<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>2182-7435</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Revista Crítica de Ciências Sociais]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Revista Crítica de Ciências Sociais]]></abbrev-journal-title>
<issn>2182-7435</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Centro de Estudos Sociais]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S2182-74352019000100011</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Crepúsculo do colonialismo: a diplomacia do Estado Novo (1949-1961)]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Araújo]]></surname>
<given-names><![CDATA[Caio Simões de]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A1"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="AA1">
<institution><![CDATA[,University of the Witwatersrand Centre for Indian Studies in Africa ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[Johannesburg ]]></addr-line>
<country>South Africa</country>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>05</month>
<year>2019</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>05</month>
<year>2019</year>
</pub-date>
<numero>118</numero>
<fpage>199</fpage>
<lpage>201</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S2182-74352019000100011&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S2182-74352019000100011&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S2182-74352019000100011&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>RECENSÃO</b></p>     <p><b>Pereira, Bernardo Futscher (2017), <i>Crep&uacute;sculo do colonialismo:    a diplomacia do Estado Novo (1949-1961)</i></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Caio Sim&otilde;es de Ara&uacute;jo</b></p>     <p>CISA &ndash; Centre for Indian Studies in Africa, University of the Witwatersrand    36 Jorissen Street, Private Bag 3, Wits 2050, Johannesburg, South Africa&nbsp;<a href="mailto:caio.simoesdearaujo@wits.ac.za">caio.simoesdearaujo@wits.ac.za</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Crep&uacute;sculo do colonialismo: a diplomacia do Estado Novo (1949-1961)</b></p>     <p><b>Bernardo Futscher Pereira</b></p>     <p><b>Pereira, Bernardo Futscher (2017), <i>Crep&uacute;sculo do colonialismo:    a diplomacia do Estado Novo (1949-1961)</i>. Alfragide: Publica&ccedil;&otilde;es    Dom Quixote, 312 pp.</b></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A hist&oacute;ria diplom&aacute;tica e transnacional, campos tradicionalmente    marginalizados na historiografia produzida em espa&ccedil;os acad&eacute;micos    de l&iacute;ngua oficial portuguesa, t&ecirc;m nos &uacute;ltimos anos sofrido    um processo de not&aacute;vel crescimento e renova&ccedil;&atilde;o. V&aacute;rios    s&atilde;o os artigos, teses de doutoramento, monografias e volumes publicados    nestas &aacute;reas, e n&atilde;o seria um exagero afirmar que o que de mais    fascinante se tem escrito recentemente compartilha uma perspectiva que poderia    ser sumariamente descrita como hist&oacute;rias que v&atilde;o &ldquo;al&eacute;m    da na&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Por esta express&atilde;o quer-se aqui referir    a um modo de narra&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica em que o Estado-na&ccedil;&atilde;o    j&aacute; n&atilde;o assume a centralidade absoluta ou figura como ator monol&iacute;tico.    Nesta tentativa de superar &ldquo;a na&ccedil;&atilde;o&rdquo; como um quadro    conceptual e epistemol&oacute;gico limitador, historiadores t&ecirc;m cada vez    mais se interessado em explorar o &ldquo;internacional&rdquo; como um terreno    produtivo, como uma lente que nos ajuda a melhor perceber a complexidade dos    processos hist&oacute;ricos, que um olhar estritamente nacional (ou nacionalista)    poder&aacute; ter obscurecido. Aqui, os temas da descoloniza&ccedil;&atilde;o    e do colonialismo tardio t&ecirc;m sido particularmente sujeitos a novas e fascinantes    leituras.</p>     <p>Do ponto de vista do historiador ou cientista social, o livro aqui em apre&ccedil;o    pode ser lido em rela&ccedil;&atilde;o a este universo historiogr&aacute;fico    mais amplo, ainda que o Bernardo Futscher Pereira, infelizmente, n&atilde;o    dialogue de forma consistente com alguns dos t&iacute;tulos de maior relevo    na literatura acad&eacute;mica especializada, um ponto ao qual voltarei abaixo.    <i>Crep&uacute;sculo do colonialismo</i>, no entanto, talvez seja apresentado    mais efetivamente n&atilde;o como um t&iacute;tulo acad&eacute;mico <i>per se</i>,    mas antes como uma narrativa ensa&iacute;stica, cujo evidente valor intelectual    e fundamentos investigativos por certo despertar&atilde;o o interesse tanto    do mundo acad&eacute;mico quanto do p&uacute;blico leigo em geral. Escrito numa    prosa de f&aacute;cil acesso e permeado por anedotas curiosas e interessantes,    o livro &eacute; bastante vers&aacute;til na forma e conte&uacute;do. Isto talvez    possa ser explicado, pelo menos parcialmente, pela trajet&oacute;ria pessoal    e profissional do pr&oacute;prio autor, que inclui a forma&ccedil;&atilde;o    acad&eacute;mica em Ci&ecirc;ncias Pol&iacute;ticas e Rela&ccedil;&otilde;es    Internacionais, o trabalho como jornalista e, mais tarde, como diplomata. Estes    posicionamentos profissionais distintos fazem-se sentir nas escolhas narrativas    e complementam-se de forma interessante ao longo do livro, em benef&iacute;cio    do produto final. O autor, que conta com a experi&ecirc;ncia bem sucedida de    ter publicado, em 2012, o t&iacute;tulo <i>A diplomacia de Salazar (1932-1949)</i>,    pela mesma editora, agora nos oferece um outro livro que funciona como o seguimento    natural deste.<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a> </p>     <p>Como o subt&iacute;tulo sugere, o livro examina a pol&iacute;tica diplom&aacute;tica    do Estado Novo no per&iacute;odo p&oacute;s-guerra at&eacute; ao explodir da    resist&ecirc;ncia anticolonial armada em &Aacute;frica e da perda da ent&atilde;o    chamada &Iacute;ndia Portuguesa, ambos eventos profundamente marcantes que fazem    de 1961 um divisor de &aacute;guas por excel&ecirc;ncia na cronologia da descoloniza&ccedil;&atilde;o    portuguesa. A express&atilde;o que d&aacute; t&iacute;tulo ao livro &ndash;    crep&uacute;sculo do colonialismo &ndash;, criativamente emprestada de um documento    diplom&aacute;tico, enviado da Embaixada de Portugal em Londres ao Minist&eacute;rio    dos Neg&oacute;cios Estrangeiros em meados dos anos 1950, evidencia que o patente    decl&iacute;nio do colonialismo europeu assumia nos c&iacute;rculos pol&iacute;ticos    e diplom&aacute;ticos portugueses um sentido de imensa centralidade e urg&ecirc;ncia    que n&atilde;o se podia ignorar. O livro convincentemente prossegue com uma    an&aacute;lise minuciosa das decis&otilde;es pol&iacute;ticas e estrat&eacute;gias    diplom&aacute;ticas empregadas de maneira a enfrentar e impedir o fim do colonialismo    como um processo global, e n&atilde;o apenas como algo relativo a Portugal isoladamente.    A esta an&aacute;lise pol&iacute;tica e diplom&aacute;tica propriamente dita,    o autor acrescenta coment&aacute;rios inusitados sobre a disposi&ccedil;&atilde;o    pessoal de figuras de relevo, de diplomatas de carreira em altos cargos, de    Ministros dos Neg&oacute;cios Estrangeiros e do pr&oacute;prio Presidente do    Conselho. Estas curiosas incurs&otilde;es pelas mentes nem sempre concordantes    de Adriano Moreira, Ant&oacute;nio Salazar, Vasco Garin, Franco Nogueira, entre    outros, d&atilde;o-nos algumas pistas sobre as diferentes perspectivas pol&iacute;ticas,    institucionais e pessoais que coexistiam dentro da pr&oacute;pria &ldquo;diplomacia    do Estado Novo&rdquo;, que permanece ao longo do livro como um campo de tens&atilde;o    e n&atilde;o como um conjunto monol&iacute;tico de diretivas rigidamente definidas    por um centro de poder.</p>     <p>Outro benef&iacute;cio do livro &eacute; a sua amplitude tem&aacute;tica e    geogr&aacute;fica. Embora o autor n&atilde;o busque expressamente apresentar    uma hist&oacute;ria total da diplomacia do Estado Novo (o que seria imposs&iacute;vel,    sobretudo numa obra de menos de 300 p&aacute;ginas), tamb&eacute;m n&atilde;o    limita o seu horizonte anal&iacute;tico e narrativo a cortes conceptuais preconcebidos    e a debates convencionais. H&aacute; uma tend&ecirc;ncia na literatura acad&eacute;mica    para responder e inserir-se num campo de estudo espec&iacute;fico. O historiador,    neste sentido, &eacute; encorajado a narrar uma hist&oacute;ria bem-acabada    que intervenha num debate sobre, por exemplo, a Guerra Fria ou as rela&ccedil;&otilde;es    luso-americanas, sobre o papel de organismos internacionais ou sobre o desenrolar    da descoloniza&ccedil;&atilde;o em pa&iacute;ses ou regi&otilde;es espec&iacute;ficos,    etc. &Eacute; mais raro encontrarmos um estudo que consiga, de maneira convincente,    articular diversos temas e espa&ccedil;os geogr&aacute;ficos em redor de uma    narrativa comum. <i>Crep&uacute;sculo do colonialismo</i> procede desta forma    e com sucesso. Temos aqui uma hist&oacute;ria da descoloniza&ccedil;&atilde;o    que come&ccedil;a em Macau nos anos 1940 e termina com a ocupa&ccedil;&atilde;o    militar do Estado Portugu&ecirc;s da &Iacute;ndia pelo ex&eacute;rcito indiano    em 1961. Ao longo de cinco cap&iacute;tulos organizados em tr&ecirc;s partes,    Bernardo Futscher Pereira trata de temas t&atilde;o diversos