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<journal-title><![CDATA[e-Pública: Revista Eletrónica de Direito Público]]></journal-title>
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<publisher-name><![CDATA[Instituto de Ciências Jurídico-Políticas (Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa)]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Parlamentarismo e Brexit, Parte I]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article, the first of two on Brexit and British parliamentarism, presents a synthesis of the essential moments of the always problematic relationship between the United Kingdom and the European Union, which certainly began long before the referendum of 23 June 2016 and will extend well beyond January 31, 2020, the date of the UK’s formal departure from the European Union. Brexit is seen here as a case of political somnambulism, in a double sense: on the one hand, the withdrawal of the United Kingdom from the European Union was a result unwanted by the politician who promoted it, the Prime Minister at the time David Cameron, and by most British political and economic elites; on the other hand, the unexpected nature of the result of the 2016 referendum clearly shows the distance between these elites and the country’s political and economic reality.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <div>       <p><b><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4">Parlamentarismo e Brexit, Parte I</font></b></p>   <b>    <br>   </b>       <p><b><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4">Parliamentarism and Brexit, Part 1</font></b></p>       <br>       <br>       <p><b> Miguel Nogueira de Brito</b></p>       <p>Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa,    <br>     Alameda da Universidade, Lisboa    <br>     649-014, Portugal    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>     <a href="mailto:miguelbrito@fd.ulisboa.pt" class="text_">miguelbrito@fd.ulisboa.pt</a>     <br>         <br>         <br>   </p>       <p><b>RESUMO</b></p>       <p>Neste artigo, o primeiro de dois sobre o Brexit e o parlamentarismo brit&acirc;nico, apresenta-se uma s&iacute;ntese dos momentos essenciais do percurso da rela&ccedil;&atilde;o sempre problem&aacute;tica entre o Reino Unido e a Uni&atilde;o Europeia, que certamente se iniciou muito antes do referendo de 23 de junho de 2016 e se prolongar&aacute; muito para al&eacute;m de 31 de janeiro de 2020, data da sa&iacute;da formal do Reino Unido da Uni&atilde;o Europeia. O Brexit &eacute; aqui encarado como um caso de sonambulismo pol&iacute;tico, num duplo sentido: por um lado, a sa&iacute;da do Reino Unido da Uni&atilde;o Europeia &eacute; um resultado n&atilde;o desejado pelo pol&iacute;tico que o promoveu, o ent&atilde;o Primeiro-ministro David Cameron, e pela generalidade das elites pol&iacute;ticas e econ&oacute;micas brit&acirc;nicas; por outro lado, o car&aacute;cter inesperado do resultado do referendo de 2016 mostra bem o distanciamento entre essas elites e a realidade pol&iacute;tica e econ&oacute;mica do pa&iacute;s.</p>       <p><b>Palavras-chave:</b> Brexit; parlamentarismo; Uni&atilde;o Europeia; constitucionalismo.</p>       <p><b>Sum&aacute;rio</b>: <b>1.</b> Um caso de sonambulismo pol&iacute;tico?; <b>2. </b>A ades&atilde;o do Reino Unido &agrave; CEE na perspetiva da sua sa&iacute;da da UE<b>; 3. </b>O papel do referendo na participa&ccedil;&atilde;o brit&acirc;nica na Europa; <b>4. </b>Brexit: breve cronologia arrazoada;<b> 4.1. </b>O discurso de Lancaster House;<b> 4.2. </b>&ldquo;<i>Cakeism</i>&rdquo;;<b> 4.3. </b>A posi&ccedil;&atilde;o da Uni&atilde;o;<b> 4.4</b>. O artigo 50.&ordm; do Tratado de Lisboa;<b> 4.5. </b>As linhas de orienta&ccedil;&atilde;o negocial da Uni&atilde;o de abril de 2017; <b>4.6.</b> O acordo de Theresa May; <b>4.7. </b>Boris Johnson entra em cena; <b>5. </b>Depois do Brexit.</p>       <br>       <p><b>ABSTRACT</b></p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>This article, the first of two on Brexit and British parliamentarism, presents a synthesis of the essential moments of the always problematic relationship between the United Kingdom and the European Union, which certainly began long before the referendum of 23 June 2016 and will extend well beyond January 31, 2020, the date of the UK&rsquo;s formal departure from the European Union. Brexit is seen here as a case of political somnambulism, in a double sense: on the one hand, the withdrawal of the United Kingdom from the European Union was a result unwanted by the politician who promoted it, the Prime Minister at the time David Cameron, and by most British political and economic elites; on the other hand, the unexpected nature of the result of the 2016 referendum clearly shows the distance between these elites and the country&rsquo;s political and economic reality.</p>       <br>       <p><b>Keywords:</b> Brexit; parliamentarism; European Union; constitutionalism.</p>       <p><b>Summary:</b> 1. A case of political sleepwalking?<b> 2. </b>The United Kingdom&rsquo;s accession to the EEC with a view to its leaving of the EU<b>; 3. </b>The role of the referendum in British participation in Europe;<b> 4. </b>Brexit: brief reasoned chronology;<b> 4.1. </b>The speech of Lancaster House; <b>4.2. </b>&ldquo;Cakeism&rdquo;;<b> 4.3.</b> The Union&rsquo;s position; <b>4.4. </b>Article 50 of the Lisbon Treaty<b>; 4.5. </b>The European Union&rsquo;s business guidelines for April 2017;<b> 4.6. </b>The agreement of Theresa May agreement;<b> 4.7. </b>Boris Johnson enters the scene<b>; 5. </b>After Brexit.</p>       <p>&nbsp;</p>       <br>       <p><b>1. Um caso de sonambulismo pol&iacute;tico?</b></p>       <p>Numa obra sobre os eventos que conduziram &agrave; Grande Guerra de 1914, o historiador Christopher Clark afirma que &ldquo;os protagonistas de 1914 eram son&acirc;mbulos, vigilantes, mas incapazes de ver, assombrados por sonhos, e, no entanto, cegos para a realidade do horror que estavam prestes a trazer ao mundo&rdquo;<sup><a href="#calibre_link-1" title="1" id="calibre_link-66" class="noteref">1</a></sup>. Segundo tamb&eacute;m afirma, os estudos mais interessantes sobre o tema mostram como &ldquo;longe de ser inevit&aacute;vel, esta guerra era de facto improv&aacute;vel, pelo menos at&eacute; realmente acontecer&rdquo;<sup><a href="#calibre_link-2" title="2" id="calibre_link-67" class="noteref">2</a></sup>. &Eacute; esta tamb&eacute;m uma aprecia&ccedil;&atilde;o que, guardadas as devidas propor&ccedil;&otilde;es, bem pode fazer-se do Brexit: longe de ser inevit&aacute;vel, parecia improv&aacute;vel at&eacute; acontecer e aconteceu como um ato de sonambulismo, sem que os seus art&iacute;fices pare&ccedil;am ter tido uma consci&ecirc;ncia clara das suas consequ&ecirc;ncias.</p>       <p>Como referem dois distintos autores, &ldquo;a maioria dos membros do Parlamento apoiou o voto no &laquo;Remain&raquo; (&laquo;Uma Gr&atilde;-Bretanha mais forte na Europa&raquo;) &ndash; assim como os l&iacute;deres dos principais partidos (David Cameron, Nick Clegg, Jeremy Corbyn e Nicola Sturgeon), especialistas ilustres t&atilde;o diversos quanto o Governador do Banco da Inglaterra, o Secret&aacute;rio-Geral do Congresso Sindical, o chefe do FMI, o Grupo Russell das melhores universidades, o dirigente da NATO, economistas, cientistas, acad&eacute;micos e empres&aacute;rios, e uma pan&oacute;plia de l&iacute;deres mundiais como Barack Obama, Angela Merkel, Nicolas Sarkozy, Justin Trudeau e Shinzo Abe&rdquo;<sup><a href="#calibre_link-3" title="3" id="calibre_link-68" class="noteref">3</a></sup>.</p>       <p>Ao mesmo tempo, o ceticismo brit&acirc;nico em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; Europa n&atilde;o &eacute; recente; pelo contr&aacute;rio trata-se de algo que, como vamos ver, esteve sempre presente desde o in&iacute;cio do projeto europeu. Desde Winston Churchill a David Cameron a Europa foi vista como boa para os continentais, n&atilde;o tanto para a Gr&atilde;-Bretanha, que apenas por raz&otilde;es pragm&aacute;ticas se envolveu na constru&ccedil;&atilde;o da integra&ccedil;&atilde;o europeia.</p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O que aconteceu ent&atilde;o? Como foi poss&iacute;vel que um resultado t&atilde;o alinhado com a tradicional descren&ccedil;a brit&acirc;nica na Europa n&atilde;o tenha sido desejado pelas elites pol&iacute;ticas? E o que poder&aacute; substituir a Europa na defini&ccedil;&atilde;o do lugar da Gr&atilde;-Bretanha no mundo de hoje?</p>       <p>No presente artigo n&atilde;o se pretende tanto dar uma resposta a estas quest&otilde;es quanto expor, ainda que sucintamente, os eventos que as permitem colocar, isto &eacute;, os antecedentes do referendo de 23 de julho de 2016 e os principais momentos do subsequente processo de retirada do Reino Unido da Uni&atilde;o Europeia. Num segundo artigo procurarei avaliar a relev&acirc;ncia do Brexit para o sistema parlamentar brit&acirc;nico.</p>       <p>&nbsp;</p>       <p><b>2. A ades&atilde;o do Reino Unido &agrave; CEE na perspetiva da sua sa&iacute;da da UE</b></p>       <p>Antes de se discutir a sa&iacute;da do Reino Unido da UE, conv&eacute;m, na verdade, referir as condi&ccedil;&otilde;es da sua entrada. Antes do Brexit, o Brentry<sup><a href="#calibre_link-4" title="4" id="calibre_link-69" class="noteref">4</a></sup>. E, com efeito, tais condi&ccedil;&otilde;es s&atilde;o, em certa medida, sim&eacute;tricas.</p>       <p>A posi&ccedil;&atilde;o do Reino Unido, em mat&eacute;ria de rela&ccedil;&otilde;es internacionais a seguir &agrave; Segunda Guerra Mundial, consistia em promover o livre com&eacute;rcio e privilegiar as rela&ccedil;&otilde;es com pa&iacute;ses da <i>Commonwealth</i>, mantendo-se atento &agrave; evolu&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e econ&oacute;mica na Europa. Esta ambival&ecirc;ncia &eacute; talvez mais expressivamente formulada por Winston Churchill. Por um lado, &eacute; famosa a sua afirma&ccedil;&atilde;o, em 1942, de que &ldquo;n&atilde;o se tornou o Primeiro-ministro do Rei para presidir &agrave; liquida&ccedil;&atilde;o do Imp&eacute;rio Brit&acirc;nico&rdquo;<sup><a href="#calibre_link-5" title="5" id="calibre_link-70" class="noteref">5</a></sup>. Por outro lado, defendeu insistentemente a uni&atilde;o da Europa, chegando mesmo a referir-se, no seu discurso de 19 de setembro de 1946 na Universidade de Zurique, &agrave; necessidade de construir &ldquo;uma esp&eacute;cie de Estados Unidos da Europa&rdquo;, embora, em sua opini&atilde;o, o Reino Unido n&atilde;o devesse ser um desses Estados. </p>       <p>Em tal discurso, Churchill afirmou o seguinte:</p>       <p>&ldquo;O primeiro passo para a recria&ccedil;&atilde;o da Fam&iacute;lia Europeia deve ser uma parceria entre a Fran&ccedil;a e a Alemanha. A estrutura dos Estados Unidos da Europa tornar&aacute; a for&ccedil;a material de cada Estado menos importante. E o primeiro passo pr&aacute;tico seria formar um Conselho da Europa. A Fran&ccedil;a e a Alemanha devem assumir a lideran&ccedil;a juntas. A Gr&atilde;-Bretanha, a Comunidade Brit&acirc;nica de Na&ccedil;&otilde;es, a poderosa Am&eacute;rica e, acredito, a R&uacute;ssia sovi&eacute;tica devem ser amigas e patrocinadoras da nova Europa. Por isso vos digo: deixem a Europa surgir!&rdquo;<sup><a href="#calibre_link-6" title="6" id="calibre_link-71" class="noteref">6</a></sup></p>       <p>Segundo alguns historiadores, Churchill queria, no que toca &agrave; Europa, uma coisa e o seu contr&aacute;rio (<i>have it both ways</i>)<sup><a href="#calibre_link-7" title="7" id="calibre_link-72" class="noteref">7</a></sup>. A Europa deveria superar e integrar as na&ccedil;&otilde;es europeias, mas essa integra&ccedil;&atilde;o n&atilde;o seria aplic&aacute;vel &agrave; Gr&atilde;-Bretanha, que ainda se via como pot&ecirc;ncia mundial e sede de um imp&eacute;rio (a independ&ecirc;ncia da &Iacute;ndia seria declarada no ano seguinte ao discurso de Zurique). Este &eacute;, em certa medida, o drama da Europa: &ldquo;No in&iacute;cio dos<i> </i>Estados Unidos da Europa existe um mal-entendido: a ideia veio da Gr&atilde;-Bretanha. No entanto, esta n&atilde;o pretendia fazer parte, mas antes confrontar uma Europa unida no mesmo plano: In Europe, but not of Europe, como Churchill formulou em outras ocasi&otilde;es&rdquo;<sup><a href="#calibre_link-8" title="8" id="calibre_link-73" class="noteref">8</a></sup>.