otilde;es. Sete meses depois voltei para Marrocos, em 2010, e vi que havia v&aacute;rias associa&ccedil;&otilde;es marroquinas implicadas nas quest&otilde;es de migra&ccedil;&atilde;o por causa dos acontecimentos de 2005, em que morreram mais de quarenta pessoas na fronteira entre Ceuta e Melilla. Mais de trezentas pessoas tentavam entrar na Europa a partir da Espanha. A morte dessas pessoas levou &agrave; cria&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rias associa&ccedil;&otilde;es de defesa dos direitos humanos, de ONG europeias como CARITAS, CEI, MSF que estavam sediadas em Marrocos. Essas organiza&ccedil;&otilde;es come&ccedil;aram realmente a implicar-se nas quest&otilde;es de imigra&ccedil;&atilde;o. Da nossa parte, n&atilde;o baix&aacute;mos os bra&ccedil;os. Quer&iacute;amos mostrar que n&oacute;s tamb&eacute;m existimos e que temos a capacidade de nos organizar para fazer alguma diferen&ccedil;a. Mont&aacute;mos um projeto chamado “A caravana de livre circula&ccedil;&atilde;o” que devia deixar Rabat e chegar a Dakar, no Senegal. Escrevemos este projeto para mostrar aos nossos amigos europeus, marroquinos e subsarianos o trajeto que um imigrante faz, para eles perceberem a experi&ecirc;ncia que fazem os imigrantes atravessando todos esses pa&iacute;ses num autocarro onde toda essa gente que morreu se encontrava. Fizemos este percurso durante cinco dias, dormimos na fronteira marroquina debaixo das tendas. Atravess&aacute;mos a Maurit&acirc;nia at&eacute; ao Senegal. Ao sair da Maurit&acirc;nia houve um atentado bombista mesmo depois de o nosso autocarro ter passado. Os passageiros perceberam logo que era arriscado atravessar a fronteira da Maurit&acirc;nia. Quando se sai de Marrocos para a Maurit&acirc;nia h&aacute; bombas, e se sair pela estrada h&aacute; minas disseminadas porque existem terroristas naquela parte do pa&iacute;s. Terroristas islamitas que reivindicam os seus direitos, o que obriga o Estado da Maurit&acirc;nia a colocar minas nas estradas para melhor os ca&ccedil;ar e manter a seguran&ccedil;a. Essa viagem abriu os olhos dos europeus perante os riscos que os migrantes correm para chegar a Marrocos pela estrada e mais ainda quando v&atilde;o atravessar o mar para a Europa.  Fomos para a Ilha de Gor&eacute;e participar na assembleia mundial das associa&ccedil;&otilde;es que trabalham sobre quest&otilde;es migrat&oacute;rias e de solidariedade. Escrevemos a Carta Mundial dos Migrantes que &eacute; uma ideia de um tunisino, Tieloul, que vive h&aacute; quarenta e dois anos em Fran&ccedil;a. Reuniu-se no in&iacute;cio com um marroquino para come&ccedil;ar o projeto e na Ilha de Gor&eacute;e reunimos durante quatro dias, endoss&aacute;mos a Carta para difus&atilde;o. Quer&iacute;amos propor e mostrar ao mundo que aquela Carta cont&eacute;m os princ&iacute;pios dos migrantes.  Depois particip&aacute;mos no F&oacute;rum Social Mundial de Dakar, onde tivemos a oportunidade de apresentar a Carta. Uma semana depois, volt&aacute;mos para Marrocos pelo mesmo caminho. Uma vez em Marrocos, decidimos criar o coletivo das comunidades que tenho a honra de presidir hoje. O objetivo era reunir todas as comunidades subsarianas presentes em Marrocos no intuito de defender os direitos de todas essas pessoas. Fiz as minhas investiga&ccedil;&otilde;es porque quis saber realmente o que se passava. Levei dois anos para viver a experi&ecirc;ncia, andei com um falso passaporte para ver como aquilo se passa, fui preso durante dezasseis dias. A minha fam&iacute;lia n&atilde;o sabia onde me encontrava, fui expulso no deserto em pleno inverno. Vi e senti a neve – porque neva tamb&eacute;m em Marrocos – tal e qual como estou vestido aqui hoje.</p>     <p>Elsa Lechner (EL): Estava sozinho?</p>     <p><b>PDL:</b> N&atilde;o, havia outros imigrantes que foram expulsos no deserto como eu.</p>     <p>EL: Como aconteceu esse epis&oacute;dio?</p>     <p><b>PDL: </b>Fui preso no aeroporto de Casablanca alegando que eu tinha um falso passaporte camaron&ecirc;s, e eu sou camaron&ecirc;s. Bateram-me alegando que n&atilde;o sou camaron&ecirc;s.</p>     <p>EL: Isso aconteceu depois de 2006?</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>PDL</b>: Sim, foi depois de 2006, aconteceu em 2008.</p>     <p>EL: Pergunto porque disse que foi pela primeira vez para Marrocos como atleta.</p>     <p><b>PDL</b>: Sim. Foi procurando perceber as coisas que me encontrei no meio da multid&atilde;o dos migrantes clandestinos, em situa&ccedil;&atilde;o irregular. Vivendo no meio dos migrantes clandestinos, confundiram-me com um deles, embora tivesse o meu passaporte v&aacute;lido, a pol&iacute;cia alegou que era detentor de um passaporte que n&atilde;o era meu. Disse que o passaporte era meu mas n&atilde;o acreditavam, insistiam em dizer que o passaporte n&atilde;o era meu e portanto deixava de ser camaron&ecirc;s.</p>     <p>EL: Ent&atilde;o disseram que era de onde?</p>     <p><b>PDL</b>: Disseram que era congol&ecirc;s, que fingia ser camaron&ecirc;s porque viram que o meu passaporte continha v&aacute;rios vistos, pelo menos dezassete. Expliquei-lhes que sou um atleta e que viajei muito. Essa &eacute; a raz&atilde;o pela qual o meu passaporte tem muitos vistos. N&atilde;o acreditavam, pensavam que tinha roubado o passaporte pura e simplesmente porque fundi-me naquele grupo de migrantes para perceber a realidade deles. Pronto! Deixei-me levar para a cadeia. Depois fomos ao julgamento e o juiz achou que era inocente e decidiu que eu fosse deportado para o meu pa&iacute;s de origem. N&atilde;o foi o que aconteceu. Expulsaram-me no deserto, a&iacute; encontrei muitos migrantes e testemunhei muitas coisas que acontecem aos migrantes naquelas fronteiras.</p>     <p>EL: Como &eacute; a vida no deserto depois da expuls&atilde;o? Como &eacute; a intera&ccedil;&atilde;o entre uns e outros?</p>     <p><b>PDL:</b> Normalmente, segundo as leis marroquinas, se algu&eacute;m for preso por falsifica&ccedil;&atilde;o de documentos como &eacute; o meu caso – porque disseram que o passaporte n&atilde;o era meu – tem quarenta e oito horas para ser expulso para o seu pa&iacute;s de origem. No entanto, eu fui expulso no deserto. De acordo com as leis vigentes no pa&iacute;s, depois de preso temos quarenta e oito horas para sermos expulsos. No primeiro dia faz-se um processo verbal ou atas, e no segundo &eacute; que procedem &agrave; expuls&atilde;o. O meu caso foi diferente. N&atilde;o fui expulso logo no prazo delimitado pela lei. Esperaram ter mais migrantes clandestinos que foram buscar nas celas das outras cidades do pa&iacute;s para os reunir numa esquadra de pol&iacute;cia. Entretanto as pessoas detidas n&atilde;o t&ecirc;m o direito de informar a fam&iacute;lia.</p>     <p>EL: Confiscam os documentos, os telem&oacute;veis …</p>     <p><b>PDL</b>: Confiscam tudo… desligam os telem&oacute;veis, n&atilde;o se tem a possibilidade de falar com ningu&eacute;m.</p>     <p>EL: O dinheiro...?</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>PDL:</b> … o dinheiro, confiscam tudo.</p>     <p>EL: Objetos pessoais?</p>     <p><b>PDL:</b> Objetos pessoais como rel&oacute;gios porque pensam que se pode fazer qualquer coisa na cela. Pode ir buscar o dinheiro para comprar qualquer coisa para comer j&aacute; que ningu&eacute;m vai visitar. Fiquei l&aacute; durante dezasseis dias…</p>     <p>EL: Dezasseis dias na cadeia?</p>     <p><b>PDL:</b> Sim, depois desses dias fui expulso.</p>     <p>EL: E como &eacute; que se processou a expuls&atilde;o?