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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Igualdade, Justiça e Fraternidade: A identidade dos operários tabaqueiros de Lisboa (1860-1936)]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Accepting William Sewell's perspective that all social relations are discursive, but that they are never exhausted in their discourse, we propose to address the specific identity of Lisbon's tobacco workers within the working class. We will do this through the available written sources, such as the newspapers of the time, workers or bourgeois, and the texts written by and about tobacco workers, between the 1860s and the first decade of the Estado Novo. The articles published in the tobacco workers' newspaper A Voz do Operário (The Workers Voice), will necessarily stand out. Through this approach, we intend to show the relevance of the study of the various segments within the working class, for an analysis that, against any totalizing intentions, goes beyond the concept of a unitary class with a mere theoretical existence, to a class in which the workers were torn in multiple directions.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>DOSSIER TEM&Aacute;TICO</b></p>     <p><b>Igualdade, Justi&ccedil;a e Fraternidade. A identidade dos oper&aacute;rios tabaqueiros de Lisboa (1860-1936)</b></p>     <p><b>Equality, Justice and Fraternity. The identity of the Lisbon tobacco workers (1860-1936)</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Rui Manuel Br&aacute;s<sup>*</sup></b></p>     <p><sup>*</sup>Rui Manuel Br&aacute;s, CECC – Centro de Estudos de Comunica&ccedil;&atilde;o e Cultura, Universidade Cat&oacute;lica Portuguesa, 1649-023 Lisboa, Portugal. <a href="mailto:rui.bras2005@gmail.com">rui.bras2005@gmail.com</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO</b></p>     <p>Aceitando a perspetiva de William Sewell de que todas as rela&ccedil;&otilde;es sociais s&atilde;o discursivas, mas que nunca se esgotam na sua discursividade, propomo-nos abordar a identidade pr&oacute;pria dos oper&aacute;rios tabaqueiros de Lisboa no seio da classe oper&aacute;ria. F&aacute;-lo-emos atrav&eacute;s das fontes escritas dispon&iacute;veis, como os jornais da &eacute;poca, oper&aacute;rios ou burgueses, e dos textos escritos por e sobre os tabaqueiros, entre os anos 60 do s&eacute;culo XIX e a primeira d&eacute;cada do Estado Novo. Destacar-se-&atilde;o, necessariamente, os artigos publicados no &oacute;rg&atilde;o dos manipuladores de tabacos, o jornal <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i>. Atrav&eacute;s desta abordagem, pretendemos mostrar a relev&acirc;ncia que tem o estudo dos v&aacute;rios segmentos dentro da classe oper&aacute;ria, para uma an&aacute;lise que, contra quaisquer inten&ccedil;&otilde;es totalizantes, v&aacute; para l&aacute; do conceito de uma classe unit&aacute;ria com mera exist&ecirc;ncia te&oacute;rica, para uma classe em que os oper&aacute;rios se dispersavam em v&aacute;rias dire&ccedil;&otilde;es.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>PALAVRAS-CHAVE</b></p>     <p>Identidade / Classe Oper&aacute;ria / Tabacos / Socialismo / Pol&iacute;tica</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>Accepting William Sewell's perspective that all social relations are discursive, but that they are never exhausted in their discourse, we propose to address the specific identity of Lisbon's tobacco workers within the working class. We will do this through the available written sources, such as the newspapers of the time, workers or bourgeois, and the texts written by and about tobacco workers, between the 1860s and the first decade of the <i>Estado Novo</i>. The articles published in the tobacco workers' newspaper <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> (The Workers Voice), will necessarily stand out. Through this approach, we intend to show the relevance of the study of the various segments within the working class, for an analysis that, against any totalizing intentions, goes beyond the concept of a unitary class with a mere theoretical existence, to a class in which the workers were torn in multiple directions.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>KEYWORDS</b></p>     <p>Identity / Working Class / Tobacco / Socialism / Politics</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>PROLEG&Oacute;MENOS</b></p>     <p>Numa &eacute;poca em que o mundo do trabalho e os movimentos sociais t&ecirc;m vindo a sofrer altera&ccedil;&otilde;es profundas nas suas caracter&iacute;sticas, continua a fazer sentido o estudo da Hist&oacute;ria oper&aacute;ria. Uma das virtudes da Hist&oacute;ria &eacute;, precisamente, a de dar uma perspetiva alargada sobre os problemas humanos, contribuindo n&atilde;o apenas para a compreens&atilde;o do passado, mas tamb&eacute;m para a identifica&ccedil;&atilde;o de caminhos poss&iacute;veis no presente. Analisar a proletariza&ccedil;&atilde;o e os seus efeitos na vida dos indiv&iacute;duos por ela afetados permite-nos perceber como se construiu a identidade da classe oper&aacute;ria, quais os rumos de a&ccedil;&atilde;o que seguiu para satisfazer os seus interesses e como se manifestou no plano pol&iacute;tico. Com este artigo, focado numa parcela relevante da classe oper&aacute;ria de Lisboa – os tabaqueiros –, pretendemos contribuir para um estudo da classe oper&aacute;ria livre de (pre)conceitos que reduzem a Hist&oacute;ria oper&aacute;ria &agrave; an&aacute;lise de um caminho &uacute;nico, teleol&oacute;gico, que n&atilde;o tem em considera&ccedil;&atilde;o as diferentes experi&ecirc;ncias no seio da classe oper&aacute;ria, as quais levam a diferentes escolhas e, necessariamente, a diferentes caminhos<a href="#1"><sup>1</sup></a><a name="top1"></a>. </p>     <p>Aceitando a perspetiva de William Sewell<a href="#2"><sup>2</sup></a><a name="top2"></a> de que todas as rela&ccedil;&otilde;es sociais s&atilde;o discursivas, mas que nunca se esgotam na sua discursividade, propomo-nos abordar a identidade pr&oacute;pria dos oper&aacute;rios tabaqueiros de Lisboa no seio da classe oper&aacute;ria. F&aacute;-lo-emos atrav&eacute;s das fontes escritas dispon&iacute;veis, como os jornais da &eacute;poca, oper&aacute;rios ou <i>burgueses</i>, e dos textos escritos por e sobre os tabaqueiros, entre os anos 60 do s&eacute;culo XIX e as primeiras d&eacute;cadas do Estado Novo. Destacar-se-&atilde;o, necessariamente, os artigos publicados no &oacute;rg&atilde;o dos manipuladores de tabacos, o jornal <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i>. Na an&aacute;lise das palavras, tomamos a linguagem como construtora de identidade, dos interesses, das inten&ccedil;&otilde;es e das a&ccedil;&otilde;es dos oper&aacute;rios, e n&atilde;o apenas como reflexo dessas mesmas dimens&otilde;es. Por isso, consideramos que os textos s&atilde;o locais de produ&ccedil;&atilde;o de significado e n&atilde;o meras fontes de informa&ccedil;&atilde;o. No entanto, temos a consci&ecirc;ncia de que a linguagem, pela sua natureza, revela, mas tamb&eacute;m esconde, tal como pode ser desordenada e mesmo contradit&oacute;ria. </p>     <p>Para alcan&ccedil;armos o nosso objetivo, dividimos o artigo em tr&ecirc;s partes: os pilares da constru&ccedil;&atilde;o da identidade dos tabaqueiros de Lisboa, as a&ccedil;&otilde;es levadas a cabo para satisfazerem os seus interesses e as formas de envolvimento pol&iacute;tico. Atrav&eacute;s desta abordagem, pretendemos mostrar a relev&acirc;ncia que tem o estudo dos v&aacute;rios segmentos dentro da classe oper&aacute;ria, para uma an&aacute;lise que, contra quaisquer inten&ccedil;&otilde;es totalizantes, v&aacute; para l&aacute; do conceito de uma classe unit&aacute;ria com mera exist&ecirc;ncia te&oacute;rica, para uma classe em que os oper&aacute;rios se dispersavam em v&aacute;rias dire&ccedil;&otilde;es.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>PELA IGUALDADE, PELA JUSTI&Ccedil;A E PELA FRATERNIDADE</b></p>     <p>N&atilde;o havendo um discurso de of&iacute;cio semelhante ao de outros setores oper&aacute;rios, como os sapateiros, por exemplo, devido &agrave;s caracter&iacute;sticas pr&oacute;prias ao regime de produ&ccedil;&atilde;o dos tabacos, a proletariza&ccedil;&atilde;o foi sentida pelos tabaqueiros como a afirma&ccedil;&atilde;o de um sistema baseado no ego&iacute;smo e na concorr&ecirc;ncia entre os pr&oacute;prios oper&aacute;rios<a href="#3"><sup>3</sup></a><a name="top3"></a>. Foi atrav&eacute;s da associa&ccedil;&atilde;o que os trabalhadores dos tabacos acresceram as suas capacidades de cristaliza&ccedil;&atilde;o identit&aacute;ria e representaram a sua autonomia cultural. Fosse sob o formato de associa&ccedil;&atilde;o de socorros m&uacute;tuos, como a Associa&ccedil;&atilde;o Uni&atilde;o Fraternal dos Oper&aacute;rios da Fabrica&ccedil;&atilde;o de Tabacos, fundada em 1863, fosse sob a &eacute;gide de diferentes associa&ccedil;&otilde;es <i>de classe</i><a href="#4"><sup>4</sup></a><a name="top4"></a>, em particular a Associa&ccedil;&atilde;o de Classe dos Manipuladores de Tabacos de Lisboa (ACMT), os tabaqueiros desenvolveram, &agrave; semelhan&ccedil;a de outros of&iacute;cios, a ideia de solidariedade como suporte para ultrapassarem as dificuldades quotidianas, como o desemprego, a doen&ccedil;a, a inabilidade ou a morte. Neste sentido, essas associa&ccedil;&otilde;es exprimiam a comunidade moral deste grupo oper&aacute;rio, ao unir os seus s&oacute;cios atrav&eacute;s do aux&iacute;lio m&uacute;tuo e de la&ccedil;os que se prolongavam para l&aacute; da morte. Esta fun&ccedil;&atilde;o da associa&ccedil;&atilde;o de <i>ensinar</i> e refor&ccedil;ar a solidariedade entre os oper&aacute;rios, e de definir a identidade, era essencial para a defesa perante o inimigo – o Capital. S&oacute; atrav&eacute;s da uni&atilde;o na associa&ccedil;&atilde;o, os tabaqueiros teriam a capacidade para defrontar semelhante poder e prosseguir o caminho da sua emancipa&ccedil;&atilde;o: </p>     <p>     <blockquote>a uni&atilde;o pela associa&ccedil;&atilde;o, s&oacute; ela pode, e s&oacute; ela tem for&ccedil;a de terminar essa &aacute;rdua guerra do capital com o trabalho e promover a nossa emancipa&ccedil;&atilde;o que tanto precisamos. Mas para isso &eacute; mister a <i>Uni&atilde;o</i>, &eacute; mister que todos se unam pelos sagrados la&ccedil;os da insepar&aacute;vel fraternidade, que se alistem debaixo da nossa bandeira, porque ela tem por divisa a igualdade, fraternidade e justi&ccedil;a<a href="#5"><sup>5</sup></a><a name="top5"></a>.         <p></p>         ]]></body>
<body><![CDATA[<p></p> </blockquote>     <p>A igualdade, a fraternidade e a justi&ccedil;a eram os conceitos inscritos na bandeira associativa.</p>     <p>A igualdade entre todos os Homens, porque todos podem ser &uacute;teis &agrave; sociedade humana. Por maioria de raz&atilde;o, os oper&aacute;rios, os detentores da for&ccedil;a de trabalho, h&aacute;beis, criadores de riqueza, n&atilde;o deveriam ser desconsiderados por aqueles que, por uma raz&atilde;o ou por outra, enriqueceram com o seu trabalho. O trabalho, libertado pelo Iluminismo dos constrangimentos ideol&oacute;gicos a que tinha estado preso, era finalmente entendido como motor da Humanidade: </p>     <p>     <blockquote>a classe oper&aacute;ria desempenha um importante papel no teatro do mundo porque dela derivam todas as outras. &Eacute; fora de toda a d&uacute;vida que &eacute; pelo trabalho que o homem se nobilita e imortaliza, porque &eacute; ele que constitui a riqueza e a opul&ecirc;ncia das na&ccedil;&otilde;es. &Eacute; o trabalho a causa primordial de todo o movimento e a mola real da civiliza&ccedil;&atilde;o e do progresso, porque &eacute; ele que p&otilde;e em pr&aacute;tica a ci&ecirc;ncia humana, a qual, sepultada na mente n&atilde;o era mais de que uma fantasia e um ideal irrealiz&aacute;vel<a href="#6"><sup>6</sup></a><a name="top6"></a>.         <p></p>         <p></p> </blockquote>     <p>Seguindo o discurso comum a outros setores da classe oper&aacute;ria, os tabaqueiros reproduziam a ideia de que o trabalho era sin&oacute;nimo de criatividade e emana&ccedil;&atilde;o do sublime, como argumento para a defesa dos seus interesses em nome da justi&ccedil;a. Numa sociedade dominada pelas rela&ccedil;&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o e por uma vis&atilde;o do mundo em que a produ&ccedil;&atilde;o desempenha um papel central, os oper&aacute;rios eram “m&aacute;rtires da burguesia”<a href="#7"><sup>7</sup></a><a name="top7"></a> e o capitalismo era visto como um sistema onde a justi&ccedil;a n&atilde;o podia existir. Baseado na concorr&ecirc;ncia que podia levar ao encerramento de f&aacute;bricas, &agrave; falta de trabalho e &agrave; degrada&ccedil;&atilde;o da condi&ccedil;&atilde;o dos oper&aacute;rios, como os manipuladores de tabacos cedo compreenderam, desde 1865, com o fim do monop&oacute;lio e a liberaliza&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o, o capitalismo levava ao ego&iacute;smo e &agrave; imoralidade. Contra a injusti&ccedil;a, enfim, deveria prevalecer a fraternidade, &uacute;ltimo pilar da trindade acima referida. Uma ideia de fraternidade marcada pelo g&eacute;nero, em que predominava a conce&ccedil;&atilde;o masculina de solidariedade e de comunidade, assente na codifica&ccedil;&atilde;o da atividade p&uacute;blica como essencialmente masculina e numa distin&ccedil;&atilde;o de g&eacute;nero que representava a mulher como um ser emocional, fraco e dependente<a href="#8"><sup>8</sup></a><a name="top8"></a>. Para os autores dos textos publicados na imprensa oper&aacute;ria coeva, a presen&ccedil;a das mulheres na ind&uacute;stria era implementada pelos propriet&aacute;rios das f&aacute;bricas como uma manobra para tentar enfraquecer a capacidade de resist&ecirc;ncia dos oper&aacute;rios. Aqueles viam “na horrorosa ignor&acirc;ncia das mulheres plebeias, e na sua fragilidade, um &oacute;timo instrumento para escarnecerem e zombarem com os oper&aacute;rios. E a prova &eacute; que as companheiras ainda s&atilde;o mais exploradas, calando-se elas sempre em face de t&atilde;o vil despotismo”<a href="#9"><sup>9</sup></a><a name="top9"></a>. A concorr&ecirc;ncia provocada pela crescente introdu&ccedil;&atilde;o de m&atilde;o-de-obra feminina nas f&aacute;bricas de tabaco fazia com que se tornasse imperativo o acolhimento das oper&aacute;rias sob a &eacute;gide da associa&ccedil;&atilde;o<a href="#10"><sup>10</sup></a><a name="top10"></a>. S&oacute; assim poderiam ultrapassar as limita&ccedil;&otilde;es impostas pelo g&eacute;nero e seguir um rumo correto na defesa dos interesses de todos os que trabalhavam nesta ind&uacute;stria, naturalmente sob a