<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>2183-3176</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Cadernos do Arquivo Municipal]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cadernos do Arquivo Municipal]]></abbrev-journal-title>
<issn>2183-3176</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Arquivo Municipal de Lisboa / Câmara Municipal de Lisboa]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S2183-31762020000200007</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Dos bons tempos à última era dos mártires: as petições de Alexandre Herculano em favor dos frades e das freiras]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[From good times to the last age of martyrs: Alexandre Herculano's petitions for friars and nuns]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Mendes]]></surname>
<given-names><![CDATA[Eduardo Soczek]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Universidade Estadual do Centro-Oeste (Santa Cruz) Departamento de Letras da UNICENTRO ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[Guarapuava Paraná]]></addr-line>
<country>Brasil</country>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>12</month>
<year>2020</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>12</month>
<year>2020</year>
</pub-date>
<volume>ser2</volume>
<numero>14</numero>
<fpage>119</fpage>
<lpage>136</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S2183-31762020000200007&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S2183-31762020000200007&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S2183-31762020000200007&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><abstract abstract-type="short" xml:lang="pt"><p><![CDATA[O processo de instalação do Liberalismo em Portugal foi paulatino e complexo, sendo que uma das mais importantes acções do Governo Liberal foi a extinção, em 1834, das ordens religiosas e confisco dos bens dos regulares. Mesmo tendo tomado partido pelo novo regime, Alexandre Herculano (1810-1877) redigiu dois opúsculos intercedendo pelos frades, Os Egressos (1842), e pelas monjas, As freiras de Lorvão (1853). São esses dois textos que escolhemos para a nossa análise neste estudo, sempre pensando no conjunto da obra de Herculano e em seu contexto. Para tanto, o diálogo com as propostas de Carlos Eduardo da Cruz (2010), Eduardo Lourenço (1992), Luís Machado de Abreu (2004), Manuel Clemente (1994) e Rute Rodrigues (2017) nos conduzirão, a fim de compreendermos o lugar de Herculano na conjuntura oitocentista em Portugal.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The process of installing Liberalism in Portugal was slow and complex, and one of the most important actions of the Liberal government was the extinction, in 1834, of religious orders and the confiscation of the assets of the regular clergy. Even though he took sides with the new regime, Alexandre Herculano (1810--1877) wrote two pamphlets appealing to the friars, Os Egressos (1842), and to the nuns, As freiras de Lorvão (1853). It is these two texts that we chose for our analysis in this study, always thinking about the whole of Herculano s work and its context. Therefore, the dialogue with the proposals of Carlos Eduardo da Cruz (2010), Eduardo Lourenço (1992), Luís Machado de Abreu (2004), Manuel Clemente (1994) and Rute Rodrigues (2017) will lead us, in order to understand Herculano s place in the 19th century conjuncture in Portugal.]]></p></abstract>
<kwd-group>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Alexandre Herculano]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Anticlericalismo]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Religiosos]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[Alexandre Herculano]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[Anticlericalism]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[Religious]]></kwd>
</kwd-group>
</article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>DOSSIER TEM&Aacute;TICO</b></p>     <p><b>Dos &ldquo;bons tempos&rdquo; &agrave; &ldquo;&uacute;ltima era dos m&aacute;rtires&rdquo;: as peti&ccedil;&otilde;es de Alexandre Herculano em favor dos frades e das freiras</b></p>     <p><b>From &ldquo;good times&rdquo; to &ldquo;the last age of martyrs&rdquo;: Alexandre Herculano&rsquo;s petitions for friars and nuns </b></p>     <p><b>Eduardo Soczek Mendes<sup>*</sup></b></p>     <p><sup>*</sup>Eduardo Soczek Mendes, Departamento de Letras da UNICENTRO &ndash; Universidade Estadual do Centro-Oeste (Santa Cruz), CEP: 85015-450, Guarapuava, Paran&aacute;, Brasil. <a href="mailto:edu.soczek@gmail.com">edu.soczek@gmail.com</a>.