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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>RECENSÃO</b></p>     <p><b>Kuttner, Robert (2018), <i>Can Democracy Survive Global Capitalism?</i></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Jo&atilde;o Rodrigues</b></p>     <p>Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra | Centro de Estudos Sociais    da Universidade de Coimbra. Avenida Dias da Silva, 165, 3004-512 Coimbra, Portugal&nbsp;<a href="mailto:joaorodrigues@ces.uc.pt">joaorodrigues@ces.uc.pt</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Kuttner, Robert (2018), <i>Can Democracy Survive Global Capitalism?</i>    New York/London: Norton, 360 pp.</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Da recess&atilde;o democr&aacute;tica &agrave; democracia iliberal, muitos    s&atilde;o os que agora diagnosticam uma crise das democracias ditas liberais    de matriz ocidental. Estas estariam a ser postas em causa por uma antielitista    raiva popular, fomentada por nacional-populistas. Nos Estados Unidos da Am&eacute;rica    (EUA), tal tend&ecirc;ncia teria um nome &oacute;bvio: Donald Trump.</p>     <p>Em contraste com uma literatura superficial, o &uacute;ltimo livro de Robert    Kuttner tem como t&iacute;tulo aquela que &eacute; talvez a quest&atilde;o mais    importante da economia pol&iacute;tica internacional nas presentes circunst&acirc;ncias    hist&oacute;ricas: &ldquo;ser&aacute; que a democracia pode sobreviver ao capitalismo    global?&rdquo;.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Trata-se de um livro escrito por um economista, que &eacute; um intelectual    p&uacute;blico, de orienta&ccedil;&atilde;o vincadamente social-democrata; um    &ldquo;liberal&rdquo;, na peculiar terminologia dos EUA, da ala esquerda dos    democratas, um dos fundadores da revista <i>American Prospect</i> e do Economic    Policy Institute, o principal <i>think-tank</i> ligado ao crescentemente fr&aacute;gil    movimento sindical norte-americano. Enquanto jornalista, colunista e ensa&iacute;sta,    v&aacute;rias vezes premiado, tem escrutinado as perversas tend&ecirc;ncias    no campo da economia pol&iacute;tica desde o seu primeiro livro, de 1980, sobre    a revolta fiscal dos ricos, na altura s&oacute; a come&ccedil;ar. Os seus livros    costumam de resto conter boas s&iacute;nteses, combinando investiga&ccedil;&atilde;o    aturada e divulga&ccedil;&atilde;o da mais relevante literatura acad&eacute;mica    num estilo acess&iacute;vel, beneficiando tamb&eacute;m de liga&ccedil;&otilde;es    universit&aacute;rias. Trata-se da vers&atilde;o cr&iacute;tica de um perfil    habitual na enviesada esfera p&uacute;blica dos EUA, hegemonizada por intelectuais    p&uacute;blicos neoliberais. Estes &uacute;ltimos t&ecirc;m h&aacute; muito    tempo a seu favor o maci&ccedil;o financiamento privado para cruzadas intelectuais    e medi&aacute;ticas.</p>     <p>O livro de Robert Kuttner inscreve-se numa linha que n&atilde;o separa &ndash;    antes articula &ndash; as formas institucionais, ditas pol&iacute;ticas, de    que a democracia se tem de revestir e as formas institucionais que moldam as    rela&ccedil;&otilde;es sociais no campo da provis&atilde;o (a economia substantiva,    como diria Karl Polanyi, uma das principais refer&ecirc;ncias mobilizadas).</p>     <p>A hist&oacute;ria da democracia e das suas crises n&atilde;o pode ser separada    da hist&oacute;ria do capitalismo e das suas crises, bem como da hist&oacute;ria    das alternativas sist&eacute;micas p&oacute;s-capitalistas. A hist&oacute;ria    da democracia &eacute; tamb&eacute;m e sobretudo a hist&oacute;ria da luta de    classes e das suas cristaliza&ccedil;&otilde;es institucionais nacionais; uma    hist&oacute;ria de economia pol&iacute;tica, em suma, contra uma abordagem puramente    pol&iacute;tica ou economicista.