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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>RECENSÃO</b></p>     <p><b>Reis, Jos&eacute; (2018), <i>Economia portuguesa: formas de economia pol&iacute;tica    numa periferia persistente (1960-2017)</i></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>T&acirc;nia Regina Kr&uuml;ger*,&nbsp;Edyvar de Mattos Guimar&atilde;es**</b></p>     <p>* Departamento de Servi&ccedil;o Social, Universidade Federal de Santa Catarina    Campus Reitor Jo&atilde;o David Ferreira Lima, s/n, Trindade, CEP 88040-900    Florian&oacute;polis, Santa Catarina, Brasil&nbsp;<a href="mailto:tania.kruger@ufsc.br">tania.kruger@ufsc.br</a></p>     <p>** Doutorando em Sociologia Pol&iacute;tica na Universidade Estadual do Norte    Fluminense Darcy Ribeiro. Av. Alberto Lamego, 2000, Parque California, Campos    dos Goytacazes, Rio de Janeiro, CEP 28013-602, Brasil&nbsp;<a href="mailto:guimarvix@hotmail.com">guimarvix@hotmail.com</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Economia portuguesa: formas de economia pol&iacute;tica numa periferia persistente    (1960-2017)</b></p>     <p><b>Jos&eacute; Reis</b></p>     <p><b>Reis, Jos&eacute; (2018), <i>Economia portuguesa: formas de economia pol&iacute;tica    numa periferia persistente (1960-2017)</i>. Coimbra: Edi&ccedil;&otilde;es Almedina,    274 pp.</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>Portugal: renovada condi&ccedil;&atilde;o de periferia</b></p>     <p>O livro de Jos&eacute; Reis &eacute; uma densa e cuidadosa an&aacute;lise sobre    a economia portuguesa do per&iacute;odo entre 1960 e 2017, que reflete o ac&uacute;mulo    da sua trajet&oacute;ria de investigador cient&iacute;fico e de gestor p&uacute;blico.    Para os leitores n&atilde;o familiarizados com temas sobre a organiza&ccedil;&atilde;o    e a evolu&ccedil;&atilde;o dos sistemas econ&ocirc;micos, as din&acirc;micas    produtivas, o trabalho e os sistemas de emprego, as formas de relacionamento    supranacional, a governa&ccedil;&atilde;o da economia em per&iacute;odo autorit&aacute;rio,    democr&aacute;tico e de economia da austeridade, o livro &eacute; um convite    a uma leitura did&aacute;tica e esclarecedora, sem perder o rigor acad&ecirc;mico-cient&iacute;fico.</p>     <p>A obra est&aacute; organizada em cinco cap&iacute;tulos. Apresenta &ndash;    a partir do dom&iacute;nio da economia pol&iacute;tica &ndash; elementos conceituais,    hist&oacute;ricos e indicadores da economia portuguesa, de forma a compreender    a sua condi&ccedil;&atilde;o de periferia, a economia pol&iacute;tica do empobrecimento,    a sobredetermina&ccedil;&atilde;o institucional da Uni&atilde;o Europeia (UE),    a prolongada estagna&ccedil;&atilde;o na sequ&ecirc;ncia da ades&atilde;o &agrave;    Uni&atilde;o Econ&oacute;mica e Monet&aacute;ria (UEM) e os problemas e possibilidades    de uma economia pol&iacute;tica de recupera&ccedil;&atilde;o a partir de 2015.    Ou seja, o livro faz uma revis&atilde;o dos ciclos econ&ocirc;micos ap&oacute;s    o longo per&iacute;odo de Portugal enquanto pa&iacute;s colonizador &ldquo;anacr&ocirc;nico&rdquo;,    como caracteriza o autor.</p>     <p>Ao longo dos cap&iacute;tulos, Reis trata de evidenciar os fundamentos para    situar Portugal como uma periferia na Europa. O per&iacute;odo de industrializa&ccedil;&atilde;o    (1960-1974) revelou a incapacidade de se modernizar, de qualificar o sistema    produtivo e o mercado de trabalho. Para o autor, Portugal tem uma originalidade    inescap&aacute;vel: instalou um setor industrial pesado e moderno, com elevados    volumes de capital fixo enquanto fez do trabalho a sua principal mercadoria    de <i>exporta&ccedil;&atilde;o</i>. O &ldquo;regresso&rdquo; &agrave; democracia    (1975-1983) deu prioridade aos mecanismos de estrutura&ccedil;&atilde;o interna    e &agrave; economia pol&iacute;tica da democracia. Depois da Revolu&ccedil;&atilde;o    dos Cravos, a principal decis&atilde;o foi a de democratizar e possibilitar    que o acesso ao bem-estar se generalizasse por meio das pol&iacute;ticas econ&ocirc;micas    e de grandes transforma&ccedil;&otilde;es institucionais, com vista &agrave;    redu&ccedil;&atilde;o das