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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>RECENSÃO</b></p>     <p><b>Mazzucato, Mariana (2019), <i>O valor de tudo. Fazer e tirar na economia    global</i></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Lu&iacute;sa Veloso</b></p>     <p>ISCTE &ndash; Instituto Universit&aacute;rio de Lisboa | Centro de Investiga&ccedil;&atilde;o    e Estudos de Sociologia, Instituto Universit&aacute;rio de Lisboa . Av. das    For&ccedil;as Armadas, 1649-026 Lisboa, Portugal&nbsp;<a href="mailto:luisa.veloso@iscte-iul.pt">luisa.veloso@iscte-iul.pt</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Mazzucato, Mariana (2019), <i>O valor de tudo. Fazer e tirar na economia    global</i>. Lisboa: Temas e Debates &ndash; C&iacute;rculo de Leitores, 428    pp. Traduzido por Artur Lopes Cardoso</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Mariana Mazzucato &ndash; reputada economista na &aacute;rea da Economia da    Inova&ccedil;&atilde;o e fundadora do Institute for Innovation and Public Purpose    da University College London &ndash; publicou em 2018 a obra <i>The Value of    Everything</i>, traduzida em 2019 para o portugu&ecirc;s. Este livro vem na    sequ&ecirc;ncia, como a autora refere desde logo nos agradecimentos de uma obra    anterior, <i>The Entrepreneurial State</i>, de 2005, adensando agora um conjunto    de argumentos focados no <i>valor</i>.</p>     <p>Estruturado em nove cap&iacute;tulos e escrito numa narrativa dirigida a um    p&uacute;blico n&atilde;o exclusivamente acad&eacute;mico, este livro, ancorado    na Economia Pol&iacute;tica, condensa um conjunto de argumentos centrais para    debater quest&otilde;es como: O que &eacute; a riqueza? Qual &eacute; a origem    do valor? Como &eacute; ele criado? Quem o cria? Tal como refere Mazzucato no    in&iacute;cio da obra, &ldquo;o modo como discutimos o valor afeta o modo como    todos n&oacute;s, desde as gigantescas multinacionais ao lojista mais modesto,    nos comportamos como atores na economia e o modo como, por sua vez, se repercute    na economia e como medimos o seu desempenho&rdquo; (p. 22).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Come&ccedil;o por destacar o enquadramento temporal, presente no duplo enfoque    hist&oacute;rico que a autora adota na abordagem dos fen&oacute;menos e do pensamento    econ&oacute;micos e evidenciando como as ideias econ&oacute;micas t&ecirc;m    impacto na realidade. &Eacute; fundamental compreender de que modo, genericamente,    a hist&oacute;ria do pensamento econ&oacute;mico &eacute; marcada pela evolu&ccedil;&atilde;o    do conceito de valor, isto &eacute;, desde a identifica&ccedil;&atilde;o do    fator que confere valor a um bem ou servi&ccedil;o para o mecanismo que calcula    este valor com base no pre&ccedil;o desse bem ou servi&ccedil;o no mercado.    Esta transforma&ccedil;&atilde;o tem consequ&ecirc;ncias not&oacute;rias, n&atilde;o    apenas na compreens&atilde;o da realidade, mas tamb&eacute;m na justifica&ccedil;&atilde;o    das a&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas e econ&oacute;micas que sobre ela incidem.</p>     <p>O livro tem a particularidade de, precisamente, come&ccedil;ar e terminar pela    abordagem da hist&oacute;ria do pensamento econ&oacute;mico sobre o par por    demais debatido: economia <i>versus</i> Estado (cap&iacute;tulos 1, 2 e 8).    Nesta discuss&atilde;o, a autora evidencia como as perspetivas sobre o valor    foram marcando o olhar sobre os v&aacute;rios atores em presen&ccedil;a na estrutura    econ&oacute;mica e de que forma, no momento presente, o legado hegem&oacute;nico    dos marginalistas conduz a interpreta&ccedil;&otilde;es enviesadas acerca do    papel do Estado, concebendo-o como um ator social &ldquo;improdutivo&rdquo;    e, logo, n&atilde;o criador de valor. Mas basta lembrar, como refere Mazzucato,    que &ldquo;o Estado &eacute; ami&uacute;de o propriet&aacute;rio de empresas    produtivas como caminhos de ferro, servi&ccedil;os postais ou fornecedores de    energia&rdquo; (p. 330).