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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[“A formosa maquina do Ceo e da terra”: a procissão do Corpus Domini de 1719 e o papel dos arquitetos Filippo Juvarra e João Frederico Ludovice]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[In 8th June, 1719, Lisbon city was transformed in a holy space, where all Portuguese society, by hierarchic order, venerated the holy Eucharist during the Corpus Domini procession. Traditionally this historical fact was interpreted as evidence of king John V’s devotion, but it was much more. The new aesthetic organization of Corpus Domini’s procession represented, through the arts, the power of portuguese monarchy towards the Holy See and the other european royal crowns and it reflected the dynamic historical context of second and third decades of Eighteen century. The ephemeral architectures built for occasion have been traditionally attributed to the German architect João Frederico Ludovice. The essay problematizes this attribution, focusing on the Filippo Juvarra’s role, the italian architect who has been invited by the portuguese king to project the new royal palace, patriarchal basilica and palace and he was active in Lisbon between January and July 1719.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGO</b></p>     <p><b>&ldquo;A formosa maquina do Ceo e da terra&rdquo;: a procissão do Corpus Domini de 1719    e o papel dos arquitetos Filippo Juvarra e João Frederico Ludovice</b></p> <b>     <p>&ldquo;A formosa maquina do Ceo e da terra&rdquo;: the 1719 Corpus Domini procession and    the role of the architects Filippo Juvarra and João Frederico Ludovice</p> </b>      <p><b>Giuseppina Raggi<a href="#*"><sup>*</sup></a><a name="top*"></a></b></p>     <p>Centro de História d´Aquém e d`Além-Mar, da Faculdade de Ciências Sociais e    Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH-UNL) e Universidade dos Açores    (UAç)</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO</b></p>     <p>No dia 8 de junho de 1719, a cidade de Lisboa foi transformada num espaço sagrado    onde a totalidade da sociedade portuguesa, ordenada hierarquicamente, obsequiou    o Santíssimo Sacramento. Este evento, tradicionalmente interpretado como testemunha    da devoção de D. João V, insere-se num contexto político mais complexo capaz    de visualizar, através das artes, o poder de D. João V e da monarquia lusitana    face à Santa Sé e às outras Coroas europeias. As arquiteturas efémeras construídas    nesta ocasião são tradicionalmente atribuídas ao arquiteto de origem alemã João    Frederico Ludovice. Este ensaio problematiza a questão, focando-se sobre o papel    de Filippo Juvarra, arquiteto italiano convidado pelo rei D. João V, responsável    pelo projeto do novo palácio real, igreja e palácio patriarcais e ativo em Lisboa    entre janeiro e julho de 1719.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>PALAVRAS-CHAVE</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>Corpus Domini</i> / Juvarra / Ludovice / D. João V</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>In 8th June, 1719, Lisbon city was transformed in a holy space, where all Portuguese    society, by hierarchic order, venerated the holy Eucharist during the <i>Corpus    Domini</i> procession. Traditionally this historical fact was interpreted as    evidence of king John V’s devotion, but it was much more. The new aesthetic    organization of <i>Corpus Domini’s</i> procession represented, through the arts,    the power of portuguese monarchy towards the Holy See and the other european    royal crowns and it reflected the dynamic historical context of second and third    decades of Eighteen century. The ephemeral architectures built for occasion    have been traditionally attributed to the German architect João Frederico Ludovice.    The essay problematizes this attribution, focusing on the Filippo Juvarra’s    role, the italian architect who has been invited by the portuguese king to project    the new royal palace, patriarchal basilica and palace and he was active in Lisbon    between January and July 1719.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>KEYWORDS</b></p>     <p><i>Corpus Domini</i> / Juvarra / Ludovice / King John V</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&ldquo;He sem duvida que os Soberanos são imagens de Deos na terra e que no modo    possivel tem semelhança com o mesmo Omnipotente em produzir creaturas novas    pela efficacia do seu poder. Creou aquelle Senhor em hum só instante toda a    formosa maquina do Ceo, e da terra&rdquo;<a href="#1"><sup>1</sup></a><a name="top1"></a>.    Com essas palavras Inácio Barbosa Machado resumiu na <i>Advertencia da sua História    critico-chronologica da Instituiçam da festa, procissam e officio do Corpo Santíssimo    de Christo no Venerável sacramento da Eucharistia</i> o poder simbólico e visual    da procissão do <i>Corpus Domini</i>, ocorrida em Lisboa no dia de 8 de junho    de 1719. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Nesta ocasião, a &ldquo;fecundissima idea da piedosa grandeza&rdquo;<a href="#2"><sup>2</sup></a><a name="top2"></a>    do rei D. João V incidiu de tal maneira no espaço urbano que - apropriando-se    das palavras escritas pelo núncio apostólico alguns dias antes da solenidade    religiosa - &ldquo;si può dire senza affettazione che tutto il giro ben grande di    tal Processione per il cuore della città parerà una chiesa formale, ornata e    coperta per tutti i lati senza vi possa quasi entrar aria&rdquo;<a href="#3"><sup>3</sup></a><a name="top3"></a>.    De facto, neste dia o espaço da cidade tornou-se extensão sem cisões do interior    sagrado da Patriarcal. A vontade de D. João V em transformar Lisboa numa única    igreja, vivenciada pela orquestração da perfeita e ordenada hierarquia social    dos fiéis, converte a cidade no espaço simbólico do reino e do império: um corpo,    cuja cabeça é representada pela monarquia e pela capitalidade de Lisboa e cujos    membros, ordenados no próprio lugar e coordenados entre si, abraçam até as terras    mais longínquas do império.</p>     <p>A procissão do Corpus Domini de 1719 representa a transfiguração imagética    do projecto político-religioso de afirmação e exaltação da monarquia portuguesa    que caracterizou a primeira metade do reinado de D. João V. A tradição historiográfica    privilegiou uma interpretação exclusivamente religiosa deste evento, invocando    (e criticando) o fervor religioso do rei. Sem dúvida, o reinado de D. João V    mostra evidentes traços dos seus gostos e propensões pessoais, porém, a equação    feita pela crítica historiográfica dos finais do século XIX entre gastos excessivos    e zelo religioso de D. João V desvia a compreensão da complexidade política,    simbólica e, por consequência, artística também, desta monumental procissão<a href="#4"><sup>4</sup></a><a name="top4"></a>.</p>     <p><i>O Corpus Domini</i> de 1719 insere-se no amplo movimento político, social    e cultural que caracteriza a corte joanina no segundo e no terceiro decénio    do século XVIII, visando a afirmação da monarquia e do império português face    às outras Coroas europeias<a href="#5"><sup>5</sup></a><a name="top5"></a>.    A procissão de 1719 não foi somente um grandioso evento religioso, mas foi,    principalmente, um ato político de fortíssimo impacto visual: uma afirmação    de poder compartilhada por toda a corte joanina. A elevação em 1717 da capela    real em Patriarcal e a forte referência cultural à história de Roma antiga determinaram    o estabelecimento da dupla relação de Lisboa, enquanto sede patriarcal e capital    de um império ultramarino, com Roma, enquanto capital pontifícia e sede do antigo    império romano.</p>     <p>Esta duplicidade é claramente explicitada na prosa celebrativa de Barbosa Machado:</p>     <blockquote>        <p>O nosso Augusto Monarca […] determinou não só restaurar a primitiva grandeza      da Procissão, mas exceder as memoraveis que fizera seu famoso Avò o invicto      Imperador Carlos V na Cidade de Ausbourg […], as que celebrarão o grande Francisco      I de França na cidade de Pariz […], e Filippe II nos Monarcas de Hespanha      […]. Parecerá incrivel nas futuras idades, o como se pode obrar tanto nos      edificios, que repentinamente se levantarão nas duas Praças mais nobres que      tem Lisboa, que são o Terreiro do Paço, e Rocio; mas estes milagres da arte,      e diligencia, soube conseguir o Senado […] Devemos crer, e persuadirnos que      se os Romanos viessem a Lisboa, e vissem huma só parte daquelle plausivel      dia, perderião a soberba, com que ainda se lembrão dos triunfos dos Emilios,      e da pompa com que celebravão os Cesares, as solemnidades que dedicavão às      suas falsas Divindades, e das festivas entradas dos Titos, e Vespasianos,      de que as Historias daquelle prostrado Imperio fazem agradecida memoria; porque      na Cabeça do mundo gastarão largos annos para levantar arcos, e pyramides.      Mas em Lisboa Occidental se fabricarão maquinas em quatro semanas, que servindo      em poucas horas, merecerão o applauso de muitos seculos<a href="#6"><sup>6</sup></a><a name="top6"></a>.</p> </blockquote>     <p>Para &ldquo;fabricar maquinas em quatro semanas&rdquo; que &ldquo;mereceram o aplauso de muitos    séculos&rdquo; é necessário ter o conhecimento técnico-teórico, a prática e a arte    da ideação e construção de arquiteturas efémeras. Em 1719 estava em Lisboa um    artista que possuía arte, técnica e prática: o arquiteto de origem siciliana    Filippo Juvarra, já ao serviço do marquês de Fontes durante a embaixada extraordinária    em Roma (1712-1718) e convidado para a corte pelo rei D. João V entre janeiro    e julho de 1719<a href="#7"><sup>7</sup></a><a name="top7"></a>.</p>     <p>Durante a estadia na capital lusitana Juvarra elaborou uma série de projetos    monumentais que já começara a idealizar em Roma: o palácio real, a igreja e    palácio patriarcais na Ribeira e o grandioso complexo palatino-patriarcal a    edificar na encosta de Buenos Aires. O facto de estar plenamente absorvido nesta    operação, não impediu Filippo Juvarra de fornecer os desenhos para a armação    efémera da igreja dos Italianos durante a Semana Santa. A qualidade e a criatividade    dos seus esquissos, a facilidade de pôr no papel perspetivas e arquiteturas    são características sublinhadas pelas biografias do artista e demonstradas pelos    próprios desenhos ainda conservados. A experiência no campo da cenografia vivenciada    no círculo romano do cardeal Pietro Ottoboni dotava o arquiteto italiano da    capacidade imediata de oferecer soluções gráficas de grande fascínio e eficácia    visual, como confirma também a descrição do núncio do sepulcro edificado na    igreja de Nossa Senhora do Loreto:</p>     <blockquote>        <p>L’apparato delle chiese per la copia grandissima de lumi di cera in tal giorno      è stato bellissimo e soprattutto ha spiccato quello della Madonna di Loreto      della Nazione Italiana stante una bella macchina di prospettiva fatta secondo      il disegno dato dal sig. Canonico Filippo Juvarra; la Maestà del Re fu a vederla      di notte <u>per lungo tempo non cessando di lodare la disposizione e la ricchezza      […] e la novità del sepolcro isolato e degli altari tutti chiusi</u>, come      se fosse un gran sepolcro, tutta la chiesa era illuminata con sopra 700 grossi      lumi di cera e torce dentro e fuori del prospetto principale<a href="#8"><sup>8</sup></a><a name="top8"></a></p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Filippo Juvarra não executou a obra da máquina efémera, limitou-se a fornecer    o desenho que manifesta claramente a novidade das suas ideias. Entrando na igreja,    o interior é transformado integralmente num &ldquo;gran sepolcro&rdquo; graças ao ocultamento    dos altares laterais e à espetacularidade da &ldquo;bella macchina di prospettiva&rdquo;    construída no espaço da capela-mor. O rei contempla longamente a originalidade    e o efeito impactante da invenção do arquiteto italiano e, por isso, não é desmedido    colocar a hipótese do envolvimento direto de Filippo Juvarra, também, na conceção    da &ldquo;formosa maquina do Ceo e da terra&rdquo;<a href="#9"><sup>9</sup></a><a name="top9"></a>    para a procissão do <i>Corpus Domini</i>. Vários dados apontam para isso.