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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ENTREVISTA</b></p>     <p><b>Socialismo, democracia e epistemologias do Sul. Entrevista com Boaventura    de Sousa Santos</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Bruno Sena Martins*,&nbsp;Boaventura de Sousa Santos**</b></p>     <p>* Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Col&eacute;gio de S.    Jer&oacute;nimo, Largo D. Dinis, Apartado 3087, 3000-995 Coimbra, Portugal&nbsp;<a href="mailto:bsenamartins@ces.uc.pt">bsenamartins@ces.uc.pt</a></p>     <p>** Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Col&eacute;gio de    S. Jer&oacute;nimo, Largo D. Dinis, Apartado 3087, 3000-995 Coimbra, Portugal&nbsp;<a href="mailto:bsantos@ces.uc.pt">bsantos@ces.uc.pt</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Palavras-chave:</b> epistemologias do Sul, marxismo, movimentos sociais,    p&oacute;s-colonialismo, socialismo, sociologia do direito</p>     <p><b>Keywords:</b> epistemologies of the South, marxism, post-colonialism, social    movements, socialism, sociology of law</p>     <p><b>Mots-cl&eacute;s:</b> &eacute;pist&eacute;mologies du Sud, marxisme, mouvements    sociaux, post-colonialisme, socialisme, sociologie du droit</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>Bruno Sena Martins (BSM):</b> &Eacute; uma honra poder fazer-lhe esta entrevista    por ocasi&atilde;o dos 40 anos da <i>Revista Cr&iacute;tica de Ci&ecirc;ncias    Sociais</i> e tamb&eacute;m dos 40 anos do Centro de Estudos Sociais (CES) da    Universidade de Coimbra. Completou a licenciatura em Direito na Universidade    de Coimbra, nos anos 1960, com 17 valores, tendo sido convidado para lecionar    nesse mesmo curso como assistente. Assim revisitado sem mais, o seu percurso    profissional parecia estar definido no Direito. O que &eacute; que aconteceu    para que hoje eu esteja a falar com um soci&oacute;logo que se notabilizou por    tratar a rela&ccedil;&atilde;o entre justi&ccedil;a social e justi&ccedil;a    cognitiva?</p>     <p><b>Boaventura de Sousa Santos (BSS): </b>&Eacute; uma pergunta muito boa. Realmente        eu fiz a licenciatura em Direito, porque na altura n&atilde;o havia em Portugal        outra &aacute;rea em que eu pudesse trabalhar &ndash; digamos assim &ndash;        as quest&otilde;es sociais. Era o Direito, n&atilde;o havia Sociologia, n&atilde;o        havia Ci&ecirc;ncias Sociais aqui em Coimbra, e eu fiz essa op&ccedil;&atilde;o,        talvez tamb&eacute;m por ter a ideia de que a Faculdade de Direito daria a ascens&atilde;o        social a algu&eacute;m, como eu, que vinha da classe oper&aacute;ria. O meu        pai era chefe de cozinha de um restaurante de Coimbra, bastante famoso enquanto      ]]></body>
<body><![CDATA[  cozinheiro no Caf&eacute; Nicola e, por aquilo que me dizem, eu terei sido o        primeiro filho da classe oper&aacute;ria a entrar na Faculdade de Direito em        Coimbra, o que foi de alguma maneira um esc&acirc;ndalo &ndash; est&aacute;vamos        em 1957 e o esc&acirc;ndalo era maior por eu ser tamb&eacute;m o melhor aluno        da Faculdade, &agrave;s vezes em competi&ccedil;&atilde;o com outro colega,        nomeadamente o Artur Santos Silva, mais tarde Presidente da Funda&ccedil;&atilde;o        Calouste Gulbenkian. E eu realmente quando fiz o curso de Direito, o meu desejo        e a minha inclina&ccedil;&atilde;o era a Filosofia. Eu podia, ali&aacute;s,        ter ido para Filosofia, mas de todo o modo pareceu-me que a&iacute; tamb&eacute;m        n&atilde;o tratava os problemas sociais e tamb&eacute;m n&atilde;o significava      ]]></body>
<body><![CDATA[  a tal ascens&atilde;o. Para uma fam&iacute;lia como a minha, a ida do seu filho        para a Faculdade de Direito representava uma posi&ccedil;&atilde;o forte na        sociedade portuguesa &ndash; uma sociedade muito elitista na altura, obviamente        tamb&eacute;m pela ditadura, e a Universidade de Coimbra era o s&iacute;mbolo        de todo esse elitismo. Eu nessa altura estava muito ligado ao movimento cat&oacute;lico        estudantil e fui aprofundando a minha filia&ccedil;&atilde;o nas correntes que        existiam em Coimbra e que, de alguma maneira, eram j&aacute; um fermento de        uma cr&iacute;tica por via crist&atilde; ao fascismo salazarista, e a&iacute;        havia realmente alguns padres que eram muito fortes nesse movimento e que de        alguma maneira condicionaram muito a minha forma&ccedil;&atilde;o. O mais importante      ]]></body>
<body><![CDATA[  de todos foi o professor Miguel Batista Pereira que eu conheci e desde muito        cedo privei com ele. Foi a&iacute; que desenvolvi, em longos passeios que se        prolongaram por mais de uma d&eacute;cada, durante a minha formatura e, depois,        quando regressei a Coimbra de Berlim, um di&aacute;logo intelectual sobre a        Filosofia, fundamentalmente Filosofia alem&atilde; que era aquilo que se estudava        e que eu pude estudar melhor quando regressei de Berlim. Em Coimbra, na forma&ccedil;&atilde;o        secund&aacute;ria, quem queria ir para Direito tinha de estudar, al&eacute;m        do franc&ecirc;s e do ingl&ecirc;s, o alem&atilde;o, e portanto eu j&aacute;        come&ccedil;ava a poder ler o alem&atilde;o nessa altura &ndash; antes de ir        para Berlim &ndash; mas com dificuldade. De todo o modo, o Direito nunca me      ]]></body>
<body><![CDATA[  atraiu por aquilo que era mais imediato numa formatura em Direito, que era o        poder, o poder social em si mesmo, como poder financeiro. Realmente, os professores        na Faculdade de Direito eram conhecidos por ter um alto perfil intelectual e        filos&oacute;fico tamb&eacute;m &ndash; penso que muito superior &agrave;quele        que t&ecirc;m hoje &ndash;, era gente muito preparada com longas horas de trabalho,        foi a minha grande oficina de trabalho, era gente que trabalhava longu&iacute;ssimas        horas na faculdade. Mas onde eles ganhavam muito dinheiro era nos c&eacute;lebres        pareceres, que eram opini&otilde;es jur&iacute;dicas de casos importantes, obviamente        os casos de pessoas importantes que podiam pagar bons advogados para fundamentar        as defesas dos seus constituintes, era gente que podia recorrer aos professores      ]]></body>
<body><![CDATA[  da Faculdade de Direito de Coimbra, que era nessa altura o centro do pensamento        jur&iacute;dico em Portugal, e n&atilde;o s&oacute; em Portugal, tamb&eacute;m        no Brasil. Era exportado de Portugal, continuava a ser exportado de Portugal        para as col&oacute;nias e naturalmente tamb&eacute;m para o Brasil, j&aacute;        muito depois da independ&ecirc;ncia. Isso nunca me atraiu, de facto, &agrave;s        vezes at&eacute; ficava escandalizado como &eacute; que era poss&iacute;vel        ganhar tanto dinheiro em t&atilde;o pouco tempo, porque assistia &agrave;s conversas        e aos detalhes de uma opini&atilde;o jur&iacute;dica que n&atilde;o levava muito        tempo a fazer, mas pela qual se cobrava quantias astron&oacute;micas. De maneira        que me formei, realmente como melhor aluno, nessa altura quem se formasse com      ]]></body>
<body><![CDATA[  nota superior a 17 ou 18 era convidado quase automaticamente como assistente,        como aconteceu comigo. Mas, entretanto, eu tinha ganho uma bolsa de estudos        para o melhor aluno da Faculdade de Direito, penso que numa das &aacute;reas        do Direito. Era uma bolsa com o nome do primeiro-ministro da Alemanha Ocidental        na altura, que era Ludwig Erhard. Deram-me essa bolsa para estudar na Alemanha        Ocidental e eu escolhi imediatamente Berlim Ocidental por causa de uma grande        atra&ccedil;&atilde;o. Era uma cidade dividida pelo Muro, entre a parte oriental        e a parte ocidental, uma parte comunista e uma parte capitalista, onde estava        tamb&eacute;m a Universidade Livre, que era uma universidade criada depois da        guerra para ser a contraparte &agrave; grande Universidade de Berlim, a Universidade      ]]></body>
<body><![CDATA[  Humboldt que estava no outro lado do Muro, na parte comunista. E era tamb&eacute;m        a minha oportunidade para estudar Filosofia. E assim quando fui para Berlim        &ndash; e lembro que eu nunca tinha sa&iacute;do de Portugal, tinha apenas feito        uma visita de estudo no final do ensino secund&aacute;rio ao Algarve, foi assim        a dist&acirc;ncia maior que eu percorri em Portugal &ndash;, fui de comboio        para a Alemanha. Foi o primeiro grande trauma da minha m&atilde;e, o seu filho        &uacute;nico, muito mimado, ir para Berlim com todos os problemas e perigos        que na altura pareciam existir para quem n&atilde;o estava muito habituado a        essas viagens, a n&atilde;o ser aqueles em cujas fam&iacute;lias tinha havido        emigrantes para a Alemanha ou para a Fran&ccedil;a, o que n&atilde;o era o nosso      ]]></body>
<body><![CDATA[  caso. Fui para Berlim, estive l&aacute; um ano e tal, j&aacute; n&atilde;o me        lembro exatamente quanto, mas foi mais de um ano, e fundamentalmente eu estive        a estudar Filosofia, porque era um curso livre, assistia &agrave;s aulas na        Faculdade de Direito, sobretudo Filosofia do Direito. Estava numa resid&ecirc;ncia        cat&oacute;lica onde se arejava extraordinariamente o pensamento que eu levava        daqui como pensamento dominante, um pensamento cat&oacute;lico retr&oacute;grado        e tamb&eacute;m politicamente pouco alerta. E &eacute; realmente Berlim que        me desperta politicamente para todo o movimento democr&aacute;tico. Tinha participado        como estudante nalgumas lutas democr&aacute;ticas, de oposi&ccedil;&atilde;o        aqui em Portugal, fundamentalmente do movimento estudantil, que nessa altura      ]]></body>
<body><![CDATA[  aqui em Coimbra se centrava no Centro Acad&eacute;mico de Democracia Crist&atilde;        (CADC) &ndash; que tinha sido criado pelo Salazar, mas que naquela altura, exatamente        enquanto eu fui estudante, foi protagonista de uma grande transforma&ccedil;&atilde;o        interna, at&eacute; 1960, no sentido de o abrir &agrave;s ideias democr&aacute;ticas        e &agrave;s ideias de renova&ccedil;&atilde;o. Com muita influ&ecirc;ncia desses        padres que eram progressistas e que nos ajudaram bastante foi a&iacute; que        se estabeleceu uma liga&ccedil;&atilde;o entre os estudantes cat&oacute;licos,        a JUC, a Juventude Universit&aacute;ria Cat&oacute;lica, a n&iacute;vel do pa&iacute;s,        como tamb&eacute;m se chamava. N&oacute;s em Coimbra n&atilde;o t&iacute;nhamos        a JUC porque era o CADC e a&iacute; estabelecemos tamb&eacute;m liga&ccedil;&otilde;es      ]]></body>
<body><![CDATA[  com o movimento estudantil de esquerda, que j&aacute; nessa altura era a Uni&atilde;o        Nacional de Estudantes muito controlada pelo Partido Comunista Portugu&ecirc;s,        ent&atilde;o na clandestinidade. Lembro-me muito bem das reuni&otilde;es entre        n&oacute;s e eles, a preparar o Dia Mundial do Estudante e outras iniciativas,        que na altura fermentavam na Academia de Coimbra e que eram extremamente problem&aacute;ticas,        tanto assim que n&atilde;o houve Queima das Fitas no ano em que eu iria p&ocirc;r        as fitas largas e iria nos carros no cortejo da Queima das Fitas, o que foi        um grande desgosto para a minha m&atilde;e. E, portanto, foi em Berlim que eu        realmente me desenvolvi politicamente, fiquei muito mais alerta para as quest&otilde;es        da justi&ccedil;a social e ao mesmo tempo tamb&eacute;m para a filosofia, que      ]]></body>
<body><![CDATA[  estudei profundamente porque ent&atilde;o j&aacute; podia ler e falar fluentemente        o alem&atilde;o. A&iacute; realmente o meu grande exerc&iacute;cio foi poder        ler, lembro-me muito do meu primeiro livro de filosofia, que era uma filosofia        do direito e pol&iacute;tica do Gustav Radbruch, <i>Der Mensch im Recht</i>,        o Homem no Direito, que era um livro muito popular naquela altura, no sentido        de dar uma resposta a todo o positivismo que tinha defendido do ponto de vista        filos&oacute;fico e jur&iacute;dico a jurisprud&ecirc;ncia nazi. A Universidade        Livre para mim era um grande centro de resist&ecirc;ncia &agrave;s ideias jur&iacute;dicas        nazis, com renova&ccedil;&atilde;o das correntes filos&oacute;ficas e jur&iacute;dicas,        muitas delas identificadas com um certo jusnaturalismo, portanto, o direito      ]]></body>
<body><![CDATA[  natural contra, enfim, o positivismo que desarmara o sistema jur&iacute;dico        ante a pervers&atilde;o nazi. Por outro lado, Berlim era uma montra, na medida        em que do outro lado estava o mundo comunista e n&oacute;s, estrangeiros, pod&iacute;amos        atravessar o Muro e viajar quer de comboio ou de metro, quer de carro, para        o outro lado e pod&iacute;amos faz&ecirc;-lo sempre que quis&eacute;ssemos e        quando quis&eacute;ssemos, desde que n&atilde;o pernoit&aacute;ssemos, uma vez        que a&iacute; j&aacute; era precisa uma autoriza&ccedil;&atilde;o. Tive muita        curiosidade por ir ver imediatamente o outro lado e foi extremamente importante,        muito mais at&eacute; do que eu possa pensar, na medida em que foi a&iacute;,        por exemplo, em que tive muito contacto com a literatura comunista, as obras      ]]></body>
<body><![CDATA[  do Lenine, Marx, que nos eram oferecidas na fronteira sempre que a atravess&aacute;vamos        e que colecion&aacute;vamos nos nossos quartos. E ao mesmo tempo o conhecimento        da outra sociedade, que era onde estava, enfim, a parte mais monumental de Berlim,        estava do outro lado. No fundo Berlim tinha sido conquistada pelos russos e        n&atilde;o pelos norte-americanos e, portanto, era uma boa parte de Berlim que        estava do outro lado. E era uma vida totalmente contrastante com a vida de Berlim        Ocidental. Havia ali dois mundos praticamente a dez metros, dois mundos completamente        distintos e eu n&atilde;o tive d&uacute;vidas que o mundo em que eu preferia        viver era o de Berlim Ocidental &ndash; sobretudo como um jovem que vinha de        um pa&iacute;s menos desenvolvido que a Alemanha e obviamente numa ditadura      ]]></body>
<body><![CDATA[  &ndash; era realmente a solu&ccedil;&atilde;o que me parecia mais adequada.        Era a divis&atilde;o entre o mundo comunista e o mundo capitalista que se estava        a aprofundar, at&eacute; porque naquela altura a Alemanha Oriental estava dominada        pelo Secret&aacute;rio-geral do Partido Comunista, Walter Ulbricht, que pertencia        a uma corrente extremamente dura do estalinismo, e isso notava-se numa sociedade        com uma presen&ccedil;a militar muito grande, um grande controlo da opini&atilde;o,        os esc&acirc;ndalos dos professores que &agrave; m&iacute;nima cr&iacute;tica        do regime eram imediatamente presos ou expulsos da universidade&hellip; tudo        isso era muito presente nas nossas discuss&otilde;es, as tentativas de fuga        e de travessia clandestina do Muro para o lado de c&aacute;, com altos riscos,      ]]></body>
<body><![CDATA[  eram frequentes. Eu pr&oacute;prio participei nisso trazendo muitas vezes cartas        de pessoas que queriam fugir da Alemanha Oriental para a Alemanha Ocidental,        trazia-as nos sapatos e entre as meias, porque a n&oacute;s n&atilde;o nos revistavam.        Nem sabia muitas vezes do que se tratava, sabia que era gente que me pedia apenas        para eu p&ocirc;r no correio quando chegasse ao outro lado, p&ocirc;r as cartas        no correio para seguir para os seus familiares porque muita gente de Berlim        Oriental tinha parentes em Berlim Ocidental ou na Alemanha Ocidental. De maneira        que era um momento muito conturbado, e foi nessa altura que eu penso que tive        o primeiro interesse nas quest&otilde;es da justi&ccedil;a social, porque sendo        Berlim uma montra do que era o capitalismo, s&oacute; muito mais tarde vim a      ]]></body>
<body><![CDATA[  ver como os norte-americanos, com o Plano Marshall, tinham concebido um plano        de guerra e n&atilde;o um plano de paz. Era parte importante da Guerra Fria.        Na altura parecia um plano de paz e era tudo uma enorme influ&ecirc;ncia do        consumismo americano, da l&oacute;gica dos supermercados americanos, da comida        americana a entrar tamb&eacute;m na sociedade alem&atilde;, mas de facto na        altura Berlim, talvez precisamente por causa dessa grande presen&ccedil;a dos        americanos, era tamb&eacute;m a parte da Alemanha onde se come&ccedil;ava a        notar mais a cr&iacute;tica, digamos de esquerda, a essa forte presen&ccedil;a        de toda a ideologia capitalista norte-americana. E o movimento estudantil estava        a fermentar, est&aacute;vamos em 1964, 1965, &eacute; quando ele depois vai      ]]></body>
<body><![CDATA[  rebentar, &eacute; a&iacute; que est&aacute; o Rudi Dutschke, que mais tarde        vai ser ferido mortalmente. Era um dos grandes l&iacute;deres do movimento,        com o qual eu comecei a ter contacto precisamente em Berlim. E era a&iacute;        que se forjava uma alternativa socialista, mas democr&aacute;tica, e havia um        movimento, o SDS (Sozialistischer Deutscher Studentenbund), que era o movimento        dos estudantes socialistas alem&atilde;es, que foram aqueles que fizeram o movimento        estudantil a partir de 1968, com os franceses, etc. Tudo estava j&aacute; em        fermento em 1964, 1965 quando estive em Berlim, isso notava-se nas nossas discuss&otilde;es.        Lembro-me muito bem de um acontecimento bastante traum&aacute;tico para mim,        mas ao mesmo tempo muito interessante. Como eu era estudante numa resid&ecirc;ncia      ]]></body>
<body><![CDATA[  cat&oacute;lica, &eacute;ramos todos convidados a fazer palestras para os outros        estudantes, estrangeiros e alem&atilde;es, que quisessem participar, era uma        <i>Katholische Gemeinde</i>, uma comunidade cat&oacute;lica bastante progressista        e eu escolhi como tema &ldquo;Portugal, o herdeiro do colonialismo&rdquo; &ndash;        nunca mais me esque&ccedil;o do t&iacute;tulo &ldquo;Portugal, das Erbe des        Kolonialismus&rdquo;. Nessa palestra deu-se o meu primeiro contacto com o SDS.        Sem que eu soubesse inicialmente, apenas soube mais tarde no fim da minha palestra,        sendo eu portugu&ecirc;s e falando com este t&iacute;tulo &ldquo;Portugal, o        herdeiro do colonialismo&rdquo; &ndash; com uma vis&atilde;o muito cr&iacute;tica        que eu j&aacute; tinha, nessa altura, do colonialismo portugu&ecirc;s que comecei      ]]></body>
<body><![CDATA[  a forjar aqui em Coimbra, mas que se desenvolveu muito em Berlim &ndash; eles        pensaram que eu iria defender o colonialismo portugu&ecirc;s. E, portanto, eram        estudantes que, clandestinamente, com uma m&aacute;quina de projetar slides        &ndash; que era a alta tecnologia de transmiss&atilde;o visual ent&atilde;o,        os filmes, slides ou diapositivos &ndash; vieram e ficaram no fundo da sala        onde eu estava a falar, estiveram mais ou menos em sil&ecirc;ncio e no final        vieram ter comigo, cumprimentar-me e dizer que tinham vindo exatamente porque        suspeitavam que eu, sendo portugu&ecirc;s, iria defender o colonialismo portugu&ecirc;s.        E ent&atilde;o traziam ali os diapositivos com os detalhes, com fotografias        de fot&oacute;grafos alem&atilde;es sobre as atrocidades da Guerra Colonial      ]]></body>
<body><![CDATA[  na Guin&eacute;-Bissau e tamb&eacute;m em Mo&ccedil;ambique, uma coisa muito        forte que eu mais tarde tive ocasi&atilde;o de ver, mas que afinal n&atilde;o        tinha sido necess&aacute;rio uma vez que eu fui t&atilde;o cr&iacute;tico quanto        eles pr&oacute;prios eram. Convidaram-me para eu me juntar a eles e filiar-me        na organiza&ccedil;&atilde;o, o que eu n&atilde;o fiz, por ser estrangeiro,        e por temer tamb&eacute;m &ndash; naquela altura n&atilde;o estava preparado        propriamente para uma posi&ccedil;&atilde;o t&atilde;o radical. Porque ao mesmo        tempo a posi&ccedil;&atilde;o era de facto extremamente anticapitalista &ndash;        tamb&eacute;m n&atilde;o era obviamente uma posi&ccedil;&atilde;o pr&oacute;-sovi&eacute;tica,        obviamente &ndash; mas era profundamente influenciada pelos autores que eu recebia      ]]></body>
