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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>DOSSIER</b></p>     <p><b>Entre c&eacute;u e terra, a bola. Uma introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Carlos Nolasco*,&nbsp;Francisco Pinheiro**</b></p>     <p>* Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra Col&eacute;gio de S. Jer&oacute;nimo, Largo D. Dinis, Apartado 3087, 3000-995 Coimbra, Portugal&nbsp;<a href="mailto:cmsnolasco@ces.uc.pt">cmsnolasco@ces.uc.pt</a></p>     <p>** Centro de Estudos Interdisciplinares do S&eacute;culo XX da Universidade de Coimbra &ndash; CEIS20 Rua Filipe Sim&otilde;es, 33, 3000-186 Coimbra, Portugal&nbsp;<a href="mailto:franciscopinheiro72@gmail.com">franciscopinheiro72@gmail.com</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>O poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade utilizou precisamente este t&iacute;tulo que agora recuper&aacute;mos para refletir sobre a exist&ecirc;ncia de &ldquo;dois c&eacute;us paralelos&rdquo; (2014: 120): o principal, aquele que est&aacute; &ldquo;nas alturas&rdquo;, e o segundo, o que resulta do futebol e dos &ldquo;santos&rdquo; por ele criados. &Eacute; precisamente este valor de divindade&shy;-religiosidade, obviamente simb&oacute;lico, que o futebol assumiu desde o seu surgimento.</p>     <p>Criado no s&eacute;culo xix, consolidado e globalizado no s&eacute;culo seguinte e totalmente mercantilizado no novo mil&eacute;nio, o futebol tornou&shy;-se uma esp&eacute;cie de inevitabilidade na vida contempor&acirc;nea. N&atilde;o est&aacute; somente nos est&aacute;dios, como em todos os espa&ccedil;os de sociabiliza&ccedil;&atilde;o, existindo como uma <i>futeboliza&ccedil;&atilde;o</i> (muitas das vezes fascizante do discurso popular e medi&aacute;tico) da sociedade globalizada, sendo ele mesmo um dos mais marcantes fen&oacute;menos da pr&oacute;pria globaliza&ccedil;&atilde;o. &Eacute; tema comum de conversas, obsess&atilde;o para muitos, assunto dominante na comunica&ccedil;&atilde;o social, invade o espa&ccedil;o p&uacute;blico e o campo pol&iacute;tico, assume&shy;-se como entidade cotada em bolsa, produto transacionado em m&uacute;ltiplos mercados. Afirmar a import&acirc;ncia do futebol nas sociedades contempor&acirc;neas tornou&shy;-se uma evid&ecirc;ncia exaustiva, desde logo pela posi&ccedil;&atilde;o hegem&oacute;nica que o jogo ocupa no &acirc;mbito da cultura popular massificada, mas tamb&eacute;m pelo car&aacute;ter transcendente que tem no quotidiano das pessoas e das sociedades. Tudo isto n&atilde;o &eacute; exclusivo de um &uacute;nico pa&iacute;s ou de um grupo restrito de pa&iacute;ses, e, ainda que com intensidades vari&aacute;veis, estende&shy;-se &agrave; escala global, deixando poucos espa&ccedil;os fora da sua din&acirc;mica e l&oacute;gica competitiva. Tornou&shy;-se, assim, no outro &ldquo;c&eacute;u&rdquo;, na assun&ccedil;&atilde;o de Drummond.&nbsp;</p>     <p>Intrinsecamente, o futebol &eacute; um jogo simples. Disputado por duas equipas, com id&ecirc;ntico (ou aproximado) n&uacute;mero de jogadores, os quais utilizando predominantemente os p&eacute;s, por vezes a cabe&ccedil;a e excecionalmente as m&atilde;os (por um dos elementos do jogo, o guarda&shy;-redes), t&ecirc;m como objetivo introduzir uma bola na baliza da equipa advers&aacute;ria, ganhando quem mais vezes o fizer. Na informalidade da rua, nos terrenos baldios da periferia de qualquer cidade, em pavilh&otilde;es ou nos est&aacute;dios, o futebol joga&shy;-se sempre da mesma forma: fintas, passes, remates e golos s&atilde;o a sua subst&acirc;ncia. Consoante o espa&ccedil;o em que &eacute; jogado, o perfil dos jogadores e as regras estabelecidas, as variantes futebol&iacute;sticas sucedem&shy;-se num cont&iacute;nuo que vai da informalidade do futebol de rua ao profissionalismo da alta competi&ccedil;&atilde;o, onde o modelo institucional da F&eacute;d&eacute;ration Internationale de Football Association (FIFA) se constitui como hegem&oacute;nica.