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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>RECENSÃO</b></p>     <p><b>Batista, Vera Malaguti (org.) (2012), <i>Lo&iuml;c Wacquant e a quest&atilde;o penal no capitalismo neoliberal</i>.</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Maria do Carmo de Oliveira Vargas</b></p>     <p>Universidade Federal de Minas Gerais. Av. Ant&ocirc;nio Carlos, 6627, Pampulha, Belo Horizonte, MG CEP 31270-901, Brasil <a href="mailto:mcvargas@ufmg.br">mcvargas@ufmg.br</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Batista, Vera Malaguti (org.) (2012), <i>Lo&iuml;c Wacquant e a quest&atilde;o penal no capitalismo neoliberal.</i> Rio de Janeiro: Revan, 317 pp. Tradu&ccedil;&atilde;o de S&eacute;rgio Lamar&atilde;o.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Os ensaios reunidos na obra apresentam uma abordagem da sociologia criminal-punitiva dos mais variados matizes, fazendo com que a leitura completa possa prescindir da ordem em que os textos foram apresentados. Excetuando-se, &eacute; claro, o ensaio de inaugura&ccedil;&atilde;o, que traz a contund&ecirc;ncia do pensamento do soci&oacute;logo que motiva o t&iacute;tulo &ndash; Lo&iuml;c Wacquant. Voltado para estudiosos de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, sistemas prisionais, neoliberalismo, estudos penais e demais interessados na tem&aacute;tica, contribui com rica e diversificada abordagem do tema.</p>     <p>Caracter&iacute;stica marcante &eacute; o fato de que a organizadora do volume, Vera Malaguti Batista, cofundadora do Instituto Carioca de Criminologia, assim como os convidados &agrave; reflex&atilde;o cumprem dois pap&eacute;is que nos parecem essenciais. Primeiramente, o volume re&uacute;ne abordagens que 1) perpassam por conceitos de Michel Foucault, ora aproximando-se ora afastando-se; 2) apreciam as origens protestantes estadunidenses que sustentam a proposta do conceito de estado penal; 3) analisam uma pol&iacute;tica p&uacute;blica carioca implementada &agrave; luz da teoria em an&aacute;lise; 4) trazem &agrave; baila a participa&ccedil;&atilde;o dos espa&ccedil;os acad&ecirc;mico e cient&iacute;fico em &acirc;mbito internacional frente &agrave; quest&atilde;o penal, entre outras. A prele&ccedil;&atilde;o do volume reside na postura de di&aacute;logo aberto, no qual os convidados, mesmo reconhecendo-lhe o vigor te&oacute;rico e emp&iacute;rico, n&atilde;o deixam de sinalizar quest&otilde;es n&atilde;o pacificadas e eventuais sil&ecirc;ncios. Trata-se, a nosso ver, de um processo de organiza&ccedil;&atilde;o competente exatamente por agrupar abordagens polif&ocirc;nicas.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Wacquant, da Berkeley University e do Centre de Sociologie Europ&eacute;enne (Paris), trata enfaticamente cor/etnia e classe social como categorias de an&aacute;lise essenciais para compreens&atilde;o social e pol&iacute;tica da desigualdade social, pobreza e processos de marginaliza&ccedil;&atilde;o. &ldquo;Forjando o estado neoliberal: trabalho social, regime prisional e inseguran&ccedil;a social&rdquo;, assinado pelo homenageado, &eacute; a espinha dorsal da obra. Tomando como ponto de partida a reconfigura&ccedil;&atilde;o social empreendida a partir das d&eacute;cadas de 80 e 90 do s&eacute;culo passado, tornou-se patente a constru&ccedil;&atilde;o de um novo governo da inseguran&ccedil;a social, voltado para as tens&otilde;es inerentes &agrave;s &ldquo;popula&ccedil;&otilde;es problem&aacute;ticas&rdquo; e com objetivo un&iacute;voco: invisibiliz&aacute;-las. Governar a nova inseguran&ccedil;a social acabaria por imbricar duas vari&aacute;veis, a desregulamenta&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es de trabalho e o desmantelamento dos servi&ccedil;os de assist&ecirc;ncia social, como forma de encurralamento rumo a dois inexor&aacute;veis caminhos: &agrave; incisiva desqualifica&ccedil;&atilde;o da for&ccedil;a de trabalho do subproletariado ou ao crime. A nova gest&atilde;o da inseguran&ccedil;a social &eacute; a face travestida da nova gest&atilde;o da mis&eacute;ria.