</p>     <p><b>PDL</b>: O processo &eacute; o seguinte: durante a tarde, autocarros v&ecirc;m buscar os clandestinos que levam at&eacute; &agrave; fronteira da Arg&eacute;lia. Nesses autocarros s&atilde;o algemados em pares e apanham os autocarros de transporte p&uacute;blico com passageiros que viajam at&eacute; &agrave; cidade da expuls&atilde;o. Depois deixam os passageiros marroquinos e levam os clandestinos &agrave; esta&ccedil;&atilde;o da outra cidade que fica na fronteira, a&iacute; deixam os clandestinos na esquadra de pol&iacute;cia que fica na fronteira. Os oficiais de pol&iacute;cia daquela esquadra esperam pela noite para coloc&aacute;-los num pequeno carro e v&atilde;o encontrar os militares da fronteira Marrocos-Arg&eacute;lia. Os pol&iacute;cias deixam os clandestinos com os militares que se encarregam de acompanh&aacute;-los at&eacute; &agrave; fronteira da Arg&eacute;lia. Esses militares t&ecirc;m armas e paus na m&atilde;o. N&atilde;o disparam com as armas mas batem com os paus e mandam-nos correr. T&ecirc;m que correr para a frente mas em frente n&atilde;o h&aacute; nada, &eacute; s&oacute; o deserto. Tive a sorte de encontrar um oficial de pol&iacute;cia em Casablanca que me avisou: “Se te disserem para ir sempre em frente, se fores, vais-te perder e ningu&eacute;m te vai encontrar, vais morrer; &agrave; esquerda &eacute; Marrocos, &agrave; direita &eacute; a Arg&eacute;lia e em frente &eacute; o deserto. Portanto se te mandarem correr s&ecirc; mais r&aacute;pido do que os outros e vai para a esquerda porque depois de um dia de marcha voltas para Marrocos e assim salvas-te.” Entretanto, quando &iacute;amos para a fronteira no autocarro encontrei dois jovens marroquinos que foram expulsos de Fran&ccedil;a, eram clandestinos. Pagaram uma cau&ccedil;&atilde;o para serem libertados. Ao conversar com eles, vi que t&iacute;nhamos a mesma hist&oacute;ria. Contaram-me como &eacute; que foram presos pelos pol&iacute;cias franceses no local de trabalho e como foram expulsos. Simpatizei com um deles que era oriundo de uma cidade perto da fronteira, e quando me viu disse-me que me ia ajudar a voltar para Marrocos.</p>     <p>EL: Qual &eacute; a dist&acirc;ncia?</p>     <p><b>PDL: </b>Mais de setecentos quil&oacute;metros porque s&atilde;o seis horas de viagem pela estrada. Colocam os clandestinos num autocarro normal com os outros passageiros. Quando chegamos &agrave; fronteira, os militares marroquinos batem-nos com os paus e correm atr&aacute;s de n&oacute;s para sairmos dali. Entretanto na fronteira da Arg&eacute;lia, h&aacute; militares argelinos escondidos que come&ccedil;am a disparar logo que veem clandestinos a entrar no territ&oacute;rio deles. Podem se ver os vest&iacute;gios das balas de kalashnikov junto dos p&eacute;s de quem pisa aquele lugar.</p>     <p>EL: H&aacute; pessoas que ficam amputadas?</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>PDL</b>: Sim. H&aacute; apenas dois meses mataram tr&ecirc;s pessoas que entraram no territ&oacute;rio argelino por engano. Quando os militares marroquinos viram isso fugiram. Os militares argelinos foram buscar os corpos… est&aacute; a ver o que se passa a&iacute;? Nessa situa&ccedil;&atilde;o as fam&iacute;lias n&atilde;o sabem se os seus filhos ainda est&atilde;o vivos ou mortos. Nunca viram a sepultura dos seus filhos, porque n&atilde;o podemos provar nada, n&atilde;o podemos provar que foram mortos pelos argelinos, nem que os marroquinos os expulsaram.</p>     <p>EL: H&aacute; testemunhos?</p>     <p><b>PDL</b>: Sim, mas ningu&eacute;m acredita nesses testemunhos, esses testemunhos verbais n&atilde;o s&atilde;o cred&iacute;veis. Est&aacute; a ver? E ent&atilde;o, n&oacute;s – a associa&ccedil;&atilde;o dos migrantes subsarianos – estamos a fazer quase a mesma coisa que o vosso projeto com os multim&eacute;dia, c&acirc;maras… distribuir aos migrantes para tornar p&uacute;blica a quest&atilde;o da migra&ccedil;&atilde;o. Queremos dar a cada migrante uma m&aacute;quina fotogr&aacute;fica ou uma c&acirc;mara para fotografar ou filmar aquilo que vivenciam para poder mostrar &agrave;s pessoas que n&atilde;o acreditam que essas coisas existem.</p>     <p>EL: Quando sa&iacute;ram da pris&atilde;o, os pol&iacute;cias entregam-vos os documentos, os telem&oacute;veis, os objetos pessoais?</p>     <p><b>PDL:</b> N&atilde;o entregam os documentos. Podem, talvez, entregar os telem&oacute;veis se n&atilde;o lhes forem &uacute;teis.</p>     <p>EL: Pode-nos contar a sua passagem pelo deserto?</p>     <p><b>PDL: </b>Quando escapei no deserto, encontrei um nigeriano – que j&aacute; tinha sido expulso pelo menos dezassete vezes – com quem ultrapassei muitas barreiras com objetos contundentes, v&aacute;rias pessoas ficaram feridas. Felizmente gosto de experimentar muitas coisas, at&eacute; no meu pa&iacute;s fazia v&aacute;rias experi&ecirc;ncias, portanto estou sempre preparado para poder andar sem sofrer qualquer tipo de ferimentos. Consegui ultrapassar essas provas sem les&atilde;o. Paguei vinte euros a este nigeriano, que conhecia muito bem a zona, para me levar &agrave; primeira cidade marroquina depois da fronteira. Quando cheguei a essa cidade disseram-me que havia uma resid&ecirc;ncia universit&aacute;ria de estudantes marroquinos que costumava abrigar migrantes na minha situa&ccedil;&atilde;o sem a pol&iacute;cia saber. Podia ficar a&iacute; at&eacute; poder sair e ir ao centro da cidade. Fiquei l&aacute; e encontrei v&aacute;rios outros migrantes. Antes disso, dormi na fronteira e est&aacute;vamos no inverno. Fazia muito frio. Para me proteger do frio, cortei caixas que coloquei dentro da minha roupa como uma segunda roupa, nas minhas cal&ccedil;as... Protegi tamb&eacute;m as minhas orelhas porque o vento no deserto &eacute; t&atilde;o forte que parece que quer cortar as orelhas. Dormi naquela zona durante dois dias.</p>     <p>EL: Ao ar livre…</p>     <p><b>PDL: </b>Sim, num rochedo. Preferi dormir no rochedo porque tinha medo dos escorpi&otilde;es. N&atilde;o podem chegar ao cume do rochedo.</p>     <p>Carlos Nolasco (CN): Comeu alguma coisa?</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>PDL</b>: N&atilde;o comi nada. H&aacute; alguns migrantes que levam consigo frutos silvestres e havia alguns camponeses marroquinos que nos davam p&atilde;o caseiro bem rijo. Depois de dois dias, decidi avan&ccedil;ar porque tinha acabado de vivenciar aquilo que queria. Eram coisas que eu quis experimentar. Houve um grupo de migrantes que me convidou para atravessar o mar at&eacute; Espanha. Recusei porque n&atilde;o quis atravessar, s&oacute; quis experimentar uma coisa. Voltei para a resid&ecirc;ncia onde fiquei durante seis dias e dormi num campo de basquetebol ao ar livre. Tinha cento e vinte euros, gastei vinte com o guia, sobraram cem.</p>     <p>EL: Euros? N&atilde;o &eacute; em moeda local?</p>     <p><b>PDL</b>: N&atilde;o, era euros que eu tinha.</p>     <p>EL: Onde encontram euros?</p>     <p><b>PDL</b>: Fiz o c&acirc;mbio no meu pa&iacute;s. Tinha tr&ecirc;s empregos quando estava l&aacute;.</p>     <p>EL: O que fazia?</p>     <p><b>PDL</b>: Fui respons&aacute;vel por uma discoteca que tinha vinte e quatro empregados. Fui respons&aacute;vel por um gin&aacute;sio e chefe de seguran&ccedil;a da mulher de um ministro. Fazia esses tr&ecirc;s trabalhos mas passava mais tempo como seguran&ccedil;a da mulher do ministro. Nos fins de semana estava na discoteca.</p>     <p>EL: Era seguran&ccedil;a?</p>     <p><b>PDL:</b> Era mais <i>bodyguard</i>.</p>     <p>EL:Bodyguard?</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>PDL:</b> Sim porque havia dois seguran&ccedil;as e tr&ecirc;s <i>bodyguards</i> que me auxiliavam no meu trabalho, eu era o chefe deles.</p>     <p>EL: Esse trabalho de bodyguard foi consequ&ecirc;ncia do desporto que praticava ou foi o trabalho de bodyguard que o levou ao desporto?</p>     <p><b>PDL</b>: Acho que foi o desporto que originou tudo, porque comecei a praticar desporto na escola prim&aacute;ria, o meu pai foi militar e gostava de fazer exerc&iacute;cio. Quando ele acordava de manh&atilde; para fazer desporto, eu ia com ele. Foi assim que apanhei o “v&iacute;rus”. Aos dezoito anos fiz o primeiro concurso para entrar na legi&atilde;o francesa, chumbei. Fiz o concurso para entrar na legi&atilde;o marroquina mas n&atilde;o esperei os resultados e fui para a escola de pol&iacute;cia onde fiz dois anos de forma&ccedil;&atilde;o de guarda-costas. Fiz um ano de forma&ccedil;&atilde;o na pol&iacute;cia cient&iacute;fica para saber como se faz um inqu&eacute;rito como detetive, a bal&iacute;stica, a grafologia, a falsa assinatura, escrita falsa, fisionomia, ler os sinais da cara de uma pessoa. Gra&ccedil;as a isso trabalhei com o minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a e da pol&iacute;cia cient&iacute;fica. O nosso trabalho consistia em resolver os crimes que n&atilde;o eram resolvidos pelos pol&iacute;cias. Faz&iacute;amos as investiga&ccedil;&otilde;es e entreg&aacute;vamos as conclus&otilde;es &agrave; pol&iacute;cia que procedia &agrave;s deten&ccedil;&otilde;es. O desporto que praticava ajudou-me muito a integrar esse meio. Essas atividades ajudaram-me tamb&eacute;m a poder ser guarda-costas, gerir o gin&aacute;sio e as discotecas. Com a conta banc&aacute;ria recheada, consegui viajar.