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Inserido na din&acirc;mica de industrializa&ccedil;&atilde;o, urbaniza&ccedil;&atilde;o e modernidade da Inglaterra de meados do s&eacute;culo xix, ao jogo l&uacute;dico de futebol foram adicionados um conjunto de elementos que o converteram em desporto: a institucionaliza&ccedil;&atilde;o, com a cria&ccedil;&atilde;o de entidades federativas que a n&iacute;vel nacional e internacional se encarregaram de uniformizar regras e organizar competi&ccedil;&otilde;es; a racionaliza&ccedil;&atilde;o do jogo, no sentido da rentabiliza&ccedil;&atilde;o de desempenhos t&eacute;cnicos e t&aacute;ticos, com vista a potenciar a competitividade; a seculariza&ccedil;&atilde;o das pr&aacute;ticas, descoladas do misticismo religioso e cada vez mais associadas &agrave;s din&acirc;micas da modernidade. Ao futebol, entretanto convertido em desporto, foram&shy;-se juntando outras camadas culturais e simb&oacute;licas, identit&aacute;rias, pol&iacute;ticas e econ&oacute;micas ao longo do s&eacute;culo xx. Neste processo, o futebol, apesar das sucessivas metamorfoses que converteram os clubes em empresas, os jogadores em trabalhadores e os adeptos em consumidores, continua a ser um jogo. &Agrave; imagem e semelhan&ccedil;a do que as crian&ccedil;as fazem em qualquer jogo na rua, os jogadores dos mais importantes clubes fazem exatamente o mesmo, jogam. Essa persist&ecirc;ncia do espa&ccedil;o m&aacute;gico do jogo no dom&iacute;nio do sofisticad&iacute;ssimo futebol contempor&acirc;neo converte esta modalidade desportiva numa atividade peculiar, facto que se reflete na exist&ecirc;ncia de um espa&ccedil;o/tempo paralelo ao espa&ccedil;o/tempo real, legitimando pr&aacute;ticas associais transgressivas da normalidade.</p>     <p>Sendo um jogo simples, o futebol &eacute;, contudo, um fen&oacute;meno complexo e contradit&oacute;rio pela multiplicidade de dimens&otilde;es que acumula e pelas emo&ccedil;&otilde;es que suscita. Segundo o antrop&oacute;logo Christian Bromberger (1998), o futebol &eacute; uma met&aacute;fora da vida e, por isso, &ldquo;a mais s&eacute;ria bagatela do mundo&rdquo;. Ideia que se reflete nas palavras de Bill Shankly, antigo futebolista escoc&ecirc;s e lend&aacute;rio treinador do Liverpool (1959&shy;-1974), quando afirmou que &ldquo;o futebol n&atilde;o &eacute; uma quest&atilde;o de vida ou morte, &eacute; muito mais importante que isso&rdquo;.<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a> Tamb&eacute;m o realizador s&eacute;rvio Emir Kusturica, quando inquirido sobre se a Jugosl&aacute;via de antes de 1990 era uma fic&ccedil;&atilde;o, respondeu que &ldquo;n&atilde;o se sente um pa&iacute;s como uma fic&ccedil;&atilde;o quando h&aacute; uma sele&ccedil;&atilde;o nacional de futebol&rdquo;.<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a> Essa constata&ccedil;&atilde;o remete para a recria&ccedil;&atilde;o das &ldquo;comunidades imaginadas&rdquo; (Anderson, 2006), das quais o Brasil &eacute; um exemplo, legitimado por Gilberto Freyre (1938), quando refere a especificidade do jeito brasileiro de jogar,<sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a> e sublinhado por Nelson Rodrigues, quando afirma que a sele&ccedil;&atilde;o brasileira &ldquo;&eacute; a p&aacute;tria em cal&ccedil;&otilde;es e chuteiras, a dar r&uacute;tilas botinadas, em todas as dire&ccedil;&otilde;es. O escrete representa os nossos defeitos e nossas virtudes&rdquo; (1994: 179).