</p>     <p>Longe de ser uma parceria natural, a rela&ccedil;&atilde;o entre capitalismo    e democracia &eacute; intrinsecamente tensa. Historicamente, a democracia baseada    no sufr&aacute;gio universal s&oacute; p&ocirc;de florescer no quadro do que    Kuttner apoda de economias mistas, uma realidade institucional do mundo desenvolvido    a seguir &agrave; Segunda Guerra Mundial. Por sua vez, este tipo de economia,    e a maior e mais partilhada prosperidade que gerou, s&oacute; p&ocirc;de florescer    no quadro de Estados nacionais com vontade e capacidade pol&iacute;ticas para    conter o antidemocr&aacute;tico poder estrutural do capital, criando-lhe freios    e contrapesos.</p>     <p>Neste contexto, Kuttner explora com particular sagacidade a rela&ccedil;&atilde;o    entre a imposi&ccedil;&atilde;o de mecanismos nacionais para regular a finan&ccedil;a    e o com&eacute;rcio internacionais (incluindo controlos &agrave; entrada e &agrave;    sa&iacute;da de capitais e um certo protecionismo) e os ganhos institucionais,    econ&oacute;micos e pol&iacute;ticos das classes trabalhadoras (da desmercadoriza&ccedil;&atilde;o    parcial das rela&ccedil;&otilde;es laborais, aos ganhos salariais, passando    pela pol&iacute;tica econ&oacute;mica orientada para o pleno emprego). A rela&ccedil;&atilde;o    anterior est&aacute; no centro da economia pol&iacute;tica keynesiana, embora    nem sempre seja t&atilde;o visibilizada como o &eacute; neste livro. O conhecimento    da hist&oacute;ria permite-lhe, al&eacute;m do mais, compara&ccedil;&otilde;es    e analogias pertinentes, t&atilde;o necess&aacute;rias em economia pol&iacute;tica:    por exemplo, a compara&ccedil;&atilde;o entre o governo trabalhista brit&acirc;nico    a partir de 1945, com uma economia mais endividada devido &agrave; guerra, e    o governo socialista da presid&ecirc;ncia de Fran&ccedil;ois Mitterrand, em    Fran&ccedil;a, do in&iacute;cio da d&eacute;cada de 1980; o primeiro &ndash;    porque tinha a finan&ccedil;a sob controlo, a repress&atilde;o financeira, como    lhe chamam os neoliberais &ndash; conseguiu uma margem de manobra bem superior    ao segundo, compelido a render-se ao poder da finan&ccedil;a dita privada e    &agrave; integra&ccedil;&atilde;o europeia que a estava decisivamente refor&ccedil;ando.</p>     <p>Sendo algo melanc&oacute;lico, o olhar de Robert Kuttner sobre o per&iacute;odo    que vai da Segunda Guerra Mundial aos turbulentos anos 1970 enfatiza as circunst&acirc;ncias    hist&oacute;ricas &uacute;nicas e fortuitas que geraram um capitalismo relativamente    democr&aacute;tico &ndash; dos efeitos pol&iacute;tico-ideol&oacute;gicos da    Grande Depress&atilde;o, em especial o <i>New Deal </i>de Franklin D. Roosevelt,    &ldquo;o mais eficaz presidente populista e progressista da hist&oacute;ria    dos EUA&rdquo; (p. 286), &agrave; exist&ecirc;ncia de um campo socialista liderado    pela Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica. Depois de d&eacute;cadas de recuo democr&aacute;tico,    de eros&atilde;o e desaparecimento dos freios internos e externos ao poder do    capital, o tipo de circunst&acirc;ncias que geraram o capitalismo democr&aacute;tico    &eacute; hoje reconhecidamente mais dif&iacute;cil de repetir &ldquo;do que    nas v&eacute;speras da Segunda Guerra Mundial&rdquo; (p. 286).</p>     <p>Na realidade, &ldquo;hoje, o capitalismo democr&aacute;tico &eacute; uma contradi&ccedil;&atilde;o    nos termos&rdquo; (p. 283), gra&ccedil;as &agrave; ressurg&ecirc;ncia pol&iacute;tica    do capital dos anos 1970 em diante, favorecida pela liberaliza&ccedil;&atilde;o    financeira e comercial, pela globaliza&ccedil;&atilde;o realmente existente.    &Eacute; ent&atilde;o hoje mais f&aacute;cil vislumbrar o fim da democracia    do que o fim de um capitalismo cada vez mais socialmente desigual, politicamente    olig&aacute;rquico, economicamente med&iacute;ocre e ambientalmente insustent&aacute;vel.