<body><![CDATA[  na fronteira. Marx era um autor com o qual eu tinha uma simpatia muito forte        e que comecei a ler exatamente a&iacute;, mas com alguma resist&ecirc;ncia.        N&atilde;o sei porqu&ecirc;, mas tive sempre a ideia de estar &agrave; procura        dos livros que n&atilde;o me facultavam. &Agrave; medida que eu fui conhecendo        mais, durante a minha estadia em Berlim, que foi extremamente rica nesse aspeto,        eu fui vendo quais eram os autores que na fronteira n&atilde;o me davam e um        deles que era &oacute;bvio &ndash; era uma flagrante omiss&atilde;o &agrave;        luz de uma sociologia das aus&ecirc;ncias, suprida mais tarde &ndash; o Trotsky.        De alguma maneira, comecei a gostar do Trotsky exatamente porque n&atilde;o        me era facultado ali. Era aquele tipo de quest&atilde;o da juventude &agrave;      ]]></body>
<body><![CDATA[  procura daquilo que n&atilde;o nos d&atilde;o e a gente vai buscar, porque considera        importante precisamente por ser proibido. Portanto, eu deixei-me ficar um pouco        assim em lume brando, mas vim de Berlim obviamente j&aacute; com uma ideia de        filosofia cr&iacute;tica. Foi tamb&eacute;m a&iacute; que tive os meus primeiros        contactos com a Escola de Frankfurt &ndash; com um marxismo cr&iacute;tico &ndash;        que depois vim desenvolver. Quando cheguei a Coimbra estava definitivamente        interessado na Filosofia do Direito, mas obviamente essa n&atilde;o era a &aacute;rea        em que eu estava na Faculdade de Direito &ndash; comecei ali&aacute;s por estar        na &aacute;rea de Finan&ccedil;as e fui assistente no primeiro ano do Doutor        Teixeira Ribeiro &ndash;&nbsp; que mais tarde seria ministro depois da Revolu&ccedil;&atilde;o,      ]]></body>
<body><![CDATA[  depois de 1974 &ndash; e logo a seguir passei para o Direito Penal e fui professor        de Direito Processo Penal. O Direito Penal era a &aacute;rea do Direito que        fazia melhor liga&ccedil;&atilde;o com a Filosofia. Porque era onde se punham        quest&otilde;es de responsabilidade, de imputabilidade, de culpa, etc., e, portanto,        toda a teoria da responsabilidade era uma forte teoria filos&oacute;fica no        Direito. Durante esses quatro anos em que eu estive aqui em Portugal aprofundei        a minha ideia da justi&ccedil;a social, a minha cr&iacute;tica ao regime salazarista        e cada vez mais uma abertura aos problemas da sociedade enquanto tal, e n&atilde;o        propriamente apenas no plano filos&oacute;fico. Continuei sempre os meus debates        com o Miguel Baptista Pereira, e com outro grande fil&oacute;sofo que, entretanto,      ]]></body>
<body><![CDATA[  tinha conhecido e que foi talvez tamb&eacute;m um dos grandes amigos da minha        vida e que eu perdi &ndash; foi uma trag&eacute;dia t&ecirc;-lo perdido logo        depois da revolu&ccedil;&atilde;o do 25 de Abril &ndash; que era o professor        V&iacute;tor Matos, que era tamb&eacute;m fil&oacute;sofo da Faculdade de Letras.        Tamb&eacute;m era poeta e assinava os livros com o nome V&iacute;tor Matos e        S&aacute;. Ele e o Miguel Baptista Pereira foram realmente dois grandes fil&oacute;sofos,        e eu tive o grande privil&eacute;gio de privar com eles de uma maneira muito        intensa, foram os mestres de toda a minha vida, n&atilde;o tive mais mestres        a s&eacute;rio no mundo acad&eacute;mico. Foram tamb&eacute;m os meus grandes        amigos e v&ecirc;-los desaparecer foi uma perda irrepar&aacute;vel. Este fermento      ]]></body>
<body><![CDATA[  e esta insatisfa&ccedil;&atilde;o foi-se traduzindo numa necessidade de sair        do pa&iacute;s para fazer um doutoramento, que eu n&atilde;o queria fazer de        maneira nenhuma na &aacute;rea em que seria previs&iacute;vel, que era o Direito        Penal. Isso seria continuar com toda a literatura alem&atilde; que eu conhecia        bem e que n&atilde;o me satisfazia de maneira nenhuma, j&aacute; naquela altura,        nem sequer no plano filos&oacute;fico. Entretanto, a minha mulher (Maria Irene        Ramalho) era assistente na Faculdade de Letras, especialista de literatura comparada,        de literatura americana, e trabalhava com o grande professor Paulo Quintela,        que mais tarde seria um grande amigo meu. A Maria Irene decidiu ir fazer o doutoramento        nos Estados Unidos, na Universidade de Yale, uma universidade de elite, muito      ]]></body>
<body><![CDATA[  conhecida, uma das melhores universidades daquele pa&iacute;s. A Maria Irene        iniciou o doutoramento em 1968 e eu fiquei em Portugal. T&iacute;nhamos casado        em 1965, t&iacute;nhamos um filho, e nessa altura esta nossa decis&atilde;o        era in&eacute;dita naquela sociedade, uma coisa relativamente revolucion&aacute;ria.        Claro que a minha m&atilde;e e a fam&iacute;lia da Maria Irene me ajudaram muito        naquele per&iacute;odo. Eu fiquei em Portugal, mas sempre a pensar em ir tamb&eacute;m        para os Estados Unidos. E fui logo no ano seguinte, penso que em maio de 1969,        em plena crise acad&eacute;mica. Precisava de respirar e a minha aspira&ccedil;&atilde;o        era fazer o doutoramento, ainda numa Faculdade de Direito porque era aquela        a que a minha filia&ccedil;&atilde;o me podia dar acesso. Fui aceite em tr&ecirc;s      ]]></body>
<body><![CDATA[  grandes universidades &ndash; Filad&eacute;lfia, Harvard e Yale. Optei por Yale        porque estava l&aacute; a Maria Irene e tamb&eacute;m porque me deram uma bolsa        de estudos. A partir da&iacute; tudo se transformou. Tal como em Berlim passara        do Direito para a Filosofia, em Yale passei de ambos para a Sociologia. E a&iacute;,        embora realmente estivesse na Faculdade de Direito, o trabalho naquela universidade        era interdisciplinar e o <i>curriculum</i> muito flex&iacute;vel. Imediatamente        decidi que queria fazer Sociologia com especialidade em Sociologia do Direito        porque podia juntar as duas val&ecirc;ncias na minha forma&ccedil;&atilde;o.        E tive a sorte de chegar num momento de grande convuls&atilde;o social e foi        a&iacute; que eu me abri completamente &agrave; quest&atilde;o da justi&ccedil;a      ]]></body>
<body><![CDATA[  social e &agrave; luta por uma sociedade mais justa. Era o tempo do movimento        dos direitos c&iacute;vicos nos Estados Unidos, da luta contra a Guerra do Vietname,        do movimento negro, os Black Panthers. Era uma sociedade em convuls&atilde;o        e que mesmo numa universidade de elite como Yale estava perfeitamente presente        &ndash; a primeira greve estudantil na Universidade de Yale deu-se quando eu        estava l&aacute;. Era todo um ambiente cr&iacute;tico e muito orientado para        as quest&otilde;es da justi&ccedil;a social. E a Faculdade de Direito estava        naquela altura na frente de muitas dessas preocupa&ccedil;&otilde;es, com um        trabalho na periferia de New Haven, a cidade onde fica Yale, onde vivia a popula&ccedil;&atilde;o        negra marginalizada. E a partir da&iacute; eu comecei a ver o Direito nas periferias,      ]]></body>
<body><![CDATA[  o programa da <i>Law and Poverty</i>, ou seja, o direito e a pobreza. O direito,        a sociologia e a pol&iacute;tica conflu&iacute;am intensa e vertiginosamente.        Depois da minha forma&ccedil;&atilde;o de base em Sociologia, tive tamb&eacute;m        a possibilidade, um ano e meio depois, de poder fazer o meu trabalho de campo        fora e optei por fazer fora dos Estados Unidos. Fui para o Brasil. Eu queria        ir para uma sociedade onde pudesse realmente dar mais campo &agrave;s teorias        cr&iacute;ticas socialistas que come&ccedil;avam a germinar na minha cabe&ccedil;a,        e quis faz&ecirc;-lo no Brasil por uma raz&atilde;o meramente afetiva: o facto        de os meus av&oacute;s terem sido ambos oper&aacute;rios no Brasil e terem dito        sempre maravilhas daquela sociedade, apesar de nenhum deles ter feito fortuna      ]]></body>
<body><![CDATA[  no Brasil, foram pobres e eram pobres, mas tinham uma grande admira&ccedil;&atilde;o        por aquela sociedade. Ia com toda a bagagem cr&iacute;tica que vinha dos estudos        da sociologia da altura. Era o tempo da sociologia cr&iacute;tica, da resist&ecirc;ncia        contra o Talcott Parsons, o m&aacute;ximo representante da sociologia convencional,        estrutural-funcionalista. Era o tempo da luta contra a sociologia quantitativa        a favor de uma sociologia qualitativa, onde as metodologias eram as metodologias        da antropologia: observa&ccedil;&atilde;o participante, representatividade pela        qualidade e n&atilde;o pela quantidade. Era um grande fermento te&oacute;rico        de cr&iacute;tica sociol&oacute;gica e, obviamente, para mim tamb&eacute;m filos&oacute;fica.        Foi uma forma&ccedil;&atilde;o muito compacta porque foi nessa altura que eu      ]]></body>
<body><![CDATA[  assumi uma identidade marxista &ndash; n&atilde;o foi na Alemanha, foi a&iacute;        &ndash; porque n&atilde;o s&oacute; segui os cursos sobre Marx, como t&iacute;nhamos        grupos de leitura organizados pelos estudantes de doutoramento para ler <i>O        capital</i>, grupos que existiam na altura em muitas outras universidades do        mundo. Ao tempo n&atilde;o estava sequer consciente disso, l&iacute;amos, coloc&aacute;vamos        as nossas quest&otilde;es&hellip; Havia um grande interesse em discutir <i>O</i>        <i>capital</i>, que era ent&atilde;o a obra considerada a mais madura de Marx.        Nessa altura er&aacute;mos todos muito influenciados pelo Althusser, com a distin&ccedil;&atilde;o        entre o jovem Marx e o Marx maduro. O Marx maduro &eacute; que contava. Mais        tarde critiquei tudo isso, mas na altura era assim. A justi&ccedil;a social,      ]]></body>
<body><![CDATA[  como objetivo &ndash; para responder &agrave; tua pergunta &ndash; estava plenamente        constitu&iacute;da quando cheguei ao meu trabalho de campo e a&iacute; foi depois        desenvolver, foi ver &ndash; digamos &ndash; na pr&aacute;tica, com os meus        olhos, o que a minha cabe&ccedil;a andava h&aacute; muito tempo a imaginar.        Profunda injusti&ccedil;a social no mundo, e em certas sociedades, muito mais        injustas socialmente do que aquela de que eu tinha sa&iacute;do em Portugal        e, vejamos, tinha sa&iacute;do de uma ditadura e fui para outra, porque o Brasil        era nessa altura uma ditadura militar e estava num per&iacute;odo realmente        muito duro. E, foi tamb&eacute;m por isso, uma possibilidade de eu enfrentar        uma situa&ccedil;&atilde;o quase limite de injusti&ccedil;a social e tamb&eacute;m      ]]></body>
<body><![CDATA[  de repress&atilde;o, um caso que me permitia testar bem as minhas ideias e aprofund&aacute;-las        e foi isso que sucedeu. E &eacute; a&iacute; que realmente se come&ccedil;a        a dar a grande transi&ccedil;&atilde;o da justi&ccedil;a social para a justi&ccedil;a        cognitiva. &Eacute; a&iacute; que come&ccedil;a a germinar o m&eacute;todo que        depois se tornou um bocado mais famoso do que aquilo que eu podia pensar, que        foi a chamada hist&oacute;ria natural da pesquisa, da investiga&ccedil;&atilde;o,        que foi o &ldquo;Cap&iacute;tulo 3 ao espelho&rdquo;,<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a>        muito conhecido mais tarde. Usei esse m&eacute;todo de uma maneira bastante        transgressiva. Ele permitiu-me uma consci&ecirc;ncia pol&iacute;tica e social,        uma consci&ecirc;ncia filos&oacute;fica e epistemol&oacute;gica muito mais profunda      ]]></body>
<body><![CDATA[  e radical. No in&iacute;cio da pesquisa obviamente o meu m&aacute;ximo de consci&ecirc;ncia        poss&iacute;vel em Yale era o marxismo e a teoria cr&iacute;tica, fundamentalmente        na formula&ccedil;&atilde;o da Escola de Frankfurt. Vivi numa favela durante        quatro meses &ndash; bastante mais tempo at&eacute;, porque estive a preparar        o campo, estive a orientar, estive a documentar &ndash; e, antes disso, entrei        numa favela (a favela da Mar&eacute;, a que voltei recentemente por v&aacute;rias        raz&otilde;es) de que tive que sair &agrave; pressa e sob a amea&ccedil;a de        uma arma de fogo. Est&aacute; relatado o erro crasso que cometi com o portugu&ecirc;s        do Brasil. Falei do prop&oacute;sito de fazer uma &ldquo;investiga&ccedil;&atilde;o&rdquo;        e n&atilde;o uma &ldquo;pesquisa&rdquo;, ignorante do sentido policial e criminal      ]]></body>
<body><![CDATA[  da palavra &ldquo;investiga&ccedil;&atilde;o&rdquo; no Brasil. O t&ecirc;-la        usado foi fatal para minha perman&ecirc;ncia numa comunidade t&atilde;o brutalizada        pela pol&iacute;cia. Fui viver para o Jacarezinho e &eacute; a&iacute; realmente,        utilizando este m&eacute;todo, &eacute; que passei a ver e a conhecer em concreto,        na carne, a sabedoria de grupos sociais, de pessoas, que eram considerados marginais,        &ldquo;bandidos&rdquo;, que viviam na ilegalidade, em comunidades extremamente        perigosas. Isto na vers&atilde;o convencional que se tinha daquela sociedade        no Brasil de ent&atilde;o. Eram pessoas extremamente s&eacute;rias, que foram        os meus outros mestres, j&aacute; n&atilde;o na vida acad&eacute;mica. Eram        sapateiros, eram donos de botequim, eram comerciantes com quem eu podia conversar      ]]></body>
<body><![CDATA[  longas horas, pessoas com quem a pouco e pouco entrei na pr&oacute;pria vida        pol&iacute;tica brasileira clandestina, democr&aacute;tica, socialista muita        dela, em fun&ccedil;&atilde;o das lideran&ccedil;as que estavam &agrave; frente        das associa&ccedil;&otilde;es de vizinhos nessa altura. Na associa&ccedil;&atilde;o        de residentes da favela estavam lideran&ccedil;as pol&iacute;ticas clandestinas,        que vinham do movimento democr&aacute;tico, do movimento comunista brasileiro,        e por raz&otilde;es que eu tamb&eacute;m j&aacute; descrevi noutro lugar, pesou        o facto de n&atilde;o ser um soci&oacute;logo no sentido convencional do termo        &ndash; para eles, porque para eles ser soci&oacute;logo era ser norte-americano        &ndash; eu estava numa universidade norte-americana mas era portugu&ecirc;s,      ]]></body>
<body><![CDATA[  para eles um portugu&ecirc;s &eacute; um comerciante, n&atilde;o &eacute; propriamente        um intelectual e muito menos um soci&oacute;logo. A experi&ecirc;ncia que eles        tinham na favela era serem visitados por antrop&oacute;logos e soci&oacute;logos        norte-americanos que ca&iacute;am &agrave;s manadas naquelas favelas para estudar,        uma vez que havia muito dinheiro das universidades para estudar o Brasil, que        estava sobre o controlo dos Estados Unidos depois da ditadura. Foi-me dado a        conhecer &ndash; tamb&eacute;m por isso, pelo facto de n&atilde;o corresponder        ao estere&oacute;tipo &ndash; a sociedade e aquela favela a um n&iacute;vel        que era completamente imposs&iacute;vel de conhecer pelos soci&oacute;logos,        porque havia formas estruturais perfeitamente organizadas de mentir aos soci&oacute;logos      ]]></body>
<body><![CDATA[  e aos antrop&oacute;logos, aquilo que se pode dizer e aquilo que n&atilde;o        se deve em caso algum dizer, porque eles n&atilde;o s&atilde;o de confian&ccedil;a        e nunca sabemos onde vai parar a informa&ccedil;&atilde;o e o conhecimento que        lhe s&atilde;o dados. Isso para mim foi todo um banho de conhecimento social,        de filosofia de vida, de gente que&hellip; enfim, eram letrados todos eles,        tinham o ensino prim&aacute;rio, alguns at&eacute; o ensino secund&aacute;rio,        mas que viviam em condi&ccedil;&otilde;es extremamente dif&iacute;ceis. E foi        a&iacute; que me confrontei com a ideia da justi&ccedil;a cognitiva &ndash;        ou melhor da injusti&ccedil;a cognitiva &ndash; isto &eacute;, a ideia de que        havia muito conhecimento que estava a ser desperdi&ccedil;ado, mas que nessa      ]]></body>
<body><![CDATA[  altura eu ainda n&atilde;o pude conceber como um conhecimento que pudesse entrar        em di&aacute;logo com o conhecimento cient&iacute;fico. Identifiquei dois mundos        completamente &agrave; parte, digamos assim, e com muito poucas possibilidades        de os juntar ou articular naquilo que mais tarde viria a ser a ecologia de saberes.        Nessa altura esta ideia n&atilde;o estava de maneira nenhuma formulada, apenas        havia a inquieta&ccedil;&atilde;o de que tanto conhecimento e que tanta sabedoria        era desperdi&ccedil;ada na sociedade, precisamente porque as pessoas estavam        no lado errado daquela sociedade, porque eram realmente v&iacute;timas de profunda        opress&atilde;o, que n&atilde;o era apenas opress&atilde;o de classe, mas tamb&eacute;m        a opress&atilde;o de ra&ccedil;a, do racismo no Brasil. Naquele momento a quest&atilde;o      ]]></body>
<body><![CDATA[  do patriarcado era menos forte para mim como viv&ecirc;ncia, embora tamb&eacute;m        come&ccedil;asse a&iacute; a ter experi&ecirc;ncias, sobretudo a viol&ecirc;ncia        contra as mulheres, precisamente na casa onde eu vivia a mulher tinha sido v&iacute;tima        de viol&ecirc;ncia do marido, que estava ali&aacute;s fugido porque tinha cometido        um crime. E ela vivia agora sozinha, por isso alugou-me um quarto na casa, que        era uma casa j&aacute; de alvenaria, na altura j&aacute; havia casas de blocos        e de cimento, n&atilde;o apenas barracos como havia noutras favelas. Depois        disso aconteceram muitas outras coisas, mas ficou marcada a grande passagem        de uma leitura da justi&ccedil;a social muito mais profunda pela rela&ccedil;&atilde;o        com a ideia de justi&ccedil;a &ndash; de injusti&ccedil;a &ndash; cognitiva      ]]></body>
<body><![CDATA[  no mundo. A ideia da justi&ccedil;a social j&aacute; &eacute; formulada em termos        marxistas e, portanto, a sociedade &eacute; uma sociedade capitalista e vai        ser sempre uma sociedade injusta, e a justi&ccedil;a social exige uma solu&ccedil;&atilde;o        socialista, n&atilde;o pode ser uma solu&ccedil;&atilde;o capitalista. Em termos        epistemol&oacute;gicos &eacute; mais a inquieta&ccedil;&atilde;o do conhecimento        que est&aacute; a ser desperdi&ccedil;ado e que a ci&ecirc;ncia n&atilde;o pode        captar, porque o capta como informa&ccedil;&atilde;o, como aquela que eu tinha        de captar e que mostrei exatamente todas as antinomias. Eu como um soci&oacute;logo        &ndash; que se identificava j&aacute; como soci&oacute;logo e como soci&oacute;logo        cr&iacute;tico e, portanto, militante &ndash; j&aacute; via as antinomias todas      ]]></body>
<body><![CDATA[  nesse momento. E vivia-as intensamente e, por isso, tive de utilizar o m&eacute;todo        transgressivamente, porque n&atilde;o tive nenhuma d&uacute;vida que para poder        ser objetivo como queria, n&atilde;o podia ser neutro. Havia situa&ccedil;&otilde;es        em que tinha de violar os meus m&eacute;todos para poder mostrar-lhes que eu        merecia a confian&ccedil;a da popula&ccedil;&atilde;o e estava do lado deles.        Tomava atitudes e participava em a&ccedil;&otilde;es que me estavam obviamente        proscritas se eu tivesse seguido a metodologia que me tinham ensinado em Yale.        Foi a partir da&iacute; &ndash; depois vamos seguir uma longa hist&oacute;ria,        espero que a prossigamos nesta entrevista &ndash; mas tudo est&aacute; a&iacute;        nesse primeiro momento seminal. Que n&atilde;o &eacute; o primeiro, h&aacute;      ]]></body>