<sup><a href="#4">4</a></sup><a name="top4"></a> Constatamos assim que o futebol, sendo um jogo simples, n&atilde;o &eacute; um fen&oacute;meno unidimensional e linear. Bem pelo contr&aacute;rio, &eacute; um fen&oacute;meno complexo e contradit&oacute;rio, condensando em si uma multiplicidade de dimens&otilde;es latentes (Elias e Dunning, 1992: 49), sistematicamente encobertas pela exalta&ccedil;&atilde;o dos resultados das competi&ccedil;&otilde;es e pelas narrativas apolog&eacute;ticas dos &ldquo;grandes&rdquo; jogos e jogadores. O futebol assume&shy;-se como &ldquo;uma linguagem&rdquo;, com &ldquo;os seus poetas e os seus prosadores&rdquo;, como sublinhou o realizador italiano Pier Paolo Pasolini (2015: 54).</p>     <p>Paradoxalmente, o futebol tem concentrado pouca aten&ccedil;&atilde;o e considera&ccedil;&atilde;o por parte das Ci&ecirc;ncias Sociais e Humanas, sobretudo no contexto do sul da Europa. Somente nas &uacute;ltimas duas d&eacute;cadas essa situa&ccedil;&atilde;o evoluiu favoravelmente para um maior volume de produ&ccedil;&atilde;o acad&eacute;mica, assistindo&shy;-se a uma progressiva institucionaliza&ccedil;&atilde;o do tema em disciplinas como a Hist&oacute;ria, a Sociologia, a Antropologia ou a Economia. Contudo, este continua a ser um fen&oacute;meno social displicentemente considerado e desprezado por um certo <i>mainstream</i> acad&eacute;mico. A desconsidera&ccedil;&atilde;o acad&eacute;mica para com o futebol resulta em grande medida de um preconceito epistemol&oacute;gico, que &eacute; comum a muitos outros fen&oacute;menos expressivos da cultura popular. Esse desprezo pelo futebol deve&shy;-se ao facto de ser considerado como algo &ldquo;que se avalia de modo negativo no complexo dicot&oacute;mico de sobreposi&ccedil;&atilde;o convencionalmente aceite, como, por exemplo entre fen&oacute;menos de trabalho/lazer, esp&iacute;rito/corpo, sociedade/prazer, econ&oacute;mico/n&atilde;o econ&oacute;mico (&hellip;) ou seja, segundo o pensamento reducionista e dualista ocidental, o desporto &eacute; entendido como coisa vulgar, uma atividade de lazer orientada para o prazer, que envolve o corpo mais do que a mente, e sem valor econ&oacute;mico&rdquo;, como afirmaram os soci&oacute;logos Norbert Elias e Eric Dunning em 1992 &ndash; reflex&atilde;o que ainda hoje se mant&eacute;m atual. O facto de o futebol ser cada vez mais um produto econ&oacute;mico tem contribu&iacute;do para atenuar esse preconceito, contudo, o mesmo n&atilde;o &eacute; totalmente superado devido &agrave; inevit&aacute;vel componente irracional sempre inerente ao jogo.</p>     <p>O desprezo acad&eacute;mico para com o futebol resulta de um entendimento cr&iacute;tico de que o desporto que funciona como escape para as tens&otilde;es do quotidiano &eacute; o mesmo que prepara os indiv&iacute;duos para mais trabalho, real&ccedil;ando&shy;-se assim o potencial de aliena&ccedil;&atilde;o que o futebol cont&eacute;m, bem como o seu car&aacute;ter funcional na reprodu&ccedil;&atilde;o do sistema capitalista (Brohm e Perelman, 2006). Ainda que n&atilde;o de forma direta para com o futebol, o desprezo de autores como Theodor Adorno (2003) pelas manifesta&ccedil;&otilde;es massificadas enquanto express&atilde;o da <i>cultura industrial, </i>ou de Hannah Arendt (2006) para com as massas humanas sem v&iacute;nculo social a qualquer projeto pol&iacute;tico, provocaram uma preconceituosa nega&ccedil;&atilde;o do valor social do futebol enquanto objeto de investiga&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>O olhar displicente sobre o futebol contribuiu para a aus&ecirc;ncia de uma interpreta&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica, que fosse al&eacute;m da cr&iacute;tica marxista. Simultaneamente, o olhar acr&iacute;tico sobre este desporto alimentou uma interpreta&ccedil;&atilde;o estruturalista do mesmo, na qual se real&ccedil;am