</p>     <p>Embora os documentos até agora conhecidos não mencionem diretamente o nome    do arquiteto italiano, a descrição das arquiteturas efémeras deixada por Barbosa    Machado, as circunstâncias históricas vividas na corte joanina em 1719, o interesse    de D. João V pela &ldquo;maquina&rdquo; de Nossa Senhora do Loreto e a afinidade tipológica    com a solução idealizada e adotada na procissão do <i>Corpus Domini </i>sugerem    e sufragam o envolvimento do arquiteto italiano. Em junho de 1719, D. João V    &ldquo;con la sua solita pietà e zelo in augmento del culto divino [vuole] che si    faccia la processione del Corpus Domini con <u>la maggiore e straordinaria magnificenza</u><a href="#10"><sup>10</sup></a><a name="top10"></a>.    Filippo Juvarra podia garantir-lhe a idealização e orquestração visual de grande    originalidade. A descrição do núncio sobre a transformação do coração da cidade    numa &ldquo;chiesa formale, ornata e coperta per tutti i lati senza che vi possa quase    entrar aria&rdquo;<a href="#11"><sup>11</sup></a><a name="top11"></a> reflete uma    estrutura criativa similar &ldquo;alla novità del sepolcro isolato e degli altari    tutti chiusi, come se fosse un gran sepolcro&rdquo;<a href="#12"><sup>12</sup></a><a name="top12"></a>    realizado na igreja dos Italianos. Igualmente, a &ldquo;bella macchina di prospettiva    fatta secondo il disegno dato dal sig. Canonico Filippo Juvarra&rdquo;<a href="#13"><sup>13</sup></a><a name="top13"></a>,    feita para a Semana Santa, evoca a novidade de invenção e o esplendor de luzes    da capela do Santíssimo da igreja Patriarcal que, nos dias da festa do Corpus    Domini, &ldquo;hera um globo de luzes, e hum retrato do Empyreo. Tinha um throno de    caprichosa invenção, ornado todo de castiçães de prata, e cuberto de ouro&rdquo;<a href="#14"><sup>14</sup></a><a name="top14"></a>.</p>     <p>Como Eduardo Freire de Oliveira lembra e José Manuel Tedim sublinha, toldar    as ruas não era novidade, pois se costumava fazer desde finais do século XVI.    Porém, toldar as ruas utilizando um sistema de mastros, uniformizando armações    e coberturas até o espaço parecer &ldquo;coberto por todos os lados sem que possa    quase passar o ar&rdquo;<a href="#15"><sup>15</sup></a><a name="top15"></a> revela    um projeto de conjunto unitário articulado, como explica Barbosa Machado, entre    &ldquo;a sumptuosa fabrica de edificios, os preciosos ornatos das ruas, e o excelente    adorno da Santa Igreja Patriarchal&rdquo;<a href="#16"><sup>16</sup></a><a name="top16"></a>.    Na extensão simbólica do espaço sagrado da Patriarcal, o espaço sacralizado    da cidade é ritmado por arquiteturas efémeras que nobilitam os pontos nevrálgicos    do percurso (Rossio, Terreiro de Jesus, Arco dos Pregos), aumentando a força    visual e simbólica da ritualização.</p>     <p>Desde 1717, com a divisão da diocese de Lisboa e a elevação da capela-real    em Patriarcal, D. João V começara um movimento de ‘apropriação’ da celebração    e festa do <i>Corpus Domini</i>, sendo a principal procissão do ano e incorporando    a maior carga simbólica para seus objetivos político-religiosos. Esta apropriação    não visava somente a afirmação da monarquia face à Santa Sé e às outras Coroas    europeias, mas manifestava também a convergência, no espaço régio da Ribeira,    do poder político e religioso face à antiga Sé e à cidade oriental. Num momento    de grande efervescência de projetos, D. João V não deixaria escapar a possibilidade    de enaltecer a procissão de Lisboa ocidental com o original contributo da arte    do arquiteto italiano. Nem o marquês de Fontes (agora Abrantes) perderia a ocasião    de transmitir concreta e sensitivamente o poder da monarquia portuguesa, graças    à imaginação da &ldquo;formosa maquina do Ceo e da terra&rdquo;<a href="#17"><sup>17</sup></a><a name="top17"></a>    pelo seu protegido dos tempos romanos.</p>     <p>O envolvimento do marquês de Abrantes resulta evidente, considerando a centralidade    do papel que desempenhava. A sua longa estadia em Roma representava, para D.    João V, a garantia da conformidade das novidades romanas introduzidas na corte.    Em 1718, o rei esperou com impaciência o regresso do diplomata para ter a confirmação    do novo cerimonial estabelecido para a recém-criada Patriarcal e para o seu    Cabido. No mesmo ano, o primeiro plano da igreja do convento de Mafra foi ampliado    tendo em conta a planta da igreja dos jesuítas em Roma<a href="#18"><sup>18</sup></a><a name="top18"></a>.    Da experiência romana o embaixador extraordinário trazia consigo o ‘legado’    de modernização e a sintonia com a política cultural de D. João V. A sua forte    influência na vida social da corte atribuem-lhe um papel de primeira importância    nas escolhas artísticas do segundo e terceiro decénio do século. Os modelos    romanos constituíam uma referência incontornável. A demonstração do poder de    D. João V passava pela complexa dialética com a ‘corte’ do Vaticano. No âmbito    dos projetos artísticos e arquitetónicos, as escolhas do rei confrontavam-se    constantemente com as novidades da cidade pontifícia. Por isso, no momento da    construção da grande máquina efémera, Vieira Lusitano foi incumbido de executar    e enviar a Lisboa desenhos sobre a procissão do <i>Corpus Domini</i> realizada    anualmente em Roma<a href="#19"><sup>19</sup></a><a name="top19"></a>.</p>     <p>O marquês de Abrantes era o refinado tecedor das relações artísticas entre    Roma e Lisboa. Não era o único, mas em 1719 era, sem dúvida, o mais poderoso.    A sua proximidade com a pessoa do rei é sancionada pela posição ocupada no dia    8 de junho. Como relata Barbosa Machado na longa e pormenorizada descrição da    hierarquia seguida durante a procissão, &ldquo;<u>acompanhavão a Sua Magestade o Marquez    de Abrantes seu Gentil homem, Embaixador extraordinario ao Papa Clemente XI</u>.    O Estribeiro mór o Duque D. Jaime do Conselho de Estado, e Presidente da Mesa    da Consciencia, e Ordens, e segundo Duque de Cadaval. O General de Alcobaça    Esmóler mór vestido de habitos Episcopaes com o seu Secretario&rdquo;<a href="#20"><sup>20</sup></a><a name="top20"></a>.    O marquês de Abrantes ocupava um dos lugares de máxima honra e destaque na hierarquização    pormenorizada de todas as partes civis, políticas e religiosas que ele próprio    ajudou a estabelecer.</p>     <p>O pedido por ele enviado ao Senado Ocidental testemunha também o seu direto    envolvimento na organização da ordenada hierarquização do ‘corpo social’ da    procissão. No dia 4 de junho de 1719 o marquês de Abrantes escreve:</p>     <blockquote>        <p>El-rei, meu senhor, é servido que V<i>ossa </i>Ex<i>celencia</i> lhe mande      logo, em distincta relação, a noticia de todos os ministros e officiaes dependentes      da presidencia de V<i>ossa. </i>Ex<i>celencia</i>, e quer tambem saber S<i>ua      </i>Mag<i>estade</i>, com exacção, quaes d’estes e em que logares acompanhavam      as procissões de Corpus quando a ellas ia S<i>ua </i>Mag<i>estade</i>, e quando      não ia, do que tambem V<i>ossa </i>Ex<i>celencia</i> me remetterá a noticia      com a brevidade possivel<a href="#21"><sup>21</sup></a><a name="top21"></a>.    </p> </blockquote>     <p>Este pedido de informação revela a complexa operação desencadeada na corte,    para alcançar o propósito do rei de restaurar &ldquo;aquella modestia, ordem, e disciplina,    que dispuzerão os Concilios, e Padres da Igreja nos mais solemnes actos da sua    religiosa piedade&rdquo;<a href="#22"><sup>22</sup></a><a name="top22"></a>. A ‘restauração’    passava também pela adoção da moda romana nas vestes dos religiosos, ou seja,    pela atenção ao impacto visual da uniformização das roupas. Imposição e lisonja    foram os meios utilizados para realizar em poucas semanas a renovação pretendida.    No dia 23 de maio o núncio comunica à Santa Sé que estão a coser-se mais de    &ldquo;mille cotte nuove e pieghettate all’Italiana supponendosi che siano per i religiosi    Teatini, i PP.i dell’Oratorio, i Gesuiti [...] come anche per chi del clero    secolare volesse scusarsi con il pretesto di non esserne provvisto, ché quelle    alla portoghese sono molto differenti e lisce&rdquo;<a href="#23"><sup>23</sup></a><a name="top23"></a>.    Aproximando-se a data da procissão, a importância do evento determina a complacência    geral: &ldquo;tutti – escreve o núncio - si sono soggettati al zeloso Reale volere,    facendo adesso a gara di procurare berrette e cotte alla romana, e pieghettate    per chi ne ha l’uso&rdquo;<a href="#24"><sup>24</sup></a><a name="top24"></a>. Como    já sublinhado, o ano de 1719 representa o <i>climax</i> do processo de transformação    cultural da corte joanina e de atualização da imagem da monarquia lusitana em    conformidade com a linguagem artística vigente na Europa. Esta vontade de atualização,    entre 1714 e 1716, tinha sido o motor para o obstinado planeamento do <i>Grand    Tour</i> europeu por parte de D. João V. O monarca pretendia viajar fora do    reino durante dois anos num longo périplo pela Espanha, Holanda, Inglaterra,    Alemanha, França e, sobretudo, entre as cidades da península italiana, querendo    &ldquo;ritrovarsi in Roma nella Settimana Santa [del 1717] e quivi farvi dimora almeno    sino al giorno del Corpus Domini&rdquo;<a href="#25"><sup>25</sup></a><a name="top25"></a>.    O interesse para presenciar em Roma a procissão é revertido em 1719: a moda    romana é introduzida em Lisboa e amplificada para alcançar a máxima demonstração    de magnificência, devoção e grandeza do rei e da monarquia portuguesa. Mais    uma vez, a experiência romana e o conhecimento direto do cerimonial e das manifestações    artísticas por parte do marquês de Abrantes e de Filippo Juvarra eram instrumentos    imprescindíveis para o sucesso da vontade de D. João V.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O facto de não se encontrarem registos de pagamentos ao arquiteto italiano    nos documentos dos Senados de Lisboa guardados no Arquivo Municipal explica-se    pela relação privilegiada de Juvarra na corte joanina e, provavelmente, pelo    seu papel de idealização mais do que concretamente projetual. A tradução da    ideia global de renovação estética da procissão do <i>Corpus Domini</i> em máquinas    efémeras construídas e decoradas requeria um intenso trabalho de planeamento,    direção e coordenação das diferentes equipas de artistas e artífices que foi    entregue ao arquiteto João Frederico Ludovice. Tendo em conta que nos meses    de abril e maio, Juvarra estava a elaborar &ldquo;le bellissime piante, e disegni    magnificentissimi […] tanto per la nuova Patriarcale che del Regio Palazzo da    costruirsi in Buenos Aires&rdquo;<a href="#26"><sup>26</sup></a><a name="top26"></a>,    o envolvimento de Ludovice na planificação, realização e montagem da &ldquo;columnata&rdquo;e    dos &ldquo;toldos&rdquo; torna-se imprescindível e, este sim, confirmado pelos documentos.