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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>RECENS&Atilde;O</b></p>     <p><b>Gago, Ver&oacute;nica (2018), <i>A raz&atilde;o neoliberal: economias barrocas e pragm&aacute;tica popular</i></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Rodrigo de Araujo Monteiro</b></p>     <p><img src="/img/revistas/id_orcid.gif"> <a href="https://orcid.org/0000-0002-8415-5477">https://orcid.org/0000-0002-8415-5477</a></p>     
<p>Programa de P&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o em Sociologia Pol&iacute;tica, Instituto Universit&aacute;rio de Pesquisas do Rio de Janeiro da Universidade C&acirc;ndido Mendes | Departamento de Ci&ecirc;ncias Sociais da Universidade Federal Fluminense Rua da Assembleia, 10, 7.&ordm; Andar, Sala 702, Centro, CEP: 20011-901, Rio de Janeiro, Brasil&nbsp;<a href="mailto:rodearmo@yahoo.com.br">rodearmo@yahoo.com.br</a> </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Ver&oacute;nica Gago</b></p>     <p><b>Gago, Ver&oacute;nica (2018), <i>A raz&atilde;o neoliberal: economias barrocas e pragm&aacute;tica popular</i>. S&atilde;o Paulo: Editora Elefante, 367 pp. Tradu&ccedil;&atilde;o de Igor Peres</b></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Neoliberalismo, pol&iacute;tica dos governados e precariedades: o caso de La Salada a partir de Ver&oacute;nica Gago</p>     <p>A obra da cientista social argentina Ver&oacute;nica Gago &eacute; apresentada ao p&uacute;blico, em especial ao latino-americano, em um momento muito feliz para a compreens&atilde;o dos desafios pol&iacute;ticos, te&oacute;ricos e metodol&oacute;gicos das muta&ccedil;&otilde;es que estamos atravessando em grandes cidades latino-americanas, nas rela&ccedil;&otilde;es laborais e nas din&acirc;micas de g&ecirc;nero.</p>     <p>O livro surge a partir de uma pesquisa qualitativa em La Salada, um espa&ccedil;o de com&eacute;rcio popular em Buenos Aires, conhecido como &ldquo;a maior feira ilegal da Am&eacute;rica Latina&rdquo; (p. 37), fundado por bolivianos na d&eacute;cada de 1990. Impulsionada a partir da crise argentina de 2001, paralelamente, Gago analisa a <i>villa</i> 1-11-14, noticiada como o bairro mais perigoso de Buenos Aires,<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a> e tamb&eacute;m aborda as chamadas Oficinas (ateli&ecirc;s t&ecirc;xteis e minif&aacute;bricas de roupas &ndash; com uma m&eacute;dia de cinco trabalhadores &ndash;, cujo n&uacute;mero ultrapassa os 5000 em Buenos Aires). Ao leitor que desconhece La Salada bastar&aacute; fazer uma breve busca na internet para ficar com no&ccedil;&atilde;o do gigantismo bem como dos impactos e demais caracter&iacute;sticas da configura&ccedil;&atilde;o socioespacial do local.</p>     <p>Na obra de Gago, La Salada, a <i>villa</i> e as Oficinas integram uma trama que prop&otilde;e pensar a cidade como heterog&ecirc;nea, desprovida de uma ordem &uacute;nica, onde se pensa o trabalho, o consumo e o comunit&aacute;rio atrav&eacute;s do desenvolvimento de uma sociedade neoliberal a partir n&atilde;o s&oacute; dos governos, mas tamb&eacute;m dos governados. Gago consegue apresentar uma an&aacute;lise com n&oacute;s desatados a partir de uma rigorosa e eficaz metodologia, sem deixar a qualidade textual cair ou permitir que a leitura fique enfadonha.</p>     <p>O livro &eacute; instigante pela qualidade da escrita, pela engenhosidade intelectual que manobra e por operar conceitos e apresentar novas categorias para pensar com cuidado e, de forma apurada, as din&acirc;micas inerentes &agrave; socializa&ccedil;&atilde;o via economia popular, consumo, direitos e inclus&atilde;o. Se destaca tamb&eacute;m por lan&ccedil;ar luz sobre o aprofundamento da sociedade neoliberal, com suas contradi&ccedil;&otilde;es, paradoxos e insurg&ecirc;ncias.