essencialmente os m&eacute;ritos funcionais da simbiose entre futebol e sociedade. Contudo, reflexo das circunst&acirc;ncias em que acontece, o futebol contempor&acirc;neo, e em particular o futebol formal de competi&ccedil;&atilde;o, metamorfoseou&shy;-se com a economia, adulterou&shy;-se com a pol&iacute;tica e frustrou&shy;-se com a corrup&ccedil;&atilde;o, viol&ecirc;ncia, xenofobia e discrimina&ccedil;&atilde;o, para al&eacute;m de pr&aacute;tica p&oacute;s&shy;-colonialista, instrumento de totalitarismos e jogo de estrat&eacute;gia capitalista. Todas estas circunst&acirc;ncias tornam urgente um olhar que questione a forma do futebol acontecer, as suas possibilidades e potencialidades, ou ent&atilde;o a aus&ecirc;ncia das mesmas. Num momento de questionamento das sociedades atuais, em que se colocam perguntas fortes ao modelo pol&iacute;tico e econ&oacute;mico dominante e ao paradigma epistemol&oacute;gico que o sustenta, o futebol enquanto produto desse contexto n&atilde;o pode deixar de ser questionado.</p>     <p>Os textos que se apresentam neste <i>dossier</i> v&atilde;o ao encontro precisamente desta preocupa&ccedil;&atilde;o, simultaneamente cient&iacute;fica e social, mostrando que as manifesta&ccedil;&otilde;es fascistas, nacionalistas e xen&oacute;fobas nas bancadas dos est&aacute;dios, bem como os processos de corrup&ccedil;&atilde;o que corroem as inst&acirc;ncias futebol&iacute;sticas e a apropria&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica e financeira dos clubes, s&atilde;o produto e consequ&ecirc;ncia de sociedades que se deslumbram com o jogo. Possibilidades alternativas existem, como o modelo de <i>f&uacute;tbol callejero</i> proposto num dos textos. Assim, este <i>dossier</i> &eacute; composto por quatro artigos, diversos na sua origem geogr&aacute;fica e autoral, e distintos na abordagem que desenvolvem.</p>     <p>O artigo de Simon Martin, &ldquo;Football, Fascism and Fandom in Modern Italy&rdquo; aborda a persist&ecirc;ncia de manifesta&ccedil;&otilde;es e comportamentos fascistas nos est&aacute;dios de futebol italianos. Com base numa an&aacute;lise que remonta &agrave; d&eacute;cada de 1920 at&eacute; ao presente, o autor estabelece uma rela&ccedil;&atilde;o entre o desenvolvimento do futebol em It&aacute;lia e a evolu&ccedil;&atilde;o do Estado, fazendo um paralelo com a continuidade de manifesta&ccedil;&otilde;es fascistas nos est&aacute;dios. Assumindo a n&atilde;o linearidade da hist&oacute;ria, Simon Martin assinala a interven&ccedil;&atilde;o do Estado fascista dos anos 20 e 30 no futebol, nomeadamente na forma como utilizou a modalidade para se afirmar interna e internacionalmente. As atuais manifesta&ccedil;&otilde;es fascistas nas bancadas dos est&aacute;dios, sendo uma reminisc&ecirc;ncia desse per&iacute;odo, devem&shy;-se, segundo o autor, &agrave; absten&ccedil;&atilde;o do Estado em intervir no assunto. O artigo ganha particular relev&acirc;ncia quando se constata a sistem&aacute;tica utiliza&ccedil;&atilde;o que, por toda a Europa, movimentos de extrema&shy;-direita fazem dos est&aacute;dios, como locais privilegiados para propagandearem mensagens nacionalistas e xen&oacute;fobas, exercerem viol&ecirc;ncia e recrutarem novos membros entre as claques radicais dos clubes.