lideran&ccedil;a dos homens, j&aacute; que as mulheres eram “esse sexo fr&aacute;gil”, que servia os patr&otilde;es como “uma arma terr&iacute;vel com que t&ecirc;m combatido os nossos direitos”<a href="#11"><sup>11</sup></a><a name="top11"></a>. Se neste artigo datado de 1880 se percebe uma clara dicotomia entre homens e mulheres, sublinhando a amea&ccedil;a que elas representavam para os “nossos direitos”, ou seja, os direitos espec&iacute;ficos dos homens como verdadeiros produtores de tabaco, dezasseis anos mais tarde, na sess&atilde;o comemorativa do anivers&aacute;rio da ACMT, realizada a 3 maio de 1896, o dirigente associativo Joaquim Jos&eacute; da Rocha mostrava-se preocupado com a situa&ccedil;&atilde;o dos tabaqueiros, um setor oper&aacute;rio onde o n&uacute;mero de homens era cada vez mais reduzido e questionava: “O que ser&aacute; das mulheres sem o apoio do sexo forte?” Segundo ele, era importante que as oper&aacute;rias come&ccedil;assem a integrar os corpos gerentes da associa&ccedil;&atilde;o “para se irem iniciando nos trabalhos associativos, para, se um dia se acharem s&oacute;s, sem o apoio dos homens, saberem conduzir-se na associa&ccedil;&atilde;o”<a href="#12"><sup>12</sup></a><a name="top12"></a>. Esta sugest&atilde;o, se bem que reafirmando a conce&ccedil;&atilde;o de fraternidade marcada pelo g&eacute;nero, abre a porta &agrave; participa&ccedil;&atilde;o das mulheres nos &oacute;rg&atilde;os dirigentes da associa&ccedil;&atilde;o. Essa abertura &eacute; uma necessidade decorrente do peso feminino na m&atilde;o-de-obra e na associa&ccedil;&atilde;o: de facto, entre 1892 e 1896, 74% da m&atilde;o-de-obra feminina fazia parte da ACMT<a href="#13"><sup>13</sup></a><a name="top13"></a>. Se em 1872, n&atilde;o sabemos por que motivo, excecionalmente uma oper&aacute;ria presidiu &agrave; assembleia realizada em 13 de dezembro, decorrendo a reuni&atilde;o “dentro do normal respeito” por parte dos participantes, os quais inclu&iacute;am muitas mulheres que usaram da palavra para elogiar a associa&ccedil;&atilde;o<a href="#14"><sup>14</sup></a><a name="top14"></a>, s&oacute; muito mais tarde se verificou a integra&ccedil;&atilde;o preconizada por Joaquim Jos&eacute; da Rocha, pois foi durante a 1&ordf; Rep&uacute;blica que foram eleitas as primeiras delegadas suplentes<a href="#15"><sup>15</sup></a><a name="top15"></a>. Esta demora institucional n&atilde;o impediu que as mulheres lutassem pelos direitos dos oper&aacute;rios em geral, se bem que, segundo o discurso associativo, no &ecirc;xito tivessem sido sempre enquadradas pela associa&ccedil;&atilde;o liderada pelos homens: </p>     <p>     <blockquote>As manipuladoras de tabaco t&ecirc;m de h&aacute; muito respeitado a linha de conduta aconselhada pelos seus companheiros nas diferentes evolu&ccedil;&otilde;es por que tem passado a classe para reivindicar os seus direitos. Elas t&ecirc;m-se manifestado contra a usurpa&ccedil;&atilde;o de garantias adquiridas com sacrif&iacute;cio e perseveran&ccedil;a, pactuando nos protestos e reclama&ccedil;&otilde;es justas que se t&ecirc;m evidenciado coletivamente. Podem ficar certas de que, enquanto seguirem os seus companheiros como at&eacute; aqui e compreenderem que a causa dos trabalhadores se resume nos sublimes princ&iacute;pios de ‘um por todos e todos por um', ser-lhes-&atilde;o respeitados os seus direitos e regalias pela leal&iacute;ssima defesa imposta com ardor e interesse que se deve prodigalizar a todas as causas justas que se pretendam amesquinhar; de contr&aacute;rio, voltariam de novo aos horr&iacute;veis tempos da mis&eacute;ria extrema, aos ign&oacute;beis vexames por que passaram e a todas essas deplor&aacute;veis situa&ccedil;&otilde;es de sacrif&iacute;cios e mart&iacute;rios<a href="#16"><sup>16</sup></a><a name="top16"></a>.         ]]></body>
<body><![CDATA[<p></p>         <p></p> </blockquote>     <p>O discurso constru&iacute;a uma identidade dos tabaqueiros marcada pelo g&eacute;nero, n&atilde;o obstante as mulheres dominarem quantitativamente os efetivos oper&aacute;rios na ind&uacute;stria. Sob a lideran&ccedil;a dos dirigentes associativos, exclusivamente masculinos, tinha sido poss&iacute;vel obter conquistas e melhorar as condi&ccedil;&otilde;es de trabalho e de vida. De outra forma, nada teriam conseguido, dado que esta n&atilde;o seria a esfera pr&oacute;pria das mulheres, o que condicionava a sua capacidade de lideran&ccedil;a e de combate &agrave; mis&eacute;ria. </p>     <p>Este discurso, se bem que mantendo-se influenciado pelo g&eacute;nero ao longo do per&iacute;odo em an&aacute;lise, acabou por ser moderado, n&atilde;o apenas pelo crescente n&uacute;mero de mulheres na m&atilde;o-de-obra fabril, mas tamb&eacute;m pelo car&aacute;cter combativo e interventivo que as oper&aacute;rias demonstraram. O seu poder de iniciativa fez-se sentir no meio associativo e nos locais de trabalho desde muito cedo: em novembro de 1872, formou-se uma comiss&atilde;o parit&aacute;ria de cinco cigarreiros e cinco cigarreiras para reunir com o visconde da Horta e discutir a redu&ccedil;&atilde;o do pagamento do fabrico de diversos tipos de cigarro. Na sequ&ecirc;ncia desta luta, em que os oper&aacute;rios rejeitaram o aumento que lhes era proposto, porque no acordo n&atilde;o era inclu&iacute;do o trabalho feminino, um charuteiro escreve que os oper&aacute;rios da Lisbonense haviam praticado </p>     <p>     <blockquote>o mais sublime exemplo de fraternidade! &Eacute; porque estes companheiros conhecem perfeitamente que a mulher, como oper&aacute;ria, tem os mesmos direitos e os mesmos deveres que o homem, como oper&aacute;rio. Vejam neste ato as nossas irm&atilde;s de trabalho de quantos sacrif&iacute;cios somos n&oacute;s capazes, para que os seus direitos sejam respeitados por esses exploradores, que todo o seu fim &eacute; matar-nos &agrave; fome, zombando a todos os momentos de n&oacute;s, ora tirando-nos o p&atilde;o da boca, ora prostituindo as nossas filhas, muitas vezes v&iacute;timas da sua ignor&acirc;ncia – e da mis&eacute;ria!<a href="#17"><sup>17</sup></a><a name="top17"></a>         <p></p>         <p></p> </blockquote>     <p>Ao enaltecer o sacrif&iacute;cio dos oper&aacute;rios, o autor n&atilde;o deixa de tamb&eacute;m sublinhar a igualdade de direitos e de deveres para todos os que compunham a m&atilde;o-de-obra fabril. Naturalmente, subjacentes a estas palavras est&atilde;o preocupa&ccedil;&otilde;es de ordem econ&oacute;mica, em particular a prefer&ecirc;ncia pela contrata&ccedil;&atilde;o de mulheres, a quem as f&aacute;bricas pagavam menos do que aos homens, e o aumento do risco de desemprego para estes, mas parece-nos importante que se assuma uma ideia de fraternidade inclusiva, envolvendo oper&aacute;rios e oper&aacute;rias. </p>     <p>Se atrav&eacute;s do discurso verificamos a delinea&ccedil;&atilde;o de uma conce&ccedil;&atilde;o de fraternidade diversa da que encontramos noutros setores oper&aacute;rios, tamb&eacute;m na pr&aacute;tica se afirma o papel ativo das mulheres na associa&ccedil;&atilde;o e nos locais de trabalho, quer em conjunto com os seus companheiros de f&aacute;brica, quer de forma aut&oacute;noma. A defini&ccedil;&atilde;o das mulheres como fr&aacute;geis, submissas e facilmente manipuladas pelos patr&otilde;es, ou seus representantes, e incapazes de, por si, lutarem contra o que percebiam como injusti&ccedil;a, parece ser contrariada pelas diversas a&ccedil;&otilde;es de iniciativa feminina. Exemplos disso s&atilde;o a recusa das oper&aacute;rias de substitu&iacute;rem os charuteiros, ganhando um sal&aacute;rio inferior ao dos homens, mantendo-se no trabalho em que estavam<a href="#18"><sup>18</sup></a><a name="top18"></a> a paragem espont&acirc;nea do trabalho na f&aacute;brica de Xabregas, em 1873, contra a admiss&atilde;o de duas ex-oper&aacute;rias da Regalia, numa altura em que era recusado trabalho a oper&aacute;rios e oper&aacute;rias daquela f&aacute;brica, logo seguida pela greve das cigarreiras da Regalia contra a m&aacute; qualidade do papel, que prejudicava a manipula&ccedil;&atilde;o. A atitude das oper&aacute;rias, por&eacute;m, seria criticada pelos dirigentes associativos, nomeadamente da Fraternidade Oper&aacute;ria que, numa reuni&atilde;o mantida nessa mesma noite, as demoveram da a&ccedil;&atilde;o por ser inconveniente<a href="#19"><sup>19</sup></a><a name="top19"></a>, a luta das charuteiras da Lisbonense contra a suspens&atilde;o de oito companheiras, em 1877<a href="#20"><sup>20</sup></a><a name="top20"></a>; a greve das oper&aacute;rias da f&aacute;brica de Xabregas, em 1881, contra a substitui&ccedil;&atilde;o do mestre da oficina de charutos finos por um mestre alem&atilde;o<a href="#21"><sup>21</sup></a><a name="top21"></a>; a paralisa&ccedil;&atilde;o das oper&aacute;rias da mesma f&aacute;brica, tr&ecirc;s meses depois, contra a diferen&ccedil;a de pagamentos pelo mesmo trabalho em duas f&aacute;bricas da mesma empresa, a Companhia Nacional de Tabacos<a href="#22"><sup>22</sup></a><a name="top22"></a>; a iniciativa das cigarreiras da Regalia, em 1882, exigindo melhor tabaco para manipular, convidando os cigarreiros que as acompanhassem na luta<a href="#23"><sup>23</sup></a><a name="top23"></a> e a integra&ccedil;&atilde;o de mulheres na comiss&atilde;o oper&aacute;ria durante a greve da mesma f&aacute;brica Regalia, naquele ano. Para l&aacute; das a&ccedil;&otilde;es no local de trabalho, e sendo raros os testemunhos escritos por oper&aacute;rias, &eacute; importante que se registe este apelo de uma cigarreira da f&aacute;brica Luso-Brit&acirc;nica, em defesa da igualdade de pagamento para trabalho igual: </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>     <blockquote>Porque nos pagam mais barato a n&oacute;s? Pois n&atilde;o temos tanta precis&atilde;o? De certo que temos, e &eacute; tanta maior injusti&ccedil;a quanto &agrave;s nossas companheiras charuteiras se lhes paga pelo mesmo pre&ccedil;o que aos charuteiros. Isto porque o seu trabalho tem tanto valor como o deles, assim como o nosso comparado com o dos cigarreiros; portanto temos igual direito &agrave; paga, pertence-nos a mesma justi&ccedil;a, e aos srs. industriais pertence-lhes o mesmo dever para connosco, e n&atilde;o abusar da nossa fraqueza<a href="#24"><sup>24</sup></a><a name="top24"></a>.         <p></p>         <p></p> </blockquote>     <p>A vida associativa n&atilde;o podia, portanto, ficar indiferente &agrave; for&ccedil;a num&eacute;rica e &agrave; capacidade interventiva das mulheres nesta ind&uacute;stria, influenciando decisivamente os interesses que as associa&ccedil;&otilde;es oper&aacute;rias defenderam junto dos patr&otilde;es e dos poderes p&uacute;blicos, como veremos adiante. Em suma, o papel das oper&aacute;rias dos tabacos ter&aacute; sido, na nossa opini&atilde;o, importante, n&atilde;o no desempenho de cargos associativos, n&atilde;o na elabora&ccedil;&atilde;o do discurso patente nas publica&ccedil;&otilde;es oper&aacute;rias, at&eacute; porque a larga maioria era analfabeta<a href="#25"><sup>25</sup></a><a name="top25"></a>, mas sim de modo informal, fazendo com que a marca dominante do g&eacute;nero masculino tivesse de ser moderada no discurso e na pr&aacute;tica.</p>     <p>A constru&ccedil;&atilde;o da identidade dos tabaqueiros assentou em tr&ecirc;s pilares – a igualdade, a justi&ccedil;a e a fraternidade. Se, nos casos da igualdade e da justi&ccedil;a, o discurso dos tabaqueiros n&atilde;o difere do de outros setores oper&aacute;rios, j&aacute; o conceito de fraternidade teve de ser infletido no que ao car&aacute;cter de g&eacute;nero diz respeito. Predominando nos textos a assun&ccedil;&atilde;o da superioridade do homem sobre a mulher, detetamos, por&eacute;m, alguma incoer&ecirc;ncia nesse discurso, motivada pela supremacia num&eacute;rica das mulheres na m&atilde;o-de-obra e pela interven&ccedil;&atilde;o ativa destas na vida associativa e nas lutas quotidianas nos locais de trabalho. Ao contr&aacute;rio do propalado car&aacute;cter submisso e fr&aacute;gil, as oper&aacute;rias tabaqueiras revelaram um esp&iacute;rito combativo e mobilizador, por diversas vezes demonstrando a sua autonomia em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; associa&ccedil;&atilde;o. Quer tenham sido enquadrados pela associa&ccedil;&atilde;o, quer tenham tido formas e estruturas que revelam alguma dificuldade por parte dos dirigentes associativos para controlar os protestos dos tabaqueiros, esses combates foram travados em nome da justi&ccedil;a e da igualdade, contra um sistema econ&oacute;mico, social e pol&iacute;tico considerado respons&aacute;vel pela degrada&ccedil;&atilde;o do oper&aacute;rio enquanto ser humano.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>OS TABAQUEIROS, “PROLET&Aacute;RIOS MORAIS”</b></p>     <p>Os protestos que mencionamos anteriormente, bem como outros a que nos referiremos mais &agrave; frente, mostram que os interesses dos tabaqueiros eram, em muitos aspetos, semelhantes aos de outros setores da classe oper&aacute;ria. Como prolet&aacute;rios, sentiam a fragilidade da sua condi&ccedil;&atilde;o derivada da precariedade do que tinham para oferecer – os seus bra&ccedil;os – e sofriam com a incerteza do emprego. Assim, as preocupa&ccedil;&otilde;es dos oper&aacute;rios das f&aacute;bricas dos tabacos de Lisboa, particularmente entre os anos 60 e os anos 80 do s&eacute;culo XIX, centraram-se em quest&otilde;es relacionadas com o local de trabalho e a amea&ccedil;a ao emprego. </p>     <p>Apesar de trabalharem numa das mais rent&aacute;veis ind&uacute;strias nacionais, os oper&aacute;rios tabaqueiros contavam-se, at&eacute; aos anos 90 do s&eacute;culo XIX, entre os trabalhadores mais pobres de Lisboa<a href="#26"><sup>26</sup></a><a name="top26"></a>. Os baixos sal&aacute;rios auferidos, fosse no per&iacute;odo do contrato, fosse durante o per&iacute;odo de liberaliza&ccedil;&atilde;o do fabrico, assim como a perda dos postos de trabalho levaram os oper&aacute;rios a tomar medidas extremas em diversas ocasi&otilde;es, que refletem a fragilidade da sua situa&ccedil;&atilde;o. Em 1874, por exemplo, oper&aacute;rios charuteiros que haviam sido dispensados requereram licen&ccedil;a para pedir esmola<a href="#27"><sup>27</sup></a><a name="top27"></a>; nove anos depois, vinte e seis oper&aacute;rias cigarreiras da f&aacute;brica de Xabregas entregaram uma peti&ccedil;&atilde;o &agrave; Rainha, pedindo uma esmola<a href="#28"><sup>28</sup></a><a name="top28"></a>; em 1887, as oper&aacute;rias empacotadoras da f&aacute;brica Vasco da Gama, afetadas pela fus&atilde;o das f&aacute;bricas, foram ao Pal&aacute;cio da Ajuda pedir esmola<a href="#29"><sup>29</sup></a><a name="top29"></a>. O recurso &agrave; esmola do p&uacute;blico em geral, ou da fam&iacute;lia real, ou ainda a ocupa&ccedil;&atilde;o dos desempregados em outras tarefas, como a constru&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o solucionava os problemas dos oper&aacute;rios<a href="#30"><sup>30</sup></a><a name="top30"></a>. Como escrevia Alves Roque, em 1883, as esmolas apenas minoravam a car&ecirc;ncia de trabalho e de sal&aacute;rio<a href="#31"><sup>31</sup></a><a name="top31"></a>, pelo que se tornariam necess&aacute;rias outras formas de press&atilde;o sobre os patr&otilde;es e os poderes p&uacute;blicos.