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO</b></p>     <p>O processo de instala&ccedil;&atilde;o do Liberalismo em Portugal foi paulatino e complexo, sendo que uma das mais importantes ac&ccedil;&otilde;es do Governo Liberal foi a extin&ccedil;&atilde;o, em 1834, das ordens religiosas e confisco dos bens dos regulares. Mesmo tendo tomado partido pelo novo regime, Alexandre Herculano (1810-1877) redigiu dois op&uacute;sculos intercedendo pelos frades, &ldquo;Os Egressos&rdquo; (1842), e pelas monjas, &ldquo;As freiras de Lorv&atilde;o&rdquo; (1853). S&atilde;o esses dois textos que escolhemos para a nossa an&aacute;lise neste estudo, sempre pensando no conjunto da obra de Herculano e em seu contexto. Para tanto, o di&aacute;logo com as propostas de Carlos Eduardo da Cruz (2010), Eduardo Louren&ccedil;o (1992), Lu&iacute;s Machado de Abreu (2004), Manuel Clemente (1994) e Rute Rodrigues (2017) nos conduzir&atilde;o, a fim de compreendermos o lugar de Herculano na conjuntura oitocentista em Portugal. </p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>PALAVRAS-CHAVE</b></p>     <p>Alexandre Herculano / Anticlericalismo / Religiosos</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>The process of installing Liberalism in Portugal was slow and complex, and one of the most important actions of the Liberal government was the extinction, in 1834, of religious orders and the confiscation of the assets of the regular clergy. Even though he took sides with the new regime, Alexandre Herculano (1810--1877) wrote two pamphlets appealing to the friars, &ldquo;Os Egressos&rdquo; (1842), and to the nuns, &ldquo;As freiras de Lorv&atilde;o&rdquo; (1853). It is these two texts that we chose for our analysis in this study, always thinking about the whole of Herculano&rsquo;s work and its context. Therefore, the dialogue with the proposals of Carlos Eduardo da Cruz (2010), Eduardo Louren&ccedil;o (1992), Lu&iacute;s Machado de Abreu (2004), Manuel Clemente (1994) and Rute Rodrigues (2017) will lead us, in order to understand Herculano&rsquo;s place in the 19th century conjuncture in Portugal.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>KEYWORDS</b></p>     <p>Alexandre Herculano / Anticlericalism / Religious</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>INTRODU&Ccedil;&Atilde;O</b></p>     <p>Tratar das rela&ccedil;&otilde;es de Alexandre Herculano com o clero &eacute; uma seara vast&iacute;ssima. Se levarmos em considera&ccedil;&atilde;o a totalidade da obra de Herculano produzida em diferentes momentos &ndash; cartas, romances, narrativas de outros g&eacute;neros, poemas, produ&ccedil;&atilde;o historiogr&aacute;fica, op&uacute;sculos &ndash; estaremos diante de um caudaloso rio, profundo e torrencial, por vezes mais largo e, em outros percursos, mais afunilado de refer&ecirc;ncias diretas e indiretas ao clero. Em algumas rotas, esse rio tamb&eacute;m se abrir&aacute; em estrondosas quedas e enxurradas ruidosas de pol&eacute;micas. E vejamos que estamos nos referindo a apenas um dos aspetos relacionados ao Catolicismo abordado na produ&ccedil;&atilde;o de Herculano: <i>o clero</i>. Se f&ocirc;ssemos verificar os tantos outros elementos de tem&aacute;tica religiosa que comp&otilde;em a escrita do autor, como, por exemplo, as men&ccedil;&otilde;es aos ritos, as cr&iacute;ticas aos dogmas e a intertextualidade com os textos b&iacute;blicos, estar&iacute;amos diante de um oceano de diversidades e pontos de vista. Exatamente por isso, ater-nos-emos mais especificamente a duas peti&ccedil;&otilde;es de Herculano pelos religiosos em Portugal ap&oacute;s o decreto de Extin&ccedil;&atilde;o das Ordens Religiosas (1834), que se deu no bojo da vit&oacute;ria dos Liberais sobre os Absolutistas: &ldquo;Os Egressos: peti&ccedil;&atilde;o humil&iacute;ssima a favor de uma classe desgra&ccedil;ada&rdquo;, de 1842, e &ldquo;As freiras de Lorv&atilde;o&rdquo;, esta &uacute;ltima endere&ccedil;ada a Ant&oacute;nio de Serpa Pimentel (1825-1900), em 1853. Para tanto, levaremos em considera&ccedil;&atilde;o n&atilde;o apenas o material textual, mas tamb&eacute;m o contexto em que ambas as peti&ccedil;&otilde;es foram redigidas, j&aacute; que distam, uma de outra, mais de uma d&eacute;cada e, em 1850, Herculano se envolveria numa pol&eacute;mica com setores do clero. </p>     <p>Por outro lado, n&atilde;o podemos nos olvidar que o autor faz parte de um conjunto de intelectuais de um per&iacute;odo. Em Portugal, por exemplo, Almeida Garrett (1799-1854), Camilo Castelo Branco (1825-1890), E&ccedil;a de Queir&oacute;s (1845-1900) e Guerra Junqueiro (1850-1923), cada um a seu modo, se aprofundaram em assuntos anticlericais. Em Fran&ccedil;a, Denis Diderot (1713-1784) e Victor Hugo (1802-1885) e, no Brasil, a t&iacute;tulo de curiosidade, Manuel Ant&ocirc;nio de Almeida (1830-1861) tamb&eacute;m tematizaram o anticlericalismo em suas obras. Alexandre Herculano &eacute;, certamente, um pensador de seu tempo, em que a discuss&atilde;o anticlerical estava na ordem do dia e, conforme averiguaremos, n&atilde;o &eacute; espantoso que, de facto, estivesse. </p>     <p>Para melhor analisarmos os dois textos &ndash; que n&atilde;o s&atilde;o de lavra ficcional-liter&aacute;ria &ndash;, abordaremos, na pr&oacute;xima sec&ccedil;&atilde;o, o contexto da implementa&ccedil;&atilde;o do sistema liberal em Portugal, que foi complexo e nem sempre seguiu uma linearidade ideol&oacute;gica. Obviamente, n&atilde;o pretendemos esgotar, em poucas linhas, um acontecimento t&atilde;o cheio de <i>nuances</i>, mas o nosso objetivo primeiro &eacute; o de pavimentar o caminho para as an&aacute;lises que devem seguir em outra sec&ccedil;&atilde;o deste estudo. Para tanto, as propostas, sobretudo, de Carlos Eduardo da Cruz (2010), Eduardo Louren&ccedil;o (1992), Lu&iacute;s Machado de Abreu (2004), Manuel Clemente (1994) e Rute Massano Rodrigues (2017) h&atilde;o de nos auxiliar para entendermos o per&iacute;odo em que Alexandre Herculano se insere e sobre o que produz. Por isso, dialogaremos, ainda que <i>en passant</i>, com outras obras do autor, a fim de procurar inter-rela&ccedil;&otilde;es e articula&ccedil;&otilde;es entre os seus textos. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>SOB O SIGNO DAS REVOLU&Ccedil;&Otilde;ES</b></p> <b>     <p>PORTUGAL, ALEXANDRE HERCULANO E O ANTICLERICALISMO</p> </b>     <p>Assertivamente, Carlos Eduardo da Cruz assim prop&otilde;e: </p>     <p>     <blockquote>Quando algu&eacute;m se debru&ccedil;a sobre o per&iacute;odo liberal em Portugal, [&hellip;] fica um pouco confuso com a postura de certas figuras daquela &eacute;poca, que uma hora parecem inclinar-se para um lado, para pouco depois assumir posi&ccedil;&atilde;o diversa. Afinal, a primeira metade do s&eacute;culo XIX em Portugal foi profusa em revoltas, revolu&ccedil;&otilde;es, golpes e pronunciamentos, numa constante batalha entre a sociedade antiga, absolutista, e a liberal, constitucional, na qual tamb&eacute;m concorriam doutrinas e ideias diversas sobre qual seria a melhor forma de liberdade para o pa&iacute;s<a href="#1"><sup>1</sup></a><a name="top1"></a>.         ]]></body>
<body><![CDATA[<p></p> </blockquote>     <p>De facto, &eacute; preciso recordar que &ldquo;Portugal &eacute;, de 1808 a 1820, um pa&iacute;s invadido, emigrado ou subalternizado pela presen&ccedil;a militar ostensiva do Estrangeiro&rdquo;<a href="#2"><sup>2</sup></a><a name="top2"></a>, j&aacute; que a Corte portuguesa fora, em 1807, refugiar-se na maior de suas col&oacute;nias de ent&atilde;o, o Brasil, devido &agrave;s invas&otilde;es for&ccedil;adas por Napole&atilde;o Bonaparte (1769-1821) na metr&oacute;pole. Esse acontecimento n&atilde;o &eacute; isolado, pois faz parte de um bojo de transforma&ccedil;&otilde;es, iniciadas, sobretudo, pela Revolu&ccedil;&atilde;o Francesa (1789), e que marcaria profundamente a pol&iacute;tica em Portugal por muitas d&eacute;cadas, alterando a fisionomia pol&iacute;tica do pa&iacute;s. </p>     <p>&Eacute; sabido que a Revolu&ccedil;&atilde;o Francesa, ainda nos fins do per&iacute;odo setecentista, visava, sobretudo, destituir o poder absoluto do soberano em Fran&ccedil;a e, estribada sobre conceitos formulados por muitos pensadores iluministas, como Locke (1632-1704), Montesquieu (1689-1755) e Voltaire (1694-1778), tamb&eacute;m investiria contra os poderes eclesi&aacute;sticos, pois, &ldquo;A religi&atilde;o fornecia estabilidade social para as monarquias e aristocracias, e de fato para todos os que se encontravam no alto da pir&acirc;mide. [&hellip;] a Igreja era o mais forte amparo do trono&rdquo;<a href="#3"><sup>3</sup></a><a name="top3"></a>. Em Portugal, dentro de suas especificidades, tamb&eacute;m houve as investidas anticlericais. Mas, recordemos, primeiramente, que &ldquo;A implementa&ccedil;&atilde;o do Liberalismo em Portugal foi lenta e muito complexa, marcada na primeira metade de Oitocentos, por convuls&otilde;es sociais e formas de guerra civil&rdquo;<a href="#4"><sup>4</sup></a><a name="top4"></a>. Faz-se indispens&aacute;vel memorar que, no interim de aus&ecirc;ncia da realeza, as for&ccedil;as de Fran&ccedil;a e, posteriormente, as de Inglaterra tomaram o territ&oacute;rio lusitano. Obviamente, isso facilitou a penetra&ccedil;&atilde;o das ideias iluministas num pa&iacute;s com uma monarquia absoluta, embora, certamente, n&atilde;o foram os ex&eacute;rcitos de Bonaparte ou o brit&acirc;nico que as estrearam com ineditismo em Portugal, dada a circula&ccedil;&atilde;o de ideias e intelectuais entre os pa&iacute;ses europeus. Em 1820, gestada por algum per&iacute;odo, ainda com a Corte sediada no Brasil, tem in&iacute;cio, em Portugal, a primeira revolu&ccedil;&atilde;o liberal, embasada em ideais iluministas, que ficar&aacute; conhecida como Vintismo, de sentimento nacional, o que &eacute; muito bem explicado pela instabilidade gerada pela aus&ecirc;ncia da Corte e pelo dom&iacute;nio estrangeiro, tanto que uma das exig&ecirc;ncias mais not&oacute;rias da revolu&ccedil;&atilde;o de que rememoramos o bicenten&aacute;rio, neste ano de 2020, &eacute; o do retorno imediato de D. Jo&atilde;o VI (1767-1826) e da Corte para Portugal. </p>     <p>Nesse per&iacute;odo vintista, Alexandre Herculano era uma crian&ccedil;a, visto que nascera em 1810. A instabilidade pol&iacute;tica continuou em Portugal, levando &agrave; Guerra Civil (1828-1834), numa disputa entre liberais, liderados por D. Pedro (1798-1834), que abdicara do trono do Brasil (1831), e absolutistas, que defendiam a causa do irm&atilde;o mais novo, D. Miguel (1801-1866). Portanto, levemos em considera&ccedil;&atilde;o que a Guerra Civil n&atilde;o fora um mero conflito entre irm&atilde;os pela sucess&atilde;o no trono, mas uma pugna por dois modelos profundamente distintos de governo: os primeiros, inspirados por alguns ideais iluministas e que exigiam, grosso modo, uma Carta Constitucional e a cria&ccedil;&atilde;o de meios para limitar o poder do monarca; enquanto os segundos lutavam pela conserva&ccedil;&atilde;o da centralidade do poder nas m&atilde;os r&eacute;gias e tinham a simpatia da maior parte de sectores