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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>VARIA</b></p>     <p><b>Recensões críticas</b></p>     <p><b>ABREU, Laurinda - <i>PINA MANIQUE: um reformador no Portugal das Luzes.    </i>Lisboa: Gradiva, 2013</b></p>     <p><b>ABREU, Laurinda - <i>O poder e os pobres: as dinâmicas políticas e sociais    da pobreza e da assistência em Portugal (séculos XVI-XVIII). </i>Lisboa: Gradiva,    2014</b></p>     <p><b>José Subtil</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Com um curto espaço de tempo a separá-los, bem podemos dizer que os dois recentes    livros de Laurinda Abreu são, de facto, um só livro sobre o «povo anónimo» e    os mecanismos de assistência montados para a sua proteção social durante o período    compreendido entre os séculos XVI e XVIII. </p>     <p>De fora ficaram as crianças abandonadas mas, também, os mendigos que não tinham    acesso aos meios assistenciais e sobre os quais as fontes pouco ou nada dizem.  </p>     <p>Trata-se de trabalhos cujos objetos de estudo são, fundamentalmente, os hospitais,    as prisões, os colégios, os hospícios, as mercearias e as misericórdias como    as instituições do mundo assistencial que mais absorveram recursos, tiveram    maior atividade cívica, participaram no controlo social e foram dominadas por    interesses sociais, políticos, religiosos e particulares, mesmo quando na altura    do estabelecimento dos legados pios, os fundadores privilegiassem a família    e os amigos.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>As datas das edições destes dois livros parecem invertidas na medida em que    surge, em primeiro lugar, um livro sobre o final do século XVIII, dedicado a    Diogo Inácio de Pina Manique e, depois, um outro que abrange as dinâmicas políticas    e sociais da pobreza e da assistência em Portugal desde os finais do século    XV. Talvez seja a razão para que a abordagem ao século XVIII fosse focada no    célebre intendente da polícia.</p>     <p>A relação entre ambos os livros é, de certo modo, surpreendente na abundante    historiografia da Laurinda Abreu sobre o tema «assistencial» em Portugal. É-o    porque esta história social nunca teve, nos seus trabalhos anteriores, uma invocação    de alteridade em relação aos reinados de D. Manuel I e D. João III, pelo menos    até meados do século XIX.</p>     <p>A descoberta de um contexto diferente, mesmo que esporádico e atribuído à personalidade    forte e determinada de um agente político, é clara e, porventura, influenciada    pela dimensão da informação da sua investigação mais recente sobre a Intendência    Geral da Polícia.</p>     <p>A periodização sobre a história assistencial em Portugal defendida pela autora,    nos muitos trabalhos dedicados a este tema, confere uma importância fora de    vulgar à primeira metade do século XVI, reinados de D. Manuel I e D. João III,    e ao final do mesmo século, dinastia da Casa de Áustria, época em que se teria    consolidado a obra assistencial manuelina. Os séculos XVII e XVIII teriam sido    séculos de apatia, resignação e marasmo. Mas, agora, é reconhecido que o intendente    geral da Polícia, Diogo Inácio de Pina Manique, terá recuperado o testemunho    manuelino nas duas últimas décadas de Setecentos, embora este protagonismo tenha    sido caucionado pelo seu caracter e pela sua personalidade, a tal ponto que    Laurinda Abreu se interroga o que teria acontecido se este intendente tivesse    sido nomeado no tempo do marquês de Pombal. </p>     <p>Para Laurinda Abreu, a Coroa quinhentista terá sido capaz de se impor ao reino    e organizar, no quadro do Estado Moderno, as estruturas e os mecanismos da produção    e distribuição dos recursos assistenciais com “enorme eficiência” e arquitetado    um quadro normativo que terá sido o cimento para a imposição de vontade do «centro»    à «periferia» (leia-se câmaras municipais, misericórdias, hospitais, confrarias,    etc.). Esta prematura imposição do centro obscura neutraliza qualquer manifestação    de poder «autoritário» que se tenha manifestado no século XVIII uma vez que,    nesta dinâmica de construção do poder, o reformismo pombalino e neo-pombalino    terão sido uma regeneração do «Estado» manuelino. </p>     <p>Com estes dois livros, Laurinda Abreu mantém, portanto, o enfoque privilegiado    sobre as iniciativas tomadas no reinado de D. Manuel I e procede a uma revisão    de leitura para o final do século XVIII, em particular para Diogo Inácio de    Pina Manique que, como confessa, lhe terá causado grande curiosidade e admiração    