</p>     <p>Os estudos histórico-artísticos do século XX atribuem-lhe exclusivamente a    autoria das arquiteturas efémeras para a procissão de 1719 por causa destas    referências documentais<a href="#27"><sup>27</sup></a><a name="top27"></a> (abaixo    analisadas) mas, principalmente, por causa de interpretações críticas ‘partidárias’:    pro-Juvarra e contra-Ludovice ou pro-Ludovice e contra-Juvarra; todas, de algum    modo, reticentes ao reconhecimento do papel e influência do italiano na arquitetura    portuguesa, apesar de não ter sido concretizado nenhum dos imponentes projetos    por ele elaborados. Noutros estudos tentei compreender a complexa dinâmica cultural    da corte joanina durante a primeira metade do reinado de D. João V, onde a relação    entre Juvarra e Ludovice adquire características menos dicotómicas<a href="#28"><sup>28</sup></a><a name="top28"></a>.    No <i>Mappa de Portugal</i>, João de Castro transmite a dimensão da relação    quando relata:</p>     <blockquote>        <p>[D. João V] mandou chamar à sua Real presença em 7 de fevereiro de 1719 alguns      Fidalgos, Ministros e Medicos pelo que tocava à eleição de hum sitio saudavel,      e Arquitectos, que dirigissem a projecção da grande obra, que intentava. Havia      S. Magestade examinado do mar, e dos lugares mais eminentes os sitios, que      podião entrar em questão em toda a agradavel perspectiva da sua grande Cidade,      tendo mandado tirar huma planta exacta de Lisboa, e reduzindo toda a duvida      à questão de haver de edificarse a Igreja Patriarcal e novo Palacio no lugar,      em que hoje estavão, ou no sitio chamado Buenos Aires na parte da Cidade eminente      à ribeira de Alcantara. [...] Os mais votos se dividirão, porque os Marquezes      de Abrantes, e Minas, o Conde de Assumar, o Padre D. Manoel Caetano e Sousa,      Mons. Berger se inclinavão a edificar no terreiro do Paço. O Marquez de Alegrete,      os Condes de Aveiras. Unhão, Ericeira, Valladares e S. Lourenço e Federico      [Ludovice] forão de parecer, que se preferisse Buenos Aires, e D. Filippe      Ibarra [D. Filippo Juvarra], principal Arquitecto Siciliano, não declarou      o seu voto<a href="#29"><sup>29</sup></a><a name="top29"></a>.</p> </blockquote>     <p>Do trecho resulta evidente que a direção das obras iria contar com ambos os    arquitetos, enquanto que o &ldquo;principal Arquitecto Siciliano&rdquo; estava a idealizar    e delinear todos os desenhos relativos às duas opções (Ribeira ou Buenos Aires),    como confirmam os fólios guardados nas coleções de Turim e as cartas do núncio    apostólico de Lisboa escritas em 1719. A relação entre os dois artistas revelada    pelas fontes documentais não sugere os conflitos que a crítica histórico-artística    posteriormente lhes atribuiu. Ainda por cima, o tratamento privilegiado reservado    por D. João V a Filippo Juvarra é claramente demonstrado pelos documentos da    época e, como convidado de honra do rei, não era concebível que entrasse nas    folhas de pagamento do Senado.</p>     <p>No dia 11 de abril o núncio apostólico relatara o prolongado apreço de D. João    V pelo aparato efémero da igreja de Nossa Senhora do Loreto. No fim do mesmo    mês o monarca devia já ter em suas mãos os desenhos traçados para reconfigurar    &ldquo;con la maggiore e straordinaria magnificenza&rdquo;<a href="#30"><sup>30</sup></a><a name="top30"></a>    a procissão do <i> Domini</i>, podendo transmitir logo ao Senado Ocidental as    instruções necessárias e as quantias certas de materiais para orçamentar a armação    dos toldos. A 2 de maio é emitido o primeiro despacho da corte para o senado.    A idealização da nova veste estética da procissão do <i>Corpus Domini</i>, elaborada    dentro da corte, prevê o envolvimento direto de João Frederico Ludovice para    a sua concretização na cidade. Por enquanto, os dados documentais não fornecem    indicações para distinguir com exatidão as funções exercidas pelos dois arquitetos.    Difícil é dizer se Ludovice traduziu em plantas e alçados todos os esquissos    de Juvarra ou se Juvarra participou para além do nível de ideação e Ludovice    assumiu a direção das obras.</p>     <p>A modalidade de pagamento dos dois arquitetos ajuda a configurar as suas funções    em relação à procissão do <i>Corpus Domini</i> também. João Frederico Ludovice    recebe uma gratificação no ano seguinte. Em junho de 1720, um despacho régio    ordena:</p>     <blockquote>        <p>Que o Senado da Camara de Lixboa Occidental mande dar a João Federico Luduvici      a ajuda de custo que entender se lhe deve dar pello trabalho que teve este      anno, e o passado pellos porticos e collunas, que se fizerão pella ocçazião      das duas procisoes do Corpo de Deos da mesma cidade Deos guarde a Vossa Mercê      Paço a 31 de Julho de 1720<a href="#31"><sup>31</sup></a><a name="top31"></a></p> </blockquote>     <p>Ao longo de 1721 será incumbido de coordenar a reavaliação dos róis apresentados    por artistas e artífices que realizaram as arquitecturas efémeras de 1719. Nestes    documentos Ludovice é designado como &ldquo;arquitecto-mor&rdquo; e desenvolve exclusivamente    o papel de supervisor<a href="#32"><sup>32</sup></a><a name="top32"></a>.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Diversamente, não é possível quantificar a recompensa de Filippo Juvarra para    a idealização das novas arquiteturas efémeras da procissão. Os projetos realizados    durante os seis meses de estadia em Portugal são recompensados como um todo    e o arquiteto italiano deixa Portugal, em julho de 1719, um mês após o <i>Corpus    Domini</i>, com muitas honras, recebendo &ldquo;la mercede di Cavaliere di Cristo,    dandoli [il re] un abito del detto ordine tempestato di sette grossissimi diamanti    del valore di 8/m cruciati almeno, assegnandoli inoltre un’annua pensione finché    vive di mille scudi Romani, ed altri mille per una volta sola per fare il viaggio    di ritorno&rdquo;<a href="#33"><sup>33</sup></a><a name="top33"></a>.</p>     <p>Como descreve Barbosa Machado<a href="#34"><sup>34</sup></a><a name="top34"></a>,    a grandiosa máquina efémera da procissão do <i>Corpus Domini</i> articulava-se    em três elementos: 1) a &ldquo;sumptuosa fabrica de edificios&rdquo;, isto é, os &ldquo;frontespícios&rdquo;,    que marcavam com edifícios efémeros os pontos nevrálgicos do percurso no centro    do Terreiro do Paço, no Arco dos Pregos e na praça do Rossio e as duas &ldquo;columnatas&rdquo;    elevadas ao longo das duas praças; 2) os &ldquo;preciosos ornatos das ruas&rdquo;, isto    é, os &ldquo;toldos&rdquo; sustentados pelos &ldquo;mastros&rdquo; e armados com têxteis e tarjas; 3)    o &ldquo;excelente adorno da Santa Igreja Patriarchal&rdquo;. D. João V resolveu que o custo    da transformação do espaço urbano, isto é, a realização dos pontos 1 e 2 coubesse    aos Senados da cidade<a href="#35"><sup>35</sup></a><a name="top35"></a>. O    espaço urbano era integrado ativamente na extensão sagrada da Real Patriarcal,    ficando a seu cargo a armação e os consertos anuais das &ldquo;columnatas&rdquo;.</p>     <p>No dia 2 de maio de 1719 o secretário Diogo Mendonça Corte Real enviou as primeiras    instruções operativas ao presidente do Senado, o conde da Ribeira Grande, as    seguintes resoluções:</p>     <blockquote>        <p>S<i> Mag</i>estade<i> que Deos </i> tem rezoluto se toldem as ruas por onde      faz transito a procissão do Corpo de Deos desta cid<i>ade</i> occid<i>ental</i>      e he servido q<i>ue</i> V<i>ossa</i> Ex<i>celencia</i> disponha e passe as      ordens necess<i>arias</i> para esse effeito, e <u>a direcção e forma de como      se devem toldar as ruas a há de dar João Federico Ludovice</u> e se V<i>ossa</i>      Ex<i>celencia</i> necessitar de alguns aprestos da Rib<i>eira</i> das Naus      e gente della mo avizará como tão bem da Caza daz obraz dos Paços D<i>eos</i>      <i>guarde</i> a V<i>ossa</i> Ex<i>celencia</i> Paço a 2 de Mayo de 1719 e      que se Vossa Excelencia puder dispor o mesmo para a procição da cid<i>ade      </i>oriental o faça e q<i>ue</i> senão comseguir a executará p<i>ara</i> o      anno<a href="#36"><sup>36</sup></a><a name="top36"></a>. </p> </blockquote>     <p>No dia 7 de maio a troca de informações entre o secretário do rei e o presidente    do senado de Lisboa ocidental começou a ter em conta a delicada questão dos    financiamentos necessários, confirmando entretanto o envolvimento de Ludovice    na parte relativa ao adorno das ruas (ponto n.º2):</p>     <blockquote>        <p>Fazendo pres<i>ente</i> a Mag<i>estade</i> q<i>ue</i> Deos g<i>uarde</i>      o avizo q me fez o escrivão da Cama<i>ra</i> deste Senado em 5 do corrente      e o papel incluzo em q<i>ue</i> vem orsada a despesa q<i>ue</i> se ha de fazer      em se toldar as ruas por onde há de passar a procição do Corpo de Deus me      ordenou respondeçe a V<i>ossa</i> Ex<i>celencia</i> para a referida despesas      se ha de fazer pellas rendas do Senado, sendo neçessario pôr alguna noua impozição      p<i>ara</i> este effeito o fará presente ao mesmo S<i>enhor</i> apontando      a que seja menos grauozo, e João Federico senão tem dado a planta a dará logo:      partecipo a Vossa Excelencia o referido (f. 32v.) p<i>ara</i> q<i>ue</i> seia      prezente ao Senado Deos g<i>uarde</i> a V<i>ossa</i> Ex<i>celencia</i> Paço      7 de Maio de 1719<a href="#37"><sup>37</sup></a><a name="top37"></a></p> </blockquote>     <p>Embora toldar as ruas durante as procissões fosse prática conhecida já nos    séculos anteriores, toldar o &ldquo;coração da cidade [como fosse] uma igreja de verdade,    ornada e fechada por todas as partes&rdquo;<a href="#38"><sup>38</sup></a><a name="top38"></a>    era novidade que requeria pormenorizado projecto. Nos documentos do Arquivo    Municipal de Lisboa os termos &ldquo;columnata&rdquo; ou &ldquo;mastros&rdquo; tornam-se, no tempo,    metonímias para indicar todas as partes desmontadas da inteira armação, onde,    além dos pórticos nas duas praças e dos toldos nas ruas do percurso, sobressaem    os &ldquo;edifícios&rdquo; dos quais Barbosa Machado descreve pormenorizadamente seus &ldquo;frontespícios&rdquo;    e que representam as arquiteturas efémeras mais sumptuosas e originais do todo    o conjunto.</p>     <p>A procissão de 1719 representou o momento de expressão máxima da vontade joanina    de afirmar o culto do Santíssimo Sacramento. Graças à presença de Filippo Juvarra,    a festa do <i>Corpus Domini</i> adquiriu a magnificência visual correspondente    ao projeto do rei e, graças à supervisão e ao planeamento de João Frederico    Ludovice, fabricaram-se os materiais necessários para a sua realização, tendo    em vista também a sua repetição todos os anos com a mesma pompa. Por isso, logo    após de 8 de junho de 1719, Lucas Nicolao Tavares da Silva, vedor das obras    da cidade de Lisboa, apresentou uma petição ao Senado para aumento do seu ordenado    que a instituição aprova:</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>        <p>Este Senado tem intentado que a fabrica dos toldos que se puzerão p<i>ara</i>      o dia da procissão do Corpo de Deos da Cidade de Lix<i>boa</i> occid<i>ental</i>      se carrega se em rec<i>eita</i> ao supp<i>licante</i> em hum livro p<i>ara</i>      por elle dar conta da d<i>ita</i> fabrica, e por que este he hum encargo que      não he de sua obrigaão nem expreçam<i>ente</i> <i>do</i> seu regi<i>mento</i>,      não pode ficar so<i>geito</i> á receita e despeza mas tão som<i>ente</i> as      couzas publicas que se metem na Caza das obras e porque a fabrica referida      he de grande importancia, tanto que p<i>ara</i> ella são necess<i>arios</i>      m<i>uitos</i> almazens de que o supp<i>licante </i> ha de ter as chaves p<i>ara</i>      a ter em boa arrecadaçao e a este resp<i>eito</i> sendo hua couza innovada      se lhe deve dar hum ordenado proporcionado ao d<i>ito</i> trabalho e arrecadação      com a d<i>ita</i> fabrica e com a dominação de Almo<i>xarife </i>da dita fabrica      anexa ao de vedor das obraz<a href="#39"><sup>39</sup></a><a name="top39"></a>.