<body><![CDATA[  dois momentos fundamentais: a ida para Berlim em 1964/65 e depois a ida para        os Estados Unidos em 1969 at&eacute; ao final de 73.</p>     <p><b>BSM</b>: No pref&aacute;cio geral &agrave; cole&ccedil;&atilde;o &ldquo;Sociologia    Cr&iacute;tica do Direito&rdquo; (Edi&ccedil;&otilde;es Almedina) refere que    a primeira fase do seu trabalho, nos anos 1960 e 1970, se dedicou a desenvolver    uma teoria marxista do Estado e da sociedade. De que modo &eacute; que o marxismo    influenciou o seu trabalho e as suas op&ccedil;&otilde;es de pesquisa neste    per&iacute;odo?</p>     <p><b>BSS</b>: Como dizia, o meu primeiro contacto com o marxismo ocorre em Berlim,    mas &eacute; um contacto um pouco &agrave; dist&acirc;ncia. Eu estudo o marxismo,    mas n&atilde;o me considero marxista. Porqu&ecirc;? Fundamentalmente porque    eu tinha de resolver interiormente uma quest&atilde;o que n&atilde;o pude resolver    em Berlim, que era que o marxismo n&atilde;o tinha muito a ver com aquela sociedade    que eu via do outro lado, no mundo comunista. Para mim, era muito dif&iacute;cil    fazer essa distin&ccedil;&atilde;o, at&eacute; porque, enfim, a sociedade do    outro lado se reivindicava de sociedade marxista, portanto a ideia de um marxismo    ocidental &ndash; que depois foi muito forte nessa altura &ndash; n&atilde;o    era de maneira nenhuma uma ideia muito forte para mim. Nos Estados Unidos, desenvolvo    a minha consci&ecirc;ncia marxista porque estou numa sociedade hipercapitalista    que est&aacute; a sofrer todas as contradi&ccedil;&otilde;es do capitalismo,    da guerra, do racismo, da discrimina&ccedil;&atilde;o social, da injusti&ccedil;a    social &ndash; naquele momento, j&aacute; era claro para mim que classe e ra&ccedil;a    estavam juntos. E a&iacute; d&aacute;-se efetivamente o g&eacute;rmen de uma    leitura cr&iacute;tica do pr&oacute;prio marxismo: realmente eu nunca me consegui    acomodar perfeitamente ao marxismo convencional. Tive tamb&eacute;m a sorte    de ter um professor de marxismo em Yale, que era um irland&ecirc;s extremamente    arguto e tamb&eacute;m muito cr&iacute;tico, muito subsidi&aacute;rio da Escola    de Frankfurt, mas que me foi alertando para muito dogmatismo que tamb&eacute;m    existia nessa altura e que dominava, sobretudo depois do Maio de 68. Ali&aacute;s,    a presen&ccedil;a do marxismo no Maio de 68, em Fran&ccedil;a, &eacute; altamente    problem&aacute;tica porque os grandes intelectuais, que seriam a principal refer&ecirc;ncia    mais tarde do marxismo, como o Althusser e o grupo do estruturalismo, n&atilde;o    eram de maneira nenhuma presen&ccedil;as fortes no movimento estudantil, como    a gente hoje sabe das entrevistas entre o Cohn-Bendit e o Sartre. Quem eles    gostavam e que os mobilizavam era o pr&oacute;prio Che Guevara. Herbert Marcuse    s&oacute; surge mais tarde e alguns s&oacute; v&atilde;o ler o Marcuse depois    de algu&eacute;m lhes ter dito que eles eram influenciados pelo Marcuse, portanto    era uma presen&ccedil;a muito t&eacute;nue. O marxismo e tamb&eacute;m o estruturalismo    surgem-me por isso como algo do qual eu me quero libertar, porque ao mesmo tempo    come&ccedil;a a haver essa presen&ccedil;a do Althusser e do estruturalismo    marxista, que &eacute; muito importante para todos n&oacute;s pela sua relev&acirc;ncia.    Sobretudo atrav&eacute;s de uma obra de uma divulgadora do Althusser, que mais    tarde veio a ser minha amiga, mas j&aacute; muitos anos mais tarde, a Marta    Harnecker, que escreveu um livro de divulga&ccedil;&atilde;o dos conceitos fundamentais    do materialismo hist&oacute;rico, que era uma leitura althusseriana do marxismo    e que foi &ndash; digamos assim &ndash; a &ldquo;b&iacute;blia&rdquo; de todos    os jovens marxistas da Am&eacute;rica Latina e pelo qual eu tamb&eacute;m tive    de passar. Mas passei sempre de uma maneira bastante cr&iacute;tica. O marxismo    nessa altura era muito importante porque obviamente &eacute; a cr&iacute;tica    mais consistente da sociedade capitalista. Mas come&ccedil;a a germinar em mim    a convic&ccedil;&atilde;o de que a sociedade socialista n&atilde;o pode ser    aquela que eu tinha visto em Berlim. H&aacute; esta divis&atilde;o que eu n&atilde;o    vejo de maneira nenhuma no marxismo estruturalista franc&ecirc;s, e portanto,    no marxismo mais convencional ou acr&iacute;tico, que se prende com os infames    julgamentos de 1936/38, em Moscovo, em que morreram tantos l&iacute;deres revolucion&aacute;rios    e intelectuais extraordin&aacute;rios do marxismo, assassinados por Estaline,    porque eram praticamente formas de &ldquo;justi&ccedil;a revolucion&aacute;ria&rdquo;,    uma farsa do ponto de vista jur&iacute;dico. Um desses grandes intelectuais    de quem fiquei muito devedor, nas teorias econ&oacute;micas, e tamb&eacute;m    na leitura do marxismo, foi Nikolai Bukharin. Bukharin foi muito importante    para mim na altura, at&eacute; mais do que o Trotsky. Era j&aacute; um marxismo    derrotado pelo estalinismo e menos interessado nas leituras muito estruturalistas    do Althusser porque n&atilde;o quadravam com a tradi&ccedil;&atilde;o da sociologia    cr&iacute;tica em que eu estava, uma sociologia que n&atilde;o procurava uma    ci&ecirc;ncia objetiva porque &ndash; objetiva no sentido neutro &ndash; era    outra coisa, e por isso exigia um outro tipo de epistemologia. Era um marxismo    tocado pela forma como eu via a sociedade e que obviamente n&atilde;o era captada    inteiramente pelo marxismo. Mas a ideia de descolonizar o marxismo aparece s&oacute;    mais tarde.</p>     <p><b>BSM</b>: At&eacute; que ponto o trabalho emp&iacute;rico &ndash; falava-me    h&aacute; pouco disso &ndash; que realizou na favela do Jacarezinho, no Rio    de Janeiro, no in&iacute;cio da d&eacute;cada de 1970, transformou os seus pressupostos    te&oacute;ricos? Ter&aacute; sido esse o primeiro momento, para si, de &ldquo;aprender    com o Sul&rdquo;?</p>     <p><b>BSS</b>: Foi, exatamente. Foi o primeiro momento. Porque como digo, o meu    primeiro momento de consci&ecirc;ncia filos&oacute;fica e sociol&oacute;gica,    e social e pol&iacute;tica, ocorre em Berlim a partir do fermento que eu levava    da minha forma&ccedil;&atilde;o em Coimbra, mas que era obviamente extremamente    limitada nesse plano. Mas, em Berlim, n&atilde;o tenho qualquer possibilidade    de ter acesso &agrave; ideia de uma aprendizagem a partir do Sul e &eacute;    evidente que isso ocorre no Jacarezinho, ocorre no Brasil. A diferen&ccedil;a    que eu vou fazer mais tarde entre um Sul epist&eacute;mico e um Sul geogr&aacute;fico    n&atilde;o &eacute; ainda n&iacute;tida nessa altura &eacute; um Sul realmente    geogr&aacute;fico que eu vejo, que eu come&ccedil;o a ver tamb&eacute;m como    um Sul de onde eu vinha, mas era o Sul da Europa, digamos assim. Tamb&eacute;m    menos desenvolvido, tamb&eacute;m uma ditadura, tal como o Brasil era menos    desenvolvido que os Estados Unidos e era tamb&eacute;m uma ditadura. S&oacute;    mais tarde &eacute; que vim a aplicar esse Sul tamb&eacute;m a Portugal e foi    assim que surgiu a teoria da semiperiferia aplicada &agrave; sociedade portuguesa    &ndash; mas o Sul na altura &eacute; o Sul das favelas, &eacute; o Sul da sociedade    exclu&iacute;da, discriminada, que eu vi no Brasil e com quem convivi intensamente    e onde eu tamb&eacute;m aprendi que o tempo linear &eacute; completamente incapaz    de captar a intensidade da nossa vida. E depois h&aacute; quem diga assim &ldquo;ah,    mas o tempo de pesquisa na favela foi pouco&rdquo;, isso &eacute; porque avaliam    o tempo como tempo linear. S&atilde;o meses que s&atilde;o anos, digamos assim,    s&atilde;o d&eacute;cadas, na minha vida, de viver intensamente. E, portanto,    foi talvez o trabalho de campo &ndash; do ponto de vista n&atilde;o linear &ndash;    mais longo. O mais longo, em termos lineares, foi mais tarde, aqui em Portugal,    na Cooperativa de Barcou&ccedil;o. Foi realmente aquele que me transformou profundamente    em termos de um &ldquo;aprender com o Sul&rdquo; de tudo aquilo que n&atilde;o    est&aacute; nos livros, do conhecimento oral, do conhecimento n&atilde;o considerado    sen&atilde;o como senso-comum e, portanto, o conhecimento pouco rigoroso. A    minha posi&ccedil;&atilde;o perante esse outro conhecimento come&ccedil;a a    ter lugar a&iacute; na favela e &eacute; na ideia &ndash; como digo, inicialmente    &ndash; de uma grande injusti&ccedil;a cognitiva que &eacute; feita, porque    todo esse conhecimento n&atilde;o &eacute; de maneira nenhuma valorizado, e    pouco a pouco come&ccedil;a a surgir na minha cabe&ccedil;a que esse conhecimento    n&atilde;o &eacute; apenas &uacute;til para eles, para essas comunidades, mas    &eacute; &uacute;til para todos, para mim inclusivamente. E, por isso, tem de    haver uma aprendizagem que come&ccedil;a por ser uma aprendizagem para mim como    pessoa e que a pouco e pouco se transforma numa <i>persona</i>, isto &eacute;,    num representante de uma classe, de um mundo, que era o mundo das classes opressoras,    que est&atilde;o nas universidades de elite e que t&ecirc;m acesso a uma s&eacute;rie    de benef&iacute;cios da sociedade capitalista e vejo que tudo aquilo era uma    li&ccedil;&atilde;o de vida. N&atilde;o era uma li&ccedil;&atilde;o de vida    apenas de sobreviv&ecirc;ncia, porque o era para eles, mas era tamb&eacute;m    uma li&ccedil;&atilde;o de vida para todos n&oacute;s que nos sent&iacute;amos    desconfort&aacute;veis com os confortos falsos que a sociedade capitalista nos    conferia. Obviamente que o aprender com o Sul ocorre durante esse per&iacute;odo    na favela do Jacarezinho.</p>     <p><b>BSM</b>: Num texto intitulado &ldquo;Pensar o socialismo depois da Revolu&ccedil;&atilde;o    de 1974&rdquo;, publicado em 1981,<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a>    refere a necessidade de restituir &agrave; teoria marxista o seu car&aacute;ter    inacabado. Defende ainda que a luta por uma sociedade alternativa deve abandonar    o paradigma do progresso de que o marxismo seria tribut&aacute;rio. Como &eacute;    que as suas leituras cr&iacute;ticas de um certo marxismo dominante em Portugal    foram ent&atilde;o recebidas pela esquerda?</p>     <p><b>BSS</b>: Essa pergunta &eacute; muito interessante. Antes de a responder        tenho de introduzir aqui um acrescento ao que disse nas perguntas anteriores        &ndash; porque h&aacute; um momento interm&eacute;dio que &eacute; muito curioso      ]]></body>
<body><![CDATA[  e que foi muito importante para mim &ndash; e que eu resumi como sendo o per&iacute;odo        de Coimbra, o per&iacute;odo de Berlim e depois o per&iacute;odo de Yale, com        a ida para as favelas. &Eacute; que eu, depois do meu trabalho de campo na favela        em 1970, e depois de terminar no final de 73 a minha tese de doutoramento, passei        por um outro momento extremamente importante na minha forma&ccedil;&atilde;o        intelectual e pol&iacute;tica, que foi o meu contacto com o Ivan Illich, no        Centro Intercultural de Documenta&ccedil;&atilde;o de Cuernavaca (CIDOC) (M&eacute;xico).        O Ivan Illich era um padre austr&iacute;aco que foi p&aacute;roco numa freguesia        extremamente pobre de Manhattan e que depois se transforma num grande intelectual        cr&iacute;tico do capitalismo e que criou um centro onde vai reunir intelectuais,      ]]></body>
<body><![CDATA[  ativistas de todo o continente americano e tamb&eacute;m da Europa, interessados        numa renova&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica, cr&iacute;tica, extremamente cr&iacute;tica        do capitalismo, mas tamb&eacute;m cr&iacute;tica do marxismo. E &eacute; a primeira        vez que eu assumo uma consci&ecirc;ncia ecol&oacute;gica, &eacute; a primeira        vez que eu vejo que tanto o marxismo como as teorias estruturais funcionalistas        &ndash; que era a grande dicotomia da Sociologia e das Ci&ecirc;ncias Sociais        &ndash; s&atilde;o subsidi&aacute;rias do paradigma do progresso, que estava        subjacente a todo o desenvolvimento capitalista. Esse paradigma do progresso        era falso e levava-nos ao desastre. E n&oacute;s t&iacute;nhamos que realmente        assumir um outro tipo de consci&ecirc;ncia, outro modo de vida, e foi a primeira      ]]></body>
<body><![CDATA[  vez que eu comecei a ter consci&ecirc;ncia de que, realmente, o nosso principal        inimigo muitas vezes est&aacute; dentro de n&oacute;s. E criamos teorias para        escaparmos a isso, porque somos eventualmente demasiado cobardes para mudarmos        a vida que levamos e pensamos que o problema est&aacute; nos outros, quando        come&ccedil;a a estar tamb&eacute;m nos modos de vida que n&oacute;s acriticamente        vamos assumindo, apenas porque podemos assumir, porque temos meios financeiros        para poder beneficiar dessa sociedade. Mas &eacute; uma sociedade que pelo seu        desenvolvimento pr&oacute;prio &eacute; autodestrutiva, da humanidade e da natureza.        A ideia de uma natureza que est&aacute; a ser destru&iacute;da pelo pr&oacute;prio        desenvolvimento capitalista, devo-a Ivan Illich. E o Ivan Illich &eacute; realmente      ]]></body>
<body><![CDATA[  um intelectual extremamente radical, tamb&eacute;m muito cr&iacute;tico do marxismo.        Durante algum tempo, o Ivan pensava que eu ia ser o disc&iacute;pulo preferido        dele, lembro-me muito bem de ele fazer essa declara&ccedil;&atilde;o no ano        em que fez 45 anos, quando eu estava em Cuernavaca com ele &ndash; estive duas        vezes em estadias prolongadas. E realmente eram longu&iacute;ssimas as nossas        discuss&otilde;es, &agrave;s vezes pela noite dentro, sobre a quest&atilde;o        do marxismo e a quest&atilde;o do desenvolvimento. Quais eram os grandes problemas        que n&oacute;s t&iacute;nhamos ali em g&eacute;rmen? Para mim, era toda a quest&atilde;o        do desenvolvimento, &agrave; qual o Ivan Illich fazia uma cr&iacute;tica muito        radical, mas que ao mesmo tempo, a meu ver, era uma cr&iacute;tica tamb&eacute;m      ]]></body>
<body><![CDATA[  um pouco irrespons&aacute;vel, porque eu vinha de uma sociedade que era muito        pouco desenvolvida, que era Portugal, e tinha trabalhado numa outra que era        igualmente pouco desenvolvida e muito injusta, e n&atilde;o era capaz de &ndash;        digamos assim &ndash; deitar fora o conceito de desenvolvimento. O que eu queria        era efetivamente um desenvolvimento que contemplasse muitas ideias dele. E,        vindo de uma ditadura n&atilde;o podia ser t&atilde;o cr&iacute;tico quanto        ele era da escola, ele foi o grande cr&iacute;tico da educa&ccedil;&atilde;o        formal. E era muito mais radical nesse aspeto que o pr&oacute;prio Paulo Freire,        que viria a ser tamb&eacute;m uma influ&ecirc;ncia para o que mais tarde vim        a desenvolver no &acirc;mbito das epistemologias do Sul. Illich era um homem      ]]></body>
<body><![CDATA[  que no fundo era adepto que se acabasse com a escolaridade, e que a sociedade        &eacute; que deveria escolarizar os seus pr&oacute;prios filhos, e n&atilde;o        as institui&ccedil;&otilde;es formais que apenas os formatam para a sociedade        capitalista. As suas regras de convivencialidade, a luta contra a escolaridade,        a luta contra a medicina euroc&ecirc;ntrica, eram demasiado radicais para uma        pessoa que vinha de sociedades onde a nossa luta era por educa&ccedil;&atilde;o,        por educa&ccedil;&atilde;o formal e pelo Sistema Nacional de Sa&uacute;de, e        algu&eacute;m dizer-me que tudo isso &eacute; um erro e &eacute; algo que deve        ser eliminado, &eacute; muito dif&iacute;cil. Por isso, fui bastante cr&iacute;tico        dele, tivemos discuss&otilde;es, mas a minha tese foi publicada na &iacute;ntegra      ]]></body>
<body><![CDATA[  por ele, que quis que a tese fosse publicada imediatamente. A primeira publica&ccedil;&atilde;o        foi no CIDOC e foi a&iacute; que eu tive depois a possibilidade de contactar        com muitos l&iacute;deres pol&iacute;ticos da Am&eacute;rica Latina. Foi uma        experi&ecirc;ncia extraordin&aacute;ria, n&atilde;o s&oacute; para a minha consci&ecirc;ncia        pol&iacute;tica, ent&atilde;o j&aacute; com base no marxismo, mas um marxismo        cr&iacute;tico, e foi praticamente um laborat&oacute;rio. Fui realmente um privilegiado        porque pelas condi&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas da Am&eacute;rica Latina,        o CIDOC tinha, como residentes visitantes, grandes l&iacute;deres democr&aacute;ticos        e comunistas da Am&eacute;rica Latina, que tinham sido obrigados ao ex&iacute;lio        pelas ditaduras que tinham sido constitu&iacute;das. Conheci o Francisco Juli&atilde;o      ]]></body>
<body><![CDATA[  das ligas camponesas em Cuernavaca, e que mais tarde viria a ser muito amigo        de um homem que foi talvez dos mais torturados pela ditadura brasileira, que        foi o padre Al&iacute;pio de Freitas, um grande amigo nosso e do CES, e um dos        fundadores das ligas camponesas. Exatamente na altura em que eu estava em Cuernavaca,        estava ele a ser torturado e eu, obviamente, n&atilde;o tinha consci&ecirc;ncia        disso. E tamb&eacute;m foi a&iacute; que conheci dois ou tr&ecirc;s ministros        do Allende, um deles que at&eacute; ficou muito meu amigo, o Pedro Vuskovic.        Tive tamb&eacute;m oportunidade de lecionar um c&eacute;lebre curso &ndash;        c&eacute;lebre para mim e tamb&eacute;m para algumas pessoas que o frequentaram        &ndash; com o Andr&eacute; Gorz, um intelectual marxista franc&ecirc;s que tamb&eacute;m      ]]></body>
<body><![CDATA[  se revoltava contra o Althusser. E o curso que ensin&aacute;mos conjuntamente        chamava-se &ldquo;Direito e Revolu&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Foi uma forma&ccedil;&atilde;o        muito importante para eu poder responder a esta quest&atilde;o, porque me permitiu        testar o car&aacute;ter inacabado do marxismo nos meus di&aacute;logos com o        Ivan Illich. Por um lado, obviamente a quest&atilde;o racial que tinha estado        ausente no Althusser e que eu vejo presente nos Estados Unidos, e depois a quest&atilde;o        do progresso e do desenvolvimento que est&aacute; muito presente em todo o trabalho        cr&iacute;tico do Ivan Illich. E s&atilde;o essas influ&ecirc;ncias que constituem        o caldo com que eu vou chegar a Portugal e come&ccedil;ar a ter uma interven&ccedil;&atilde;o        ativa na vida acad&eacute;mica portuguesa, inicialmente come&ccedil;ando a ensinar      ]]></body>
<body><![CDATA[  Introdu&ccedil;&atilde;o &agrave;s Ci&ecirc;ncias Sociais no &uacute;ltimo ano        letivo do fascismo. O sistema estava j&aacute; em desagrega&ccedil;&atilde;o        e a pr&oacute;pria cria&ccedil;&atilde;o da Faculdade de Economia era uma tentativa        de regenerar a Universidade, atrav&eacute;s dos chamados liberais do sistema        fascista, que era o Veiga Sim&atilde;o, o ministro da Educa&ccedil;&atilde;o        que voltou a ser ministro depois de 1974. A bagagem intelectual e pol&iacute;tica        que eu trazia foi muito importante para a minha leitura cr&iacute;tica, porque        ao mesmo tempo que eu defendia o marxismo ante o Ivan Illich isso ajudava-me        a ver que a minha defesa do marxismo era uma defesa altamente cr&iacute;tica        do marxismo mais convencional, dogm&aacute;tico, ou articulado com as pol&iacute;ticas      ]]></body>
<body><![CDATA[  de esquerda, fundamentalmente do Partido Comunista, de v&aacute;rios pa&iacute;ses.        Reli recentemente esse texto<sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a>        e achei muito interessante que apesar de ter sido publicado em 1981, &eacute;        um texto profundamente influenciado pela ideia da supera&ccedil;&atilde;o do        paradigma do progresso. Muitas das minhas ideias que v&atilde;o ser conhecidas        e desenvolvidas anos mais tarde est&atilde;o praticamente todas presentes neste        texto, que foi publicado no n.&ordm; 6 da <i>Revista Cr&iacute;tica de Ci&ecirc;ncias        Sociais</i> e que termina exatamente dessa forma, em que eu digo que uma conce&ccedil;&atilde;o        amputada do marxismo levou-nos a pensar que, c&aacute; em baixo, est&aacute;        a economia e, l&aacute; em cima, est&aacute; a cultura. Era, portanto, a ideia      ]]></body>
<body><![CDATA[  da superestrutura e da infraestrutura, que era fundamental tamb&eacute;m no        estudo das leis marxistas e depois terminava com um dizer popular da sociedade        portuguesa que era a ideia do tiroliro: a sociedade n&atilde;o &eacute; um tiroliro        para baixo e para cima, n&atilde;o deixemos que as nossas lutas o sejam, que        a gente v&aacute; da economia, passa para a estrutura, da superestrutura para        a economia. Na minha forma&ccedil;&atilde;o marxista o Ivan Illich &eacute;        importante porque &eacute; algu&eacute;m que n&atilde;o &eacute; marxista e        que me obriga a defender o marxismo em rela&ccedil;&atilde;o a ele. Mais tarde        um outro grande intelectual, esse sim marxista, foi outra grande influ&ecirc;ncia.        Trata-se de Ernst Bloch. Bloch &eacute; um marxista altamente revisionista de      ]]></body>