desigualdades e &agrave; reorganiza&ccedil;&atilde;o    da estrutura econ&ocirc;mica. Deu-se prioridade a processos de moderniza&ccedil;&atilde;o    empresarial e adequou-se a esfera p&uacute;blica, cultivando um ambiente de    <i>europeiza&ccedil;&atilde;o</i>. O per&iacute;odo de 1984-1992 foi, em parte,    a continuidade da economia pol&iacute;tica da democracia, mas aliado &agrave;    reorganiza&ccedil;&atilde;o da economia e da sociedade at&eacute; &agrave; integra&ccedil;&atilde;o    monet&aacute;ria, destacando-se pelas reformas das institui&ccedil;&otilde;es,    com privatiza&ccedil;&otilde;es, prote&ccedil;&atilde;o a grupos econ&ocirc;micos    e liberaliza&ccedil;&atilde;o do mercado de trabalho.</p>     <p>A prepara&ccedil;&atilde;o para a integra&ccedil;&atilde;o na UEM (1993-2003)    se fez pelos mercados, instalando o &ldquo;poder burocr&aacute;tico europeu,    criador de regras e de institui&ccedil;&otilde;es destinadas a condicionar e    reduzir a esfera p&uacute;blica&rdquo; (p. 6). A arquitetura institucional da    UEM adotou o processo de financeiriza&ccedil;&atilde;o constru&iacute;da no    plano internacional. Os tratados e pactos foram &ldquo;mostrando que estava    desfeita a rela&ccedil;&atilde;o de redistribui&ccedil;&atilde;o entre crescimento,    pleno emprego e desenvolvimento dos sistemas de redistribui&ccedil;&atilde;o    com aumento dos sal&aacute;rios&rdquo; (p. 61). Em Portugal, a economia tornou-se    profundamente dependente do exterior e sua posi&ccedil;&atilde;o de devedor    foi acelerada, intensificou-se a fragilidade da sociedade e da economia e se    renovou a condi&ccedil;&atilde;o de periferia. O novo quadro institucional da    UEM (2003-2015) reduziu o espa&ccedil;o das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas    e protegeu as rela&ccedil;&otilde;es de mercado, subjugando o financiamento    p&uacute;blico e a pol&iacute;tica monet&aacute;ria de cada pa&iacute;s. Portugal    entrou numa tend&ecirc;ncia de estagna&ccedil;&atilde;o e, em 2011, adotou o    programa de pol&iacute;tica econ&ocirc;mica do Memorando de Entendimento assinado    com a Uni&atilde;o Europeia, o Fundo Monet&aacute;rio Internacional e o Banco    Mundial (<i>troika</i>), que o autor denominou de economia pol&iacute;tica da    austeridade. Esta &eacute; &ldquo;recessiva e deflacion&aacute;ria, d&aacute;    primazia aos valores financeiros, contrai os rendimentos salariais, produz uma    forte reconfigura&ccedil;&atilde;o social e econ&oacute;mica, com retrocesso    de direitos e de formas de prote&ccedil;&atilde;o social, hostiliza o Estado    e a esfera p&uacute;blica, promove a conflitualidade, &lsquo;naturaliza&rsquo;    a arquitetura institucional que ela pr&oacute;pria criou e enaltece o individualismo&rdquo;    (pp. 67-68). Ao proteger os setores onde est&atilde;o os capitais mais poderosos,    a economia portuguesa se desligou de si pr&oacute;pria e da sociedade, tendo    esta arcado com os custos. Tratou-se da &ldquo;mais forte captura recessiva    da economia (&hellip;) em favor de uma revers&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es    sociais, especialmente das laborais, e do papel do Estado&rdquo; (p. 73).</p>     <p>A pol&iacute;tica de austeridade causou um choque violento &agrave; economia    e &agrave; sociedade portuguesa, mas uma viragem pol&iacute;tica relevante ocorreu    em 2015 &ndash; com a forma&ccedil;&atilde;o de um governo socialista com apoio    parlamentar de outros partidos &agrave; esquerda &ndash;, na qual se ensaia    uma rea&ccedil;&atilde;o da mudan&ccedil;a da economia pol&iacute;tica por delibera&ccedil;&atilde;o    democr&aacute;tica. &ldquo;N&atilde;o se tendo alterado as condi&ccedil;&otilde;es    institucionais, nem as restri&ccedil;&otilde;es principais, seja no plano europeu,    seja no plano internacional em geral, o que esta nova fase significa &eacute;    que &eacute; poss&iacute;vel agir politicamente dentro das capacidades que um    pa&iacute;s possui&rdquo; (p. 70).