</p>       <p>Parece ao Senado que como os toldos, paramentos e mais fabrica com q<i>ue</i>      se toldarão as ruas para a procissão do Corpo de Deus da cid<i>ade</i> occid<i>ental</i>      se compunhão de varias e numerosas pessas, carecem precisamente de duplicados      armazens em que se hão de guardar para os annos subsequentes, e de pessos      de confiança, q<i>ue</i> com cuidado as tenha em boa arrecadaçao e bem acomodadas      para q<i>ue</i> senão possão damnificar, assentou o Senado q<i>ue</i> só na      pessoa do supplicante ficava (f. 299v.) tudo seguro e bem guardado para elle      dar boa conta ao tempo que for necessario por ter do seu bom procedimento      larga experiencia: como porem esta occupaçao por nova e insolita não seja      da incumbencia do seu officio de vedor das obras e de grande encargo na obrigação      a se sogeita, se lhe deve dar de ordenado setenta mil r<i>eis</i> cada anno      a titulo de Almoxarife desta fabrica annexo ao seu officio, a qual se lhe      ha de carregar por inventario em receita viva individualmente em hum livro      particular numerado e rubricado para por elle dar conta judicialmente de tudo      q<i>ue</i> receber; com declaração que vencerá este ordenado somente em q<i>ue</i>      esta arrecadação durar. Lisboa ocidental 26 de Junho de 1719</p>       <p>Conde da Ribeira Grande / Crispim Mascar<i>enhas</i> de Fig<i>ueiredo</i>/Jorge      Freyre de Andrade / Nuno da Costa Pimentel / Claudio Gorgel do Amaral / Francisco      P<i>ereira</i> do [?] / Bartolomu [?] / Pascoal [?] / Joseph da Silva / M<i>anuel</i>      da Silva<a href="#40"><sup>40</sup></a><a name="top40"></a>.</p> </blockquote>     <p>Em 1738 o encargo com Lucas Nicolao Tavares da Silva como Almoxarife da &ldquo;columnada&rdquo;    ainda estava em vigor e a ser pago<a href="#41"><sup>41</sup></a><a name="top41"></a>.    Neste ano uma tempestade danificou muitas peças já montadas para a procissão    e o carpinteiro Joseph Martins Manuel por pedido do desembargador Hieronymo    da Costa de Almeida entregou ao senado uma detalhada relação sobre os reparos    necessários:</p>     <blockquote>        <p>Orsamento que mandou fazer o Dez<i>embargador</i> Hieronymo da Costa de Alm<i>eida</i>      vereador do Senado da Camara que a seu cargo tem as columnatas que se armão      em o terr<i>eiro</i> do Paço, e Rocio p<i>ara</i> a procissão do Corpo de      Deos da cid<i>ade</i> de Lix<i>boa</i> occid<i>ental</i></p>       <p>Jozeph Martins Ma<i>nuel</i> carpint<i>eiro</i> das cid<i>ades</i>; vendo      q<i>ue</i> as ditas columnatas necessitão p<i>ara</i> se tornarem a armar,      he precizo de hum grande conserto, tanto em as pedestaes, como em as columnas,      e capiteis, e simalhas, e dorituras, e paineis que tudo está em mizeravel      estado, e a mayor parte das madeiras podres, e a parte das columnas, e simalhas      que troce para o arco dos pregos que o temporal deitou abaixo, o q<i>ue</i>      tudo se fes em pedaços, e se ha de fazer de novo, e p<i>ara</i> tudo se reedificar      para servir alguns annos emportaraõ os d<i>itos</i> consertos pouco mais ou      menos em dez contos de reis 10:000$000.</p>       <p>E no cazo q<i>ue</i> se mandem fazer as d<i>itas</i> obras será precizo ser      com tempo ao menos quatro ou sinco mezes antes da função por haver pouco sitio      donde se fação com a largueza q<i>ue</i> se fes a primeira vez que antão estavão      os almazens no terreiro do Paço, e por assim o entender em razão do meu officio      o affirmo pelo juramento do meu cargo. Lix<i>boa</i> oriental 11 de Dezembro      de 1738 = Jozeph Martins<a href="#42"><sup>42</sup></a><a name="top42"></a>.</p> </blockquote>     <p>A partir do mês de maio de 1719, quando uma grande mole de artistas e artífices    foi empenhada na realização da nova procissão do <i>Corpus Domini</i>, as arquiteturas    efémeras construídas para o efeito se tornaram um corpo ‘vivo’ reparável e renovável    ao longo dos anos<a href="#43"><sup>43</sup></a><a name="top43"></a>, até a    sua completa destruição causada pelo terramoto de novembro de 1755 que arrasou    os armazéns onde estava desmontado e guardado<a href="#44"><sup>44</sup></a><a name="top44"></a>.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O volume do trabalho executado adquire sua dimensão real, considerando a necessidade    de grandes armazéns para construir e para guardar todas as peças, pintadas ou    douradas, de madeira, ferro, panos, isto é, pedestais, colunas, capitéis, cimalhas,    tetos pintados, tarjas, toldos, mastros, frontispícios, esculturas, anjos, etc.    etc. No dia 8 de maio de 1719 começou o trabalho de realização das peças e vários    despachos do secretário de Estado ocupam-se dos armazéns do Terreiro do Paço,    onde os artífices, coordenados por Ludovice, pudessem trabalhar na construção    de arquiteturas efémeras de grande tamanho. O rei autoriza o uso &ldquo;por alguns    dias [de] alguns dos armazens de madeira que estão […] dezocupados […] no Terreiro    do Paço para nelles trabalharem alguns dos offeciais&rdquo;<a href="#45"><sup>45</sup></a><a name="top45"></a>    e Diogo de Mendonça Corte Real escreve ao conde da Ribeira Grande:</p>     <blockquote>        <p>Logo que recebi o avizo do escrivão da Camara deste Senado avizey aos Marquezes      de Alegrete e Front<i>eira</i> para q<i>ue</i> mandasem entregar os Armazeis      de madeira do terr<i>eiro</i> do Paço e vay a ordem incluza e nos Armazeis      a haverá já para se entregarem as cordas e velas<a href="#46"><sup>46</sup></a><a name="top46"></a>.    </p>       <p>Fazendo prezente a S<i>ua</i> Mag<i>estade</i> que D<i>eos</i> g<i>uarde</i>      os dous avizos do Senado de hontem e hoje foi servido rezolver que se expedisem      as ordens para as barracas Armazeis e todas passey já, e ao Escrivão da Camara      remetti agora a ordem para o Provedor da Alfandega dar os Armazeis do terreiro      do Paço sem embargo da sua replica e tambem João de Leiro tem ordem para dar      o Armazem que pertençe a Caza das obras. [...] D<i>eos</i> g<i>uarde</i> a      V<i>ossa</i> Ex<i>celencia</i>. Paço a 8 de Mayo de 1719<a href="#47"><sup>47</sup></a><a name="top47"></a>.    </p> </blockquote>     <p> As obras de carpinteiro, entalhador e pintor realizadas durante os fervilhantes    dias de maio de 1719 podem ser reconstruídas a partir da centena de fólios relativa    à questão de seus pagamentos. Foi um processo demorado que se alastrou por uns    anos e produziu, em 1721, este manancial de documentos. A queixa começou logo.    Em outubro de 1719 o secretário de Estado escreve ao presidente do Senado:</p>     <blockquote>        <p>S<i>ua</i> Mag<i>estade </i>que Deos g<i>uarde</i> me ordenou avizasse a      V<i>ossa</i> Ex<i>celencia</i> para q<i>ue</i> o fizesse prezente nos senados,      que era servido que se pagase a gente q<i>ue</i> trabalhou na obra que se      fes por occasião da proceção de Corpo de Deos, ainda que seja empenhandose      as rendas actuaes dos senados <i>porq</i>ue<u> os artifeces todos os dias      de audiencia se vem queixar ao mesmo S<i>enhor</i> da dillação do pagamento</u>      D<i>eos </i>g<i>uarde</i> a V<i>ossa</i> Ex<i>celencia </i> Paço 24 de Outubro      de 1719<a href="#48"><sup>48</sup></a><a name="top48"></a>. </p> </blockquote>     <p>Em 1721 a questão ainda não estava resolvida, a apresentação no mês de fevereiro    dos róis dos gastos discriminados por número e qualidade de peças executadas    pelos artistas levantou problemas de excesso de preço, cuja avaliação foi entregue    à coordenação do &ldquo;arquitecto-mor&rdquo; João Frederico Ludovice. Em Março procedeu-se    a uma primeira análise dos róis dos pintores, chamando os pintores António Oliveira    Bernardes e Joseph Teixeira como especialistas da arte. Assim descreve esta    primeira fase do processo o vereador Claudio Gorgel do Amaral:</p>     <blockquote>        <p>Os rois incluzos de q<i>ue</i> tratão as petições dos supp<i>licantes</i>      mostrei ao Architecto mor João Federico Ludovici, e vendo os com atensão,      me dice se lhe podia tirar a tersa parte assim da obra dos porticos de D<i>om</i>      Julio e seus companh<i>eiros</i> como na de M<i>anuel</i> Nunes e mais socios      q<i>ue </i>pintarão e dourarão as colunas; e porq<i>ue</i> o mesmo Architecto      mor entendeu q<i>ue</i> mandace exeminar os d<i>itos</i> rois por professores      da arte, sem embargo do seu parecer, chamei os pintores An<i>tonio</i> de      Oliv<i>eira</i> e Jozeph Teix<i>eira</i> pelo bom conceito q<i>ue</i> tenho      delles, e não serem interessados na obra e emcarregando lhe esta delig<i>encia</i>      vendo e exeminando a obra da pintura q<i>ue</i> tocou a D<i>om</i> Julio e      mais companh<i>eiros</i> q<i>ue</i> pelo seu rol pertendem haver importancia      de 7.570$400 reis, a puzerão em 5.777$600 r<i>ei</i>s. Vindo lhe a tirar 1.792$800      r<i>eis</i>; e fazendo orsam<i>ento</i> a respeito da pintura e dourado das      colunas de Ma<i>nuel</i> Nunes e seus socios q<i>ue</i> pelo seu rol querem      levar 8063$000r<i>ei</i>s, concordarão entre si estar bem feito a resp<i>eito</i>      do gr<i>ande</i> trabalho e desperdicios da funsão; e despois veio a minha      caza o pintor Jozeph Teixeira e declarou q<i>ue</i> sem embargo de ter concordado      com outro pintor An<i>tonio</i> de Oliv<i>eira</i> em estarem as avalições      do d<i>ito</i> rol bem feitas e cuidando com mais vagar declarava entender      em sua consiensia se lhe devia abater coatro mil cruzados.</p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><u>Estas obras forão mandadas fazer por repeditas ordens de S<i>ua</i> Mag<i>estade</i>      q<i>ue</i> D<i>eos</i> <i>guarde</i> com tanto aperto p<i>ela</i> brevid<i>ade</i>      do tempo que se fes com m<i>uitos</i> disperdicios dos materiais e gr<i>ande</i>      trabalho dos artifices</u>, os quais tem esperado p<i>ara</i> ultimos pagam.tos      mais de anno e meyo p<i>elo</i> senado não ter meyos nem ainda d<i>inheiro</i>      a iuro [...] Lixboa Occidental, de M<i>arço</i> 6 de 1721 / Claudio Gorgel      do Amaral<a href="#49"><sup>49</sup></a><a name="top49"></a>. </p> </blockquote>     <p>A dúvida de Joseph Teixeira sobre o possível abatimento de quatro mil cruzados    no rol de Manuel Nunes [Pacheco] adiou a resolução da questão, determinando,    em abril, um segundo encontro entre vereadores, pintores e artistas avaliadores:  </p>     <blockquote>        <p>Os offeciaes que trabalharão na obra dos toldos para a procissão do Corpo      de Deos da cid<i>ade</i> occidental o anno de settecentos e dezanove requererão      ao mesmo senado lhe mandasse pagar o que se lhes devia que constava dos seuz      roes, poes tinhão dado comprimento a tudo o que se lhe tinha mandado fazer,      e puchando o senado por todos os roes, e vendo o grande excesso q<i>ue</i>      havia em todos, e prensipalm<i>ente</i> nos dos Pintores por se lhe haver      mandado as tintas, o ouro, e o maes de que necessitavão; se encarregou a averiguação      dos d<i>itos</i> roes ao Dezembargador Chrespim Mascarenhas de Figueiredo,      e ao Procurador da mesma cidade Franc<i>isco</i> Pereyra de Viveros, para      que os vissem em caza do Thezoureiro das cidades Pedro Vicente da Sylva; mandando      vir a sua prezença todos os offeciaes para verem o que abatião, e dando conta      no senado que os mesmos Pintores habatião quatro centos mil r<i>eis</i> [...]      Parece aos senados fazer prez<i>ente</i> a V<i>ossa</i> Mag<i>estade</i> o      refferido, para que seja servido madar fazer esta avaliação judicialmente      pellas mesmas pessoas com que se informou o dito Procurador Claudio Gorgel      do Amaral, poes consta não são intereçadas na obra de que (f. 172v.) se trata,      como são todos os maes Pintores que há nestas cidades, e ainda nos seus arredores      [...] O Procurador da cid<i>ade </i>Franc<i>isco</i> Pereyra de Viv<i>eiros</i>      conformandosse com o parecer dos Senados, acrescenta que a deligençia que      se fes com os carpinteiros, se fez com todos os maes offeciaes no mesmo dia,      e como foy tão grande a maquina, entenderão os senados que com o abatim<i>ento</i>      que os carpinteiros fizerão de seis mil cruzados ficavão bem servidos [...]      