como a forma&ccedil;&atilde;o    estrat&eacute;gica da Organiza&ccedil;&atilde;o do Tratado do Atl&acirc;ntico    Norte, a ades&atilde;o de Portugal &agrave; Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es    Unidas (ONU), a aproxima&ccedil;&atilde;o diplom&aacute;tica de Portugal ao    Brasil e &agrave; &Aacute;frica do Sul, o deteriorar das rela&ccedil;&otilde;es    luso-indianas, a import&acirc;ncia da religi&atilde;o e das rela&ccedil;&otilde;es    com a Santa S&eacute; na diplomacia portuguesa, as respostas de Lisboa aos desafios    que se avizinhavam com a emerg&ecirc;ncia do chamado Terceiro Mundo, as vozes    cr&iacute;ticas e dissonantes que se apresentavam dentro do pr&oacute;prio Estado    Novo, at&eacute; &agrave; emerg&ecirc;ncia da viol&ecirc;ncia anticolonial em    Angola. &Eacute; nesta abordagem multitem&aacute;tica e geograficamente multifocal    que a contribui&ccedil;&atilde;o deste livro reside. Este modelo narrativo permite-nos    perceber que eventos pouco explorados na hist&oacute;ria do colonialismo portugu&ecirc;s,    tais como, por exemplo, a Crise do Congo, viriam a ter um papel importante em    condicionar os argumentos e estrat&eacute;gias dispon&iacute;veis &agrave; diplomacia    do Estado Novo em espa&ccedil;os internacionais.</p>     <p>Embora o pr&oacute;prio autor reconhe&ccedil;a que o estudo se constr&oacute;i    como uma revis&atilde;o da literatura existente e, portanto, baseia-se sobretudo    em fontes secund&aacute;rias, ele n&atilde;o deixa de incluir fontes prim&aacute;rias,    buscadas no Arquivo Hist&oacute;rico-Diplom&aacute;tico ou em publica&ccedil;&otilde;es    oficiais do Minist&eacute;rio dos Neg&oacute;cios Estrangeiros. Ainda assim,    h&aacute; um certo desequil&iacute;brio no uso da documenta&ccedil;&atilde;o:    as sec&ccedil;&otilde;es relativas &agrave;s quest&otilde;es do Estado Portugu&ecirc;s    da &Iacute;ndia e da diplomacia portuguesa na ONU est&atilde;o melhor fundamentadas    em fontes prim&aacute;rias do que as demais. Esta aten&ccedil;&atilde;o minuciosa    &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es luso-indianas pode talvez ser relacionada com    o facto de o autor ser casado com uma historiadora deste tema, Maria Manuel    Stocker, autora de <i>Xeque-mate a Goa</i>, um importante t&iacute;tulo amplamente    citado ao longo do livro.<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a> Para    frustra&ccedil;&atilde;o de historiadores profissionais, parte das fontes prim&aacute;rias    citadas na obra n&atilde;o trazem consigo a sua refer&ecirc;ncia arquiv&iacute;stica,    o que dificultar&aacute; a sua consulta e utiliza&ccedil;&atilde;o em futuros    estudos. O livro poderia tamb&eacute;m beneficiar de um di&aacute;logo mais    consistente com a literatura recentemente produzida. N&atilde;o faz refer&ecirc;ncia    aos estudos publicados, por exemplo, por Jerry D&aacute;vila, Maria Paula Meneses    e Bruno Sena Martins, Miguel Bandeira Jer&oacute;nimo e Jos&eacute; Pedro Monteiro,    e Aurora Almada e Santos.<sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a> Claro    est&aacute;, isto &eacute; menos uma defici&ecirc;ncia do livro em si, e mais    um testemunho da imensa produtividade acad&eacute;mica e editorial nos campos    da hist&oacute;ria diplom&aacute;tica e transnacional, de que o livro em apre&ccedil;o    &eacute; mais uma interessante contribui&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>NOTAS</b></p>     <p><Sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></Sup> Pereira, Bernardo Futscher    (2012), <i>A diplomacia de Salazar: 1932-1949</i>. Lisboa: Publica&ccedil;&otilde;es    Dom Quixote.</p>     <p><Sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></Sup> Stocker, Maria Manuel (2011),    <i>Xeque-mate a Goa</i>. Alfragide: Texto Editores.</p>     <p><Sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></Sup> D&aacute;villa, Jerry (2012),    <i>Hotel Tr&oacute;pico: Brazil and the Challenge of African Decolonization</i>.    Durham: Duke University Press; Meneses, Maria Paula; Martins, Bruno Sena (orgs.)    (2013), <i>As guerras de liberta&ccedil;&atilde;o e os sonhos coloniais: alian&ccedil;as    secretas, mapas imaginados</i>. Coimbra: CES/Almedina; Jer&oacute;nimo, Miguel    Bandeira; Monteiro, Jos&eacute; Pedro (orgs.) (2015), <i>Os passados do presente:    internacionalismo, imperialismo e a constru&ccedil;&atilde;o do mundo contempor&acirc;neo</i>.    Coimbra: Edi&ccedil;&otilde;es Almedina; Santos, Aurora Almada e (2017), <i>A    Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas e a quest&atilde;o    colonial portuguesa: 1960-1974</i>. Lisboa: Instituto da Defesa Nacional.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[ ]]></body>
</article>