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O repert&oacute;rio de a&ccedil;&otilde;es coletivas levadas a cabo pelos tabaqueiros incluiu, desde logo, a greve<a href="#32"><sup>32</sup></a><a name="top32"></a>, das quais damos conta em s&iacute;ntese, no Quadro 1. Foram greves de dura&ccedil;&atilde;o vari&aacute;vel, mas relativamente longas, com destaque para a de fevereiro de 1920 (80 dias), tamb&eacute;m abrangendo um n&uacute;mero de oper&aacute;rios vari&aacute;vel, e com motiva&ccedil;&otilde;es dominantemente salariais, ou contra os despedimentos. Apenas a greve na Regalia, em 1882, e que terminou em derrota para os oper&aacute;rios, visava contestar a substitui&ccedil;&atilde;o de cigarreiros por mulheres. Ali&aacute;s, das nove greves referenciadas, apenas em tr&ecirc;s os oper&aacute;rios foram total ou parcialmente bem-sucedidos, reflexo do fraco poder de negocia&ccedil;&atilde;o evidenciada por este setor da classe oper&aacute;ria face aos patr&otilde;es e aos interesses estabelecidos.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="toptoptopq1"></a> <img src="/img/revistas/cam/vser2n13/ser2n13a05q1.jpg"> <a href="#33"><sup>33</sup></a><a name="top33"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Para l&aacute; da greve e de protestos com ou sem o abandono dos postos de trabalho, como os exemplos dados anteriormente, v&aacute;rias vezes protagonizados por mulheres e n&atilde;o estruturados pelas associa&ccedil;&otilde;es, os tabaqueiros recorreram a concentra&ccedil;&otilde;es seguidas de manifesta&ccedil;&otilde;es pelas ruas da cidade, &agrave; forma&ccedil;&atilde;o de comiss&otilde;es com vista a entabular negocia&ccedil;&otilde;es com os patr&otilde;es das f&aacute;bricas, ou para levar as suas preocupa&ccedil;&otilde;es e reclama&ccedil;&otilde;es a outros n&iacute;veis do poder. Fosse qual fosse o tipo de a&ccedil;&atilde;o levada a cabo, a justifica&ccedil;&atilde;o tinha por base a quest&atilde;o da justi&ccedil;a e da moral. Os tabaqueiros s&atilde;o um exemplo do conceito de prolet&aacute;rios morais, cunhado por Donald Reid, isto &eacute;, trabalhadores cujas pr&aacute;ticas morais individuais ou coletivas lhes permitiriam triunfar sobre a degrada&ccedil;&atilde;o e a pen&uacute;ria<a href="#34"><sup>34</sup></a><a name="top34"></a>. Assim, as suas a&ccedil;&otilde;es visavam combater um sistema injusto e imoral, que privava os oper&aacute;rios de direitos fundamentais e, no limite, do pr&oacute;prio direito &agrave; vida: </p>     <p>     <blockquote>A natureza d&aacute;-nos vida, por conseguinte temos o direito de viver, ela que nos d&aacute; esse direito, ela e s&oacute; ela tem o mesmo direito de no-la tirar. N&atilde;o temos &oacute;dio a classes ou homens; eles obram unica e exclusivamente debaixo das praxes da organiza&ccedil;&atilde;o atual que tudo isso lhe permite. Queremos uma nova organiza&ccedil;&atilde;o baseada na justi&ccedil;a e na raz&atilde;o que tenha por fim a perfeita distribui&ccedil;&atilde;o da riqueza social produzida por todas as coletividades de que se comp&otilde;em os seres humanos<a href="#35"><sup>35</sup></a><a name="top35"></a>.         <p></p>         <p></p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Nestas linhas, escritas em 1896, exprime-se um programa de cariz socialista, isto &eacute;, rejeitando o individualismo inerente ao capitalismo, assente em princ&iacute;pios como a associa&ccedil;&atilde;o, a igualdade, a justi&ccedil;a e o orgulho da for&ccedil;a produtiva e o direito natural, mas rejeitando o &oacute;dio de classes. A sociedade socialista seria cooperativa e coletivista, em alternativa &agrave; competitividade e ao individualismo que caracterizavam a sociedade capitalista. Os oper&aacute;rios tabaqueiros consideravam poss&iacute;vel garantir a justi&ccedil;a social atrav&eacute;s de meios que n&atilde;o implicavam a viol&ecirc;ncia ou o confronto radical entre classes sociais. Esta linha de pensamento materializou-se na pr&aacute;tica, mesmo quando recorriam a formas de luta mais duras. O seu objetivo era assegurar as melhores condi&ccedil;&otilde;es poss&iacute;veis para os oper&aacute;rios, utilizando para esse fim todos os meios ao seu alcance, independentemente do seu car&aacute;cter de classe. Os patr&otilde;es deviam fazer o que estava moralmente certo e os oper&aacute;rios responderiam da mesma forma. Em 1887, apelava-se &agrave; Companhia Nacional de Tabacos: </p>     <p>     <blockquote>deve harmonizar o capital trabalho com o capital monet&aacute;rio, porque a aristocracia de um n&atilde;o &eacute; inferior &agrave; aristocracia do outro, e repartindo com aqueles que os ajudam a enriquecer n&atilde;o faz mais do que o seu dever, &eacute; preciso que se fraternize o capital com o trabalho, e cesse essa explora&ccedil;&atilde;o assaz indigna que outra coisa n&atilde;o &eacute; mais do que um odioso que j&aacute; h&aacute; muito devia ter acabado<a href="#36"><sup>36</sup></a><a name="top36"></a>.         <p></p>         <p></p> </blockquote>     <p>Retomando o tema da nobreza do trabalho, e colocando ao mesmo n&iacute;vel o Capital e o Trabalho, fazia-se a apologia da concilia&ccedil;&atilde;o das classes. Esta perspetiva seria repetida em 1895, agora j&aacute; de novo sob o monop&oacute;lio, em documento enviado ao Conselho de Administra&ccedil;&atilde;o da Companhia dos Tabacos de Portugal (COTAPO): “A classe dos manipuladores de tabaco tem o maior respeito pelo dign&iacute;ssimo Conselho de Administra&ccedil;&atilde;o e pela lei, e o seu mais ardente desejo consiste em harmonizar quanto poss&iacute;vel os interesses do capital com os do trabalho”<a href="#37"><sup>37</sup></a><a name="top37"></a>. N&atilde;o havia sonhos de expropria&ccedil;&otilde;es, nem sequer de partilhas de riqueza com os oper&aacute;rios. Desejava-se a igualdade e a justi&ccedil;a sem tirar nada a ningu&eacute;m, mas dando aos que trabalhavam aquilo a que tinham direito por Natureza. &Agrave; semelhan&ccedil;a de outros setores oper&aacute;rios, os tabaqueiros de Lisboa lutavam contra a press&atilde;o para transformar os seres humanos em meros servidores da economia, numa sociedade dominada pelas rela&ccedil;&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o e por uma vis&atilde;o do mundo em que a produ&ccedil;&atilde;o desempenhava um papel central. Nesse quadro, os oper&aacute;rios cedo perceberam a relev&acirc;ncia pol&iacute;tica e econ&oacute;mica da ind&uacute;stria dos tabacos, adaptando o seu discurso e as suas a&ccedil;&otilde;es a essa especificidade, rejeitando levar &agrave; pr&aacute;tica uma ideia de luta de classes. Fazendo uso de uma ret&oacute;rica em que sublinhavam o car&aacute;cter ordeiro e respeitador destes trabalhadores, aliaram-se a todos aqueles que os poderiam ajudar a conquistar os direitos que consideravam leg&iacute;timos, independentemente da classe de onde viesse esse apoio.</p>     <p>Um dos meios a que os tabaqueiros recorreram para chamar a aten&ccedil;&atilde;o para a sua situa&ccedil;&atilde;o e afirmar o seu car&aacute;cter moral foi a imprensa n&atilde;o oper&aacute;ria. Dessa forma, alcan&ccedil;avam uma audi&ecirc;ncia mais vasta que, ao simpatizar com a sua causa, poderia exercer press&atilde;o sobre os poderes p&uacute;blicos. Logo em 1863, numa carta publicada pelo jornal <i>O Portugu&ecirc;s</i>, expunham as suas queixas e apelavam &agrave; interven&ccedil;&atilde;o do governo “em favor dos que tiveram s&oacute; a inten&ccedil;&atilde;o de obterem melhor sal&aacute;rio” e que, ap&oacute;s uma assembleia no Campo de Santa Clara, tinham atravessado “parte desta capital na melhor ordem poss&iacute;vel” em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; casa do ministro da Fazenda, que recebeu um oper&aacute;rio portador da representa&ccedil;&atilde;o aprovada naquela reuni&atilde;o. O coment&aacute;rio do respons&aacute;vel pelo artigo refor&ccedil;ava a ideia de que as reclama&ccedil;&otilde;es eram “bem justas e dignas de ser atendidas” e sublinhava o facto de o ministro ter recebido enquanto “intermedi&aacute;rio” “aqueles deserdados da fortuna, que buscaram o patriotismo numa conjuntura dif&iacute;cil”<a href="#38"><sup>38</sup></a><a name="top38"></a>. Ao optar por um comportamento ajustado ao cumprimento da lei e da ordem, os tabaqueiros punham a opini&atilde;o p&uacute;blica do seu lado, pelo que insistiam neste ponto, alguns dias mais tarde, aquando da desloca&ccedil;&atilde;o de tropas de Cavalaria e da Guarda para junto das instala&ccedil;&otilde;es fabris de Xabregas. Numa nova carta dirigida &agrave; imprensa, reafirmavam: </p>     <p>     <blockquote>os oper&aacute;rios n&atilde;o pedem mais do que p&atilde;o para poderem subsistir, e n&atilde;o lhes &eacute; poss&iacute;vel viver t&atilde;o desgra&ccedil;adamente e suas fam&iacute;lias. Se os seus inimigos os querem excitar &agrave; desordem, est&atilde;o perfeitamente enganados porque eles h&atilde;o-de mostrar ao p&uacute;blico desta capital, que s&atilde;o pac&iacute;ficos, e que o ato em que incorreram foi filho da desespera&ccedil;&atilde;o<a href="#39"><sup>39</sup></a><a name="top39"></a>.         <p></p>         ]]></body>
<body><![CDATA[<p></p> </blockquote>     <p>No ano de 1870, mesmo sob a amea&ccedil;a e o cerco da f&aacute;brica Regalia por tropas, os oper&aacute;rios que haviam entregado um pedido “nos termos mais respeitosos e no livre uso do direito de peti&ccedil;&atilde;o”, contra a nova tabela de sal&aacute;rios para os charuteiros, mantinham o seu prop&oacute;sito de “afastar de si qualquer m&aacute; impress&atilde;o que o caso produzisse no esp&iacute;rito p&uacute;blico”. N&atilde;o queriam “ser tidos por desordeiros ou exigentes do que n&atilde;o seja legal ou razo&aacute;vel dentro dos limites da ordem e do respeito que mutuamente se devem todas as classes”. Se o fizessem, prejudicariam “as suas reputa&ccedil;&otilde;es como homens”, mas tamb&eacute;m poderiam afetar o seu futuro quando “hajam de procurar trabalho noutro estabelecimento”<a href="#40"><sup>40</sup></a><a name="top40"></a>.</p>     <p>Um ano mais tarde, na sequ&ecirc;ncia da derrota da greve da Regalia, explicava-se que os oper&aacute;rios haviam decidido p&ocirc;r fim ao protesto “c&ocirc;nscios de terem procedido com a dignidade pr&oacute;pria de oper&aacute;rios civilizados, que souberam advogar os seus interesses com ordem e modera&ccedil;&atilde;o”. Ao mesmo tempo, agradeciam &agrave; imprensa “a maneira atenciosa por que foram tratados, e bem assim ao Governador Civil e comiss&aacute;rio Rangel”<a href="#41"><sup>41</sup></a><a name="top41"></a>. Os tabaqueiros enalteciam o seu comportamento e o de todos aqueles que haviam mantido uma atitude considerada justa. Eles eram prolet&aacute;rios morais, dispostos ao sacrif&iacute;cio, mas seguros de que a justi&ccedil;a chegaria mais tarde ou mais cedo, sem haver necessidade de recorrer a meios violentos: “Paci&ecirc;ncia! Um dia mais no Calv&aacute;rio, crucificados pela fome, pelo frio, pelo vilip&ecirc;ndio; e a ressurei&ccedil;&atilde;o, essa obra assombrosa que n&oacute;s preparamos com os nossos males, far&aacute; tremer a terra! Sim, far&aacute;!”<a href="#42"><sup>42</sup></a><a name="top42"></a>, escreviam como rea&ccedil;&atilde;o &agrave; recusa dos patr&otilde;es em recuar nos despedimentos na Regalia. Enquanto estes tinham um comportamento imoral, os tabaqueiros recorriam ao simbolismo crist&atilde;o para refor&ccedil;ar a representa&ccedil;&atilde;o da sua realidade quotidiana. Tamb&eacute;m nos momentos de celebra&ccedil;&atilde;o da vit&oacute;ria, os oper&aacute;rios manifestavam o seu car&aacute;cter moral:</p>     <p>     <blockquote>Somos vencedores, mas fraternais, e havemos de s&ecirc;-lo sempre, perdoando &aacute;queles que, sendo nossos inimigos, s&oacute; nos queriam aniquilar e cavar a nossa ru&iacute;na, sem se lembrarem que pod&iacute;amos ainda ganhar uma vit&oacute;ria, com a qual abat&ecirc;ssemos a sua altivez e principi&aacute;ssemos a despeda&ccedil;ar os grilh&otilde;es da escravid&atilde;o&hellip; Honra aos propriet&aacute;rios da f&aacute;brica que reconhecendo que eram iludidos e que os oper&aacute;rios s&oacute; reclamavam o que era de justi&ccedil;a (&hellip;)<a href="#43"><sup>43</sup></a><a name="top43"></a>.         <p></p>         <p></p> </blockquote>     <p>Sem triunfalismo, ou afirma&ccedil;&atilde;o de &oacute;dio de classe, os tabaqueiros optavam por um caminho que divergia do escolhido por outros setores oper&aacute;rios, n&atilde;o conciliadores com os “inimigos”. Isso n&atilde;o impediu que, no seio dos manipuladores de tabacos, houvesse quem, num ou outro momento, usasse uma ret&oacute;rica mais agressiva, como Dam&aacute;sio da Gra&ccedil;a, em 1887, numa diatribe contra o monop&oacute;lio: </p>     <p>     <blockquote>Se os poderes constitu&iacute;dos n&atilde;o atenderem &agrave;s nossas justas reclama&ccedil;&otilde;es; ent&atilde;o n&oacute;s que sempre temos sido sossegados e bastante moderados em todos os nossos atos, n&oacute;s que sempre temos sido prudentes e ordeiros, n&atilde;o hesitaremos nem um instante em recorrermos aos meios extremos, e acabarmos com a prud&ecirc;ncia, com a toler&acirc;ncia e com todo o respeito &agrave; lei, e servir-nos-emos dos meios violentos que deixam de ser crime para se tornarem em virtudes<a href="#44"><sup>44</sup></a><a name="top44"></a>.         ]]></body>