como se prova no trabalho de grande fôlego e com muita informação inédita que    nos acaba de oferecer. </p>     <p>Como foi dito, a tese principal do livro é a de que durante o século XVIII,    pelo menos até à década de 80, não ocorreram reformas substantivas no campo    assistencial e das políticas de saúde pública, embora realce as intervenções    do governo pombalino na Misericórdia de Lisboa e no Hospital de Todos os Santos    e, no campo literário, a doutrina francamente inovadora de Ribeiro Sanches sobre    a saúde pública. </p>     <p>Como o título do livro sugere, toda a atenção vai para o protagonismo de um    ator político, Diogo Inácio de Pina Manique, que ao dirigir a Intendência Geral    da Polícia e criar, como seu complemento, a Casa Pia, terá, ao arrepio do atavismo    do governo dos secretários de estado, lançado um conjunto de operações logísticas    e de ações sociais que o cotaram como um reformista social de grande fôlego    do despotismo iluminado. </p>     <p>Se as suas práticas foram o mote para a proeminência política, não deixou,    apesar de tudo, de traçar linhas de orientação teórica, não tanto em tratados,    mas nas suas formulações políticas e nos comentários aos despachos que proferiu    ou às indagações que sugeriu, críticas e polémicas que teve com os secretários    de estado, dos quais se salientam alguns dos mais notáveis como José de Seabra    da Silva e D. Rodrigo de Sousa Coutinho. </p>     <p>As incisivas intervenções da Intendência Geral da Polícia sobre mendigos, vagabundos,    expostos e prostitutas, através da Casa Pia de Lisboa, foram de tal modo pensadas    que, nos planos estratégicos do Intendente, o exemplo desta «Casa» devia ser    replicado em todo o Reino, a começar nas principais cidades e vilas. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O mais emblemático deste programa foi o incremento de suportes e recursos ao    progresso económico e social assente no trabalho e na criação de unidades fabris    rurais e de manufaturas. Ao invés de aplicar políticas meramente assistenciais,    Diogo Inácio de Pina Manique alimentou a ideia da regeneração dos abandonados    e imbecis através do trabalho, da formação profissional e do enquadramento familiar.    Para os mais dotados chegou mesmo a lançar uma ajuda superior com a atribuição    de bolsas de estudo no estrangeiro. </p>     <p>Toda a oferta de formação estava enquadrada em colégios, organizações que também    controlava e para os quais convidou cientistas «iluminados». Criativo e por    vezes utópico, criou, também, uma rede de cuidados continuados e de assistência    ao domicílio com o apoio da Casa Pia e inventou, para apoio à saúde dos expostos,    modelos de substituição do leite materno das amas por experiências alimentares    artificiais, fazendo deste modo uma articulação entre o desenvolvimento científico,    o progresso social e a intervenção política como provam, aliás, as relações    que o Intendente mantinha com o centro de produção de conhecimentos que era    a Academia Real das Ciências. E como atestam realizações inovadoras como foi,    por exemplo, a vacinação em massa da inoculação da varíola.</p>     <p>As suas intromissões devidas e, sobretudo, as indevidas, no combate às epidemias    e na criação de cordões sanitários para impedir contágios e facilitar o tratamento    das populações afetadas, catapultou o intendente para um lugar de grande visibilidade    e aceitação social, visto como um referencial de segurança e de proteção, em    contraste com a ineficácia dos órgãos tradicionais de governo como os tribunais    e os conselhos e mesmo as secretarias de estado que estavam a crescer de competências    e intervenção política. </p>     <p>Independentemente da correção das medidas e do acerto das reformas, este protagonismo    gerou, naturalmente, apetites para entravar as suas ações, ciúmes e invejas,    tanto mais que a personalidade do intendente ajudava a alimentar estes «pequenos»    ódios de estimação, mesmo até no seio das comunidades de simpatizantes, ou de    militantes de uma versão mais «democrática» do modelo iluminista que defendia.  </p>     <p>A dinâmica reformista da Intendência e da Casa Pia não podia deixar de ter    consequências políticas provocando confrontos com a Junta do Protomedicato,    as secretarias de Estado, os tribunais, em particular o Desembargo do Paço onde    acabaria, aliás, por ter assento para defender as suas opções polémicas, com    o provedor-mor da Saúde, com a Universidade de Coimbra e com os magistrados    régios comarcais e concelhios (juízes de fora, corregedores e provedores). </p>     <p>E, também, com a Igreja que tinha colhido frutos com a situação de miséria    para enaltecer a virtude cristã da caridade e justificar a assistência de instituições    religiosas aos pobres, mendigos, incapazes e crianças. Na doutrina clerical    tinha cabimento a ideia de que a alma podia amparar o corpo através da oração    e do fervor porque a saúde decorria da associação harmoniosa entre o corpo e    a alma. </p>     <p>Como consequência, a miséria, a doença e as epidemias careciam de veneração,    oração e intervenção do padre, da freira ou do frade. Ora o Intendente não admitia,    no quadro da sua «ideologia» e da sua prática política autoritária, qualquer    intervenção dominante da Igreja, defendo a secularização da doença e o regalismo    político como soluções para estes problemas.</p>     <p>Por isso, na cidade de Lisboa teve sérios problemas com a misericórdia e o    hospital régio. E como o alcance das suas medidas cobria o resto do Reino, foram    muitos, variados e de diferentes intensidades, os conflitos políticos e jurisdicionais    que Diogo Inácio de Pina Manique teve com juízes de fora, corregedores e provedores,    para além das misericórdias, hospitais e confrarias. </p>     <p>No segundo livro, <i>O Poder e os Pobres, as Dinâmicas Políticas e Sociais    da Pobreza e da Assistência em Portugal (séculos XVI-XVIII)</i>, Laurinda Abreu    continua a defender que as políticas assistenciais em Portugal, desde a versão    caritativa à dos hospitais, desde a assistência confraternal às políticas régias    sobre a saúde pública, terão tido uma continuidade acentuada durante mais de    três séculos, desde os finais da Idade Média até à implantação do liberalismo    (século XV a meados do século XIX). Os momentos mais marcantes de reformas e    mudanças de atores políticos foram a dinastia de Avis e a Casa da Áustria. Desde    a Restauração até à consolidação do liberalismo, passando pelo período magnânimo,    a fase josefina-pombalina e a revolução liberal, não existem mostras de quaisquer    alterações ao modelo implantado desde o «venturoso». </p>     <p>Para a autora, neste modelo de governo a marca fundamental foi a da «preeminência    do poder monárquico sobre os agentes que operam nestas áreas», ou seja, sobre    as misericórdias, os hospitais, os físicos, os cirurgiões, os boticários, ajudantes    destes profissionais, confrarias, os municípios e a Igreja com o clérigo, os    bispos, os conventos e os mosteiros. Esta continuidade e esta «força» do poder    central terá tido vários momentos de reconfiguração e ajustamento desde que    foi lançado o modelo e implantada a orientação para o seu governo (instituições,    regulamentos, funções, estatutos, carreiras e quadros). </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No período da consolidação (segunda metade do século XVI) destacam-se, entre    várias medidas, a consagração das misericórdias como instituições centrais no    campo assistencial e como organismos que operaram debaixo da especial proteção    régia, a transferência da administração dos hospitais para as mesas das misericórdias    e a criação de um quadro de formação e certificação profissional dos agentes    ligados à saúde (físicos, cirurgiões e boticários) onde ganhará relevância a    criação da bolsa dos «médicos de partido» e, naturalmente, a instituição de    ensino encarregue do ensino e da acreditação de todos estes agentes, ou seja,    a Universidade de Coimbra. </p>     <p>Ainda no quadro da consolidação haverá lugar para a afirmação jurisdicional    destas instituições e agentes e a produção de um quadro legal e orgânico das    misericórdias no encalce da bandeira erguida com o compromisso da Misericórdia    de Lisboa. </p>     <p> Nesta proposta de entendimento, a autora juntou a estes temas o controlo das    epidemias que, pela sua especificidade e dimensão, requereu obviamente uma coordenação,    mesmo que diferida no tempo, das medidas e das práticas de prevenção, combate    e controlo das doenças contagiosas, em especial protocolos de intervenção uniformes    e orientados por deveres e obrigações dos agentes encarregues de as aplicar    e monitorizar. </p>     <p>Podemos dizer, em conclusão, que Laurinda Abreu cimenta a sua tese nos resultados    dos inquéritos de 1827 que apontam para um país, no campo assistencial e da    saúde pública, muito mais próximo do período do final da Idade Média do que    dos países que tinham feito a revolução liberal ou que estavam na dianteira    do progresso das Luzes. </p>     <p>Será, contudo, de matizar estes resultados porque os inquéritos traduzem, também,    a violentíssima destruição do país (1807-1820) causada pelas invasões francesas,    pela «invasão» das tropas inglesas, pela fuga das elites políticas para o Brasil,    incluindo a família real, e pelo desmantelamento de toda a máquina administrativa,    tanto a nível central como local e periférico.