</p>       <p>Os ingleses que votaram maioritariamente o Brexit parecem querer algo essencialmente id&ecirc;ntico. Em 14 de agosto de 1961, um envelhecido Winston Churchill escreveu que, se tivesse que escolher entre o papel hist&oacute;rico da Gr&atilde;-Bretanha como l&iacute;der da Comunidade Brit&acirc;nica e a sua integra&ccedil;&atilde;o na Europa, ele escolheria sempre o Imp&eacute;rio e a Comunidade sobre a Europa<sup><a href="#calibre_link-9" title="9" id="calibre_link-74" class="noteref">9</a></sup>. Mas onde estava, j&aacute; nessa altura, o Imp&eacute;rio? E onde est&aacute; hoje? N&atilde;o estaremos aqui perante o que j&aacute; foi designado como uma &ldquo;melancolia p&oacute;s-colonial&rdquo;<sup><a href="#calibre_link-10" title="10" id="calibre_link-75" class="noteref">10</a></sup>? As varia&ccedil;&otilde;es de Churchill sobre o lugar da Gr&atilde;-Bretanha entre a <i>Commonwealth</i> e a Europa mostram bem as hesita&ccedil;&otilde;es da autocompreens&atilde;o de um Estado europeu entre ser a cabe&ccedil;a de um imp&eacute;rio colonial ou um simples membro, em condi&ccedil;&otilde;es de (relativa) igualdade, de um projeto supranacional. </p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em 25 de mar&ccedil;o de 1957, foi assinado o Tratado de Roma, estabelecendo a Comunidade Econ&oacute;mica Europeia, entre a Fran&ccedil;a, a Alemanha, a It&aacute;lia, a Holanda, a B&eacute;lgica e o Luxemburgo. As ambi&ccedil;&otilde;es econ&oacute;micas do tratado eram consider&aacute;veis: a CEE deveria ser, mais do que uma zona de livre com&eacute;rcio, ou mesmo uma uni&atilde;o aduaneira, um verdadeiro mercado comum. Qual a diferen&ccedil;a entre estas realidades?</p>       <p>Numa zona de livre com&eacute;rcio, os estados membros concordam em n&atilde;o impor tarifas sobre mercadorias origin&aacute;rias de outros estados membros. No entanto, s&atilde;o livres para adotar qualquer pol&iacute;tica comercial que desejarem em rela&ccedil;&atilde;o a pa&iacute;ses terceiros. Por outras palavras, o fato de o Canad&aacute;, o M&eacute;xico e os Estados Unidos serem todos membros da Zona de Livre Com&eacute;rcio da Am&eacute;rica do Norte (NAFTA) n&atilde;o impede o Canad&aacute; de assinar acordos de livre com&eacute;rcio com outros pa&iacute;ses, ou mesmo com a Uni&atilde;o Europeia, como aconteceu em 2016<sup><a href="#calibre_link-11" title="11" id="calibre_link-76" class="noteref">11</a></sup>. Isto coloca um problema &oacute;bvio em rela&ccedil;&atilde;o aos bens que a UE importa do Canad&aacute;, mas que provenham de um pa&iacute;s com o qual a Uni&atilde;o n&atilde;o tenha qualquer acordo. Para lidar com este problema, os acordos comerciais especificam &ldquo;regras de origem&rdquo; que definem se as mercadorias s&atilde;o (neste exemplo) canadianas, ou n&atilde;o, e, portanto, est&atilde;o isentas, ou n&atilde;o, de tarifas ao abrigo do acordo de livre com&eacute;rcio em quest&atilde;o. Obviamente, tudo isso exige inspe&ccedil;&otilde;es alfandeg&aacute;rias nas fronteiras, que custam tempo e dinheiro.</p>       <p>Numa uni&atilde;o aduaneira n&atilde;o apenas se pro&iacute;bem as tarifas entre os estados membros, mas tamb&eacute;m se exige que imponham uma tarifa externa comum em rela&ccedil;&atilde;o ao resto do mundo, o que envolve a ado&ccedil;&atilde;o de uma pol&iacute;tica comercial unificada<sup><a href="#calibre_link-12" title="12" id="calibre_link-77" class="noteref">12</a></sup>.</p>       <p>Finalmente, num mercado comum d&aacute;-se um passo mais, ao promover a aproxima&ccedil;&atilde;o das pol&iacute;ticas econ&oacute;micas de todos os pa&iacute;ses membros. O que seja um mercado comum resulta do artigo 2.&ordm; do Tratado de Roma, na sua vers&atilde;o origin&aacute;ria:</p>       <p>&ldquo;A Comunidade tem por miss&atilde;o, atrav&eacute;s da cria&ccedil;&atilde;o de um mercado comum e da aproxima&ccedil;&atilde;o progressiva das pol&iacute;ticas econ&oacute;micas dos Estados-Membros, promover o desenvolvimento harmonioso das atividades econ&oacute;micas em toda a Comunidade, uma expans&atilde;o cont&iacute;nua e equilibrada, uma estabilidade acrescida, um aumento relativamente acelerado dos padr&otilde;es de vida e rela&ccedil;&otilde;es mais estreitas entre os Estados que re&uacute;ne.&rdquo;<sup><a href="#calibre_link-13" title="13" id="calibre_link-78" class="noteref">13</a></sup></p>       <p>Como parece claro, a institui&ccedil;&atilde;o de um mercado comum envolvia a tomada de decis&otilde;es coletivas e ainda que no in&iacute;cio, por influ&ecirc;ncia do General de Gaulle, a unanimidade constitu&iacute;sse a regra-geral de decis&atilde;o nas Comunidades (assim, o Compromisso de Luxemburgo, de 29 de janeiro de 1966, preconizava que os Estados-Membros pudessem vetar pol&iacute;ticas quando estivessem em jogo &ldquo;assuntos de grande import&acirc;ncia&rdquo;, para um mais Estados-Membros<sup><a href="#calibre_link-14" title="14" id="calibre_link-79" class="noteref">14</a></sup>), a tend&ecirc;ncia para ver a CEE como uma realidade mais supranacional do que meramente intergovernamental foi-se impondo gradualmente<sup><a href="#calibre_link-15" title="15" id="calibre_link-80" class="noteref">15</a></sup>.</p>       <p>A institui&ccedil;&atilde;o de um mercado comum envolvia, em qualquer caso, uma discrimina&ccedil;&atilde;o dos seis pa&iacute;ses fundadores em rela&ccedil;&atilde;o aos demais pa&iacute;ses europeus, na medida em que alargava o espa&ccedil;o comercial entre aqueles e exclu&iacute;a os restantes.</p>       <p>Em face disto, a tentativa de rea&ccedil;&atilde;o atrav&eacute;s da cria&ccedil;&atilde;o da EFTA (Associa&ccedil;&atilde;o Europeia de Com&eacute;rcio Livre), em 1960 (de que Portugal foi membro), n&atilde;o se mostrou suficiente para compensar o Reino Unido dos evidentes benef&iacute;cios da participa&ccedil;&atilde;o num mercado comum<sup><a href="#calibre_link-16" title="16" id="calibre_link-81" class="noteref">16</a></sup>. Para tal contribu&iacute;ram essencialmente tr&ecirc;s raz&otilde;es: antes de mais, o Reino Unido tinha mais rela&ccedil;&otilde;es comerciais com os pa&iacute;ses da CEE do que com os da EFTA; depois, as suas rela&ccedil;&otilde;es comerciais com os pa&iacute;ses da <i>Commonwealth</i> diminu&iacute;ram de import&acirc;ncia &agrave; medida que estes se foram tornando independentes e perseguiram as suas pr&oacute;prias pol&iacute;ticas de desenvolvimento; finalmente, a CEE conheceu logo de in&iacute;cio uma fase de grande desenvolvimento econ&oacute;mico, o que n&atilde;o podia deixar de aumentar a import&acirc;ncia dos seus mercados para a Gr&atilde;-Bretanha<sup><a href="#calibre_link-17" title="17" id="calibre_link-82" class="noteref">17</a></sup>. Foi neste contexto que, depois de v&aacute;rios avan&ccedil;os e recuos (em 1961 foi formulado um primeiro pedido de ades&atilde;o pelo Primeiro-ministro Harold Macmillan, vetado pelo General de Gaulle em 1963, que viria a promover um novo veto do segundo pedido de ades&atilde;o da Gr&atilde;-Bretanha em 1967<sup><a href="#calibre_link-18" title="18" id="calibre_link-83" class="noteref">18</a></sup>), Harold Wilson decidiu avan&ccedil;ar com novo pedido de ades&atilde;o em 1970, baseado mais em falta de alternativas do que num entusiasmo com o projeto europeu<sup><a href="#calibre_link-19" title="19" id="calibre_link-84" class="noteref">19</a></sup>.</p>       <p>A decis&atilde;o do Reino Unido de aderir &agrave; CEE parece, pois, revelar um caminho em que a defesa sem reservas do com&eacute;rcio livre no plano internacional &eacute; gradual e hesitantemente substitu&iacute;da pela aceita&ccedil;&atilde;o da integra&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica no projeto do mercado comum europeu. Inversamente, a decis&atilde;o de sa&iacute;da indicia o caminho contr&aacute;rio: em v&aacute;rios dos seus discursos Theresa May sustentou que a sa&iacute;da da Uni&atilde;o significava o retomar de um compromisso mais forte com o ideal do com&eacute;rcio livre<sup><a href="#calibre_link-20" title="20" id="calibre_link-85" class="noteref">20</a></sup>. A quest&atilde;o consiste em saber se este &eacute; hoje caminho poss&iacute;vel, ou sequer plaus&iacute;vel.</p>       <p>A este prop&oacute;sito, vale a pena reproduzir aqui as palavras de um comentador:</p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&ldquo;A campanha para o Brexit, com seu slogan &laquo;retomar o controlo&raquo; [<i>take back control</i>], foi baseada numa vis&atilde;o amorfa de um retorno aos tempos em que a Gr&atilde;-Bretanha dominava as ondas [<i>Britannia rules the waves</i>]. Tamb&eacute;m houve grandes promessas de acordos de livre com&eacute;rcio com pot&ecirc;ncias econ&oacute;micas no Extremo Oriente.</p>       <p>Se o brit&acirc;nico m&eacute;dio tivesse ao menos uma compreens&atilde;o superficial da hist&oacute;ria colonial, teria entendido o qu&atilde;o irrealista isso &eacute;. Com os seus mitos de cria&ccedil;&atilde;o constru&iacute;dos sobre a humilha&ccedil;&atilde;o &agrave;s m&atilde;os da p&eacute;rfida Albion, &eacute; muito improv&aacute;vel que a China ou a &Iacute;ndia algum dia consintam num acordo comercial com o Reino Unido sen&atilde;o nos termos mais punitivos.&rdquo;<sup><a href="#calibre_link-21" title="21" id="calibre_link-86" class="noteref">21</a></sup></p>       <p>Mesmo que n&atilde;o se queira adotar esta vis&atilde;o retaliativa da pol&iacute;tica comercial das grandes economias asi&aacute;ticas, a verdade &eacute; que &ldquo;o apego de longa data da Gr&atilde;-Bretanha ao pr&oacute;prio com&eacute;rcio livre &eacute; um legado hist&oacute;rico dos seus dias de hegemonia econ&oacute;mica e pol&iacute;tica, em vez de resultar de uma avalia&ccedil;&atilde;o objetiva de qual deveria ser a pol&iacute;tica comercial ideal de uma economia de dimens&atilde;o m&eacute;dia com um deficit comercial consider&aacute;vel e um setor manufatureiro fraco&rdquo;<sup><a href="#calibre_link-22" title="22" id="calibre_link-87" class="noteref">22</a></sup>.</p>       <p>&nbsp;</p>       <p><b>3. O papel do referendo na participa&ccedil;&atilde;o brit&acirc;nica na Europa</b></p>       <p>Tal como o Brexit resultou de um referendo, realizado em 23 de junho de 2016, tamb&eacute;m o Brentry foi confirmado por um referendo, ocorrido em 5 de junho de 1975.</p>       <p>A tomada de uma decis&atilde;o sobre a participa&ccedil;&atilde;o do Reino Unido na constru&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e econ&oacute;mica da Europa atrav&eacute;s de um referendo &eacute; certamente mat&eacute;ria para reflex&atilde;o, mas, antes de a&iacute; chegar, cabe come&ccedil;ar por mencionar o que aproxima e o que separa os dois referendos que estiveram na base daquela participa&ccedil;&atilde;o, primeiro, e no seu abandono, depois.</p>       <p>Vejamos, antes de mais, o que aproxima os dois referendos. Com o compromisso, anunciado em 2013, de promover um referendo sobre a perman&ecirc;ncia do Reino Unido na Europa, David Cameron procurou certamente seguir o exemplo de Harold Wilson de, atrav&eacute;s do recurso ao voto popular, gerir uma disputa partid&aacute;ria interna entre euroc&eacute;ticos e partidos do projeto Europeu<sup><a href="#calibre_link-23" title="23" id="calibre_link-88" class="noteref">23</a></sup>. No caso de Cameron, a este motivo para realizar um referendo juntava-se ainda a vontade de conter a crescente influ&ecirc;ncia pol&iacute;tica do populista Partido da Independ&ecirc;ncia do Reino Unido (UKIP), procurando usar contra este um instrumento de democracia direta cujo resultado o mesmo n&atilde;o poderia deixar de aceitar, retirando-lhe assim grande parte do seu apelo para o eleitorado conservador<sup><a href="#calibre_link-24" title="24" id="calibre_link-89" class="noteref">24</a></sup>. Como &eacute; p&uacute;blico e not&oacute;rio, embora a vota&ccedil;&atilde;o no UKIP tenha diminu&iacute;do significativamente, David Cameron falhou no seu prop&oacute;sito de manter o Reino Unido na Uni&atilde;o Europeia e arrisca-se a entrar para a hist&oacute;ria como um dos pol&iacute;ticos brit&acirc;nicos mais malsucedidos e incapazes. Harold Wilson, pelo contr&aacute;rio, foi bem-sucedido. No referendo de 1975, o primeiro realizado a n&iacute;vel nacional no Reino Unido, o eleitorado pronunciou-se favoravelmente sobre a perman&ecirc;ncia do pa&iacute;s na Comunidade Europeia, com 67,2% dos votos e uma participa&ccedil;&atilde;o de 65%<sup><a href="#calibre_link-25" title="25" id="calibre_link-90" class="noteref">25</a></sup>. No referendo de 2016, 51,9% do eleitorado pronunciou-se pela retirada do Reino da Unido com uma participa&ccedil;&atilde;o de 72,2%<sup><a href="#calibre_link-26" title="26" id="calibre_link-91" class="noteref">26</a></sup>.