<body><![CDATA[<p></p>         <p></p> </blockquote>     <p>Por&eacute;m, a atitude dominante n&atilde;o foi a do confronto, preferindo-se buscar na opini&atilde;o p&uacute;blica e noutros aliados a for&ccedil;a que os oper&aacute;rios admitiam n&atilde;o ter no contexto em que viviam. Ao longo do per&iacute;odo em an&aacute;lise, a defesa dos interesses dos tabaqueiros exerceu-se sempre dentro dos limites de que acima demos exemplos, acentuando-se durante e ap&oacute;s o regime de <i>r&eacute;gie</i><a href="#45"><sup>45</sup></a><a name="top45"></a>. Entre 1888 e 1891, n&atilde;o houve conflitos de maior dimens&atilde;o, at&eacute; porque muitas das reclama&ccedil;&otilde;es que tinham apresentado anteriormente foram satisfeitas com a interven&ccedil;&atilde;o do governo e, muito em particular, pela administra&ccedil;&atilde;o liderada por Oliveira Martins<a href="#46"><sup>46</sup></a><a name="top46"></a>. Nesses anos, desaconselhavam-se a&ccedil;&otilde;es precipitadas, ou exig&ecirc;ncias descabidas que pusessem em causa o que havia sido garantido. Assim: </p>     <p>     <blockquote>N&oacute;s aconselhamos aos oper&aacute;rios a m&aacute;xima cordura, e aplaudimo-los pelo seu procedimento ordeiro, no s&aacute;bado (22); mas tamb&eacute;m lhes lembramos, que quando se julguem lesados ou ofendidos, junto da Companhia h&aacute; um fiscal do governo, que h&aacute;-de atender &agrave;s reclama&ccedil;&otilde;es dos oper&aacute;rios. E depois do fiscal h&aacute; o sr. Ministro da Fazenda, h&aacute; o parlamento, e ainda h&aacute; mais a quem podem reclamar justi&ccedil;a, quando dela care&ccedil;am”<a href="#47"><sup>47</sup></a><a name="top47"></a>.         <p></p>         <p></p> </blockquote>     <p>&Eacute; significativo que n&atilde;o se sugira qualquer a&ccedil;&atilde;o inclu&iacute;da no repert&oacute;rio tradicional de luta oper&aacute;ria. Tal ter&aacute; a ver, necessariamente, com a gest&atilde;o estatal, mas corresponde no essencial &agrave; op&ccedil;&atilde;o por uma via de di&aacute;logo transversal &agrave;s classes, uma via pragm&aacute;tica que tinha como objetivo central a defesa da dignidade das condi&ccedil;&otilde;es de vida e de trabalho dos tabaqueiros. Esta op&ccedil;&atilde;o foi tamb&eacute;m importante para que estes oper&aacute;rios n&atilde;o apresentassem apenas reclama&ccedil;&otilde;es relacionadas com as rela&ccedil;&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o no local de trabalho, mas que fugissem ao reducionismo pr&oacute;prio de muitas associa&ccedil;&otilde;es e sindicatos que tendiam a focar os trabalhadores no consumo. Ou seja, os sindicatos, em diversos contextos, afastavam-se dos problemas relacionados com a comunidade, a fam&iacute;lia ou o g&eacute;nero, para centrarem a resist&ecirc;ncia oper&aacute;ria apenas nas quest&otilde;es materiais<a href="#48"><sup>48</sup></a><a name="top48"></a>. As associa&ccedil;&otilde;es de tabaqueiros souberam ir para l&aacute; dessas quest&otilde;es e desenvolveram reclama&ccedil;&otilde;es relacionadas com outros aspetos do dia a dia, satisfazendo as necessidades de todos, e especificamente das mulheres. Foram importantes as lutas pelo direito &agrave; reforma paga e &agrave; assist&ecirc;ncia m&eacute;dica fora do local de trabalho, garantidas durante o per&iacute;odo da <i>r&eacute;gie</i>, pelo estabelecimento de uma farm&aacute;cia privativa, criada pela Companhia dos Tabacos de Portugal em 1894, pela cria&ccedil;&atilde;o de creches junto &agrave;s f&aacute;bricas<a href="#49"><sup>49</sup></a><a name="top49"></a>. Esta foi uma luta que se arrastou ao longo de v&aacute;rios anos, que teve uma primeira experi&ecirc;ncia em 1910, a qual terminou por aparente falta de ades&atilde;o das oper&aacute;rias<a href="#50"><sup>50</sup></a><a name="top50"></a> e apenas se concretizou durante o Estado Novo, em 1936<a href="#51"><sup>51</sup></a><a name="top51"></a>. Associada &agrave; import&acirc;ncia das mulheres nesta ind&uacute;stria, est&aacute; ainda a constru&ccedil;&atilde;o de uma maternidade da Companhia, em funcionamento no ano de 1931, com uma ades&atilde;o crescente por parte das oper&aacute;rias<a href="#52"><sup>52</sup></a><a name="top52"></a>. N&atilde;o poderia ser esquecida a participa&ccedil;&atilde;o das organiza&ccedil;&otilde;es dos tabaqueiros nos protestos contra a carestia da habita&ccedil;&atilde;o em Lisboa, um dos flagelos que afetava a classe em geral, mas a que os oper&aacute;rios dos tabacos deram particular aten&ccedil;&atilde;o<a href="#53"><sup>53</sup></a><a name="top53"></a>.</p>     <p>A satisfa&ccedil;&atilde;o dos interesses imateriais passava, tamb&eacute;m, pela instru&ccedil;&atilde;o dos oper&aacute;rios e dos seus filhos. &Eacute; muito significativo que, logo no primeiro n&uacute;mero de <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i>, o tabaqueiro Cust&oacute;dio Braz Pacheco condene o tratamento do oper&aacute;rio como um escravo, at&eacute; porque o talento n&atilde;o era um monop&oacute;lio de classe. Dava mesmo o exemplo do manipulador de tabaco, Pedro Jos&eacute; de Carvalho, autor de poesia e de pe&ccedil;as de teatro, entre outros oper&aacute;rios com dotes art&iacute;sticos. Eles eram provas vivas da capacidade de eleva&ccedil;&atilde;o dos trabalhadores, mas que era essencial que houvesse as condi&ccedil;&otilde;es para que o talento desabrochasse, nomeadamente condi&ccedil;&otilde;es de igualdade ao n&iacute;vel da instru&ccedil;&atilde;o: </p>     <p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>Dizem esses desumanos potentados pretendendo justificar o seu repreens&iacute;vel procedimento, que cada um tem o direito de viver com a grandeza e a dec&ecirc;ncia relativas &agrave; sua posi&ccedil;&atilde;o. Mas quem os elevou a esse estado de grandeza n&atilde;o fomos n&oacute;s os oper&aacute;rios? Certamente que sim, porque o capital procede ou deve proceder do trabalho. N&oacute;s que lhes proporcionamos todas as comodidades n&atilde;o teremos direito a gozar tamb&eacute;m algumas, e a mandarmos educar os nossos filhos? O talento n&atilde;o &eacute; privil&eacute;gio dos ricos, e por isso se os filhos do povo fossem instru&iacute;dos como deviam ser n&atilde;o se perderiam algumas intelig&ecirc;ncias que passam despercebidas por n&atilde;o serem cultivadas<a href="#54"><sup>54</sup></a><a name="top54"></a>.         <p></p>         <p></p> </blockquote>     <p>Os verdadeiros criadores de riqueza tamb&eacute;m podiam ser criadores de saber e de cultura, desde que lhes fornecessem as ferramentas adequadas. Da&iacute; a import&acirc;ncia que a instru&ccedil;&atilde;o teve para os manipuladores de tabacos, criadores dessa grande institui&ccedil;&atilde;o do ensino que foi a Sociedade de Instru&ccedil;&atilde;o e Benefic&ecirc;ncia “A Voz do Oper&aacute;rio”, cuja primeira escola foi inaugurada em 11 de outubro de 1891<a href="#55"><sup>55</sup></a><a name="top55"></a>. Chegando a ter mais de tr&ecirc;s mil alunos de ambos os sexos em escolas espalhadas por toda a cidade no in&iacute;cio do s&eacute;culo XX<a href="#56"><sup>56</sup></a><a name="top56"></a>, a “Voz do Oper&aacute;rio” tornou-se um s&iacute;mbolo do direito &agrave; instru&ccedil;&atilde;o para todos, mesmo (ou principalmente&hellip;) aqueles que n&atilde;o tinham condi&ccedil;&otilde;es econ&oacute;micas para estudar ou p&ocirc;r os seus filhos a estudar. Atrav&eacute;s da sua obra, os manipuladores de tabacos procuravam distribuir a luz da instru&ccedil;&atilde;o aos que eram v&iacute;timas da injusti&ccedil;a que caracterizava a sociedade capitalista<a href="#57"><sup>57</sup></a><a name="top57"></a>. Como afirmava Ant&oacute;nio de Jesus Soares em carta dirigida a <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i>, a instru&ccedil;&atilde;o dos oper&aacute;rios devia partir da iniciativa dos pr&oacute;prios, porque nada se devia esperar dos governos<a href="#58"><sup>58</sup></a><a name="top58"></a>.</p>     <p>Os oper&aacute;rios da ind&uacute;stria dos tabacos em Lisboa desenvolveram ao longo do s&eacute;culo XIX e das primeiras d&eacute;cadas do s&eacute;culo XX uma identidade pr&oacute;pria no seio da classe oper&aacute;ria. Essa identidade passou pela afirma&ccedil;&atilde;o de uma estrat&eacute;gia de a&ccedil;&atilde;o na defesa dos seus interesses que correspondia &agrave; especificidade do setor e se traduziu na rejei&ccedil;&atilde;o da luta de classes, na procura do di&aacute;logo com o poder econ&oacute;mico e pol&iacute;tico e no estabelecimento de alian&ccedil;as com elementos ligados a esse poder que pudessem auxiliar na satisfa&ccedil;&atilde;o daqueles interesses. A cont&iacute;nua representa&ccedil;&atilde;o do tabaqueiro como cumpridor da lei e da ordem, e com o direito &agrave; garantia de condi&ccedil;&otilde;es de vida e de trabalho dignas de um ser humano, fizeram destes oper&aacute;rios exemplos de prolet&aacute;rios morais que, representados pelas suas associa&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o apenas lutaram por interesses relacionados diretamente com o local de trabalho e o consumo, mas tamb&eacute;m com interesses n&atilde;o materiais, em particular, a instru&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>A A&Ccedil;&Atilde;O POL&Iacute;TICA</b></p>     <p>O caminho conciliat&oacute;rio seguido pelos manipuladores de tabacos nem sempre foi bem aceite pelo chamado <i>movimento oper&aacute;rio</i>. As acusa&ccedil;&otilde;es de isolacionismo, de falta de solidariedade e de defesa de interesses corporativos generalizaram-se, em especial, ao longo das duas &uacute;ltimas d&eacute;cadas de Oitocentos e in&iacute;cios do s&eacute;culo XX.</p>     <p>Na verdade, depois do perturbado Congresso das Associa&ccedil;&otilde;es de Classe de 1892 no Porto, jamais as associa&ccedil;&otilde;es de manipuladores de tabacos voltaram a enviar delegados a qualquer congresso oper&aacute;rio<a href="#59"><sup>59</sup></a><a name="top59"></a>. Se bem que reconhecendo “a conveni&ecirc;ncia da federa&ccedil;&atilde;o, que bem organizada &eacute; &uacute;til”, os dirigentes associativos consideravam haver assuntos mais prementes a tratar e a Federa&ccedil;&atilde;o das Associa&ccedil;&otilde;es de Classe foi votada ao desprezo<a href="#60"><sup>60</sup></a><a name="top60"></a>. A esta decis&atilde;o juntava-se o desinteresse dos manipuladores de tabacos pela participa&ccedil;&atilde;o nas comemora&ccedil;&otilde;es do 1&ordm; de Maio organizadas pela Uni&atilde;o Oper&aacute;ria. Desde 1899, os manipuladores de tabaco deixaram de nomear delegados &agrave; organiza&ccedil;&atilde;o da manifesta&ccedil;&atilde;o e em 1900 n&atilde;o participaram mesmo no desfile<a href="#61"><sup>61</sup></a><a name="top61"></a>.</p>     <p>Em contrapartida, os oper&aacute;rios dos tabacos prestavam homenagem a Oliveira Martins, Augusto Fuschini e Dantas Baracho, inaugurando os seus retratos na sede associativa, em agradecimento pelas suas interven&ccedil;&otilde;es em benef&iacute;cio dos oper&aacute;rios no per&iacute;odo da administra&ccedil;&atilde;o estatal, no parlamento ou no tribunal arbitral<a href="#62"><sup>62</sup></a><a name="top62"></a>. N&atilde;o participavam nas manifesta&ccedil;&otilde;es do 1&ordm; de Maio, um “ritual da classe oper&aacute;ria”, mas inclu&iacute;am-se nas cerim&oacute;nias f&uacute;nebres do rei D. Lu&iacute;s ou exprimiam a inten&ccedil;&atilde;o de se incorporar no cortejo c&iacute;vico em homenagem a Cam&otilde;es<a href="#63"><sup>63</sup></a><a name="top63"></a>. Esta participa&ccedil;&atilde;o nos rituais c&iacute;vicos revela o desejo de integra&ccedil;&atilde;o por parte deste setor da classe oper&aacute;ria, de obten&ccedil;&atilde;o de uma justi&ccedil;a simb&oacute;lica, para l&aacute; da real, pois durante essas cerim&oacute;nias ser-lhe-ia concedido reconhecimento e estatuto social.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O caminho seguido pelos tabaqueiros provocou rea&ccedil;&otilde;es de v&aacute;rios quadrantes, nomeadamente dos setores socialistas representados pelo jornal <i>O Protesto Oper&aacute;rio</i>, &oacute;rg&atilde;o do Partido Socialista. Acusando <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> de ser um &oacute;rg&atilde;o que semeava a disc&oacute;rdia nos meios oper&aacute;rios, questionava-se “se essa ‘Voz' &eacute; do c&eacute;u ou do inferno; se &eacute; de oper&aacute;rio oprimido, ou de patr&atilde;o velhaco, se &eacute; de pol&iacute;tico burgu&ecirc;s ou de trabalhador socialista”<a href="#64"><sup>64</sup></a><a name="top64"></a>. Alguns dias depois, voltavam a levantar-se d&uacute;vidas sobre o verdadeiro car&aacute;cter do jornal dos manipuladores de tabacos: “A ‘Voz do Oper&aacute;rio' &eacute; socialista? Se &eacute; socialista e sabe que os esfor&ccedil;os isolados s&atilde;o in&uacute;teis por que n&atilde;o trabalha com os outros socialistas portugueses? Se n&atilde;o &eacute; socialista, para que est&aacute; constantemente mentindo aos oper&aacute;rios?”<a href="#65"><sup>65</sup></a><a name="top65"></a> A pol&eacute;mica prolongar-se-ia com um ataque direto &agrave;s alian&ccedil;as dos tabaqueiros de Lisboa, criticando aqueles que consideravam ser poss&iacute;vel uma aproxima&ccedil;&atilde;o entre o Trabalho e o Capital, numa clara assun&ccedil;&atilde;o da ideia de luta de classes: “A alian&ccedil;a deste com aquele, &eacute; imposs&iacute;vel; pois que dessa alian&ccedil;a resultaria a exist&ecirc;ncia dos ricos e pobres, de servos e patr&otilde;es, de governados e governantes, tal qual hoje existe, e, portanto, a mis&eacute;ria, a depend&ecirc;ncia e a servid&atilde;o”<a href="#66"><sup>66</sup></a><a name="top66"></a>. Esta cr&iacute;tica em particular havia nascido como r&eacute;plica a Cust&oacute;dio Braz Pacheco, que havia afirmado ser republicano em pol&iacute;tica e socialista em economia. Ora, do ponto de vista dos socialistas de <i>O Protesto Oper&aacute;rio</i>, essa era uma posi&ccedil;&atilde;o indefinida e, no limite, insustent&aacute;vel, at&eacute; porque, escrevia o articulista: </p>     <p>     <blockquote><i>republicanos</i> TODOS N&Oacute;S O SOMOS; mas que aqueles que s&oacute; se contentam com a forma republicana, continuam a querer na ess&ecirc;ncia as coisas tais quais est&atilde;o, isto &eacute; – a supremacia do capital; e que os que trabalham pelo triunfo do socialismo querem n&atilde;o s&oacute; a rep&uacute;blica, mas tamb&eacute;m a supremacia do trabalho, com todas as suas consequ&ecirc;ncias.         <p></p>         <p></p> </blockquote>     <p>Esta pol&eacute;mica n&atilde;o tinha apenas origem externa, pois no seio dos tabaqueiros havia diverg&ecirc;ncias quanto &agrave; estrat&eacute;gia a seguir, de que seria reflexo o aparecimento de associa&ccedil;&otilde;es opostas &agrave; ACMT, e que diziam ser representativas dos oper&aacute;rios do setor<a href="#67"><sup>67</sup></a><a name="top67"></a>. Os &ecirc;xitos obtidos com a <i>r&eacute;gie</i> e nos contratos ap&oacute;s o final da administra&ccedil;&atilde;o estatal n&atilde;o deixaram espa&ccedil;o de manobra para os que defendiam a radicaliza&ccedil;&atilde;o dos tabaqueiros de Lisboa, apesar do aumento da conflitualidade laboral sob a 1&ordf; Rep&uacute;blica. Isso n&atilde;o impediu que houvesse greves setoriais nas f&aacute;bricas de tabaco, ou que participassem ativamente em greves gerais e de solidariedade com outros setores oper&aacute;rios ap&oacute;s a implanta&ccedil;&atilde;o da Rep&uacute;blica<a href="#68"><sup>68</sup></a><a name="top68"></a> e de receber a solidariedade dos ferrovi&aacute;rios durante a greve na Primavera de 1918 (<a href="#f1">Figura 1</a>). Ou seja, os tabaqueiros n&atilde;o estavam t&atilde;o afastados do chamado movimento oper&aacute;rio como alguns setores procuravam fazer crer, tendo mesmo entregue &agrave; Uni&atilde;o Oper&aacute;ria Nacional a resolu&ccedil;&atilde;o da &uacute;nica greve que terminou em vit&oacute;ria, se bem que parcial, durante a 1&ordf; Rep&uacute;blica<a href="#69"><sup>69</sup></a><a name="top69"></a>. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1"></a> <img src="/img/revistas/cam/vser2n13/ser2n13a04f1.jpg">     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Na origem das cr&iacute;ticas apontadas aos tabaqueiros est&aacute; o seu aparente afastamento da luta pol&iacute;tica pela transforma&ccedil;&atilde;o da sociedade, mas especificamente pela substitui&ccedil;&atilde;o do sistema capitalista pelo socialismo, isto &eacute;, por um sistema de maior justi&ccedil;a social. De facto, desde cedo que a recusa da mistura da pol&iacute;tica com a luta sindical fez parte do discurso dos manipuladores de tabacos. Na apresenta&ccedil;&atilde;o de <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i>, afirmava-se a independ&ecirc;ncia em rela&ccedil;&atilde;o aos partidos pol&iacute;ticos e dizia-se em rela&ccedil;&atilde;o ao peri&oacute;dico rec&eacute;m-nascido: “N&atilde;o lhe ensinamos pol&iacute;tica porque para o mister a que se prop&otilde;e n&atilde;o precisa dela”<a href="#70"><sup>70</sup></a><a name="top70"></a>. Em 1887, numa reuni&atilde;o associativa contra o gr&eacute;mio dos tabacos, houve o cuidado de evitar a infiltra&ccedil;&atilde;o de estranhos, “por causa dos pol&iacute;ticos que quisessem especular com a quest&atilde;o”, e dava-se o exemplo negativo dos manipuladores de tabacos do Porto, cujos protestos teriam sido utilizados como arma da luta pol&iacute;tica, com impacto nocivo para aqueles oper&aacute;rios<a href="#71"><sup>71</sup></a><a name="top71"></a>.</p>     <p>Compreende-se esta rejei&ccedil;&atilde;o da interfer&ecirc;ncia pol&iacute;tica nas lutas por objetivos econ&oacute;micos centrados no local de trabalho, tanto mais que o setor dos tabacos era, por natureza, apetec&iacute;vel para a luta partid&aacute;ria durante o per&iacute;odo em an&aacute;lise. O debate em torno do regime de fabrico, no final dos anos 80 do s&eacute;culo XIX, &eacute; revelador disso mesmo. Enquanto os dirigentes associativos mostravam a sua simpatia pela administra&ccedil;&atilde;o estatal, pelo menos enquanto regime de transi&ccedil;&atilde;o<a href="#72"><sup>72</sup></a><a name="top72"></a>, esta solu&ccedil;&atilde;o era contestada pelos socialistas marxistas de <i>O Protesto Oper&aacute;rio</i> que alertavam para o car&aacute;cter de classe do Estado, o que faria com que as condi&ccedil;&otilde;es de vida e de trabalho dos tabaqueiros, no fundo, n&atilde;o sofreriam altera&ccedil;&atilde;o<a href="#73"><sup>73</sup></a><a name="top73"></a>. Para essa corrente socialista, o regime dos tabacos era essencialmente uma quest&atilde;o pol&iacute;tica, numa perspetiva que n&atilde;o era bem vista pelos dirigentes das principais associa&ccedil;&otilde;es de oper&aacute;rios tabaqueiros. Contudo, isso n&atilde;o significa que tenham desprezado a interven&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica para a obten&ccedil;&atilde;o da sa&iacute;da que consideravam mais adequada &agrave; realidade dos manipuladores de tabacos. Pelo contr&aacute;rio, o estabelecimento de alian&ccedil;as <i>de facto</i> com deputados como Fuschini ou Eduardo Abreu, desvalorizando a quest&atilde;o de classe t&atilde;o cara aos marxistas, &eacute; uma a&ccedil;&atilde;o significante de uma estrat&eacute;gia pragm&aacute;tica que usava as for&ccedil;as dispon&iacute;veis na arena pol&iacute;tica, em fun&ccedil;&atilde;o da satisfa&ccedil;&atilde;o dos superiores interesses dos oper&aacute;rios tabaqueiros.</p>     <p>Essa estrat&eacute;gia adequava-se ao contexto econ&oacute;mico e pol&iacute;tico e n&atilde;o era impeditiva de que o discurso dominante fosse de cariz socialista, isto &eacute;, defendendo a Justi&ccedil;a, a Igualdade e a Fraternidade, se bem que numa perspetiva reformista. Os manipuladores de tabacos haviam sido uma das mais importantes sec&ccedil;&otilde;es profissionais da Associa&ccedil;&atilde;o Fraternidade Oper&aacute;ria, fundada em janeiro de 1872, com cerca de 1640 inscritos, 960 homens e mulheres<a href="#74"><sup>74</sup></a><a name="top74"></a>. O entusiasmo que as ideias socialistas veiculadas pela Fraternidade Oper&aacute;ria provocou entre os manipuladores de tabacos foi evidente em momentos como aquele em que, numa s&oacute; assembleia, foram aprovados 590 novos s&oacute;cios<a href="#75"><sup>75</sup></a><a name="top75"></a>. Desde ent&atilde;o, os oper&aacute;rios dos tabacos identificaram-se e foram identificados com o socialismo<a href="#76"><sup>76</sup></a><a name="top76"></a>. As diverg&ecirc;ncias em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; estrat&eacute;gia reivindicativa e grevista seguida at&eacute; 1873, e que culminara na derrota da greve na f&aacute;brica Luso-Brit&acirc;nica<a href="#77"><sup>77</sup></a><a name="top77"></a>, fizeram com que os dirigentes dos tabaqueiros tomassem consci&ecirc;ncia de que os trabalhadores haviam sido conduzidos a um beco sem sa&iacute;da: </p>     <p>     <blockquote>Quando entr&aacute;mos no movimento oper&aacute;rio, em 1872, entusiasmados com as teorias socialistas, que para n&oacute;s surgiam como raios vermelhos em alvorada de Maio, julg&aacute;mos, com a ingenuidade dos poucos anos e a cren&ccedil;a no ideal que abra&ccedil;&aacute;mos, que a hora redentora para o operariado ia prestes soar, que a explora&ccedil;&atilde;o do homem pelo homem em breve acabava, que o reinado da justi&ccedil;a em pouco tempo seria um facto<a href="#78"><sup>78</sup></a><a name="top78"></a>.         <p></p>         <p></p> </blockquote>     <p>A euforia do in&iacute;cio dos anos 70 deu lugar a uma linha de a&ccedil;&atilde;o que se pretendia mais refletida, mais realista, em que os esfor&ccedil;os dos oper&aacute;rios fossem dirigidos no sentido das conquistas imediatas, sem valorizar a luta de classes ou os objetivos revolucion&aacute;rios que outros setores oper&aacute;rios perseguiam<a href="#79"><sup>79</sup></a><a name="top79"></a>. O socialismo reformista tornou-se o discurso unificador dos tabaqueiros, nomeadamente nos anos 80 e 90 do s&eacute;culo XIX, levando-os numa via de compromisso de classe que, escreveu um oper&aacute;rio, se n&atilde;o os fez alcan&ccedil;ar a felicidade, levara-os a uma situa&ccedil;&atilde;o melhor do alguma vez haviam tido, pelo menos durante a vig&ecirc;ncia da administra&ccedil;&atilde;o estatal<a href="#80"><sup>80</sup></a><a name="top80"></a>. </p>     <p>As lutas que se seguiram ao fim da <i>r&eacute;gie</i> mantiveram o mesmo car&aacute;cter, com a procura de apoio em todos os quadrantes, em especial junto de quem tinha o poder para se opor &agrave; Companhia, incluindo o monarca:</p>     <p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>Oper&aacute;rios manipuladores de tabaco, ide aos poderosos da Na&ccedil;&atilde;o, aos que pela nobreza dos seus sentimentos compreendem conscienciosamente o que &eacute; a justi&ccedil;a d<a id="_idTextAnchor006"></a>os homens mal intencionados, levai-lhe a vossa lei de prote&ccedil;&atilde;o que est&aacute; sendo anulada sofisticamente, implorai-lhes a sua defesa por uma classe que foi desgra&ccedil;ada e que o pode tornar a ser sem justifica&ccedil;&atilde;o plaus&iacute;vel, a n&atilde;o ser para tornar mais valiosa a riqueza dos contratadores. Ide ao Chefe do Estado, lembrai-lhe as promessas feitas por seu pai, e postas em execu&ccedil;&atilde;o protetora para com esta classe, dizei-lhe que a Companhia dos Tabacos &eacute; mais poderosa do que lei de prote&ccedil;&atilde;o iniciada pelos humanit&aacute;rios princ&iacute;pios concedidos pelo seu saudoso pai. Dizei-lhe tudo enfim, porque a Constitui&ccedil;&atilde;o d&aacute;-lhe o supremo direito de fazer manter a lei ou rescindir o contrato”<a href="#81"><sup>81</sup></a><a name="top81"></a>.         <p></p>         <p></p> </blockquote>     <p>Atrav&eacute;s da press&atilde;o exercida junto dos poderes p&uacute;blicos seria poss&iacute;vel contrariar o “colosso” que era a Companhia dos Tabacos. De outra forma, nada se poderia obter. A conquista do apoio junto dos detentores do poder pol&iacute;tico e da opini&atilde;o p&uacute;blica continuava a ser fundamental na estrat&eacute;gia dos tabaqueiros. Nada devia ser feito que pudesse alienar esse apoio ou, pelo menos, a simpatia obtida: “O operariado, dando ao mundo exemplos de cordura e sensatez, conquista por esse meio, mais, muito mais em seu proveito, do que porventura praticar qualquer insensatez que o manche perante a hist&oacute;ria”<a href="#82"><sup>82</sup></a><a name="top82"></a>. Nenhum aliado podia ser desprezado, fossem deputados ou pares do Reino, como Fuschini, Baracho, Anselmo de Andrade, ou Jo&atilde;o Franco<a href="#83"><sup>83</sup></a><a name="top83"></a>, fosse o pr&oacute;prio monarca<a href="#84"><sup>84</sup></a><a name="top84"></a>. Afinal, o governo parecia ser o garante do estabelecimento e cumprimento de um contrato justo e seria nele que os tabaqueiros depositariam a sua esperan&ccedil;a quando n&atilde;o houvesse abertura da parte da administra&ccedil;&atilde;o da Companhia para satisfazer as reclama&ccedil;&otilde;es oper&aacute;rias: </p>     <p>     <blockquote>N&atilde;o sabemos o que suceder&aacute;, afinal, de tantos debates. Mas indiferentes &agrave; solu&ccedil;&atilde;o ulterior, s&oacute; hoje consideramos o Estado como elemento de valor e de compet&ecirc;ncia para nos auxiliar. &Eacute; dele que depende o sermos atendidos no que pedimos e que por demais se v&ecirc; que &eacute; justo e equitativo. Sendo a parcela mais valiosa de quantos entram na ind&uacute;stria do tabaco, sendo uma parte importante da Na&ccedil;&atilde;o, para o Estado apelamos neste momento em que se joga o nosso futuro<a href="#85"><sup>85</sup></a><a name="top85"></a>.         <p></p>         <p></p> </blockquote>     <p>Consequentemente, a arena pol&iacute;tica seria um espa&ccedil;o em que os tabaqueiros teriam de saber mover-se habilmente, jogando com as diversas alian&ccedil;as que pudessem fazer a fim da concretiza&ccedil;&atilde;o dos seus objetivos. Ao aproveitar as dissens&otilde;es internas nos partidos, ainda no regime mon&aacute;rquico, ou j&aacute; na Rep&uacute;blica, contando com o apoio do Partido Socialista Portugu&ecirc;s em diversas ocasi&otilde;es, os manipuladores de tabacos mostravam a consci&ecirc;ncia que tinham da import&acirc;ncia que a luta pol&iacute;tica tinha para o seu setor. A manifesta&ccedil;&atilde;o de 25 de mar&ccedil;o de 1911 , motivada pela quest&atilde;o dos feriados, mas que tinha como objetivo tamb&eacute;m o despacho dos requerimentos da reforma e os problemas pendentes entre os oper&aacute;rios e a Companhia, tinha um pendor claramente pol&iacute;tico<a href="#86"><sup>86</sup></a><a name="top86"></a>. Sempre sublinhando a inten&ccedil;&atilde;o de n&atilde;o pretender “praticar dist&uacute;rbios ou fazer arrua&ccedil;as” e que a manifesta&ccedil;&atilde;o seria “ordeira e respeitosa”, pois os tabaqueiros sabiam reclamar “com a mais perfeita corre&ccedil;&atilde;o, e se sabe zelar os seus interesses com o m&aacute;ximo cuidado, prima em faz&ecirc;-lo dentro da mais estrita legalidade”, esta a&ccedil;&atilde;o pretendia exigir a interven&ccedil;&atilde;o do presidente do Minist&eacute;rio, &uacute;nico que poderia resolver o problema dos feriados. A forma ordenada como os oper&aacute;rios desfilaram, com os delegados e a comiss&atilde;o dos oper&aacute;rios de ambos os sexos &agrave; frente, seguindo-se as oper&aacute;rias formadas a quatro e os oper&aacute;rios (“em coluna cerrada”), n&atilde;o deixou de despertar “a aten&ccedil;&atilde;o do p&uacute;blico”. No final, e antes de dispersarem “na melhor ordem”, os delegados falaram com o secret&aacute;rio de Te&oacute;filo Braga, Levy Bensabat, e com Jos&eacute; Relvas, ministro das Finan&ccedil;as<a href="#87"><sup>87</sup></a><a name="top87"></a>. A esta manifesta&ccedil;&atilde;o, outras se seguiriam at&eacute; 1926, sempre como forma de interven&ccedil;&atilde;o dos tabaqueiros no espa&ccedil;o pol&iacute;tico, n&atilde;o enquadrados por qualquer partido, mas pelas associa&ccedil;&otilde;es representativas. Subjacente &agrave;s a&ccedil;&otilde;es dos tabaqueiros esteve sempre uma ideia de justi&ccedil;a social, de moraliza&ccedil;&atilde;o das suas condi&ccedil;&otilde;es de vida e de trabalho que devia ser garantida pelo Estado, sempre que os patr&otilde;es n&atilde;o cumprissem essa fun&ccedil;&atilde;o. </p>     <p>A a&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica dos tabaqueiros de Lisboa caracterizou-se, com maior incid&ecirc;ncia a partir dos anos 80 do s&eacute;culo XIX, por uma estrat&eacute;gia que n&atilde;o foi influenciada nem pelo socialismo marxista, nem pelo republicanismo. O socialismo veiculado pelos dirigentes associativos tinha uma matriz reformista, pragm&aacute;tica, logo aberta &agrave; possibilidade de alian&ccedil;as com indiv&iacute;duos que, pertencendo &agrave; classe dominante, poderiam ajudar a fazer chegar as reclama&ccedil;&otilde;es e os interesses dos oper&aacute;rios aos centros de poder pol&iacute;tico. Era o Estado que podia, no contexto nacional, pelo menos moderar a explora&ccedil;&atilde;o que os patr&otilde;es levavam a cabo nas f&aacute;bricas e que se refletia nas condi&ccedil;&otilde;es de vida dos manipuladores dos tabacos e suas fam&iacute;lias. Por isso, o car&aacute;cter de classe do Estado, que era uma quest&atilde;o central para os marxistas, ou o tipo de regime – mon&aacute;rquico ou republicano –, n&atilde;o marcaram o discurso dos tabaqueiros: o mais importante era jogar na arena pol&iacute;tica da forma mais adequada, a fim de garantir a melhoria das condi&ccedil;&otilde;es de trabalho e de vida dos oper&aacute;rios.