</p>     <p>O livro destaca o facto de os mercados n&atilde;o serem um &ldquo;dado&rdquo;,    mas uma &ldquo;constru&ccedil;&atilde;o&rdquo;. A partir de uma ace&ccedil;&atilde;o    da economia como intrinsecamente incrustada na estrutura social (como diria    Karl Polanyi), Mariana Mazzucato evidencia como os &ldquo;mercados&rdquo; resultam    de uma multiplicidade e combina&ccedil;&otilde;es de fatores, cujas configura&ccedil;&otilde;es    exigem uma abordagem da sua complexidade. Na reflex&atilde;o sobre a inova&ccedil;&atilde;o    (cap&iacute;tulo 7), encontramos a discuss&atilde;o acerca da cria&ccedil;&atilde;o    de produtos e solu&ccedil;&otilde;es inovadoras. Valer&aacute; a pena deter    a aten&ccedil;&atilde;o sobre este cap&iacute;tulo, que considero ser o mais    consistente (n&atilde;o sendo de estranhar, atendendo a que &eacute; a &aacute;rea    de especializa&ccedil;&atilde;o da autora &ndash; possivelmente por ser tamb&eacute;m    baseado no livro acima referido, <i>The Entrepreneurial State</i>). Focando    casos paradigm&aacute;ticos como o da ind&uacute;stria farmac&ecirc;utica e    dos setores das tecnologias, a autora chama a aten&ccedil;&atilde;o para dois    aspetos que me parecem essenciais. O primeiro radica no facto de que, como refere,    &ldquo;as narrativas dominantes sobre os inovadores e as raz&otilde;es do seu    &ecirc;xito ignoram, em termos fundamentais, o processo profundamente coletivo    e cumulativo que se encontra por detr&aacute;s da inova&ccedil;&atilde;o&rdquo;    (pp. 260-261). O segundo aspeto remete para o papel central do Estado no financiamento    da investiga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica que sustenta os processos de    inova&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Destaco a extrema relev&acirc;ncia do enfoque da autora sobre &ldquo;a medida&rdquo;,    isto &eacute;, a forma como os indicadores de desempenho econ&oacute;mico (em    sentido lato) &ndash; como o PIB, os direitos de propriedade intelectual, as    patentes, etc. &ndash; s&atilde;o, tal como os mercados, socialmente constru&iacute;dos,    e, logo, pass&iacute;veis de questionamento. Subjacente a esta reflex&atilde;o    est&atilde;o debates e dicotomias v&aacute;rios como, por exemplo, valor <i>versus</i>    riqueza ou atividades produtivas <i>versus</i> improdutivas. &Eacute; fundamental    atender &agrave;s quest&otilde;es de valor e de medida no estudo dos fen&oacute;menos    econ&oacute;micos, pois, como foi referido, a hist&oacute;ria do pensamento    econ&oacute;mico mostra como ambos foram objeto de transforma&ccedil;&otilde;es    ao longo da hist&oacute;ria, e como atividades de extra&ccedil;&atilde;o de    valor foram sendo assumidas como atividades de cria&ccedil;&atilde;o de valor.    O universo no qual esta quest&atilde;o surge de forma mais evidente &eacute;    o dos mercados financeiros (cap&iacute;tulos 4 e 5), onde predominam atividades    de extra&ccedil;&atilde;o de valor, j&aacute; que estes &ldquo;limitam-se a    distribuir rendimento gerado por atividades noutros lugares e n&atilde;o aumentam    esse rendimento&rdquo; (p. 222). A esta evid&ecirc;ncia soma-se o facto de a    l&oacute;gica de funcionamento da finan&ccedil;a se ter alargado a toda a economia    &ldquo;real&rdquo; (cap&iacute;tulo 6).</p>     <p>O &uacute;ltimo cap&iacute;tulo, intitulado &ldquo;Economia da esperan&ccedil;a&rdquo;,    surge como um posf&aacute;cio &agrave; obra, no sentido de apontar dire&ccedil;&otilde;es    futuras de reflex&atilde;o e, em particular, caminhos alternativos &agrave;s    leituras dominantes, pugnando por &ldquo;uma economia que funcione para o bem    comum&rdquo; (p. 361) e, para tal, &ldquo;recolocando o valor no centro do racioc&iacute;nio    econ&oacute;mico&rdquo; (p. 371). Embora imbu&iacute;do de algum otimismo, quando    refere, por exemplo, que as patentes dos produtos farmac&ecirc;uticos poderiam    ser abolidas (p. 303), esse otimismo pode constituir uma via para pensar e refletir    sobre caminhos alternativos que devem ser equacionados no longo prazo, como    a autora refere sistematicamente ao longo da sua obra.