</p>     <p>A defesa de algumas posi&ccedil;&otilde;es pol&iacute;tico-econ&ocirc;micas    traduzem o pensamento e a preocupa&ccedil;&atilde;o do autor. Portugal escolheu    um modelo de desenvolvimento que n&atilde;o gera empregos de qualidade e fica,    portanto, sujeito a determina&ccedil;&otilde;es da macroeconomia advindas do    ingresso na UE, que redefiniu sua economia e sua sociedade. Estes s&atilde;o    temas abordados ao longo dos cinco cap&iacute;tulos, a princ&iacute;pio historicamente    e, em seguida, com an&aacute;lise de indicadores econ&ocirc;micos, clareando    os motivos a respeito do n&atilde;o crescimento da economia portuguesa e a sua    depend&ecirc;ncia significativa do contexto europeu. Para compreender outra    determinante do empobrecimento portugu&ecirc;s, o autor faz uma an&aacute;lise    especial da arquitetura da UE, que estabelece a vit&oacute;ria liberal e conservadora    do mercado sobre quaisquer outros interesses, deixando que economias diferentes    sejam submetidas a crit&eacute;rios que desconsideram seu grau diferenciado    de desenvolvimento. Por fim, sintetiza: a UEM &eacute; um verdadeiro &ldquo;governo    da Banca&rdquo; (p. 187), que privilegia a financeiriza&ccedil;&atilde;o da    economia e &eacute; &ldquo;uma insensata carta de condicionalidades e um mecanismo    gerador de constrangimentos&rdquo; (p. 185) para os pa&iacute;ses perif&eacute;ricos.</p>     <p>No conjunto, a avalia&ccedil;&atilde;o do autor &eacute; que os ciclos da evolu&ccedil;&atilde;o    econ&ocirc;mica de Portugal s&atilde;o inst&aacute;veis, com desequil&iacute;brios    sistem&aacute;ticos, depend&ecirc;ncia persistente e onde o poder para controlar    a evolu&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica e social &eacute; baixo. Estes ciclos    foram apresentados e analisados de forma a compreender a industrializa&ccedil;&atilde;o,    a desruraliza&ccedil;&atilde;o e a terceiriza&ccedil;&atilde;o nas dimens&otilde;es    da produ&ccedil;&atilde;o, do emprego, da gera&ccedil;&atilde;o e redistribui&ccedil;&atilde;o    de rendimento e da provis&atilde;o de bem-estar. Esta leitura &ndash; que est&aacute;    longe de ser uma contabilidade do crescimento &ndash; evidencia a dimens&atilde;o    limitada desse crescimento em cada per&iacute;odo, os escassos efeitos de uma    economia que n&atilde;o tem repercuss&otilde;es essenciais no emprego e no mercado    de trabalho, e por essas raz&otilde;es, incapaz de estruturar um processo de    crescimento e forjar possibilidades de democracia pol&iacute;tica e de democracia    econ&ocirc;mica. Determinando o retrato de Portugal na segunda d&eacute;cada    dos anos 2000: um pa&iacute;s que desenvolveu um turismo de massas, servi&ccedil;os    generalistas e trabalho prec&aacute;rio e mal remunerado, tendo-se tornado a    terceiriza&ccedil;&atilde;o excessiva com um uso extensivo de trabalho sem cria&ccedil;&atilde;o    de valor.</p>     <p>O professor Jos&eacute; Reis merece ser lido por todos, europeus &ndash; portugueses    especialmente &ndash; mas tamb&eacute;m por leitores de outros pa&iacute;ses    e, em particular, brasileiros, de modo a observar: primeiro, a import&acirc;ncia    da an&aacute;lise econ&ocirc;mica atrav&eacute;s do prisma da economia pol&iacute;tica    observando aspectos sociais e pol&iacute;ticos, relevantes nas escolhas; segundo,    a elabora&ccedil;&atilde;o de uma metodologia de an&aacute;lise considerando    os momentos hist&oacute;ricos econ&ocirc;mico-pol&iacute;ticos, que ajudam a    compreender o presente; e, por &uacute;ltimo, a &ecirc;nfase na financeiriza&ccedil;&atilde;o    do capital e, por consequ&ecirc;ncia, das atividades econ&ocirc;micas, com reflexos    em todas as rela&ccedil;&otilde;es sociais.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Por fim, este &eacute; um livro perpassado pela emo&ccedil;&atilde;o do autor    e pelo desejo de que seu pa&iacute;s cumpra as finalidades que ele entende como    prec&iacute;puas: os destinat&aacute;rios do desenvolvimento econ&ocirc;mico    serem as pessoas e a sociedade, a inser&ccedil;&atilde;o pelo trabalho ser o    mais poderoso mecanismo de inclus&atilde;o na contemporaneidade, que a economia    satisfa&ccedil;a as condi&ccedil;&otilde;es da democracia e que o Estado tenha    centralidade na a&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica.</p>      ]]></body>
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