</p>     <p>EL: &Eacute; um pa&iacute;s grande...</p>     <p><b>PDL</b>: Sim &eacute; um pa&iacute;s bastante grande.</p>     <p>EL: Quantos habitantes?</p>     <p><b>PDL</b>: Hoje em dia, temos vinte milh&otilde;es de habitantes. Depois dessas viagens atrav&eacute;s do pa&iacute;s, decidi comprar um bilhete de avi&atilde;o. Nunca tinha andado de avi&atilde;o portanto quis viajar de avi&atilde;o. Procurei um pa&iacute;s onde podia ter acesso facilmente a um visto. O Benim ofereceu-me as condi&ccedil;&otilde;es, visto de um m&ecirc;s, hotel… Apanhei o avi&atilde;o e fui para o Benim. Foi assim que comecei a visitar &Aacute;frica. De Cotonou, fui para Lagos na Nig&eacute;ria, Acra no Gana, Lom&eacute; no Togo, Burkina Faso, Niamei no N&iacute;ger. Essas viagens foram financiadas com o dinheiro que amealhei nos tr&ecirc;s empregos que eu tinha. Depois voltei para o Gana onde permaneci durante um m&ecirc;s, assisti &agrave; Ta&ccedil;a Africana das Na&ccedil;&otilde;es, descobri Marrocos gra&ccedil;as &agrave; sua equipa de futebol. Entretanto fazia competi&ccedil;&otilde;es de desporto, fazia parte da sele&ccedil;&atilde;o camaronesa de desporto de luta (combate). Um dia, avisaram-nos que o campeonato africano ocorreria em Marrocos. Pensei, j&aacute; vi a equipa de Marrocos jogar no Gana: vou dar o meu melhor para fazer parte dos atletas que v&atilde;o &agrave; competi&ccedil;&atilde;o. Foi assim que fiz o meu poss&iacute;vel para ganhar o meu lugar e ganhei a medalha de bronze nessa competi&ccedil;&atilde;o. Essa medalha deu-me &acirc;nimo para querer ir ao campeonato mundial e participei em todas essas competi&ccedil;&otilde;es.</p>     <p>EL: E deixou esse mundo de sucesso para ir conhecer as sombras do mundo?</p>     <p><b>PDL</b>: &Agrave;s vezes a nossa curiosidade leva-nos a fazer coisas que n&atilde;o est&aacute;vamos &agrave; espera. A minha levou-me a procurar saber porque &eacute; que os migrantes nigerianos mendigavam em Marrocos, encontrar solu&ccedil;&otilde;es. Como &eacute; poss&iacute;vel isso acontecer? Como podemos parar isso? Levei cinco anos a pensar, encontrar solu&ccedil;&otilde;es, a maneira como posso resolver esse problema no meu pa&iacute;s. N&atilde;o s&oacute; em Marrocos mas tamb&eacute;m no meu pa&iacute;s. Comecei a fazer um projeto com alguns amigos.</p>     <p>EL: H&aacute; pouco disse que experimentou usar um falso passaporte. Como foi isso?</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>PDL:</b> Felizmente quando usei o falso passaporte, nunca tive problemas com os pol&iacute;cias, nunca passei por um controlo com ele. A &uacute;nica coisa que fazia era levantar dinheiro transferido por alguns amigos que viviam fora de Marrocos. No entanto, quando voltei para os Camar&otilde;es passando pelo Benim usei aquele passaporte. Fiz a viagem sem ser interpelado. Pensei: “Uau, &eacute; poss&iacute;vel viajar assim com um falso passaporte…”. Est&aacute; a ver…?</p>     <p>EL: E quem fabrica esses falsos passaportes?</p>     <p><b>PDL:</b> S&atilde;o passaportes que se podem encontrar com pessoas nas ruas. S&atilde;o oportunidades… &eacute; como os vendedores de perfume nas ruas, compra esse perfume e n&atilde;o vai voltar a ver o vendedor porque &eacute; um vendedor ambulante. Para n&oacute;s subsarianos, &eacute; f&aacute;cil ter acesso ao passaporte portugu&ecirc;s e viajar com ele, mas voc&ecirc;s n&atilde;o podem andar com o passaporte camaron&ecirc;s. Voc&ecirc; n&atilde;o pode ser camaronesa mas eu posso apresentar-me como portugu&ecirc;s. Est&aacute; a ver… &eacute; incompreens&iacute;vel, n&atilde;o &eacute;? Voc&ecirc; pode at&eacute; ter a nacionalidade camaronesa mas &eacute; dif&iacute;cil de acreditar, “Uau, camaron&ecirc;s de origem portuguesa”. No entanto h&aacute; congoleses que t&ecirc;m a nacionalidade camaronesa porque passaram doze anos l&aacute;. De acordo com as leis camaronesas, depois de sete anos de resid&ecirc;ncia pode pedir a nacionalidade, portanto muitos congoleses, burundineses, ruandeses depois desse tempo pedem para ser camaroneses. Acolhemos mais de seis mil refugiados ruandeses depois do genoc&iacute;dio, que s&atilde;o hoje camaroneses. Se formos ver bem, dos vinte milh&otilde;es de habitantes dos Camar&otilde;es, apenas doze milh&otilde;es s&atilde;o camaroneses de origem, os outros n&atilde;o o s&atilde;o. N&atilde;o h&aacute; nenhuma distin&ccedil;&atilde;o entre n&oacute;s l&aacute;, vivemos em harmonia com eles. Partilhamos tudo, opini&otilde;es pol&iacute;ticas, sociais, econ&oacute;micas. &Eacute; pena n&atilde;o ser a mesma coisa nos pa&iacute;ses do Magrebe. &Eacute; triste ver como os marroquinos rejeitam os argelinos, como os tunisinos rejeitam tamb&eacute;m os marroquinos… &eacute; triste tudo isto. No entanto, na Europa como em Fran&ccedil;a, ou na B&eacute;lgica, no parlamento ou nas c&acirc;maras municipais, h&aacute; marroquinos como presidentes de c&acirc;mara. No parlamento belga encontramos deputados marroquinos, s&atilde;o realmente integrados. A B&eacute;lgica e a Fran&ccedil;a aceitaram-nos at&eacute; nos altos cargos da administra&ccedil;&atilde;o. Os Camar&otilde;es fazem a mesma coisa com os seus imigrantes, infelizmente os pa&iacute;ses do Magrebe n&atilde;o o fazem.</p>     <p>EL: Porqu&ecirc;?</p>     <p><b>PDL:</b> Por causa das barreiras. Eu disse “como n&atilde;o podemos mudar a pol&iacute;tica deles de um dia para outro, temos que aprender o que eles fazem para saber o que devemos fazer”. &Eacute; isso que ando a fazer com os meus irm&atilde;os subsarianos. Aprendemos a viver com os marroquinos, a integrar-nos, vai ajudar-nos a poder viver no outro pa&iacute;s, ou viver nos nossos pa&iacute;ses. Aqueles que t&ecirc;m o desejo de ir para a Europa podem aprender inform&aacute;tica, por exemplo, para poder integrar o mercado de trabalho ou ser competitivo no seu pa&iacute;s de origem. Fazemos a sensibiliza&ccedil;&atilde;o junto dos nossos associados para eles aprenderem uma profiss&atilde;o. O objetivo deles n&atilde;o deve ser andar de um pa&iacute;s para outro. Os congoleses, por exemplo, n&atilde;o deixam o pa&iacute;s deles para irem para a Europa, v&atilde;o para os pa&iacute;ses vizinhos. Deixam o pa&iacute;s deles por causa da guerra. E o primeiro pa&iacute;s vizinho que encontra s&atilde;o os Camar&otilde;es, &eacute; por essa raz&atilde;o que param l&aacute; doze anos. E depois pensam assim: pronto j&aacute; que tenho a nacionalidade agora posso ir procurar outra coisa, e viajam de pa&iacute;s em pa&iacute;s at&eacute; chegar a Marrocos. Em Marrocos, s&atilde;o informados que podem ir at&eacute; Espanha e a&iacute; abandonam todos os seus passaportes e arriscam. Mas porque &eacute; que fazem isto? &Eacute; a quest&atilde;o que em Marrocos continuamos a colocar. V&atilde;o para fazer o qu&ecirc;? O que &eacute; que fazem em Marrocos? O que &eacute; que contam fazer na Europa? O que &eacute; que n&atilde;o podem fazer nos vossos pa&iacute;ses? S&atilde;o essas perguntas que n&oacute;s colocamos. Eu, por exemplo, sei o que eu quero. Passei cinco anos da minha vida para tentar perceber o fen&oacute;meno, tentar encontrar solu&ccedil;&otilde;es em detrimento do meu corpo. &Agrave;s vezes, as fam&iacute;lias poupam dinheiro para ajudar essas pessoas que v&ecirc;m para Marrocos a poder atravessar o mar rumo &agrave; Europa.</p>     <p>EL: Quanto custa isso? Quanto tempo &eacute; que leva? E qual &eacute; o meio de transporte? A rede?</p>     <p><b>PDL:</b> N&atilde;o existe nenhuma rede.</p>     <p>EL: S&atilde;o iniciativas individuais ou familiares?