<body><![CDATA[  tudo aquilo que estava a ser o dogmatismo sovi&eacute;tico. Esteve nos Estados        Unidos, mas depois decidiu voltar para a Alemanha Oriental onde foi v&iacute;tima        de persegui&ccedil;&atilde;o por n&atilde;o ser um marxista dogm&aacute;tico.        O Ernst Bloch foi a outra consci&ecirc;ncia muito importante do marxismo. Claro        que em Portugal n&atilde;o foi bem recebido, ali&aacute;s o livro que n&oacute;s        acab&aacute;mos de publicar, o <i>Pneumat&oacute;foro</i>,<sup><a href="#4">4</a></sup><a name="top4"></a>        tem uma boa prova disso. Acho que este livro at&eacute; &eacute; uma leitura        interessante do pr&oacute;prio Portugal daquele per&iacute;odo. Esse e outros        textos, por exemplo sobre o sindicalismo, criam uma profunda desconfian&ccedil;a        por parte do Partido Comunista. Alguns militantes, agindo ou n&atilde;o por      ]]></body>
<body><![CDATA[  conta pr&oacute;pria, tentaram prejudicar a minha vida profissional no momento        inicial da Revolu&ccedil;&atilde;o portuguesa, depois de 1974. N&atilde;o conseguiram        porque os estudantes da Faculdade de Economia tinham aprendido o Marx atrav&eacute;s        de mim antes do 25 de Abril, no primeiro ano em que eu dei aulas, em 1973, porque        eu j&aacute; o considerava como um dos fundadores da Sociologia, ao lado do        Max Weber, do Durkheim e do Comte. Mas, fui extremamente mal recebido, lembro-me        do inqu&eacute;rito que fizemos pelas escolas, logo depois do 25 de Abril, com        os meus estudantes do primeiro ano da Faculdade de Economia e da sec&ccedil;&atilde;o        aqui de Coimbra do Partido Comunista ter ido para a r&aacute;dio considerar        que era altamente suspeito esse tipo de pesquisa que se fazia, que muitas vezes      ]]></body>
<body><![CDATA[  eram realiza&ccedil;&otilde;es da CIA e do imperialismo norte-americano que        estavam por detr&aacute;s, etc. Insinuando que eu pr&oacute;prio, tendo feito        uma tese de doutoramento nos Estados Unidos, provavelmente era um agente do        imperialismo norte-americano. Isso podia ter-me prejudicado bastante, n&atilde;o        prejudicou at&eacute; porque eu fui, depois do 25 de Abril, o &uacute;nico diretor        de uma Faculdade, aqui em Coimbra, que n&atilde;o era do Partido Comunista.        Isso criou muita fric&ccedil;&atilde;o que vai continuar nos anos seguintes,        apesar de que o marxismo pol&iacute;tico em Portugal, nessa altura, tamb&eacute;m        j&aacute; estava a ser muito atravessado por outras contradi&ccedil;&otilde;es.        Fundamentalmente havia os maoistas, havia os albaneses, havia os chineses, que      ]]></body>
<body><![CDATA[  eram muito fortes dada a cis&atilde;o no movimento comunista, e depois havia        j&aacute; uma corrente que mais tarde passou a ser fundamental, e que se chamou        de marxismo ocidental, e que foi o movimento de esquerda socialista aqui em        Portugal, a que pertenceu, por exemplo, Jorge Sampaio e cujo autor fundamental        era a Rosa Luxemburgo. Precisamente porque, a cr&iacute;tica que ela tinha feito        logo em 1918 &agrave; Revolu&ccedil;&atilde;o Russa, nos permitia ver uma conce&ccedil;&atilde;o        radical de democracia e n&atilde;o uma substitui&ccedil;&atilde;o de uma ditadura        capitalista por uma ditadura burocr&aacute;tica comunista. Essa corrente era,        no entanto, muito minorit&aacute;ria, a corrente maiorit&aacute;ria era a do        Partido Comunista, que ali&aacute;s nunca tinha sido aberto a qualquer renova&ccedil;&atilde;o,      ]]></body>
<body><![CDATA[  digamos, te&oacute;rica, ao contr&aacute;rio do que tinha acontecido com o Partido        Comunista Italiano ou o Partido Comunista Espanhol. E, portanto, fui realmente        mal recebido, com um preconceito e uma suspei&ccedil;&atilde;o que se mantiveram        durante muitos anos, sobretudo depois da viragem pol&iacute;tica do 25 de Novembro        de 1975, quando se torna claro que Portugal n&atilde;o vai ser uma sociedade        socialista, vai orientar-se para uma sociedade capitalista de recorte europeu,        portanto uma social-democracia no melhor dos casos. &Eacute; a&iacute; que surge,        por exemplo, a quest&atilde;o do sindicalismo. As cis&otilde;es come&ccedil;am        a surgir no movimento sindical, uma necessidade de renovar o sindicalismo para        o tornar mais independente em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; tutela partid&aacute;ria      ]]></body>
<body><![CDATA[  e essas fraturas j&aacute; existem no pr&oacute;prio movimento. E a&iacute;        eu sou convidado pelo Manuel Carvalho da Silva, que era o secret&aacute;rio        da CGTP, para participar num col&oacute;quio organizado por eles sobre o futuro        do sindicalismo e eu apresentei as teses<sup><a href="#5">5</a></sup><a name="top5"></a>        &ndash; certamente pol&eacute;micas, mais tarde talvez famosas mas, na altura,        infames. Foram as teses sobre a renova&ccedil;&atilde;o do sindicalismo e que        realmente foram objeto da cr&iacute;tica &ndash; mais tarde quase pareceu um        privil&eacute;gio, mas na altura n&atilde;o foi &ndash; de &Aacute;lvaro Cunhal,        o secret&aacute;rio-geral do PCP, cr&iacute;ticas que depois se prolongaram        pelos membros do Comit&eacute; Central, nomeadamente pelo Domingos Abrantes,      ]]></body>
<body><![CDATA[  com artigos no <i>Avante</i>. Esse debate foi muito importante e ainda h&aacute;        pouco tempo quando publiquei o <i>Pneumat&oacute;foro</i>, agradeci ao Domingos        Abrantes pelo facto de me ter deixado publicar um bocadinho do que era Portugal        naquela altura e dos debates que tivemos. A minha vers&atilde;o nunca foi plenamente        bem recebida pela esquerda portuguesa, mesmo pela esquerda que n&atilde;o era        comunista. Temos tido sempre muitas articula&ccedil;&otilde;es e converg&ecirc;ncias        pol&iacute;ticas, mas eu nunca fui suficientemente marxista para eles, precisamente        pela cr&iacute;tica que tinha exercido a partir das posi&ccedil;&otilde;es do        Ivan Illich. Embora tenha moderado o seu radicalismo, obviamente nunca deixei        de pensar que o paradigma do progresso nos levava ao desastre e que havia outro      ]]></body>
<body><![CDATA[  tipo de desenvolvimento e outro tipo de conce&ccedil;&atilde;o de progresso        social que o do progresso linear desenvolvimentista. O que fez com que tamb&eacute;m        n&atilde;o fosse muito bem recebido nem na altura, nem depois, por aqueles que        se consideravam os marxistas encartados do Brasil, que foram cr&iacute;ticos        e que muitas vezes fizeram gala de dizer que &ldquo;o Boaventura n&atilde;o        &eacute; marxista&rdquo;. &Eacute; importante lembrar que h&aacute; 20 ou 30        anos ser ou n&atilde;o marxista era importante para a legitimidade pol&iacute;tica        de uma pessoa. Enfim, vivi isso e fui construindo as minhas ideias &agrave;        medida que fui vivendo.</p>     <p><b>BSM</b>: Recentemente, nalgumas das suas palestras e nalguns dos seus escritos    tem levantado a quest&atilde;o: &ldquo;&eacute; poss&iacute;vel descolonizar    o marxismo?&rdquo;. Mais de 100 anos passados da Revolu&ccedil;&atilde;o Russa,    que lugar acha que existe para o pensamento de inspira&ccedil;&atilde;o marxista,    nas lutas sociais do futuro?</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>BSS</b>: Pois, essa tamb&eacute;m &eacute; uma quest&atilde;o importante.    Sempre entendi a minha cr&iacute;tica ao marxismo como uma cr&iacute;tica interna    e n&atilde;o como uma cr&iacute;tica externa, embora fosse muitas vezes lida    como uma cr&iacute;tica externa, de algu&eacute;m que abandonou o marxismo.    Essa cr&iacute;tica teve uma longa condensa&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica    num dos cap&iacute;tulos de <i>Pela m</i><i>&atilde;o de Alice</i>, a partir    da ideia presente no <i>Manifesto Comunista</i> de que tudo o que &eacute; s&oacute;lido    se dissolve no ar. Acrescentei: inclusivamente o marxismo, ponto de interroga&ccedil;&atilde;o.<sup><a href="#6">6</a></sup><a name="top6"></a>    &Eacute; a&iacute; realmente o meu ajuste de contas mais forte, no seguimento    do texto de 1981 (&ldquo;Pensar o socialismo depois da Revolu&ccedil;&atilde;o    de 1974&rdquo;), que eu tenho com o marxismo. Nesse texto eu procuro &ndash;    e que vai ser uma coisa que me vai orientar at&eacute; hoje &ndash; fazer uma    distin&ccedil;&atilde;o entre a utilidade do marxismo para analisar a sociedade    capitalista &ndash; que eu nunca deixei de crer que &eacute; a melhor an&aacute;lise,    a mais radical, a mais consistente, a mais elaborada, a mais complexa, da sociedade    capitalista &ndash;, e a pouca utilidade que o marxismo podia ter para eu formular    uma sociedade do futuro. Portanto, muito &uacute;til para a an&aacute;lise do    presente, mas n&atilde;o para a previs&atilde;o do que pode ser a sociedade    do futuro, precisamente por muitas das continuidades com o pr&oacute;prio capitalismo,    que inicialmente era uma quest&atilde;o do desenvolvimento e do progresso. Depois    foram outras quest&otilde;es como o conceito de natureza, que &eacute; um conceito    cartesiano e n&atilde;o um conceito espinosista da natureza, e por &uacute;ltimo,    a quest&atilde;o epistemol&oacute;gica. A quest&atilde;o epistemol&oacute;gica    atrelada tamb&eacute;m ao modo como o marxismo entendeu o pr&oacute;prio colonialismo.    Assim, quando surge a quest&atilde;o de descolonizar o marxismo, ele tem &ndash;    digamos assim &ndash; dois pilares: por um lado, &eacute; o facto da quest&atilde;o    racial n&atilde;o ter sido, em meu entender, bem tratada por Marx. &Eacute;    evidente que mais tarde vim a ler muitas coisas de intelectuais marxistas negros,    sobretudo norte-americanos. Alguns conhecia j&aacute; na altura em que escrevi    o segundo artigo de an&aacute;lise do marxismo no <i>Pela m</i><i>&atilde;o</i>    <i>de Alice</i>, outros conheci-os muito mais tarde. O marxismo a partir das    margens, o marxismo negro, onde os autores v&atilde;o chamando a aten&ccedil;&atilde;o    como at&eacute; em trabalhos de imprensa &ndash; que eram o seu ganha p&atilde;o    &ndash; Marx ia referindo a quest&atilde;o do racismo e revelava a sua consci&ecirc;ncia    antirracista. Na altura, isso n&atilde;o estava presente para mim porque eu    conhecia razoavelmente a obra fundamental do Marx e os <i>Manuscritos (econ&oacute;mico-filos&oacute;ficos)    de 1844</i>, o <i>Grundrisse</i> e depois o pr&oacute;prio <i>O</i> <i>capital</i>,    os tr&ecirc;s volumes de <i>O capital</i>. Eu n&atilde;o via a&iacute; realmente    uma grande apet&ecirc;ncia ou uma grande presen&ccedil;a da cr&iacute;tica do    racismo no Marx. E essa aus&ecirc;ncia est&aacute; ligada com outro pilar que    &eacute; o colonialismo. Eu n&atilde;o conhecia, nem estavam dispon&iacute;veis    todos os textos jornal&iacute;sticos do Marx, e o modo como ele, por exemplo,    na Europa teve muita consci&ecirc;ncia do colonialismo, nomeadamente quando    ele critica o modo como os trabalhadores ingleses tratam os trabalhadores irlandeses,    que &eacute; uma rela&ccedil;&atilde;o colonial segundo ele, e a Irlanda como    uma col&oacute;nia da Inglaterra. Mas no que respeita &agrave; &Iacute;ndia,    Marx tem uma posi&ccedil;&atilde;o extremamente ambivalente e termina o seu    texto dizendo que realmente a Inglaterra, o colonialismo ingl&ecirc;s, foi muito    importante para trazer a &Iacute;ndia ao mundo da civiliza&ccedil;&atilde;o,    a qual a partir de ent&atilde;o permitir&aacute; um futuro socialista. A ideia    de que o colonialismo europeu acabou por ter vantagens &eacute; outra continuidade    que eu comecei a identificar entre o marxismo e as teorias estruturais-funcionalistas,    o desenvolvimento das for&ccedil;as produtivas, que tinham ocorrido fundamentalmente    por via capitalista, era entendido pelo marxismo, a certa altura, como algo    que para continuar tinha de ter outras rela&ccedil;&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o,    mas defendia-se que deveria continuar o mesmo desenvolvimento das for&ccedil;as    produtivas. Era a&iacute; que entrava a cr&iacute;tica &ndash; digamos &ndash;    radical, ecologista, do Ivan Illich. E, foi a&iacute; que eu vi a necessidade    de descolonizar o marxismo, que significa basicamente que ao marxismo tinham    de se juntar outras tradi&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas e que o marxismo    teria que ser profundamente retrabalhado &ndash; por isso &eacute; que ele era    considerado j&aacute;, desde 81, como um trabalho inacabado &ndash; por todos    aqueles movimentos e te&oacute;ricos e ativistas que tinham caldeado o seu marxismo,    por exemplo, nas lutas anticoloniais e que traziam uma outra vis&atilde;o do    marxismo. Isso tornou-se muito mais claro para mim, mais tarde, ao ler o Am&iacute;lcar    Cabral, o Kwame Nkrumah e o Julius Nyerere&hellip; foram fundamentalmente estes,    e tamb&eacute;m Frantz Fanon obviamente, mas o Frantz Fanon surge bastante mais    tarde. &Eacute; nessa altura que me apercebi que o futuro n&atilde;o pode ser    o futuro daquelas sociedades socialistas do outro lado, mas que a ferida &eacute;    mais profunda que a ferida estalinista, n&atilde;o &eacute; apenas a cr&iacute;tica    do estalinismo. &Eacute; a cr&iacute;tica do modelo de desenvolvimento e de    progresso que subjaz a todo o universo marxista, e, portanto, menos &uacute;til    para o futuro. Isto era uma heresia marxista, pois nessa altura uma pessoa deixava    de ser marxista no momento em que o utilizasse seletivamente. N&atilde;o se    pode ser marxista dizendo que o marxismo &eacute; &uacute;til para analisar    a sociedade capitalista, mas n&atilde;o &eacute; muito &uacute;til e tem que    ser muito complementado com outras teorias para ajudar a construir uma teoria    de emancipa&ccedil;&atilde;o social e a liberta&ccedil;&atilde;o p&oacute;s-capitalista.    Era uma linha de fratura para aqueles que entendiam que n&atilde;o se podia    ser marxista se n&atilde;o visse o futuro como um futuro marxista.</p>     <p><b>BSM</b>: Estamos aqui no seu escrit&oacute;rio pejado de livros e de escritores    por toda a parte&hellip; Para pensar no futuro, a que autores &eacute; que sempre    regressa, se &eacute; que existem alguns?</p>     <p><b>BSS</b>: Bem, obviamente Marx &eacute; um deles. &Eacute; absolutamente    not&aacute;vel a sua atualidade nalgumas quest&otilde;es, nomeadamente na quest&atilde;o    do capital financeiro, na quest&atilde;o da renda fundi&aacute;ria, na quest&atilde;o    da terra e do territ&oacute;rio que &eacute; t&atilde;o importante para os movimentos    ind&iacute;genas. &Eacute; realmente muito importante analisar como Marx previu    as dificuldades da penetra&ccedil;&atilde;o do capitalismo na terra, por exemplo,    e como viu o que seria uma sociedade dominada pelo capitalismo financeiro globalizado.    Por isso, Marx &eacute; sempre um desses autores. Depois h&aacute; outros autores.    Para mim, o Espinoza &eacute; um deles. &Eacute; um autor que foi talvez para    mim sempre o mais subtil cr&iacute;tico da filosofia ocidental, digamos assim,    dando for&ccedil;a &agrave; ideia de um pluralismo interno da ci&ecirc;ncia,    de um pluralismo interno da filosofia ocidental. A minha leitura de Espinoza    &eacute; muito pr&oacute;pria. Muita gente considera Espinoza como absolutamente    dentro da teoria convencional da filosofia ocidental. Para mim &eacute; uma    grande figura de um iluminismo radical, muito diferente das vers&otilde;es dominantes    que acabaram por ser de uma linha de Descartes, de Hegel, etc. Espinoza &eacute;    sempre um autor a que eu regresso. Mahatma Gandhi tamb&eacute;m &eacute; outro    desses autores. Nos quase 100 volumes da sua obra, podemos a cada momento ir    buscar coisas que, &agrave;s vezes, nos surpreendem pela sua atualidade. Outras    vezes, quase nos cria uma certa repulsa o modo como desconsidera certas quest&otilde;es,    mas &eacute; um pensador radical. E isso sempre me apaixonou. Um outro pensamento    radical da estatura do Gandhi, era o Ivan Illich. O Ivan Illich dentro da cultura    ocidental e esbracejando contra ela com toda a for&ccedil;a, muito mais for&ccedil;a,    digamos assim, que o radicalismo do Noam Chomsky, que &eacute; fundamentalmente    uma cr&iacute;tica do imperialismo ocidental, mas que epistemologicamente &eacute;    muito subsidi&aacute;ria da pr&oacute;pria cultura ocidental. E, fora do Ocidente,    como disse, o Gandhi. Estes autores sempre me fascinaram. Ainda nessa linha,    o Bloch &eacute; tamb&eacute;m muito importante. Os tr&ecirc;s volumes de <i>O    Princ&iacute;pio Esperan&ccedil;a</i> s&atilde;o para mim uma &ldquo;b&iacute;blia&rdquo;,    quer dizer, l&ecirc;-se a qualquer momento que possas ter na tua vida&hellip;    Abres um dos livros, abre ao acaso, n&atilde;o te preocupes em ler qual &eacute;    a p&aacute;gina, qual &eacute; o tema, nem v&aacute;s ao &iacute;ndice, abre    e l&ecirc; uma p&aacute;gina e naquela p&aacute;gina h&aacute; uma aprendizagem    qualquer, e s&atilde;o milhares de p&aacute;ginas. Um homem que escreveu nas    piores condi&ccedil;&otilde;es, porque como n&atilde;o era um intelectual da    Escola de Frankfurt n&atilde;o tinha o benepl&aacute;cito de uma intelectualidade    norte-americana, como teve o Adorno e o Horkheimer, e manteve-se sempre um bocadinho    &agrave; margem, tanto assim que depois foi viver para a Alemanha Oriental e    foi-lhe extremamente penosa a sua passagem pelos Estados Unidos. Existe ainda    um autor que eu s&oacute; descobri j&aacute; no s&eacute;culo xxi, uma descoberta    relativamente tardia na minha vida, mas que quando descobri passou a ser uma    fulgura&ccedil;&atilde;o e uma leitura praticamente quotidiana, que &eacute;    o Pier Paolo Pasolini. O Pasolini &eacute; um autor absolutamente vibrante,    da cultura ocidental, o mais iconoclasta que tu podes imaginar, o mais dif&iacute;cil    de meter em qualquer caixa: um homem que se considerava comunista, numa luta    contra o comunista, que n&atilde;o era cat&oacute;lico mas ao mesmo tempo participava    em todas as lutas cat&oacute;licas e que tinha uma vis&atilde;o completamente    heterodoxa, muitas vezes muito pr&oacute;xima das posi&ccedil;&otilde;es mais    reacion&aacute;rias que se possam imaginar, mas a partir de uma cr&iacute;tica    de esquerda que obviamente destro&ccedil;ava todos os convencionalismos da esquerda    italiana e europeia. Foi um homem que n&atilde;o foi apenas um homem da escrita    &ndash; mas que se via fundamentalmente assim &ndash;, mas que foi tamb&eacute;m    um grande cineasta. &Eacute; um autor a que tamb&eacute;m tu podes sempre voltar,    e a&iacute; sim, tu n&atilde;o tens de ler porque ele nunca teve uma obra sistem&aacute;tica,    &eacute; mais como romancista que ele o faz, e como poeta tamb&eacute;m, mas    s&atilde;o as suas entrevistas, as suas interven&ccedil;&otilde;es, os seus    textos &ndash; por exemplo as &ldquo;Cartas Luteranas&rdquo; ou os &ldquo;Escritos    Cors&aacute;rios&rdquo; &ndash; que s&atilde;o fabulosos pela intensidade daquela    intelig&ecirc;ncia sobre os problemas sociais do seu tempo, e a capacidade de    ser radical, tornando a acomoda&ccedil;&atilde;o insuport&aacute;vel. Ainda    ontem, no Porto, nos 50 anos da <i>Pedagogia do oprimido</i> do Paulo Freire    &ndash; era um encontro internacional dos Institutos Paulo Freire &ndash; eu    terminava exatamente dessa forma, isto &eacute;, salientando como autores como    o pr&oacute;prio Paulo Freire, que eu muito estimo, ou o Pasolini nos mostram    &ndash; aquilo que deve mostrar um intelectual radical &ndash; que &eacute;    insuport&aacute;vel a acomoda&ccedil;&atilde;o na nossa sociedade e &eacute;    impens&aacute;vel a desist&ecirc;ncia. &Eacute; esse o meu lema. Continuo a    seguir esses mestres. Mas n&atilde;o posso esquecer o meu mestre portugu&ecirc;s,    felizmente ainda vivo, Eduardo Louren&ccedil;o. O encantamento da sua escrita    em profundidade faz com que as suas ideias se multipliquem em muitas outras    que s&atilde;o nossas, mas que n&atilde;o existiriam sem a sua escrita.</p>     <p><b>BSM</b>: Perante um cen&aacute;rio em que se torna cada vez mais patente    a impossibilidade de coexist&ecirc;ncia entre capitalismo neoliberal e democracia,    mesmo aquela que o Boaventura designava de &ldquo;democracia de baixa intensidade&rdquo;,    que horizonte para a esperan&ccedil;a dos democratas: a revolu&ccedil;&atilde;o    ou o reformismo?</p>     <p><b>BSS</b>: Pois, essa &eacute; uma pergunta-limite. &Eacute; aquela pergunta        que s&oacute; se pode responder em articula&ccedil;&atilde;o com uma teoria        cr&iacute;tica n&atilde;o euroc&ecirc;ntrica, levando os limites ao limite.        Significa assumir uma posi&ccedil;&atilde;o ut&oacute;pica e n&atilde;o ter        de pedir desculpa a ningu&eacute;m por isso. Porque, fundamentalmente, estes        dois paradigmas, a revolu&ccedil;&atilde;o e o reformismo, orientaram todo o      ]]></body>