</p>     <p>No texto &ldquo;F&uacute;tbol, modelos jur&iacute;dicos y mercado: el dilema de los clubes en Sudam&eacute;rica&rdquo;, Ver&oacute;nica Moreira analisa os impactos da mudan&ccedil;a estrutural do futebol sul&shy;-americano em consequ&ecirc;ncia do processo de mercantiliza&ccedil;&atilde;o global do jogo. Centrado no caso argentino, mas tendo igualmente em considera&ccedil;&atilde;o outras realidades, nomeadamente os casos do futebol chileno e brasileiro, a autora estabelece um v&iacute;nculo entre a forma como as mudan&ccedil;as de perfil jur&iacute;dico dos clubes para sociedades an&oacute;nimas desportivas se refletem no envolvimento dos adeptos, nas din&acirc;micas dos mercados futebol&iacute;sticos e nas pol&iacute;ticas institucionais. O tema abordado por Ver&oacute;nica Moreira &eacute; de enorme pertin&ecirc;ncia e transport&aacute;vel para a pr&oacute;pria realidade europeia, pois a reformula&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dica das entidades desportivas para um modelo empresarial revela in&uacute;meras incompatibilidades com o envolvimento emocional dos adeptos na gest&atilde;o dos clubes. Por outro lado, esse modelo &eacute; contr&aacute;rio a uma gest&atilde;o emocionada das entidades desportivas para com um mercado racionalizado e competitivo. &Agrave; semelhan&ccedil;a do que se passou na Europa, em particular no futebol brit&acirc;nico, o descontentamento dos adeptos face &agrave;s transforma&ccedil;&otilde;es estruturais e decis&otilde;es pol&iacute;ticas tomadas pelos dirigentes dos clubes est&aacute; a provocar pontos de tens&atilde;o num equil&iacute;brio j&aacute; de si prec&aacute;rio.</p>     <p>O artigo de Maur&iacute;cio Mendes Belmonte e Luiz Gon&ccedil;alves Junior, intitulado &ldquo;<i>F&uacute;tbol callejero</i>: nascido e criado no Sul&rdquo;, prop&otilde;e analisar como uma pr&aacute;tica futebol&iacute;stica alternativa ao futebol oficial da FIFA se constitui como socialmente emancipat&oacute;ria. O <i>f&uacute;tbol callejero</i> surge como um jogo de rua, n&atilde;o submisso ao modelo de futebol dominante, com outra l&oacute;gica de ser jogado e com objetivos distintos da vit&oacute;ria. Essa outra filosofia de jogo proporciona aprendizagens m&uacute;tuas de consci&ecirc;ncia social, de cidadania e emancipa&ccedil;&atilde;o, desde logo porque nunca se joga <i>contra</i> algu&eacute;m mas sim <i>com</i> algu&eacute;m. O texto, para al&eacute;m de caracterizar este <i>f&uacute;tbol callejero</i>, mostra como a pr&aacute;tica alternativa deste jogo se constituiu como projeto educativo de uma motricidade relevante, nascida e criada no Sul. Considerando o suposto esgotamento do modelo formal de futebol, importa procurar alternativas de jogo que superem as formas de domina&ccedil;&atilde;o capitalista, patriarcal e racial da modernidade. Este artigo vai ao encontro dessas alternativas, respondendo a muitos dos desafios das epistemologias do Sul.</p>     <p>A fechar este <i>dossier</i> apresentamos uma reflex&atilde;o do investigador James M. Dorsey, um dos mais respeitados especialistas sobre futebol no M&eacute;dio Oriente. &Eacute; uma das vozes mais ativas e controversas na an&aacute;lise sobre o fen&oacute;meno futebol&iacute;stico nessa regi&atilde;o, fazendo neste artigo uma reflex&atilde;o sobre as implica&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas da organiza&ccedil;&atilde;o do Campeonato do Mundo de Futebol de 2022 pelo Catar. Envolvido numa permanente crise diplom&aacute;tica e em boicotes sucessivos por parte da Ar&aacute;bia Saudita, Emirados &Aacute;rabes Unidos, Egito e <i>Bahrain</i>, o pequeno estado do Catar definiu como priorit&aacute;ria uma estrat&eacute;gia <i>soft power</i>, tendo o desporto, em especial o futebol, como elemento&shy;-chave. Quest&otilde;es religiosas, corrup&ccedil;&atilde;o, diplomacia e o papel pol&iacute;tico da FIFA s&atilde;o elementos que se entrecruzam neste texto, que deve ser visto como um ensaio reflexivo, baseado numa profunda pesquisa nos <i>media </i>e que tem como principal foco o futebol e a pol&iacute;tica na regi&atilde;o do Golfo P&eacute;rsico. Para Dorsey, &ldquo;desporto &eacute; pol&iacute;tica, por defini&ccedil;&atilde;o&rdquo;.