</p>     <p>Wacquant articula e amplia o conceito de campo burocr&aacute;tico, t&atilde;o caro que lhe serve como in&iacute;cio e como arremate do texto. Formulado por Pierre Bourdieu, campo burocr&aacute;tico configura-se como o <i>locus</i> das for&ccedil;as sociais, onde s&atilde;o mobilizados tanto o capital jur&iacute;dico quanto o capital simb&oacute;lico. Introduz no cerne do campo burocr&aacute;tico a pol&iacute;cia, todo o aparato judici&aacute;rio e as pris&otilde;es como espa&ccedil;os essenciais nas disputas simb&oacute;licas.</p>     <p>Em perspectiva hist&oacute;rica, det&eacute;m-se na compreens&atilde;o da crise mundial concomitantemente &agrave; desconstru&ccedil;&atilde;o do <i>welfare</i> <i>State, </i>amparada pela organiza&ccedil;&atilde;o institucional e discursiva do Estado penal, conceito central em toda obra de Wacquant. Com zelo, o herdeiro de Bourdieu desvela as teias de an&aacute;lise especialmente quando remete aos estudos de Frances Piven e Richard Cloward.</p>     <p>O tradutor de <i>Vigiar e punir<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a></i> para o ingl&ecirc;s tamb&eacute;m dialoga com outro grande pensador franc&ecirc;s &ndash; Foucault. Reconhecendo-o como o mais ambicioso te&oacute;rico a analisar o significado da penalidade, da pris&atilde;o e das formas de controlo no decurso dos s&eacute;culos e, como lhe cabe, de sua expans&atilde;o no s&eacute;culo xx, abre tamb&eacute;m pontos de discord&acirc;ncia. Apresentamos, sumariamente, as arestas levantadas.</p>     <p>A primeira foi a aposta <i>foucaultiana</i> de que as pris&otilde;es seguiriam rumo &agrave; extin&ccedil;&atilde;o, fato que a atual demografia do sistema carcer&aacute;rio contradiz. Em seguida, n&atilde;o obstante a difus&atilde;o das &ldquo;t&eacute;cnicas de adestramento&rdquo; visando os &ldquo;corpos d&oacute;ceis&rdquo;, Wacquant sustenta que, na pris&atilde;o, bem mais que o adestramento, empreende-se a &ldquo;neutraliza&ccedil;&atilde;o brutal&rdquo; do indiv&iacute;duo. Diverge tamb&eacute;m quanto &agrave; capilaridade dos &ldquo;dispositivos de normaliza&ccedil;&atilde;o&rdquo;, os quais, a seu ver, s&atilde;o especialmente contundentes no espa&ccedil;o penal, bem mais que na sociedade como um todo. Essa aresta nos parece existir em virtude da for&ccedil;a das duas categorias contundentes em sua an&aacute;lise, qual seja: classe social e cor/etnia. A quarta aresta diz respeito ao fato de que, no &uacute;ltimo quartel do s&eacute;culo xx, a puni&ccedil;&atilde;o continua vis&iacute;vel ao p&uacute;blico, sob a legitima&ccedil;&atilde;o do Estado, e com a m&iacute;dia fazendo preponderar a subjetiva&ccedil;&atilde;o coletiva da puni&ccedil;&atilde;o. Nesse &uacute;ltimo aspecto, Wacquant reconhece que, tendo sido publicado na d&eacute;cada de 1970, Foucault n&atilde;o poderia prever que o Estado viria a compartilhar a espetaculariza&ccedil;&atilde;o punitiva com a m&iacute;dia hegem&ocirc;nica.</p>     <p>A diversidade de abordagens reunidas na obra fica expressa nos cap&iacute;tulos seguintes. Arbitrariamente come&ccedil;amos por &ldquo;Subjetividades punitivo-penais&rdquo;, de autoria de Cec&iacute;lia Coimbra, da Universidade Federal Fluminense (UFF) e Estela Scheinvar, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Ambas concordam com o autor de <i>As</i> <i>pris&otilde;es da mis&eacute;ria</i> quanto &agrave;s formas de escamotear as tens&otilde;es sociais por meio da apologia e da regulamenta&ccedil;&atilde;o da puni&ccedil;&atilde;o, especialmente no tocante &agrave; invisibiliza&ccedil;&atilde;o e ao silenciamento das &ldquo;popula&ccedil;&otilde;es problem&aacute;ticas&rdquo;. Mas o que particulariza o ensaio em an&aacute;lise s&atilde;o os contrapontos por elas colocados diante dos argumentos litigiosos de Wacquant quanto a Foucault, problematizando o fato de a pris&atilde;o ser colocada como o cerne da l&oacute;gica prisional que, em &uacute;ltima an&aacute;lise, robustece o papel do Estado em (n&atilde;o) gerir as tens&otilde;es sociais.