</p>     <p><b>PDL:</b> A primeira rede que eu encontro &eacute; o mapa. Por exemplo se quer percorrer Portugal, v&ecirc; no mapa qual comboio &eacute; preciso tomar para chegar a tal s&iacute;tio. Quando apanhar o autocarro, o t&aacute;xi… &eacute; isso que eles fazem. Pegam num mapa e mesmo que n&atilde;o saibam ler, h&aacute; sempre algu&eacute;m que conhe&ccedil;a o caminho, que os informa sobre o trajeto.</p>     <p>CN: Os passageiros sabem os riscos que correm?</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>PDL:</b> N&atilde;o sabem. Nem imaginam, s&atilde;o sempre surpreendidos com o choque da realidade. Acabam por se encontrar numa situa&ccedil;&atilde;o em que pagam a viagem ao condutor e no dia combinado para a viagem, encontram-se com cinquenta pessoas numa 4x4 para atravessar o deserto.</p>     <p>EL: Cinquenta? Ent&atilde;o o condutor &eacute; um oportunista?</p>     <p><b>PDL:</b> Claro. Se tivesse o computador mostrava-lhe algumas fotos onde se podem ver pessoas suspensas nos carros, s&atilde;o mais de cem pessoas.</p>     <p>EL: Quanto &eacute; que pagam?</p>     <p><b>PDL</b>: Pagam muito dinheiro, quinhentos ou mil euros.</p>     <p>EL: Para fazer uma viagem com cem outras pessoas naquelas condi&ccedil;&otilde;es?</p>     <p><b>PDL:</b> Pois!</p>     <p>EL: Quantos dias dura a viagem?</p>     <p><b>PDL:</b> Na maior parte das vezes dois ou tr&ecirc;s dias. Por exemplo, uma viagem dos Camar&otilde;es at&eacute; Marrocos, sem parar, demora quinze dias.</p>     <p>EL: Camar&otilde;es-Marrocos quinze dias sem parar? Mas param para fazer algumas necessidades, comer…</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>PDL:</b> Claro que param para essas necessidades, mudar os pneus…</p>     <p>EL: Homens, mulheres, crian&ccedil;as…</p>     <p><b>PDL:</b> Sim, mas a viagem por avi&atilde;o s&atilde;o seis horas. Eu nunca fiz o trajeto de autocarro, n&atilde;o tomei este risco, fui de avi&atilde;o com a companhia a&eacute;rea Air Maroc. Nem todos sabem que a viagem de avi&atilde;o dura apenas seis horas e &eacute; mais barata. A viagem pela estrada &eacute; tr&ecirc;s vezes mais cara do que comprar um bilhete de avi&atilde;o.</p>     <p>EL: Fazem a viagem (cara) pela estrada porque sabem que v&atilde;o ser presos no aeroporto?</p>     <p><b>PDL:</b> Acho que n&atilde;o &eacute; por medo de serem presos no aeroporto, &eacute; que antes de fazerem a viagem nem sequer sabem que est&atilde;o a faz&ecirc;-la. &Agrave;s vezes, n&atilde;o se d&atilde;o conta que est&atilde;o a sair do pa&iacute;s. &Agrave;s vezes saem s&oacute; porque os amigos os encorajaram. Para fazer uma viagem &eacute; preciso prepar&aacute;-la. &Eacute; preciso ter um passaporte, um visto, ver o itiner&aacute;rio, quanto dinheiro vai gastar, o clima, a l&iacute;ngua, a moeda do pa&iacute;s… est&aacute; a ver? Mas eles n&atilde;o procuram todas essas informa&ccedil;&otilde;es.</p>     <p>EL: Qual &eacute; ent&atilde;o a motiva&ccedil;&atilde;o?</p>     <p><b>PDL:</b> A motiva&ccedil;&atilde;o &eacute;, na maior parte das vezes, a falsa informa&ccedil;&atilde;o que lhes chega.</p>     <p>EL: S&atilde;o pessoas que aproveitam a ignor&acirc;ncia dos outros…</p>     <p><b>PDL:</b> Aproveitam a ignor&acirc;ncia dos outros mas essas pessoas tamb&eacute;m s&atilde;o ignorantes porque s&atilde;o incentivadas por algu&eacute;m que j&aacute; fez a viagem. H&aacute; pessoas que est&atilde;o em Marrocos que nunca viajaram de avi&atilde;o portanto n&atilde;o sabem que &eacute; mais barato, n&atilde;o conhecem o processo para obter um visto para entrar num pa&iacute;s estrangeiro.  Encontramos pessoas que obtiveram um passaporte em Marrocos e queriam um visto, mas foi-lhes pedido que sa&iacute;ssem do pa&iacute;s para voltar a entrar antes de obter o visto de entrada. Assim, guineenses e marfinenses que t&ecirc;m a oportunidade de entrar em Marrocos t&ecirc;m este problema. Saem pela fronteira da Maurit&acirc;nia pensando que v&atilde;o poder entrar sem problema mas n&atilde;o se d&atilde;o conta que &eacute; preciso ter o carimbo de sa&iacute;da para mostrar que realmente sa&iacute;ram do pa&iacute;s. N&atilde;o se informam do processo de sa&iacute;da e de entrada em diferentes territ&oacute;rios e ficam presos num “no man’s land”, um territ&oacute;rio de cinco quil&oacute;metros entre a Maurit&acirc;nia e Marrocos. N&atilde;o podem ir para a Maurit&acirc;nia nem para Marrocos. A situa&ccedil;&atilde;o &eacute; t&atilde;o dram&aacute;tica que fazem S.O.S. S&atilde;o turistas que nos informam da situa&ccedil;&atilde;o e n&oacute;s contactamos as autoridades dos dois pa&iacute;ses para tentar resolver a situa&ccedil;&atilde;o. Ent&atilde;o &eacute; a falta de informa&ccedil;&atilde;o que deixa muitas pessoas naquelas zonas. &Agrave;s vezes, tenho que gastar o meu dinheiro numa viagem de tr&ecirc;s dias para ir at&eacute; &agrave; Maurit&acirc;nia para estabelecer contactos caso aconte&ccedil;am outras situa&ccedil;&otilde;es, poder&iacute;amos resolv&ecirc;-las. Encontrei os respons&aacute;veis da Associa&ccedil;&atilde;o Mauritana dos Direitos Humanos na Tun&iacute;sia, discutimos esta situa&ccedil;&atilde;o para que eles tamb&eacute;m possam intervir naquela zona. Portanto acho que &eacute; um problema de comunica&ccedil;&atilde;o, temos que informar as pessoas sobre o processo de obten&ccedil;&atilde;o de visto. Mostrar as desvantagens de se encontrar numa situa&ccedil;&atilde;o daquelas dando o exemplo de pessoas que a vivenciaram. Estamos neste momento a preparar uma campanha de sensibiliza&ccedil;&atilde;o, de informa&ccedil;&atilde;o e de comunica&ccedil;&atilde;o nos pa&iacute;ses subsarianos que constituem o viveiro do fluxo migrat&oacute;rio. N&atilde;o negamos a migra&ccedil;&atilde;o dos pa&iacute;ses do Magrebe. Marrocos por exemplo tem mais imigrantes na Europa do que os pa&iacute;ses da &Aacute;frica subsariana. H&aacute; muitos marroquinos, eg&iacute;pcios, tunisinos na Europa. Viram o n&uacute;mero de tunisinos que entraram na Europa depois da revolu&ccedil;&atilde;o? Muitos tunisinos chegaram &agrave; It&aacute;lia, at&eacute; saiu na comunica&ccedil;&atilde;o social. Antes disso nunca houve um barco com mais de mil e duzentas pessoas. Nunca! Mas havia mais de mil tunisinos na It&aacute;lia. No entanto, quando subsarianos chegam no n&uacute;mero m&aacute;ximo de seiscentos, os m&eacute;dia ocidentais e magrebinos sobrevalorizam os factos. Pergunto: porqu&ecirc;? Porque passaram pelo Magrebe antes de chegar &agrave; Europa e n&atilde;o est&atilde;o contentes. A Uni&atilde;o Europeia quer travar o fluxo migrat&oacute;rio em Marrocos, mas n&atilde;o pode. N&atilde;o pode impedir as pessoas de se descolocarem. N&atilde;o somos &aacute;rvores com ra&iacute;zes para ficar parados num s&iacute;tio. Portanto, acho que &eacute; melhor tentar melhorar as condi&ccedil;&otilde;es da migra&ccedil;&atilde;o, informar melhor as pessoas. Mostrar as vantagens tanto para os migrantes como para o pa&iacute;s acolhedor. Marrocos beneficia da migra&ccedil;&atilde;o. As pessoas v&atilde;o perguntar: Como? Os migrantes em Marrocos n&atilde;o trabalham. Recebem dinheiro da fam&iacute;lia, dos amigos. Onde &eacute; que gastam aquele dinheiro? Em Marrocos. As ONG que podiam sediar-se na &Aacute;frica subsariana ficam em Marrocos, criam empregos para os marroquinos. Os fundos de apoio que a Uni&atilde;o Europeia proporciona a essas ONG v&atilde;o para aos bancos de Marrocos, esses fundos s&atilde;o gastos l&aacute;. Os senhorios ganham tamb&eacute;m com a renda das casas alugadas por essas ONG e os trabalhadores estrangeiros pagam e vivem assim.</p>     <p>EL: Conhece… J&aacute; fez neg&oacute;cios a&iacute;?</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>PDL:</b> Conhe&ccedil;o. J&aacute;.</p>     <p>CN: Os pol&iacute;cias marroquinos t&ecirc;m um comportamento diferente com os cidad&atilde;os comuns?