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Este <i>dossier</i> &eacute; assim formado por textos complementares entre si, abrangendo tem&aacute;ticas e abordagens diferentes, sobre tr&ecirc;s regi&otilde;es distintas do globo. O ponto de converg&ecirc;ncia &eacute; &ldquo;a bola&rdquo;, um dos &ldquo;dois c&eacute;us paralelos&rdquo; de que falava Carlos Drummond de Andrade.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias Bibliogr&aacute;ficas</b></p>     <!-- ref --><p>Adorno, Theodor W. (2003), <i>Sobre a ind&uacute;stria da cultura</i>. Coimbra: Angelus Novus.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1536932&pid=S2182-7435201800020000500001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Anderson, Benedict (2006), <i>Imagined Communities</i>. London: Verso.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1536934&pid=S2182-7435201800020000500002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Andrade, Carlos Drummond de (2014), <i>Quando &eacute; dia de futebol</i>. S&atilde;o Paulo: Companhia das Letras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1536936&pid=S2182-7435201800020000500003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Arendt, Hanna (2006), <i>As origens do totalitarismo</i>. Lisboa: Dom Quixote.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1536938&pid=S2182-7435201800020000500004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Brohm, Jean&shy;-Marie; Perelman, Marc (2006), <i>Le football, une peste &eacute;motionnelle</i>. Paris: &Eacute;ditions Gallimard.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1536940&pid=S2182-7435201800020000500005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Bromberger, Christian (1998), <i>Football, la bagatelle la plus s&eacute;rieuse du monde</i>. Paris: Bayard Centurion.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1536942&pid=S2182-7435201800020000500006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Elias, Norbert; Dunning, Eric (1992), <i>A busca da excita&ccedil;&atilde;o</i>. Lisboa: Difel.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1536944&pid=S2182-7435201800020000500007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Freyre, Gilberto (1938), &ldquo;Foot&shy;-ball mulato&rdquo;, <i>Di&aacute;rio Pernanbucano</i>, de 17 de junho.</p>     <!-- ref --><p>Pasolini, Pier Paolo (2015), <i>Sobre el deporte</i>. Barcelona: Contra.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1536947&pid=S2182-7435201800020000500008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Rodrigues, Nelson (1994), <i>A p&aacute;tria em chuteiras</i>. S&atilde;o Paulo: Companhia das Letras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1536949&pid=S2182-7435201800020000500009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>NOTAS</b></p>     <p><Sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></Sup> Frase proferida durante uma entrevista, quando comentava a rela&ccedil;&atilde;o entre os adeptos do Liverpool e os do Everton. Consultado a 02.05.2018, em <a href="http://www.shankly.com/article/2517" target="_blank">http://www.shankly.com/article/2517</a>.</p>     <p><Sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></Sup> Seman&aacute;rio portugu&ecirc;s<i> J&aacute;</i>, de 14 de mar&ccedil;o de 1996.</p>     <p><Sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></Sup> Segundo Freyre, o estilo brasileiro de jogar &ndash; &ldquo;o qual arredonda e ado&ccedil;a o jogo inventado pelos ingleses&rdquo; &ndash; define&shy;-se com base nas qualidades da surpresa, manha, ast&uacute;cia, ligeireza e espontaneidade individual.</p>     <p><Sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></Sup> Texto inicialmente publicado sob a forma de cr&oacute;nica, em 2 de junho de 1976 no jornal <i>O Globo</i>.</p>      ]]></body><back>
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