eclesi&aacute;sticos em Portugal. </p>     <p>Por outro lado, retomando o excerto de Cruz, transcrito no in&iacute;cio desta sec&ccedil;&atilde;o, que trata da complexidade do per&iacute;odo e se levarmos em considera&ccedil;&atilde;o que tratamos &ldquo;de um tempo repleto de transforma&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas, econ&oacute;micas, sociais e culturais, com caracter&iacute;sticas muito particulares [&hellip;]. Um tempo muito &lsquo;controverso&rsquo;&rdquo;<a href="#5"><sup>5</sup></a><a name="top5"></a>, tamb&eacute;m reconheceremos que:</p>     <p>     <blockquote>n&atilde;o foram, de facto, lineares nem simples as atitudes e convic&ccedil;&otilde;es dos eclesi&aacute;sticos portugueses em rela&ccedil;&atilde;o ao novo regime. Houve reac&ccedil;&atilde;o, certamente, como a houve na generalidade das classes e grupos. [&hellip;] / Mas &eacute; nas fileiras do mesmo clero &ndash; regular ou secular &ndash; que tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil encontrar paladinos confessos e consequentes do sistema constitucional. E logo no topo da hierarquia cat&oacute;lica: se o cardeal-patriarca de Lisboa, D. Carlos da Cunha, &eacute; exilado por rejeitar algumas disposi&ccedil;&otilde;es das <i>Bases </i>do que seria a <i>Constitui&ccedil;&atilde;o </i>de 1822 [&hellip;], o beneditino Frei Francisco de S. Lu&iacute;s Saraiva acompanhou o movimento liberal desde o in&iacute;cio e seria bispo de Coimbra durante o vintismo e cardeal-patriarca no cabralismo<a href="#6"><sup>6</sup></a><a name="top6"></a>.         <p></p> </blockquote>     <p>Ou seja: mesmo entre os membros dos cleros regular e secular, como bem recorda Manuel Clemente, n&atilde;o havia uma unanimidade pela causa absolutista, embora, certamente, fossem minorit&aacute;rios os religiosos que apoiavam a causa liberal. J&aacute; nesse per&iacute;odo, Herculano tomou partido pelos constitucionais, mesmo em meio ao dom&iacute;nio absolutista, o que o levaria ao ex&iacute;lio:</p>     <p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>ainda em 1831 (em Fevereiro e em Agosto) ocorrem significativas rebeli&otilde;es, que, embora frustradas, s&atilde;o um importante sinal da fragilidade pol&iacute;tica do governo miguelista, apesar de estar rodeado de um aparelho de repress&atilde;o verdadeiramente tentacular e de se ter desenvolvido na sociedade portuguesa um importante culto popular que mitificou a figura de D. Miguel<a href="#7"><sup>7</sup></a><a name="top7"></a>.         <p></p> </blockquote>     <p>A rebeli&atilde;o de agosto de 1831, da Infantaria 4, citada por Isabel Nobre Vargues e Lu&iacute;s Reis Torgal, teve a participa&ccedil;&atilde;o de Herculano e, de acordo com Vitorino Nem&eacute;sio, seria a causa do ex&iacute;lio do escritor: &ldquo;Infelizmente, desconhecem-se as circunst&acirc;ncias da viagem de Herculano para a Inglaterra ap&oacute;s o desastre da revolta de Infantaria 4&rdquo;<a href="#8"><sup>8</sup></a><a name="top8"></a>. Ainda assim, o que tentamos demonstrar com este pre&acirc;mbulo &eacute; a complexidade da implementa&ccedil;&atilde;o do sistema liberal em Portugal: nem todos os religiosos, por exemplo, foram pela causa de D. Miguel, conforme j&aacute; explicitamos, e n&atilde;o pensemos que Herculano tenha aderido a todas as pol&iacute;ticas do Liberalismo ou que n&atilde;o tenha sido cr&iacute;tico a muitas delas, mesmo sofrendo por protestar contra o Absolutismo na juventude e tendo apoiado D. Pedro. A figura de Herculano &eacute; t&atilde;o complexa quanto o seu per&iacute;odo hist&oacute;rico: s&atilde;o not&oacute;rias as suas cr&iacute;ticas, a t&iacute;tulo de curiosidade, ao celibato clerical, sobretudo nos romances hist&oacute;ricos <i>Eurico, o presb&iacute;tero </i>(1844) e <i>O monge de Cist&eacute;r</i> (1848), reunidos sob um mesmo &ldquo;guarda-chuva&rdquo; tem&aacute;tico que o escritor nomeou como <i>Monasticon</i>. Tamb&eacute;m s&atilde;o patentes as cr&iacute;ticas aos pensadores iluministas, normalmente nomeados pelo autor como <i>fil&oacute;sofos</i>, em textos como &ldquo;Do Christianismo&rdquo; (1839-1843)<a href="#9"><sup>9</sup></a><a name="top9"></a>, na narrativa &ldquo;O p&aacute;roco da Aldeia (1825)&rdquo;, coligida em <i>Lendas e narrativas </i>(1851) e mesmo em <i>Hist&oacute;ria da origem e estabelecimento da inquisi&ccedil;&atilde;o em Portugal</i> (1854-1859). Deixamos claro, ainda, que muitos textos de Herculano disparam farpas, mesmo que indiretamente, &agrave;s a&ccedil;&otilde;es do clero e, igualmente, aos seduzidos pelas ideias iluministas, o que torna dificultoso, neste artigo, tecermos uma lista definitiva e quantitativa de todas as vezes ou de todas as produ&ccedil;&otilde;es em que o autor censurou o comportamento clerical e dos que se queriam <i>arautos do progresso</i>, vociferando, inclusive, contra os religiosos, por acreditarem que eles eram os grandes empecilhos do desenvolvimento em Portugal. </p>     <p>Como j&aacute; referimos, com o ide&aacute;rio de alguns setores de que era a religi&atilde;o uma das grandes respons&aacute;veis pela manuten&ccedil;&atilde;o do Antigo Regime, um dos principais ataques revolucion&aacute;rios se daria contra alguns setores da Igreja Cat&oacute;lica, n&atilde;o s&oacute; em