</p>       <p>O que separa os dois referendos &eacute; igualmente instrutivo. Em primeiro lugar, Harold Wilson estava bem ciente da excecionalidade do recurso ao referendo e n&atilde;o deixou de o afirmar expressamente perante o Parlamento num discurso de janeiro de 1975 em que afirmou o seguinte: &ldquo;est&aacute; certo que devamos (&hellip;) usar a palavra &laquo;&uacute;nico&raquo;. &Eacute; uma situa&ccedil;&atilde;o muito especial que n&atilde;o penso venha a ser tomada por algu&eacute;m como um precedente&rdquo;<sup><a href="#calibre_link-27" title="27" id="calibre_link-92" class="noteref">27</a></sup>. </p>       <p>Pois bem, esse algu&eacute;m foi certamente David Cameron, respons&aacute;vel n&atilde;o apenas pelo referendo de 2016, mas tamb&eacute;m pelo referendo nacional de 2011, sobre a altera&ccedil;&atilde;o do sistema eleitoral, e pelo referendo realizado na Esc&oacute;cia em 2014 sobre a sua independ&ecirc;ncia<sup><a href="#calibre_link-28" title="28" id="calibre_link-93" class="noteref">28</a></sup>. Estes dois &uacute;ltimos tiveram um voto negativo por parte do eleitorado que rejeitou, no primeiro caso, a altera&ccedil;&atilde;o do sistema eleitoral, no sentido de substituir o sistema &ldquo;first past the post&rdquo; pelo sistema do voto alternativo para a elei&ccedil;&atilde;o dos membros da C&acirc;mara dos Comuns<sup><a href="#calibre_link-29" title="29" id="calibre_link-94" class="noteref">29</a></sup> e, no segundo caso, a atribui&ccedil;&atilde;o de independ&ecirc;ncia &agrave; Esc&oacute;cia. &Agrave; terceira, foi de vez: o voto afirmativo do eleitorado no referendo de 2016 mostrou a dist&acirc;ncia entre o sentir da maioria do eleitorado e a posi&ccedil;&atilde;o de certas elites pol&iacute;ticas, entre as quais se inclu&iacute;a o pr&oacute;prio Cameron, sobre a vantagem de permanecer na UE. A ado&ccedil;&atilde;o de uma pol&iacute;tica de solu&ccedil;&otilde;es simples em tempos complexos acabou por custar a David Cameron a sua carreira pol&iacute;tica<sup><a href="#calibre_link-30" title="30" id="calibre_link-95" class="noteref">30</a></sup>.</p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A segunda diferen&ccedil;a prende-se com a prepara&ccedil;&atilde;o do referendo de 1975, em que se estudaram as consequ&ecirc;ncias pol&iacute;ticas dos resultados poss&iacute;veis do referendo, bem como as alternativas poss&iacute;veis em termos de regime a que o mesmo deveria ter sido sujeito, em termos que parecem n&atilde;o ter sido levados em conta em 2016. Essa prepara&ccedil;&atilde;o encontra a sua manifesta&ccedil;&atilde;o no relat&oacute;rio elaborado sob a dire&ccedil;&atilde;o de Edward Short, o membro do Governo trabalhista encarregado de avaliar as implica&ccedil;&otilde;es pr&aacute;ticas da realiza&ccedil;&atilde;o de um referendo sobre a perman&ecirc;ncia do Reino Unido como membro da (ent&atilde;o) Comunidade Europeia<sup><a href="#calibre_link-31" title="31" id="calibre_link-96" class="noteref">31</a></sup>. Como parece evidente, as implica&ccedil;&otilde;es pr&aacute;ticas de um referendo s&atilde;o consideravelmente mais complexas quando o seu resultado implica uma mudan&ccedil;a radical do <i>status quo ex ante</i>, como sucedeu em 2016.</p>       <p>A quest&atilde;o do regime do referendo n&atilde;o parece, pois, ter sido suficientemente acautelada em 2016. Teria sido poss&iacute;vel, neste &acirc;mbito, entre outros aspetos, fixar um qu&oacute;rum de participa&ccedil;&atilde;o, isto &eacute;, uma percentagem m&iacute;nima de n&uacute;mero de votos expressos para que o referendo fosse vinculativo, ou at&eacute; mesmo uma maioria qualificada para que um determinado sentido de voto se pudesse impor. Exemplo de qu&oacute;rum &eacute; o disposto no artigo 115.&ordm;. n.&ordm; 11, da Constitui&ccedil;&atilde;o portuguesa, de acordo com o qual o referendo s&oacute; tem efeito vinculativo quando o n&uacute;mero de votantes for superior a metade dos eleitores inscritos no recenseamento; a segunda exig&ecirc;ncia consistiria em exigir, para al&eacute;m de um qu&oacute;rum de participa&ccedil;&atilde;o, uma maioria de 60%, por exemplo, para que um qualquer resultado se pudesse considerar vencedor. O <i>European Union Referendum Act</i> de 2015 n&atilde;o previu nenhum destes poss&iacute;veis requisitos do referendo, n&atilde;o tendo igualmente determinado o alcance do voto de sa&iacute;da quanto a determinados aspetos que teria sido poss&iacute;vel antecipar, designadamente na perspetiva dos cidad&atilde;os da Uni&atilde;o Europeia residentes no Reino Unido, ou quem seria o &oacute;rg&atilde;o competente para levar a cabo a decis&atilde;o de sa&iacute;da<sup><a href="#calibre_link-32" title="32" id="calibre_link-97" class="noteref">32</a></sup>. Na aus&ecirc;ncia destes requisitos, o que sucedeu foi que, considerando as percentagens acima referidas de participa&ccedil;&atilde;o dos eleitores e dos votos por estes expressos no sentido do Brexit, cerca de 37,3% dos eleitores causaram a sa&iacute;da da Gr&atilde;-Bretanha da UE por uma margem de apenas quatro pontos percentuais<sup><a href="#calibre_link-33" title="33" id="calibre_link-98" class="noteref">33</a></sup>. </p>       <p>A terceira grande diferen&ccedil;a prende-se com a celebra&ccedil;&atilde;o, entre os dois referendos, do Acordo de Sexta-feira Santa de 1998, celebrado entre o Reino Unido, a Rep&uacute;blica da Irlanda e v&aacute;rias organiza&ccedil;&otilde;es da Irlanda do Norte. Neste acordo, como &eacute; sabido, o Reino Unido reconheceu a autodetermina&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o da Irlanda do Norte. Embora o texto do acordo n&atilde;o contenha nenhuma refer&ecirc;ncia nesse sentido, parece claro que a qualidade de Estado-Membro da Uni&atilde;o Europeia de ambos os pa&iacute;ses constituiu um pressuposto fundamental da respetiva celebra&ccedil;&atilde;o<sup><a href="#calibre_link-34" title="34" id="calibre_link-99" class="noteref">34</a></sup>.</p>       <p>&nbsp;</p>       <p><b>4. Brexit: breve cronologia arrazoada</b></p>       <p>No dia seguinte ao do referendo, David Cameron demitiu-se do cargo de Primeiro-ministro, tendo-lhe sucedido, em 13 de julho de 2016, Theresa May. Nesse mesmo dia, logo que entrou no n.&ordm; 10 de Downing Street, Theresa May tratou o resultado do referendo como definitivo. Segundo ent&atilde;o afirmou &ldquo;Brexit quer dizer Brexit. A campanha foi travada, a vota&ccedil;&atilde;o foi realizada, a participa&ccedil;&atilde;o foi alta e o p&uacute;blico deu o seu veredicto. N&atilde;o deve haver tentativas de permanecer dentro da UE, nenhuma tentativa de reingressar pela porta das traseiras, e nenhum segundo referendo. O pa&iacute;s votou pela sa&iacute;da da Uni&atilde;o Europeia e &eacute; dever do Governo e do Parlamento garantir que fa&ccedil;amos exatamente isso&rdquo;<sup><a href="#calibre_link-35" title="35" id="calibre_link-100" class="noteref">35</a></sup>. Apesar da pequena margem da vit&oacute;ria do &ldquo;Leave&rdquo; no referendo, foi Theresa May a grande respons&aacute;vel por transformar um referendo consultivo numa decis&atilde;o vinculativa do eleitorado<sup><a href="#calibre_link-36" title="36" id="calibre_link-101" class="noteref">36</a></sup>. O Brexit estava decidido, o que faltava saber era que tipo de Brexit o novo governo pretenderia p&ocirc;r em pr&aacute;tica.</p>       <p>O resultado do referendo n&atilde;o fornece, em si mesmo, grande orienta&ccedil;&atilde;o sobre o assunto, uma vez que os eleitores responderam apenas &agrave; seguinte quest&atilde;o: &ldquo;O Reino Unido deve permanecer membro da Uni&atilde;o Europeia ou deixar a Uni&atilde;o Europeia?&rdquo;. N&atilde;o havia nada no boletim de voto sobre a uni&atilde;o aduaneira ou o mercado &uacute;nico, e diferentes eleitores do &ldquo;Leave&rdquo; tinham provavelmente opini&otilde;es muito diferentes sobre o modo como p&ocirc;r em pr&aacute;tica o voto popular.</p>       <p>&nbsp;</p>       <p><b>4.1. O discurso de Lancaster House</b></p>       <p>Uma importante indica&ccedil;&atilde;o sobre o tipo de rela&ccedil;&atilde;o que Theresa May, sucessora de David Cameron, pretendia com a Europa foi dada no seu discurso de 17 de janeiro de 2017 na Lancaster House. Nesse discurso, come&ccedil;ou por enunciar a posi&ccedil;&atilde;o cl&aacute;ssica dos ingleses em rela&ccedil;&otilde;es internacionais, lembrando os v&iacute;nculos hist&oacute;ricos do Reino Unido com a <i>Commonwealth</i>, e afirmou que: &ldquo;Muitos na Gr&atilde;-Bretanha sempre sentiram que o lugar do Reino Unido na Uni&atilde;o Europeia foi feito &agrave; custa dos nossos la&ccedil;os globais, e de um compromisso mais ousado com o livre com&eacute;rcio no mundo em geral&rdquo;<sup><a href="#calibre_link-37" title="37" id="calibre_link-102" class="noteref">37</a></sup>.</p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Nesse mesmo discurso, May enunciou alguns limites da negocia&ccedil;&atilde;o que se deveria seguir. O Reino Unido &ldquo;acabaria com a jurisdi&ccedil;&atilde;o do Tribunal de Justi&ccedil;a Europeu na Gr&atilde;-Bretanha&rdquo;, uma vez que &rdquo;n&atilde;o teremos realmente deixado a Uni&atilde;o Europeia enquanto n&atilde;o controlarmos as nossas pr&oacute;prias leis&rdquo;. O Reino Unido n&atilde;o seria um membro do mercado &uacute;nico, uma vez que n&atilde;o podia aceitar as quatro liberdades (de bens, servi&ccedil;os, capital e, sobretudo, pessoas), n&atilde;o podia aceitar regulamentos que fossem decididos em outros lugares, nem n&atilde;o podia aceitar a jurisdi&ccedil;&atilde;o do Tribunal de Justi&ccedil;a da Uni&atilde;o. Para al&eacute;m disso, o Reino Unido n&atilde;o faria mais amplas contribui&ccedil;&otilde;es financeiras para Bruxelas todos os anos. E como o Reino Unido queria fazer acordos de livre com&eacute;rcio em todo o mundo, n&atilde;o continuaria vinculado &agrave; Pol&iacute;tica Comercial Comum e &agrave; Tarifa Externa Comum da uni&atilde;o aduaneira da UE.</p>       <p>Todo o discurso de May visa transmitir uma posi&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;a: </p>       <p>&ldquo;A Gr&atilde;-Bretanha quer continuar a manter rela&ccedil;&otilde;es de amizade e boa vizinhan&ccedil;a com a Europa. Sei, no entanto, que existem algumas vozes que pedem um acordo punitivo que castigue a Gr&atilde;-Bretanha e desencoraje outros pa&iacute;ses de seguir o mesmo caminho.</p>       <p>Isso seria um ato de automutila&ccedil;&atilde;o calamitosa para os pa&iacute;ses da Europa. E n&atilde;o seria um ato de um amigo. A Gr&atilde;-Bretanha n&atilde;o aceitaria &ndash; na verdade n&atilde;o poder&iacute;amos &ndash; tal abordagem. E embora eu esteja confiante de que esse cen&aacute;rio nunca se colocar&aacute; &ndash; embora eu tenha certeza de que um acordo positivo pode ser alcan&ccedil;ado &ndash; estou igualmente certa de que um n&atilde;o acordo &eacute; melhor do que um mau acordo para a Gr&atilde;-Bretanha.&rdquo;<sup><a href="#calibre_link-38" title="38" id="calibre_link-103" class="noteref">38</a></sup></p>       <p>&Eacute;, no entanto, duvidoso, como vamos ver, que a express&atilde;o &ldquo;no deal is better than a bad deal for Britain&rdquo; n&atilde;o deva ser substitu&iacute;da pelo seu contr&aacute;rio &ldquo;Any deal is better than no deal&rdquo;, enquanto express&atilde;o mais adequada a retratar a solu&ccedil;&atilde;o alcan&ccedil;ada por May<sup><a href="#calibre_link-39" title="39" id="calibre_link-104" class="noteref">39</a></sup>.</p>       <p>&nbsp;</p>       <p><b>4.2. &ldquo;Cakeism&rdquo;</b></p>       <p>A posi&ccedil;&atilde;o de abertura do governo brit&acirc;nico foi a de que queria restringir a imigra&ccedil;&atilde;o da UE, recuperar o controle sobre as suas pr&oacute;prias leis, deixar a jurisdi&ccedil;&atilde;o do Tribunal de Justi&ccedil;a e, portanto, deixar o mercado &uacute;nico da UE; apesar disso, tamb&eacute;m queria preservar o acesso privilegiado da <i>city</i> de Londres aos mercados financeiros europeus; queria fazer acordos de livre com&eacute;rcio em todo o mundo e, portanto, n&atilde;o queria ingressar numa nova uni&atilde;o aduaneira p&oacute;s-Brexit UE-Reino Unido; ao mesmo tempo, o Reino Unido tamb&eacute;m queria manter um com&eacute;rcio sem atritos com a UE &ndash; ou, pelo menos, um com&eacute;rcio o mais sem atrito poss&iacute;vel<sup><a href="#calibre_link-40" title="40" id="calibre_link-105" class="noteref">40</a></sup>. </p>       <p>Por outras palavras, o Reino Unido queria manter partes de ades&atilde;o &agrave; UE que valorizava e livrar-se do resto: queria, ao mesmo tempo, ter o bolo e com&ecirc;-lo (<i>to have the cake and eat it too</i>). Boris Johnson chegou a dizer isso mesmo<sup><a href="#calibre_link-41" title="41" id="calibre_link-106" class="noteref">41</a></sup>.</p>       <p>&nbsp;</p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>4.3. A posi&ccedil;&atilde;o da Uni&atilde;o</b></p>       <p>A rea&ccedil;&atilde;o dos l&iacute;deres europeus n&atilde;o se fez esperar. Para al&eacute;m de darem sem efeito as concess&otilde;es feitas a David Cameron em fevereiro de 2016<sup><a href="#calibre_link-42" title="42" id="calibre_link-107" class="noteref">42</a></sup>, enunciaram os seguintes pontos: <i>(i)</i> o Brexit teria que ocorrer de acordo com as regras da Uni&atilde;o; <i>(ii)</i> o Brexit deveria acontecer rapidamente; <i>(iii)</i> cabia ao Reino Unido decidir o que queria que fosse a natureza de seu futuro relacionamento com a EU; <i>(iv)</i> qualquer rela&ccedil;&atilde;o futura entre a UE e o Reino Unido teria que ser do interesse da UE e teria que equilibrar direitos e obriga&ccedil;&otilde;es.