<body><![CDATA[  pensamento cr&iacute;tico ocidental desde o princ&iacute;pio do s&eacute;culo        xx e est&atilde;o muito presentes nessa altura como modelos de liberta&ccedil;&atilde;o        e de emancipa&ccedil;&atilde;o social que depois se transferiram para outras        partes do mundo. Nenhum deles est&aacute; na agenda neste momento, no s&eacute;culo        xxi, nem a revolu&ccedil;&atilde;o nem o reformismo. O que est&aacute; na agenda        &eacute; o contrarreformismo. Estamos num ciclo global reacion&aacute;rio em        que qualquer destes modelos est&aacute; em crise porque est&aacute; em causa        a pr&oacute;pria ideia de alternativa, no sentido que a sociedade neoliberal        transforma todas as quest&otilde;es pol&iacute;ticas em quest&otilde;es t&eacute;cnicas.        Quando se criticou a ideia do fim da hist&oacute;ria, no fundo, quem pensou      ]]></body>
<body><![CDATA[  e escreveu sobre a ideia do fim da hist&oacute;ria, sabia exatamente &ndash;        porque estava a trabalhar dentro do monstro neoliberal e como pensador neoliberal        &ndash; que era isso que se queria, era eliminar todas as alternativas pol&iacute;ticas.        Sem alternativas pol&iacute;ticas n&atilde;o h&aacute; sequer pol&iacute;tica        e muito menos democracia, e por isso estamos numa fase de crise sist&eacute;mica        profunda, porque nos faltam os paradigmas de transforma&ccedil;&atilde;o social        com base nos quais constru&iacute;mos toda a teoria cr&iacute;tica. &Eacute;        esse quadro que justifica as epistemologias do Sul, porque se n&atilde;o h&aacute;        alternativa, a pr&oacute;pria pol&iacute;tica &eacute; epistemol&oacute;gica.        H&aacute; uma &uacute;nica solu&ccedil;&atilde;o v&aacute;lida, n&atilde;o h&aacute;      ]]></body>
<body><![CDATA[  outra, e portanto, &eacute; monop&oacute;lio, &eacute; a monocultura da solu&ccedil;&atilde;o        pol&iacute;tica v&aacute;lida. Quase que teria de pensar numa outra monocultura        para al&eacute;m das cinco monoculturas da teoria euroc&ecirc;ntrica,<sup><a href="#7">7</a></sup><a name="top7"></a>        que &eacute; a monocultura da pol&iacute;tica v&aacute;lida, aquela que &eacute;        a &uacute;nica que se pode ter, e essa &eacute; a &ldquo;n&atilde;o pol&iacute;tica&rdquo;.        &Eacute; a despolitiza&ccedil;&atilde;o, a destrui&ccedil;&atilde;o de toda        a armadura de pensar algo para al&eacute;m da sociedade atual, de pensar a realidade        para al&eacute;m do que existe. Toda a teoria cr&iacute;tica, o pensamento radical,        trata de n&atilde;o reduzir a realidade ao que existe e pensar que faz parte        da realidade tudo aquilo a que n&oacute;s temos direito e que &eacute; suprimido      ]]></body>
<body><![CDATA[  precisamente pelas correntes convencionais e pelas formas de opress&atilde;o        assentes em tr&ecirc;s cabe&ccedil;as: o capitalismo, o colonialismo e o patriarcado.        Desde h&aacute; algum tempo que para mim s&atilde;o estas tr&ecirc;s formas        de domina&ccedil;&atilde;o. Foi realmente a partir da&iacute; que a descoloniza&ccedil;&atilde;o        do marxismo se tornou numa teoria nova ou, enfim, numa proposta te&oacute;rica        com grande inova&ccedil;&atilde;o, que &eacute; o facto de considerar a domina&ccedil;&atilde;o        assente nestas tr&ecirc;s cabe&ccedil;as. Elas n&atilde;o estiveram presentes        no que foram a revolu&ccedil;&atilde;o e o reformismo nas suas vers&otilde;es        convencionais. Como estes horizontes est&atilde;o eles pr&oacute;prios postos        em quest&atilde;o, eu tive necessidade de pensar outra epistemologia, que &eacute;      ]]></body>
<body><![CDATA[  &oacute;bvia e explicitamente pol&iacute;tica. S&atilde;o as epistemologias        do Sul, centradas no conhecimento nascido das lutas, a partir das lutas e das        perspetivas daqueles que sofrem a opress&atilde;o sist&eacute;mica do capitalismo,        do colonialismo e do patriarcado. E, para isso, eu tenho de aprender como essa        opress&atilde;o ocorre no Sul, e particularmente no Sul geogr&aacute;fico. O        Sul geogr&aacute;fico transforma-se num Sul epist&eacute;mico e passa a reverter-se        a rela&ccedil;&atilde;o de domina&ccedil;&atilde;o. O Sul geogr&aacute;fico        que &eacute;, digamos assim, o espelho da opress&atilde;o capitalista colonialista        e patriarcal, passa a ser um espelho invertido epistemol&oacute;gico onde eu        posso encontrar ideias de renova&ccedil;&atilde;o, de criatividade, de insurg&ecirc;ncia,      ]]></body>
<body><![CDATA[  que me podem trazer um futuro. Esse futuro &eacute;-me devolvido por aqueles        que foram praticamente eliminados &ndash; mas nunca totalmente &ndash; por aqueles        que, no passado, foram privados de futuro. E foi o pensamento euroc&ecirc;ntrico        que nos levou a este beco sem sa&iacute;da do neoliberalismo dominado pelo capitalismo        financeiro. Neste momento, eu n&atilde;o tenho sequer nomes, porque n&atilde;o        h&aacute; nomes, porque o que n&oacute;s temos vindo a dizer &eacute; que quer        a reforma, quer a revolu&ccedil;&atilde;o, s&atilde;o duas alternativas com        &ldquo;A&rdquo; grande e n&atilde;o h&aacute; alternativas com &ldquo;A&rdquo;        grande, h&aacute; alternativas com &ldquo;A&rdquo; pequeno. Essas alternativas        nem sequer s&atilde;o formul&aacute;veis em linguagens coloniais, da&iacute;      ]]></body>
<body><![CDATA[  a aprendizagem profunda do movimento ind&iacute;gena, o movimento afrodescendente        por todo o mundo, portanto, a partir dos exclu&iacute;dos. Por isso penso os        direitos humanos a partir daqueles que s&atilde;o privados deles, a democracia        a partir de quem n&atilde;o tem democracia, a dignidade a partir daqueles que        sofrem a degrada&ccedil;&atilde;o ontol&oacute;gica da linha abissal. E penso        a linha abissal como radicalidade profunda. Nem a revolu&ccedil;&atilde;o, nem        a reforma, nem o reformismo deram conta da linha abissal, porque eles pr&oacute;prios        foram v&iacute;timas dela. Eu tenho referido muito nas minhas &uacute;ltimas        interven&ccedil;&otilde;es que as institui&ccedil;&otilde;es que criam a linha        abissal s&atilde;o aquelas que a tornam mais invis&iacute;vel. A escola &eacute;      ]]></body>
<body><![CDATA[  uma delas, e eu tenho referido muitas vezes isso, de uma forma dram&aacute;tica,        quando cinco dias depois daquela oficina que n&oacute;s fizemos em homenagem        a Marielle Franco, no Rio de Janeiro, os militares bombardearam a partir de        helic&oacute;pteros a favela, mataram v&aacute;rias pessoas, entre as quais        o jovem Marcus Vin&iacute;cius de 14 anos que ia com o seu uniforme escolar        a caminho da escola. A m&atilde;e v&ecirc; o filho prostrado, chama a ambul&acirc;ncia,        os militares impedem a ambul&acirc;ncia de entrar na favela, ela demora uma        hora, e as &uacute;ltimas palavras do jovem Marcus Vin&iacute;cius para a sua        m&atilde;e est&atilde;o na pergunta: &ldquo;m&atilde;e, os militares n&atilde;o        viram que eu estava com o uniforme escolar?&rdquo;. Foram as &uacute;ltimas      ]]></body>
<body><![CDATA[  palavras, pouco depois morreu nos bra&ccedil;os da m&atilde;e. Isto &eacute;        a linha abissal. Quer dizer, este jovem pensou que a escola o protegia, a escola        n&atilde;o o protegia, a escola que lhe criou a ideia que n&atilde;o h&aacute;        linha abissal, que quem vai para a escola &eacute; o menino bem-comportado,        est&aacute; na sociedade, ela disfar&ccedil;a que essa linha abissal est&aacute;        a&iacute;. A escola n&atilde;o o protegeu e ele morreu. Portanto, isso para        mim &eacute; a necessidade que n&oacute;s temos de formas de emancipa&ccedil;&atilde;o        e liberta&ccedil;&atilde;o que sejam p&oacute;s-abissais. Isso est&aacute; bem        constru&iacute;do, digamos assim, no nosso pensamento, e o projeto ALICE<sup><a href="#8">8</a></sup><a name="top8"></a>        foi fundamental para nos levar a essa conclus&atilde;o. Mas o que n&oacute;s      ]]></body>
<body><![CDATA[  estamos a fazer neste momento &eacute; a dar visibilidade &agrave;s solu&ccedil;&otilde;es        no dom&iacute;nio da democracia, no dom&iacute;nio dos direitos humanos, das        economias, das conce&ccedil;&otilde;es de dignidade, conce&ccedil;&otilde;es        de sa&uacute;de, epistemol&oacute;gicas, estamos a celebrar a diversidade e        n&atilde;o estamos preocupados com s&iacute;nteses. Ali&aacute;s, vai-se consolidando        a ideia que realmente a s&iacute;ntese &eacute; uma outra armadilha da qual        n&oacute;s nos temos de libertar.</p>     <p><b>BSM</b>: Desenvolvendo um pouco a sua ideia, diria que o conceito &ldquo;linha    abissal&rdquo; &eacute; um dos conceitos fundamentais para o modo como pensa    o mundo neste momento?</p>     <p><b>BSS</b>: Absolutamente fundamental. Este pensamento &eacute; talvez o que    em tempos recentes mais profundamente transformou o meu modo de analisar a sociedade.    A ideia de que ontem, como hoje, h&aacute; duas formas de sociabilidade na nossa    sociedade: a forma metropolitana e a forma colonial. E esta dualidade n&atilde;o    ocorre apenas na sociedade, ocorre tamb&eacute;m na nossa pr&oacute;pria subjetividade.    N&oacute;s pr&oacute;prios vivemos intensamente essa linha abissal sem nos darmos    conta. E agora sim, mais profundamente e talvez mais radicalmente que Ivan Illich,    eu acho que o inimigo est&aacute; dentro de n&oacute;s, e que a linha abissal    est&aacute; c&aacute; dentro. E uma luta contra essa linha abissal &eacute;    uma luta de todos os dias, digamos assim. E &eacute; uma linha que realmente    n&atilde;o nos permite libertar da ideia de corpos racializados, sexualizados,    ou degradados tamb&eacute;m pelo capitalismo &ndash; &eacute; o trabalho sem    direitos, s&atilde;o os corpos escravizados, s&atilde;o os corpos refugiados,    s&atilde;o os corpos imigrantes sem pap&eacute;is&hellip; E isso continua a    ser muito claro, e continua a s&ecirc;-lo aqui na nossa sociedade&hellip; Recentemente    estive em Barcelona e fui convidado por um grupo de imigrantes sem pap&eacute;is,    para entrar numa sua ocupa&ccedil;&atilde;o dentro da cidade, que &eacute; um    espa&ccedil;o num apartamento, uma cave que eles ocuparam e a que chamam <i>encierro</i>,    que &eacute; um meio encerrado. Uma met&aacute;fora das suas vidas. &Eacute;    uma ocupa&ccedil;&atilde;o onde organizam as suas sess&otilde;es, os seus trabalhos,    e onde alguns vivem. Vivem realmente uma aventura absolutamente kafkiana, da    passagem do imigrante sem pap&eacute;is para o imigrante com pap&eacute;is,    no fundo a passagem da linha abissal. Trata-se de uma passagem constru&iacute;da    para que n&atilde;o passem. &Eacute; muito dif&iacute;cil, &eacute; uma aventura    completamente kafkiana de quem, atrav&eacute;s da Lei de Estrangeiros espanhola,    sabe que para ter pap&eacute;is precisa ter emprego, mas para ter emprego &eacute;    preciso ter pap&eacute;is, e por isso n&atilde;o consegues nunca sair, passas    anos nisto at&eacute; que &ndash; por via da corrup&ccedil;&atilde;o &ndash;    &agrave;s vezes consegues os pap&eacute;is para poder obter um emprego com pap&eacute;is    e obter a regulariza&ccedil;&atilde;o. Mas, essa passagem &eacute; estritamente    individual, porque quem &eacute; que tem 3500 Euros para pagar &ndash; naquelas    condi&ccedil;&otilde;es &ndash; o suborno para obter pap&eacute;is de um patr&atilde;o    e poder obter a regulariza&ccedil;&atilde;o? A passagem da linha abissal nunca    &eacute; coletiva e isso &eacute; que &eacute; fundamental para n&oacute;s hoje,    as travessias individuais da linha abissal est&atilde;o perfeitamente dispon&iacute;veis    e s&atilde;o o m&aacute;ximo de consci&ecirc;ncia poss&iacute;vel da toler&acirc;ncia    ocidental, passagens coletivas n&atilde;o. O artista da favela, o <i>hip-hop</i>,    o <i>rapper</i>, passam da favela para o c&acirc;none dos artistas que entram    no circuito da ind&uacute;stria do entretenimento, mas a favela a que ele pertence    n&atilde;o passa. E para n&oacute;s &eacute; muito importante isso, porque toda    a teoria, mesmo na teoria cr&iacute;tica euroc&ecirc;ntrica, &eacute; muito    assente a ideia que esta sociedade n&atilde;o tem linhas abissais porque os    direitos s&atilde;o universais e, portanto, h&aacute; passagem. A passagem individual    &eacute; poss&iacute;vel, a passagem coletiva est&aacute; vedada. Pode haver    gente degradada, de corpos racializados, que s&atilde;o grandes professores,    que s&atilde;o at&eacute; dirigentes, podem at&eacute; dirigir um pa&iacute;s    importante, como o Obama, mas a passagem coletiva dos corpos racializados para    a sociedade, essa n&atilde;o tem lugar, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel    neste modelo.</p>     <p><b>BSM</b>: Dizia h&aacute; pouco que estamos numa vaga neoliberal reacion&aacute;ria.    Perante esse momento que vivemos hoje, que balan&ccedil;o &eacute; que faz ou    que &eacute; poss&iacute;vel fazer do socialismo do s&eacute;culo xxi?</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>BSS</b>: Bom, o socialismo do s&eacute;culo xxi foi uma discuss&atilde;o    de boas inten&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o foi mais do que isso. Foi um debate    &ndash; em meu entender &ndash; mal concebido desde o in&iacute;cio, porque    no fundo ele surge fundamentalmente na Am&eacute;rica Latina, como agenda pol&iacute;tica    de discuss&atilde;o intelectual, inicialmente da experi&ecirc;ncia venezuelana,    e depois de outras experi&ecirc;ncias que se foram construindo, principalmente    a experi&ecirc;ncia do Equador com Rafael Correa e da Bol&iacute;via com Evo    Morales. Sendo que o Brasil se manteve sempre um pouco mais longe, como a pr&oacute;pria    Argentina do Nestor Kirchner e depois da Cristina Kirchner. Esse debate assentava    na ideia de que era poss&iacute;vel pensar no s&eacute;culo xxi uma sociedade    socialista de um novo tipo, um tipo que nunca se definiu muito bem. Era tamb&eacute;m    a conce&ccedil;&atilde;o que os sandinistas j&aacute; tinham desde os anos 1980,    e que se manteve com o Daniel Ortega at&eacute; aos dias de hoje, um governo    revolucion&aacute;rio, digamos assim, a que se acede por via democr&aacute;tica,    ou seja pela via reformista e n&atilde;o pela via revolucion&aacute;ria e que,    al&eacute;m do mais, assenta no modelo de desenvolvimento que &eacute; o modelo    neoliberal capitalista, de desenvolvimento capitalista, que ali&aacute;s representa    a maior continuidade com o colonialismo com a extra&ccedil;&atilde;o de mat&eacute;rias-primas    &ndash; que &eacute; o modelo extrativista. H&aacute; aqui uma contradi&ccedil;&atilde;o    fundamental, mas esta &eacute; a cren&ccedil;a que est&aacute; no bojo dessa    conce&ccedil;&atilde;o. Eu participei nalgumas dessas discuss&otilde;es sobretudo    no Equador sobre a quest&atilde;o do socialismo no s&eacute;culo xxi, e a&iacute;    havia um g&eacute;rmen de autenticidade. O g&eacute;rmen de autenticidade era    a ideia de podermos trazer as experi&ecirc;ncias ind&iacute;genas e a contribui&ccedil;&atilde;o    ind&iacute;gena do <i>sumak kawsay</i>, do <i>buen vivir</i>, para uma conce&ccedil;&atilde;o    socialista. Apesar de isso exigir uma profunda tradu&ccedil;&atilde;o intercultural    e interpol&iacute;tica que nunca se quis fazer. No fundo, come&ccedil;ou-se    a falar do <i>sumak kawsay</i> como sendo, n&atilde;o uma alternativa ao desenvolvimento,    mas um desenvolvimento alternativo, assente na ideia do tempo linear, um tempo    completamente estranho &agrave; filosofia ind&iacute;gena. Era uma discuss&atilde;o    relativamente equivocada por estas contradi&ccedil;&otilde;es, mas sobretudo    porque n&atilde;o podia fazer a cr&iacute;tica ao socialismo do s&eacute;culo    xx, porque nesse socialismo do s&eacute;culo xx estava um pa&iacute;s chamado    Cuba, que era muito influente no continente americano e absolutamente decisivo    para o desenvolvimento da pr&oacute;pria Venezuela. N&atilde;o se podia criticar    Cuba, n&atilde;o se podia criticar o partido &uacute;nico, n&atilde;o se podia    criticar o Comit&eacute; Central e a ideia de uma linha correta, do Partido,    e n&atilde;o podendo criticar&hellip; A minha participa&ccedil;&atilde;o neste    debate foi sempre esta: n&oacute;s s&oacute; podemos discutir o socialismo do    s&eacute;culo xxi depois de fazermos um debate cr&iacute;tico, profundo, do    que foi o socialismo no s&eacute;culo xx. Estamos dispostos a faz&ecirc;-lo?    A&iacute; come&ccedil;ava a confus&atilde;o&hellip; E a China &eacute; socialismo    do s&eacute;culo xx ou &eacute; capitalismo de Estado? E a&iacute; a discuss&atilde;o    acabava, porque a discuss&atilde;o era n&atilde;o olharmos para essas quest&otilde;es    que nos v&atilde;o dividir, mas olharmos para o que estamos a fazer. Est&aacute;    bem, mas o que n&oacute;s estamos a fazer pode ser repetir esses erros e se    n&oacute;s n&atilde;o os analisarmos bem, podemos voltar a cair neles da pior    maneira. Eu penso at&eacute; que se calhar foi isso que sucedeu nalguns casos,    por exemplo no caso da Nicar&aacute;gua, sobre o qual eu acabo tamb&eacute;m    de escrever um texto<sup><a href="#9">9</a></sup><a name="top9"></a> que est&aacute;    a causar muita pol&eacute;mica na Am&eacute;rica Latina, mas penso que foi o    que sucedeu.</p>     <p><b>BSM</b>: Dizia j&aacute; h&aacute; algum tempo que seria desej&aacute;vel    que o Estado se pudesse configurar como um nov&iacute;ssimo movimento social.    Acredita nessa possibilidade?</p>     <p><b>BSS</b>: Pois, isso &eacute; uma pergunta tamb&eacute;m muito dilem&aacute;tica        para mim. Porqu&ecirc;? Porque &eacute; que surge o conceito do nov&iacute;ssimo        movimento social? Ele surge nos anos 90. Tal e qual como inicialmente o Estado        era tudo para o modelo revolucion&aacute;rio, e &eacute; muito para a social-democracia        &ndash; pois todas as pol&iacute;ticas sociais eram centradas na ideia do Estado,        do Estado democr&aacute;tico &ndash;, com o neoliberalismo n&oacute;s assistimos        a uma cr&iacute;tica profunda do Estado. Primeiro, como o Estado predador, tudo        o que vem do Estado &eacute; mau, tudo o que vem dos mercados &eacute; bom,      ]]></body>
<body><![CDATA[  e depois o Estado ineficiente. Mesmo que n&atilde;o seja corrupto, &eacute;        ineficiente, os mercados s&atilde;o mais eficientes. Bem, e a&iacute; come&ccedil;a        uma cr&iacute;tica do Estado, radical, em que vai embarcar a pr&oacute;pria        esquerda. Havia de longa data uma esquerda anarquista que tamb&eacute;m criticava        o Estado capitalista, mas essa criticava igualmente o Estado revolucion&aacute;rio.        A corrente de esquerda a que me refiro &eacute; a esquerda da terceira via,        do socialismo dito democr&aacute;tico, ou socialismo na Europa da social-democracia,        do Tony Blair, que depois foi obviamente estendido a todos os partidos socialistas.        &Eacute; a ideia que efetivamente sempre que tivermos de optar entre o Estado        e os mercados, ou pudermos optar entre o Estado e os mercados, se deve dar o      ]]></body>
<body><![CDATA[  benef&iacute;cio da d&uacute;vida ao mercado e n&atilde;o ao Estado. &Eacute;        a grande armadilha neoliberal, porque nestas condi&ccedil;&otilde;es o mercado        ganha sempre. S&atilde;o eles que estabelecem as regras do jogo, portanto, o        Estado &eacute; &agrave; partida ineficiente. O mesmo se diga da Universidade.        Se o objetivo &eacute; transformar a Universidade numa empresa, a Universidade        atualmente existente &eacute; ineficiente.<sup><a href="#10">10</a></sup><a name="top10"></a>        N&atilde;o pode deixar de ser ineficiente se, por exemplo, se pretender que        o &uacute;nico conhecimento a promover na Universidade seja o conhecimento que        tem um valor de mercado. Qual &eacute; o valor de mercado das Ci&ecirc;ncias        Sociais e das Humanidades? Portanto, qual &eacute; o problema que esta quest&atilde;o      ]]></body>