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>CONCLUS&Otilde;ES</b></p>     <p>Tendo como matriz comum &agrave;s suas variantes a procura da justi&ccedil;a social, o socialismo foi o discurso de resposta ao processo de proletariza&ccedil;&atilde;o adotado por v&aacute;rios setores da classe oper&aacute;ria que interiorizaram os seus valores alternativos democr&aacute;ticos, igualit&aacute;rios e coletivistas. O socialismo foi, assim, o discurso unificador da classe oper&aacute;ria na sua luta pela justi&ccedil;a, pela igualdade e pela fraternidade. No entanto, a elabora&ccedil;&atilde;o do discurso &eacute; feita por “comunidades discursivas”<a href="#88"><sup>88</sup></a><a name="top88"></a> que adequam o seu conte&uacute;do de modo a tornar-se intelig&iacute;vel, persuasivo e capaz de ajudar a consolidar e a preservar o grupo. N&atilde;o8 podemos, por isso, falar de um discurso comum a toda a classe oper&aacute;ria, mas sim de um discurso com uma matriz comum, a justi&ccedil;a social, adaptado aos indiv&iacute;duos que comp&otilde;em essa classe e refletindo os contextos sociais em que os seus autores escrevem. Os manipuladores dos tabacos de Lisboa s&atilde;o um exemplo de como o socialismo foi aplicado &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas da ind&uacute;stria, &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es sociais de produ&ccedil;&atilde;o e &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es com o Estado, e de como a tradu&ccedil;&atilde;o dos interesses de qualquer grupo social &eacute; tudo menos espont&acirc;neo e simples. </p>     <p>A perce&ccedil;&atilde;o do socialismo revelada pelos tabaqueiros na luta pela Igualdade, pela Justi&ccedil;a e pela Fraternidade mostra como qualquer ideologia n&atilde;o &eacute;, como escreveu Stuart Hall, totalmente l&oacute;gica ou consistente, conjugando elementos discordantes, abrindo espa&ccedil;o para diferentes interpreta&ccedil;&otilde;es<a href="#89"><sup>89</sup></a><a name="top89"></a>. A estrat&eacute;gia que seguiram divergiu das estrat&eacute;gias de outros setores da classe oper&aacute;ria, tamb&eacute;m eles em processo de proletariza&ccedil;&atilde;o, confirmando que n&atilde;o h&aacute; uma correla&ccedil;&atilde;o autom&aacute;tica entre as condi&ccedil;&otilde;es objetivas, como uma rela&ccedil;&atilde;o semelhante com os meios de produ&ccedil;&atilde;o, e o que as pessoas constroem como sendo os seus interesses e como agem no sentido de os concretizar. Liderados pelas suas associa&ccedil;&otilde;es e n&atilde;o por partidos pol&iacute;ticos, os tabaqueiros de Lisboa traduziram os seus problemas e as suas necessidades numa base moral de certo e errado, de justo e injusto, em que os oper&aacute;rios se assumiram como prolet&aacute;rios morais por oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; imoralidade do comportamento de todos os que punham em causa a sobreviv&ecirc;ncia de quem trabalha. Assim, os manipuladores de tabacos adaptaram o socialismo &agrave; defesa dos seus interesses e &agrave; forma como viam a sua rela&ccedil;&atilde;o com as classes dominantes e o Estado. A rejei&ccedil;&atilde;o da luta de classes e as alian&ccedil;as que fizeram com personalidades ligadas ao poder pol&iacute;tico foram escolhas que serviram os interesses imediatos e reais daqueles oper&aacute;rios. Ao faz&ecirc;-lo, deram provas daquilo a que Pierre Bourdieu chamou um “profundo realismo”, que funcionou como uma esp&eacute;cie de instinto de conserva&ccedil;&atilde;o socialmente constitu&iacute;do<a href="#90"><sup>90</sup></a><a name="top90"></a>. Em suma, a identidade pr&oacute;pria dos tabaqueiros de Lisboa no seio da classe oper&aacute;ria fez-se de escolhas feitas em momentos chave que determinaram uma trajet&oacute;ria que condicionou outras op&ccedil;&otilde;es e abriu outras possibilidades.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></p> <b>     <p>FONTES</p>     <p>Arquivo Municipal de Lisboa</p> </b>     <p>Greve dos trabalhadores da Companhia Portuguesa de Tabacos, Ferreira da Cunha, 1918. PT/AMLSB/EFC/001916.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>Biblioteca Nacional</b></p>     <p><i>Arquivo Hist&oacute;rico-Social.</i></p>     <p>N&uacute;cleo Congressos Oper&aacute;rios Nacionais.</p>     <p>N&uacute;cleo Educa&ccedil;&atilde;o e Cultura.</p>     <p><i>Esp&oacute;lio de Oliveira Martins.</i></p>     <p>Correspond&ecirc;ncia de Oliveira Martins. Cartas a Oliveira Martins.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Instituto dos Arquivos Nacionais / Torre do Tombo</b></p>     <p><i>Arquivo do Partido Socialista Portugu&ecirc;s.</i></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Livro n&ordm; 1. Livro de ponto da Federa&ccedil;&atilde;o das Associa&ccedil;&otilde;es de Classe. 1895-1896.</p>     <p>Livro n&ordm; 6. Livro de atas do Centro Socialista de Lisboa. 1899-1913.</p>     <p>Livro n&ordm; 7. Livro de matr&iacute;cula do Centro Socialista de Lisboa. 1901-1926.</p>     <p>Livro n&ordm; 8. Livro de atas da Uni&atilde;o do 1&ordm; de Maio. Mar&ccedil;o de 1903 a Outubro de 1905.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>PUBLICA&Ccedil;&Otilde;ES EM S&Eacute;RIE</b></p>     <p>Peri&oacute;dicos dos manipuladores de tabacos</p>     <p><i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> (1879-1929). </p>     <p><i>O Eco dos Tabacos</i> (1932-1933). </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>Outra imprensa</b></p>     <p><i>A Batalha</i> (1920).</p>     <p><i>A Internacional</i> (1923-1931).</p>     <p><i>A Revolu&ccedil;&atilde;o de Setembro</i> (1871).</p>     <p><i>Boletim do Trabalho Industrial</i> (1910).</p>     <p><i>Di&aacute;rio de Not&iacute;cias</i> (1864-1933).</p>     <p><i>Jornal do Trabalho</i> (1863).</p>     <p><i>O Pensamento Social</i> (1872-1873). </p>     <p><i>O Portugu&ecirc;s</i> (1853-1866).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>O Protesto Oper&aacute;rio</i> (1882-1894). </p>     <p><i>O S&eacute;culo</I> (1892-1927).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>PUBLICA&Ccedil;&Otilde;ES INSTITUCIONAIS</b></p>     <p><b>Inqu&eacute;ritos, legisla&ccedil;&atilde;o e estat&iacute;sticas oficiais</b></p>     <p>Administra&ccedil;&atilde;o Geral dos Tabacos – <i>Leis, Decretos e Regulamentos</i>. Lisboa: Imprensa Nacional, 1889.</p>     <p>Administra&ccedil;&atilde;o Geral dos Tabacos – <i>Relat&oacute;rio do Conselho de Administra&ccedil;&atilde;o (1888-1889)</i>. Lisboa: Imprensa Nacional, 1889.</p>     <p>Administra&ccedil;&atilde;o Geral dos Tabacos – <i>Relat&oacute;rio do Conselho de Administra&ccedil;&atilde;o (1889-1890)</i>. Lisboa: Imprensa Nacional, 1890.</p>     <p>Administra&ccedil;&atilde;o Geral dos Tabacos – <i>Regulamento Org&acirc;nico</i>. Lisboa: Imprensa Nacional, 1890.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Companhia Portuguesa de Tabacos – <i>Relat&oacute;rio, parecer do Conselho Fiscal e Documentos</i> (1931-1965).</p>     <p>PORTUGAL. Minist&eacute;rio das Obras P&uacute;blicas, Com&eacute;rcio e Ind&uacute;stria. Dire&ccedil;&atilde;o Geral do Com&eacute;rcio e Ind&uacute;stria – <i>Inqu&eacute;rito sobre as condi&ccedil;&otilde;es do trabalho manual nas f&aacute;bricas de tabacos e situa&ccedil;&atilde;o dos respetivos oper&aacute;rios</i>. Lisboa: Imprensa Nacional, 1887.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ESTUDOS</b></p>     <!-- ref --><p>AMINZADE, Ronald – Class analysis, politics, and french labor history. In BERLANSTEIN, Lenard, ed. – <i>Rethinking labor history</i>. Chicago: University Illinois Press, 1993.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2075770&pid=S2183-3176202000010000500001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>AUSLANDER, Leora – Perceptions of beauty and the problem of consciousness: parisian furniture makers. In BERLANSTEIN, Lenard, ed. – <i>Rethinking labor history</i>. Chicago: University Illinois Press, 1993.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2075772&pid=S2183-3176202000010000500002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>BOURDIEU, Pierre –<i>O poder simb&oacute;lico</i>. Miraflores: Difel, 2001.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2075774&pid=S2183-3176202000010000500003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>BR&Aacute;S, Rui Manuel – <i>Formas institucionais e sistemas de valores: as associa&ccedil;&otilde;es de sapateiros de Lisboa, da segunda metade do s&eacute;culo XIX ao Estado Novo</i>. Oeiras: Celta Editora, 2004.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2075776&pid=S2183-3176202000010000500004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>CHARLE, Christophe –<i>Histoire sociale de la France au XIX e si&egrave;cle. </i>Paris: &Eacute;ditions du Seuil, 1991.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2075778&pid=S2183-3176202000010000500005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>FONSECA, Carlos da – <i>Hist&oacute;ria do movimento oper&aacute;rio e das ideias socialistas em Portugal</i>. Mem Martins: Publica&ccedil;&otilde;es Europa-Am&eacute;rica, [s.d.]. 4 vol.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2075780&pid=S2183-3176202000010000500006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>FONSECA, Carlos da – <i>O 1&ordm; de Maio em Portugal: 1890-1990: cr&oacute;nica de um s&eacute;culo</i>. Lisboa: Ant&iacute;gona, 1990.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2075782&pid=S2183-3176202000010000500007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>GOODOLFIM, Jos&eacute; Cipriano da Costa – <i>A associa&ccedil;&atilde;o: hist&oacute;ria e desenvolvimento das associa&ccedil;&otilde;es portuguesas</i>. Lisboa: Seara Nova, 1974 [1876].    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2075784&pid=S2183-3176202000010000500008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>GRIBAUDI, Maurizio –<i>Itin&eacute;raires ouvriers: espaces et groupes sociaux &agrave; Turin au d&eacute;but du XX e si&egrave;cle.</i> Paris: &Eacute;ditions de l'&Eacute;cole des Hautes &Eacute;tudes en Sciences Sociales, 1987.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2075786&pid=S2183-3176202000010000500009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>HALL, Stuart – Variants of liberalism. In DONALD, James; HALL, Stuart, ed. – <i>Politics and ideology.</i> New York: Open University Press, 1986.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2075788&pid=S2183-3176202000010000500010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>JOHNSON, Christopher – Lifeworld, system, and communicative action: the habermasian alternative in social history. In BERLANSTEIN, Lenard, ed. – <i>Rethinking labor history</i>. Chicago: University Illinois Press, 1993.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2075790&pid=S2183-3176202000010000500011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>M&Oacute;NICA, Maria Filomena – <i>O tabaco e o poder: 100 anos da Companhia dos Tabacos de Portugal (COTAPO)</i>. Lisboa: COTAPO; Quetzal Editores, 1992.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2075792&pid=S2183-3176202000010000500012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>PERROT, Michelle – <i>Les ouvriers en gr&egrave;ve: France 1871-1890.</i> Paris: &Eacute;ditions de l'EHESS, 2001.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2075794&pid=S2183-3176202000010000500013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>REID, Donald – Reflections on labor history and language. In BERLANSTEIN, Lenard, ed. – <i>Rethinking labor history.</i> Chicago: University Illinois Press, 1993.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2075796&pid=S2183-3176202000010000500014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>SEWELL, William – Toward a post-materialist rhetoric for labor history. In BERLANSTEIN, Lenard, ed. – <i>Rethinking labor history.</i> Chicago: University Illinois Press, 1993.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2075798&pid=S2183-3176202000010000500015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>THOMPSON, E. P. – <i>The making of the english working class.</i> London: Penguin Books, 1991.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2075800&pid=S2183-3176202000010000500016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>TILLY, Louise – Women's collective action and feminism in France, 1870-1914. In TILLY, Louise; TILLY, Charles, ed. – <i>Class conflict and collective action. </i>Beverly Hills; Londres: Sage Publications, 1981.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2075802&pid=S2183-3176202000010000500017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>Submiss&atilde;o/submission: 31/01/2020 </p>     <p>Aceita&ccedil;&atilde;o/approval: 27/03/2020 </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>NOTAS</b></p>     <p><a href="#top1"><sup>1</sup></a><a name="1"></a> Para o conceito de classe como forma&ccedil;&atilde;o social e cultural, cf. THOMPSON, E. P. – <i>The making of the english working class</i>. London: Penguin Books, 1991. p. 8-11.</p>     <p><a href="#top2"><sup>2</sup></a><a name="2"></a> SEWELL, William – Toward a post-materialist rhetoric for labor history. In BERLANSTEIN, Lenard, ed. – <i>Rethinking labor history</i>. Chicago: University of Illinois Press, 1993. p. 33. </p>     <p><a href="#top3"><sup>3</sup></a><a name="3"></a> Para uma abordagem &agrave; transi&ccedil;&atilde;o do idioma de of&iacute;cio para o idioma de classe nos sapateiros de Lisboa, cf. BR&Aacute;S, Rui Manuel – <i>Formas institucionais e sistemas de valores: as associa&ccedil;&otilde;es de sapateiros de Lisboa, da segunda metade do s&eacute;culo XIX ao Estado Novo</i> Oeiras: Celta Editora, 2004, em especial o cap&iacute;tulo 4, da parte II. </p>     <p><a href="#top4"><sup>4</sup></a><a name="4"></a> Em Portugal, as associa&ccedil;&otilde;es de classe conjugavam a fun&ccedil;&atilde;o de socorro m&uacute;tuo e a fun&ccedil;&atilde;o sindical. Muitas vezes nascidas a partir de associa&ccedil;&otilde;es mutualistas, evolu&iacute;ram no sentido de se tornarem verdadeiros sindicatos. A Associa&ccedil;&atilde;o de Classe dos Manipuladores de Tabacos de Lisboa foi fundada no in&iacute;cio de 1880, em estreita rela&ccedil;&atilde;o com o jornal <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> e a sociedade de instru&ccedil;&atilde;o e benefic&ecirc;ncia com o mesmo nome.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#top5"><sup>5</sup></a><a name="5"></a> Divaga&ccedil;&otilde;es. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 80 (24-4-1881), p. 2.</p>     <p><a href="#top6"><sup>6</sup></a><a name="6"></a> BRAZ PACHECO, Cust&oacute;dio – Os oper&aacute;rios. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 1 (11-10-1879), p. 3.</p>     <p><a href="#top7"><sup>7</sup></a><a name="7"></a> Manipuladores de tabaco: as transfer&ecirc;ncias de manufaturas. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 1073 (20-5-1900), p. 1.</p>     <p><a href="#top8"><sup>8</sup></a><a name="8"></a> Cf. AMINZADE, Ronald – Class analysis, politics, and french labor history. In BERLANSTEIN, Lenard, ed. – <i>Rethinking labor history</i>. Chicago: University Illinois Press, 1993. p. 103-104.