</p>       <p>Assim, no ponto 4 da declara&ccedil;&atilde;o dos Chefes de Estado ou de Governo de 29 de junho de 2016 afirma-se o seguinte:</p>       <p>&ldquo;No futuro, esperamos ter o Reino Unido como um parceiro pr&oacute;ximo da UE e esperamos que o Reino Unido exponha suas inten&ccedil;&otilde;es a esse respeito. Qualquer acordo, que ser&aacute; conclu&iacute;do com o Reino Unido como pa&iacute;s terceiro, ter&aacute; que se basear num equil&iacute;brio de direitos e obriga&ccedil;&otilde;es. O acesso ao mercado &uacute;nico requer a aceita&ccedil;&atilde;o de todas as quatro liberdades.&rdquo;<sup><a href="#calibre_link-43" title="43" id="calibre_link-108" class="noteref">43</a></sup></p>       <p>Por outras palavras, o &ldquo;<i>cakeism</i>&rdquo; n&atilde;o seria tolerado. O &ldquo;<i>cakeism</i>&rdquo; significaria ter, em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; Uni&atilde;o, os direitos da Noruega e as obriga&ccedil;&otilde;es do Canad&aacute;. Expliquemos um pouco melhor. Uma solu&ccedil;&atilde;o unicamente do tipo da que foi alcan&ccedil;ada com Noruega, na qual o Reino Unido permaneceria dentro do Acordo Econ&oacute;mico Europeu seria inaceit&aacute;vel para os brit&acirc;nicos, pois envolveria, junto com um com&eacute;rcio sem controlos de fronteira, tamb&eacute;m a livre circula&ccedil;&atilde;o de pessoas, contribui&ccedil;&otilde;es financeiras para a UE e a aceita&ccedil;&atilde;o dos regulamentos da UE. Mas a ado&ccedil;&atilde;o apenas de um acordo de livre com&eacute;rcio com a UE, como o Acordo Econ&oacute;mico e Comercial Global UE-Canad&aacute;, assinado por Justin Trudeau em 2016, seria igualmente inaceit&aacute;vel, pois n&atilde;o garantiria uma posi&ccedil;&atilde;o privilegiada para a <i>city</i> de Londres nos mercados europeus e envolveria controles de fronteira<sup><a href="#calibre_link-44" title="44" id="calibre_link-109" class="noteref">44</a></sup>. </p>       <p>&nbsp;</p>       <p><b>4.4. O artigo 50.&ordm; do Tratado de Lisboa</b></p>       <p>As regras a seguir na sequ&ecirc;ncia do referendo constam do artigo 50.&ordm; do Tratado de Lisboa<sup><a href="#calibre_link-45" title="45" id="calibre_link-110" class="noteref">45</a></sup>. O sentido destas regras parece relativamente claro: primeiro notifica&ccedil;&atilde;o da inten&ccedil;&atilde;o de sair ao Conselho Europeu, depois negocia&ccedil;&atilde;o e, em caso de insucesso destas &uacute;ltimas durante o prazo de dois anos a contar da notifica&ccedil;&atilde;o, sa&iacute;da sem acordo ou prorroga&ccedil;&atilde;o do prazo por decis&atilde;o un&acirc;nime do Conselho Europeu com o acordo do Estado-Membro secessionista.</p>       <p>Mas h&aacute; um outro aspeto do regime do artigo 50.&ordm; da maior relev&acirc;ncia: o acordo de sa&iacute;da do Estado secessionista estabelece as respetivas condi&ccedil;&otilde;es apenas &ldquo;tendo em conta o quadro das suas futuras rela&ccedil;&otilde;es com a Uni&atilde;o&rdquo;. Ora, &eacute; este aspeto que parece claramente contr&aacute;rio aos interesses do Estado que pretende sair, ao separar a quest&atilde;o da sa&iacute;da e a quest&atilde;o das futuras rela&ccedil;&otilde;es com a Uni&atilde;o.</p>       <p>O mais importante a este respeito, como nota Paul Craig, &eacute; a ordem temporal das negocia&ccedil;&otilde;es. Trata-se de saber se as discuss&otilde;es relativas &agrave; retirada e &agrave;s futuras rela&ccedil;&otilde;es comerciais devem prosseguir em paralelo, ou se deve haver um faseamento, de modo que a discuss&atilde;o sobre o &uacute;ltimo aspeto s&oacute; comece quando houver progresso suficiente quanto ao primeiro. O Reino Unido favoreceu fortemente, como &eacute; natural, a discuss&atilde;o paralela, enquanto a UE defendeu a ordena&ccedil;&atilde;o em fases. A diferen&ccedil;a &eacute; facilmente explic&aacute;vel, uma vez que &ldquo;afeta o equil&iacute;brio de poder no &acirc;mbito das negocia&ccedil;&otilde;es: o paralelismo permitiria ao Reino Unido procurar compromissos entre os termos da retirada e os das rela&ccedil;&otilde;es comerciais futuras; a abordagem por fases significa que a UE pode recusar-se a discutir as rela&ccedil;&otilde;es comerciais at&eacute; que tenha obtido um acordo de retirada aceit&aacute;vel&rdquo;<sup><a href="#calibre_link-46" title="46" id="calibre_link-111" class="noteref">46</a></sup>. Como vamos ver, &eacute; duvidoso que esta exig&ecirc;ncia de separa&ccedil;&atilde;o por fases tenha sido integralmente respeitada.</p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Independentemente das quest&otilde;es que o artigo 50.&ordm; possa colocar quanto ao respetivo alcance no plano do direito internacional e europeu, o principal problema que desencadeou foi o da sua interpreta&ccedil;&atilde;o no plano do direito interno do Reino Unido. No fundo, a quest&atilde;o prendia-se com o seguinte: qual o &oacute;rg&atilde;o competente, de acordo com o direito constitucional do Reino Unido para proceder &agrave; notifica&ccedil;&atilde;o de retirada? Poderia o Governo faz&ecirc;-lo por si mesmo, no &acirc;mbito da sua prerrogativa real, ou apenas na sequ&ecirc;ncia de autoriza&ccedil;&atilde;o de um ato do Parlamento de Westminster? Como se se sabe a quest&atilde;o deu origem a uma decis&atilde;o judicial muito controversa do Supremo Tribunal do Reino Unido de 24 de janeiro de 2017, adiante mais aprofundadamente discutido (o designado caso Miller I), que concluiu pela necessidade de uma autoriza&ccedil;&atilde;o parlamentar em raz&atilde;o do poss&iacute;vel impacto da retirada sobre os direitos atribu&iacute;dos aos cidad&atilde;os brit&acirc;nicos em conex&atilde;o com a participa&ccedil;&atilde;o do Reino Unido na Uni&atilde;o Europeia. Apesar da controv&eacute;rsia gerada pela decis&atilde;o, acabou por ser obtida quando o Secret&aacute;rio de Estado para Sa&iacute;da da UE, formalmente apresentou no Parlamento, em 26 de janeiro de 2017, um projeto de lei que, em 16 de mar&ccedil;o, foi promulgado sem emendas como Lei da Uni&atilde;o Europeia (Notifica&ccedil;&atilde;o de Retirada) de 2017<sup><a href="#calibre_link-47" title="47" id="calibre_link-112" class="noteref">47</a></sup>. </p>       <p>Considerando a rapidez com que se cumpriu a exig&ecirc;ncia de autoriza&ccedil;&atilde;o parlamentar constante da decis&atilde;o no caso Miller I, bem como o facto de ser muito claro que o Supremo Tribunal do Reino Unido n&atilde;o se pronunciou sobre a quest&atilde;o substantiva dos m&eacute;ritos da retirada da Uni&atilde;o Europeia, pode bem perguntar-se: por que raz&atilde;o o Governo n&atilde;o evitou a litig&acirc;ncia, aprovando logo na sequ&ecirc;ncia do referendo uma lei que notificasse o Conselho Europeu da decis&atilde;o de retirada? E por que raz&atilde;o o Parlamento n&atilde;o exerceu a sua soberania, aprovando <i>motu proprio</i> essa mesma lei? N&atilde;o &eacute; clara a resposta a estas perguntas<sup><a href="#calibre_link-48" title="48" id="calibre_link-113" class="noteref">48</a></sup>, mas a verdade &eacute; que ao permitir-se que fossem os tribunais a dar voz ao Parlamento contribuiu-se para transformar o debate numa disputa sobre os limites da prerrogativa do executivo.</p>       <p>&nbsp;</p>       <p><b>4.5. As linhas de orienta&ccedil;&atilde;o negocial da Uni&atilde;o de abril de 2017</b></p>       <p>Em abril de 2017 a Uni&atilde;o divulgou as suas linhas de orienta&ccedil;&atilde;o para a negocia&ccedil;&atilde;o com o Reino Unido<sup><a href="#calibre_link-49" title="49" id="calibre_link-114" class="noteref">49</a></sup>, as quais postulavam uma abordagem faseada, para al&eacute;m de exclu&iacute;rem quaisquer negocia&ccedil;&otilde;es individuais entre o Reino Unido e os Estados-Membros e de acordo com o princ&iacute;pio de que nada estar&aacute; acordado at&eacute; tudo estar acordado.</p>       <p>Numa primeira fase, seriam negociadas as designadas quest&otilde;es de div&oacute;rcio:</p>       <div class="calibre5 ml-3">         <p>(i)&nbsp;Garantir que os cidad&atilde;os da UE que vivem no Reino Unido e os cidad&atilde;os do Reino Unido que vivem na UE mantenham o <i>status</i> e os direitos que lhes eram reconhecidos antes do Brexit.</p>         <p>(ii)&nbsp;Chegar a um acordo sobre o dinheiro devido pelo Reino Unido &agrave; UE.</p>         <p>(iii)&nbsp;A quest&atilde;o da Irlanda, a prop&oacute;sito da qual se afirmou o seguinte nas linhas de orienta&ccedil;&atilde;o: &ldquo;A Uni&atilde;o apoiou consistentemente o objetivo de paz e reconcilia&ccedil;&atilde;o consagrado no Acordo da Sexta-feira Santa em todas as suas partes, e continuar a apoiar e proteger as realiza&ccedil;&otilde;es, benef&iacute;cios e<i> </i>compromissos do Processo de Paz permanecer&aacute; de suma import&acirc;ncia. Tendo em conta as circunst&acirc;ncias &uacute;nicas da ilha da Irlanda, ser&atilde;o necess&aacute;rias solu&ccedil;&otilde;es criativas e flex&iacute;veis, incluindo o objetivo de evitar uma fronteira r&iacute;gida, respeitando ao mesmo tempo a integridade da ordem jur&iacute;dica da Uni&atilde;o&rdquo;.</p>   </div>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&Eacute; importante salientar a solidariedade manifestada pela Europa para com um pequeno pa&iacute;s como a Irlanda, destacando em particular dois aspetos: por um lado, uma vez que a avalia&ccedil;&atilde;o do Conselho Europeu sobre os progressos feitos nas quest&otilde;es do div&oacute;rcio teria de ser feito por unanimidade, isso envolvia que nenhum acordo sobre a quest&atilde;o da fronteira irlandesa poderia ser alcan&ccedil;ado sem o acordo da Europa; por outro lado, o Conselho Europeu tamb&eacute;m concordou que, caso a Irlanda do Norte decidisse integrar-se numa Irlanda unida, automaticamente se tornaria membro da Uni&atilde;o Europeia, assim como a Alemanha Oriental se tornou automaticamente membro da CE quando a Alemanha foi reunificada em 1990<sup><a href="#calibre_link-50" title="50" id="calibre_link-115" class="noteref">50</a></sup>. </p>       <p>Apenas numa segunda fase, depois de o Conselho Europeu ter decidido existir um &ldquo;progresso suficiente&rdquo; na resolu&ccedil;&atilde;o dos problemas de div&oacute;rcio na primeira fase, poderiam ter lugar &ldquo;Discuss&otilde;es preliminares e preparat&oacute;rias&rdquo; sobre a natureza do futuro relacionamento UE-Reino Unido. Por outras palavras, n&atilde;o seria permitido ao Reino Unido usar as quest&otilde;es de div&oacute;rcio como alavanca em quaisquer negocia&ccedil;&otilde;es sobre uma futura rela&ccedil;&atilde;o comercial.</p>       <p>&nbsp;</p>       <p><b>4.6. O acordo de Theresa May</b></p>       <p>Depois de diversas rondas de negocia&ccedil;&atilde;o, o Governo de Theresa May aprovou o acordo de retirada e a declara&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica respetiva em 14 de novembro de 2018, tendo estes documentos sido formalmente aprovados por uma reuni&atilde;o especial do Conselho Europeu de 25 de novembro.</p>       <p>O Reino Unido como um todo permaneceria (entraria?) numa uni&atilde;o aduaneira com a UE, sendo que apenas a Irlanda do Norte permaneceria no mercado &uacute;nico de mercadorias, envolvendo um alinhamento regulat&oacute;rio com a UE. Deste modo conseguia-se evitar controlos aduaneiros no territ&oacute;rio do Reino Unido, bem como uma fronteira r&iacute;gida entre a Rep&uacute;blica da Irlanda e a Irlanda do Norte. Trata-se daquilo que ficou conhecido como o &ldquo;<i>Irish backstop</i>&rdquo;. Assim, o Reino Unido deixaria de estar sujeito &agrave; livre circula&ccedil;&atilde;o de pessoas, como desde sempre exigido por Theresa May; ao mesmo tempo, o Reino Unido n&atilde;o beneficiaria de um mercado &uacute;nico apenas quanto &agrave;s mercadorias, com exclus&atilde;o de capitais, servi&ccedil;os e pessoas, uma exig&ecirc;ncia desde sempre da UE. Finalmente, n&atilde;o existiria uma fronteira r&iacute;gida entre a Rep&uacute;blica da Irlanda e a Irlanda do Norte, uma insist&ecirc;ncia dos irlandeses. Deste modo as virtudes do acordo consistiam sobretudo no n&uacute;mero de limites tra&ccedil;ados pelos diversos intervenientes que eram respeitados<sup><a href="#calibre_link-51" title="51" id="calibre_link-116" class="noteref">51</a></sup>. </p>       <p>O problema deste acordo consistia em, ao contr&aacute;rio do que foi inicialmente previsto, o compromisso com uma futura aduaneira entre o Reino Unido e a Uni&atilde;o deixar de constar de uma declara&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e passar a estar abrangido no pr&oacute;prio Acordo de Retirada. Por outras palavras, as orienta&ccedil;&otilde;es tra&ccedil;adas pela Uni&atilde;o Europeia com base no artigo 50.