</p>     <p>A análise que faz dos modelos sociais assistenciais do início da época moderna,    leva-a a afirmar que os mesmos teriam contribuído para a construção do Estado    e para uma política de centralização do poder em que a Coroa terá conseguido    impor-se à periferia e, por conseguinte, delineado uma política «nacional» assistencial.  </p>     <p>Em defesa desta ideia chama à liça o crescente protagonismo que os corregedores    e provedores terão assumido na execução das medidas relativas à assistência    e à saúde «decretadas» pelo monarca. Dá como exemplo a avaliação das rendas    das câmaras para definir a taxa a pagar à Universidade de Coimbra para a manutenção    da bolsa dos «médicos de partido» e a definição das formas e montantes a pagar    pelas câmaras a estes «funcionários» régios. </p>     <p>Refere, também, a intervenção destes magistrados junto das autoridades eclesiásticas    quando estas pretendiam ou queriam interferir no governo das misericórdias ou    controlar a eleição das respetivas mesas, ou a missão para fiscalizarem as contas    e os atos contestados de governo destas instituições e de outras confrarias,    bem como o papel que desempenharam na ligação e comunicação política entre os    municípios e a Coroa. No seu dizer, estes «ministros régios (…) contribuíram    de forma considerável para tornar mais presentes os sinais do poder central    nos mais recônditos cantos do país». </p>     <p>E se estes magistrados não chegassem, sobravam as elites locais que facilitaram    o diálogo com a Coroa na medida em que estando interessadas na ação das misericórdias    e demais instituições confraternais, tanto pelo prestígio social que granjeavam,    como pela intervenção atempada na resolução e controlo dos problemas sociais    locais, acabavam por estarem interessadas no diálogo com a Coroa e, evidentemente,    empenhadas na manutenção das prerrogativas que este privilégio lhes oferecia    como forma de intervir e partilhar as decisões do príncipe e dos organismos    da administração central da Coroa. E o inverso também era verdadeiro, ou seja,    a Coroa tirava partido nesta partilha de interesses e na comunhão de objetivos    na medida em que utilizava as elites locais para a mobilização dos seus interesses    e para o reforço do poder dos seus agentes.</p>     <p>Outra das conclusões de relevo a que Laurinda Abreu chega é a de que fonte    de financiamento das políticas assistenciais não partiu da Coroa. As despesas    do sistema foram suportadas pelas câmaras, pelas misericórdias, confrarias e    comunidades. Ou seja, o sistema era financeiramente autónomo da Coroa que, nestas    circunstâncias, terá desempenhado apenas um papel de regulação e negociação    na aplicação dos dinheiros e na escolha das medidas ou na gestão de sinergias    entre os vários agentes e instituições envolvidas. Como a Coroa tinha consciência    das lacunas a nível local para assistir os presos, procurou intervir através    da assistência das misericórdias que, no fim de contas, marcavam mais as suas    presenças do que a ausência simbólica da monarca neste mundo obscuro, pouco    tangível e adverso às representações abstratas.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Apesar de tudo, a autora dá relevo ao papel da Igreja, «elemento fundamental    do sistema» quer porque consagra e legitima os valores que comandavam a caridade    e a assistência ao próximo, emblemas do cristianismo, como contribuiu para o    financiamento e o governo de muitos hospícios, mercearias, colégios, hospitais,    recolhimentos e até, mesmo que de forma indireta, no governo das misericórdias.  </p>     <p>Outra novidade, avançada pela autora, é a capacidade demonstrada pelos pobres    e marginais para agirem ativamente na organização e gestão do sistema assistencial    através das redes sociais que eles próprios criavam destinadas ao ingresso nas    instituições confraternais e ao acesso aos bens assistenciais. O mecanismo mais    poderoso que usavam era justamente o da inclusão ou exclusão nestas redes que    ou facilitava ou dificultava as solidariedades e os apoios mútuos entre os pobres.  </p>     <p>Estas duas obras somam-se, assim, ao conjunto valioso da historiografia de    Laurinda Abreu sobre o tema assistencial com novas e, por vezes, surpreendentes    informações, a revelação dos mais diversos tipos de documentos e acervos arquivísticos,    e uma metodologia que evidencia um domínio seguro de fontes e um tratamento    da informação de forma invulgar. </p>     <p>Há, porém, em todo o seu trabalho um aspeto estruturante para o qual valerá    a pena discordar e que diz respeito à associação que faz entre a construção    prematura do Estado e as políticas assistenciais da dinastia de Avis e da Casa    de Áustria. </p>     <p>Muitos têm sido os trabalhos que nos últimos vinte anos demonstraram a fragilidade    das estruturas de governo até meados do século XVIII. Por razões de economia    desta recensão não será aqui o lugar para revisitar, com detalhe, esta historiografia.    No entanto, impõem-se algumas notas com referência ao tema assistencial.</p>     <p>A Coroa, pelas limitações em recursos humanos, materiais e pela dogmática política    vigente, não estava em condições para impor uma unidade de poder regalista,    situação que só começou a ser desenhada pelo estado de polícia com a governação    pombalina. </p>     <p>O pluralismo de poderes e de jurisdições privilegiava os corpos, os grupos    e os estados, as suas autonomias e interesses. As obrigações que decorriam do    cumprimento de uma ordem régia eram ajustadas aos interesses locais. E eram    aproveitadas pelos magistrados régios (juízes de fora, corregedores e provedores)    para forçarem as suas próprias identidades e autoridades de corpo, as suas prerrogativas,    bem longe das da Coroa.</p>     <p>Portanto, o que está em causa para se compreender politicamente a regulação    do «campo assistencial» durante os séculos XVI, XVII e XVIII é a caracterização    do modelo de governo, o inventário dos recursos humanos e materiais e o quadro    culto-mental moldado pelo mesmo. E é necessário uma abordagem diferente da lógica    assistencial para analisar o caso do controlo das epidemias e a prevenção e    limitação de doenças epidémicas e contagiosas que afetavam e atingiam todo o    Reino. </p>     <p>Neste sentido, os aspetos nucleares da configuração do sistema de poderes da    monarquia «corporativa» e do sistema político «proto-estadualista» marcaram    a periodização da história assistencial em Portugal. Um período que medeia entre    os séculos XV e XVII e, um outro, que se inicia com o terramoto político pombalino    posterior ao terramoto sísmico de 1755. </p>     <p>A ideia de que para a centralização do poder régio e da construção do Estado    desde os finais da Idade Média terão participado os municípios e as misericórdias    como «correias» de transmissão do poder régio, não se ajusta às inesgotáveis    capacidades de autonomia destas instituições e de tantas outras que, longe da    Coroa, disputaram o poder entre si, com a Igreja, os donatários da Coroa, as    ordens religiosas, as comunidades e os próprios magistrados régios (juízes de    fora, corregedores e provedores).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O paradigma cultural da esfera do público e do privado marcou, por outro lado,    a definição do interesse público e do interesse individual, do espaço social    ocupado pela miséria, a pobreza, a doença e as políticas assistenciais. </p>     <p>Os mendigos, miseráveis, crianças abandonadas e expostas, deficientes, trabalhadores    sazonais, (i)emigrantes que viviam em condições muito precárias, pobres, famintos    e desamparados - por terem crescido fora dos espaços socialmente construídos    - formavam um conjunto marginal com sérios problemas para a segurança e a saúde    pública que a Coroa não sabia nem podia resolver e que só às comunidades interessava,    efetivamente, solucionar. Com falta de recursos financeiros, a Coroa abdicou    de criar uma rede de hospitais públicos, aparte os hospitais reais que foram    instalados nas principais cidades (Lisboa, Porto e Coimbra), como abdicou de    criar instituições de apoio assistencial que viesse a governar diretamente ou    através de poderes intermédios. </p>     <p>Um caso significativo é, por exemplo, o dos «partidos» de médicos formados    com o apoio de «bolsas» financiadas pelos municípios para assistirem, gratuitamente,    os povos dos concelhos (mesmo assim numa percentagem de aproximadamente 10%    dos municípios). Mas em tudo que implicasse despesa, a Coroa não se comprometia.    