</p>     <p>A obra merece ainda duas notas finais. Uma primeira &eacute; a forma por vezes    escassa &ndash; e nem sempre suficientemente esclarecedora &ndash; de abordar    a complexidade dos fen&oacute;menos tidos como &ldquo;sociais&rdquo;. Um exemplo    &eacute; a quest&atilde;o da desigualdade, expressa no singular e quase exclusivamente    focada nos rendimentos, quando as desigualdades devem ser entendidas no plural,    tendo presente a multiplicidade de desigualdades existentes aos n&iacute;veis    social, cultural e pol&iacute;tico, ultrapassando o dom&iacute;nio econ&oacute;mico.    Tamb&eacute;m na abordagem da inova&ccedil;&atilde;o, penso que &eacute; importante    equacionar o conjunto de fatores que est&aacute; na base da sua constru&ccedil;&atilde;o    social, bem como incorporar a sua discuss&atilde;o na complexa matriz hierarquizada    de agendas pol&iacute;ticas, atores e interesses. Com esse objetivo seria interessante    convocar propostas anal&iacute;ticas de autores como Michel Callon (e a sua    abordagem da teoria do ator rede)<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a>    ou Pierre Bourdieu (e a sua proposta de problematiza&ccedil;&atilde;o do conceito    de campo econ&oacute;mico).<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a></p>     <p>Uma segunda nota &eacute; relativa &agrave;s op&ccedil;&otilde;es de linguagem    da autora, que articula de forma curiosa um rigor explicativo com express&otilde;es    mais comuns, visando possivelmente uma aproxima&ccedil;&atilde;o a um p&uacute;blico    mais amplo. Refiro-me ao uso de express&otilde;es como: &ldquo;os trabalhadores    s&atilde;o explorados porque os capitalistas metem ao bolso a mais-valia que    os trabalhadores produzem acima das suas necessidades de subsist&ecirc;ncia&rdquo;    (p. 83); &ldquo;Ironicamente, o comportamento desastroso dos grandes bancos    que desencadeou o <i>crash</i> de 2008 obrigou os reguladores (sobretudo na    Europa) a prolongar e complicar ainda mais um processo, que j&aacute; era &aacute;rduo,    de obten&ccedil;&atilde;o de um novo alvar&aacute;, frustrando o seu plano de    soltar uma horda faminta de &lsquo;bancos concorrentes&rsquo;&rdquo; (p. 165).</p>     <p>Sugiro a leitura deste livro a qualquer cidad&atilde;o que pretenda ser esclarecido    sobre a an&aacute;lise do valor no pensamento econ&oacute;mico e as respetivas    consequ&ecirc;ncias na estrutura&ccedil;&atilde;o da economia. E que pretenda    entender a import&acirc;ncia dos nomes que damos &agrave;s coisas e o impacto    que da&iacute; adv&eacute;m na configura&ccedil;&atilde;o da realidade. Logo    no in&iacute;cio da obra, a autora refere como &ldquo;As palavras s&atilde;o    importantes&rdquo; (p. 48), quem sabe se parafraseando Nanni Moretti enquanto    Michele Apicella, no filme <i>Palombella Rossa</i> (1989), num di&aacute;logo    irado com uma jornalista. Importa, de facto, refletir sobre as palavras e perceber    o poder das narrativas na compreens&atilde;o do mundo.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>NOTAS</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></Sup> Ver, por exemplo, Callon,    Michel (1986), &ldquo;The Sociology of an Actor-Network: The Case of the Electric    Vehicle&rdquo;, <i>in </i>Michel Callon; Arie Rip; John Law (orgs.), <i>Mapping    the Dynamics of Science and Technology. Sociology of Science in the Real World</i>.    London: MacMillan Press, 358-376.</p>     <p><Sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></Sup> Ver, por exemplo, Bourdieu,    Pierre (1997), &ldquo;Le champ &eacute;conomique&rdquo;, <i>Actes de la Recherche    en Sciences Sociales</i>, 119, 48-66; Bourdieu, Pierre (2006), <i>As estruturas    sociais da economia</i>. Porto: Campo das Letras. Tradu&ccedil;&atilde;o de    L&iacute;gia Calapez e Pedro Sim&otilde;es; revis&atilde;o t&eacute;cnica de    Carlos Gomes (orig. 2000).</p>      ]]></body>
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