Portugal, mas o que tamb&eacute;m renderia uma posterior rea&ccedil;&atilde;o da institui&ccedil;&atilde;o eclesi&aacute;stica<a href="#10"><sup>10</sup></a><a name="top10"></a>:</p>     <p>     <blockquote>A laiciza&ccedil;&atilde;o da sociedade portuguesa acentuou-se significativamente a partir da d&eacute;cada de 20 dos oitocentos [&hellip;]. As ordens e congrega&ccedil;&otilde;es religiosas passaram a ser vistas como perturbadoras da ordem e, de acordo com os padr&otilde;es liberais, esvaziadas de sentido social. N&atilde;o controladas pela autoridade episcopal nacional, para al&eacute;m de poderem ser encaradas como um Estado dentro do Estado, n&atilde;o eram produtivas e estimulavam a atitude de esmoler [sic] &ndash; o que constitu&iacute;a mau exemplo em rela&ccedil;&atilde;o ao trabalho tornado valor do homem livre &ndash; viviam o celibato &ndash; atitude contr&aacute;ria &agrave; fam&iacute;lia e realiza&ccedil;&atilde;o natural do indiv&iacute;duo &ndash; e a obedi&ecirc;ncia era tida como um voto religioso &ndash; o ideal liberal transferia a natureza das rela&ccedil;&otilde;es sociais da dimens&atilde;o de s&uacute;bdito para a de cidad&atilde;o, indiv&iacute;duo parte da na&ccedil;&atilde;o<a href="#11"><sup>11</sup></a><a name="top11"></a>.         <p></p> </blockquote>     <p>Como descreve Rute Rodrigues, o sentimento anticlerical ganha for&ccedil;a, principalmente, porque algumas caracter&iacute;sticas das ordens regulares atentavam contra as cren&ccedil;as liberais, como elencou a autora: em suma, as pr&aacute;ticas celibat&aacute;rias eram tidas como ultrajes &agrave; individualidade, princ&iacute;pio t&atilde;o caro ao Liberalismo Cl&aacute;ssico e &agrave; forma&ccedil;&atilde;o familiar, institui&ccedil;&atilde;o eminente na sociedade burguesa. Da mesma maneira, a produtividade e o trabalho s&atilde;o valores norteadores da burguesia, enquanto alguns religiosos eram sustentados por privil&eacute;gios ou donativos, mesmo que saibamos que muitas casas conventuais participassem ativamente da economia ao administrarem bens ou produzirem meios para a pr&oacute;pria subsist&ecirc;ncia. </p>     <p>Julgamos necess&aacute;rio um esclarecimento acerca do termo <i>anticlericalismo</i>. Tal deve-se, principalmente, por envolver a tem&aacute;tica central deste estudo na apresenta&ccedil;&atilde;o das peti&ccedil;&otilde;es de Herculano pelos frades e freiras, mas tamb&eacute;m para termos uma ideia da complexidade que envolve esta terminologia. Para tanto, &eacute; importante levarmos em considera&ccedil;&atilde;o as declara&ccedil;&otilde;es de Lu&iacute;s Machado de Abreu:</p>     <p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>os afloramentos da atitude anticlerical existem desde sempre na tradi&ccedil;&atilde;o cultural portuguesa. Desde as cantigas medievais [&hellip;], essas manifesta&ccedil;&otilde;es apresentam-se com not&oacute;ria publicidade liter&aacute;ria [&hellip;]. Finalmente, o apogeu da visibilidade expressiva e sintom&aacute;tica do fen&oacute;meno anticlerical corresponde ao per&iacute;odo compreendido entre meados do s&eacute;culo XIX e as duas primeiras d&eacute;cadas do s&eacute;culo XX. / Dir-se-&aacute;, por isso, que as manifesta&ccedil;&otilde;es de anticlericalismo s&atilde;o perenes, geradoras de abundante express&atilde;o escrita e, na sua forma intensa e militante, relativamente breves<a href="#12"><sup>12</sup></a><a name="top12"></a>.         <p></p> </blockquote>     <p>Abreu expressa que numa cultura de Catolicismo t&atilde;o arraigado e, por conseguinte, com a presen&ccedil;a t&atilde;o marcante de seus membros institucionais, as manifesta&ccedil;&otilde;es anticlericais perduram, com alguns picos de exacerba&ccedil;&atilde;o &ndash; e estamos tratando exatamente de um desses per&iacute;odos. Outras d&uacute;vidas sobre o voc&aacute;bulo devem ainda ser sanadas antes de prosseguirmos: embora &ldquo;o termo s&oacute; tenha sido cunhado pelo livre-pensamento burgu&ecirc;s do s&eacute;culo XIX&rdquo;<a href="#13"><sup>13</sup></a><a name="top13"></a>, as atitudes anticlericais podem ser identificadas em cantigas medievais, na dramaturgia de Gil Vicente (1465-1536) e at&eacute; mesmo em serm&otilde;es de padre Ant&oacute;nio Vieira (1608-1697), como o de <i>Santo Ant&oacute;nio aos peixes </i>(1654). Ora, se pensarmos ent&atilde;o sobre a diversidade de per&iacute;odos e as diversidades autorais, podemos inferir que tamb&eacute;m o que chamamos de anticlericalismo designa algo muito variegado: </p>     <p>     <blockquote>Se existem assuntos que induzem naturalmente uma perspectiva simplificadora da complexidade das coisas, esse &eacute; precisamente o caso do tema anticlerical. A carga negativa transportada pelo prefixo &ldquo;anti&rdquo; [&hellip;] oculta a riqu&iacute;ssima diversidade de elementos positivos que ele igualmente cont&eacute;m, nomeadamente como agente de mudan&ccedil;a e promotor de programas de renova&ccedil;&atilde;o da exist&ecirc;ncia civil e da vida eclesial<a href="#14"><sup>14</sup></a><a name="top14"></a>.         <p></p> </blockquote>     <p>Portanto, n&atilde;o seria err&oacute;neo se refer&iacute;ssemos como <i>anticlericalismos</i>, dada a pluralidade do tema. Para rapidamente exemplificar, poder&iacute;amos pensar nas semelhan&ccedil;as e diferen&ccedil;as entre os anticlericalismos que s&atilde;o figurados em <i>Eurico, o presb&iacute;tero</i>, de Herculano, e em <i>O crime do padre Amaro</i> (1875), de E&ccedil;a de Queir&oacute;s (1845-1900), sendo que mesmo os escritores pertencendo a duas est&eacute;ticas distintas, n&atilde;o viveram t&atilde;o afastados temporalmente. E para que realizamos essa discuss&atilde;o acerca da diversidade que exprime o termo? Exatamente, para pensarmos as situa&ccedil;&otilde;es que descreveremos a seguir e para auxiliar as nossas considera&ccedil;&otilde;es nas an&aacute;lises dos op&uacute;sculos. </p>     <p>Regressando ao contexto da implementa&ccedil;&atilde;o do Liberalismo em Portugal, uma das a&ccedil;&otilde;es de grande impacto foi a promulga&ccedil;&atilde;o do decreto de Extin&ccedil;&atilde;o das Ordens Religiosas, ap&oacute;s a vit&oacute;ria dos Constitucionais na Guerra Civil, da qual personagens como Garrett e Herculano participaram<a href="#15"><sup>15</sup></a><a name="top15"></a>. &Eacute; facto que, desde 1822, houve alguma redu&ccedil;&atilde;o de casas conventuais em Portugal, entretanto, &ldquo;Depois de uma primeira experi&ecirc;ncia durante o Vintismo, em 1834, com a extin&ccedil;&atilde;o das Ordens Religiosas, os conventos conheceram aquele que foi um verdadeiro processo de &lsquo;desmantelamento&rsquo; que se arrastou, em alguns casos, at&eacute; &agrave;s primeiras d&eacute;cadas do s&eacute;culo XX&rdquo;<a href="#16"><sup>16</sup></a><a name="top16"></a>. N&atilde;o foi algo exclusivo do pa&iacute;s, mas os liberais se sentiam &ldquo;inspirados essencialmente em medidas da Fran&ccedil;a revolucion&aacute;ria&rdquo;<a href="#17"><sup>17</sup></a><a name="top17"></a>, por&eacute;m movimentos semelhantes ocorreram, a t&iacute;tulo de curiosidade, na B&eacute;lgica, Su&iacute;&ccedil;a, nos Pa&iacute;ses Baixos, na &Aacute;ustria e em Espanha. Em Portugal, o decreto promulgado por Joaquim Ant&oacute;nio de Aguiar (1792-1884), &ldquo;conhecido pelo apelido de &lsquo;Mata-Frades&rsquo;&rdquo;<a href="#18"><sup>18</sup></a><a name="top18"></a>, ent&atilde;o ministro dos Neg&oacute;cios Eclesi&aacute;sticos e da Justi&ccedil;a, &ldquo;declarava extintos todos os conventos, mosteiros, col&eacute;gios, hosp&iacute;cios, e quaisquer outras casas das ordens religiosas regulares, sendo os seus bens secularizados e incorporados &agrave; Fazenda Nacional&rdquo;<a href="#19"><sup>19</sup></a><a name="top19"></a>. &Eacute; facto que n&atilde;o foi algo t&atilde;o simples o esvaziamento dos mosteiros: os conventos masculinos, por exemplo, deveriam deixar de existir imediatamente e os seus membros receberiam pens&otilde;es vital&iacute;cias; j&aacute; as casas femininas poderiam continuar a existir at&eacute; a morte da &uacute;ltima religiosa, mas sem receber novi&ccedil;as. Por outro lado, temos de ter em mente que o decreto de Aguiar foi uma investida contra as ordens regulares, mas o sistema pol&iacute;tico continuava a se afirmar cat&oacute;lico &ndash; &ldquo;o catolicismo foi religi&atilde;o de Estado at&eacute; 1910&rdquo;<a href="#20"><sup>20</sup></a><a name="top20"></a> &ndash; e &ldquo;O regime liberal n&atilde;o largou nenhuma das prerrogativas da monarquia absoluta no respeitante ao controlo da Igreja. Pelo contr&aacute;rio, refor&ccedil;ou-as, chamando a si a provis&atilde;o exclusiva de todo o quadro eclesi&aacute;stico e paroquial&rdquo;<a href="#21"><sup>21</sup></a><a name="top21"></a>. Em suma: o esvaziamento dos conventos era tamb&eacute;m uma maneira de controlo do clero, pois os membros eclesi&aacute;sticos que permaneceriam seriam os ligados &agrave;s dioceses &ndash; os seculares &ndash; que, comumente, cuidavam de igrejas paroquiais, sem superiores fora do pa&iacute;s e unidos diretamente &agrave; autoridade do bispo local, sendo que "todos os bispos eram indicados pelo Estado e este encarava a religi&atilde;o oficial como um meio de &ldquo;moraliza&ccedil;&atilde;o&rdquo; e estabiliza&ccedil;&atilde;o da vida nacional: para tal propunha &agrave; Santa S&eacute; nomes que n&atilde;o lhe levantassem objec&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas e n&atilde;o arriscava protagonismos imprevis&iacute;veis"<a href="#22"><sup>22</sup></a><a name="top22"></a>.</p>     <p>Ap&oacute;s essa apresenta&ccedil;&atilde;o panor&acirc;mica do momento em que Alexandre Herculano viveu, passemos, na pr&oacute;xima sec&ccedil;&atilde;o, &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es do autor com o clero e aos textos que selecionamos para este estudo.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>ALEXANDRE HERCULANO E O CLERO ENTRE AS PETI&Ccedil;&Otilde;ES E POL&Eacute;MICAS</b></p>     <p>As duas j&aacute; referidas peti&ccedil;&otilde;es do escritor em favor dos religiosos foram coligidas em <i>Op&uacute;sculos I: quest&otilde;es p&uacute;blicas</i>. Tais op&uacute;sculos s&atilde;o textos de Herculano, dos mais variados, que anteriormente foram veiculados, sobretudo, em peri&oacute;dicos, e que passaram por reedi&ccedil;&otilde;es em tomos j&aacute; na d&eacute;cada de 70 do s&eacute;culo <i>XIX</i>, com o autor retirado da vida p&uacute;blica em Vale de Lobos<a href="#23"><sup>23</sup></a><a name="top23"></a>.