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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>RECENSÃO</b></p>     <p><b>Tooze, Adam (2018), <i>Crashed: How a Decade of Financial Crises Changed    the World</i></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Vicente Ferreira</b></p>     <p>Estudante da Licenciatura em Economia no Instituto Superior de Economia e Gest&atilde;o    da. Universidade de Lisboa Rua do Quelhas 6, 1200-781 Lisboa, Portugal&nbsp;<a href="mailto:vicentecbaf@gmail.com">vicentecbaf@gmail.com</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Tooze, Adam (2018), <i>Crashed: How a Decade of Financial Crises Changed    the World</i>. New York: Allen Lane, Penguin Books, 706 pp.</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>H&aacute; momentos de descontinuidade profunda na hist&oacute;ria das sociedades,    que marcam o mundo de forma decisiva e est&atilde;o condenados a ocupar um lugar    de destaque na mem&oacute;ria coletiva. A grande recess&atilde;o de 2007-2008    foi certamente um desses momentos. Depois da violenta crise financeira, nada    seria como dantes. &Eacute; esse o tema central do recente livro de Adam Tooze,    Crashed: How a Decade of Financial Crises Changed the World.</p>     <p>&ldquo;A hist&oacute;ria que o livro conta&rdquo;, como explica o autor, &ldquo;&eacute;    a de um descarrilamento&rdquo; (p. 15).<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a>    O livro organiza-se em quatro partes: &ldquo;A forma&ccedil;&atilde;o da tempestade&rdquo;,    sobre o desenvolvimento dos desequil&iacute;brios estruturais que originaram    a crise; &ldquo;A crise global&rdquo;, que discute o colapso e as respostas    imediatas; &ldquo;Zona euro&rdquo;, com foco no continente europeu; e &ldquo;R&eacute;plicas&rdquo;,    sobre a d&eacute;cada que se seguiu. Embora j&aacute; muito tenha sido escrito    sobre o assunto, este &eacute; um dos relatos mais informados, completos e abrangentes    sobre a Grande Recess&atilde;o e as suas consequ&ecirc;ncias. A obra combina    o foco nas din&acirc;micas do sistema financeiro com uma discuss&atilde;o dos    conflitos dentro dos pa&iacute;ses e entre pa&iacute;ses. A an&aacute;lise do    autor integra as esferas financeira, (geo)pol&iacute;tica e socioecon&oacute;mica    da hist&oacute;ria da &uacute;ltima d&eacute;cada (sendo a &uacute;ltima, talvez,    a menos tratada ao longo do livro). Poucos autores o ter&atilde;o conseguido    fazer com a eloqu&ecirc;ncia de Adam Tooze, historiador econ&oacute;mico e professor    na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos da Am&eacute;rica (EUA).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Tooze come&ccedil;a por recordar como a maioria dos economistas previram a    &ldquo;crise errada&rdquo;, por estarem apenas focados nos desequil&iacute;brios    comerciais entre os EUA e a China e ignorarem os riscos intr&iacute;nsecos do    pr&oacute;prio sistema financeiro. O autor parte depois para uma an&aacute;lise    detalhada dos mecanismos financeiros complexos por detr&aacute;s da crise e    das diferentes respostas (programas de est&iacute;mulos &agrave; economia ou    de austeridade). A cronologia que o autor apresenta n&atilde;o se resume aos    principais desenvolvimentos da crise nos EUA e nos pa&iacute;ses da Europa Ocidental,    mas tamb&eacute;m na R&uacute;ssia, na Europa de Leste, na China e noutros pa&iacute;ses    asi&aacute;ticos, ocupando uma parte substancial do livro com uma discuss&atilde;o    das diferentes respostas das autoridades e dos conflitos geopol&iacute;ticos.</p>     <p>Nas d&eacute;cadas que antecederam a crise, na zona euro, as diferen&ccedil;as    nos modelos de crescimento e nas estruturas produtivas dos diferentes pa&iacute;ses    originaram desequil&iacute;brios entre pa&iacute;ses excedent&aacute;rios e    deficit&aacute;rios.