</p>     <p><b>PDL:</b> De acordo com as investiga&ccedil;&otilde;es e a minha experi&ecirc;ncia, acho que existem dois tipos de pol&iacute;cias: uns s&atilde;o claramente racistas e os outros n&atilde;o conhecem as leis sobre os direitos humanos. Por&eacute;m, os chefes de pol&iacute;cia conhecem essas leis, mas como eles n&atilde;o v&atilde;o ao terreno, s&oacute; sabem dos abusos dos agentes quando &eacute; tarde de mais. V&atilde;o saber por exemplo que os seus elementos cometeram deten&ccedil;&otilde;es arbitr&aacute;rias, viol&ecirc;ncias f&iacute;sicas. Houve um caso que ocorreu no bairro chamado Cacadu, &eacute; um bairro social, onde dois diplomatas conversavam com um estudante subsariano. A pol&iacute;cia marroquina chegou e levou os tr&ecirc;s para controlo de identidade. O t&iacute;tulo de resid&ecirc;ncia do estudante era vermelho, n&atilde;o foi acusado. Os t&iacute;tulos de resid&ecirc;ncia dos diplomatas eram amarelos, foram acusados de falsifica&ccedil;&atilde;o e foram levados para a esquadra de pol&iacute;cia. Preparavam-se para os mandar para o deserto nas vinte e quatro horas seguintes, pura e simplesmente porque s&atilde;o pretos. Se fossem brancos n&atilde;o iam ser tratados desta forma.</p>     <p>EL: O que aconteceu depois?</p>     <p><b>PDL:</b> O estudante &eacute; que nos informou da situa&ccedil;&atilde;o e n&oacute;s contact&aacute;mos as autoridades diplom&aacute;ticas. O embaixador ligou ao chefe de pol&iacute;cia para o informar da situa&ccedil;&atilde;o e ficou escandalizado. “Que merda &eacute; que os seus elementos fizeram!”. Chegou &agrave; esquadra para libertar os diplomatas, essa situa&ccedil;&atilde;o quase criou um incidente diplom&aacute;tico. Pensam que esses pol&iacute;cias queriam fazer o trabalho deles? Mas o que &eacute; que lhes faltou? A informa&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>EL: Isso &eacute; o racismo em a&ccedil;&atilde;o…</p>     <p><b>PDL:</b> &Eacute; isso mesmo. “Como s&atilde;o pretos automaticamente t&ecirc;m falsos documentos, devem ser expulsos.”</p>     <p>CN: Como &eacute; que a popula&ccedil;&atilde;o em geral se comporta com os imigrantes?</p>     <p><b>PDL:</b> A popula&ccedil;&atilde;o em geral n&atilde;o &eacute; fundamentalmente racista. O racismo existe em todos os pa&iacute;ses, at&eacute; nos Camar&otilde;es existe.</p>     <p>EL: Nos Camar&otilde;es o racismo &eacute; contra quem?</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>PDL</b>: Nos Camar&otilde;es &eacute; diferente, n&atilde;o &eacute; um racismo baseado na cor da pele. &Eacute; mais entre as diferentes etnias, culturas e sobretudo de desconfian&ccedil;a… H&aacute; etnias que s&atilde;o reconhecidas como a elite intelectual econ&oacute;mica e quando falam com pessoas de outra etnia, h&aacute; uma certa desconfian&ccedil;a do g&eacute;nero “querem-me tirar aquilo que eu tenho”, entende?</p>     <p>EL: Estere&oacute;tipos?</p>     <p><b>PDL</b>: Exatamente, mas em Marrocos &eacute; mesmo o racismo baseado na cor da pele.</p>     <p>EL: Qual &eacute; o papel das religi&otilde;es nisso?</p>     <p><b>PDL</b>: A religi&atilde;o &eacute; determinante. Por exemplo se n&atilde;o &eacute;s mu&ccedil;ulmano tens dificuldade em ser aceite em alguns servi&ccedil;os. At&eacute; na mesquita, quando chega um subsariano eles se afastam enquanto est&atilde;o a adorar Deus.</p>     <p>EL: Qual &eacute; a religi&atilde;o dominante nos Camar&otilde;es?</p>     <p><b>PDL</b>: Acho que &eacute; dividido, metade mu&ccedil;ulmana e metade crist&atilde;. O norte &eacute; mu&ccedil;ulmano e o centro &eacute; crist&atilde;o. As duas religi&otilde;es coabitam sem problema e &eacute; poss&iacute;vel fazer um casamento misto.</p>     <p>EL: Os migrantes subsarianos que ficam suspensos durante v&aacute;rios anos no Magrebe, onde praticam os cultos?</p>     <p><b>PDL</b>: Esses migrantes frequentam a religi&atilde;o que tinham. Os cat&oacute;licos t&ecirc;m capelas em Marrocos onde podem ir. Eu por exemplo vou rezar naquela capela e fa&ccedil;o parte do coro.</p>     <p>EL: Na igreja n&atilde;o h&aacute; racismo?</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>PDL:</b> N&atilde;o h&aacute; racismo na igreja porque n&atilde;o h&aacute; marroquinos crist&atilde;os. S&atilde;o europeus os crist&atilde;o em Marrocos.</p>     <p>EL: N&atilde;o h&aacute; marroquinos crist&atilde;os?</p>     <p><b>PDL:</b> N&atilde;o h&aacute;, &eacute; imposs&iacute;vel, &eacute; proibido pela lei. Podem ser crist&atilde;os na Europa mas l&aacute; n&atilde;o. &Eacute; proibido pela lei, &eacute; mesmo proibido falar de cristianismo com um marroquino. Se os pol&iacute;cias te apanharem a falar da B&iacute;blia com um marroquino podes ser preso. Os crist&atilde;os s&atilde;o os subsarianos, os europeus, filipinos, asi&aacute;ticos… Os subsarianos frequentam as grandes capelas constru&iacute;das pelos franceses, italianos… Aqueles que s&atilde;o testemunhas de Jeov&aacute; v&atilde;o &agrave; missa num local alugado onde se encontram todos os domingos. Quer seja na Tun&iacute;sia quer seja na Maurit&acirc;nia &eacute; a mesma coisa. A lei pro&iacute;be mesmo a evangeliza&ccedil;&atilde;o dos mu&ccedil;ulmanos pelos crist&atilde;os nesses tr&ecirc;s pa&iacute;ses onde estive. No entanto, a lei n&atilde;o pro&iacute;be a evangeliza&ccedil;&atilde;o dos crist&atilde;os pelos mu&ccedil;ulmanos. Portanto um mu&ccedil;ulmano pode-te converter em mu&ccedil;ulmano mas tu n&atilde;o tens o direito de o converter em crist&atilde;o (risos). N&atilde;o tens o direito de lhe dizer que a religi&atilde;o dele est&aacute; errada em tal aspeto e a tua est&aacute; correta… est&aacute; a ver?</p>     <p>CN: H&aacute; concorr&ecirc;ncia entre os subsarianos e os marroquinos na migra&ccedil;&atilde;o para a Europa? Porque os marroquinos tamb&eacute;m querem sair…</p>     <p><b>PDL:</b> A quest&atilde;o n&atilde;o &eacute; saber se os marroquinos querem migrar para a Europa, j&aacute; migram. S&atilde;o muitos a migrar todos os dias.</p>     <p>EL: S&atilde;o clandestinos?</p>     <p><b>PDL:</b> S&atilde;o. N&atilde;o sei se viram a not&iacute;cia. O rei de Marrocos convocou o embaixador de Espanha para falar do naufr&aacute;gio de um barco que transportava migrantes clandestinos. Podemos ver num v&iacute;deo como o navio espanhol fez naufragar o barco marroquino. Houve muitos mortos, o que levou Marrocos a apresentar queixa num tribunal em Espanha. Quer dizer, se n&atilde;o houvesse mortos, ningu&eacute;m falaria do assunto e esses clandestinos estariam na Europa. Quando os marroquinos e os espanh&oacute;is afundam os barcos dos subsarianos, as imagens e v&iacute;deos n&atilde;o comovem ningu&eacute;m. Os pol&iacute;cias espanh&oacute;is mandam os barcos de volta para Marrocos, para os marroquinos levarem os clandestinos subsarianos para o deserto. E ningu&eacute;m faz queixas no tribunal. &Eacute; a&iacute; que n&atilde;o concordo com os diplomatas subsarianos em Marrocos porque n&atilde;o fazem nada, n&atilde;o servem para nada.</p>     <p>EL: Por que &eacute; que n&atilde;o fazem nada?</p>     <p><b>PDL</b>: N&atilde;o fazem nada porque pensam n&atilde;o ter o poder para o fazer. Por&eacute;m, quando uma jovem italiana foi detida com um grupo de clandestinos, ela ligou ao marido da Mariangela, Sebastien, um amigo franc&ecirc;s que trabalha comigo. A italiana ligou-lhe e passou a chamada &agrave; mulher, que &eacute; italiana, para ela poder falar com ela. A jovem italiana explica-lhe que est&aacute; a ser amea&ccedil;ada pelos pol&iacute;cias juntamente com os clandestinos numa zona de acesso a Espanha. A Mariangela ligou ao c&ocirc;nsul italiano que por sua vez ligou &agrave; jovem italiana. Pediu-lhe para entregar o telefone ao pol&iacute;cia para poder falar com ele. Nas horas seguintes a jovem foi libertada. Ent&atilde;o por que &eacute; que as nossas autoridades n&atilde;o podem fazer a mesma coisa?Por que &eacute; que os outros t&ecirc;m essa influ&ecirc;ncia e n&oacute;s n&atilde;o? Porqu&ecirc; essa falta de respeito?</p>     <p>EL: J&aacute; tentou ter uma entrevista com os diplomatas camaroneses?</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>PDL</b>: J&aacute;.</p>     <p>EL: O que &eacute; que aconteceu?