</p>     <p>Sob diversos tomos intitulados como <i>Op&uacute;sculos</i>, Herculano republicou muitos textos pregressos: alguns sobre educa&ccedil;&atilde;o, outros sobre literatura e estudo da hist&oacute;ria; tamb&eacute;m manifestos pol&iacute;ticos, como <i>A voz do profeta</i>, de 1837, que fazia o autor debutar no cen&aacute;rio das letras. Todavia, a maior pol&eacute;mica p&uacute;blica de Alexandre Herculano com setores religiosos inicia-se em 1846 &ndash; percebamos que j&aacute; ap&oacute;s a vit&oacute;ria dos liberais e depois da veicula&ccedil;&atilde;o de &ldquo;Os Egressos&rdquo; &ndash; quando o historiador publicou o primeiro volume da <i>Hist&oacute;ria de Portugal</i>, um estudo que versava sobre a origem da monarquia e a funda&ccedil;&atilde;o do reino e se alongava at&eacute; o per&iacute;odo de dom Afonso III (1210--1279). Ainda nesse mesmo ano, esse primeiro volume &ndash; de outros tr&ecirc;s que o seguiriam posteriormente &ndash; foi reeditado. Tal obra foi a respons&aacute;vel pelo descontentamento de uma parte do clero portugu&ecirc;s com Herculano e foi esse aborrecimento que fez o autor remeter uma carta, intitulada <i>Eu e o clero</i>, datada de 30 de junho de 1850, ao ent&atilde;o cardeal-patriarca de Lisboa, dom Guilherme Henriques de Carvalho (1793-1857)<a href="#24"><sup>24</sup></a><a name="top24"></a>. Posteriormente, tal carta foi anexada aos <i>Op&uacute;sculos</i>, bem como outras r&eacute;plicas e tr&eacute;plicas p&uacute;blicas de Herculano acerca do ocorrido.</p>     <p>A querela do autor com setores do clero, nesta ocasi&atilde;o, se iniciou devido &agrave; omiss&atilde;o &ndash; proposital e justificada por Alexandre Herculano em uma advert&ecirc;ncia inicial &agrave; <i>Hist&oacute;ria de Portugal</i>, desde a primeira edi&ccedil;&atilde;o &ndash; do mito do aparecimento de Cristo a Afonso Henriques (1109-1185) na Batalha de Ourique (25 de julho de 1139)<a href="#25"><sup>25</sup></a><a name="top25"></a>, conflito entre crist&atilde;os e mouros, muitas vezes tido como fundante da nacionalidade. O autor fez, ent&atilde;o, em sua advert&ecirc;ncia ao primeiro volume, a op&ccedil;&atilde;o pela ci&ecirc;ncia no que designou como a &ldquo;primeira tentativa de uma historia critica de Portugal&rdquo;<a href="#26"><sup>26</sup></a><a name="top26"></a>. A complexidade dos escritos de Herculano faz-nos pensar que o intelectual queria um pa&iacute;s reconstru&iacute;do, mas, ao mesmo tempo, n&atilde;o aceitaria perder tudo o que constitui a heran&ccedil;a cultural lusitana: &ldquo;Se Herculano se descobre e inventa romancista pseudo-medievalizante e historiador, n&atilde;o &eacute; por amor do <i>passado enquanto tal</i>, por mais glorioso, mas como prospec&ccedil;&atilde;o do <i>tempo perdido</i> de Portugal [&hellip;] num presente enevoado e oscilante&rdquo;<a href="#27"><sup>27</sup></a><a name="top27"></a>. Portanto, as revisita&ccedil;&otilde;es ao passado portugu&ecirc;s, em Herculano, parecem estar muito mais ligadas &agrave;s suas d&uacute;vidas contempor&acirc;neas de qual seria o futuro de Portugal. </p>     <p>O mesmo autor que afirmava em <i>Eu e o clero</i> a ignor&acirc;ncia dos setores eclesi&aacute;sticos, em &ldquo;Os Egressos: peti&ccedil;&atilde;o humilissima a favor de uma classe desgra&ccedil;ada&rdquo; denunciou a situa&ccedil;&atilde;o miser&aacute;vel de alguns dos religiosos ap&oacute;s a extin&ccedil;&atilde;o das Ordens. Talvez seja exactamente por isso que na missiva ao cardeal-patriarca, Herculano tenha assim referido:</p>     <p>     <blockquote>Tem o clero a combater em mim um inveterado e perigoso inimigo? [&hellip;] Ha quinze annos que trabalho na imprensa [&hellip;]. De roda de mim jaziam os fragmentos da sociedade que f&ocirc;ra, e no meio delles o clero, disperso, empobrecido, coberto de affrontas, experimentava as consequencias do predominio de um partido adverso e irritado. A situa&ccedil;&atilde;o da igreja portugueza nessa epocha, e sobretudo a situa&ccedil;&atilde;o dos regulares, sabemos todos qual era. [&hellip;] Nem uma voz amiga se alevantava nesta terra de Portugal a favor da igreja batida pela tempestade. [&hellip;]. Na imprensa liberal, revolucionaria, impia, como quizerem chamar-lhe, eu, s&oacute; eu, tive por muito tempo palavras de affei&ccedil;&atilde;o e consolo para a desgra&ccedil;a: s&oacute; eu tive animo para accusar os homens do meu partido d&rsquo;espoliadores e d&rsquo;insensatos; [&hellip;]. A voz que do campo do progresso saudava o templo enlutado e deserto era debil, mas sincera: a m&atilde;o que se estendia para amparar o sacerdote curvado sob o peso da agonia era bem pouco robusta, mas era bem leal!