&ordm; do Tratado de Lisboa pareciam ter sido deixadas de lado. Assim, como refere Kevin O&rsquo;Rourke, &ldquo;a Uni&atilde;o sempre insistiu que qualquer rela&ccedil;&atilde;o comercial futura, mesmo um mero acordo de livre com&eacute;rcio, s&oacute; poderia ser negociada ap&oacute;s o Brexit e precisaria de garantias de igualdade de condi&ccedil;&otilde;es. Agora, mesmo que essas negocia&ccedil;&otilde;es fracassassem, o Reino Unido teria garantido um acordo de uni&atilde;o aduaneira com a UE&rdquo;<sup><a href="#calibre_link-52" title="52" id="calibre_link-117" class="noteref">52</a></sup>.</p>       <p>Por seu turno, quanto aos direitos dos cidad&atilde;os, em dezembro de 2017, como parte do acordo no final das negocia&ccedil;&otilde;es da primeira fase, o Reino Unido e a UE concordaram que os cidad&atilde;os da UE no Reino Unido na data da retirada da Gr&atilde;-Bretanha teriam o direito de permanecer no Reino Unido, reconhecendo &agrave;s decis&otilde;es do Tribunal de Justi&ccedil;a da Uni&atilde;o Europeia um papel relevante durante oito anos na resolu&ccedil;&atilde;o de quaisquer disputas. Isto n&atilde;o significaria uma possibilidade de recurso para o TJUE, mas apenas que o acordo em causa seria integrado no direito do Reino Unido e que os respetivos tribunais deveriam atender &agrave; jurisprud&ecirc;ncia daquele tribunal nas suas decis&otilde;es. Os cidad&atilde;os do Reino Unido residentes na EU, por seu turno, tamb&eacute;m teriam os seus direitos garantidos.</p>       <p>Os dois lados concordaram que a quest&atilde;o de saber se os futuros c&ocirc;njuges se poder&atilde;o unir aos seus parceiros deveria ser determinada pela legisla&ccedil;&atilde;o nacional, o que implicaria que o Reino Unido poderia impor requisitos financeiros para o efeito, como originalmente pretendia. Isto significava naturalmente uma derrota para a UE, embora a Comiss&atilde;o aparentemente acreditasse que a quest&atilde;o seria abordada na segunda fase das negocia&ccedil;&otilde;es e estaria inevitavelmente ligada ao n&iacute;vel de ambi&ccedil;&atilde;o da futura parceria entre a UE e o Reino Unido<sup><a href="#calibre_link-53" title="53" id="calibre_link-118" class="noteref">53</a></sup>. Tamb&eacute;m aqui as orienta&ccedil;&otilde;es de negocia&ccedil;&atilde;o da EU parecem ter cedido.</p>       <p>Finalmente, quanto a quest&otilde;es monet&aacute;rias, o Reino Unido concordou em honrar a sua parte do financiamento de todas as obriga&ccedil;&otilde;es assumidas enquanto era membro da Uni&atilde;o, em rela&ccedil;&atilde;o ao or&ccedil;amento da UE (em particular o Quadro Financeiro Plurianual 2014-2020), o Banco Europeu de Investimento, o Banco Central Europeu, o mecanismo para refugiados na Turquia, os fundos fiduci&aacute;rios da UE, as ag&ecirc;ncias do Conselho e tamb&eacute;m o Fundo Europeu de Desenvolvimento<sup><a href="#calibre_link-54" title="54" id="calibre_link-119" class="noteref">54</a></sup>. No final, as quest&otilde;es monet&aacute;rias acabaram por se revelar as de mais f&aacute;cil resolu&ccedil;&atilde;o.</p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No dia seguinte ao da aprova&ccedil;&atilde;o do acordo v&aacute;rios membros do Governo de May anunciaram a sua demiss&atilde;o e parecia cada vez mais claro que o mesmo n&atilde;o seria aprovado pelo Parlamento. Em 17 de dezembro Theresa May anunciou que o acordo seria submetido a aprecia&ccedil;&atilde;o parlamentar a partir de 14 de janeiro de 2019.</p>       <p>Entretanto, em 20 de mar&ccedil;o de 2019, na sequ&ecirc;ncia de o Parlamento ter rejeitado por diversas vezes a sua proposta de acordo de retirada, Theresa May solicitou ao Presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, uma extens&atilde;o do per&iacute;odo de 2 anos previsto no artigo 50.&ordm; do Tratado de Lisboa por um per&iacute;odo at&eacute; 30 de junho de 2019.</p>       <p>Em 22 de mar&ccedil;o a extens&atilde;o foi concedida pelos membros do Conselho Europeu por um per&iacute;odo a decorrer at&eacute; 22 de maio de 2019. </p>       <p>A verdade &eacute; que o acordo de May foi rejeitado pelos Comuns n&atilde;o s&oacute; em 15 de janeiro, em 14 de fevereiro e em 12 de mar&ccedil;o, mas tamb&eacute;m em 29 de mar&ccedil;o de 2019<sup><a href="#calibre_link-55" title="55" id="calibre_link-120" class="noteref">55</a></sup>. Neste contexto, apesar das sucessivas prorroga&ccedil;&otilde;es at&eacute; 31 de janeiro de 2020, May acabou por apresentar a sua demiss&atilde;o a 24 de maio de 2019<sup><a href="#calibre_link-56" title="56" id="calibre_link-121" class="noteref">56</a></sup>.</p>       <p>A fim de compreender a posi&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica de May &eacute; preciso ter presente que assumiu a lideran&ccedil;a do Partido Conservador e o cargo de Primeira-ministra na sequ&ecirc;ncia da demiss&atilde;o de David Cameron logo a seguir ao referendo. Assim, a sua maioria no Parlamento era a que havia resultado da elei&ccedil;&atilde;o de 7 de maio de 2015, em que os conservadores conquistaram 330 assentos e 36,9% dos votos, ficando com uma pequena maioria de doze assentos, no que foi a sua primeira vit&oacute;ria definitiva em vinte e tr&ecirc;s anos<sup><a href="#calibre_link-57" title="57" id="calibre_link-122" class="noteref">57</a></sup>. Todavia, e para surpresa de muitos, Theresa May decidiu convocar elei&ccedil;&otilde;es para fortalecer a sua posi&ccedil;&atilde;o na negocia&ccedil;&atilde;o do Brexit, desde logo no seu pr&oacute;prio partido. Simplesmente, as suas inten&ccedil;&otilde;es sa&iacute;ram frustradas. A elei&ccedil;&atilde;o geral de 2017 resultou num &ldquo;<i>hung parliament</i>&rdquo;, sem que qualquer partido tenha conquistado uma maioria absoluta<sup><a href="#calibre_link-58" title="58" id="calibre_link-123" class="noteref">58</a></sup>. Este resultado ditou o futuro pol&iacute;tico de May.</p>       <p>&nbsp;</p>       <p><b>4.7. Boris Johnson entra em cena</b></p>       <p>Com a sa&iacute;da de Theresa May ficou o caminho livre para Boris Johnson, que iniciou oficialmente fun&ccedil;&otilde;es em 24 de julho de 2019. No dia seguinte, no seu primeiro discurso enquanto Primeiro-ministro Boris Johnson comprometeu-se a assegurar que o Reino Unido estaria fora da Uni&atilde;o Europeia at&eacute; 31 de outubro &ldquo;no ifs or buts&rdquo;<sup><a href="#calibre_link-59" title="59" id="calibre_link-124" class="noteref">59</a></sup>.</p>       <p>Depois de, em 3 de setembro, v&aacute;rios membros do Governo se demitirem, Boris Johnson sofreu, em 24 de setembro, um rev&eacute;s quando o Supremo Tribunal decidiu, atrav&eacute;s do designado caso Miller II<sup><a href="#calibre_link-60" title="60" id="calibre_link-125" class="noteref">60</a></sup>, ser il&iacute;cito o seu pedido &agrave; Rainha de prorrogar o Parlamento por cerca de cinco semanas, naquilo que foi visto como uma manobra para minimizar a possibilidade de os deputados bloquearem um Brexit sem acordo, considerando que em 31 de outubro de 2019 o Reino Unido deixaria a Uni&atilde;o sem acordo se antes n&atilde;o fossem conclu&iacute;das as negocia&ccedil;&otilde;es para o efeito<sup><a href="#calibre_link-61" title="61" id="calibre_link-126" class="noteref">61</a></sup>. De acordo com esta manobra, o Parlamento, que havia entrado em recesso em 10 de setembro, deveria reassumir fun&ccedil;&otilde;es apenas no dia 14 de outubro.</p>       <p>Entretanto, o Parlamento foi dissolvido em 29 de outubro, em face da impossibilidade de se fazer aprovar um acordo de retirada, sendo marcadas elei&ccedil;&otilde;es para 12 de dezembro, nas quais o Partido Conservador obteve a sua mais expressiva maioria desde 1987<sup><a href="#calibre_link-62" title="62" id="calibre_link-127" class="noteref">62</a></sup>.</p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em 17 de outubro foi alcan&ccedil;ado um novo acordo de retirada entre o Governo liderado por Johnson e a Comiss&atilde;o Europeia, que veio a ser assinado em 24 de janeiro de 2020 e ratificado pelo Parlamento do Reino Unido em 29 de janeiro e pela Uni&atilde;o no dia seguinte. Em 31 de janeiro de 2020, o Reino Unido estava fora da Uni&atilde;o Europeia<sup><a href="#calibre_link-63" title="63" id="calibre_link-128" class="noteref">63</a></sup>.</p>       <p>Coloca-se, desde logo, a quest&atilde;o de saber em que medida o acordo obtido por Johnson difere do acordo alcan&ccedil;ado por Theresa May. Como se viu, o &ldquo;<i>backstop</i>&rdquo; (que podemos talvez melhor traduzir como &ldquo;recuo&rdquo;, ou &ldquo;salvaguarda&rdquo;) exigiria manter a Irlanda do Norte em alguns aspetos do mercado &uacute;nico, at&eacute; que um acordo alternativo fosse acordado entre a UE e o Reino Unido. A proposta tamb&eacute;m previa, como vimos acima, que o Reino Unido como um todo formasse uma uni&atilde;o aduaneira com a UE at&eacute; que fosse apresentada uma solu&ccedil;&atilde;o para evitar a necessidade de controles alfandeg&aacute;rios no Reino Unido (entre a Irlanda do Norte e a Gr&atilde;-Bretanha). O elemento de &ldquo;recuo&rdquo; consistia em o acordo continuar a ser aplicado indefinidamente, a menos que o Reino Unido e a UE concordassem num acordo diferente, por exemplo, num acordo de livre com&eacute;rcio entre o Reino Unido e a UE no final do per&iacute;odo de transi&ccedil;&atilde;o.</p>       <p>Como facilmente se compreende, governo irland&ecirc;s e os nacionalistas da Irlanda do Norte (a favor de uma Irlanda unida) apoiaram a solu&ccedil;&atilde;o do &ldquo;<i>backstop</i>&rdquo;, enquanto os unionistas (a favor do Reino Unido) se opuseram. No in&iacute;cio de 2019, o Parlamento de Westminster havia j&aacute; votado tr&ecirc;s vezes contra a ratifica&ccedil;&atilde;o do Acordo de Retirada e, portanto, tamb&eacute;m contra o &ldquo;recuo&rdquo;.</p>       <p>Em outubro de 2019, o novo governo liderado por Johnson renegociou o acordo, substituindo o recuo. No novo acordo, o Reino Unido como um todo, incluindo a Irlanda do Norte, fica de fora de uma uni&atilde;o aduaneira com a UE. A Irlanda do Norte ser&aacute; inclu&iacute;da em qualquer futuro acordo comercial do Reino Unido, mas forma de facto uma uni&atilde;o aduaneira com a UE, criando uma fronteira aduaneira no Mar da Irlanda com a Gr&atilde;-Bretanha. Existe tamb&eacute;m um mecanismo de sa&iacute;da unilateral pelo qual a Assembleia da Irlanda do Norte (<i>Stormont assembly</i>) pode optar por deixar a uni&atilde;o aduaneira com a UE por meio de uma vota&ccedil;&atilde;o por maioria simples.</p>       <p>Enquanto o acordo de Theresa May preconizava uma uni&atilde;o aduaneira entre o Reino Unido como um todo e a UE, com a Irlanda do Norte como uma esp&eacute;cie de <i>tertium genus</i> (parte do mercado &uacute;nico, mas apenas quanto a mercadorias). Johnson obteve uma uni&atilde;o aduaneira <i>de facto</i> entre a UE e a Irlanda do Norte, estando esta, todavia, integrada <i>de iure</i> no territ&oacute;rio aduaneiro do Reino Unido.</p>       <p>Em resumo, isto significa que a Irlanda do Norte permanecer&aacute; alinhada com a uni&atilde;o aduaneira da UE, mas estar&aacute; no territ&oacute;rio aduaneiro do Reino Unido, o que significa que, se houver acordos comerciais futuros, a Irlanda do Norte beneficiar&aacute; de tais acordos.</p>       <p>Na pr&aacute;tica, este esquema tem como consequ&ecirc;ncias que, se as mercadorias forem enviadas da Gr&atilde;-Bretanha para a Irlanda do Norte, nenhuma tarifa ser&aacute; aplicada; se as mercadorias forem enviadas da Gr&atilde;-Bretanha atrav&eacute;s da Irlanda do Norte para a Irlanda, as tarifas ser&atilde;o aplicadas, mas ser&atilde;o cobradas nos portos e aeroportos &ndash; efetivamente colocando uma fronteira aduaneira ao longo do Mar da Irlanda; para as mercadorias enviadas da Irlanda para a Irlanda do Norte, n&atilde;o haver&aacute; tarifas, e para mercadorias que viajem da Irlanda pela Irlanda do Norte para a Gr&atilde;-Bretanha, haver&aacute; tarifas cobradas na fronteira aduaneira do Mar da Irlanda<sup><a href="#calibre_link-64" title="64" id="calibre_link-129" class="noteref">64</a></sup>. Tudo isto parece extremamente complexo e, sobretudo, parece gerar uma grande incerteza quanto ao futuro.