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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>RECENSÕES</b></p>     <p><b>Soto, Alejandro (2014), <i>Goles y banderas. F&uacute;tbol e identidades nacionales en Espa&ntilde;a</i></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Pedro Almeida</b></p>     <p>Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra, Col&eacute;gio de S. Jer&oacute;nimo, Largo D. Dinis, Apartado 3087, 3000-995 Coimbra, Portugal <a href="mailto:pedroalmeida@ces.uc.pt">pedroalmeida@ces.uc.pt</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Soto, Alejandro (2014), <i>Goles y banderas. F&uacute;tbol e identidades nacionales en Espa&ntilde;a</i>. Madrid: Marcial Pons Historia, 318 pp.</b></p>     <p><b>2014</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>A discuss&atilde;o te&oacute;rica sobre o fen&oacute;meno do futebol no dom&iacute;nio das ci&ecirc;ncias sociais surgiu apenas nos finais da d&eacute;cada de 1960, na Gr&atilde;-Bretanha, abrindo caminho a uma nova &aacute;rea de investiga&ccedil;&atilde;o. Apesar da variedade de perspetivas te&oacute;ricas, o enfoque centrou-se, essencialmente, na quest&atilde;o da viol&ecirc;ncia no contexto brit&acirc;nico. A partir da &uacute;ltima d&eacute;cada do s&eacute;culo xx, os estudos estenderam-se a outras realidades emp&iacute;ricas com a publica&ccedil;&atilde;o dos primeiros trabalhos sobre as culturas de adeptos na Europa do Sul e Am&eacute;rica Latina. Embora estas abordagens procurem real&ccedil;ar especificidades e diferen&ccedil;as relativamente ao contexto brit&acirc;nico, a preocupa&ccedil;&atilde;o central continua a ser o estudo da viol&ecirc;ncia.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Apesar de algumas publica&ccedil;&otilde;es abordarem as conex&otilde;es entre futebol, projetos pol&iacute;ticos e identidade nacional, a forma como a modalidade tem servido de arena social para a produ&ccedil;&atilde;o e promo&ccedil;&atilde;o das identidades nacionais n&atilde;o se encontra, ainda, suficientemente bem explorada. Partindo deste d&eacute;fice te&oacute;rico e anal&iacute;tico, Alejandro Soto explora a forma como o futebol constitui uma arena privilegiada de configura&ccedil;&atilde;o, reconfigura&ccedil;&atilde;o e disputa das identidades nacionais.</p>     <p>O livro encontra-se dividido em sete cap&iacute;tulos, conjugando um marco cronol&oacute;gico e tem&aacute;tico. No primeiro cap&iacute;tulo, o autor introduz o leitor na import&acirc;ncia do &lsquo;efeito cumulativo dos meios&rsquo;, recuperando a ideia, j&aacute; desenvolvida por outros investigadores, relativa ao papel dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o social na promo&ccedil;&atilde;o e consolida&ccedil;&atilde;o das identidades nacionais. Destaca-se, assim, a capacidade dos <i>media</i> em &lsquo;falar sobre a na&ccedil;&atilde;o&rsquo;, convertendo-se num poderoso instrumento de dissemina&ccedil;&atilde;o das narrativas futebol&iacute;sticas e, por conseguinte, da pr&oacute;pria identidade nacional. Este efeito cumulativo, que se tem vindo a acentuar desde a d&eacute;cada de 1940 at&eacute; &agrave; atualidade, tem tido um papel decisivo no lugar central que o futebol ocupa na representa&ccedil;&atilde;o da cultura popular espanhola.