</p>     <p>A autora identifica em sua obra especificidades de rela&ccedil;&otilde;es: de trabalho, com a cidade, de consumo, de migra&ccedil;&atilde;o e de g&ecirc;nero a partir de perspectivas de complexidade, n&atilde;o se limitando a uma vis&atilde;o dogm&aacute;tica ou bin&aacute;ria. Gago demonstra que a desigualdade aprofundada por pol&iacute;ticas neoliberais de cima para baixo n&atilde;o opera apenas em padr&atilde;o macro ou nas altas camadas da estrutura social, nos Consensos de Washington e nos <i>summits</i> do G8, mas tamb&eacute;m se produz e reproduz por meio do micro e, nesse caso, em todos os caminhos que levam &agrave; La Salada.</p>     <p>Analisando um contexto de extrema precariedade, Gago produz conceitos que tratam os precarizados como &ldquo;agentes em resist&ecirc;ncia&rdquo;, protagonistas de movimentos anti-hegem&ocirc;nicos e que contestam &ndash; por vias n&atilde;o necessariamente pol&iacute;ticas ou de formas tradicionais &ndash; a ordem estabelecida. Segundo Gago, isso &eacute; percept&iacute;vel atrav&eacute;s da formula&ccedil;&atilde;o de desejo, contesta&ccedil;&atilde;o e ironia e atrav&eacute;s de formas de lidar com a expropria&ccedil;&atilde;o. Gago define essa percep&ccedil;&atilde;o com o conceito de pragm&aacute;tica vitalista (p. 30), ou seja, indicando que tais agentes n&atilde;o s&atilde;o seres inanimados, alienados ou passivos. Gago n&atilde;o apresenta seus interlocutores nem os sujeitos de sua pesquisa como v&iacute;timas, nem t&atilde;o pouco como sujeitos orientados apenas pela racionalidade neoliberal, mas sim como portadores de desejos, ainda que afetados por pol&iacute;ticas de exclus&atilde;o (de direitos e de territ&oacute;rios).</p>     <p>A autora prop&otilde;e pensar o neoliberalismo a partir de duas perspectivas: a de cima para baixo e a de baixo para cima. Trata-se de uma proposta metodol&oacute;gica para fertilizar a capacidade e a pot&ecirc;ncia da obra, que pressup&otilde;e, em especial nas pr&aacute;ticas de sociabilidade inerentes &agrave;s classes populares (segmentos mais baixos das classes m&eacute;dias e seus grupos inferiores), que tamb&eacute;m de baixo se internalize ou se opere a partir de subjetividades que podem ser, adequadamente, chamadas de neoliberais.<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a></p>     <p>Gago destaca ainda um car&aacute;ter do novo padr&atilde;o de capitalismo destas economias informalizadas: a feminiliza&ccedil;&atilde;o. Para a autora, este se deve a alguns fatores empiricamente observ&aacute;veis, tais como maior presen&ccedil;a p&uacute;blica de mulheres e deslocamento para o cen&aacute;rio p&uacute;blico de caracter&iacute;sticas espec&iacute;ficas do lar. Aqui, observamos a muta&ccedil;&atilde;o do saber fazer do trabalho dom&eacute;stico para o meio pelo qual se ir&aacute; garantir a sobreviv&ecirc;ncia e, talvez, uma reorienta&ccedil;&atilde;o do papel atribu&iacute;do ao feminino e, em especial, a um maior interc&acirc;mbio entre lar e f&aacute;brica.</p>     <p>Outro dado dessa nova fase da economia informalizada &eacute; a produ&ccedil;&atilde;o de car&aacute;ter comunit&aacute;rio, encontrada, por exemplo, nos migrantes bolivianos que trabalham nas Oficinas. A autora revela os fluxos intensos que estes acabam por criar a partir de uma rela&ccedil;&atilde;o de confian&ccedil;a entre patr&otilde;es e empregados num ambiente comunit&aacute;rio. Uma vez forjadas justamente nesse ambiente &ndash; e n&atilde;o no modelo de rela&ccedil;&otilde;es impessoais idealizado do mundo ocidental &ndash; as rela&ccedil;&otilde;es de trabalho, domina&ccedil;&atilde;o e comunidade acabam por se tornar ainda mais turvas.