</p>       <p>&nbsp;</p>       <p><b>5. Depois do Brexit</b></p>       <p>A exposi&ccedil;&atilde;o anterior mostra bem, espera-se, a enorme complexidade de um processo desencadeado por uma decis&atilde;o simples. Mostra tamb&eacute;m a pertin&ecirc;ncia atual da afirma&ccedil;&atilde;o de uma afirma&ccedil;&atilde;o de 1962 do pol&iacute;tico norte-americano Dan Acheson: &ldquo;a Gr&atilde;-Bretanha perdeu um imp&eacute;rio, mas ainda n&atilde;o encontrou um novo papel a desempenhar&rdquo;<sup><a href="#calibre_link-65" title="65" id="calibre_link-130" class="noteref">65</a></sup>. O desempenho de um papel ativo, com as suas idiossincrasias pr&oacute;prias, na lideran&ccedil;a da Europa parece ter sido rejeitado em nome n&atilde;o se sabe bem ainda do qu&ecirc;.</p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Aquilo que aqui importa real&ccedil;ar &eacute;, todavia, um outro aspeto. Trata-se do modo como o Brexit n&atilde;o foi mobilizado no contexto de uma reforma do sistema pol&iacute;tico ingl&ecirc;s, mas antes foi, de facto, utilizado como instrumento de reafirma&ccedil;&atilde;o do Partido Conservador e de uma vis&atilde;o tradicional do sistema parlamentar. S&atilde;o esses aspetos que cabe desenvolver em pr&oacute;ximo artigo.</p>       <p>&nbsp;</p>       <br>       <br>       <br>       <div id="footnotes">     <dl id="calibre_link-1" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-66" title="1" class="calibre8">1</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. Christopher Clark, <i>The Sleepwalkers: How Europe Went to War in 1914</i>, London, Allen Lane, 2012, p. 562.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-2" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-67" title="2" class="calibre8">2</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. Clark, <i>The Sleepwalkers</i>, p. xxix.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-3" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-68" title="3" class="calibre8">3</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. Pippa Norris e Ronald Inglehart, <i>Cultural Backlash: Trump, Brexit, and Authoritarian Populism</i>, Cambridge, Cambridge University Press, 2019, p. 368.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-4" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-69" title="4" class="calibre8">4</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Segundo a express&atilde;o de Kevin O&rsquo;Rourke, <i>A Short History of Brexit: From Brentry to Backstop</i>, Pellican, 2019.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-5" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-70" title="5" class="calibre8">5</a></dt>       <dd class="calibre9">             ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Cf. Andrew Roberts, <i>Churchill: Walking with Destiny</i>, London, Penguin Books, 2019, p. 897.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-6" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-71" title="6" class="calibre8">6</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> &ldquo;The first step in the re-creation of the European Family must be a partnership between France and Germany. The structure of the United States of Europe will be such as to make the material strength of a single state less important. And the first practical step would be to form a Council of Europe. France and Germany must take the lead together. Great Britain, the British Commonwealth of Nations, mighty America and I trust Soviet Russia must be the friends and sponsors of the new Europe. Therefore I say to you: Let Europe arise!&rdquo;. Discurso dispon&iacute;vel em <a target="_blank" href="https://www.churchill-in-zurich.ch/en/churchill/en-churchills-zurcher-rede/" class="text_">https://www.churchill-in-zurich.ch/en/churchill/en-churchills-zurcher-rede/</a>, &uacute;ltimo acesso em 1 de setembro de 2020.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-7" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-72" title="7" class="calibre8">7</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. Roberts, <i>Churchill: Walking with Destiny</i>, pp. 900, 917.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-8" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-73" title="8" class="calibre8">8</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. R. G. <span id="calibre_link-131" class="text_1">Adam, <i>Brexit. </i><i>Eine Bilanz</i>, Wiesbaden, Springer, 2019, p. 4.</span></p>       </dd>     </dl>     <span id="calibre_link-131" class="text_1">     <dl id="calibre_link-9" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-74" title="9" class="calibre8">9</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. O&rsquo;Rourke, <i>A Short History of Brexit</i>, p. 70.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-10" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-75" title="10" class="calibre8">10</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. John Holmwood, &ldquo;Exit from the Perspective of Entry&rdquo;, in William Outhwaite (ed.), <i>Brexit: Sociological Responses</i>, London, Anthem Press, 2017, p. 38. </p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-11" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-76" title="11" class="calibre8">11</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Trata-se do <i>Comprehensive Economic and Trade Agreement</i> (CETA), celebrado em Bruxelas em 30 de outubro de 2016.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-12" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-77" title="12" class="calibre8">12</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. O&rsquo;Rourke, <i>A Short History of Brexit</i>, pp. 53-54; Sylvia de Mars <i>et al.</i>,, <i>Bordering Two Unions: Northern Ireland and Brexit</i>, Bristol, Policy Press, 2018, pp. 28-30.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-13" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-78" title="13" class="calibre8">13</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Com o prop&oacute;sito de esclarecer o conceito de mercado comum, vale a pena reproduzir tamb&eacute;m o artigo 3.&ordm; do Tratado de Roma: &ldquo;Para os fins estabelecidos no artigo acima, a a&ccedil;&atilde;o da Comunidade inclui, nas condi&ccedil;&otilde;es e de acordo com os ritmos previstos no presente Tratado:</p>             <p>a) A elimina&ccedil;&atilde;o, entre Estados-Membros, de direitos aduaneiros e restri&ccedil;&otilde;es quantitativas &agrave; entrada e sa&iacute;da de mercadorias, e de todas as outras medidas de efeito equivalente;</p>             ]]></body>
<body><![CDATA[<p>b) O estabelecimento de uma tarifa aduaneira comum e de uma pol&iacute;tica comercial comum para pa&iacute;ses terceiros;</p>             <p>c) A aboli&ccedil;&atilde;o, entre os Estados-Membros, de obst&aacute;culos &agrave; livre circula&ccedil;&atilde;o de pessoas, servi&ccedil;os e capitais;</p>             <p>d) O estabelecimento de uma pol&iacute;tica comum no campo da agricultura;</p>             <p>e) O estabelecimento de uma pol&iacute;tica comum de transportes;</p>             <p>ƒ) O estabelecimento de um sistema que garanta que a concorr&ecirc;ncia n&atilde;o seja distorcida no mercado comum;</p>             <p>g) A aplica&ccedil;&atilde;o de procedimentos que permitam coordenar as pol&iacute;ticas econ&oacute;micas dos Estados-Membros e lidar com os desequil&iacute;brios na balan&ccedil;a de pagamentos;</p>             <p>h) A aproxima&ccedil;&atilde;o das legisla&ccedil;&otilde;es nacionais na medida necess&aacute;ria para o funcionamento do mercado comum;</p>             <p>i) A cria&ccedil;&atilde;o de um Fundo Social Europeu, com o objetivo de melhorar a empregabilidade dos trabalhadores e ajudar a elevar o seu padr&atilde;o de vida;</p>             <p>j) A cria&ccedil;&atilde;o de um Banco Europeu de Investimento, destinado a facilitar a expans&atilde;o econ&oacute;mica da Comunidade atrav&eacute;s da cria&ccedil;&atilde;o de novos recursos;</p>             <p>k) A associa&ccedil;&atilde;o de pa&iacute;ses e territ&oacute;rios ultramarinos, com vista a aumentar o com&eacute;rcio e perseguir em comum o esfor&ccedil;o de desenvolvimento econ&oacute;mico e social&rdquo;.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-14" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-79" title="14" class="calibre8">14</a></dt>       <dd class="calibre9">             ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Cf. Miguel Seabra, &ldquo;Compromisso do Luxemburgo&rdquo;, in Dicion&aacute;rio de Termos Europeus, dispon&iacute;vel em <a href="http://euroogle.com/dicionario.asp?definition=396" class="text_">http://euroogle.com/dicionario.asp?definition=396</a>, &uacute;ltimo acesso em 7 de abril de 2020. </p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-15" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-80" title="15" class="calibre8">15</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. O&rsquo;Rourke, <i>A Short History of Brexit</i>, pp. 59-60.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-16" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-81" title="16" class="calibre8">16</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> E &eacute; preciso n&atilde;o esquecer que a EFTA foi uma cria&ccedil;&atilde;o inspirada pelos brit&acirc;nicos, cria&ccedil;&atilde;o essa que proclamava, at&eacute; pela sua pr&oacute;pria designa&ccedil;&atilde;o, estar mais pr&oacute;xima do ideal do livre com&eacute;rcio: cf. Alan Milward, <i>Politics and Economics in the History of the European Union</i>, London and New York, Routledge, 2005, p. 6. </p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-17" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-82" title="17" class="calibre8">17</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. O&rsquo;Rourke, <i>A Short History of Brexit</i>, p. 68; cf., ainda, Alan S. Milward, <i>The European Rescue of the Nation-State</i>, 2<sup class="calibre10">nd</sup> edition, London and New York, Routledge, 2000, pp. 371-372.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-18" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-83" title="18" class="calibre8">18</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. Adam, <i>Brexit. Eine Bilanz</i>, pp. 20-22.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-19" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-84" title="19" class="calibre8">19</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. O&rsquo;Rourke, <i>A Short History of Brexit</i>, cit., pp. 69-74; Adam, <i>Brexit. </i><i>Eine Bilanz</i>, pp. 23-24.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-20" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-85" title="20" class="calibre8">20</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Veja-se o discurso de Lancaster House de 17 de janeiro de 2017 (o Reino Unido &eacute; &ldquo;one of the firmest advocates for free trade anywhere in the world&rdquo;), dispon&iacute;vel em <a target="_blank" href="https://www.gov.uk/government/speeches/the-governments-negotiating-objectives-for-exiting-the-eu-pm-speech" class="text_">https://www.gov.uk/government/speeches/the-governments-negotiating-objectives-for-exiting-the-eu-pm-speech</a>, &uacute;ltimo acesso em 7 de abril de 2020; o discurso de Floren&ccedil;a de 22 de setembro de 2017 (&rdquo;we share the same set of fundamental beliefs; a belief in free trade, rigorous and fair competition, strong consumer rights, and that trying to beat other countries&rsquo; industries by unfairly subsidising one&rsquo;s own is a serious mistake&rdquo;), dispon&iacute;vel em <a target="_blank" href="https://www.gov.uk/government/speeches/pms-florence-speech-a-new-era-of-cooperation-and-partnership-between-the-uk-and-the-eu" class="text_">https://www.gov.uk/government/speeches/pms-florence-speech-a-new-era-of-cooperation-and-partnership-between-the-uk-and-the-eu</a>, &uacute;ltimo acesso em 7 de abril de 2020; o discurso de Mansion House de 2 de mar&ccedil;o de 2018 (em que o Reino Unido &eacute; apresentado como &ldquo;a champion of free trade&rdquo;), dispon&iacute;vel em <a target="_blank" href="https://www.bbc.com/news/uk-politics-43256183" class="text_">https://www.bbc.com/news/uk-politics-43256183</a>, &uacute;ltimo acesso em 7 de abril de 2020.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-21" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-86" title="21" class="calibre8">21</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. Jamil Anderlini, &ldquo;Britain&rsquo;s colonial crimes come back to haunt trade negotiations&rdquo;, in <i>Financial Times</i>, March 17, 2020, dispon&iacute;vel em <a target="_blank" href="https://www.ft.com/content/224109be-6763-11ea-800d-da70cff6e4d3" class="text_">https://www.ft.com/content/224109be-6763-11ea-800d-da70cff6e4d3</a> , &uacute;ltimo acesso em 7 de abril de 2020 (tradu&ccedil;&atilde;o do autor). </p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-22" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-87" title="22" class="calibre8">22</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. Nathaniel Copsey e Tim Haughton, &ldquo;Farewell Britannia? ‘Issue Capture&rsquo; and the Politics of David Cameron&rsquo;s 2013 EU Referendum Pledge&rdquo;, in <i>Journal of Common Market Studies</i>, 2014, Volume 52 Annual Review, p. 85.