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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>RECENSÕES</b></p>     <p><b>Zembylas, Tasos (org.) (2014), <i>Artistic Practices. Social Interactions and Cultural Dynamics</i></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Paula Guerra</b></p>     <p>Faculdade de Letras da Universidade do Porto Via Panor&acirc;mica, s/n, 4150-564 Porto, Portugal <a href="mailto:pguerra@letras.up.pt">pguerra@letras.up.pt</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Zembylas, Tasos (org.) (2014), <i>Artistic Practices. Social Interactions and Cultural Dynamics</i>. New York: Routledge, 206 pp.</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Apesar da familiaridade de muitos com o que se designa por <i>pr&aacute;ticas sociais</i>, Tasos Zembylas defende que deve compreender-se o primeiro plano das pr&aacute;ticas de maneira bem diferente da forma convencional. De salientar, tamb&eacute;m, a chamada de aten&ccedil;&atilde;o do autor sobre a dualidade inerente ao conceito/no&ccedil;&atilde;o de <i>pr&aacute;tica art&iacute;stica</i> &ndash; refletida no t&iacute;tulo da obra e em alguns cap&iacute;tulos desta antologia &ndash;, dado este termo possuir um significado espec&iacute;fico nas artes (sendo por isso &ldquo;nativo&rdquo;): a pr&aacute;tica como a forma como o artista compromete o seu pr&oacute;prio trabalho em prol do processo criativo. Na verdade, esta dualidade, manifesta em v&aacute;rios dos contributos que integram este trabalho antol&oacute;gico, legitimar&aacute; o entendimento de que esta obra &eacute; de interesse para os soci&oacute;logos das artes e da cultura e para os que apreciem e se interessem pela no&ccedil;&atilde;o de pr&aacute;tica, sejam eles provenientes da sociologia ou de outras &aacute;reas.</p>     <p>Este livro organiza-se em torno da revivifica&ccedil;&atilde;o e reatualiza&ccedil;&atilde;o anal&iacute;tica e conceptual do conceito de <i>pr&aacute;tica</i> aplicado ao campo art&iacute;stico. Concretamente, aborda as <i>pr&aacute;ticas art&iacute;sticas</i> e a sua import&acirc;ncia na estrutura&ccedil;&atilde;o das artes contempor&acirc;neas. Esta abordagem funda-se na perspetiva de que a cria&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica &eacute;, mais ou menos, um processo aberto (e) incorporado numa esfera social e cultural. Isto implicar&aacute; que o processo art&iacute;stico pressup&otilde;e um conhecimento vasto, sobretudo dos seus produtores, criadores e mediadores. Deste modo, assume-se que a investiga&ccedil;&atilde;o sociol&oacute;gica do processo de cria&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica come&ccedil;ar&aacute; por questionar qual o modo melhor para se penetrar neste processo. A nossa compreens&atilde;o sobre a pr&aacute;tica art&iacute;stica determina se a vemos primeiramente como um produto ou se a entendemos como uma <i>pr&aacute;tica</i>, como um termo que refere a uma ordem de atividades conectadas que tamb&eacute;m possuem uma dimens&atilde;o ontol&oacute;gica. Neste segundo caso, o objeto de investiga&ccedil;&atilde;o n&atilde;o pode ser exclusivamente discursivo. A <i>l&oacute;gica da pr&aacute;tica </i>n&atilde;o &eacute; uma l&oacute;gica formal; o conhecimento pr&aacute;tico deve ser entendido como a capacidade de agir de acordo com uma vis&atilde;o situacional, em vez de um reconhecimento no sentido mais estrito da palavra. A pr&aacute;tica ou o conhecimento fundamentado na pr&aacute;tica &eacute; formado com base na socializa&ccedil;&atilde;o e na experi&ecirc;ncia, isto &eacute;, atrav&eacute;s da forma&ccedil;&atilde;o, imita&ccedil;&atilde;o e dos pr&oacute;prios processos de aprendizagem. Este &eacute; o alcance deste livro.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Tasos Zembylas, mentor e organizador da obra, defende que uma investiga&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica sobre o conhecer art&iacute;stico implica conceber os processos de cria&ccedil;&atilde;o como objetos complexos, que resultam de uma sinergia de v&aacute;rias formas e elementos de conhecimento &ndash; te&oacute;rico, experiencial, sensorial, etc. Na cria&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica, as regras, as conven&ccedil;&otilde;es e os valores est&eacute;ticos, as emo&ccedil;&otilde;es e as motiva&ccedil;&otilde;es &ndash; todos componentes indissoci&aacute;veis do trabalho total final &ndash; s&atilde;o integrados. Zembylas nota ainda que existe um certo &ldquo;esquecimento das pr&aacute;ticas&rdquo; por