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>As Oficinas, espa&ccedil;o marcante do tal car&aacute;ter comunit&aacute;rio, s&atilde;o geridas por uma nova &ldquo;empresarialidade&rdquo; (p. 20) e descritas como local reservado aos migrantes bolivianos, enquanto empres&aacute;rios ou trabalhadores precarizados. Nesse aspecto, revela Gago, o empreendedor ou empres&aacute;rio popular n&atilde;o &eacute; chamado pelos demais como patr&atilde;o ou chefe, mas como &ldquo;tio&rdquo;, ainda que inexistam v&iacute;nculos familiares. Dos trabalhadores das Oficinas, recrutados na Bol&iacute;via, se espera um saber fazer comunit&aacute;rio e flex&iacute;vel, transformando a pr&oacute;pria percep&ccedil;&atilde;o e constru&ccedil;&atilde;o social do comunit&aacute;rio em um capital. Assim, o car&aacute;ter comunit&aacute;rio n&atilde;o representa, necessariamente, um retorno ao essencial, uma recusa do global, mas um modo estrat&eacute;gico de combinar escalas, saberes e circuitos. Aqui, ao contr&aacute;rio, o exerc&iacute;cio metodol&oacute;gico &eacute; a tentativa de compreens&atilde;o do seu significado no atual contexto do capitalismo (rentista e financista para cima, precarizado e empreendedor para baixo).</p>     <p>Ao trazer conceitos como economia barroca, &ldquo;cidade bigarrada&rdquo;, &ldquo;empresarialidade&rdquo;, &ldquo;ensamblagem&rdquo;, a obra permite construir ferramentas te&oacute;ricas para dar conta de temas nevr&aacute;lgicos como a migra&ccedil;&atilde;o, o trabalho, os direitos, a inclus&atilde;o e as lutas feministas. A promessa representada por La Salada &eacute; a de que qualquer um pode ser empres&aacute;rio (ainda que seja um empreendedor popular) e, mais do que isso, de que qualquer um pode se vestir como um executivo (ainda que use c&oacute;pias de roupa de marca, chamadas popularmente de &ldquo;falsificadas&rdquo;, mas produzidas pelos mesmos trabalhadores que produzem os originais).</p>     <p>Ao se referir a Chatterjee na conclus&atilde;o de sua obra, Gago instiga a pensar na &ldquo;pol&iacute;tica dos governados&rdquo;, onde os membros de La Salada, da <i>villa</i> e das Oficinas n&atilde;o s&atilde;o tratados como agentes passivos ou como v&iacute;timas, mas como operadores de um complexo padr&atilde;o de atividades sociopol&iacute;ticas. Nesse universo estudado por Gago, os direitos n&atilde;o s&atilde;o garantidos pelo Estado &ndash; como o direito &agrave; propriedade ou como os direitos pol&iacute;ticos &ndash; sendo estes apenas garantidos para as classes m&eacute;dias e superiores que possuem influ&ecirc;ncia junto da chamada sociedade civil (partidos pol&iacute;ticos, institui&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas e privadas, entre outros). Ao contr&aacute;rio, o universo social estudado por Gago est&aacute; exclu&iacute;do da sociedade civil, restando a &ldquo;sociedade pol&iacute;tica&rdquo; (como definido por Chatterjee e referenciado na obra), ou seja, a organiza&ccedil;&atilde;o a partir de arranjos paraestatais e paralegais. Tal proposta de abordagem sociol&oacute;gica acaba por produzir uma revis&atilde;o da dimens&atilde;o cl&aacute;ssica dominados <i>vs. </i>dominantes, dividindo as sociedades em dois grupos: o dos cidad&atilde;os, portadores dos direitos burgueses, e o da popula&ccedil;&atilde;o, onde, na pr&aacute;tica, seria exercida a pol&iacute;tica dos governados, como o caso de La Salada. Seria poss&iacute;vel pensar nas popula&ccedil;&otilde;es perif&eacute;ricas brasileiras a partir desse paradigma?</p>     <p>O livro &eacute; uma contribui&ccedil;&atilde;o essencial para quem decide pensar criticamente o neoliberalismo, pois tece uma profunda an&aacute;lise de como tal l&oacute;gica se difundiu por baixo, demonstrando como este n&atilde;o se restringe a programas de privatiza&ccedil;&otilde;es, desregula&ccedil;&atilde;o e financeiriza&ccedil;&atilde;o da economia.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>NOTAS</b></p>     <p><Sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></Sup> Ver <a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2015/04/08/internacional/1428515768_851996.html" target="_blank">https://brasil.elpais.com/brasil/2015/04/08/internacional/1428515768_851996.html</a> (consultado a 24.12.2019).</p>     <p><Sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></Sup> Ver Dardot, Pierre; Laval, Christian (2016), <i>A nova raz&atilde;o do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal</i>. S&atilde;o Paulo: Boitempo. Tradu&ccedil;&atilde;o de Mariana Echalar.</p>      ]]></body>
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