</p>     <p><b>PDL:</b> J&aacute; falei com diplomatas camaroneses, malianos, senegaleses, burquinab&ecirc;s, guineenses e da Costa do Marfim para ver o que fazer para terem a mesma influ&ecirc;ncia dos diplomatas italianos. Disseram-me que h&aacute; acordos bilaterais que foram assinados com as autoridades marroquinas e que n&atilde;o podem defender pessoas que entraram clandestinamente no territ&oacute;rio, blabla… Disse, est&aacute; bem n&atilde;o podem fazer nada para esse tipo de pessoas, mas e os outros que j&aacute; c&aacute; est&atilde;o? Por exemplo, houve um estudante guineense que foi selvaticamente apunhalado, morreu. Os assassinos nunca foram encontrados. Por que &eacute; que o c&ocirc;nsul da Guin&eacute; n&atilde;o insiste em encontrar os criminosos? Houve uma estudante camaronesa que foi violada por onze marroquinos numa faculdade. Por que &eacute; que o consulado de Camar&otilde;es n&atilde;o faz nada para deter os criminosos? Fui obrigado a informar a Associa&ccedil;&atilde;o dos Direitos Humanos de Marrocos para tentar resolver essa situa&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>EL: E a Amnistia Internacional?</p>     <p><b>PDL:</b> A Amnistia Internacional n&atilde;o tem conhecimento da situa&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>EL: Mas est&aacute; presente em Marrocos?</p>     <p><b>PDL:</b> Est&aacute;, mas est&aacute; controlada pelos marroquinos. &Eacute; preciso ter marroquinos corajosos e com vontade de querer manter limpa a imagem do pa&iacute;s, porque vemos Marrocos como pa&iacute;s tur&iacute;stico, acolhedor, pa&iacute;s onde se pode estudar depois da Fran&ccedil;a. Agora se os estudantes que chegam s&atilde;o violados, violentados pelos marroquinos j&aacute; n&atilde;o v&atilde;o querer ir para l&aacute;. N&atilde;o v&atilde;o fazer estudos de borla, h&aacute; fundos, bolsas que v&atilde;o para os cofres do Estado gra&ccedil;as a esses estudantes. Recenseei mais de dezassete pa&iacute;ses da &Aacute;frica subsariana: Madag&aacute;scar, Cabo Verde, Angola, Camar&otilde;es, Mali, Senegal… todos esses pa&iacute;ses investem muito dinheiro na forma&ccedil;&atilde;o dos seus estudantes.</p>     <p>EL: Depois da Primavera &Aacute;rabe como est&aacute; a situa&ccedil;&atilde;o?</p>     <p><b>PDL:</b> Depois da Primavera &Aacute;rabe, o fluxo migrat&oacute;rio mudou. Agora s&atilde;o os magrebinos que imigram mais, podemos ver os tunisinos, argelinos, eg&iacute;pcios que atravessam Marrocos para a Europa. J&aacute; vi pol&iacute;cias marroquinos a expulsar jovens argelinos que foram apanhados com clandestinos subsarianos na fronteira argelina.</p>     <p>EL: Mas os marroquinos s&atilde;o tamb&eacute;m africanos…</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>PDL</b>: Pois, mas s&atilde;o eles que nos habituaram a esses termos (risos). &Agrave;s vezes quando fazem a distin&ccedil;&atilde;o entre africanos e marroquinos, n&oacute;s fazemos a pergunta: o que &eacute; que se passa? Depois ficamos a saber que no sistema educativo deles, no mapa, mostram apenas o Magrebe e dizem que o Sul do Saara &eacute; o vazio.</p>     <p>EL: Ent&atilde;o na linguagem, no imagin&aacute;rio marroquino “&Aacute;frica” n&atilde;o aparece?</p>     <p><b>PDL:</b> N&atilde;o. Para eles s&oacute; existe o Magrebe. Na cabe&ccedil;a deles n&atilde;o s&atilde;o africanos.</p>     <p>EL: Para os marroquinos o Magrebe &eacute; um espa&ccedil;o suspenso na geografia?</p>     <p><b>PDL</b>: Exatamente, pensam assim. &Eacute; s&oacute; agora que o Rei os sensibiliza para conhecer a &Aacute;frica subsariana, pois iniciou a coopera&ccedil;&atilde;o Sul/Sul. Fez umas viagens &agrave; &Aacute;frica subsariana, visitou o Gab&atilde;o, o Senegal, a Costa do Marfim… para mostrar aos marroquinos que eles t&ecirc;m que manter uma rela&ccedil;&atilde;o e trabalhar com o Sul para poder desenvolver o continente a que pertencem. Infelizmente os jovens marroquinos pensam que n&atilde;o est&atilde;o na &Aacute;frica. N&atilde;o s&atilde;o africanos, ent&atilde;o s&atilde;o o qu&ecirc;? Para eles, africano rima com pretos. Se quiserem podem dizer &Aacute;frica branca, mas &Aacute;frica negra &eacute; &Aacute;frica na mesma. (risos)</p>     <p>CN: Os europeus ficam comovidos com os v&iacute;deos e document&aacute;rios sobre a migra&ccedil;&atilde;o clandestina. O filme<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a> que vimos ontem…</p>     <p><b>PDL:</b> Se vir o filme da jovem italiana vai ficar o dia todo sem comer, vai chorar. Eu n&atilde;o consigo ver aquele filme duas vezes.</p>     <p>CN: Qual &eacute; peso emocional desses filmes na vida dos migrantes clandestinos?</p>     <p><b>PDL:</b> N&atilde;o ficam surpreendidos porque costumam ver isso ao vivo.</p>     <p>EL: Sabem o que se passa.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>PDL:</b> Pois, &eacute; o dia a dia deles. Por&eacute;m quando vejo aquele filme, fico triste porque tenho a sensa&ccedil;&atilde;o de n&atilde;o ter feito bem o meu trabalho. Fico chocado por ver um africano magrebino violentar um outro africano simplesmente porque a Uni&atilde;o Europeu quer que seja o seu pol&iacute;cia. &Eacute; triste, &eacute; mesmo triste. Quando encontro marroquinos que vivem na Fran&ccedil;a ou na B&eacute;lgica, dizem que s&atilde;o bem tratados pelos negros, sentem-se &agrave; vontade com os negros porque s&atilde;o discriminados pelos europeus. Os europeus rejeitam-nos, t&ecirc;m medo deles. Percebe? Os europeus preferem lidar com os negros do que com eles, porque s&atilde;o vistos como terroristas. Os europeus pensam: posso acolher o negro, parece inocente, o pa&iacute;s dele n&atilde;o est&aacute; desenvolvido… Os magrebinos para obterem um emprego s&atilde;o obrigados a aliarem-se aos negros. Foi a mesma coisa que os dois marroquinos que encontrei durante a minha expuls&atilde;o no deserto me disseram. Foi um gan&ecirc;s que os ajudou a encontrar um emprego. No dia em que foram presos pela pol&iacute;cia francesa, o gan&ecirc;s n&atilde;o foi preso, embora estivesse em situa&ccedil;&atilde;o clandestina. &Eacute; triste para eles quando est&atilde;o na Europa, &eacute; triste para n&oacute;s quando estamos no pa&iacute;s deles. No entanto, n&atilde;o estamos contentes quando vemos como s&atilde;o tratados. N&atilde;o nos satisfazemos de os ver tratados assim na Europa, mas eles tratam-nos assim no pa&iacute;s deles, j&aacute; n&atilde;o sabemos o que pensar. Podemos pensar que se calhar os europeus t&ecirc;m raz&atilde;o, mas ser&aacute; que eles t&ecirc;m raz&atilde;o de nos tratar da mesma maneira? Est&atilde;o a ver como &eacute; que &eacute; a balan&ccedil;a? Portanto, disse que as autoridades marroquinas devem tomar cuidado com o fluxo migrat&oacute;rio, tratar bem os migrantes que l&aacute; vivem porque esses migrantes v&atilde;o participar na constru&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s deles. Hoje em dia, Marrocos est&aacute; a instalar bancos, telecomunica&ccedil;&otilde;es (Maroc Telecom), Wafabank em alguns pa&iacute;ses subsarianos. Se esses subsarianos conseguem entrar na Europa e tirar um curso e voltar para o pa&iacute;s de origem e encontrar os marroquinos nos pa&iacute;ses deles, podem tornar-se terroristas. V&atilde;o pensar assim “esses marroquinos trataram-me t&atilde;o mal”, v&atilde;o pensar em vingan&ccedil;a, e a primeira coisa que podem fazer &eacute; meter bombas nas ag&ecirc;ncias dos bancos e telecomunica&ccedil;&otilde;es marroquinas.</p>     <p>EL: E os diplomatas n&atilde;o pensam no assunto?</p>     <p><b>PDL</b>: Pois n&atilde;o pensam no assunto. Falei com v&aacute;rios migrantes, alguns com o p&eacute; partido, os outros com o bra&ccedil;o partido. Disseram-me que quando voltarem a cruzar um magrebino, se v&atilde;o vingar.</p>     <p>EL: Ent&atilde;o &eacute; o &oacute;dio que se cria?</p>     <p><b>PDL</b>: Um &oacute;dio que est&aacute; a ser desencadeado. E &eacute; uma coisa alimentada pelas autoridades, porque o marroquino comum n&atilde;o se importa com as coisas do Governo. Quando, por exemplo, um subsariano vai fazer queixa de agress&atilde;o na pol&iacute;cia, n&atilde;o h&aacute; nenhuma resposta. Isto significa que as autoridades n&atilde;o levam a s&eacute;rio a queixa.