<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a> O afluxo    de capitais para os segundos alimentou bolhas especulativas (no imobili&aacute;rio    ou nos mercados bolsistas) e tend&ecirc;ncias de endividamento cumulativo. O    extraordin&aacute;rio desenvolvimento de Wall Street e dos lucros do sistema    financeiro norte-americano podem tamb&eacute;m ser compreendidos pela necessidade    de captar capitais para financiar os d&eacute;fices dos EUA, oferecendo ativos    de maior risco com retornos compensadores para os investidores. Os bancos europeus    foram os principais envolvidos nestas opera&ccedil;&otilde;es financeiras de    risco, tornando-se bastante dependentes do mercado financeiro norte-americano    num contexto de financeiriza&ccedil;&atilde;o do capitalismo ocidental.<sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a></p>     <p>Embora a quebra dos pre&ccedil;os das casas e dos cr&eacute;ditos <i>subprime</i>    tenha sido a causa imediata da crise, Tooze recorda que esta tem origem na intensifica&ccedil;&atilde;o    dos la&ccedil;os financeiros transatl&acirc;nticos entre os EUA e a Europa nas    d&eacute;cadas anteriores &agrave; crise, facilitada pela vaga de desregula&ccedil;&atilde;o    do setor que permitiu aumentar significativamente o fluxo de capitais e a alavancagem    dos bancos. Os acontecimentos de 2007-2008 nos EUA, a quebra da confian&ccedil;a    no sistema e o consequente congelamento do cr&eacute;dito, do qual todos os    bancos e institui&ccedil;&otilde;es estavam dependentes, fariam ruir o castelo    de cartas do sistema financeiro, provocando a recess&atilde;o mais profunda    desde a Grande Depress&atilde;o de 1929. &ldquo;Nunca antes, nem sequer na d&eacute;cada    de 1930, t&iacute;nhamos assistido &agrave; imin&ecirc;ncia da implos&atilde;o    de um sistema t&atilde;o amplo e interdependente&rdquo; (p. 9), escreve Tooze.    A queda do Lehman Brothers, em setembro de 2008, seria apenas o in&iacute;cio.</p>     <p>A crise da d&iacute;vida privada foi transformada numa crise da d&iacute;vida    p&uacute;blica atrav&eacute;s da absor&ccedil;&atilde;o das perdas financeiras    pelos Estados. No livro <i>Austeridade: a hist&oacute;ria de uma ideia perigosa</i>,    Mark Blyth descreveu esta opera&ccedil;&atilde;o como o maior embuste (&ldquo;<i>bait    and switch</i>&rdquo;) da hist&oacute;ria contempor&acirc;nea.<sup><a href="#4">4</a></sup><a name="top4"></a>    No caso da zona euro, a austeridade foi o mecanismo de socializa&ccedil;&atilde;o    destas perdas, passando o encargo para as popula&ccedil;&otilde;es. A agudiza&ccedil;&atilde;o    da crise e a generaliza&ccedil;&atilde;o do desemprego foram, por isso, resultado    de escolhas pol&iacute;ticas das institui&ccedil;&otilde;es europeias. Nas palavras    do autor, este foi &ldquo;um espet&aacute;culo que deve inspirar indigna&ccedil;&atilde;o.    Milh&otilde;es de pessoas sofreram sem nenhuma raz&atilde;o para isso&rdquo;    (p. 15).</p>     <p>Em linha com a tradi&ccedil;&atilde;o da economia pol&iacute;tica institucionalista,    Tooze reconhece como ut&oacute;pica a ideia de que existem mercados como entidades    politicamente neutras e cujo funcionamento n&atilde;o depende de regula&ccedil;&otilde;es,    normas e h&aacute;bitos sociais. Ao expor os desequil&iacute;brios do processo    de financeiriza&ccedil;&atilde;o e a necessidade de recurso ao financiamento    do Estado para evitar situa&ccedil;&otilde;es de insolv&ecirc;ncia dos bancos,    a crise acabou tamb&eacute;m com o mito da desregula&ccedil;&atilde;o virtuosa    &ndash; esta &ldquo;derrota hist&oacute;rica&rdquo; foi a &uacute;nica forma    de salvar um sistema em fal&ecirc;ncia.