parte da filosofia e da teoria social. Por um lado, quer no campo das artes, quer no campo das ci&ecirc;ncias, trabalha-se significativamente ao n&iacute;vel te&oacute;rico e experimental, apresentando-se resultados sem refer&ecirc;ncia ao processo criativo subjacente aos trabalhos realizados naqueles &acirc;mbitos &ndash; talvez devido ao facto de estas pr&aacute;ticas serem autoevidentes para os autores ou devido &agrave; preocupa&ccedil;&atilde;o destes em focarem-se mais nos conte&uacute;dos e n&atilde;o no <i>modus operandi</i> inerente aos seus feitos/realiza&ccedil;&otilde;es. Por outro lado, parece haver uma desvaloriza&ccedil;&atilde;o do corpo enquanto portador, ele pr&oacute;prio, de <i>agency</i>. Na verdade, a tradi&ccedil;&atilde;o racionalista (de inspira&ccedil;&atilde;o cartesiana) constr&oacute;i a racionalidade como uma faculdade intelectual/cognitiva, meramente formal, removida da vida quotidiana. Mas independentemente destes dualismos filos&oacute;fico-te&oacute;ricos (como, por exemplo, a fenomenologia <i>versus</i> pragmatismo), cr&ecirc; Zembylas que &eacute; poss&iacute;vel enfatizar a primazia da pr&aacute;tica e o papel central do corpo como um &ldquo;ve&iacute;culo intelig&iacute;vel&rdquo;.</p>     <p>A escolha do tema deste livro &ndash; as pr&aacute;ticas art&iacute;sticas &ndash; decorre, segundo Zembylas, de v&aacute;rias raz&otilde;es. A primeira raz&atilde;o prende-se, precisamente, com o facto de a sociologia das artes ter vindo a evidenciar as estruturas institucionais e as rela&ccedil;&otilde;es de poder que determinam a visibilidade no mundo das artes e, consequente, os processos de constru&ccedil;&atilde;o da reputa&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica. Uma segunda raz&atilde;o assenta na premissa de que o conceito de pr&aacute;tica ser&aacute;, teoricamente, bastante promissor no que respeita &agrave; supera&ccedil;&atilde;o dos dualismos j&aacute; referenciados e discutidos &ndash; ou seja, a supera&ccedil;&atilde;o da oposi&ccedil;&atilde;o indiv&iacute;duo/sociedade, tornando poss&iacute;vel a an&aacute;lise de atividades e discursos sobre os n&iacute;veis micro e macro, simultaneamente. A terceira raz&atilde;o reside na defesa de que um olhar mais atento sobre as pr&aacute;ticas art&iacute;sticas poder&aacute; contribuir para se apreender a dimens&atilde;o pr&aacute;tica da est&eacute;tica, uma vez que esta tem sido, por um lado, no seio da filosofia, perspetivada por v&aacute;rios pressupostos, e, por outro lado, equacionada pela sociologia tendo por base uma perspetiva extr&iacute;nseca (assumindo-se que representa um discurso hegem&oacute;nico no qual se estabelece padr&otilde;es espec&iacute;ficos de avalia&ccedil;&atilde;o), relegando a exist&ecirc;ncia de uma rela&ccedil;&atilde;o intr&iacute;nseca da mesma com o processo de cria&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica.</p>     <p>A obra organiza-se em duas partes. A primeira, de cariz mais te&oacute;rico, estrutura-se em quatro cap&iacute;tulos, a saber: &ldquo;The Concept of Practice and the Sociology of the Arts&rdquo;, do pr&oacute;prio Zembylas; &ldquo;Art Bundles&rdquo;, de Theodore Schatzki; &ldquo;Practices of Contemporary Art&rdquo;, de Nathalie Heinich; e, finalmente, &ldquo;Artistic Practices as Gendered Practices&rdquo;, de Marie Buscatto. O primeiro contributo explora o significado de pr&aacute;tica para v&aacute;rios autores (desde Arist&oacute;teles), propondo Zembylas uma estrutura conceptual para a an&aacute;lise da cria&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica como um processo complexo, apresentando uma abordagem complementar &agrave;s teorias existentes que potencie novos temas para a sociologia das artes. Schatzki apresenta uma abordagem pr&aacute;tico-teor&eacute;tica da arte. No terceiro cap&iacute;tulo, Heinich aplica o conceito de paradigma ao mundo das artes, identificando tr&ecirc;s formas coexistentes de conceptualiza&ccedil;&atilde;o e de pr&aacute;tica (<i>praxis</i>) das artes visuais: a arte cl&aacute;ssica (figurativa e narrativa), a arte moderna (que transgride os padr&otilde;es de figura&ccedil;&atilde;o tradicional) e a arte contempor&acirc;nea (que desafia a pr&oacute;pria no&ccedil;&atilde;o de arte). No &uacute;ltimo cap&iacute;tulo, recapitulam-se as investiga&ccedil;&otilde;es recentes sobre as rela&ccedil;&otilde;es de g&eacute;nero nas artes.