<body><![CDATA[  me levanta? A quest&atilde;o na altura surgiu para fazer uma interven&ccedil;&atilde;o        na Esquerda, n&atilde;o s&oacute; portuguesa, mas tamb&eacute;m latino-americana        e dos pa&iacute;ses onde eu fui tendo interven&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica.        Que com o tempo foi tamb&eacute;m na pr&oacute;pria &Aacute;frica, uma vez que        tamb&eacute;m a passagem do socialismo &ndash; sobretudo em Mo&ccedil;ambique        &ndash; para o capitalismo trouxe uma grande cr&iacute;tica do Estado. Entendia        que o Estado, como tudo no capitalismo, e eu sou bastante marxista nesta an&aacute;lise,        o Estado &eacute; um campo de disputa, &eacute; um campo que surge na sua pr&oacute;pria        origem com uma marca capitalista, monocultural, racista e patriarcal, isso s&atilde;o        caracter&iacute;sticas fundamentais do Estado. Mas s&atilde;o contradit&oacute;rias,      ]]></body>
<body><![CDATA[  porqu&ecirc;? Porque na estrutura da pr&oacute;pria democracia tiveram de entrar        com uma contradi&ccedil;&atilde;o que &eacute; fatal, entre a acumula&ccedil;&atilde;o        sem limites do capitalismo, e a soberania popular da democracia. Obviamente        que por esta via estou absolutamente convencido de que nunca construir&iacute;amos        o socialismo, mas poder&iacute;amos ter uma sociedade com um pouco mais de bem-estar,        mais equil&iacute;brio com a natureza, com os cidad&atilde;os, com mais justi&ccedil;a        social, sendo para tal necess&aacute;ria uma contribui&ccedil;&atilde;o fundamental        do Estado. E penso que a esquerda n&atilde;o podia desperdi&ccedil;ar as potencialidades        que estavam inscritas no pr&oacute;prio Estado. E, por isso, a ideia de que        ela devia assumir o Estado como um nov&iacute;ssimo movimento social, nov&iacute;ssimo      ]]></body>
<body><![CDATA[  porque j&aacute; havia os novos movimentos sociais que eram aqueles que j&aacute;        conhec&iacute;amos, depois do velho movimento sindical, do sindicalismo. Era        evitar essa vertigem antiestatal que o neoliberalismo tinha criado. Qual &eacute;        o problema que essa quest&atilde;o me p&otilde;e hoje? &Eacute; que o neoliberalismo        ganhou, est&aacute; a ganhar em todo o lado, e s&oacute; criticou o Estado enquanto        n&atilde;o o p&ocirc;de controlar. No momento em que passou a control&aacute;-lo,        passou a consider&aacute;-lo importante. Como &eacute; que conseguiu isso? Obviamente,        pelas vias do capital financeiro internacional, substituindo a tributa&ccedil;&atilde;o        pela d&iacute;vida p&uacute;blica, que &eacute; o que n&oacute;s temos hoje.        O Estado n&atilde;o pode tributar, n&atilde;o pode criar impostos sobretudo      ]]></body>
<body><![CDATA[  aos mais ricos e, por isso, tem de se endividar. Ao endividar submete-se ao        capital financeiro. Criaram ao mesmo tempo uma classe pol&iacute;tica corrupta,        com corrup&ccedil;&atilde;o end&eacute;mica e transformaram a pol&iacute;tica        num espet&aacute;culo, estamos na fase da p&oacute;s-democracia e da p&oacute;s-verdade,        etc. O neoliberalismo est&aacute; a desconfigurar o Estado para que o Estado        deixe de ser contradit&oacute;rio. E &eacute; por isso que hoje, em qualquer        elei&ccedil;&atilde;o, como vimos agora recentemente com a elei&ccedil;&atilde;o        do L&oacute;pez Obrador no M&eacute;xico, que &eacute; um facto significativo        do ponto de vista pol&iacute;tico continental, a primeira rea&ccedil;&atilde;o        dos jornais internacionais &eacute; &ldquo;qual &eacute; a rea&ccedil;&atilde;o      ]]></body>
<body><![CDATA[  dos mercados?&rdquo; Quer dizer, os cidad&atilde;os j&aacute; n&atilde;o contam,        o que interessa &eacute; saber qual &eacute; a rea&ccedil;&atilde;o dos mercados.        Quando n&oacute;s sabemos que os mercados s&atilde;o realmente cinco grandes        investidores do capital financeiro internacional. S&atilde;o eles que manipulam        realmente as oscila&ccedil;&otilde;es e as rea&ccedil;&otilde;es dos tais mercados        invis&iacute;veis. &Eacute; uma situa&ccedil;&atilde;o extremamente complicada,        porque n&atilde;o tendo n&oacute;s outro instrumento para criar um m&iacute;nimo        de inclus&atilde;o social e m&iacute;nimos de redistribui&ccedil;&atilde;o social,        que n&atilde;o os Estados &ndash; porque n&atilde;o h&aacute; um governo mundial        &ndash; porque n&atilde;o h&aacute; outras formas pol&iacute;ticas que criem      ]]></body>
<body><![CDATA[  uma redistribui&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o pode ser outra coisa sen&atilde;o        tirar aos ricos e dar aos pobres, e n&atilde;o o contr&aacute;rio que &eacute;        o que faz o neoliberalismo: tira aos pobres e d&aacute; aos ricos. N&atilde;o        h&aacute; pobres do ponto de vista sociol&oacute;gico, h&aacute; comunidades        e grupos sociais empobrecidos, como h&aacute; grupos sociais enriquecidos, a        din&acirc;mica &eacute; absolutamente dependente, &eacute; dial&eacute;tica        nesse sentido. Tamb&eacute;m a&iacute; sou bastante marxista. Nesta situa&ccedil;&atilde;o,        com um Estado desconfigurado, cada vez mais aliado &agrave;s necessidades do        capital financeiro, caminhamos para uma situa&ccedil;&atilde;o de esvaziamento        da democracia e de formas novas de regimes pol&iacute;ticos para os quais n&atilde;o      ]]></body>
<body><![CDATA[  temos nome. S&atilde;o os golpes institucionais que est&atilde;o a ter lugar        em toda a Am&eacute;rica Latina, por exemplo, que v&atilde;o ter lugar nos Estados        Unidos a curto prazo, no momento em que o Trump controlar o Supremo Tribunal,        e o que se est&aacute; a passar na Pol&oacute;nia, que &eacute; o espelho dos        Estados Unidos na Europa. Controlar o judici&aacute;rio atrav&eacute;s de reformas        que tornam o judici&aacute;rio completamente dependente de uma extrema-direita        que neste momento governa a Pol&oacute;nia, e o mesmo vai acontecendo na pr&oacute;pria        Hungria. Quando o Estado perde contradi&ccedil;&otilde;es, a democracia esvazia-se,        n&atilde;o temos uma ditadura no sentido cl&aacute;ssico porque existe pluralidade        de partidos, mas n&atilde;o existe alternativa pol&iacute;tica e vamos passar      ]]></body>
<body><![CDATA[  durante um tempo neste ciclo global, nesta situa&ccedil;&atilde;o que &eacute;        muito dif&iacute;cil de caracterizar e onde s&atilde;o muito dif&iacute;ceis        as formas de liberta&ccedil;&atilde;o. E, por vezes, transformam-se n&atilde;o        apenas num problema pol&iacute;tico, mas num problema pessoal quando se parte        da ideia de que &eacute; impens&aacute;vel a desist&ecirc;ncia.</p>     <p><b>BSM</b>: Tem-se autodefinido como um intelectual de retaguarda. Que tipo    de intelectual &eacute; que esta defini&ccedil;&atilde;o faz supor e porqu&ecirc;    a recusa da vanguarda, t&atilde;o cara ao intelectual p&uacute;blico do s&eacute;culo    xx?</p>     <p><b>BSS</b>: Bem, fundamentalmente a cr&iacute;tica da teoria do intelectual    da vanguarda &eacute; o resultado de tudo aquilo que n&oacute;s acab&aacute;mos    de dizer. Ou seja, as teorias cr&iacute;ticas, sobretudo as teorias cr&iacute;ticas    euroc&ecirc;ntricas que foram o marxismo e tudo o que se desenvolveu a partir    dele, com base nele ou contra ele&hellip; E todas estas teorias cr&iacute;ticas    partiram da ideia de que a teoria comanda a vida, e que a pr&aacute;tica segue    a teoria. A teoria est&aacute; primeiro, a pr&aacute;tica est&aacute; depois.    &Eacute; o que n&oacute;s herd&aacute;mos da teoria da vanguarda, como ela foi    &agrave; frente, a teoria estava certa, a pr&aacute;tica &eacute; que foi errada.    E, por isso, os te&oacute;ricos acabaram por manter sempre o seu prest&iacute;gio,    a sua integridade, continuaram a ser lidos, porque as teorias estavam certas,    a pratica &eacute; que falhou. Bem, isto para mim &eacute; absolutamente insuport&aacute;vel,    n&oacute;s n&atilde;o podemos continuar a pensar nesta ideia, uma vez que quando    n&oacute;s sabemos hoje &ndash; sobretudo quando tomamos bem consci&ecirc;ncia    das epistemologias do Sul &ndash; que a teoria &eacute; sempre uma condensa&ccedil;&atilde;o    da pr&oacute;pria pr&aacute;tica e n&atilde;o pode ser outra coisa. &Eacute;    a pr&aacute;tica a refletir sobre si pr&oacute;pria, a teoria n&atilde;o pode    ser outra coisa. Por isso, n&atilde;o h&aacute; lugar a teorias de vanguarda    porque ningu&eacute;m vai na frente e ningu&eacute;m vai atr&aacute;s, vamos    todos juntos. E como &eacute; que vamos juntos? Vamos juntos em diferentes posi&ccedil;&otilde;es,    obviamente, mas partilhando um destino. N&atilde;o podemos aceitar que a hora    da verdade se mantenha com a teoria e a hora da mentira com a pr&aacute;tica,    n&atilde;o nos podemos separar dessa forma, eu penso que &eacute; muito desonesto.    Mas isso &eacute; exatamente o que se procurou com a monocultura da ci&ecirc;ncia,    porque a ci&ecirc;ncia &eacute; v&aacute;lida e, por isso, o cientista &eacute;    o intelectual, e o intelectual &eacute; um cientista, e o intelectual est&aacute;    v&aacute;lido, as pr&aacute;ticas &eacute; que podem ser abusivas, a aplica&ccedil;&atilde;o    da ci&ecirc;ncia pode dar-se obviamente ao servi&ccedil;o de ditadores, mas    na verdade da ci&ecirc;ncia n&atilde;o se toca. Pelo contr&aacute;rio, penso    que as epistemologias do Sul nunca se consolidam como teorias dentro de um ambiente    acad&eacute;mico, consolidam-se nas pr&oacute;prias pr&aacute;ticas sociais.    Qual &eacute; o papel do intelectual nessas lutas de estarmos juntos, de irmos    juntos? A&iacute; sim, a divis&atilde;o social do trabalho mostra que o intelectual    deve estar numa posi&ccedil;&atilde;o de retaguarda. O que &eacute; uma posi&ccedil;&atilde;o    de retaguarda? &Eacute; uma posi&ccedil;&atilde;o de suporte da pr&oacute;pria    constru&ccedil;&atilde;o da pr&aacute;tica, digamos assim, a partir dos elos    fracos dessa pr&oacute;pria pr&aacute;tica, e n&atilde;o dos elos fortes. As    vanguardas sempre estiveram com as elites esclarecidas dos partidos, das vanguardas    do operariado, etc. Ou seja, elite com elite. Eu penso que n&oacute;s temos    de estar ao contr&aacute;rio, os intelectuais como eu pr&oacute;prio me considero,    um intelectual p&uacute;blico tem de estar exatamente com aqueles que est&atilde;o    fora da elite, com aqueles que nem sequer, por vezes, t&ecirc;m consci&ecirc;ncia    da sua pr&oacute;pria opress&atilde;o e, por isso, t&ecirc;m dificuldade de    ver essa opress&atilde;o. T&ecirc;m uma consci&ecirc;ncia dual, de que curiosamente    fala muito o Du Bois, num dos seus primeiros livros de sociologia negra nos    Estados Unidos, precisamente da consci&ecirc;ncia dual dos negros, porque interiorizam    a consci&ecirc;ncia do opressor, e que mais tarde tem uma formula&ccedil;&atilde;o    inovadora e brilhante do Paulo Freire nas primeiras p&aacute;ginas da <i>Pedagogia    do oprimido</i>, em que mostra exatamente tamb&eacute;m essa consci&ecirc;ncia    dual. &Eacute; exatamente devido a essa consci&ecirc;ncia dual que h&aacute;    muito oprimido que n&atilde;o tem consci&ecirc;ncia da opress&atilde;o&hellip;    Num momento em que n&atilde;o h&aacute; alternativa, domina a pol&iacute;tica    do ressentimento. A pol&iacute;tica do ressentimento p&otilde;e v&iacute;tima    contra v&iacute;tima, o oper&aacute;rio branco empobrecido norte-americano a    pensar que o seu opressor &eacute; o oper&aacute;rio ainda mais empobrecido,    latino. &Eacute; pensar que para o negro empobrecido da &Aacute;frica do Sul,    o seu advers&aacute;rio &eacute; o negro ainda mais empobrecido que &eacute;    o imigrante mo&ccedil;ambicano ou o zimbabueano. Assim, &eacute; v&iacute;tima    contra v&iacute;tima e, portanto, o intelectual tem de estar exatamente ao lado    desses que est&atilde;o nessa consci&ecirc;ncia, para ajudar numa tarefa de    conscientiza&ccedil;&atilde;o muito freiriana neste sentido e muito Orlando    Fals Borda tamb&eacute;m, da ci&ecirc;ncia pr&oacute;pria, que &eacute; realmente    a ideia de uma consci&ecirc;ncia da pr&oacute;pria opress&atilde;o.<sup><a href="#11">11</a></sup><a name="top11"></a>    Para qu&ecirc;? Para evitar a desist&ecirc;ncia. Eu n&atilde;o estou t&atilde;o    preocupado, nesta &eacute;poca, que os da frente continuem a resistir, estou    &eacute; preocupado com aqueles que n&atilde;o querem sair &agrave; rua, que    j&aacute; n&atilde;o s&atilde;o capazes de sair &agrave; rua e que desistem    de lutar. E desistem, n&atilde;o se podendo dar ao luxo da desist&ecirc;ncia.    Ora s&oacute; o c&iacute;nico se pode dar ao luxo da desist&ecirc;ncia, aquele    que tem o seu sal&aacute;rio garantido e que desiste, para qu&ecirc; lutar se    n&atilde;o h&aacute; horizontes, isso &eacute; hipocrisia e &eacute; cinismo.    Preocupo-me &eacute; com aquele que desiste pondo em pr&oacute;prio risco a    sua fam&iacute;lia e os seus. Porque as condi&ccedil;&otilde;es de sobreviv&ecirc;ncia    s&atilde;o cada vez mais dif&iacute;ceis, uma espera sem esperan&ccedil;a. O    que &eacute; que &eacute; o intelectual de retaguarda? &Eacute; aquele que de    alguma maneira pode reequilibrar um pouco o medo e a esperan&ccedil;a entre    aqueles que perderam a esperan&ccedil;a. E &eacute; igualmente importante que    ele possa contribuir para incutir algum medo aos poderosos e aos opressores    que hoje monopolizam a esperan&ccedil;a. Algo que pode fazer contribuindo para    a visibiliza&ccedil;&atilde;o da opress&atilde;o e para a conscientiza&ccedil;&atilde;o    da injusti&ccedil;a que ela cont&eacute;m. Atrav&eacute;s da sua pr&oacute;pria    interven&ccedil;&atilde;o, o intelectual pode criar um pouco de medo ao poder    e criar a esperan&ccedil;a aos oprimidos, isso &eacute; que para mim &eacute;    o intelectual de retaguarda.</p>     <p><b>BSM</b>: De que modo &eacute; que se d&aacute; o seu envolvimento no F&oacute;rum    Social Mundial e em que termos &eacute; que esse aspeto pol&iacute;tico marcou    a sua rela&ccedil;&atilde;o com as lutas e movimentos sociais?</p>     <p><b>BSS</b>: O meu envolvimento vem desde a primeira hora do primeiro F&oacute;rum    Social Mundial, em 2001. Eu, nesse momento, j&aacute; era realmente bastante    conhecido no Brasil, quer pela minha obra cient&iacute;fica, quer pela minha    interven&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica. Tinha trabalhado desde 1989 no Rio    Grande do Sul na minha pesquisa sobre o Or&ccedil;amento Participativo e as    formas de democracia participativa<sup><a href="#12">12</a></sup><a name="top12"></a>    e tinha tido uma presen&ccedil;a j&aacute; bastante forte nas universidades.    Tinha tamb&eacute;m estado em muitos outros movimentos nos anos 90, na minha    constru&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica esteve muito presente o Movimento Zapatista    de 1994 e sobretudo o primeiro Encontro Gal&aacute;ctico, que se realizou em    1996, e depois os protestos contra a OMC (Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial    do Com&eacute;rcio) em Seattle em 1999, na senda do movimento da globaliza&ccedil;&atilde;o    contra-hegem&oacute;nica que eu j&aacute; teorizara no <i>Toward a New Common    Sense</i> em 1995.<sup><a href="#13">13</a></sup><a name="top13"></a> O F&oacute;rum    Social Mundial foi a concretiza&ccedil;&atilde;o, de alguma maneira, ou a grande    oportunidade, digamos assim, para me permitir uma certa concretiza&ccedil;&atilde;o    de muito daquilo que eu tinha vindo a escrever. E ia nesse sentido de pluralizar    os movimentos sociais, mostrar a sua diversidade, alargar os nossos horizontes    quer epistemol&oacute;gicos, quer pol&iacute;ticos nas conce&ccedil;&otilde;es    de emancipa&ccedil;&atilde;o e de liberta&ccedil;&atilde;o social. O F&oacute;rum    foi essa oportunidade e realmente n&atilde;o a perdi, fui um dos formuladores    do pensamento do F&oacute;rum, mesmo sendo bastante cr&iacute;tico de algumas    das posi&ccedil;&otilde;es que passaram a dominar, sobretudo em tempos mais    recentes, o F&oacute;rum Social Mundial e a sua despolitiza&ccedil;&atilde;o    foram muito importantes para mim, e t&ecirc;m sido muito importantes e continuam    a ser.<sup><a href="#14">14</a></sup><a name="top14"></a> N&atilde;o falhei    nenhum F&oacute;rum Social Mundial at&eacute; hoje. O &uacute;ltimo foi em Salvador,    em mar&ccedil;o de 2018.</p>     <p><b>BSM</b>: Que possibilidades democr&aacute;ticas &eacute; que encontra na    proposta da Universidade Popular dos Movimentos Sociais?</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>BSS</b>: A Universidade Popular dos Movimentos Sociais (UPMS)<sup><a href="#15">15</a></sup><a name="top15"></a>    &eacute; a minha maneira inicial de pensar as epistemologias do Sul&hellip;    A UPMS, &nbsp;sobretudo a partir de 2003, 2004, 2005, &eacute; quase uma cria&ccedil;&atilde;o    paralela, eu estou a desenvolver as epistemologias do Sul e ao mesmo tempo surge    a Universidade Popular. Mas as necessidades de uma e de outra no in&iacute;cio    n&atilde;o s&atilde;o absolutamente claras, n&atilde;o est&atilde;o ao espelho    uma da outra. A Universidade Popular dos Movimentos Sociais surge fundamentalmente    das duas grandes constata&ccedil;&otilde;es que eu j&aacute; vinha vindo a coligir    das minhas atividades dos anos 1990, mas que depois se concretizaram bastante    no F&oacute;rum Social Mundial. Que era, por um lado, o grande abismo entre    o pensamento acad&eacute;mico euroc&ecirc;ntrico cr&iacute;tico e o pensamento    popular, e por outro lado, os preconceitos, as divis&otilde;es, os desconhecimentos,    entre os pr&oacute;prios conhecimentos dos diferentes movimentos sociais. A    ideia da diversidade que fragmenta, que se ia condensando numa ideia central    que &eacute; hoje para mim o grande dilema da nossa sociedade: a domina&ccedil;&atilde;o    &eacute; constitu&iacute;da pelo capitalismo, colonialismo e patriarcado e atua    sempre unida, articulada, enquanto a resist&ecirc;ncia a essa domina&ccedil;&atilde;o    est&aacute; sempre fragmentada. Porque os movimentos de resist&ecirc;ncia ou    s&atilde;o anticapitalistas, ou anticolonialistas ou antipatriarcais, mas n&atilde;o    conseguem ser as tr&ecirc;s coisas ao mesmo tempo, mesmo que com doses diferentes.    A resist&ecirc;ncia est&aacute; fragmentada, a domina&ccedil;&atilde;o articulada.    A proposta da UPMS &eacute; uma resposta a isto, e &eacute; nas oficinas da    Universidade Popular que eu vou construindo o conceito de ecologia de saberes.    Porque &eacute; a&iacute; que se v&ecirc; realmente uma forma j&aacute; de educa&ccedil;&atilde;o    popular n&atilde;o institucional, uma ideia de ocupa&ccedil;&atilde;o tal e    qual como a epistemologia do Sul ocupa a epistemologia. Porque &eacute; um conhecimento    que vem na luta e n&atilde;o est&aacute; depois da luta, ao contr&aacute;rio    do pensamento euroc&ecirc;ntrico que &eacute; sempre constru&iacute;do fora    da luta social, porque &eacute; um conhecimento separado. A UPMS ocupa a Universidade,    porque &eacute; uma forma de educa&ccedil;&atilde;o popular avan&ccedil;ada    entre movimentos, no espa&ccedil;o n&atilde;o universit&aacute;rio convencional,    onde os intelectuais universit&aacute;rios s&atilde;o uma minoria, um ter&ccedil;o,    e dois ter&ccedil;os s&atilde;o ativistas ou l&iacute;deres dos movimentos sociais.    Em resid&ecirc;ncia e em rodas de conversas, e a&iacute; a heran&ccedil;a obviamente    da educa&ccedil;&atilde;o popular e dos c&iacute;rculos de cultura do Paulo    Freire s&atilde;o bastante importantes. S&oacute; que muito mais conscientes    da diversidade dos conhecimentos. A tarefa agora n&atilde;o &eacute; a alfabetiza&ccedil;&atilde;o,    n&atilde;o &eacute; a contraposi&ccedil;&atilde;o entre a cultura do letrado    e a cultura do iletrado, &eacute; trabalhar as diferentes culturas pol&iacute;ticas    que os movimentos sociais constru&iacute;ram e que t&ecirc;m de ser estudadas    e discutidas, uma vez que n&atilde;o h&aacute; uma linha correta que algum partido    nos ordene, e tem de ser constru&iacute;da progressivamente a partir da elimina&ccedil;&atilde;o    dos preconceitos que dividem e fragmentam. A consist&ecirc;ncia da possibilidade    democr&aacute;tica depende daquilo que eu te dizia h&aacute; bocado, &eacute;    que se a pol&iacute;tica &eacute; epistemol&oacute;gica, a epistemologia tem    de ser pol&iacute;tica. As possibilidades democr&aacute;ticas da Universidade    Popular &eacute; que elas s&atilde;o epistemol&oacute;gicas. E, portanto, &eacute;    uma outra epistemologia, as epistemologias do Sul. E &eacute; por isso que a    Universidade Popular dos Movimentos Sociais &eacute; hoje uma orienta&ccedil;&atilde;o    metodol&oacute;gica geral para a pr&aacute;tica das pr&oacute;prias epistemologias    do Sul, onde se podem forjar e construir lutas, e n&atilde;o apenas fazer discuss&otilde;es    intelectuais.