Ao procurador da cidade oriental Claudio Gorgel do Amaral <u>pareçe, que como      estas obras forão feitas sem ajuste, nem preceder de rematação na forma do      Regimento, pelo aperto da brevidade com que foy feita</u>, seja V<i>ossa</i>      Mag<i>estade</i> servido mandar declarar a forma em q<i>ue</i> os Senados      devem mandar fazer estes pagamentos a vista do pareçer do Arquiteto Mor João      Federico, e do que intrepuzerão os Pintores de que fão menção na sua preposta      incluza pelo excesso q<i>ue</i> entende haver nos ditos roes contra a fazenda      dos senados, ainda habatidos os quatro centos mil reis que tirarão em cada      hum. Lix<i>boa</i> occid<i>ental</i> 2 de Abril de 1721<a href="#50"><sup>50</sup></a><a name="top50"></a>.</p> </blockquote>     <p>Considerando as anomalias burocráticas da encomenda e a diatribe entre Senado    e artistas, em junho de 1721 D. João V resolveu ordenar &ldquo;se fizesse nova avalliação    por louvados com asistencia do Architeto João Federico Lodovisse, mostrandosselhe    os rões dos mesmos offeciaez com os seus abatimentos&rdquo;<a href="#51"><sup>51</sup></a><a name="top51"></a>.    Além de relatar a resolução do <i>impasse</i>, os documentos guardados no Arquivo    Municipal permitem reconstruir as equipas de trabalho e suas relações com outros    artistas de Lisboa. Os róis mais polémicos pertenceram aos pintores. Em 1719    atuaram dois grupos. O primeiro foi liderado por D. Julio de Temine, pintor    de origem genovesa, e encarregado de realizar as partes figurativas visíveis    principalmente no interior do pórtico criado pela colunata efémera. Ele próprio    subscreve:</p>     <blockquote>        <p>Diz D<i>om</i> Julio Cezar de Temine e os mais Pintores socios na obra de      Pintura dos Porticos que servirão na solemnidade do dia do Corpo de D<i>eos</i>      [...]q<i>ue</i> elles tem dado int<i>eira</i> satisfação a tudo o q<i>ue</i>lhes      foy ordenado por ordem de V<i>ossa</i> Ex<i>celencia</i>; e segundo a direçcão      do Architecto João Federico Ludovici, e porque querem haver seu pagamento      reprezentão a V<i>ossa</i> Ex<i>celencia</i> o que entendem se lhes deve satisfazer      p<i>ela</i> d<i>ita</i> obra<a href="#52"><sup>52</sup></a><a name="top52"></a>.</p> </blockquote>     <p>e no rol pormenorizado o pintor lista, entre outras obras realizadas na &ldquo;colunata&rdquo;:</p>     <blockquote>        <p>Por sessenta e seis medalhas todas doiradas por ambas as bandas, com seus      serafins pendentes tambem dourados e seus ramilhetes de flores a vinte e sinco      mil r<i>eis</i> cada huma [...] Por vinte e quatro medalhas q<i>ue</i> se      repartirão p<i>elas</i> ruas pintadas, e doiradas por onde foi necess<i>ario</i>      a quatorze mil r<i>eis</i> cada huma [...] Por dois paineis do S<i>antissimo</i>      Sacram<i>ento</i> a sento e sincoenta mil r<i>eis</i> cada hum [...] Por sessenta      e seis panos que formão o tecto dos porticos pintados conforme a idea do Architecto      a sincoenta mil r<i>eis</i> cada hum [...] Por seis panos pintados de Brotesco      amarelo [...] Por sessenta e quatro piramides dos Laureis e Mitras douradas      por huma banda, e os pedestaes com as volutas tambem douradas; e os quadrados      do mesmo modo, e o mais de pedra fingida a dezoito mil r<i>eis</i> cada huma      [...]<a href="#53"><sup>53</sup></a><a name="top53"></a>.</p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Graças ao texto de Barbosa Machado pode-se reconstruir num todo as peças citadas    pelo pintor D. Júlio Temine e seus sócios:</p>     <blockquote>        <p>Nellas [columnas] se adoravão pela face principal diversas imagens, huma      de Christo, representando a sua Effigie ao natural, outras da Senhora, e outras      do Santissimo Sacramento collocado sobre hum caliz, entre muitos resplendores;      no reverso tinhão pintadas sobre ouro as Armas do Eminentissimo Patriarca      e as Reaes do Senado de Lisboa. Para seu ornato tinha cada medalha hum Serafim      de ouro suspenso, e entre azas tinha hum mólho de flores imitadas ao natural.      […] Por cima de toda a simalha se levantou a prumo de cada columnata hum cepo      de varias faces e nelle hum pedestal pyramidal, cujo remate fazia huma voluta      em cada lado […] Este remate, e volta do pedestal erão douradas, e o mais      era marmore branco com veyos azuis: este pedestais sustentavaõ as Armas da      Santa Igreja Patriarcal, que constaõ de hum ramo de platano, e outro de palma      […] e superior a estes ramos se via a Mitra preciosa dourada […] Esta era      o adorno da arquitectura, que tinhão os porticos pela parte exterior, e pela      interior era igualmente magnifica, e bem desenhada; tinhão seu arquitrave,      friso e simalha […] Sobre esta formosa simalha descançava o tecto interior      feito à maneira de esteira de tal sorte que duas columnas por hum lado, e      dua por outro lado, sustentavão hum painel […] Constavão geralmente os porticos      de vinte e quatro paineis, que por serem de grandeza excessiva, cada hum se      compunha de duas metades […] Cada painel fingia uma concavidade de quatro      faces, ornadas de varias molduras […] Em cada hum dos lados mayores se representava      hum cepo, que mostrava pedra azul em forma teathral, fazendo nos dous lados      duas faces directas, sobre as quaes estavão collocados vasos dourados feitos      com bizarria; os que pelas bocas lançavão aromaticos perfumes em obsequio      do Santissimo, que estava pintado em huma medalha no meyo delles. Todas estas      medalhas erão guarnecidas de quartella de perfeita arquitectura, e cada medalha      tinha dous Serafins, que assistião reverentes ao mesmo Senhor Sacramentado.      Das quartellas, que guarnecião medaçhas, sahião muitos festões de flores pintadas      ao natural, e estes festões se prendião em florões dourados, que se colocarão      no tecto em lugares muy proprios, prexos com fitas<a href="#54"><sup>54</sup></a><a name="top54"></a>.</p> </blockquote>     <p>Para realizarem todo o conjunto pictórico, a equipa de Júlio Temine trabalhou    contemporaneamente à liderada por Manuel Nunes Pacheco e Manuel Freire, da qual    faziam parte outros artífices entre os quais Manuel Francisco de Mesquita. Eles    contabilizam a &ldquo;obra que fizemos no Terreiro do Paço e Rocio&rdquo;<a href="#55"><sup>55</sup></a><a name="top55"></a>    e discriminam cada tarefa executada, entre as quais:</p>     <blockquote>        <p>Emporta a obra de dourado e pintura q<i>ue</i> fis por ordem deste supremo      senado o anno passado de 1719 de sociedade com o mestre pintor M<i>anuel</i>      Nunes e mais companheiros em toda a obra das colunas que se puzerão no terreyro      do passo e no rossio; que constava de todos os capiteis e vazos e plintos      e florois de talha e florres grandes e pequenas de xumbo que se puzeraõ pela      simalha [...]<a href="#56"><sup>56</sup></a><a name="top56"></a>.</p> </blockquote>     <p>Na &ldquo;nova avaliação por louvados&rdquo; ordenada por D. João V, o senado serviu-se    dos pintores chamados para o primeiro abatimento decidido em março de 1719,    António de Oliveira Bernardes e Joseph Teixeira. Neste caso, porém, os suplicantes    puderam escolher também dois louvados, indicando para esta tarefa os pintores    Pascoal da Silva e António Pimenta Rolim. No dia 20 de junho de 1721, na presença    de João Frederico Ludovice e dos principais senadores, são redigidos os &ldquo;termos    de juramento e de louvamento&rdquo;<a href="#57"><sup>57</sup></a><a name="top57"></a>.    No dia 30 de junho, reunidas todas as partes, chega-se à conclusão:</p>     <blockquote>        <p>Certificamos nos Antonio de Oliveira Bernardes e Jozeph Teixeira e Antonio      Pimenta e Pascoal da Sylva Pintores e moradores nesta cid<i>ade</i> de Lix<i>boa</i>      que nos fomos ver e avaliar por ordem do senado da Camara occidental as obras      de pintura que fez Dom Julio Sezar e seus companheiros na função do Corpo      de Deus no anno de mil e settecentos e dezanove e achamos o seguinte [....]      (f. 216v.) Lix<i>boa</i> Occi<i>dental </i>Trinta de Junho de 1721 João Federico      Ludovice / Antonio de Oliveira Bernardes / Antonio Pimenta Rolim / Jozeph      Teixeira / Pascoal da Sylva<a href="#58"><sup>58</sup></a><a name="top58"></a>.</p>       <p>Pintura – Certificamos nos Antonio Oliveira Bernardes e Jozeph Teixeira e      Antonio Pimenta e Pascoal da Sylva […] obra de pintura que fez Manoel Nunes      e Manoel Freire e seus companheiros e vimos com muita atenção e achamos que      todas as adições estão postas na boa rezão desde a primeira até a ultima do      seu rol e por assim emtemdermos o juramos [...] declaramos que o contheudo      deste rol com o abatimento dos seis centos e sessenta e seis mil e quinhentos      e quarenta reis que abaterão Manoel Nunes e Manoel Freire e seus companheiros      ficar a fazenda muito utilizada por emtendermos com este abatimento ser muito      racional […] Lix<i>boa</i> Occ<i>idental</i> 30 junho 1721 / João Federico      Ludovice – Pascoal da Sylva – Jozeph Teixeira – Antonio Pimenta Rolim – Antonio      de Oliveira Bernardes<a href="#59"><sup>59</sup></a><a name="top59"></a>.    </p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Os escultores envolvidos na construção dos pórticos foram Domingos da Costa,    Manuel Machado e Claudio Laprada [Claude Laprade]. Eles também apresentam o    rol dos gastos em fevereiro de 1721 &ldquo;da obra de escultura […] pera a nova fabrica    que se fes em o terreiro do Passo e Rosio&rdquo;<a href="#60"><sup>60</sup></a><a name="top60"></a>,    declarando:</p>     <blockquote>        <p>Domingos da Costa Silva e Claudio Laprada mestres do officio de escultor      certificamos que nos fizemos os rematos e figuras p<i>ara</i> os porticos      dos todos do terreiro do passo e rosio que tudo emporta o seguinte: seis figuras      de dozes palmos cada huma de gioelhos todas redondas com suas asas feitas      por ambas as partes [...] Tres paineis de relevado [...] com huma gloria de      Anjos [...] e revistidos de rayos [...] tres remates em forma de pedestais,      dos frontespicios guarnecidos com molduras, quartolas e festois [...]<a href="#61"><sup>61</sup></a><a name="top61"></a>.</p> </blockquote>     <p> Em 22 de fevereiro de 1721 os entalhadores João Vicente e Jerónimo da Costa    tinham entregue também o seu rol, lembrando que &ldquo;fizerão a obra de talha […]    capiteis, vazos e florois para a nova obra que se fes no terreiro do paço e    rocio&rdquo;<a href="#62"><sup>62</sup></a><a name="top62"></a>. António João Lisboa,    mestre &ldquo;latoeiro de fundição&rdquo;, ficou a receber pelo que &ldquo;elle fez por ordem    do Arquiteto João Federico […] os florois e cruzes de chumbo e estanho e mais    couzas <i>necessarias</i> pera a goarniçaõ dos capiteis das colunas e mais obra    nova que se fez em o terreiro do Paço e Rocio&rdquo;<a href="#63"><sup>63</sup></a><a name="top63"></a>.    