</p>     <p>J&aacute; em &ldquo;Punir os pobres: &oacute;bvio ululante! Ou n&atilde;o? Sociologia cr&iacute;tica da &lsquo;onda punitiva&rsquo;&rdquo;, de autoria dos professores Gis&aacute;lio Cerqueira Filho e Gislene Neder, ambos da UFF, surge a aposta na compreens&atilde;o do &ldquo;grande encarceramento&rdquo; como sintoma evidente da crise do petr&oacute;leo, de 1973, o qual impactou ostensivamente nas rela&ccedil;&otilde;es de for&ccedil;a pol&iacute;tica em &acirc;mbito internacional e contribu&iacute;ram para a transfigura&ccedil;&atilde;o do Estado caritativo (termo caro aos autores) para o Estado penal. A riqueza do ensaio tamb&eacute;m se reflete ao se abordar a influ&ecirc;ncia &ldquo;n&atilde;o intencional&rdquo; das ideias de Karl Marx, Friedrich Hegel e demais membros da Escola de Frankfurt sobre o pensamento de Wacquant, Bourdieu e Foucault no trato da quest&atilde;o da criminalidade.</p>     <p>Em &ldquo;Merci, Lo&iuml;c&rdquo;, o professor Nilo Batista, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, subdivide seu o artigo em oito itens. Com base nas correntes te&oacute;ricas e na historiografia do direito penal, Batista demonstra, em s&iacute;ntese, o persistente afastamento entre a pol&iacute;tica criminal e a ci&ecirc;ncia pol&iacute;tica. Como consequ&ecirc;ncia, o grande encarceramento imanente ao Estado punitivo tende a persistir, como tem previsto Wacquant, enquanto a pol&iacute;tica criminal n&atilde;o assumir, em alguma medida, o <i>ethos</i> da ci&ecirc;ncia pol&iacute;tica do poder punitivo, focalizando uma pol&iacute;tica p&uacute;blica implementada na cidade do Rio de Janeiro, atrav&eacute;s da Secretaria Municipal de Assist&ecirc;ncia Social, onde se promoveu um programa compuls&oacute;rio de interna&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o de rua: pobres, viciados em <i>crack</i>, etc., evidenciando-se uma pol&iacute;tica de assist&ecirc;ncia social dominada pela l&oacute;gica policialesca e pan-&oacute;ptica. Por fim, Batista dedica-se &agrave; realidade social &agrave; luz da teoria de Wacquant, sem melindres e sem disfarce sob discursos neutros e tecnicamente constru&iacute;dos.</p>     <p>Vera Malaguti Batista encerra a obra por ela organizada com o ensaio &ldquo;Ades&atilde;o subjetiva &agrave; barb&aacute;rie&rdquo;. Nele, levanta-se a seguinte pergunta: qual papel a Academia, por meio das universidades e de centros de pesquisa, tem assumindo frente ao processo de subjetiva&ccedil;&atilde;o punitiva em curso? Depois de todo o esfor&ccedil;o da obra em problematizar, (re)formular e propor reflex&otilde;es acerca da apropria&ccedil;&atilde;o discursivo-institucional acerca do duo crime-castigo, Malaguti coaduna com Edson Lopes (2009).<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a> Para ambos, a sociologia brasileira tem sucumbido &agrave; &ldquo;obsess&atilde;o pela seguran&ccedil;a&rdquo;, mas por meio da presta&ccedil;&atilde;o de estudos t&eacute;cnicos e &ldquo;neutros&rdquo;, suprimindo e/ou omitindo-se da cr&iacute;tica desse novo fen&ocirc;meno social e, como consequ&ecirc;ncia, entregando-se ao inexor&aacute;vel funcionamento do <i>status quo</i>; na hip&oacute;tese mais euf&ecirc;mica, silenciando-se e/ou fugindo ao debate, o que se resumiria, nos termos da autora, nos seguintes termos: &ldquo;O estado agencia o exterm&iacute;nio do cotidiano e a <i>intelligentzia</i> trata de mascar&aacute;-lo&rdquo; (p. 309).</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>NOTAS</b></p>     <!-- ref --><p><Sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></Sup> Foucault, Michel (1997), <i>Vigiar e punir: nascimento da pris&atilde;o</i>. Petr&oacute;polis, RJ: Editora Vozes. Tradu&ccedil;&atilde;o de Raquel Ramalhete.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1527070&pid=S2182-7435201600020000900001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p><Sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></Sup> Lopes, Edson (2009),<i> Pol&iacute;tica e seguran&ccedil;a p&uacute;blica</i>: <i>uma vontade de sujei&ccedil;&atilde;o</i>. Rio de Janeiro: Contraponto.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1527072&pid=S2182-7435201600020000900002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      ]]></body><back>
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