</p>     <p>Para um social-democrata, parte da explica&ccedil;&atilde;o &eacute; dolorosa,    j&aacute; que &eacute; interna ao movimento, &agrave; forma como foi ideologicamente    colonizado pelo neoliberalismo e pelo globalismo que lhe &eacute; indissoci&aacute;vel    na pr&aacute;tica &ndash; de Tony Blair aos Clinton (Bill e Hillary). E isto    sem esquecer uma social-democracia europeia esvaziada por uma integra&ccedil;&atilde;o    regional por si promovida e que n&atilde;o passa de uma vers&atilde;o extrema    da globaliza&ccedil;&atilde;o. Um dos cap&iacute;tulos intitula-se precisamente    &ldquo;A desgra&ccedil;a do centro-esquerda&rdquo;. A derrotada Hillary Clinton    (nas elei&ccedil;&otilde;es &agrave; presid&ecirc;ncia dos EUA em 2016), por    exemplo, &eacute; o culminar de toda uma abdica&ccedil;&atilde;o no campo das    pol&iacute;ticas para a &ldquo;gente comum&rdquo;, ou seja, das regras que transferem    recursos de cima para baixo, ao inv&eacute;s de ser ao contr&aacute;rio. Deixar    de falar de classes &eacute; meio caminho andado para se passar a considerar    &ldquo;deplor&aacute;veis&rdquo; segmentos populares que, pelo contr&aacute;rio,    haveria de resgatar da vers&atilde;o reacion&aacute;ria do nacional-populismo.    No fundo, como assinala com perspic&aacute;cia Kuttner, Clinton &eacute; o sonho    de Steve Bannon tornado realidade: Trump monopolizaria o nacionalismo econ&oacute;mico    e os democratas, rendidos a Wall Street, ficariam com fragmentos identit&aacute;rios.</p>     <p>Para um social-democrata, Kuttner tem ousadia no diagn&oacute;stico e na op&ccedil;&atilde;o    estrat&eacute;gica, em particular no resgate do nacionalismo e do populismo    das m&atilde;os das direitas: sem algum grau de desglobaliza&ccedil;&atilde;o,    sem a recupera&ccedil;&atilde;o de alguma soberania para os Estados nacionais    no campo da economia pol&iacute;tica e da pol&iacute;tica econ&oacute;mica &ndash;    incluindo o recurso ao protecionismo e aos controlos de capitais &ndash; n&atilde;o    &eacute; poss&iacute;vel resgatar a democracia e as amplas liberdades para a    maioria assalariada. Sem a imagina&ccedil;&atilde;o nacional e popular a funcionar    para democratizar a economia, o campo fica livre para Trump e quejandos. Kuttner    faz este exerc&iacute;cio tendo mais em aten&ccedil;&atilde;o os EUA do que    outras &aacute;reas geogr&aacute;ficas, em particular a Uni&atilde;o Europeia,    onde a integra&ccedil;&atilde;o associada ao euro tem duas faces pol&iacute;ticas    que h&aacute; que superar desmantelando este projeto monet&aacute;rio: neoliberalismo    e neofascismo.</p>     <p>A hip&oacute;tese de uma lideran&ccedil;a norte-americana progressista (com    Bernie Sanders na presid&ecirc;ncia dos EUA?), numa esp&eacute;cie de combina&ccedil;&atilde;o    de nacionalismo s&atilde;o e de internacionalismo generoso, subestima as realidades    de um mundo felizmente mais multipolar, um dos poucos desenvolvimentos positivos    dos &uacute;ltimos anos. Entretanto, se n&atilde;o se regressa j&aacute; ao    capitalismo democr&aacute;tico, talvez seja de ter uma perspetiva mais aberta    em rela&ccedil;&atilde;o a Marx e ao socialismo? A resposta &eacute; infelizmente    negativa, j&aacute; que Kuttner &eacute; demasiado &ldquo;democrata&rdquo; para    um engajamento s&eacute;rio com a tradi&ccedil;&atilde;o socialista. Neste campo,    faria bem em seguir as pisadas de Polanyi: reconhecendo a variedade no marxismo,    optaria por um di&aacute;logo mais profundo com esta tradi&ccedil;&atilde;o,    em particular nos seus momentos estrategicamente mais l&uacute;cidos e eticamente    mais emancipadores. O casamento entre Marx, Keynes e Polanyi &eacute; portador    de pistas frut&iacute;feras para um projeto socialista que n&atilde;o pode deixar    de ser um projeto de democratiza&ccedil;&atilde;o da economia. Seja como for,    o caminho come&ccedil;a por resgatar a democracia da globaliza&ccedil;&atilde;o    neoliberal, e a&iacute; Kuttner &eacute; &uacute;til para uma social-democracia    desorientada dos dois lados do Atl&acirc;ntico.</p>     ]]></body>
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