Mais uma vez a descrição da obra publicada por Inácio Barbosa Machado oferece    a visão geral e o resultado artístico dos trabalhos quantificados e elencados    nos documentos de pagamento. O conjunto é de grande impacto visual e demonstra    a presença de um desenho unitário e inovador, onde pintura, escultura e talha    se fundem e a arquitetura, além de efémera, muito deve à arte e ao conhecimento    da <i>quadratura</i>, isto é, à pintura de espaços verosímeis através do uso    sapiente da perspetiva, das proporções das ordens arquitetónicas, do fingimento    dos materiais e da riqueza dos ornatos:</p>     <blockquote>        <p>No meyo dos porticos tambem se fez outro corpo de quatro pilares quadrados      que junto, e diante de si, tinhão outras quatro columnas, que resaltavão,      e compunhão outras duas fachadas do frontispicio. […] A ordem de tão magnifico      portico era Jonica, muito propria, para os ornamentos com que se revestio      para o dia da solemnidade […] Coroavão-se as columnas, e pilares com huma      larga, e formosa simalha, que tinha molduras de excelente relevo […] No meyo      de cada intercolunio havia dentro do friso hum grande florão dourado, e de      bem feita e relevada talha. Destes florões pendião cincoenta e duas grandes      medalhas […] cubertas de ouro em ambas as faces. […] Pendião estas preciosas      medalhas por varões de ferro do comprimentos de seis palmos; invenção que      resistio ao impulso furioso do vento para não derriballas por terra […] Estes      magestosos frontispicios, que ficavão no meyo dos porticos, mostravão nos      seus vãos triangulares em figuras relevadas hum cordeiro […] Sobre o mysterioso      livro dos sete sellos do Apocalypse, a quem sustentavão muitos Anjos e Serafins,      cercado tudo de luzes, e resplendores […] Sobre os dous resaltos das columnas,      em que principião os frontespicios havia quatro Anjos dourados em cada hum      de doze palmos de alturas; os quaes com reverentes adorações veneravão prostrados      o Divino Cordeiro, e o Augustissimo Sacramento. No ultimo remate, ou termo      destes frontispicios havião uns engraçados pedestaes, a que aos lados acompanhavão      quartellas e festões dourados com medalhas levantadas e guarnecidas de louro      e no meyo a Custodia com o Santissimo […] Esta era o adorno da arquitectura,      que tinhão os porticos pela parte exterior, e pela interior era igualmente      magnifica, e bem desenhada; tinhão seu arquitrave, friso e simalha […] Todas      estas medalhas erão guarnecidas de quartella de perfeita arquitectura, e cada      medalha tinha dous Serafins, que assistião reverentes ao mesmo Senhor Sacramentado.      Das quartellas, que guarnecião medaçhas, sahião muitos festões de flores pintadas      ao natural, e estes festões se prendião em florões dourados, que se colocarão      no tecto em lugares muy proprios, prexos com fitas&rdquo;<a href="#64"><sup>64</sup></a><a name="top64"></a>.</p> </blockquote>     <p>Em 22 de junho de 1721 foram redigidos os termos de juramento e louvor dos    avaliadores das obras de escultura e de talha, escolhidos por ambas as partes.    O Senado de Lisboa Ocidental chamou os escultores Manuel Dias e Manuel de Andrade    Morrião para avaliarem o rol apresentado por Domingos da Costa, Manuel Machado    e Claudio Laprada<a href="#65"><sup>65</sup></a><a name="top65"></a>. Por parte    deles, esses artistas &ldquo;se louvavão para avaliarem as obras que de seu oficio    fizeram para as colunatas e toldos da procissão [...]. em Antonio da Costa e    Domingos Affonço mestres do dito officio&rdquo;<a href="#66"><sup>66</sup></a><a name="top66"></a>.    Como avaliadores da obra de talha, o senado encarregou Miguel Francisco e Joseph    da Costa<a href="#67"><sup>67</sup></a><a name="top67"></a>, enquanto que os    entalhadores &ldquo;João Vicente e Heronimo da Costa e por elles foi dito a mim escrivão    se louvavão para a avaliação que se havia de fazer da obra que fizerão de emtalhado    em os mestres Antonio da Costa e Santos Pacheco&rdquo;<a href="#68"><sup>68</sup></a><a name="top68"></a>.    Assim, os escultores e entalhadores escolhem conjuntamente Antonio da Costa,    nomeando especificamente Santos Pacheco para analisar o rol da talha e Domingo    Affonso o da escultura. No dia 3 de Julho procedeu-se à avaliação da obra de    escultura:</p>     <blockquote>        <p>Dizem-nos os mestres Manoel de Andrade e Manoel Dias e Antonio da Costa e      Domingos Affonso valhem que nos somos noteficados [...] para effeito de medirmos      e avaliarmos as obras que fizerão de seu officio de escultura os mestres Domingos      da Costa e Sylva, e Claudio Laprada, e Manoel Machado [...] o que nos foy      mostrado pello Procurador do Senado Claudio Gorgel de Amaral perante o D<i>ezembargador</i>      Chrespim Mascarenhas e o Arquiteto das obras de S<i>ua</i> Mag<i>estade</i>      q<i>ue</i> Deos g<i>uarde</i> João Federico Lodovicus, e por elles nos foi      dito atendecemos aos abatimentos que os Mestres fazião do vallor da sua despeza,      e as despezas que o senado tinha feito na recuperação da obra por causa do      preço lizo della a respeito da presa com q<i>ue</i> foi obrada em a primeira      função […] (f. 212) que tudo afirmamos [...] se nos foi imposto e declarado      pello Arquiteto João Federico Ludoviquo segundo o decreto de Sua Magestade      (f. 212 v.) afirmamos ser este o liquido preço do seu vallor [...] Lix<i>boa</i>      occi<i>dental</i> em tres de Julho de mil setecentos e vinte hum annos //      Domingos Affonco Vallez / Manoel Dias / Manoel de Andrade / Antonio da Costa      / João Federico Ludovice<a href="#69"><sup>69</sup></a><a name="top69"></a>.</p> </blockquote>     <p>No dia 9 de julho atendeu-se à analise da obra de talha:</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>        <p>Avaliação dos mestres Miguel Francisco e Jozeph Costa e Antonio da Costa      e Sanctos Pacheco das obras de emtalhador […] (f. 215) com todas as condições      que pello dito senado se nos foi em posto e declarado pello arquiteto João      Federico Lodovice segundo o decreto de Sua Magestade que Deos Guarde e afirmamos      ser este o liquido preço de seu valor […] Lix<i>boa</i> occ<i>idental</i>      em nove de Julho de mil e sette centos e vinte e hum, Sanctos Pacheco / Antonio      da Costa / Miguel Francisco e Silva / Jozeph da Costa / João Federico Lodovice<a href="#70"><sup>70</sup></a><a name="top70"></a>.</p> </blockquote>     <p>Em agosto de 1721 o alargado processo estava definitivamente encerrado. A síntese    da diatribe é relatada no documento de nova definição e quitação dos pagamentos    aos artistas:</p>     <blockquote>        <p>Por resolução de 14 de Junho do anno prezente [1721] [...] foy S<i>ua</i>      Mag<i>estade</i> servido ordenar se fizesse nova avalliação por louvados com      asistencia do Architeto João Feredico Lodovisse, mostrandosse lhe os róes      dos mesmos offeciaez com os seus abatimentos, e feita avaliação se fizesse      prezente a V<i>ossa</i> Mag<i>estade</i> [...] E dando os senados logo a execução      a Real rezolução [...] a que asestio tambem o Procurador da Cidade Oriental      Claudio Gorgel do Amaral, por se lhe haver encarregado no principio esta averiguação,      como se vê do escrito junto á mesma consulta, em que fizerão prezente a V<i>ossa</i>      Mag<i>estade</i> o excesso que havia nos róes porque pertendião serem pagos      os Pintores dos Payneis, e da columnas; os Escultores e entalhadores das obras      que havião feito para a fabrica dos toldos da procissão de Corpos, para que      S<i>ua</i> Mag<i>estade</i> fosse servido ordenar se fizesse a dita avaliação      judicialmente; [...] se fizerão as avaliações que constão das certidõez incluzas,      em que concordes os louvados de humas e outras partes com asistencia e aprovação      do Architeto João Federico Lodovici, ao qual se manefestarão os róes, e abatimentos      que se havião feito, e reduzirão as importancias dos ditos róes que os Artifices      das refferidas obras havião fabricado desordenadam<i>ente</i> aos lemites      da razão, tirando em alguns o excesso tão grande que tinhão contra a fazenda      das cidades, como no da obra da Pintura de Dom Julio Sezar de Femini [Temine]      e seus companheiros, que lhe tirarão maes de cinco mil cruzados. (f. 170v.)      Parece aos Senados fazer prezentes a V<i>ossa</i> Mag<i>estade </i>que na      forma das ditas avalliações [...] seja Vossa Magestade servido mandar pagar      a estes Artificez as importancias das suas obras, ficando de nenhum effeito      os róes porque pertenderão serem pagos [...] Lix<i>boa</i> oriental 30 de      Agosto de 1721<a href="#71"><sup>71</sup></a><a name="top71"></a>.</p> </blockquote>     <p>Nos documentos do Arquivo Municipal de Lisboa evidencia-se o grande esforço    que foi feito em 1719 para realizar em tempo, deveras breve, a magnífica máquina    efémera da procissão do <i>Corpus Domini</i>, da qual o núncio apostólico de    Lisboa deixa uma sugestiva memória:</p>     <blockquote>        <p>La gran processione del Corpus Domini fu poi celebrata con tanta straordinaria      magnificenza che non è immaginabile né così facile a farne il racconto, oltre      il suo ordine che mai rimase interrotto benché durasse quasi nove hore, et      il numero de’ processanti passase i 13/m contati, seguitando per ultimo il      <i>Santissi</i>mo portato da Mon<i>senhor</i> Patriarca il Re e suoi fratelli      con il manto dell’Abito di Cristo e dell’atri due ordini di Avis e di Sant’Jago,      il che fu di sommo contentamento alla Maestà Sua, che i giorni precedenti      si era applicato indefessa<i>mente</i> per ordinarla in forma che non vi nascessero      disturbi, né contese, e veramente consegui a pieno l’intento che meritava      il suo gran zelo, pietà e generosità reale. L’apparato delle strade per tutto      il giro che sarà quasi di mezza lega era superbissimo non riconoscendosi dalli      tetti sino a terra alcun segno di muro, e le botteghe erano ridotte in forma      di stanze guarnite tutte di arazzi; li due colonnati erano magnifici, ricchissimamente      (f. 160v.) ornati con damaschi, taffetano e frange d’oro nuove con sue cascate      e gran fiocchi in mezzo di oro, e seta, dicendosi senza esagerazione che tutta      la spesa passerà di 500/m cruciati almeno di denaro sborsato. La quantità      della cera incredibile, il popolo spettatore immenso. <u>Le altre particolarità      più distinte di funzione si grandiosa et inaudita si vederanno brevemente      in una relazione che già si sta imprimendosi non essendo possibile di restringere      in poca carta,</u> mentre infino fece Sua Maestà distribuire circa otto arrobbe      di finissime Pastiglie alli Artisti del giro della Processione per bruciarle      in strada quando questa passò, il che puntualmente eseguirono<a href="#72"><sup>72</sup></a><a name="top72"></a>.</p> </blockquote>     <p>Apesar das palavras do prelado italiano, infelizmente o texto de Barbosa Machado    permaneceu em forma manuscrita até 1755 e redigido em pouquíssimos exemplares.    A decisão de publicá-lo, explicada pelo autor para que o terramoto não destruísse    também a memória do evento, não foi acompanhada por gravuras como era canónico    em impressos sobre celebrações e festas. O facto de não o ter editado logo em    1719, a perda de todos os desenhos de Filippo Juvarra guardados na biblioteca    do Palácio Real da Ribeira e o desconhecimento de fólios de Ludovice que possam    ser relacionados com a planificação, impediu, provavelmente, a difusão da memória    gráfica da grande máquina efémera. Fica a memória descritiva da solenidade celebrada    no dia 8 de junho que, cruzada com os documentos do Arquivo Municipal, permite    imaginar &ldquo;a cores&rdquo; a beleza sumptuosa deste evento extraordinário que, apesar    da firme vontade de D. João V, nunca mais resultou tão composto, participado    e bem sucedido como em 1719<a href="#73"><sup>73</sup></a><a name="top73"></a>:</p>     <blockquote>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Entrando no Terreiro do Paço, a mayor Praça que tem algum Principe de Europa,      fundada nas margens de hum rio tão caudaloso, como he o dourado Tejo, ficava      suspenso o discurso na vista daquella sumptuosa columnata que foy fabricada      em quatro semanas [...] Esta soberba columnata do Terreiro do Paço era tão      dilatada, e occupava tanto vão, que montavão os seus palmos superficiaes […]      bastante terreno para a fabrica de hum Palacio grande: constava toda a sua      maquina de sessenta e huma columnas, e quatorze pilares quadrados, quatro      magestosos frontispicios, cincoenta e duas medalhas, e tanta pyramides, e      remates como pedia o magnifico ornato de tão grande, e magestoso edificio:      começava esta columnata do Palacio Real na porta, com que se communica o Terreiro      do Paco com o largo do relogio, e vinha fechar com huma volta angular no antigo,      e celebrado arco dos pregos, e neste comprimento havia setecentos palmos […]      No angulo dos porticos donde voltão para o arco dos Pregos se formava hum      corpo de quatro pilares quadrados, que pelas partes exteriores tinhaõ resaltos      de columnas inteiras […]<a href="#74"><sup>74</sup></a><a name="top74"></a>.