Ao contrário, para encaixar avultadas receitas com os encartes, a Coroa exerceu    funções de regulação sobre a atribuição e distribuição de ofícios e cargos de    saúde, como físicos, cirurgiões e boticários. Mas os médicos do «partido», devido    aos baixos salários que recebiam, podiam exercer medicina privada ou contratualizada    (com as câmaras, confrarias, famílias de notáveis, moradores de lugares) ou    mesmo levar honorários por consultas avulso. </p>     <p>O estado de polícia que emergiu como novo paradigma político a partir de meados    do século XVIII assentou na ideia mecânica da governação, no poder ilimitado    da razão para compor a sociedade e organizá-la como um conjunto de indivíduos    libertos para a vontade e para a ação e não como um conjunto metafísico agregado    a uma lógica de de predestinação. </p>     <p>A própria classificação da pobreza foi (re)-conceptualizada em torno da ideia    da ociosidade, da regeneração pelo trabalho ou da perigosidade para a segurança    e eventual encarceramento. E, por isso, a assistência de natureza religiosa    foi desvinculada das instituições de caridade encarregues de matar a fome e    vestir os esfarrapados e abandonados para ser assumida pelo poder público, pelas    autoridades seculares e regalistas. O movimento confraternal foi, de facto,    marcado por três legendas: dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem    tem sede, dar abrigo aos desamparados, vestir os abandonados, visitar os presos    e enterrar os mortos. As confrarias eram piedosas e devotas por praticarem a    caridade da mesma forma que asseguravam missas para a salvação das almas dos    instituidores, dos seus familiares ou das almas do purgatório.</p>     <p>O melhor quadro para caracterizar a impotência da Coroa é o do combate às epidemias    onde se verificava, neste momentos de pânico, a desorganização dos hospitais    de província, a ausência de redes de recursos, o caótico modelo de decisão política    e a degradante situação da exposição dos mortos nas ruas, as fugas dos hospitais    e a criação de ermos sanitários degradantes. </p>     <p>A única atitude assumida pela Coroa para dar combate a estas ameaças à saúde    pública do Reino era a de tomar medidas preventivas e de fiscalização do controlo    de entradas e saídas do Reino, visar os passaportes, impor quarentenas e devastar    os grupos de vadios e mendigos. O provedor-mor de Saúde por não ter capacidade    de intervenção aligeirava as suas responsabilidades nas autoridades locais e    nos grupos de voluntários que se organizavam nas comunidades em torno das organizações    assistenciais, leigas e eclesiásticas. Com carater transitório, em cada vila    ou cidade era eleito um provedor da saúde com jurisdição para encerrar casas,    queimar roupas, isolar doentes e recrutar médicos e boticários. E tinha, ainda,    por obrigação escolher um lugar fora da povoação para construir o refúgio para    o internamento de doentes contagiados ou suspeitos e a «cadeia de peste» para    encarcerar os presos contagiados.</p>     <p>Na realidade, a política de assistência e de saúde pública, tirando o caso    das epidemias, não existia até porque os ricos ou mesmo os remediados preferiam    o tratamento privado das doenças. E compreende-se porque assim tenha sido na    medida em que o arsenal farmacêutico e a terapêutica médica eram incipientes.    O hospital não apresentava vantagens sobre o tratamento em casa que permitia,    em contrapartida, dietas ricas em carne e caldos de galinha, e a ajuda de familiares    e criados. </p>     <p>Os hospitais eram, por isso, e sobretudo instituições de caridade a que recorriam    os pobres e miseráveis que não podiam pagar uma consulta nem uma refeição calórica    ou vencer o frio que as poucas roupas não evitavam. A maioria dos internados    procurava o hospital por causa da fome, do frio e não pela doença. A alternativa    que restava a estes «desgraçados» era recorrer à esmola ou ao trânsito da mendicidade.  </p>     <p>Tudo isto levanta um problema hermenêutico relativamente à leitura das poucas    estatísticas que é possível fazer sobre as entradas e as saídas de «doentes»    dos hospitais.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Uma palavra final sobre as notas de rodapé que nos parecem, numa edição comercial,    serem exageradas e que a mudança de critério na apresentação das mesmas, do    primeiro para o segundo livro, prejudicou muito a leitura do mais recente sobre    o <i>Poder e os Pobres</i> visto que as 1.299 notas sobre o texto são lidas    de seguida, depois da conclusão, ocupando 105 páginas, cerca de 25% do conteúdo    de apresentação da obra.</p>      ]]></body>
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