</p>     <p>A pol&iacute;tica monet&aacute;ria expansionista da Reserva Federal norte-americana    teve, por isso, um papel crucial para evitar o aprofundamento da crise global,    permitindo resgatar as institui&ccedil;&otilde;es financeiras norte-americanas    e oferecer liquidez aos bancos europeus (que precisavam urgentemente de reservas    de d&oacute;lares) atrav&eacute;s de medidas opacas como as <i>currency swap    lines</i>. Se d&uacute;vidas houvesse sobre a hegemonia do d&oacute;lar no sistema    financeiro internacional, estas ficaram desfeitas com a atua&ccedil;&atilde;o    da Reserva Federal como &ldquo;emprestador de &uacute;ltimo recurso&rdquo; da    economia global. Tooze destaca a import&acirc;ncia deste facto que, em conjunto    com o poderio militar, continuam a garantir o papel dos EUA como principal pot&ecirc;ncia    mundial (ainda que amea&ccedil;ada pela ascens&atilde;o da China). Na zona euro,    a rigidez de Angela Merkel e do governo alem&atilde;o levou a que bloqueassem    qualquer tipo de atua&ccedil;&atilde;o contrac&iacute;clica do Banco Central    Europeu at&eacute; que fosse demasiado tarde e a crise j&aacute; tivesse devastado    os pa&iacute;ses da periferia, com consequ&ecirc;ncias sociais e pol&iacute;ticas    profundas (na Gr&eacute;cia, o pa&iacute;s mais afetado, a taxa de desemprego    jovem continua hoje pr&oacute;xima de 40%).</p>     <p>Por outro lado, a resposta expansionista da China &agrave; crise global merece    a an&aacute;lise de Tooze. Amea&ccedil;ada pela desacelera&ccedil;&atilde;o    do com&eacute;rcio, que afetou as suas exporta&ccedil;&otilde;es, a China desenvolveu    um plano de resposta atrav&eacute;s de um refor&ccedil;o significativo do investimento    p&uacute;blico (de cerca de 12,5% do PIB) aliado a uma pol&iacute;tica monet&aacute;ria    expansionista que permitiu atingir altas taxas de crescimento e emprego, ajudando    a contrariar a tend&ecirc;ncia de recess&atilde;o global.</p>     <p>Quais as consequ&ecirc;ncias da Grande Recess&atilde;o no rumo recente do capitalismo    ocidental? A pergunta ocupa a discuss&atilde;o da &uacute;ltima sec&ccedil;&atilde;o    do livro, embora a resposta seja complexa e o autor procure evitar leituras    deterministas. Mais de dez anos depois da crise, a pol&iacute;tica monet&aacute;ria    expansionista pode ter evitado danos ainda maiores, mas n&atilde;o resolveu    os problemas mais profundos, limitando-se a contribuir para recuperar os ganhos    do sistema financeiro, sem que tenha havido altera&ccedil;&otilde;es substanciais    no campo da regula&ccedil;&atilde;o. Al&eacute;m disso, a austeridade (aplicada    sobretudo na zona euro) &eacute; respons&aacute;vel pela lenta recupera&ccedil;&atilde;o    destas economias e pela acentua&ccedil;&atilde;o das desigualdades sociais.    &Eacute; dif&iacute;cil n&atilde;o associar os efeitos devastadores da crise    e das escolhas pol&iacute;ticas de preserva&ccedil;&atilde;o do sistema &agrave;    eros&atilde;o dos partidos tradicionais e &agrave; ascens&atilde;o de candidatos    alternativos, mobilizando a revolta social. A elei&ccedil;&atilde;o de Donald    Trump nos EUA e a ascens&atilde;o dos partidos de extrema-direita por toda a    Europa s&atilde;o exemplos desta &ldquo;grande crise da modernidade&rdquo; (p.    616). As elites ocidentais tradicionais est&atilde;o a pagar o pre&ccedil;o    de sujeitarem a democracia &agrave; disciplina dos mercados financeiros.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>NOTAS</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></Sup> Todas as tradu&ccedil;&otilde;es    s&atilde;o do autor.</p>     <p><Sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></Sup> Storm, Servaas; Naastepad,    C. W. M. (2016), &ldquo;Myths, Mix-Ups, and Mishandlings: Understanding the    Eurozone Crisis&rdquo;, <i>International Journal of Political Economy</i>, 45(1),    46-71.</p>     <p><Sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></Sup> Lapavitsas, Costas (2013),    <i>Profiting without Producing; How Finance Exploits Us All</i>. London: Verso.</p>     <p><Sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></Sup> Blyth, Mark (2013), <i>Austeridade:    a historia de uma ideia perigosa</i>. Lisboa: Quetzal Editores. Tradu&ccedil;&atilde;o    de Freitas e Silva.</p>      ]]></body>
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