</p>     <p>O segundo cap&iacute;tulo &eacute; dedicado &agrave; explora&ccedil;&atilde;o daquilo que Soto apelida de &lsquo;narrativa da f&uacute;ria e do fracasso&rsquo;, discurso hegem&oacute;nico do s&eacute;culo xx, que relaciona o futebol com a identidade nacional, projetando no povo espanhol atributos antag&oacute;nicos. Trata-se de uma narrativa que combina um conjunto de caracter&iacute;sticas positivas, tais como a &lsquo;paix&atilde;o&rsquo;, &lsquo;coragem&rsquo; ou &lsquo;valentia&rsquo; com um discurso fatalista, que atribu&iacute;a o insucesso desportivo das equipas e da sele&ccedil;&atilde;o a uma esp&eacute;cie de &lsquo;maldi&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica&rsquo; que teimava em perseguir o povo espanhol. Ao longo do texto evidencia-se o duplo sentido da &lsquo;f&uacute;ria&rsquo; espanhola. Se, para os espanh&oacute;is, a &lsquo;f&uacute;ria&rsquo; era um termo positivo, que associava um estilo de jogo &lsquo;aguerrido&rsquo;, &lsquo;ardente&rsquo; e &lsquo;macho&rsquo;, as representa&ccedil;&otilde;es exteriores iam no sentido oposto. De facto, de acordo com os discursos dominantes na imprensa brit&acirc;nica, holandesa, italiana e francesa, a forma &lsquo;furiosa&rsquo; de jogar das equipas espanholas n&atilde;o era mais do que um reflexo do pr&oacute;prio povo: violento, irracional, selvagem e subdesenvolvido.</p>     <p>Depois de, no cap&iacute;tulo seguinte, se analisar a quest&atilde;o da redefini&ccedil;&atilde;o da narrativa dominante, resultante da queda do franquismo, o quarto cap&iacute;tulo explora, com maior detalhe, as identidades espanholas das d&eacute;cadas de oitenta e noventa. Abandonando, progressivamente, a &lsquo;narrativa da f&uacute;ria e do fracasso&rsquo; os governos socialista e popular, juntamente com os <i>media</i>, continuaram a usar o futebol como fator de unidade nacional, procurando, agora, vincular o pa&iacute;s e o povo espanhol &agrave; modernidade.</p>     <p>As transforma&ccedil;&otilde;es das identidades nacionais desde o novo mil&eacute;nio at&eacute; &agrave; atualidade s&atilde;o abordadas no cap&iacute;tulo cinco. De acordo com o autor, esta &eacute;poca ficou definitivamente marcada pela &lsquo;morte&rsquo; da &lsquo;narrativa da f&uacute;ria e do fracasso&rsquo;. Alejandro Soto mostra que, da mesma forma que a &lsquo;f&uacute;ria&rsquo; atribu&iacute;da &agrave;s equipas espanholas proporcionou a proje&ccedil;&atilde;o de determinadas caracter&iacute;sticas no pr&oacute;prio povo, a conquista de t&iacute;tulos (especialmente da sele&ccedil;&atilde;o nacional), aliados a um estilo de jogo &lsquo;moderno e t&eacute;cnico&rsquo;, criou condi&ccedil;&otilde;es para a emerg&ecirc;ncia de novos discursos celebrat&oacute;rios da na&ccedil;&atilde;o. A consolida&ccedil;&atilde;o desta &lsquo;obesidade patri&oacute;tica&rsquo; ter&aacute; facilitado um processo de &ldquo;recupera&ccedil;&atilde;o popular do Estado-Na&ccedil;&atilde;o espanhol e a normaliza&ccedil;&atilde;o das express&otilde;es patri&oacute;ticas&rdquo; (p. 243).</p>     <p>O cap&iacute;tulo seis &eacute; dedicado &agrave; an&aacute;lise das transforma&ccedil;&otilde;es das identidades nacionais na Catalunha nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas. Num territ&oacute;rio marcado pela disputa simb&oacute;lica entre a identidade catal&atilde; e espanhola, destaca-se o papel desempenhado pelo Barcelona, desde a governa&ccedil;&atilde;o de Primo de Riviera, enquanto aglutinador do &lsquo;catalanismo&rsquo;. Embora os discursos dominantes apresentem, por um lado, o Barcelona como representante da na&ccedil;&atilde;o catal&atilde; democr&aacute;tica, e por outro, o Real Madrid como a ess&ecirc;ncia do autoritarismo e do centralismo, essa narrativa mascara uma realidade mais complexa. Segundo a leitura do autor, o resultado dessa confronta&ccedil;&atilde;o nacionalista n&atilde;o resultou na rejei&ccedil;&atilde;o do &lsquo;espanholismo&rsquo;, mas sim na afirma&ccedil;&atilde;o de uma &lsquo;dupla identidade&rsquo;: catal&atilde; e espanhola. Para suportar este argumento, Soto apoia-se, em parte, nas manifesta&ccedil;&otilde;es populares nas ruas das cidades catal&atilde;s, aquando da celebra&ccedil;&atilde;o dos t&iacute;tulos recentemente conquistados pela sele&ccedil;&atilde;o espanhola. No entanto, tal como o pr&oacute;prio autor reconhece, a estrondosa vaia dos adeptos do Barcelona e do Athletic de Bilbao ao hino nacional, na final da &lsquo;Copa do Rey&rsquo; de 2012, sugere a exist&ecirc;ncia de um elevado grau de animosidade relativamente aos s&iacute;mbolos estatais.