</p>     <p><a href="#top9"><sup>9</sup></a><a name="9"></a> Companheiro V – Os manipuladores de tabaco. <i>O Pensamento Social</i> N&ordm; 42 (02-02-1873), p. 3.</p>     <p><a href="#top10"><sup>10</sup></a><a name="10"></a> Segundo os dados do inqu&eacute;rito realizado, em 1887, nas f&aacute;bricas de tabaco, em Lisboa, havia 3008 manipuladores de tabaco, sendo 835 homens (27,8%) e 2173 mulheres (72,2%). PORTUGAL. Minist&eacute;rio das Obras P&uacute;blicas, Com&eacute;rcio e Ind&uacute;stria. Dire&ccedil;&atilde;o Geral do Com&eacute;rcio e Ind&uacute;stria – <i>Inqu&eacute;rito sobre as condi&ccedil;&otilde;es do trabalho manual nas f&aacute;bricas de tabacos e situa&ccedil;&atilde;o dos respetivos oper&aacute;rios</i> Lisboa: Imprensa Nacional, 1887.</p>     <p><a href="#top11"><sup>11</sup></a><a name="11"></a> <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 15 (17-1-1880), p. 1.</p>     <p><a href="#top12"><sup>12</sup></a><a name="12"></a> O anivers&aacute;rio da Associa&ccedil;&atilde;o de Classe dos Manipuladores de Tabacos. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 863 (10-5-1896), p. 2. Uma posi&ccedil;&atilde;o em contradi&ccedil;&atilde;o com o que era praticado na Uni&atilde;o Fraternal que, &agrave; semelhan&ccedil;a de outras associa&ccedil;&otilde;es de socorros m&uacute;tuos, exclu&iacute;a as mulheres, conforme estatu&iacute;do no artigo 3&ordm; dos seus estatutos. Cf. Estatutos da Associa&ccedil;&atilde;o Uni&atilde;o Fraternal dos Oper&aacute;rios da Fabrica&ccedil;&atilde;o dos Tabacos. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 266 (30-11-1884), p. 3. </p>     <p><a href="#top13"><sup>13</sup></a><a name="13"></a> C&aacute;lculos pr&oacute;prios, cruzando os dados relativos aos n&uacute;meros oficiais de oper&aacute;rios na ind&uacute;stria com os dos associados na ACMT, patentes nos respetivos relat&oacute;rios e contas anuais publicados em <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> Para o caso franc&ecirc;s, Christophe Charle apresenta 55% de sindicalizados nos setores dos tabacos e f&oacute;sforos, ambos p&uacute;blicos. Cf. CHARLE, Christophe si&egrave;cle. Paris: &Eacute;ditions du Seuil, 1991. p. 304-305. Em Marselha, no ano de 1891, 40% das oper&aacute;rias dos tabacos estavam sindicalizadas, segundo TILLY, Louise – Women's collective action and feminism in France, 1870-1914. In TILLY, Louise; TILLY, Charles, ed. – <i>Class conflict and collective action Beverly Hills</i>; Londres: Sage Publications, 1981. p. 225.</p>     <p><a href="#top14"><sup>14</sup></a><a name="14"></a> Segundo o articulista, as oper&aacute;rias intervenientes salientaram que “s&oacute; a associa&ccedil;&atilde;o afastar&aacute; do seio das nossas fam&iacute;lias a fome, a nudez e a prostitui&ccedil;&atilde;o!” <i>O Pensamento Social</i> N&ordm; 36 (22-12-1872), p. 3-4. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#top15"><sup>15</sup></a><a name="15"></a> A primazia coube &agrave; Associa&ccedil;&atilde;o de Classe do Pessoal dos Tabacos, na qual aparecem as primeiras mulheres escolhidas como delegadas, se bem que ainda suplentes: Ol&iacute;mpia dos Santos e Maria Gracinda Donas. Logo no ano seguinte, 1915, esta passou a delegada efetiva. Na Associa&ccedil;&atilde;o de Classe dos Manipuladores de Tabacos, a mais antiga, as mulheres entraram para cargos nos corpos gerentes apenas em 1918: Am&eacute;lia Maria dos Santos foi eleita 1&ordf; secret&aacute;ria da mesa da Assembleia Geral. Entre 1914 e 1926, dezoito mulheres ocuparam cargos de responsabilidade nas associa&ccedil;&otilde;es de tabaqueiros. Esta tend&ecirc;ncia crescente n&atilde;o seria contrariada nos primeiros anos do Estado Novo: nas dire&ccedil;&otilde;es dos sindicatos nacionais de 1933 e 1936, encontramos doze mulheres, quatro delas antigas dirigentes da ACMT. Por&eacute;m, com a exce&ccedil;&atilde;o de Ana Maria Josefa e Ana Moreira, diretoras no Sindicato Nacional dos Oper&aacute;rios Manipuladores de Tabaco do Distrito de Lisboa, em 1933, as mulheres habitualmente exerciam fun&ccedil;&otilde;es como tesoureiras, vogais ou, no m&aacute;ximo, vice-presidentes da mesa da assembleia geral. (Dados compilados a partir de v&aacute;rias fontes, e organizados em base de dados pelo investigador). </p>     <p><a href="#top16"><sup>16</sup></a><a name="16"></a> A solidariedade e fraternidade das manipuladoras de tabaco. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 1075 (3-6-1900), p. 2.</p>     <p><a href="#top17"><sup>17</sup></a><a name="17"></a> Carta de um charuteiro. <i>O Pensamento Social</i> N&ordm; 29 (3-11-1872), p. 3.</p>     <p><a href="#top18"><sup>18</sup></a><a name="18"></a> <i>O Pensamento Social</i> N&ordm; 35 (15-12-1872), p. 3.</p>     <p><a href="#top19"><sup>19</sup></a><a name="19"></a> <i>O Pensamento Social</i> N&ordm; 40 (19-1-1873), p. 1-2.</p>     <p><a href="#top20"><sup>20</sup></a><a name="20"></a> V. – Manipuladores de Tabacos. <i>O Protesto</i> N&ordm; 124 (Dezembro 1877), p. 3.</p>     <p><a href="#top21"><sup>21</sup></a><a name="21"></a> <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 95 (7-8-1881), p. 2; <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i>. N&ordm; 97 (21-8-1881), p. 2; Xabregas. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i>. N&ordm; 98 (28-8-1881), p. 4. </p>     <p><a href="#top22"><sup>22</sup></a><a name="22"></a> Xabregas. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 111 (27-11-1881), p. 1.</p>     <p><a href="#top23"><sup>23</sup></a><a name="23"></a> <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 119 (22-1-1882), p. 3.</p>     <p><a href="#top24"><sup>24</sup></a><a name="24"></a> Uma companheira cigarreira – <i>O Pensamento Social</i> N&ordm; 40 (19-1-1873), p. 2.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#top25"><sup>25</sup></a><a name="25"></a> De acordo com Jos&eacute; Bento de Oliveira, dirigente da Associa&ccedil;&atilde;o de Classe dos Oper&aacute;rios Manipuladores de Tabaco (depoimento n&ordm; 4), em 1887, as oper&aacute;rias tabaqueiras eram quase todas analfabetas. Cf. PORTUGAL. Minist&eacute;rio das Obras P&uacute;blicas, Com&eacute;rcio e Ind&uacute;stria. Dire&ccedil;&atilde;o Geral do Com&eacute;rcio e Ind&uacute;stria – <i>Inqu&eacute;rito sobre as condi&ccedil;&otilde;es do trabalho manual nas f&aacute;bricas de tabacos e situa&ccedil;&atilde;o dos respetivos oper&aacute;rios</i> Lisboa: Imprensa Nacional, 1887.</p>     <p><a href="#top26"><sup>26</sup></a><a name="26"></a> Maria Filomena M&oacute;nica definiu a ind&uacute;stria dos tabacos como a “j&oacute;ia da Coroa do capitalismo portugu&ecirc;s”. M&Oacute;NICA, Maria Filomena – <i>O tabaco e o poder: 100 anos da Companhia dos Tabacos de Portugal (COTAPO)</i> Lisboa: COTAPO; Quetzal Editores, 1992. p. 90.</p>     <p><a href="#top27"><sup>27</sup></a><a name="27"></a> <i>Di&aacute;rio de Not&iacute;cias</i> N&ordm; 2985 (30-5-1874), p. 1.</p>     <p><a href="#top28"><sup>28</sup></a><a name="28"></a> <i>A Voz do Oper&aacute;rio.</i> N&ordm; 203 (16-9-1883), p. 2. Em resposta &agrave; peti&ccedil;&atilde;o, a Rainha determinou um dia para as oper&aacute;rias irem ao Governo Civil receber o seu donativo: 26 libras por ordem da Rainha e 13$000 rs do Governador Civil. Cf. Barreiras de Xabregas. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i>. N&ordm; 205 (30-9-1883), p. 3.</p>     <p><a href="#top29"><sup>29</sup></a><a name="29"></a> Coisas da fus&atilde;o das f&aacute;brica de tabacos. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i>. N&ordm; 375 (2-1-1887), p. 1.</p>     <p><a href="#top30"><sup>30</sup></a><a name="30"></a> Em 1865, o secret&aacute;rio de Estado das Obras P&uacute;blicas, Com&eacute;rcio e Ind&uacute;stria, Jo&atilde;o Cris&oacute;stomo de Abreu e Sousa, publicou duas portarias dando prefer&ecirc;ncia aos despedidos da F&aacute;brica de Xabregas na admiss&atilde;o de trabalhadores para a constru&ccedil;&atilde;o da estrada de Loures a Torres Vedras e noutras obras a cargo da Intend&ecirc;ncia das Obras P&uacute;blicas do distrito de Lisboa, na contrata&ccedil;&atilde;o por parte da Provedoria da Real Casa Pia de Lisboa de trabalhadores para as obras do aterro e na constru&ccedil;&atilde;o do muro de cais em frente ao mosteiro dos Jer&oacute;nimos. <i>O Portugu&ecirc;s</i> N&ordm; 4402 (8-1-1865), p. 1.</p>     <p><a href="#top31"><sup>31</sup></a><a name="31"></a> ALVES ROQUE. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 206 (7-10-1883), p. 1-2.</p>     <p><a href="#top32"><sup>32</sup></a><a name="32"></a> Os tabaqueiros, assim como os tip&oacute;grafos do jornal <i>A Revolu&ccedil;&atilde;o de Setembro</i>, ter&atilde;o sido dos primeiros a utilizar esta forma de luta em Portugal, em 1852.</p>     <p><a href="#top33"><sup>33</sup></a><a name="33"></a> &Agrave;s greves referidas no Quadro 1, devemos acrescentar a greve geral dos tabaqueiros pela melhoria dos sal&aacute;rios, em novembro de 1886, as greves dos tabaqueiros da f&aacute;brica de Xabregas, de fevereiro de 1895 e de novembro de 1897, e a dos tabaqueiros da Companhia Nacional, em agosto de 1907, referidas por Carlos da Fonseca, cujos motivos, amplitudes e resultados n&atilde;o puderam ser confirmados em fontes prim&aacute;rias. Cf. FONSECA, Carlos – <i>Hist&oacute;ria do movimento oper&aacute;rio e das ideias socialistas em Portugal</i> Mem Martins: Publica&ccedil;&otilde;es Europa-Am&eacute;rica, [s.d.]. vol. IV, p. 155-156, 161.</p>     <p><a href="#top34"><sup>34</sup></a><a name="34"></a> REID, Donald – Reflections on labor history and language. In BERLANSTEIN, Lenard, ed. – <i>Rethinking labor history</i>. Chicago: University Illinois Press, 1993. p. 49.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#top35"><sup>35</sup></a><a name="35"></a> A situa&ccedil;&atilde;o do operariado perante as classes superiores. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 882 (20-9-1896), p. 1.</p>     <p><a href="#top36"><sup>36</sup></a><a name="36"></a>36 Monop&oacute;lio do tabaco. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 380 (6-2-1887), p. 1.</p>     <p><a href="#top37"><sup>37</sup></a><a name="37"></a> Classe de manipuladores de tabaco. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 801 (3-3-1895), p. 1.</p>     <p><a href="#top38"><sup>38</sup></a><a name="38"></a> <i>O Portugu&ecirc;s</i> N&ordm; 4052 (31-10-1863), p. 1.</p>     <p><a href="#top39"><sup>39</sup></a><a name="39"></a> O Portugu&ecirc;s. Sec&ccedil;&atilde;o noticiosa. N&ordm; 4058 (7-11-1863); Boato falso. <i>Jornal do Trabalho</i> N&ordm; 67 (6-11-1863), p. 4.</p>     <p><a href="#top40"><sup>40</sup></a><a name="40"></a> Quest&atilde;o oper&aacute;ria. <i>Di&aacute;rio de Not&iacute;cias</i> N&ordm; 1678 (14-8-1870), p. 1.</p>     <p><a href="#top41"><sup>41</sup></a><a name="41"></a> <i>Di&aacute;rio de Not&iacute;cias</i> N&ordm; 2138 (21-12-1871), p. 2.</p>     <p><a href="#top42"><sup>42</sup></a><a name="42"></a> <i>O Pensamento Social</i> N&ordm; 40 (19-1-1873), p. 1-2.</p>     <p><a href="#top43"><sup>43</sup></a><a name="43"></a> <i>O Pensamento Social</i> N&ordm; 42 (2-2-1873), p. 4.</p>     <p><a href="#top44"><sup>44</sup></a><a name="44"></a> GRA&Ccedil;A, Dam&aacute;sio da – Abaixo o monop&oacute;lio. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 380 (6-2-1887), p. 1.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#top45"><sup>45</sup></a><a name="45"></a>A nacionaliza&ccedil;&atilde;o das f&aacute;bricas existentes foi aprovada a 25 de maio de 1888, atrav&eacute;s duma lei (22-5-1888) na qual se definia o exclusivo do fabrico de tabacos como pertencendo ao Estado atrav&eacute;s da Administra&ccedil;&atilde;o Geral dos Tabacos (AGT). A oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; lei veio dos regeneradores e dos republicanos e, na C&acirc;mara dos Pares, foi corporizada por Hintze Ribeiro. Entre outras medidas, a <i>r&eacute;gie</i> definia a expropria&ccedil;&atilde;o por utilidade p&uacute;blica de todas as f&aacute;bricas; garantia a venda livre, mas sujeita a normas; comprometia o Estado a conservar o pessoal de todas as empresas pagando sal&aacute;rios uniformizados. Para administrador da <i>r&eacute;gie</i> foi nomeado o Conde Castro, mais tarde substitu&iacute;do por Oliveira Martins. As f&aacute;bricas em funcionamento eram quatro, duas em Lisboa (Xabregas e Lisbonense) e duas no Porto (Portuense e Lealdade).</p>     <p><a href="#top46"><sup>46</sup></a><a name="46"></a> Recebido inicialmente com desconfian&ccedil;a devido &agrave; sua ades&atilde;o ao Partido Progressista, Oliveira Martins acabou por granjear a simpatia dos oper&aacute;rios tabaqueiros: “O que nos importa &eacute; que o sr. Oliveira Martins at&eacute; agora tem tratado dos interesses dos oper&aacute;rios, proporcionando-lhes trabalho e promovendo-lhes confortos que nunca tiveram noutras &eacute;pocas”. Greve anunciada mas que n&atilde;o existiu. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 510 (4-8-1889), p. 2.</p>     <p><a href="#top47"><sup>47</sup></a><a name="47"></a> Manipuladores de tabacos. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 618 (30-8-1891), p. 1.</p>     <p><a href="#top48"><sup>48</sup></a><a name="48"></a> JOHNSON, Christopher – Lifeworld, system, and communicative action: the habermasian alternative in social history. In BERLANSTEIN, Lenard, ed. – <i>Rethinking labor history</i>. Chicago: University Illinois Press, 1993. p. 80.</p>     <p><a href="#top49"><sup>49</sup></a><a name="49"></a> Os primeiros estudos para o estabelecimento da creche junto &agrave; f&aacute;brica Lisbonense s&atilde;o mencionados no relat&oacute;rio da Administra&ccedil;&atilde;o Geral dos Tabacos relativo a 1889-1890, onde se assume que as creches “s&atilde;o de primeira urg&ecirc;ncia numa ind&uacute;stria em que o pessoal feminino tem uma parte t&atilde;o consider&aacute;vel”. Cf. Administra&ccedil;&atilde;o Geral dos Tabacos – <i>Relat&oacute;rio do Conselho de Administra&ccedil;&atilde;o (1889-1890)</i>. Lisboa: Imprensa Nacional, 1889.</p>     <p><a href="#top50"><sup>50</sup></a><a name="50"></a> <i>Boletim do Trabalho Industrial</i> N.&ordm; 49 (1910), p. 511.</p>     <p><a href="#top51"><sup>51</sup></a><a name="51"></a> Companhia Portuguesa de Tabacos –<i> Relat&oacute;rio, Parecer do Conselho Fiscal e Documentos.</i> (1936).</p>     <p><a href="#top52"><sup>52</sup></a><a name="52"></a> Companhia Portuguesa de Tabacos –<i> Relat&oacute;rio, Parecer do Conselho Fiscal e Documentos.</i> (1931-1932).</p>     <p><a href="#top53"><sup>53</sup></a><a name="53"></a> Em 1932, &eacute; lan&ccedil;ada a ideia de “um grande bairro onde pudesse albergar a grande fam&iacute;lia tabaqueira”. Os fundos viriam da Caixa de Reformas e seria constru&iacute;do nos terrenos das Comendadeiras de Santos, por se localizarem num “s&iacute;tio central para o pessoal das duas f&aacute;bricas”. Cf. TORRES, J. – Crise de habita&ccedil;&atilde;o. <i>Eco dos Tabacos</i> N&ordm; 8 (Agosto de 1932), p. 3.