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-23" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-88" title="23" class="calibre8">23</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. Andrew Blick, <i>Stretching the Constitution: The Brexit Shock in Historical Perspective</i>, Hart Publishing, Oxford, 2019, p. 13; Nathaniel Copsey e Tim Haughton, <i>JCMS</i>, p. 84; Adam, <i>Brexit. </i><i>Eine Bilanz</i>, pp. 26-28; para uma vis&atilde;o mais aprofundada sobre a disputa entre os trabalhistas que o recurso ao referendo procurou eliminar, cf. David Butler e Uwe Kitzinger, <i>The 1975 Referendum</i>, 2<sup class="calibre10">nd</sup> edition, Basingstoke, Macmillan Press Ltd., 1996, pp. 46-53. </p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-24" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-89" title="24" class="calibre8">24</a></dt>       <dd class="calibre9">             ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Cf. Nathaniel Copsey e Tim Haughton, <i>JCMS</i>, pp. 83-84; Claus Offe, &ldquo;Referendum vs. Institutionalized Deliberation: What Democratic Theorists Can Learn from the 2016 Brexit Decision&rdquo;, in <i>D&aelig;dalus, the Journal of the American Academy of Arts &amp; Sciences</i>, 146 (3) Summer 2017, pp. 17-18; Pippa Norris e Ronald Inglehart, <i>Cultural Backlash</i>, pp. 370-377.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-25" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-90" title="25" class="calibre8">25</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. David Butler e Uwe Kitzinger, <i>The 1975 Referendum</i>, p. 263; Kirby Swales, <i>Understanding the Leave Vote</i>, NatCen Social Research, 2016, p. 4, dispon&iacute;vel em <a href="http://www.natcen.ac.uk/media/1319222/natcen_brexplanations-report-final-web2.pdf" class="text_" lang="en">http://www.natcen.ac.uk/media/1319222/natcen_brexplanations-report-final-web2.pdf</a>, &uacute;ltimo acesso em 7 de abril de 2020.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-26" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-91" title="26" class="calibre8">26</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. Kirby Swales, <i>Understanding the Leave Vote</i>, pp. 4 e 19.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-27" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-92" title="27" class="calibre8">27</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cit. em Andrew Blick, <i>Stretching the Constitution</i>, p. 14; cf., ainda, David Butler e Uwe Kitzinger, <i>The 1975 Referendum</i>, p. 288.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-28" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-93" title="28" class="calibre8">28</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Sobre estes cf. o ju&iacute;zo de Matt Qvortrup, <i>A Tale of Two Referendums: Elite Manipulation or Civic Engagement?</i>, The Constitution Society, London, 2015.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-29" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-94" title="29" class="calibre8">29</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Sobre o sistema de voto alternativo, cf. Pippa Norris, <i>Electoral Engineering: Voting Rules and Political Behavior</i>, Cambridge, Cambridge University Press, pp. 49-50. </p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-30" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-95" title="30" class="calibre8">30</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. Andrew Glencross, &ldquo;Cameron&rsquo;s European Legacy: How Brexit Demonstrates the Flawed Politics of Simple Solutions&rdquo;, in Benjamin Martill e Uta Staiger (eds.), <i>Brexit and Beyond: Rethinking the Futures of Europe</i>, UCL Press, London, 2018, pp. 22 ss. Para al&eacute;m de uma pol&iacute;tica de solu&ccedil;&otilde;es simples, o an&uacute;ncio e realiza&ccedil;&atilde;o do referendo permitiu ainda a subjuga&ccedil;&atilde;o do debate dom&eacute;stico brit&acirc;nico sobre a UE e a integra&ccedil;&atilde;o europeia de maneira mais ampla &agrave; pol&iacute;tica da &ldquo;captura de quest&otilde;es&rdquo; (<i>issue capture</i>), que se refere a uma situa&ccedil;&atilde;o em que um grupo minorit&aacute;rio assume o controle quase total dos termos do debate pol&iacute;tico dom&eacute;stico, com exclus&atilde;o de outras vozes (cf. Nathaniel Copsey e Tim Haughton, <i>JCMS</i>, pp. 77, 80, 83 e 86).</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-31" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-96" title="31" class="calibre8">31</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. Andrew Blick, <i>Stretching the Constitution</i>, pp. 8-12; sobre a prepara&ccedil;&atilde;o do referendo de 1975 cf., ainda, David Butler e Uwe Kitzinger, <i>The 1975 Referendum</i>, pp. 54 ss.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-32" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-97" title="32" class="calibre8">32</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. Andrew Blick, <i>Stretching the Constitution</i>, pp. 76-77.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-33" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-98" title="33" class="calibre8">33</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. Claus Offe, <i>D&aelig;dalus</i>, p. 18. Sobre as possibilidades de regular o referendo, incluindo n&atilde;o s&oacute; os requisitos do qu&oacute;rum e maioria qualificada, mas tamb&eacute;m os aspetos relativos &agrave; defini&ccedil;&atilde;o do eleitorado, ao financiamento e dura&ccedil;&atilde;o da campanha e &agrave; exig&ecirc;ncia de um per&iacute;odo de reflex&atilde;o, considerando a import&acirc;ncia do assunto sobre o qual os eleitores foram chamados a pronunciar-se, cf. Claus Offe, <i>D&aelig;dalus</i>, pp. 19-20; Matt Qvortrup, <i>A Tale of Two Referendums</i>, pp. 20-31.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-34" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-99" title="34" class="calibre8">34</a></dt>       <dd class="calibre9">             ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Cf. Andrew Blick, <i>Stretching the Constitution</i>, p. 13.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-35" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-100" title="35" class="calibre8">35</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. Discurso de Theresa May de 13 de julho de 2016, dispon&iacute;vel em <a target="_blank" href="https://www.conservativehome.com/parliament/2016/06/theresa-mays-launch-statement-full-text.html" class="text_">https://www.conservativehome.com/parliament/2016/06/theresa-mays-launch-statement-full-text.html</a>, &uacute;ltimo acesso em 31 de agosto de 2020. </p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-36" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-101" title="36" class="calibre8">36</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. Pippa Norris e Ronald Inglehart, <i>Cultural Backlash</i>, pp. 375, 395.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-37" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-102" title="37" class="calibre8">37</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. Discurso de Theresa May de 17 de janeiro de 2017, dispon&iacute;vel em <a target="_blank" href="https://www.gov.uk/government/speeches/the-governments-negotiating-objectives-for-exiting-the-eu-pm-speech" class="text_">https://www.gov.uk/government/speeches/the-governments-negotiating-objectives-for-exiting-the-eu-pm-speech</a>, &uacute;ltimo acesso em 7 de abril de 2020.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-38" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-103" title="38" class="calibre8">38</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p class="block_9" lang="en"> &ldquo;Britain wants to remain a good friend and neighbour to Europe. Yet I know there are some voices calling for a punitive deal that punishes Britain and discourages other countries from taking the same path.</p>             <p class="block_9" lang="en">That would be an act of calamitous self-harm for the countries of Europe. And it would not be the act of a friend. Britain would not &ndash; indeed we could not &ndash; accept such an approach. And while I am confident that this scenario need never arise &ndash; while I am sure a positive agreement can be reached &ndash; I am equally clear that no deal for Britain is better than a bad deal for Britain&rdquo;.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-39" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-104" title="39" class="calibre8">39</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. Adam, <i>Brexit. Eine Bilanz</i>, p. 180.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-40" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-105" title="40" class="calibre8">40</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. Kevin O&rsquo;Rourke, <i>A Short History of Brexit</i>, p. 213.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-41" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-106" title="41" class="calibre8">41</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. Michael White, &ldquo;No Boris, you can&rsquo;t have your Brexit cake and eat it too&rdquo;, in <i>The Guardian</i>, 22 February 2016, dispon&iacute;vel em <a target="_blank" href="https://www.theguardian.com/politics/2016/feb/22/no-boris-johnson-you-cant-have-your-brexit-cake-and-eat-it-too" class="text_" lang="en">https://www.theguardian.com/politics/2016/feb/22/no-boris-johnson-you-cant-have-your-brexit-cake-and-eat-it-too</a>, &uacute;ltimo acesso em 6 de fevereiro de 2020.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-42" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-107" title="42" class="calibre8">42</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> No essencial, essas concess&otilde;es envolviam os seguintes aspetos: <i>(i)</i> o Reino Unido ficaria isento de &ldquo;uma uni&atilde;o sempre mais estreita&rdquo; que viesse a constar dos tratados; <i>(ii)</i> a possibilidade de um consenso de 55% dos parlamentos nacionais bloquear uma proposta da Comiss&atilde;o; <i>(iii)</i> a possibilidade de limitar o acesso de trabalhadores migrantes provenientes de outros pa&iacute;ses da UE a benef&iacute;cios n&atilde;o contributivos por um per&iacute;odo de at&eacute; quatro anos a contar do in&iacute;cio da rela&ccedil;&atilde;o de trabalho; <i>(iv)</i> uma proposta de altera&ccedil;&atilde;o do Regulamento (CE) n.&ordm; 883/2004 do Parlamento Europeu e do Conselho relativo a` coordena&ccedil;&atilde;o dos sistemas de seguran&ccedil;a social, a fim de dar aos Estados-Membros, no que diz respeito a` exporta&ccedil;&atilde;o de presta&ccedil;&otilde;es familiares por filhos a cargo para um Estado-Membro diferente daquele onde o trabalhador reside, a possibilidade de indexar essas presta&ccedil;&otilde;es a`s condi&ccedil;&otilde;es do Estado-Membro onde os filhos residem; <i>(v)</i> a garantia de que pa&iacute;ses fora da zona do euro, como a Gr&atilde;-Bretanha, n&atilde;o ser&atilde;o obrigados a financiar resgates em euros e ser&atilde;o reembolsados pelos fundos centrais da UE usados para sustentar o euro; <i>(vi)</i> redu&ccedil;&atilde;o da regulamenta&ccedil;&atilde;o dos mercados. Sobre o assunto, cf. &ldquo;EU reform deal: What Cameron wanted and what he got&rdquo;, dispon&iacute;vel em <a target="_blank" href="https://www.bbc.com/news/uk-politics-eu-referendum-35622105" class="text_">https://www.bbc.com/news/uk-politics-eu-referendum-35622105</a>, &uacute;ltimo acesso em 6 de fevereiro de 2020; cf., ainda, as conclus&otilde;es da Reuni&atilde;o do Conselho Europeu (18 e 19 de fevereiro de 2016), dispon&iacute;veis em <a target="_blank" href="https://www.consilium.europa.eu/media/21788/st00001pt16.pdf" class="text_">https://www.consilium.europa.eu/media/21788/st00001pt16.pdf</a>, &uacute;ltimo acesso em 10 de abril de 2020. </p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-43" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-108" title="43" class="calibre8">43</a></dt>       <dd class="calibre9">             ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Dispon&iacute;vel em <a target="_blank" href="https://www.consilium.europa.eu/media/20462/sn00060-en16.pdf" class="text_">https://www.consilium.europa.eu/media/20462/sn00060-en16.pdf</a>, &uacute;ltimo acesso em 8 de fevereiro de 2020. </p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-44" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-109" title="44" class="calibre8">44</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. Kevin O&rsquo;Rourke, <i>A Short History of Brexit</i>, pp. 213-214, 220-221.