</p>     <p>EL: A n&iacute;vel pol&iacute;tico, n&atilde;o h&aacute; nenhum partido que se preocupe com a quest&atilde;o migrat&oacute;ria?</p>     <p><b>PDL</b>: O partido que est&aacute; no poder fingiu interessar-se, mas depois arrumaram o assunto. H&aacute; um outro partido que criou o sindicato dos trabalhadores imigrantes em Marrocos – o primeiro sindicato. &Eacute; esse partido que apoia o sindicato. Quando vejo as coisas, tenho a sensa&ccedil;&atilde;o que os partidos pol&iacute;ticos, quer o partido no poder quer o outro partido, querem aproveitar o sindicato para fins eleitorais. Querem fazer como Fran&ccedil;ois Hollande. Durante a campanha eleitoral tinha palavras bonitas e os marroquinos que t&ecirc;m a nacionalidade francesa votaram nele. &Eacute; a mesma pol&iacute;tica que querem aplicar, infelizmente n&atilde;o a fazem bem.</p>     <p>EL: Os subsarianos votam l&aacute;?</p>     <p><b>PDL</b>: N&atilde;o, e se calhar nunca v&atilde;o votar l&aacute;, mas h&aacute; subsarianos que t&ecirc;m empresas l&aacute;.</p>     <p>EL: E mesmo assim n&atilde;o podem ter uma participa&ccedil;&atilde;o na vida pol&iacute;tica?</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>PDL:</b> N&atilde;o, n&atilde;o t&ecirc;m.</p>     <p>EL: Ent&atilde;o participam na economia mas n&atilde;o podem na vida pol&iacute;tica?</p>     <p><b>PDL:</b> Exatamente. H&aacute; muitos que t&ecirc;m empresas mas para criar uma empresa &eacute; preciso casar-se com uma marroquina. A empresa fica no nome da marroquina.</p>     <p>EL: Os casamentos mistos s&atilde;o aceites, ent&atilde;o.</p>     <p><b>PDL:</b> Alguns casamentos s&atilde;o aceites se o subsariano aceitar ser mu&ccedil;ulmano ou se j&aacute; &eacute; mu&ccedil;ulmano, mas com os crist&atilde;os n&atilde;o h&aacute; hip&oacute;tese.</p>     <p>EL: E os filhos dos subsarianos?</p>     <p><b>PDL:</b> Pois. Houve problemas com essas crian&ccedil;as porque n&atilde;o tinham nenhuma nacionalidade.</p>     <p>EL: Nem uma nem outra?</p>     <p><b>PDL:</b> &Agrave;s vezes, t&ecirc;m a nacionalidade subsariana e por causa disso a embaixada dos Camar&otilde;es em Marrocos proibiu esse tipo de casamento, porque passando alguns anos depois do casamento a marroquina pode pedir a nacionalidade camaronesa e a crian&ccedil;a adquire a nacionalidade camaronesa. A marroquina tem direito &agrave; nacionalidade camaronesa mas o marido n&atilde;o pode ter acesso &agrave; nacionalidade marroquina, nem a crian&ccedil;a tem direito &agrave; nacionalidade marroquina. S&oacute; agora &eacute; que o rei promulgou uma lei que permite que as crian&ccedil;as desses casamentos tenham direito &agrave; nacionalidade.</p>     <p>EL: Nem o jus soli pode ser aplicado a essas crian&ccedil;as que t&ecirc;m m&atilde;es marroquinas?</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>PDL:</b> Nem pensar. Imagine as crian&ccedil;as que nasceram l&aacute;! Essas crian&ccedil;as s&oacute; podiam ter a nacionalidade do pai. O pior &eacute; que as crian&ccedil;as ficam sem nenhuma p&aacute;tria.</p>     <p>EL: H&aacute; muitas crian&ccedil;as assim?</p>     <p>PDL: H&aacute;.</p>     <p>EL: Frequentam a escola?</p>     <p><b>PDL</b>: N&atilde;o. V&atilde;o para as creches das ONG como a Fondation Occident-Orient. &Eacute; uma associa&ccedil;&atilde;o marroquina que faz o poss&iacute;vel para que essas crian&ccedil;as tenham o direito &agrave; educa&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>EL: Em que l&iacute;ngua s&atilde;o dadas as aulas?</p>     <p><b>PDL:</b> Em franc&ecirc;s e &aacute;rabe. A CARITAS tamb&eacute;m tem uma escola onde se ensina o franc&ecirc;s a essas crian&ccedil;as.</p>     <p>EL: Imagino que no meio urbano essas divis&otilde;es (entre cores, religi&otilde;es, classe profissional…) sejam mais vis&iacute;veis.</p>     <p><b>PDL</b>: &Eacute; mesmo vis&iacute;vel. Apenas um grupo de jovens &eacute; que quer mudar as coisas aprendendo franc&ecirc;s e ingl&ecirc;s. V&atilde;o ter com os subsarianos para praticar o franc&ecirc;s e o ingl&ecirc;s. Com este contacto caem todos os estere&oacute;tipos – “os pretos s&atilde;o canibais” – que tinham acerca dos pretos. D&atilde;o-se conta de que foram enganados pelo pa&iacute;s.</p>     <p>EL: Acusam os negros de canibalismo?</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>PDL:</b> Sim, mas depois apercebem-se de que n&atilde;o &eacute; verdade. Come&ccedil;am ent&atilde;o a conviver. As raparigas &eacute; que s&atilde;o mais abertas e curiosas. Elas apercebem-se que os subsarianos as tratam com mais aten&ccedil;&atilde;o e querem logo casar com eles.</p>     <p>EL: Estava mesmo a pensar que a quest&atilde;o do g&eacute;nero estava ausente da nossa conversa. Como fazem as mulheres subsarianas para suprir as suas necessidades? Encontram trabalho?</p>     <p><b>PDL:</b> As mulheres encontram muitas dificuldades em viver e integrar-se l&aacute;. Algumas ONG como … CARITAS, EDI funda&ccedil;&otilde;es &eacute; que tentam ajudar essas mulheres em ter uma certa autonomia financeira. Ajudam-na a criar pequenos neg&oacute;cios como restaurantes onde se fazem pratos africanos tanto para os africanos como para os europeus. Outras s&atilde;o costureiras, fazem camisas africanas para n&oacute;s; outras s&atilde;o cabeleireiras. Encontramos mulheres da Costa do Marfim e senegalesas que t&ecirc;m a sorte de trabalhar como empregadas em casas dos europeus e dos marroquinos. Os marroquinos que viveram na Europa e t&ecirc;m vivenda preferem o trabalho das subsarianas do que das marroquinas porque pensam que as marroquinas lhes podem trazer problemas ou at&eacute; roubar; com as subsarianas n&atilde;o encontram esse problema porque se elas roubarem &eacute; considerado modo de se sustentar.</p>     <p>EL: Pierre, pod&iacute;amos ficar horas e dias a fio para falar do assunto, &eacute; um privil&eacute;gio estar a falar consigo e direi que &eacute; um momento hist&oacute;rico… estamos comovidos.</p>     <p>Joana Sousa Ribeiro (JSR): Podemos publicar a entrevista? N&atilde;o h&aacute; problemas?</p>     <p><b>PDL:</b> Claro, podem.</p>     <p>EL: Vai estar no website da<i>Revista Cr&iacute;tica de Ci&ecirc;ncias Sociais<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a> </i>e do<i>Sujet dans la Cit&eacute;.</i><sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a></p>     <p><b>PDL:</b> A &uacute;nica coisa que eu quero &eacute; mostrar &agrave;s autoridades marroquinas as falhas que deixam passar em vez de tentar revolv&ecirc;-las. Essas falhas podem ter um efeito negativo no futuro porque quando os estudantes n&atilde;o acabam os estudos por causa da viol&ecirc;ncia f&iacute;sica, n&atilde;o &eacute; bom. &Eacute; uma perda tamb&eacute;m para os marroquinos. Quando os estudantes guineenses v&atilde;o renovar os t&iacute;tulos de resid&ecirc;ncia e os pol&iacute;cias guardam os passaportes deles e os expulsam pela fronteira, esses estudantes voltam para Marrocos e j&aacute; n&atilde;o encontram os passaportes, isto &eacute; grave. Acho que se as leis s&atilde;o mudadas ou aplicadas, no que diz respeito &agrave;s queixas dos migrantes, muitas coisas mudaram mas essa neglig&ecirc;ncia est&aacute; a manchar a imagem do pa&iacute;s. Portanto gostava que Marrocos acordasse.</p>     <p>EL: Podemos contactar o embaixador de Marrocos em Portugal e ter uma entrevista com ele…</p>     <p><b>PDL</b>: Sim o embaixador tem que saber porque fui v&iacute;tima de discrimina&ccedil;&atilde;o da parte de uma senhora…</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>EL: Ah, isso no Consulado de Portugal em Marrocos…</p>     <p><b>PDL:</b> Sim ela pegou no meu dossier e pediu-me para eu voltar na semana seguinte para entregar outros documentos, fiz o que ela me pediu: vou l&aacute; &agrave;s 9h…</p>     <p>EL: Pierre, quando a funcion&aacute;ria me disse que entregou falsos documentos e que representa um alto risco migrat&oacute;rio, o que &eacute; que est&aacute; por detr&aacute;s, do seu ponto de vista?</p>     <p><b>PDL:</b> &Eacute; um &oacute;dio racial, &eacute; pura discrimina&ccedil;&atilde;o porque ela n&atilde;o tem poder de decidir se o documento &eacute; falso ou n&atilde;o. As autoridades marroquinas aprovaram a autenticidade dos documentos, mas quem &eacute; ela para n&atilde;o os reconhecer perante as mesmas autoridades marroquinas?