</p>     <p><b>BSM</b>: H&aacute; na sua obra uma preocupa&ccedil;&atilde;o quase obsessiva    com a valoriza&ccedil;&atilde;o do conhecimento e emancipa&ccedil;&atilde;o,    e com a ideia que a epistemologia &eacute; pol&iacute;tica. Que fases descortina    nesse seu olhar cr&iacute;tico ao positivismo da ci&ecirc;ncia moderna, e de    que modo &eacute; que as epistemologias do Sul por si formuladas se instalam    neste quadro amplo?</p>     <p><b>BSS</b>: Bem, realmente &eacute; evidente que todo o pensamento te&oacute;rico    &ndash; tendo eu dito tudo aquilo que disse &ndash; se vai construindo na medida    em que as nossas pr&aacute;ticas pol&iacute;ticas e sociais ganhem consci&ecirc;ncia    de que a teoria n&atilde;o nos vai iluminando sempre supostamente na frente,    mas na realidade sempre atr&aacute;s, tentando reconstruir tudo. Tudo o que    aparece como pensamento acabado &eacute; sempre uma fraude. A mim interessa-me    a ci&ecirc;ncia enquanto se faz, interessa-me o pensamento filos&oacute;fico    enquanto ele est&aacute; a ser feito e n&atilde;o quando &eacute; apresentado    como um trabalho acabado. As epistemologias do Sul hoje, n&atilde;o s&atilde;o    de maneira nenhuma um processo acabado. Ali&aacute;s, eu hoje tenho plena consci&ecirc;ncia    disso no livro que acaba de sair nos Estados Unidos, <i>The End of the Cognitive    Empire</i>,<sup><a href="#16">16</a></sup><a name="top16"></a> e que em Portugal    sair&aacute; em novembro pelas Edi&ccedil;&otilde;es 70 e em mar&ccedil;o ou    abril de 2019 no Brasil, pela Aut&ecirc;ntica. Tudo &eacute; um trabalho em    curso. E quais s&atilde;o as diferentes fases? Realmente, pode-se falar de fases.    A primeira fase consistente &eacute; a minha luta pelo pluralismo interno da    ci&ecirc;ncia, isto &eacute; uma luta que vem desde o &ldquo;Discurso sobre    as ci&ecirc;ncias&rdquo;,<sup><a href="#17">17</a></sup><a name="top17"></a>    &eacute; uma cr&iacute;tica ao positivismo cient&iacute;fico, apelando a uma    outra filosofia da ci&ecirc;ncia que permita alojar o pluralismo cient&iacute;fico    e o pluralismo interno, n&atilde;o s&oacute; para a teoria cr&iacute;tica, mas    para muitas filosofias e at&eacute;, no horizonte, o caso das filosofias chinesa,    hindu, etc. Mas &eacute; no fundo ainda um pluralismo interno de uma forma de    conhecimento. Esse pluralismo interno, a certa altura, vai passando para um    pluralismo externo que tem a sua primeira g&eacute;nese no pr&oacute;prio trabalho    de pesquisa na favela do Jacarezinho, mas como eu disse, uma g&eacute;nese inconsciente,    inocente, <i>naive</i>. Porque realmente vejo a pluralidade dos conhecimentos,    mas n&atilde;o a fertilidade epistemol&oacute;gica com que esse conhecimento    me pode questionar como cientista social, n&atilde;o apenas politicamente, mas    tamb&eacute;m epistemologicamente. Essa &eacute; outra viragem. A segunda fase    &eacute; o pluralismo externo, &eacute; a ci&ecirc;ncia e os outros conhecimentos.    E h&aacute; uma terceira fase, digamos assim, que &eacute; aquela em que de    alguma maneira me encontro neste momento, &eacute; que esses conhecimentos t&ecirc;m    de ser postos numa intera&ccedil;&atilde;o criativa, que s&atilde;o as ecologias    dos saberes e as artesanias das pr&aacute;ticas, e isso s&oacute; pode ocorrer    em contextos de luta social. Parto de uma maior consci&ecirc;ncia dessa diversidade    e da dificuldade dessa diversidade nos processos de luta por uma sociedade mais    justa. A diversidade intercultural e interpol&iacute;tica obriga a um esfor&ccedil;o    de tradu&ccedil;&atilde;o intercultural e de uma reconstru&ccedil;&atilde;o    pol&iacute;tica muito forte. Trata-se de um pluralismo externo que n&atilde;o    quer ser uma s&iacute;ntese, mas que n&atilde;o se quer perder na fragmenta&ccedil;&atilde;o    total da diversidade. Da&iacute; a minha luta contra o relativismo. Porqu&ecirc;?    Porque quero manter forte o conceito de luta, porque se eu n&atilde;o tiver    o conceito de luta tudo se despolitiza. Ontem, no debate com os freirianos,    disse &ldquo;porque &eacute; que a educa&ccedil;&atilde;o popular t&atilde;o    f&eacute;rtil n&atilde;o se traduziu numa pol&iacute;tica popular?&rdquo;. Pelo    contr&aacute;rio, ela despolitizou-se. Perdeu-se por uma vertigem de sistematiza&ccedil;&otilde;es    dos encontros e da educa&ccedil;&atilde;o popular, e foi-se despolitizando,    transformando-se numa outra forma de acomoda&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica,    obviamente honrosa e cheia de ganhos tamb&eacute;m pedag&oacute;gicos, mas n&atilde;o    uma pol&iacute;tica popular. Este pluralismo externo tem de ser superado nas    lutas em que temos de nos articular, e tem de se articular com as lutas contra    a domina&ccedil;&atilde;o. Isso obriga a muita tradu&ccedil;&atilde;o intercultural,    interpol&iacute;tica, num mundo que est&aacute; &ndash; para o bem e para o    mal, mais mal que bem &ndash; muito globalizado. E essa articula&ccedil;&atilde;o    &eacute; necess&aacute;ria onde a globaliza&ccedil;&atilde;o &eacute; t&atilde;o    intensa, como nas &aacute;reas do pr&oacute;prio conhecimento, que s&atilde;o    as &aacute;reas da epistemologia, das epistemologias de ocupa&ccedil;&atilde;o,    como s&atilde;o as epistemologias do Sul. O risco da acomoda&ccedil;&atilde;o    &eacute; grande, o perigo da desist&ecirc;ncia &eacute; muito grande, e como    eles s&atilde;o ambos insuport&aacute;veis e impens&aacute;veis para mim, tenho    que ir mantendo esta ideia que esta terceira fase ou &eacute; infind&aacute;vel    ou surgem outras. Porque tamb&eacute;m o pr&oacute;prio pensamento de fases,    no fundo, significa meter dentro de mim pr&oacute;prio o inimigo que eu deitei    pela janela fora, que &eacute; o progresso. N&atilde;o estou a progredir ou    a andar em c&iacute;rculos, tenho a impress&atilde;o que isto &eacute; uma espiral,    eu vou crescendo em espiral. Eu penso que isto, mais que fases, &eacute; uma    espiral, pensando o pluralismo interno, o pluralismo externo, a articula&ccedil;&atilde;o    de lutas tendo em conta a diversidade de conhecimentos, em que todos s&atilde;o    v&aacute;lidos, mas n&atilde;o s&atilde;o todos igualmente v&aacute;lidos, em    fun&ccedil;&atilde;o das lutas em que estamos. Da&iacute; a distin&ccedil;&atilde;o    fundamental para mim, entre lutas importantes e lutas urgentes, as lutas anticapitalistas,    anticoloniais, antipatriarcais s&atilde;o todas importantes, agora a urg&ecirc;ncia    num certo contexto social, numa certa cidade, numa certa universidade, pode    permitir ordens de urg&ecirc;ncia diferentes. E que articulam sempre as lutas,    mas que, num dado contexto concreto, uma pode ter uma visibilidade maior ou    uma centralidade maior do que as outras.</p>     <p><b>BSM</b>: Uma pergunta que lhe &eacute; feita com alguma recorr&ecirc;ncia:    o que distingue as epistemologias do Sul de outros quadros te&oacute;ricos p&oacute;s-coloniais,    como por exemplo aquele que &eacute; representado, por exemplo, pelo Grupo Modernidade/Colonialidade?</p>     <p><b>BSS</b>: &Eacute; uma pergunta que me &eacute; feita frequentemente, e &agrave;        qual eu respondo com gosto. Com gosto porqu&ecirc;? Porque eu estou a falar        de problemas de fam&iacute;lia, e de rela&ccedil;&otilde;es amistosas, do meu        ponto de vista. Porque as epistemologias do Sul pertencem a uma grande fam&iacute;lia        do pensamento da colonialidade, enfim, dada toda a minha rela&ccedil;&atilde;o        com pessoas como o An&iacute;bal Quijano ou o Enrique Dussel... N&atilde;o tenho      ]]></body>
<body><![CDATA[  d&uacute;vidas nenhumas em rela&ccedil;&atilde;o a isso. Agora, as epistemologias        do Sul t&ecirc;m alguma especificidade, s&atilde;o as especificidades que fazem        com que eu prefira esta designa&ccedil;&atilde;o, por v&aacute;rias raz&otilde;es.        A primeira &eacute; que realmente tanto p&oacute;s-colonial como <i>decolonial</i>        s&atilde;o express&otilde;es negativas. As epistemologias do Sul s&atilde;o        uma vers&atilde;o pela positiva. &Eacute; evidente que tem uma coisa contra        si que &eacute; esta palavra &ldquo;epistemologia&rdquo;, que &eacute; muito        dif&iacute;cil de entender e at&eacute; de pronunciar fora do mundo acad&eacute;mico.        Mas as coisas s&atilde;o o que s&atilde;o, n&atilde;o inventei nenhuma outra        melhor, para j&aacute; &eacute; esta, amanh&atilde; podem ser outras. N&atilde;o      ]]></body>
<body><![CDATA[  tenho grandes apet&ecirc;ncias para cunhar termos para ficarem para sempre em        pedra, nada est&aacute; escrito na pedra. Em segundo lugar, o pensamento <i>decolonial</i>,        o pensamento p&oacute;s-colonial, aceitou a armadilha euroc&ecirc;ntrica de        que o colonialismo tinha terminado com o fim do colonialismo hist&oacute;rico        e da opress&atilde;o territorial estrangeira. &Eacute; uma armadilha, pois o        colonialismo n&atilde;o terminou, n&atilde;o faz sentido falar de colonialidade,        faz sentido falar de colonialismo. Eu pr&oacute;prio usei muitas vezes o conceito        de p&oacute;s-colonial e de colonialidade, hoje n&atilde;o uso, porque acho        que estamos numa sociedade colonialista, pura e simplesmente. O colonialismo        hoje n&atilde;o &eacute; o colonialismo hist&oacute;rico, tal e qual como o      ]]></body>
<body><![CDATA[  capitalismo hoje n&atilde;o &eacute; o capitalismo do s&eacute;culo xvii. Estamos        no s&eacute;culo xxi. Mas esse capitalismo continua a chamar-se capitalismo.        Porque &eacute; que deixamos de fazer isso com o colonialismo? &Eacute; uma        armadilha, o colonialismo existe hoje. Claro que h&aacute; o racismo, a xenofobia,        a islamofobia, o que quisermos, mas o colonialismo tem outras formas neocoloniais,        como o colonialismo interno, vamos analis&aacute;-las e caracteriz&aacute;-las,        mas n&atilde;o vamos dizer que o colonialismo j&aacute; passou. Reconhe&ccedil;o        que me critiquem por usar um termo dif&iacute;cil, epistemologias do Sul, mas        a verdade &eacute; que o termo &ldquo;colonialidade&rdquo; tamb&eacute;m n&atilde;o        &eacute; simples. Porque qualquer ind&iacute;gena se identifica comigo quando      ]]></body>
<body><![CDATA[  falo da luta anticolonial, mas nenhum entende quando eu falo da luta anticolonialidade,        porque isso para ele ou ela n&atilde;o tem sentido. O que &eacute; isso de &ldquo;luta        anticolonialidade?&rdquo;. &Eacute; uma coisa de intelectuais, n&atilde;o tem        interesse. Em terceiro lugar, o pensamento <i>decolonial</i>, embora tenha sido        muito subsidi&aacute;rio, numa fase inicial, do pensamento dos <i>subaltern        studies </i>do Ranajit Guha da &Iacute;ndia, &eacute; muito centrado na Am&eacute;rica        Latina. O que ele faz fundamentalmente &eacute; dizer que toda a centralidade        do eurocentrismo &ndash; que n&oacute;s conhecemos como pensamento euroc&ecirc;ntrico        &ndash; realmente se deve ao Novo Mundo. Se n&atilde;o fosse o Novo Mundo n&atilde;o        havia esta Europa. No fundo substitui uma centralidade por outra. Isso &eacute;      ]]></body>
<body><![CDATA[  muito presente, por exemplo, na obra do Enrique Dussel &ndash; que &eacute;        um intelectual que eu admiro acima de muitos outros. De algum modo, substitui        um centro por outro. Ora, se olharmos toda a hist&oacute;ria do colonialismo,        vemos que o colonialismo foi muito diferente na &Aacute;frica e foi ainda muito        mais diferente no oceano &Iacute;ndico. Houve outros horizontes colonialistas        na &Aacute;frica e na &Aacute;sia, basta ver exatamente os oceanos: enquanto        aqui este Atl&acirc;ntico era realmente desconhecido &ndash; que n&atilde;o        era, mas era considerado desconhecido &ndash; quando os portugueses chegaram        a Momba&ccedil;a quem &eacute; que foi o piloto que os conduziu at&eacute; &agrave;        &Iacute;ndia? Foi um piloto <i>suahili</i> e o &Iacute;ndico estava completamente      ]]></body>
<body><![CDATA[  globalizado pelos &aacute;rabes desde pelo menos o s&eacute;culo ix e at&eacute;        antes provavelmente. Era outro horizonte e a&iacute; havia obviamente reinos        como tinha havido tamb&eacute;m em &Aacute;frica, foi outro tipo de colonialismo.        Acho que devemos descentrar. N&atilde;o posso criticar o eurocentrismo criando        um espelho do outro lado, como se fosse um outro centro. Tal e qual como eu        costumo dizer que as epistemologias do Sul n&atilde;o s&atilde;o o oposto das        epistemologias do Norte. S&oacute; h&aacute; epistemologias do Sul porque h&aacute;        epistemologias do Norte, n&atilde;o havendo epistemologias do Norte isto n&atilde;o        se chama Sul. O Sul &eacute; epist&eacute;mico porque h&aacute; uma epistemologia        dominante no Norte, nada mais do que isso, substituir um centro por outro, n&atilde;o,      ]]></body>
<body><![CDATA[  acho que temos de descentrar e aceitar a diversidade do mundo, isso &eacute;        muito importante. Em quarto lugar, eu penso que o pensamento <i>decolonial</i>        ou p&oacute;s-colonial faz uma cr&iacute;tica da ci&ecirc;ncia euroc&ecirc;ntrica,        visando substitu&iacute;-la &ndash; um pouco na linha at&eacute; do Orlando        Fals Borda e do pr&oacute;prio Paulo Freire &ndash; por um outro conhecimento,        a ci&ecirc;ncia popular ou ci&ecirc;ncia pr&oacute;pria de que fala Orlando        Fals Borda, enquanto eu penso que as epistemologias do Sul t&ecirc;m uma maior        consci&ecirc;ncia da diversidade dos conhecimentos. Hoje, as comunidades camponesas        ind&iacute;genas, por exemplo, est&atilde;o profundamente contaminadas pela        ci&ecirc;ncia moderna, pelas tecnologias modernas, por isso, dizer que esse      ]]></body>
<body><![CDATA[  conhecimento n&atilde;o &eacute; v&aacute;lido &agrave; partida, n&atilde;o        pode ser uma proposta de bom senso. Por exemplo, na luta contra os agrot&oacute;xicos        temos cientistas, agr&oacute;nomos, qu&iacute;micos, bi&oacute;logos, que est&atilde;o        do nosso lado e que mostram como aqueles produtos s&atilde;o veneno e s&atilde;o        realmente um perigo para a sa&uacute;de p&uacute;blica. Obviamente que h&aacute;        os cientistas que s&atilde;o pagos, por exemplo, pela Monsanto e que dizem exatamente        o contr&aacute;rio: o pluralismo interno da ci&ecirc;ncia. Mas a ci&ecirc;ncia        que est&aacute; connosco &eacute; muito importante para determinar exatamente        a percentagem de veneno que est&aacute; no morango ou que est&aacute; numa papaia.        Por sua vez, o conhecimento popular diz-me obviamente a experi&ecirc;ncia vivida      ]]></body>
<body><![CDATA[  do envenenamento, as pessoas sabem pelas suas dores de cabe&ccedil;a, pelos        cancros que v&atilde;o tendo, com grande incid&ecirc;ncia porque esse veneno        &eacute; disseminado por via a&eacute;rea e entra nas escolas e nas comunidades        quando h&aacute; vento. E na Ilha de Mar&eacute; na Bahia de Todos os Santos,        onde eu estive recentemente aquando do F&oacute;rum Social Mundial de Salvador        em mar&ccedil;o de 2018, a luta das mulheres das marisqueiras e as pescadoras        da Ilha de Mar&eacute; mostra exatamente que temos de procurar a diversidade        do conhecimento: o conhecimento popular, o conhecimento vern&aacute;culo, o        conhecimento que n&atilde;o &eacute; acad&eacute;mico, que esse sim &eacute;        nascido estritamente na luta, e o conhecimento cient&iacute;fico que pode ser      ]]></body>
<body><![CDATA[  usado na luta e que &eacute; leg&iacute;timo enquanto &eacute; usado na luta.        Essa pluralidade de conhecimentos, esse alerta para a diversidade dos conhecimentos        &eacute; fundamental. Em quinto lugar, e por &uacute;ltimo &ndash; acho que        nunca fiz uma lista t&atilde;o completa das nossas especificidades &ndash;,        &eacute; o facto de que as epistemologias do Sul mant&ecirc;m muito fortemente        &ndash; eu penso que vi isso muito angustiadamente na minha vida profissional        &ndash; a presen&ccedil;a da luta social. Recusam ser apenas uma luta ou uma        moda acad&eacute;mica. Por isso, eu procuro dedicar uns 50% do meu tempo ao        mundo acad&eacute;mico e os outros 50% &agrave;s organiza&ccedil;&otilde;es        e lutas sociais, e a qualquer s&iacute;tio onde eu v&aacute; e onde eu estou,      ]]></body>
<body><![CDATA[  quero que esse compromisso esteja presente. Recentemente quando estive a dar        um curso em Girona, fui a Barcelona, como referi, e a minha reuni&atilde;o com        os imigrantes sem documentos foi uma oportunidade para eles me darem recados,        um apoio concreto na sua luta, uma vez que eu ia almo&ccedil;ar no dia seguinte        com a presidente da C&acirc;mara de Barcelona, a Ada Colau, amiga j&aacute;        de h&aacute; alguns anos e que eu apoio politicamente e continuo a apoiar, e        espero que ela volte a ser a alcaide de Barcelona quando forem as elei&ccedil;&otilde;es        no pr&oacute;ximo ano. Levei uma s&eacute;rie de recados, por exemplo, a quest&atilde;o        dos <i>manteros </i>&ndash; que s&atilde;o os vendedores ambulantes. Na maioria        s&atilde;o senegaleses que eu conhe&ccedil;o como artistas com quem trabalhei      ]]></body>
<body><![CDATA[  no Centro de Cultura Contempor&acirc;nea de Barcelona. T&ecirc;m coros maravilhosos        assentes nas suas tradi&ccedil;&otilde;es sufistas. No entanto, em Barcelona,        s&atilde;o s&oacute; conhecidos como vendedores ambulantes que prejudicam a        imagem tur&iacute;stica da cidade e o com&eacute;rcio formal e s&atilde;o, por        isso, perseguidos pela pol&iacute;cia. Aquela cultura, aqueles homens, aqueles        coros, mostrados na Rambla como parte da cultura de Barcelona, constituiriam        um enriquecimento extraordin&aacute;rio da cidade, como tive ocasi&atilde;o        de dizer &agrave; Ada Colau. No fundo os <i>manteros</i> est&atilde;o a lutar        por uma passagem coletiva para o lado de c&aacute; da linha abissal. Obviamente        que n&atilde;o formulei exatamente assim. Estava a pensar nos meus termos e      ]]></body>
<body><![CDATA[  a falar em termos que ela pudesse entender, n&atilde;o falei da linha abissal,        mas disse-lhe &ldquo;eles est&atilde;o a procurar coletivamente ser reconhecidos        como <i>manteros</i>, como vendedores ambulantes, deixando de ser indiv&iacute;duos        reprimidos individuais e passando a ser uma forte presen&ccedil;a no com&eacute;rcio&rdquo;.        A pr&oacute;pria Organiza&ccedil;&atilde;o Internacional do Trabalho j&aacute;        h&aacute; muito tempo defende que eles n&atilde;o fazem concorr&ecirc;ncia ao        com&eacute;rcio, estabelecido, tradicional. Para mim, a viol&ecirc;ncia da linha        abissal n&atilde;o est&aacute; nos <i>manteros</i> a vender os seus produtos        na Rambla, mas antes em encontrar tanta gente sem abrigo a dormir na Rambla.        Deixa-se dormir as pessoas na rua, sem abrigo, e reprimem-se os <i>manteros</i>      ]]></body>