</p> </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>FONTES E BIBLIOGRAFIA</b></p>     <p><b>Fontes manuscritas</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ROMA</b></p>     <p>Archivio Segreto Vaticano</p>     <p><i>Segr. Stato,</i> Portogallo 73 e 75</p>     <p></p>     <p><b>LISBOA</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Arquivo Municipal de Lisboa</b></p>     <p><i>Livro 1º de Consultas e Decretos de D. João V, do Senado Ocidental</i></p> <i>      <p>Livro 8º de Consultas e Decretos de D. João V, do Senado Oriental</p>     <p>Livro 1º de Registo de Consultas e Decretos de D. João V do Senado Ocidental</p>     <p>Livro 13º de Consultas e Decretos de D. João V, do Senado Ocidental</p> </i>      <p>&nbsp;</p>     <p><b>Fontes Impressas</b></p>     <p>CASTRO, João Bauptista de - <i>Mappa de Portugal Antigo e Moderno</i>. Lisboa:    Officina Patriarcal de Francisco Luiz Ameno, 1762-1763. Tomo III.</p>     <p>MACHADO, Ignácio Barbosa - <i>História critico-chronologica da instituiçam    da festa, procissam, e officio do Corpo Santíssimo de Christo… </i>Lisboa: Officina    Patriarcal de Francisco Luiz Ameno, 1759.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Bibliografia</b></p>     <!-- ref --><p>DELAFORCE, Angela - <i>Art and patronage in Eighteenth-Century Portugal.</i>    Cambridge: Cambridge University Press, 2002.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2066974&pid=S2183-3176201400010000700001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>LISBOA, João Luís; MIRANDA, Tiago C. P. dos Reis; OLIVAL, Fernanda (coord.)    - <i>Gazetas manuscritas da Biblioteca Pública de Évora (1729-1731). </i>Lisboa:    Edições Colibri, 2002.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2066976&pid=S2183-3176201400010000700002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>LISBOA, João Luís; MIRANDA, Tiago C. P. dos Reis; OLIVAL, Fernanda (coord.)    - <i>Gazetas manuscritas da Biblioteca Pública de Évora (1732-1734)</i>. Lisboa:    Edições Colibri, 2005.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2066978&pid=S2183-3176201400010000700003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>OLIVEIRA, Eduardo Freire de - <i>Elementos para a História do Município de    Lisboa.</i> Lisboa: Typografia Universal, 1882-1911. 12 Tomos.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2066980&pid=S2183-3176201400010000700004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>PIMENTEL, António Filipe - <i>Arquitectura e poder: o Real Edifício de Mafra.</i>    Lisboa: Livros Horizonte, 1989.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2066982&pid=S2183-3176201400010000700005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>RAGGI, Giuseppina - Lasciare l’orma: os passos de Filippo Juvarra na cidade    de Lisboa entre arquitetura e música. In ALESSANDRINI, Nunziatella (coord.)    [et al.] - <i>Le nove son tanto e tante buone, che dir non se pò Lisboa dos    Italianos: História e Arte (sécs. XIV-XVIII)</i>. Lisboa: Cátedra A. Benveniste,    2013. p. 189-218.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2066984&pid=S2183-3176201400010000700006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>RAGGI, Giuseppina - La circolazione delle opere della stamperia De Rossi in    Portogallo. In ANTINORI, Aloisio (coord.) - <i>Studio d’architettura civile:    gli atlanti d’architettura moderna e la diffusione dei modelli romani nell’Europa    del Settecento. </i>Roma: Quasar, 2013. p. 143-164.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2066986&pid=S2183-3176201400010000700007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>RAGGI, Giuseppina - Filippo Juvarra: Desenhos para Lisboa. In PIMENTEL, António    Filipe (coord.) - <i>A arquitetura imaginária: pintura, escultura, artes decorativas.    </i>Lisboa: MNAA, 2012. p. 180-183.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2066988&pid=S2183-3176201400010000700008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>RAGGI, Giuseppina - Italia &amp; Portogallo: un incrocio di sguardi sull’arte    della quadratura. In SABATINI, Gaetano (coord.) [et al.] - ‘<i>Di buon affetto    e commerzio’: relações luso-italianas nos séculos XV-XVIII.</i> Lisboa: Centro    de História de Além-Mar; FCSH/UNL, 2012. p. 175 - 209.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2066990&pid=S2183-3176201400010000700009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>SCOTTI, Aurora - L’accademia degli Arcadi in Roma e i suoi rapporti con la    cultura portoghese nel primo ventennio del 1700. <i>Bracara Augusta. </i>Porto.    Vol. XXVII, Nº 63 (1973), p. 114-126.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2066992&pid=S2183-3176201400010000700010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>SILVA, Maria Beatriz Nizza da - <i>D. João V.</i> Lisboa: Temas&Debates, 2009.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2066994&pid=S2183-3176201400010000700011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>submissão/submission: 27/02/2014</p>     <p>aceitação/approval: 06/04/2014</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>NOTAS</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#top*"><sup>*</sup></a><a name="*"></a> Giuseppina Raggi, doutorada    em História – História da Arte pelas Universidades de Lisboa e de Bolonha (2005),    é investigadora integrada do Centro de História d´Aquém e d`Além-Mar, da Faculdade    de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH-UNL) e Universidade    dos Açores (UAç), desde 2009. Professora visitante nas Universidades de São    Paulo (USP) Campinas (UNICAMP) e Federal da Bahia (UFBA). Encontra-se a finalizar    a redação do livro <i>As dinâmicas da maravilha: a pintura de quadratura e o    espaço atlântico português.</i> Em 2013 foi curadora da exposição <i>Ilusionismos.</i>    Os tetos pintados do Palácio Alvor (Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga: 8    de março - 26 de maio de 2013). É coordenadora do <i>Scientific Committee</i>    do projeto europeu <i>Bahia 16-19.</i> Salvador da Bahia: American, European,    and African forging of a colonial capital city (Marie Curie Actions, IRSES,    GA-2012-318988). Correio eletrónico: <a href="mailto:giuseppinaraggi@gmail.com">giuseppinaraggi@gmail.com</a></p>     <p><a href="#top1"><sup>1</sup></a><a name="1"></a> MACHADO, Ignácio Barbosa -    <i>História critico-chronologica da instituiçam da festa, procissam, e officio    do Corpo Santíssimo de Christo…</i> Lisboa: Officina Patriarcal de Francisco    Luiz Ameno, 1759. p. 13.</p>     <p><a href="#top2"><sup>2</sup></a><a name="2"></a> MACHADO, Ignácio Barbosa,    <i>op. cit.</i>, p. 3.</p>     <p><a href="#top3"><sup>3</sup></a><a name="3"></a> Archivio Segreto Vaticano    (ASV), <i>Segr. Stato, Portogallo</i> 75, f. 138, datada 5 de junho de 1719.    &ldquo;Pode-se dizer sem exagero que toda a grande volta da Procissão pelo coração    da cidade parecerá uma igreja de verdade ornada e fechada por todos os lados    sem que possa quase entrar o ar&rdquo; (tradução minha). O documento foi parcialmente    transcrito por Aurora Scotti. Cfr. SCOTTI, Aurora - L’accademia degli Arcadi    in Roma e i suoi rapporti con la cultura portoghese nel primo ventennio del    1700. <i>Bracara Augusta</i>. Porto. Vol. XXVII, Nº 63 (1973), p. 128. </p>     <p><a href="#top4"><sup>4</sup></a><a name="4"></a> Cf. OLIVEIRA, Eduardo Freire    de - <i>Elementos para a História do Município de Lisboa.</i> Lisboa: Typografia    Universal, 1885. Tomo I.</p>     <p><a href="#top5"><sup>5</sup></a><a name="5"></a> Refleti e propus uma nova    interpretação sobre a política artística da primeira metade do reinado de D.    João V em RAGGI, Giuseppina - Lasciare l’orma: os passos de Filippo Juvarra    na cidade de Lisboa entre arquitetura e música. In ALESSANDRINI, Nunziatella    (coord.) [et al.] - <i>Le nove son tanto e tante buone, che dir non se pò Lisboa    dos Italianos: História e Arte (sécs. XIV-XVIII).</i> Lisboa: Cátedra A. Benveniste,    2013. p. 189-218.</p>     <p><a href="#top6"><sup>6</sup></a><a name="6"></a> MACHADO, Ignácio Barbosa,    <i>op. cit.</i>, p. 141.</p>     <p><a href="#top7"><sup>7</sup></a><a name="7"></a> Para a bibliografia precedente    veja-se RAGGI, Giuseppina - Filippo Juvarra: desenhos para Lisboa. In PIMENTEL,    António Filipe (coord) - <i>A arquitetura imaginária: pintura, escultura, artes    decorativas.</i> Lisboa: MNAA, 2012. p. 180-183.</p>     <p><a href="#top8"><sup>8</sup></a><a name="8"></a> ASV, <i>Segr. Stato</i>, Portogallo    75, f. 71, datada 11 de abril de 1719. Sublinhados meus.</p>     <p><a href="#top9"><sup>9</sup></a><a name="9"></a> MACHADO, Ignácio Barbosa,    <i>op. cit.</i>, p. 13.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#top10"><sup>10</sup></a><a name="10"></a> ASV, <i>Segr. Stato</i>,    Portogallo 75, f. 124, datada 24 de maio de 1719.</p>     <p><a href="#top11"><sup>11</sup></a><a name="11"></a> ASV, <i>Segr. Stato</i>,    Portogallo 75, f. 138.</p>     <p><a href="#top12"><sup>12</sup></a><a name="12"></a> ASV, <i>Segr. Stato</i>,    Portogallo 75, f. 71.</p>     <p><a href="#top13"><sup>13</sup></a><a name="13"></a> <i>Ibidem</i>.</p>     <p><a href="#top14"><sup>14</sup></a><a name="14"></a> MACHADO, Ignácio Barbosa,    <i>op. cit.</i>, p. 149.</p>     <p><a href="#top15"><sup>15</sup></a><a name="15"></a> ASV, <i>Segr. Stato</i>,    Portogallo 75, f. 138. Tradução minha.</p>     <p><a href="#top16"><sup>16</sup></a><a name="16"></a> MACHADO, Ignácio Barbosa,    <i>op. cit.</i>, p. 141.</p>     <p><a href="#top17"><sup>17</sup></a><a name="17"></a> MACHADO, Ignácio Barbosa,    <i>op. cit.</i>, p. 3.</p>     <p><a href="#top18"><sup>18</sup></a><a name="18"></a> Para as diferentes interpretações    sobre o palácio-convento de Mafra veja-se RAGGI, Giuseppina - La circolazione    delle opere della stamperia De Rossi in Portogallo. In Antinori, Aloisio (coord.)    - <i>Studio d’architettura civile: gli atlanti d’architettura moderna e la diffusione    dei modelli romani nell’Europa del Settecento.</i> Roma: Quasar, 2013. p. 143-164.</p>     <p><a href="#top19"><sup>19</sup></a><a name="19"></a> DELAFORCE, Angela - <i>Art    and patronage in Eighteenth-Century Portugal.</i> Cambridge:Cambridge University    Press, 2002.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#top20"><sup>20</sup></a><a name="20"></a> MACHADO, Ignácio Barbosa,    <i>op. cit.</i>, p. 196. Sublinhado meu.</p>     <p><a href="#top21"><sup>21</sup></a><a name="21"></a> Veja-se OLIVEIRA, Eduardo    Freire de, <i>op. cit,</i> tomo XI, p. 324. O documento encontra-se no Arquivo    Municipal de Lisboa (AML), <i>Livro 1º de Registos, Consultas e Decretos de    D. João V, do Senado Ocidental,</i> f. 123. A maioria dos documentos do Arquivo    Municipal de Lisboa relativos à procissão do Corpo de Deus foram citados e em    parte transcritos por OLIVEIRA, Eduardo Freire, nomeadamente nos tomos I e XI.</p>     <p><a href="#top22"><sup>22</sup></a><a name="22"></a> MACHADO, Ignácio Barbosa,    <i>op. cit.</i>, p. 3-4.