</p>     <p>EL: Ent&atilde;o de onde vem a desconfian&ccedil;a?</p>     <p><b>PDL</b>: A &uacute;nica raz&atilde;o &eacute; o &oacute;dio racial, &eacute; um preto, tem que ser odiado, esmagado.</p>     <p>EL: &Eacute; racismo institucionalizado?</p>     <p><b>PDL:</b> Pois &eacute;!</p>     <p>EL: N&atilde;o h&aacute; outra raz&atilde;o?</p>     <p><b>PDL:</b> N&atilde;o h&aacute;. Porque s&atilde;o documentos autentificados pelas autoridades.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>EL: A a&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;cia &eacute; ilegal?</p>     <p><b>PDL</b>: &Eacute; mesmo. &Eacute; s&oacute; para mostrar que s&atilde;o capazes de fazer a mesma coisa comigo. S&atilde;o as consequ&ecirc;ncias do militantismo.</p>     <p>EL: Estigmatizam os militantes?</p>     <p><b>PDL:</b> Claro. Portanto quando os seus contactos disseram que foi dif&iacute;cil, acho que &eacute; porque h&aacute; pessoas que travam as coisas, conhecem as minhas atividades, sabem que venho estar convosco. N&atilde;o querem que eu vos venha dar essas informa&ccedil;&otilde;es. Era preciso que voc&ecirc;s usassem os grandes meios para a obten&ccedil;&atilde;o do meu visto. Quando obtive o visto, pensei assim: “vou ser seguido nos meus movimentos por um pol&iacute;cia &agrave; paisana”. N&atilde;o me espanta. Na rua &eacute; dif&iacute;cil mas eu sei que h&aacute; pelo menos um pol&iacute;cia &agrave; paisana que segue todos os meus movimentos. Quando o c&ocirc;nsul me entregou o visto, ele disse-me: “Olha que te estou a dar um visto Schengen”. Entende o que quer dizer?</p>     <p>EL: Foi o pr&oacute;prio que lho entregou?</p>     <p><b>PDL:</b> Foi e disse-me que era um visto Schengen, eu n&atilde;o preciso de saber isso. A mensagem oculta &eacute; essa: podes ir at&eacute; Fran&ccedil;a ou B&eacute;lgica, fugir e esconder-te onde quiseres. Quer ter uma raz&atilde;o para continuar a estigmatizar os subsarianos de Marrocos. V&atilde;o dizer: “Viram, a Universidade de Coimbra insistiu para entregar o visto a este senhor, afinal fugiu, t&iacute;nhamos raz&atilde;o”. Nunca v&atilde;o ter raz&atilde;o porque vou voltar, vou fazer a c&oacute;pia do meu passaporte e vou ter com o c&ocirc;nsul para lhe dizer c&aacute; estou eu, porque assinei um compromisso, tenho um pa&iacute;s. Vim com a bandeira do meu pa&iacute;s, vou tirar foto com ela. Quando voltar vou mostr&aacute;-la ao c&ocirc;nsul, n&atilde;o sou nacionalista, mas gosto do meu pa&iacute;s. Posso fazer muitas coisas em Marrocos, no Benim, no Congo. Sei que h&aacute; muitas coisas que est&atilde;o por fazer em Marrocos, muitos subsarianos sofrem muito, portanto acho que o meu contributo est&aacute; em &Aacute;frica. O que &eacute; que vou fazer na Europa? Trabalhar num restaurante, num hotel, numa ag&ecirc;ncia da Amnistia Internacional porque tenho alguma experi&ecirc;ncia em quest&otilde;es migrat&oacute;rias? N&atilde;o, prefiro propor um projeto que faz mexer as coisas em &Aacute;frica. N&atilde;o vou pedir um visto e depois fugir. Fugir para qu&ecirc;?</p>     <p>EL: Pois fa&ccedil;a-lhes a pergunta. &Eacute; pertinente.</p>     <p><b>PDL: </b>&Eacute; triste, &eacute; a imagem que t&ecirc;m de n&oacute;s. Vou fugir com a minha namorada que &eacute; belga e viver na B&eacute;lgica. Tenho casa em Marrocos e vou fugir para qu&ecirc;? A luta que fa&ccedil;o h&aacute; tanto tempo vai ser abandonada assim? De que serviram todos esses sacrif&iacute;cios? Qual a mensagem que vou deixar? Gastei muito dinheiro e levei cinco anos da minha vida para aprender coisas que n&atilde;o se ensinam nas universidades. Hoje, v&aacute;rios estudantes v&atilde;o ter comigo durante tr&ecirc;s meses para fazer as suas teses. T&ecirc;m v&aacute;rias fontes, mas sabem que a pessoa indicada para lhes fornecer certas informa&ccedil;&otilde;es sou eu. N&atilde;o estou a vangloriar-me, mas sei o que fa&ccedil;o, sei aquilo de que falo, sei onde fui procurar todas essas informa&ccedil;&otilde;es que os outros n&atilde;o t&ecirc;m, &agrave; minha experi&ecirc;ncia. Vivenciei as coisas, portanto sei que conselhos dar aos migrantes estudantes com cart&atilde;o de resid&ecirc;ncia e aos europeus que l&aacute; v&atilde;o. &Eacute; triste dizer que vou fugir.</p>     <p>EL: Vamos continuar a trabalhar juntos para tornar p&uacute;blico esse preconceito, esse racismo.</p>     <p><b>PDL: </b>Gostava de falar com o c&ocirc;nsul.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>EL: Ter&iacute;amos muito gosto em telefonar…</p>     <p><b>PDL</b>: Pensam que vou manchar a imagem da Universidade de Coimbra porque querem ter raz&atilde;o. L&aacute; est&aacute;, voc&ecirc;s insistiram, amea&ccedil;aram…</p>     <p>EL: N&atilde;o, n&atilde;o amea&ccedil;&aacute;mos.</p>     <p><b>PDL</b>: Mas &eacute; isso que dizem, que a Universidade fez press&atilde;o para me dar o visto.</p>     <p>EL: Ningu&eacute;m fez press&atilde;o nenhuma. Simplesmente telefon&aacute;mos para perguntar o que se passava. Tudo foi cordial, correto. At&eacute; a linguagem n&atilde;o foi essa.</p>     <p><b>PDL:</b> Pois, mas eles alteram-na assim. Tudo isto &eacute; triste. Se eu tivesse inten&ccedil;&atilde;o de fugir, podia continuar atleta e depois de um campeonato mundial assinar um contrato num pa&iacute;s e viver l&aacute;. Deixei de ser atleta profissional, participei em campeonato mundial, ganhei medalhas. Posso assinar um contrato como atleta profissional na Europa, mas n&atilde;o o fa&ccedil;o. Dedico-me &agrave; migra&ccedil;&atilde;o, acho que isso deve interpelar as pessoas. Gasto o meu dinheiro nesta causa, &eacute; uma vontade pessoal de querer mudar alguma coisa. &Eacute; por essa raz&atilde;o que agrade&ccedil;o &agrave; Universidade de Coimbra, ao CES. Honestamente fizeram o que muitos ainda n&atilde;o fizeram. Quero que os outros saibam que podemos tornar p&uacute;blicas algumas realidades, correr riscos e tomar decis&otilde;es.</p>     <p>EL: Quais riscos?</p>     <p><b>PDL:</b> Riscos de convidar um respons&aacute;vel subsariano que, para eles, pode fugir. Para eles &eacute; um risco.</p>     <p>EL: Nunca tom&aacute;mos isto como um risco porque n&atilde;o vemos a realidade com os mesmos &oacute;culos. N&atilde;o seria nosso problema se o Pierre decidisse fugir. Fomos coerentes de acordo com as nossas convic&ccedil;&otilde;es. Aquilo que fizemos agora &eacute; mais importante. Para n&oacute;s, &eacute; o in&iacute;cio de uma poss&iacute;vel consciencializa&ccedil;&atilde;o. N&oacute;s acredit&aacute;mos em si. Se fugisse estaria a trair-nos a n&oacute;s tamb&eacute;m.</p>     <p><b>PDL:</b> A partir desta experi&ecirc;ncia sabem o quanto &eacute; dif&iacute;cil mandar vir um subsariano. (risos).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>EL: Muito obrigada Pierre.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>NOTAS</b></p>     <p><a href="#top0">*</a><a name="0"></a> Entrevista realizada no &acirc;mbito do projeto “Pesquisa das migra&ccedil;&otilde;es e abordagem biogr&aacute;fica: construindo um trabalho em colabora&ccedil;&atilde;o no contexto portugu&ecirc;s” (PTDC/CS-ANT/111721/2009 – FCOMP-01-0124-FEDER-014442), financiado com fundos FEDER atrav&eacute;s do Programa Operacional Factores de Competitividade - COMPETE e por Fundos Nacionais atrav&eacute;s da Funda&ccedil;&atilde;o para a Ci&ecirc;ncia e a Tecnologia - FCT.</p>      <p><Sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></Sup> <i>Mare chiuso</i> (2012), de Stefano Liberti e Andrea Segre.</p>      <p><Sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></Sup> <a href="http://rccs.revues.org/" target="blank">http://rccs.revues.org</a></p>      <p><Sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></Sup> Cf. entrevista em franc&ecirc;s em <a href="http://www.lesujetdanslacite.com/1/entendre_voir_712918_0.html#pr_1596270" target="blank">http://www.lesujetdanslacite.com/1/entendre_voir_712918_0.html#pr_1596270</a></p> </html>      ]]></body>
</article>