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-45" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-110" title="45" class="calibre8">45</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cujo texto, conv&eacute;m recordar, &eacute; o seguinte:</p>             <p>&ldquo;1. Qualquer Estado-Membro pode decidir, em conformidade com as respetivas normas constitucionais, retirar-se da Uni&atilde;o.</p>             <p>2. Qualquer Estado-Membro que decida retirar-se da Uni&atilde;o notifica a sua inten&ccedil;&atilde;o ao Conselho Europeu. Em fun&ccedil;&atilde;o das orienta&ccedil;&otilde;es do Conselho Europeu, a Uni&atilde;o negocia e celebra com esse Estado um acordo que estabele&ccedil;a as condi&ccedil;&otilde;es da sua sa&iacute;da, tendo em conta o quadro das suas futuras rela&ccedil;&otilde;es com a Uni&atilde;o. Esse acordo &eacute; negociado nos termos do n.&ordm; 3 do artigo 218.&ordm; do Tratado sobre o Funcionamento da Uni&atilde;o Europeia. O acordo &eacute; celebrado em nome da Uni&atilde;o pelo Conselho, deliberando por maioria qualificada, apo´s aprova&ccedil;&atilde;o do Parlamento Europeu.</p>             <p>3. Os Tratados deixam de ser aplica´veis ao Estado em causa a partir da data de entrada em vigor do acordo de sa&iacute;da ou, na falta deste, dois anos apo´s a notifica&ccedil;&atilde;o referida no n.&ordm; 2, a menos que o Conselho Europeu, com o acordo do Estado-Membro em causa, decida, por unanimidade, prorrogar esse prazo. </p>             <p>4. Para efeitos dos n.&ordm;s 2 e 3, o membro do Conselho Europeu e do Conselho que representa o Estado-Membro que pretende retirar-se da Uni&atilde;o n&atilde;o participa nas delibera&ccedil;&otilde;es nem nas decis&otilde;es do Conselho Europeu e do Conselho que lhe digam respeito. A maioria qualificada &eacute; definida nos termos da al&iacute;nea b) do n.&ordm; 3 do artigo 238.&ordm; do Tratado sobre o Funcionamento da Uni&atilde;o Europeia.</p>             <p>5. Se um Estado que se tenha retirado da Uni&atilde;o voltar a pedir a ades&atilde;o, &eacute; aplic&aacute;vel a esse pedido o processo referido no artigo 49.&ordm;.&rdquo;</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-46" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-111" title="46" class="calibre8">46</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. Paul Craig, &ldquo;The Process: Brexit and the Anatomy of Article 50&rdquo;, in Federico Fabbrini (org.), <i>The Law &amp; Politics of Brexit</i>, Oxford, Oxford University Press, 2017, p. 53.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-47" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-112" title="47" class="calibre8">47</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> O t&iacute;tulo do ato legislativo em causa &eacute; &ldquo;Para Conferir poder ao primeiro-ministro para notificar, nos termos do artigo 50.&ordm;, n.&ordm; 2, do Tratado da Uni&atilde;o Europeia, a inten&ccedil;&atilde;o do Reino Unido de se retirar da EU&rdquo;.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-48" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-113" title="48" class="calibre8">48</a></dt>       <dd class="calibre9">             ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Cf. Paul Craig, <i>The Law &amp; Politics of Brexit</i>, pp. 51-52.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-49" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-114" title="49" class="calibre8">49</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Dispon&iacute;veis em <a target="_blank" href="https://www.consilium.europa.eu/en/press/press-releases/2017/04/29/euco-brexit-guidelines/" class="text_">https://www.consilium.europa.eu/en/press/press-releases/2017/04/29/euco-brexit-guidelines/</a>, &uacute;ltimo acesso em 8 de fevereiro de 2020.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-50" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-115" title="50" class="calibre8">50</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. Kevin O&rsquo;Rourke, <i>A Short History of Brexit</i>, pp. 236-237.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-51" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-116" title="51" class="calibre8">51</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. Kevin O&rsquo;Rourke, <i>A Short History of Brexit</i>, p. 279; Sylvia de Mars <i>et al.</i>, <i>Bordering Two Unions</i>, pp. 53-56.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-52" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-117" title="52" class="calibre8">52</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. Kevin O&rsquo;Rourke, <i>A Short History of Brexit</i>, p. 281.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-53" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-118" title="53" class="calibre8">53</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. &ldquo;Communication from the Commission to the European Council (Article 50), 8 December 2017, dispon&iacute;vel em <a target="_blank" href="https://ec.europa.eu/commission/sites/beta-political/files/1_en_act_communication.pdf" class="text_" lang="en">https://ec.europa.eu/commission/sites/beta-political/files/1_en_act_communication.pdf</a>&rdquo;, &uacute;ltimo acesso em 8 de fevereiro de 2020. </p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-54" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-119" title="54" class="calibre8">54</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. &ldquo;Communication from the Commission to the European Council (Article 50), 8 December 2017, dispon&iacute;vel em <a target="_blank" href="https://ec.europa.eu/commission/sites/beta-political/files/1_en_act_communication.pdf" class="text_" lang="en">https://ec.europa.eu/commission/sites/beta-political/files/1_en_act_communication.pdf</a>&rdquo;, &uacute;ltimo acesso em 8 de fevereiro de 2020.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-55" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-120" title="55" class="calibre8">55</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. Tom Edgington,&ldquo;What Brexit deal did MPs reject?&rdquo;, 29 March 2019, dispon&iacute;vel em <a target="_blank" href="https://www.bbc.com/news/uk-politics-47745831" class="text_">https://www.bbc.com/news/uk-politics-47745831</a>, &uacute;ltimo acesso em 2 de setembro de 2020.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-56" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-121" title="56" class="calibre8">56</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. &ldquo;Theresa May resigns over Brexit: What happened?&rdquo;, 24 May 2019, dispon&iacute;vel em <a target="_blank" href="https://www.bbc.com/news/uk-politics-48379730" class="text_">https://www.bbc.com/news/uk-politics-48379730</a>, &uacute;ltimo acesso em 2 de setembro de 2020.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-57" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-122" title="57" class="calibre8">57</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. <i>The May 2015 UK elections</i>, dispon&iacute;vel em <a target="_blank" href="https://www.electoralcommission.org.uk/sites/default/files/pdf_file/UKPGE-report-May-2015-1.pdf" class="text_">https://www.electoralcommission.org.uk/sites/default/files/pdf_file/UKPGE-report-May-2015-1.pdf</a>, &uacute;ltimo acesso em 9 de fevereiro de 2020. </p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-58" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-123" title="58" class="calibre8">58</a></dt>       <dd class="calibre9">             ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Cf. Vyara Apostolova <i>et al.,</i> <i>General Election 2017: full results and analysis</i>, 2<sup class="calibre10">nd</sup> edition, dispon&iacute;vel em <a target="_blank" href="https://www.parliament.uk/commons-library" class="text_">https://www.parliament.uk/commons-library</a>, &uacute;ltimo acesso em 9 de fevereiro de 2020. </p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-59" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-124" title="59" class="calibre8">59</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. Annabelle Dickson, &ldquo;Boris Johnson pledges to leave the EU on October 31: ‘No ifs, no buts&rsquo;&rdquo;, in <i>Politico</i>, 24.07.2019, dispon&iacute;vel em <a target="_blank" href="https://www.politico.eu/article/boris-johnson-pledges-to-leave-the-eu-on-october-31-no-ifs-no-buts/" class="text_">https://www.politico.eu/article/boris-johnson-pledges-to-leave-the-eu-on-october-31-no-ifs-no-buts/</a>, &uacute;ltimo acesso em 10 de abril de 2020.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-60" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-125" title="60" class="calibre8">60</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. R (Miller) v The Prime Minister and Cherry v Advocate General for Scotland ([2019] UKSC 41), de 24 de setembro de 2019, dispon&iacute;vel em <a target="_blank" href="https://www.supremecourt.uk/cases/docs/uksc-2019-0192-judgment.pdf" class="text_">https://www.supremecourt.uk/cases/docs/uksc-2019-0192-judgment.pdf</a>, &uacute;ltimo acesso em 5 de setembro de 2020.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-61" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-126" title="61" class="calibre8">61</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. Graeme Cowie, <i>Prorogation of Parliament</i>, House of Commons Library Briefing Paper Number 8589, 11 June 2019, pp. 21 ss., dispon&iacute;vel em <a target="_blank" href="https://commonslibrary.parliament.uk/research-briefings/cbp-8589/" class="text_">https://commonslibrary.parliament.uk/research-briefings/cbp-8589/</a>, &uacute;ltimo acesso em 5 de setembro de 2020.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-62" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-127" title="62" class="calibre8">62</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. Elise Uberoi <i>et al.</i>, <i>General Election 2019: Results and Analysis</i>, 2<sup class="calibre10">nd</sup> ed., House of Commons Library Briefing Paper Number CBP 8749, 28 January 2020, p. 10, dispon&iacute;vel em <a target="_blank" href="https://commonslibrary.parliament.uk/research-briefings/cbp-8749/" class="text_">https://commonslibrary.parliament.uk/research-briefings/cbp-8749/</a>, &uacute;ltimo acesso em 2 de setembro de 2020.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-63" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-128" title="63" class="calibre8">63</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. A cronologia dispon&iacute;vel em <a target="_blank" href="https://www.consilium.europa.eu/en/policies/eu-uk-after-referendum/" class="text_">https://www.consilium.europa.eu/en/policies/eu-uk-after-referendum/</a>, &uacute;ltimo acesso em 9 de fevereiro de 2020. </p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-64" class="footnote">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-129" title="64" class="calibre8">64</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. Gr&aacute;inne N&iacute; Aodha, &ldquo;There are three main differences between Theresa May&rsquo;s Brexit deal and Boris Johnson&rsquo;s one&rdquo;, Oct 19th 2019, in <a target="_blank" href="https://www.thejournal.ie/theresa-mays-brexit-deal-and-boris-johnson-4856832-Oct2019/" class="text_" lang="en">https://www.thejournal.ie/theresa-mays-brexit-deal-and-boris-johnson-4856832-Oct2019/</a>, &uacute;ltimo acesso em 9 de fevereiro de 2020. As tr&ecirc;s diferen&ccedil;as consistem num arranjo alternativo para o &ldquo;<i>backstop</i>&rdquo; irland&ecirc;s, um mecanismo de consentimento para a Assembleia da Irlanda do Norte e a ado&ccedil;&atilde;o de &ldquo;<i>level-playing-field provision</i>&rdquo;, isto &eacute;, o que significa um termo de pol&iacute;tica comercial que se refere a um conjunto de regras e padr&otilde;es comuns usados primariamente para impedir que empresas de um pa&iacute;s prejudiquem seus rivais em outros pa&iacute;ses, em &aacute;reas como direitos dos trabalhadores e prote&ccedil;&atilde;o ambiental.</p>       </dd>     </dl>     <dl id="calibre_link-65" class="footnote1">       <dt class="calibre7"><a href="#calibre_link-130" title="65" class="calibre8">65</a></dt>       <dd class="calibre9">             <p> Cf. Anne Applebaum, <i>Twilight of Democracy: Seductive Lure of Authoritarianism</i>, New York, Doubleday, 2020, p. 104.</p>       </dd>     </dl>   </span></div>   <span id="calibre_link-131" class="text_1">     <br> </span></div>      ]]></body>
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