</p>     <p><a href="#top23"><sup>23</sup></a><a name="23"></a> ASV, <i>Segr. Stato</i>,    Portogallo 75, f. 124, datada 23 de maio de 1719.</p>     <p><a href="#top24"><sup>24</sup></a><a name="24"></a> ASV, <i>Segr. Stato</i>,    Portogallo 75, f. 138-140, datada 5 de junho de 1719.</p>     <p><a href="#top25"><sup>25</sup></a><a name="25"></a> ASV, <i>Segr. Stato</i>,    Portogallo 73, f. 7, datada 7 de janeiro de 1716. Sobre o projeto do Grand Tour    europeu de D. João V veja-se RAGGI, Giuseppina - <i>Italia&Portogallo: un incrocio    di sguardi sull’arte della quadratura.</i> In SABATINI, Gaetano (coord.) [et    al.] -’<i>Di buon affetto e commerzio’: relações luso-italianas nos séculos    XV-XVIII.</i> Lisboa: CHAM, 2012. p. 175- 209.</p>     <p><a href="#top26"><sup>26</sup></a><a name="26"></a> SCOTTI, Aurora - L´accademia    degli Arcadi in Roma e i suoi rapporti com la cultura portiguses nel primo ventennio    del 1700. <i>Bracara Augusta.</i> Porto. Vol. XXVII. Nº 63 (1973), p. 129.</p>     <p><a href="#top27"><sup>27</sup></a><a name="27"></a> PIMENTEL, António Filipe    - <i>Arquitectura e poder: o Real Edifício de Mafra.</i> Lisboa: Livros Horizonte,    1989. p. 272, nota 282.</p>     <p><a href="#top28"><sup>28</sup></a><a name="28"></a> Veja-se nota nº. 18.</p>     <p><a href="#top29"><sup>29</sup></a><a name="29"></a> CASTRO, João Bautista de    – <i>Mappa de Portugal Antigo e Moderno.</i> Lisboa: Officina Patriarcal de    Francisco Luiz Ameno, 1762-1763. Tomo III, p. 193-194.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#top30"><sup>30</sup></a><a name="30"></a> ASV, <i>Segr. Stato</i>,    Portogallo 75, f. 124, datada 23 de maio de 1719.</p>     <p><a href="#top31"><sup>31</sup></a><a name="31"></a> Arquivo Municipal de Lisboa,    <i>Livro 8º de Consultas e Decretos de D. João V, do Senado Oriental,</i> f.    69. Documento assinado por Diogo de Mendonça Corte Real.</p>     <p><a href="#top32"><sup>32</sup></a><a name="32"></a> AML, <i>Livro 8º de Consultas    e Decretos de D. João V, do Senado Oriental,</i> f. 170-227v.</p>     <p><a href="#top33"><sup>33</sup></a><a name="33"></a> ASV, <i>Segr. Stato</i>,    Portogallo 75, f. 175, Ver também SCOTTI, Aurora, <i>op. cit.</i>, p. 128.</p>     <p><a href="#top34"><sup>34</sup></a><a name="34"></a> MACHADO, Ignácio Barbosa,    <i>op. cit.</i>, p. 141.</p>     <p><a href="#top35"><sup>35</sup></a><a name="35"></a> Pela questão económica    veja-se OLIVEIRA, Eduardo Freire de, <i>op. cit,</i> tomo I.</p>     <p><a href="#top36"><sup>36</sup></a><a name="36"></a> AML, <i>Livro 1º de Consultas    e Decretos de D. João V, do Senado Ocidental</i>, f. 195.</p>     <p><a href="#top37"><sup>37</sup></a><a name="37"></a> AML, <i>Livro 8º de Consultas    e Decretos de D. João V, do Senado Oriental</i>, f. 32- 32v.</p>     <p><a href="#top38"><sup>38</sup></a><a name="38"></a> ASV, <i>Segr. Stato</i>,    Portogallo 75, f. 138.</p>     <p><a href="#top39"><sup>39</sup></a><a name="39"></a> AML, <i>Livro 1º de Consultas    e Decretos de D. João V, do Senado Ocidental</i>, f. 228. Ver também f. 228-230.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#top40"><sup>40</sup></a><a name="40"></a> AML, <i>Livro 1º de Consultas    e Decretos de D. João V, do Senado Ocidental</i>, f. 229 r-v.</p>     <p><a href="#top41"><sup>41</sup></a><a name="41"></a> AML, <i>Livro 13º de Consultas    e Decretos de D. João V, do Senado Ocidental</i>, f. 65 a 82.</p>     <p><a href="#top42"><sup>42</sup></a><a name="42"></a> AML, <i>Livro 13º de Consultas    e Decretos de D. João V, do Senado Ocidental</i>, f. 73.</p>     <p><a href="#top43"><sup>43</sup></a><a name="43"></a> Ver <i>ad vocem</i> in    SILVA, Maria Beatriz Nizza da - <i>D. João V.</i> Lisboa: Temas&Debates, 2009;    LISBOA, João Luís; MIRANDA, Tiago C. P. dos Reis; OLIVAL, Fernanda (coord.)    - <i>Gazetas manuscritas da Biblioteca Pública de Évora (1729-1731)</i>. Lisboa:    Edições Colibri, 2002; LISBOA, João Luís; MIRANDA, Tiago C. P. dos Reis; OLIVAL,    Fernanda (coord.) - <i>Gazetas manuscritas da Biblioteca Pública de Évora (1732-1734)</i>.    Lisboa: Edições Colibri, 2005.</p>     <p><a href="#top44"><sup>44</sup></a><a name="44"></a> MACHADO, Ignácio Barbosa,    <i>op. cit.</i>, p. 16-17.</p>     <p><a href="#top45"><sup>45</sup></a><a name="45"></a> AML, <i>Livro 1º de Consultas    e Decretos de D. João V, do Senado Ocidental,</i> f. 194.</p>     <p><a href="#top46"><sup>46</sup></a><a name="46"></a> AML, <i>Livro 1º de Consultas    e Decretos de D. João V, do Senado Ocidental,</i> f. 191 datada 8 de maio de    1719. Ver também f. 192-193.</p>     <p><a href="#top47"><sup>47</sup></a><a name="47"></a> AML, <i>Livro 8º de Consultas    e Decretos de D. João V, do Senado Oriental,</i> f. 30.</p>     <p><a href="#top48"><sup>48</sup></a><a name="48"></a> AML, <i>Livro 1º de Consultas    e Decretos de D. João V, do Senado Ocidental,</i> f. 258.</p>     <p><a href="#top49"><sup>49</sup></a><a name="49"></a> AML,<i> Livro 8º de Consultas    e Decretos de D. João V, do Senado Oriental,</i> f. 173. Sublinhado meu.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#top50"><sup>50</sup></a><a name="50"></a> AML, <i>Livro 8º de Consultas    e Decretos de D. João V, do Senado Oriental,</i> f. 172-172v. Sublinhado meu.</p>     <p><a href="#top51"><sup>51</sup></a><a name="51"></a> AML, <i>Livro 8º de Consultas    e Decretos de D. João V, do Senado Oriental,</i> f. 170-170v.</p>     <p><a href="#top52"><sup>52</sup></a><a name="52"></a> AML, <i>Livro 8º de Consultas    e Decretos de D. João V, do Senado Oriental,</i> f. 183.</p>     <p><a href="#top53"><sup>53</sup></a><a name="53"></a> AML, <i>Livro 8º de Consultas    e Decretos de D. João V, do Senado Oriental,</i> f. 184-184v.</p>     <p><a href="#top54"><sup>54</sup></a><a name="54"></a> MACHADO, Ignácio Barbosa,    <i>op. cit.</i>, p. 158-160.</p>     <p><a href="#top55"><sup>55</sup></a><a name="55"></a> AML, <i>Livro 8º de Consultas    e Decretos de D. João V, do Senado Oriental,</i> f. 178. Para outros documentos    pertencentes ao Manuel Nunes e seus companheiros ver também f. 174; 179-180.</p>     <p><a href="#top56"><sup>56</sup></a><a name="56"></a> AML, <i>Livro 8º de Consultas    e Decretos de D. João V, do Senado Oriental,</i> f. 181-181v, documento assinado    por Manuel Francisco de Mesquita.</p>     <p><a href="#top57"><sup>57</sup></a><a name="57"></a> AML, <i>Livro 8º de Consultas    e Decretos de D. João V, do Senado Oriental,</i> f. 188: &ldquo;Termo de juramento    de Jozeph Teixeira para a avaliação das obras de pintura dos mestres pintores    Manuel Nunes e Dom Julio Sezar de Temine q<i>ue</i> fizerão para as colunatas    da procissão do Corpo de Deos&rdquo;; f. 189, Termo de louvamento dos pintores Temine    e Nunes, em que &ldquo;se louvavão em o mestre pintor Pascoal da Sylva para avaliar    as obras que tinhão feitos nas colunatas dos toldos da procissão do Corpo de    D<i>eus</i>&rdquo;; f. 189v., Termo de juramento de Pascoal da Sylva; f. 205, Termo    de juramento dado aos louvados por parte do senado da Camara […] Jozeph Teixeira    / Antonio Oliveira Bernardes; f. 206, Termo de louvamento dos pintores: &ldquo;[…]    Na caza da camara de Lisboa occidental aparecerão Dom Julio Sezar de Temine    e Manoel Nunes mestres pintores e por elles foi dito se louvavão em os mestres    Pascoal da Silva e Antonio Pimenta mestres pintores para avaliarem a obra que    elles haviam feito [...] tanto das colunatas como dos toldos [...] Manoel Nunes    Pacheco / D. Julio Cesar de Temine/M<i>anuel</i> Fr<i>eire</i> de Mesquita&rdquo;;    f. 206v., Termo de juramento dos louvados dos pintores […]Antonio Pimenta Rolim/Pascoal    da Silva&rdquo;.</p>     <p><a href="#top58"><sup>58</sup></a><a name="58"></a> AML, <i>Livro 8º de Consultas    e Decretos de D. João V, do Senado Oriental,</i> f. 216.</p>     <p><a href="#top59"><sup>59</sup></a><a name="59"></a> AML, <i>Livro 8º de Consultas    e Decretos de D. João V, do Senado Oriental,</i> f. 217. Ver também f. 219-220:    &ldquo;2ª avalliação feita na forma da rezollução de S<i>ua</i> Mag<i>estade</i> da    Cons<i>ulta</i> incluza […] Sertificamos nos […] que fomos ver e avaliar a obra    de pintura que fez Dom Julio Sezar a seus companheiros […]&rdquo; e f. 225-226: &ldquo;Rol    dos pintores Manoel Nunes e Manoel Freire&rdquo; com avaliação e abatimento de 666$540    <i>reis</i>.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#top60"><sup>60</sup></a><a name="60"></a> AML, <i>Livro 8º de Consultas    e Decretos de D. João V, do Senado Oriental,</i> f. 192; ver também f. 191-191v.</p>     <p><a href="#top61"><sup>61</sup></a><a name="61"></a> AML, <i>Livro 8º de Consultas    e Decretos de D. João V, do Senado Oriental,</i> f. 193; ver também f. 194.</p>     <p><a href="#top62"><sup>62</sup></a><a name="62"></a> AML, <i>Livro 8º de Consultas    e Decretos de D. João V, do Senado Oriental,</i> f. 198; ver também f. 195;    196 e o rol na f. 198-198v. </p>     <p><a href="#top63"><sup>63</sup></a><a name="63"></a> AML, <i>Livro 8º de Consultas    e Decretos de D. João V, do Senado Oriental,</i> f. 200; ver também o rol na    f. 201.</p>     <p><a href="#top64"><sup>64</sup></a><a name="64"></a> MACHADO, Ignácio Barbosa,    <i>op. cit.</i>, p. 158 – 160.</p>     <p><a href="#top65"><sup>65</sup></a><a name="65"></a> AML, <i>Livro 8º de Consultas    e Decretos de D. João V, do Senado Oriental,</i> f. 202v; ver também f. 202,    onde se encontram citados todos os especialistas escolhidos pelo senado: &ldquo;…    para a obra de pintura Jozeph Teixeira e Antonio de Oliveira; e para a obra    de escultura Manoel Dias e Manoel de Andrade Morriaõ e para obra de talha a    Miguel Francisco e Jozeph da Costa&rdquo; (documento datado 26 de junho de 1721).</p>     <p><a href="#top66"><sup>66</sup></a><a name="66"></a> AML, <i>Livro 8º de Consultas    e Decretos de D. João V, do Senado Oriental,</i> f. 203, cujo termo de juramento    se encontra na f. 203v.</p>     <p><a href="#top67"><sup>67</sup></a><a name="67"></a> AML, <i>Livro 8º de Consultas    e Decretos de D. João V, do Senado Oriental,</i> f. 208: &ldquo;Termo do juramento    dado aos louvados de emtalhador&rdquo;.</p>     <p><a href="#top68"><sup>68</sup></a><a name="68"></a> AML, <i>Livro 8º de Consultas    e Decretos de D. João V, do Senado Oriental,</i> f. 208v.; ver também f. 209:    &ldquo;Termo de juramento aos louvados dos emtalhadores&rdquo;.</p>     <p><a href="#top69"><sup>69</sup></a><a name="69"></a> AML, <i>Livro 8º de Consultas    e Decretos de D. João V, do Senado Oriental,</i> f. 210-212v.; ver também f.    218-218v., e 221-222.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#top70"><sup>70</sup></a><a name="70"></a> AML, <i>Livro 8º de Consultas    e Decretos de D. João V, do Senado Oriental,</i> f. 213 – 215; ver também f.    223.</p>     <p><a href="#top71"><sup>71</sup></a><a name="71"></a> AML, <i>Livro 8º de Consultas    e Decretos de D. João V, do Senado Oriental,</i> f. 170-170v.; ver também f.    227v: &ldquo;Do senado da Camara Oriental / Sobre pagamentos se hão de fazer aos Pintores,    Entalhadores e Escultores que trabalharão as obras dos toldos da procissão de    Corpus&rdquo;.</p>     <p><a href="#top72"><sup>72</sup></a><a name="72"></a> ASV, <i>Segr. Stato,</i>    Portogallo 75, f. 160r-v, em 20 de junho de 1719.</p>     <p><a href="#top73"><sup>73</sup></a><a name="73"></a> AML, <i>Livro 8º de Consultas    e Decretos de D. João V, do Senado Oriental</i>, f. 81, 82-82v., 85-85v., 87,    91 e 95. Fólios onde se podem consultar os documentos relativos a 1723 com precisas    instruções sobre a &ldquo;maior decência&rdquo; com que deviam ser armadas as ruas por onde    passava a procissão.</p>     <p><a href="#top74"><sup>74</sup></a><a name="74"></a> MACHADO, Ignácio Barbosa,    <i>op. cit.</i>, p. 156-157.</p>      ]]></body><back>
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