</p>     <p>O &uacute;ltimo cap&iacute;tulo explora o papel do Athletic de Bilbao e da Real Sociedad, enquanto fontes de identifica&ccedil;&atilde;o coletiva, atrav&eacute;s das suas participa&ccedil;&otilde;es na defesa da autonomia do nacionalismo basco, das suas rela&ccedil;&otilde;es com o Herri Batasuna e com o PNV<i>, </i>na participa&ccedil;&atilde;o ativa nas campanhas de liberta&ccedil;&atilde;o dos presos pol&iacute;ticos, no ensino do euskera, bem como o seu papel na cria&ccedil;&atilde;o da sele&ccedil;&atilde;o nacional basca. A politiza&ccedil;&atilde;o dos clubes expressa-se, tamb&eacute;m, por exemplo, no facto do Athletic de Bilbao seguir uma pol&iacute;tica de governa&ccedil;&atilde;o &uacute;nica no contexto do futebol (que consiste em contratar apenas jogadores de origem basca ou que tenham sido formados nas &lsquo;escolas&rsquo; do clube), tornando-o num &iacute;cone da identidade basca. Numa sociedade altamente politizada, os principais clubes bascos produziram la&ccedil;os fort&iacute;ssimos com a regi&atilde;o, ao mesmo tempo que operam como espa&ccedil;os nos quais se reproduz uma narrativa que apresenta Espanha como o &lsquo;outro&rsquo; nacional, militarista, centralista e repressor, independentemente do regime pol&iacute;tico em vigor.</p>     <p>Soto destaca, igualmente, o significado pol&iacute;tico e cultural das celebra&ccedil;&otilde;es das conquistas da sele&ccedil;&atilde;o espanhola protagonizadas, maioritariamente, pelas camadas mais jovens da popula&ccedil;&atilde;o. A repress&atilde;o fascista, a que se seguiu a hegemonia nacionalista basca, aliada &agrave; viol&ecirc;ncia pol&iacute;tica da ETA, tornou a sociedade hipersens&iacute;vel aos s&iacute;mbolos nacionais. Neste contexto, as celebra&ccedil;&otilde;es das &lsquo;identidades proibidas&rsquo; no espa&ccedil;o p&uacute;blico indiciam a emerg&ecirc;ncia de uma nova narrativa que desafia a hegemonia absoluta da identidade basca, ao mesmo tempo que contribuem para uma redefini&ccedil;&atilde;o da pr&oacute;pria identidade nacional.</p>     <p>Partindo da ideia de &lsquo;na&ccedil;&atilde;o&rsquo;, enquanto um complexo conjunto de met&aacute;foras, mitos e imagens que se reproduzem no &acirc;mbito discursivo, o livro mostra, de uma forma muito bem documentada, o poder do futebol n&atilde;o s&oacute; na reprodu&ccedil;&atilde;o, como tamb&eacute;m na contesta&ccedil;&atilde;o das narrativas nacionais dominantes e na consequente cria&ccedil;&atilde;o de contranarrativas. Est&aacute;-se, efetivamente, perante uma obra de interesse ineg&aacute;vel, que enriquece o debate te&oacute;rico dos estudos sobre futebol e sociedade. Pena &eacute; que Soto n&atilde;o tenha explorado a quest&atilde;o racial e o seu impacto na produ&ccedil;&atilde;o em torno das ideias de na&ccedil;&atilde;o. Ainda que, ao longo do livro, se sublinhe que a ideia de uma Espanha &lsquo;branca e cat&oacute;lica&rsquo; tenha feito parte da narrativa nacional franquista, esse debate n&atilde;o &eacute; aprofundado. Al&eacute;m disso, sugere-se, implicitamente, que esse discurso &lsquo;racializado&rsquo; seja, apenas, produzido pela extrema-direita e pela direita conservadora. Tendo em considera&ccedil;&atilde;o a tem&aacute;tica explorada na obra, a introdu&ccedil;&atilde;o de perspetivas cr&iacute;ticas sobre &lsquo;ra&ccedil;a&rsquo;, racismo e colonialismo, vinculadas &agrave;s narrativas futebol&iacute;sticas, contribuiria, inquestionavelmente, para um novo entendimento acerca do processo de produ&ccedil;&atilde;o das identidades europeias.</p>      ]]></body>
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