<body><![CDATA[  que querem ganhar a vida nesta sociedade, sendo reconhecidos como comerciantes.        As epistemologias do Sul n&atilde;o se podem autossatisfazer nas lutas acad&eacute;micas.        N&atilde;o estou a dizer que essas lutas n&atilde;o s&atilde;o importantes,        mas as lutas mais importantes s&atilde;o aquelas onde h&aacute; gente que est&aacute;        vivo hoje e n&atilde;o sabe se est&aacute; vivo amanh&atilde;, est&aacute; livre        hoje, mas pode estar preso amanh&atilde;, deu comida hoje aos filhos, mas amanh&atilde;        pode n&atilde;o dar, nada disso se passa connosco. E como n&atilde;o se passa        connosco, as epistemologias do Sul t&ecirc;m de estar com eles e n&atilde;o        apenas em solidariedade com eles.</p>     <p><b>BSM</b>: Foi-lhe atribu&iacute;do um importante financiamento pelo Conselho    Europeu de Investiga&ccedil;&atilde;o, para um projeto que tinha como pressuposto    a exaust&atilde;o pol&iacute;tica, intelectual da Europa e do Norte global.<sup><a href="#18">18</a></sup><a name="top18"></a>    V&ecirc; na atribui&ccedil;&atilde;o dessa bolsa uma crescente abertura da Europa    &agrave;s realidades e saberes vindos do Sul global, ou estamos ainda mergulhados    no provincianismo que nos falava Dipesh Chakrabarty?</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>BSS</b>: Obviamente, a segunda. Ainda pensei que fosse a primeira durante    um tempo, quando o projeto ALICE foi aprovado com as caracter&iacute;sticas    que tinha. Passei pela ideia que a Europa estaria dispon&iacute;vel para uma    nova vis&atilde;o de si pr&oacute;pria. Quando digo a Europa, n&atilde;o digo    os europeus no seu conjunto, mas aqueles que dominam a pol&iacute;tica europeia,    s&atilde;o esses que nos d&atilde;o os financiamentos, tamb&eacute;m estivessem    dispon&iacute;veis para uma abertura e para um outro relacionamento com o mundo,    de um continente que sendo o continente mais violento do mundo e tamb&eacute;m    o mais protagonista no colonialismo, talvez agora tivesse a possibilidade de    aprender alguma coisa de todo este mundo que ele ajudou a criar, e a destruir    ao mesmo tempo. D&aacute;-me a impress&atilde;o que, na altura em que o projeto    ALICE foi avaliado, isto era at&eacute; talvez uma possibilidade, por isso &eacute;    que ele foi aprovado. O que eu penso &eacute; que depois, com o que se tem passado    nos &uacute;ltimos anos, desde 2010 quando formul&aacute;mos o projeto, e 2011    quando foi aprovado, as coisas pioraram, a Europa fechou-se. A crise dos refugiados    &ndash; a chamada crise dos refugiados e dos imigrantes &ndash; fez com que    a Europa fortaleza se fechasse e come&ccedil;asse a olhar para o seu umbigo    erigindo cada vez mais muros. Hoje o projeto europeu est&aacute; praticamente    em desagrega&ccedil;&atilde;o. Exatamente quando se v&ecirc; que n&atilde;o    h&aacute; nenhuma coes&atilde;o para as pol&iacute;ticas que efetivamente atravessam    a Europa de l&eacute;s a l&eacute;s, que s&atilde;o estas, como os imigrantes    e refugiados, sempre que h&aacute; qualquer destas diverg&ecirc;ncias mostra-se    que n&atilde;o h&aacute; nenhuma solidariedade, como n&atilde;o houve solidariedade    com a Gr&eacute;cia &ndash; que era uma d&iacute;vida europeia, n&atilde;o uma    d&iacute;vida grega. D&aacute;-me a impress&atilde;o que n&atilde;o, que n&oacute;s    estamos em pleno retorno do provincianismo, mas um provincianismo agressivo,    que se expressa no crescimento da extrema-direita. A extrema-direita &eacute;    um provincianismo orgulhoso de provinciano, n&atilde;o &eacute; o ignorante    esclarecido do Nicolau de Cusa.<sup><a href="#19">19</a></sup><a name="top19"></a>    Pensei que a Europa estava exatamente a entrar nessa fase &ndash; em que assume    que sabe que n&atilde;o sabe e vai tentar aprender. No fundo as epistemologias    do Sul s&atilde;o uma teoriza&ccedil;&atilde;o sobre a ignor&acirc;ncia esclarecida,    n&atilde;o s&atilde;o outra coisa. Mas n&atilde;o, parece-me que agora o que    est&aacute; a dominar &eacute; o ignorante-ignorante, n&atilde;o sabe e n&atilde;o    quer saber e, por isso, defende-se de todos aqueles que podem amea&ccedil;ar    com outras formas de conhecimento. Penso que estamos nesse ponto.</p>     <p><b>BSM</b>: Diz-se que &ldquo;A cantiga &eacute; uma arma&rdquo;. Que papel    emancipat&oacute;rio atribui hoje &agrave; racionalidade est&eacute;tico-expressiva    da arte e literatura? Sendo o Boaventura tamb&eacute;m um poeta, perguntava-lhe    se existe por estes dias algum romance, poema ou m&uacute;sica que o inspire?</p>     <p><b>BSS</b>: &Eacute; interessante. Bem, a racionalidade est&eacute;tico-expressiva        foi sempre muito teorizada por mim, por exemplo, no <i>Toward a New Common Sense</i><sup><a href="#20">20</a></sup><a name="top20"></a>        como uma das tr&ecirc;s racionalidades, e uma das que foi menos sobredeterminada        ou sobrecarregada de significados, uma vez que se lhe foi dada a possibilidade,        com a ideia da aura do artista, de poder abrir horizontes emancipat&oacute;rios,        mas que no fundo foram acantonados numa total marginalidade em rela&ccedil;&atilde;o        &agrave; pol&iacute;tica e &agrave; sociedade. O artista &eacute; louco, o poeta        &eacute; louco, tem prest&iacute;gio, mas n&atilde;o interfere com a vida pol&iacute;tica      ]]></body>
<body><![CDATA[  e n&atilde;o se leva verdadeiramente a s&eacute;rio e esse foi sempre o dilema        da racionalidade est&eacute;tico-expressiva. Quando come&ccedil;am a formular-se        as epistemologias do Sul, esta racionalidade agora transformada em arte, em        literatura, j&aacute; n&atilde;o como forma de racionalidade, mas como pr&oacute;pria        est&eacute;tica, digamos assim, assume uma outra import&acirc;ncia, porque vou        no meu trabalho pr&aacute;tico, na minha atividade (com o F&oacute;rum, com        os movimentos sociais e as organiza&ccedil;&otilde;es), vou-me dando conta de        que s&atilde;o os artistas que v&ecirc;m do outro lado da linha abissal que        est&atilde;o a formular &ndash; melhor do que eu e que ningu&eacute;m nas Ci&ecirc;ncias        Sociais &ndash; a ideia da linha abissal. Para mim, os artistas, nomeadamente      ]]></body>
<body><![CDATA[  da arte de rua, da cultura <i>hip-hop</i>, dos <i>graffitis</i>, dos DJs, do        <i>break dance</i> ou do <i>rap</i> s&atilde;o realmente aqueles que formulam        melhor a linha abissal. Nem todos, claro, apenas os que n&atilde;o se vendem        &agrave; cultura do entretenimento industrial. Comecei a aprender com eles a        radicalidade da linha abissal. E vi que no <i>rap</i> s&atilde;o todos cantautores        e formuladores eloquentes &ndash; com limites, como tudo, com um certo machismo        dos <i>rappers</i> iniciais &ndash; da linha abissal. Tal e qual como as can&ccedil;&otilde;es        de protesto (Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira e tantos outros), quando        eu era estudante em Coimbra nos anos 60, mostravam a linha de demarca&ccedil;&atilde;o        entre a democracia e a ditadura. S&atilde;o realmente aqueles que formulam melhor      ]]></body>
<body><![CDATA[  a linha abissal e mais do que isso, s&atilde;o aqueles que caminham sobre a        linha abissal. O artista que parte da experi&ecirc;ncia pol&iacute;tica da vida,        da vida vivida, da sociabilidade colonial, ou seja, com degrada&ccedil;&atilde;o        ontol&oacute;gica, quando consegue ver-se como artista, n&atilde;o s&oacute;        identifica a linha abissal como caminha nessa linha. E ent&atilde;o o artista        funciona como aquilo a que eu chamo &ldquo;consola&rdquo;. A &ldquo;consola&rdquo;        &eacute; uma viga que est&aacute; assente numa parede vertical ou numa base        horizontal e que tem uma parte livre, por exemplo os postes de ilumina&ccedil;&atilde;o        s&atilde;o uma consola, as varandas avan&ccedil;adas s&atilde;o uma consola.        O artista &eacute; aquele que caminha numa linha abissal como se fosse uma &ldquo;consola&rdquo;,      ]]></body>
<body><![CDATA[  como se fosse um poste de ilumina&ccedil;&atilde;o, ele v&ecirc; a linha, ele        v&ecirc; as duas sociabilidades, ele sabe de onde vem, mas v&ecirc; a outra        e denuncia-a. Um soci&oacute;logo tem mais dificuldade, pelos pr&oacute;prios        termos que usa, pelo facto de n&atilde;o ter uma cultura visual, nem musical        nem art&iacute;stica, n&atilde;o tem possibilidades de ver com essa f&oacute;rmula.        Mas esse &eacute; exatamente o valor que ela tem nas epistemologias do Sul.        Agora, &eacute; evidente que ela tamb&eacute;m mostra os limites desta f&oacute;rmula,        que &eacute; aquilo de que falava h&aacute; pouco. Esta arte &eacute; a mesma        que hoje no nosso tempo permite a travessia individual. O artista atravessa,        o <i>rapper</i> atravessa, mas a comunidade negra ou a favela continuam onde      ]]></body>
<body><![CDATA[  est&atilde;o. E o artista pode, no momento em que ele &eacute; epistemologias        do Sul, ser o primeiro Kanye West, ser o primeiro Jay Z. Mas a certa altura,        pode deixar-se passar completamente para o outro lado. Ao contr&aacute;rio,        o grande <i>rapper</i> e querido amigo Gog, de Bras&iacute;lia, manteve-se do        outro lado da linha como independente. E o mesmo se passa com outros <i>rappers</i>        com quem tenho colaborado, Chullage, Hezb&oacute; MC, LBC Soldjah, Capicua,        Renan Inqu&eacute;rito, Rafa Rafuagi e Mynda Guevara. Mas a ideia de complexidade        &eacute; fundamental para o papel da arte nas epistemologias do Sul. Por exemplo,        o Picasso &eacute; um artista extremamente complexo. Obviamente, vai servir-se        da arte africana e aceita o conceito de primitivismo que &eacute; um conceito      ]]></body>
<body><![CDATA[  totalmente euroc&ecirc;ntrico, aproveita-se do artesanato e transforma-o em        arte, mas ao mesmo tempo, sem querer, ele pr&oacute;prio, pela sua arte, d&aacute;        uma dignidade de artista &ndash; talvez at&eacute; contra a sua pr&oacute;pria        vontade inicial &ndash; ao artista africano. Tamb&eacute;m aqui h&aacute; uma        dial&eacute;tica complexa, o artista tem uma complexidade na arte e na literatura,        que realmente n&atilde;o vejo t&atilde;o radical no cientista social. Talvez        por isso, agora que me perguntas, nunca renunciei &agrave; minha outra identidade        po&eacute;tica, mais de dez livros, agora onze livros publicados de poesia.        &Eacute; porque permitiram outras formas de radicalidade nos meus sentimentos,        a quest&atilde;o da raz&atilde;o quente &ndash; que eu, enquanto cientista social,      ]]></body>
<body><![CDATA[  tenho quase de pedir desculpa porque &eacute; que eu sou adepto de uma raz&atilde;o        quente, mas n&atilde;o tenho de pedir desculpa a ningu&eacute;m nos meus poemas.        Por outro lado, a linha abissal&hellip; quando eu escrevi o <i>Rap global</i><sup><a href="#21">21</a></sup><a name="top21"></a>        vi uma radicalidade na minha cr&iacute;tica do eurocentrismo, ao p&ocirc;r o        Hegel ao n&iacute;vel de qualquer <i>rapper</i> da favela, uma ideia de subvers&atilde;o        muito grande que eu n&atilde;o sou capaz de fazer como cientista social. E eu        a&iacute; vi que isso me ajudava a ver a linha abissal. Eu via-a melhor como        poeta, neste caso, do que a via como soci&oacute;logo. Quanto ao que estou a        ler, tudo tem muito a ver com a nossa vida pessoal, num certo momento. Eu raramente        leio romances, mas poesia leio muito, e tamb&eacute;m ou&ccedil;o muita m&uacute;sica.      ]]></body>
<body><![CDATA[  E tenho alguns amores antigos e alguns amores recentes, na m&uacute;sica por        exemplo. Na poesia, neste momento, uma leitura perfeitamente cont&iacute;nua        &eacute; o Mahmoud Darwish, que &eacute; um poeta palestiniano, um grande poeta,        n&atilde;o precisava de ningu&eacute;m para o dar a conhecer, mas o John Berger,        que faleceu recentemente, tem um texto absolutamente pujante sobre este poeta        palestiniano. Quanto &agrave; m&uacute;sica, se ligarmos a minha instala&ccedil;&atilde;o        sonora tu v&ecirc;s qual &eacute; a minha obsess&atilde;o porque passam anos        a tocar o mesmo CD, s&atilde;o as Sinfonias de Mahler. Essa &eacute; a minha        grande paix&atilde;o desde sempre. &Eacute; que n&atilde;o &eacute; sequer preciso        pensar, est&atilde;o c&aacute; sempre, acho que esta &eacute; a sexta (liga      ]]></body>
<body><![CDATA[  a aparelhagem e ouve-se a m&uacute;sica). Em tempos recentes, por raz&otilde;es        pessoais, e que tamb&eacute;m t&ecirc;m a ver com a minha vida neste momento,        eu te diria que s&atilde;o duas m&uacute;sicas que eu ou&ccedil;o praticamente        todos os dias, e tu n&atilde;o vais imaginar o qu&ecirc;, &eacute; muito dif&iacute;cil        de imaginar. Uma &eacute; do que eu considero talvez o maior cantor de todos        os tempos, Nat King Cole, que se calhar te surpreende e &eacute; sobretudo uma        m&uacute;sica absolutamente fabulosa, com uma letra fabulosa que eu n&atilde;o        me canso de ouvir, &ldquo;Nature Boy&rdquo;.</p>     <p><b>BSM</b>: Nat King Cole &eacute; um dos cantores preferidos da minha m&atilde;e&hellip;</p>     <p><b>BSS</b>: N&atilde;o me digas! Porque eu ou&ccedil;o esse poema&hellip; obsessivamente.    E um outro &eacute; de Gal Costa, &ldquo;Faltando um peda&ccedil;o&rdquo;, que    &eacute; uma composi&ccedil;&atilde;o do Djavan. S&atilde;o poemas de amor,    realmente, este &uacute;ltimo verdadeiramente, e tamb&eacute;m &eacute; uma    can&ccedil;&atilde;o que eu ou&ccedil;o recorrentemente, uma voz maravilhosa    e um poema maravilhoso do Djavan. Ali&aacute;s, o &ldquo;Nature Boy&rdquo; tamb&eacute;m    foi cantado pelo Caetano Veloso, que &eacute; um dos meus amigos mais recentes,    mas mais fortes neste momento. De modo que s&atilde;o estes dois que, neste    momento, me tocam. Pode acontecer que a Gal Costa a certa altura me canse, neste    momento penso que n&atilde;o, mas o &ldquo;Nature Boy&rdquo; &eacute; absolutamente    inesquec&iacute;vel, a m&uacute;sica e a voz. Durante muito tempo, tive uma    certa paixoneta por um outro cantor americano, que eu pensei que era melhor,    que era o Frank Sinatra, mas depois comecei a ouvir o Nat King Cole &ndash;    que al&eacute;m do mais era um grande pianista, a gente n&atilde;o o conhece    bem como pianista de <i>jazz</i> &ndash; e nunca se deixou vender como o Frank    Sinatra, nunca teve aquela vida um pouco mafiosa. Realmente h&aacute; coisas    que s&atilde;o de outro mundo e o &ldquo;Nature Boy&rdquo; &eacute; para mim    o poema de amor mais bem feito que eu alguma vez ouvi.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>NOTAS</b></p>     <p><Sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></Sup> &ldquo;(Chapter Three-in-the    Mirror): Relationships among Perceptions that We Call Identity: Doing Research    in Rio&rsquo;s Squatter Settlements&rdquo;, <i>in</i> Santos, Boaventura de    Sousa (1995), <i>Toward a New Common Sense: Law, Science and Politics in the    Paradigmatic Transition</i>. New York: Routledge, pp. 125-249; e &ldquo;Cap&iacute;tulo    2-ao-espelho. As rela&ccedil;&otilde;es pessoais com o mundo a que chamamos    identidade: ser ou n&atilde;o ser quem imagino que sou nas favelas do Rio de    Janeiro&rdquo;, <i>in</i> Santos, Boaventura de Sousa (2014), <i>O direito dos    oprimidos</i>. Coimbra: Almedina, pp. 103-406.</p>     <p><Sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></Sup> Publicado na <i>Revista Cr&iacute;tica    de Ci&ecirc;ncias Sociais</i>, n.&ordm; 6, pp. 149-173, sob o t&iacute;tulo    &ldquo;A quest&atilde;o do socialismo&rdquo;. Recentemente reeditado em 2018,    em <i>Pneumat&oacute;foro. Escritos pol&iacute;ticos 1981-2018</i>. Coimbra:    Almedina, pp. 45-72.</p>     <p><Sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></Sup> Publicado na <i>Revista Cr&iacute;tica    de Ci&ecirc;ncias Sociais</i>, n.&ordm; 6, pp. 149-173, sob o t&iacute;tulo    &ldquo;A quest&atilde;o do socialismo&rdquo;. Recentemente reeditado em 2018,    em <i>Pneumat&oacute;foro. Escritos pol&iacute;ticos 1981-2018</i>. Coimbra:    Almedina, pp. 45-72.</p>     <p><Sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></Sup> Santos, Boaventura de Sousa    (2018), <i>Pneumat&oacute;foro. Escritos pol&iacute;ticos, 1981-2018</i>. Coimbra:    Almedina.</p>     <p><Sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></Sup> Santos, Boaventura de Sousa    (1995), &ldquo;Teses para a renova&ccedil;&atilde;o do sindicalismo em Portugal,    seguidas de um apelo&rdquo;, <i>V&eacute;rtice</i>, 68, pp. 132-139. Reeditado    em 2018 em <i>Pneumat&oacute;foro. Escritos pol&iacute;ticos, 1981-2018</i>.    Coimbra: Almedina, pp. 97-119.</p>     <p><Sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></Sup> &ldquo;Tudo o que &eacute;    s&oacute;lido se desfaz no ar: o marxismo tamb&eacute;m?&rdquo;, <i>in</i> Santos,    Boaventura de Sousa (1994),<i> Pela m</i><i>&atilde;o</i> <i>de Alice: O</i><i>    social e o pol&iacute;tico na p</i><i>&oacute;s</i><i>-</i><i>modernidade.</i>    Porto: Edi&ccedil;&otilde;es Afrontamento, pp. 25-46. Edi&ccedil;&atilde;o revista    e aumentada publicada em 2013 pela Editora Almedina.</p>     <p><Sup><a name="7"></a><a href="#top7">7</a></Sup> Ver Santos, Boaventura de    Sousa (2002), &ldquo;Para uma sociologia das aus&ecirc;ncias e uma sociologia    das emerg&ecirc;ncias&rdquo;, <i>Revista Cr&iacute;tica de Ci&ecirc;ncias Sociais</i>,    63, pp. 237-280. DOI: 10.4000/rccs.1285.</p>     <p><Sup><a name="8"></a><a href="#top8">8</a></Sup> Sobre o projeto ALICE, ver    <a href="http://alice.ces.uc.pt" target="_blank">http://alice.ces.uc.pt</a>.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="9"></a><a href="#top9">9</a></Sup> &ldquo;As veias abertas da    Nicaragu&aacute;&rdquo;, <i>Jornal de Letras</i>, 4 a 18 de julho de 2018, n.&ordm;    1246, p. 29. Dispon&iacute;vel em&nbsp;<a href="http://www.boaventuradesousasantos.pt/media/As%20veias%20abertas%20da%20Nicar%C3%A1gua_JornalLetras_4Julho2018.pdf" target="_blank">http://www.boaventuradesousasantos.pt/media/As%20veias%20abertas%20da%20Nicar%C3%A1gua_JornalLetras_4Julho2018.pdf</a>.</p>     <p><Sup><a name="10"></a><a href="#top10">10</a></Sup> Sobre esta quest&atilde;o    ver: Santos, Boaventura de Sousa (2017), <i>Decolonising the University. </i><i>The    Challenge of Deep Cognitive Justice.</i> Newcastle upon Tyne: Cambridge Scholars    Publishing.</p>     <p><Sup><a name="11"></a><a href="#top11">11</a></Sup> Ver a prop&oacute;sito    Santos, Boaventura de Sousa (2018), &ldquo;Pedagogy of the Oppressed, Participatory    Action Research, and Epistemologies of the South&rdquo;, <i>The End of the Cognitive    Empire. The Coming </i><i>of Age of Epistemologies of the South.</i> Durham/London:    Duke University Press, pp. 247-267.</p>     <p><Sup><a name="12"></a><a href="#top12">12</a></Sup> Ver Santos, Boaventura    de Sousa (2002), &ldquo;Or&ccedil;amento Participativo em Porto Alegre: para    uma democracia redistributiva&rdquo;, <i>in</i> Boaventura de Sousa Santos (org.),    <i>Democratizar a democracia. Os caminhos da democracia participativa</i>. Porto:    Edi&ccedil;&otilde;es Afrontamento, pp. 376-465.</p>     <p><Sup><a name="13"></a><a href="#top13">13</a></Sup> Santos, Boaventura de Sousa    (1995), <i>Toward a New Common Sense: Law, Science and Politics in the Paradigmatic    Transition</i>. New York: Routledge.</p>     <p><Sup><a name="14"></a><a href="#top14">14</a></Sup> Sobre o F&oacute;rum Social    Mundial ver: Santos, Boaventura de Sousa (2005), <i>F&oacute;rum Social Mundial:    manual de uso</i>. Porto: Edi&ccedil;&otilde;es Afrontamento; e Santos, Boaventura    de Sousa (2006), <i>The Rise of the Global Left. The World Social Forum and    Beyond.</i> London: Zed Books.</p>     <p><Sup><a name="15"></a><a href="#top15">15</a></Sup> Mais informa&ccedil;&atilde;o    dispon&iacute;vel em <a href="http://www.universidadepopular.org/site/pages/pt/em-destaque.php" target="_blank">http://www.universidadepopular.org/site/pages/pt/em-destaque.php</a>.    Sobre a UPMS, ver ainda Santos, Boaventura de Sousa (2006), <i>A gram&aacute;tica    do tempo. Para uma nova cultura pol&iacute;tica. </i>Porto: Edi&ccedil;&otilde;es    Afrontamento, pp. 155-165; e Santos, Boaventura de Sousa (2018), <i>The End    of the Cognitive Empire. The Coming of Age of Epistemologies of the South</i>.    Durham/London: Duke University Press, pp. 286-291.</p>     <p><Sup><a name="16"></a><a href="#top16">16</a></Sup> Santos, Boaventura de Sousa    (2018), <i>The End of a Cognitive Empire: The Coming of Age of Epistemologies    of the South</i>. Durham/London: Duke University Press.</p>     <p><Sup><a name="17"></a><a href="#top17">17</a></Sup> Santos, Boaventura de Sousa    (1987), <i>Um discurso sobre as ci&ecirc;ncias</i>. Porto: Edi&ccedil;&otilde;es    Afrontamento.</p>     <p><Sup><a name="18"></a><a href="#top18">18</a></Sup> Projeto &ldquo;ALICE &ndash;    Espelhos estranhos, li&ccedil;&otilde;es imprevistas; definindo para a Europa    um novo modo de partilhar as experi&ecirc;ncias do mundo&rdquo;, coordenado    por Boaventura de Sousa Santos, com financiamento do European Research Council,    realizado entre 2011 e 2016 no Centro de Estudos Sociais da Universidade de    Coimbra (<a href="http://alice.ces.uc.pt" target="_blank">http://alice.ces.uc.pt</a>).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="19"></a><a href="#top19">19</a></Sup> Ver Santos, Boaventura    de Sousa (2008), &ldquo;A filosofia &agrave; venda, a douta ignor&acirc;ncia    e a aposta de Pascal&rdquo;, <i>Revista Cr&iacute;tica de Ci&ecirc;ncias Sociais</i>,    80, 11-43. DOI: 10.4000/rccs.691.</p>     <p><Sup><a name="20"></a><a href="#top20">20</a></Sup> Santos, Boaventura de Sousa    (1995), <i>Toward a New Common Sense: Law, Science and Politics in the Paradigmatic    Transition</i>. New York: Routledge.</p>     <p><Sup><a name="21"></a><a href="#top21">21</a></Sup> <i>Rap global </i>(2010).    Rio de Janeiro: Aeroplano Editora.</p>      ]]></body>
</article>