</p>     <p><a href="#top54"><sup>54</sup></a><a name="54"></a> BRAZ PACHECO, Cust&oacute;dio – Os oper&aacute;rios. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 1 (11-10-1879), p. 3.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#top55"><sup>55</sup></a><a name="55"></a> <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 625 (18-10-1891), p. 4.</p>     <p><a href="#top56"><sup>56</sup></a><a name="56"></a> Sociedade de Instru&ccedil;&atilde;o e Benefic&ecirc;ncia A Voz do Oper&aacute;rio. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 1358 (5-11-1905), p. 2.</p>     <p><a href="#top57"><sup>57</sup></a><a name="57"></a> A Sociedade “A Voz do Oper&aacute;rio” ainda existe e mant&eacute;m uma escola integrada no sistema de ensino portugu&ecirc;s. </p>     <p><a href="#top58"><sup>58</sup></a><a name="58"></a> SOARES, Ant&oacute;nio de Jesus – <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 10 (13-12-1879), p. 3.</p>     <p><a href="#top59"><sup>59</sup></a><a name="59"></a> O Congresso das Associa&ccedil;&otilde;es de Classe de 1892 ficou marcado pelas diverg&ecirc;ncias entre marxistas, possibilistas, autonomistas e anarquistas, acerca da manifesta&ccedil;&atilde;o do 1&ordm; de Maio. Os representantes das associa&ccedil;&otilde;es do sul do pa&iacute;s abandonaram o Congresso e convocaram outro para julho do mesmo ano, a realizar em Lisboa. Neste Congresso foi reafirmada a autonomia das associa&ccedil;&otilde;es oper&aacute;rias em rela&ccedil;&atilde;o aos partidos pol&iacute;ticos, em especial o Republicano e o Socialista.</p>     <p><a href="#top60"><sup>60</sup></a><a name="60"></a> Classe dos manipuladores de tabacos. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 652 (24-4-1892), p. 1. Na sess&atilde;o da Federa&ccedil;&atilde;o de 29 de julho de 1895, estiveram presentes os redatores dos jornais <i>A Obra</i>, <i>A Federa&ccedil;&atilde;o</i> e <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i>, esta representada por Jos&eacute; Ant&oacute;nio do Carmo. Cf. Arquivo Nacional da Torre do Tombo. <i>Arquivo do PSP</i> Livro 1. Livro de Ponto da Federa&ccedil;&atilde;o das Associa&ccedil;&otilde;es de Classe. 1895 e 1896.</p>     <p><a href="#top61"><sup>61</sup></a><a name="61"></a> Sobre as participa&ccedil;&otilde;es dos manipuladores de tabacos nas comemora&ccedil;&otilde;es do 1&ordm; de Maio, cf. FONSECA, Carlos da – <i>O 1&ordm; de Maio em Portugal. 1890-1990: cr&oacute;nica de um s&eacute;culo</i> Lisboa: Ant&iacute;gona, 1990. Em 1900, a ACMT decidiu apenas iluminar a fachada da sede no dia 1&ordm; de Maio. Cf. Associa&ccedil;&atilde;o de Classe dos Manipuladores de Tabaco. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 1069 (22-4-1900), p. 1.</p>     <p><a href="#top62"><sup>62</sup></a><a name="62"></a> Oliveira Martins ganhou a simpatia dos tabaqueiros quando foi administrador geral dos tabacos entre 1889 e 1891. Cf. as cartas assinadas por Saul Pacoldino Fernandes e outros dirigentes da ACMT datadas de 7 de novembro de 1893 e 15 de mar&ccedil;o de 1894 in Biblioteca Nacional. <i>Esp&oacute;lio de Oliveira Martins</i> Correspond&ecirc;ncia. Cartas a Oliveira Martins. 1367 e 1368. Cf. ainda o elogio a Oliveira Martins ap&oacute;s a sua morte, in Oliveira Martins. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 775 (2-9-1894), p. 1. Fuschini teve v&aacute;rias interven&ccedil;&otilde;es no parlamento a favor dos manipuladores de tabacos, conseguindo que a garantia das 8 horas di&aacute;rias ficasse consignada na lei de 1888, serviu em muitas ocasi&otilde;es de conselheiro legal da ACMT e representou os oper&aacute;rios no tribunal arbitral ao lado de Saul Pacoldino Fernandes. No dia 24 abril de 1898, foi alvo de mais uma homenagem com a inaugura&ccedil;&atilde;o do seu retrato na sede da associa&ccedil;&atilde;o e a oferta de um quadro a &oacute;leo representando uma oficina de manipula&ccedil;&atilde;o de tabaco. Cf. Associa&ccedil;&atilde;o de Classe dos Manipuladores de Tabaco. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 965 (24-4-1898), p. 1. Em 1906, na sequ&ecirc;ncia da aprova&ccedil;&atilde;o do novo contrato dos tabacos, voltou a ser agraciado com lembran&ccedil;as oferecidas pelas oper&aacute;rias. Cf. Manipuladores de tabacos. <i>O S&eacute;culo</i> N&ordm; 8726 (12-4-1906), p. 2. No primeiro anivers&aacute;rio da sua morte, foi elogiado como o “maior amigo da classe”. Cf. Augusto Fuschini. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i>. N&ordm; 1691 (24-3-1912), p. 1. Dantas Baracho interveio na C&acirc;mara dos Pares em defesa dos interesses dos oper&aacute;rios aquando do debate do novo contrato dos tabacos em 1906. O seu retrato foi inaugurado em finais desse ano. Cf. Classe dos manipuladores de tabaco. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 1410 (4-11-1906), p. 2.</p>     <p><a href="#top63"><sup>63</sup></a><a name="63"></a> Manipuladores de tabaco: ainda a quest&atilde;o dos dias santificados. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 1651 (18-6-1911), p. 2.</p>     <p><a href="#top64"><sup>64</sup></a><a name="64"></a> <i>O Protesto Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 20 (16-7-1882), p. 2-3.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#top65"><sup>65</sup></a><a name="65"></a> <i>O Protesto Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 22 (30-7-1882), p. 2.</p>     <p><a href="#top66"><sup>66</sup></a><a name="66"></a> Os manipuladores de tabaco. <i>O Protesto Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 29 (23-9-1883), p. 1.</p>     <p><a href="#top67"><sup>67</sup></a><a name="67"></a> A Associa&ccedil;&atilde;o Auxiliadora dos Manipuladores de Tabacos, mais tarde Associa&ccedil;&atilde;o de Classe dos Oper&aacute;rios do Fabrico e Manipula&ccedil;&atilde;o dos Tabacos (1893), era apoiada pelos socialistas de O Protesto Oper&aacute;rio, mas a sua representatividade era fraca. Pelo contr&aacute;rio, na &uacute;ltima d&eacute;cada de Oitocentos, a ACMT teve um n&uacute;mero m&eacute;dio de 1400 s&oacute;cios.</p>     <p><a href="#top68"><sup>68</sup></a><a name="68"></a> Em sess&atilde;o da ACMT, de 30 de janeiro de 1912, o hist&oacute;rico dirigente Saul Pacoldino Fernandes considerou a greve geral “o facto mais grandioso modernamente produzido pelo operariado portugu&ecirc;s” e defendeu o apoio &agrave; a&ccedil;&atilde;o da Uni&atilde;o dos Sindicatos Oper&aacute;rios. Cf. Manipuladores de tabaco. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 1684 (4-2-1912), p. 3.</p>     <p><a href="#top69"><sup>69</sup></a><a name="69"></a> Greve do pessoal dos tabacos: a solu&ccedil;&atilde;o do conflito foi entregue &agrave; Uni&atilde;o Oper&aacute;ria Nacional. <i>O S&eacute;culo</i> N&ordm; 12952 (1-1-1918), p. 2. No final da 1&ordf; Rep&uacute;blica, os tabaqueiros continuavam a ser atacados pelo seu alegado corporativismo, agora pelos partid&aacute;rios da Internacional Sindical Vermelha. Cf. A quest&atilde;o dos tabacos. <i>A Internacional</i> N&ordm; 65 (15-5-1926), p. 1 e 3.</p>     <p><a href="#top70"><sup>70</sup></a><a name="70"></a> <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 1 (11-10-1879), p. 1.</p>     <p><a href="#top71"><sup>71</sup></a><a name="71"></a> A quest&atilde;o do tabaco e os manipuladores. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 409 (28-8-1887), p. 1-2. O movimento de protesto dos tabaqueiros do Porto de mar&ccedil;o de 1887 saldou-se pela pris&atilde;o de v&aacute;rios oper&aacute;rios e o despedimento de dezasseis. Inicialmente, estava previsto o despedimento de cento e cinquenta trabalhadores. Sobre as origens do movimento e as manobras pol&iacute;ticas, cf. VERDIAL – Manifesto ao p&uacute;blico e aos manipuladores de tabaco. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 408 (21-8-1887), p. 2-3. </p>     <p><a href="#top72"><sup>72</sup></a><a name="72"></a> Em 1883, Cust&oacute;dio Braz Pacheco escrevia: “O rem&eacute;dio para estes males &eacute; simples e consiste apenas no estabelecimento da r&eacute;gie, para mais tarde ser dada a liberdade de fabrico e cultura do tabaco em todo o Reino, depois de se estudar te&oacute;rica e praticamente esta quest&atilde;o”. BRAZ PACHECO, Cust&oacute;dio – A situa&ccedil;&atilde;o dos manipuladores de tabacos. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 195 (22-7-1883), p. 1.</p>     <p><a href="#top73"><sup>73</sup></a><a name="73"></a> “os manipuladores do tabaco permanecer&atilde;o nas mesmas condi&ccedil;&otilde;es de servid&atilde;o e de mis&eacute;ria. (&hellip;) Os governos s&atilde;o impotentes; os queixumes v&atilde;os. O rem&eacute;dio tem de ser radical: a destrui&ccedil;&atilde;o do existente e a sujei&ccedil;&atilde;o absoluta do capital ao trabalho”. Fotografia do dia. <i>O Protesto Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 21 (29-7-1883), p. 1-2.</p>     <p><a href="#top74"><sup>74</sup></a><a name="74"></a> GOODOLFIM, Jos&eacute; Cipriano da Costa – <i>A Associa&ccedil;&atilde;o: hist&oacute;ria e desenvolvimento das associa&ccedil;&otilde;es portuguesas</i> Lisboa: Seara Nova, 1974 [1876]. p. 159. A Associa&ccedil;&atilde;o Fraternidade Oper&aacute;ria foi fundada por iniciativa de Antero de Quental, Nobre Fran&ccedil;a, Jos&eacute; Fontana e Brito Monteiro, membros do grupo original que esteve na origem da cria&ccedil;&atilde;o da sec&ccedil;&atilde;o portuguesa da Associa&ccedil;&atilde;o Internacional dos Trabalhadores. O seu primeiro &oacute;rg&atilde;o de imprensa foi a revista O <i>Pensamento Social</i></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#top75"><sup>75</sup></a><a name="75"></a> O <i>Pensamento Social</i> N&ordm; 28 (27-10-1872), p. 3.</p>     <p><a href="#top76"><sup>76</sup></a><a name="76"></a> “Juntamente com os chapeleiros, marceneiros e metal&uacute;rgicos, os tabaqueiros constitu&iacute;ram um dos mais s&oacute;lidos apoios que o socialismo reformista, ligado a Jos&eacute; Fontana e Lu&iacute;s Figueiredo, teve em Portugal”. Cf. M&Oacute;NICA, Maria Filomena – <i>O Tabaco e o poder: 100 anos da Companhia dos Tabacos de Portugal (COTAPO)</i> Lisboa: COTAPO; Quetzal Editores, 1992. p. 39.</p>     <p><a href="#top77"><sup>77</sup></a><a name="77"></a> Um esclarecimento. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 706 (7-5-1893), p. 2.</p>     <p><a href="#top78"><sup>78</sup></a><a name="78"></a>78 Palavras simples. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 935 (26-9-1897), p. 1.</p>     <p><a href="#top79"><sup>79</sup></a><a name="79"></a> Apesar da desilus&atilde;o com os resultados da Fraternidade Oper&aacute;ria, houve alguns manipuladores de tabacos que mantiveram milit&acirc;ncia pol&iacute;tica, como o charuteiro Saul Pacoldino Fernandes, eleito membro do Conselho Federal do Partido Socialista, com voto consultivo, e membro do Conselho Central, no 1&ordm; Congresso realizado em 1877, ou Jo&atilde;o Jos&eacute; Sabino, que aderiu ao Partido Socialista Portugu&ecirc;s, em 1915. </p>     <p><a href="#top80"><sup>80</sup></a><a name="80"></a> A r&eacute;gie. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 516 (15-9-1889), p. 1-2.</p>     <p><a href="#top81"><sup>81</sup></a><a name="81"></a> Manipuladores de tabaco. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i>. N&ordm; 1071 (6-5-1900), p. 1. </p>     <p><a href="#top82"><sup>82</sup></a><a name="82"></a> O socialismo. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 1085 (12-8-1900), p. 1.</p>     <p><a href="#top83"><sup>83</sup></a><a name="83"></a> Classe dos manipuladores de tabaco. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 1305 (30-10-1904), p. 2. O apoio de Jo&atilde;o Franco e dos regeneradores-liberais &eacute; mencionado por Jo&atilde;o Jos&eacute; Sabino numa assembleia realizada em 29 de abril de 1905. Cf. Classe dos manipuladores de tabaco de Lisboa e Porto: reuni&otilde;es importantes. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 1332 (7-5-1905), p. 2.</p>     <p><a href="#top84"><sup>84</sup></a><a name="84"></a> Manipuladores de tabaco: peti&ccedil;&atilde;o ao Chefe de Estado. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 1500 (26-7-1908), p. 3. Em 18 de julho de 1908, uma comiss&atilde;o de tabaqueiros foi recebida por D. Manuel II, de quem receberam palavras de interesse pelos seus problemas e a vontade de proteger todos os trabalhadores.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#top85"><sup>85</sup></a><a name="85"></a> O novo contrato dos tabacos. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 1305 (30-10-1904), p. 3.</p>     <p><a href="#top86"><sup>86</sup></a><a name="86"></a> Os decretos republicanos de 12 e 26 outubro de 1910 definiam os feriados a serem observados. A Companhia contestara-os, afirmando que n&atilde;o se podiam aplicar a uma empresa privada como a Companhia dos Tabacos, querendo manter em vigor os feriados definidos na lei de 1906. Os oper&aacute;rios consideravam-se no direito de n&atilde;o trabalhar e ganhar as 8 horas, nos domingos e nos cinco feriados decretados. Cf. Manipuladores de tabaco. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 1635 (26-2-1911), p. 3. A situa&ccedil;&atilde;o apenas ficou resolvida em 1912, com a aceita&ccedil;&atilde;o pela Companhia dos feriados definidos pelo governo. <br />   Cf. Manipuladores de tabaco. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> N&ordm; 1698 (12-5-1912), p. 3.</p>     <p><a href="#top87"><sup>87</sup></a><a name="87"></a> Oper&aacute;rios dos tabacos: os manipuladores de tabaco protestam, perante o governo, contra os dias santificados impostos pela Companhia. <i>O S&eacute;culo</i> <br />   N&ordm; 10518 (26-3-1911), p. 3; Manipuladores de tabaco. <i>A Voz do Oper&aacute;rio</i> <span lang="en-GB">N&ordm; 1640 (2-4-1911), p. 1.</span></p> <span lang="en-GB">     <p><a href="#top88"><sup>88</sup></a><a name="88"></a> AUSLANDER, Leora – Perceptions of beauty and the problem of consciousness: parisian furniture makers. In BERLANSTEIN, Lenard, ed. – <i>Rethinking labor history</i>. Chicago: University of Illinois Press, 1993. p. 161.</p>     <p><a href="#top89"><sup>89</sup></a><a name="89"></a> HALL, Stuart – Variants of liberalism. In DONALD, James; HALL, Stuart, ed. – <i>Politics and ideology</i>. New York, Open University Press, 1986. p. 36.</p>     <p><a href="#top90"><sup>90</sup></a><a name="90"></a> BOURDIEU, Pierre – <i>O poder simb&oacute;lico</i> Miraflores: Difel, 2001. p. 141.</p> </span>     ]]></body><back>
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