</p>     <p>A segunda parte da obra &eacute; composta por sete cap&iacute;tulos de natureza mais anal&iacute;tica e aplicados a diferentes subcampos art&iacute;sticos particulares: arte contempor&acirc;nea, cinema, <i>street art</i>, literatura, arte p&uacute;blica, dan&ccedil;a e m&uacute;sica. Assim, no primeiro cap&iacute;tulo desta componente (quinto da obra), Chris Mathieu e Iben Sandal Stjerne analisam a aquisi&ccedil;&atilde;o, o refinamento e abandono das pr&aacute;ticas ao longo das carreiras na produ&ccedil;&atilde;o de um filme; tendo por refer&ecirc;ncia v&aacute;rios estudos emp&iacute;ricos, procuram demonstrar como as constantes negocia&ccedil;&otilde;es sobre o significado constru&iacute;do em torno das <i>boas</i> e <i>m&aacute;s</i> pr&aacute;ticas modificam as atuais, adiantando que estas mudan&ccedil;as das pr&aacute;ticas se relacionam, em alguns casos, com as mudan&ccedil;as do pr&oacute;prio ambiente/contexto, ao passo que, em outros, dependem de processos internos e resultados decorrentes de determinados caminhos e trajet&oacute;rias. No cap&iacute;tulo seguinte, Silvana K. Figueroa-Dreher, a prop&oacute;sito da improvisa&ccedil;&atilde;o no <i>jazz</i>, intenta demonstrar o modo como o material musical, a atitude dos m&uacute;sicos e a intera&ccedil;&atilde;o entre eles desempenham um papel fundamental na elucida&ccedil;&atilde;o/compreens&atilde;o das pr&aacute;ticas de improvisa&ccedil;&atilde;o. No cap&iacute;tulo seguinte, Chiara Basseti interpreta o corpo, com a sua experi&ecirc;ncia e o seu conhecimento incorporado, como uma dimens&atilde;o fundamental em todas as pr&aacute;ticas humanas; tendo por refer&ecirc;ncia a natureza corp&oacute;rea da performance da dan&ccedil;a.</p>     <p>Continuando a percorrer a segunda parte desta antologia, Zembylas centra-se no processo de escrita liter&aacute;ria, explorando, primeiramente, o <i>nexus </i>entre a sociologia das artes e a abordagem do conhecimento t&aacute;cito e discutindo a sua aplica&ccedil;&atilde;o na investiga&ccedil;&atilde;o emp&iacute;rica sobre o processo art&iacute;stico criativo; num segundo momento, procura lan&ccedil;ar pistas sobre: a cria&ccedil;&atilde;o e integra&ccedil;&atilde;o de ideias criativas, a relev&acirc;ncia da experi&ecirc;ncia, a forma como os escritores enfrentam desafios espec&iacute;ficos decorrentes da exposi&ccedil;&atilde;o e da fragilidade dos processos criativos e da influ&ecirc;ncia dos seus pares. No cap&iacute;tulo seguinte, Laurent Th&eacute;venot discute as diferentes formas de compromisso em projetos de arte participativa. A partir de um projeto espec&iacute;fico, &ldquo;Um jardim partilhado em Paris&rdquo;, o autor explora v&aacute;rios aspetos relacionados com aqueles compromissos, a emerg&ecirc;ncia do comunitarismo e formas de justifica&ccedil;&atilde;o de bens comuns. O contributo de Sophia Krzys Acord centra-se na explora&ccedil;&atilde;o dos processos de prepara&ccedil;&atilde;o e montagem de exposi&ccedil;&otilde;es (curadoria) no sentido de revelar a media&ccedil;&atilde;o como resultado de intera&ccedil;&otilde;es que decorrem n&atilde;o s&oacute; entre os diferentes atores sociais, mas tamb&eacute;m entre obras de arte, outros objetos e o espa&ccedil;o. Por fim, Graciela Trajtenberg, traz para a discuss&atilde;o a an&aacute;lise de pr&aacute;ticas art&iacute;sticas desenvolvidas &agrave; margem do mundo da arte, tomando como exemplo o <i>graffiti</i>, onde as margens respeitam &agrave;s restri&ccedil;&otilde;es legais ou &agrave; forma&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica informal deste dom&iacute;nio espec&iacute;fico da pr&aacute;tica.</p>     <p>Tal como refere Zembylas (2014: 4), esta antologia inclui v&aacute;rias discuss&otilde;es e an&aacute;lises de pr&aacute;ticas art&iacute;sticas, constituindo-se num esfor&ccedil;o coordenado para explorar a complexidade e indetermina&ccedil;&atilde;o dos processos criativos art&iacute;sticos. Considera-se que a tem&aacute;tica desta obra &ndash; o estudo das <i>pr&aacute;ticas</i> art&iacute;sticas &ndash; &eacute; muito conveniente, tendo em conta o crescente interesse nas mesmas, vis&iacute;vel em v&aacute;rios campos da sociologia, dos m&eacute;dia e da sociedade em geral. Por isso mesmo, nos parece extremamente importante e oportuna a sua publica&ccedil;&atilde;o, constituindo um contributo muito &uacute;til para o alumiamento de trabalhos sociol&oacute;gicos que incidem sobre as pr&aacute;ticas art&iacute;sticas e as pr&aacute;ticas sociais em geral, como n&atilde;o acontecia desde os trabalhos de Pierre Bourdieu.</p>      ]]></body>
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