<a href="#28"><sup>28</sup></a><a name="top28"></a>         <p></p> </blockquote>     <p>De facto, assim como a cr&iacute;tica aos erros do clero &eacute; recorrente na obra de Herculano, tamb&eacute;m a tem&aacute;tica do esvaziamento dos mosteiros se manifesta como um <i>topus</i>: nas cr&iacute;ticas, podemos, rapidamente, mencionar a glutonaria de fr. Hilari&atilde;o, personagem do romance hist&oacute;rico, de 1843, <i>O bobo (1128)</i>, que morre v&iacute;tima de indigest&atilde;o ou ainda o manipulador e injusto abade de Alcoba&ccedil;a, D. Jo&atilde;o d&rsquo;Ornelas, em <i>O monge de Cist&eacute;r</i>, para ficarmos apenas na produ&ccedil;&atilde;o ficcional. J&aacute; no pr&oacute;logo a <i>Eurico, o presb&iacute;tero</i>, o autor menciona que procurou por cr&oacute;nicas de amarguras amorosas dos religiosos &ldquo;pelos mosteiros, quando eles desabavam no meio das nossas transforma&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas&rdquo;<a href="#29"><sup>29</sup></a><a name="top29"></a>, numa n&iacute;tida refer&ecirc;ncia &agrave; extin&ccedil;&atilde;o das ordens regulares, bem como em seus poemas, encontraremos <i>O mosteiro deserto</i><a href="#30"><sup>30</sup></a><a name="top30"></a>, de novo, numa alus&atilde;o ao esvaziamento dos conventos. Ent&atilde;o, n&atilde;o &eacute; de todo espantoso, sobretudo, se considerarmos o que j&aacute; mencionamos sobre a profus&atilde;o de significados do termo <i>anticlericalismo</i>, que Herculano, cheio de pol&eacute;micas com o clero, tenha tamb&eacute;m apelado pelos religiosos. </p>     <p>A pr&oacute;pria determina&ccedil;&atilde;o de supress&atilde;o das ordens religiosas, sob a reg&ecirc;ncia de D. Pedro IV, previa o pagamento de pens&otilde;es para que os professos pudessem se manter ap&oacute;s o encerramento dos conventos. Entretanto, o escritor observa que muitos frades e monges ca&iacute;ram na pen&uacute;ria. O autor inicia tratando de sua imagina&ccedil;&atilde;o em meio aos estudos: </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>     <blockquote>N&atilde;o sei se todos aquelles que passam os largos ser&otilde;es do inverno, n&atilde;o nos theatros, nem nos banquetes profusos, nem nos bailes esplendidos, mas em aposento de poucas varas em quadro, rodeiados de alguns livros e a s&oacute;s com o seu pensar silencioso; n&atilde;o sei, digo, se a todos esses acontece o mesmo que a mim, quando o som do chuveiro subito, o silvo do vento, e o bramido do mar, quebrando l&aacute; ao longe nos rochedos da marinha, lhes vem toldar a serenidade do t&atilde;o suave calar nocturno e as imagens que transitam lentas no kaleidoscopio da imagina&ccedil;&atilde;o. [&hellip;] / Foi numa d&rsquo;estas noites procellosas, emquanto eu buscava a verdade do passado, que a imagina&ccedil;&atilde;o insoffrida, como que a furto, me transportou das realidades que foram para uma triste realidade que &eacute;. / Approximava-se a meia-noite. Tinha acabado de ler uma das bullas do violento Innocencio III contra o n&atilde;o menos violento Sancho I de Portugal, inserida nos registros d&rsquo;aquelle digno successor de Gregori VI, volumosos registros, onde ha muito que aprender &aacute;cerca da vida social de nossos maiores e das obscuras luctas da liberdade burguesa, tronco antigo das modernas revolu&ccedil;&otilde;es populares, que tambem tem as suas arvores de costado, como a aristocracia de ber&ccedil;o<a href="#31"><sup>31</sup></a><a name="top31"></a>.         <p></p> </blockquote>     <p>O autor refere, primeiramente, os grandes encontros sociais, como os teatros e bailes, e faz men&ccedil;&atilde;o a eles de maneira negativa. Tamb&eacute;m n&atilde;o nos parece que a remiss&atilde;o a Inoc&ecirc;ncio III (1160-1216) e a D. Sancho I (1154- -1211) tenha sido insignificante neste pre&acirc;mbulo, j&aacute; que, normalmente, Herculano refere a Idade M&eacute;dia como um per&iacute;odo extremamente violento e Inoc&ecirc;ncio III &eacute; considerado um dos papas mais poderosos na Hist&oacute;ria da Igreja &ndash; nisso podemos estabelecer uma conex&atilde;o com o Ultramontanismo da conjuntura do escritor &ndash; e as hist&oacute;ricas disputas com Sancho I podem dialogar com as querelas entre a institui&ccedil;&atilde;o eclesi&aacute;stica e o poder r&eacute;gio, que j&aacute; estava sob o regime liberal. Ainda no excerto transcrito, encontramos men&ccedil;&otilde;es &agrave;s pugnas da classe burguesa, que irrompeu no Medievo, e a defesa do historiador pelo conhecimento do passado para a assimila&ccedil;&atilde;o do presente. Prossegue, ent&atilde;o, com a costumeira riqueza em descri&ccedil;&otilde;es e pormenores, pensando em um dos efeitos concretos da ideologia liberal no territ&oacute;rio lusitano, a partir de uma narrativa, fruto de sua imagina&ccedil;&atilde;o:</p>     <p>     <blockquote>Era, pois, j&aacute; bem tarde. Subitamente a chuva fustigou as vidra&ccedil;as: / [&hellip;] o meu esp&iacute;rito caiu no mundo presente, presente na sua mais rigorosa data, uma noite pessima do mez de novembro do anno do Senhor de 1842. / [&hellip;] Pareceu-me, por&eacute;m, que um vulto distante vinha pela estrada do lado do outeiro: era um vulto humano, que ora se encobria na sombra de nuvem negra que passava chuvosa, ora se desenhava na claridade transitoria do c&eacute;u. Approximou-se vagarosamente, e chegou ao p&eacute; de mim: passando, os seus vestidos ro&ccedil;aram-me por uma das m&atilde;os: eram frios e molhados. [&hellip;] O seus passos eram arrastados e tremulos, vergado o corpo, a fronte nua e calva. E eu olhava para elle fito. A chuva come&ccedil;ou de novo a cair cerrada e escura. O vulto encostou-se ent&atilde;o a um dos robles da estrada, como buscando abrigar-se; e na cerra&ccedil;&atilde;o da saraiva que sobreveio, ouvi-lhe um gemido. / [&hellip;] &ldquo;E&rsquo; mentira: &ndash; dizia comigo, tentando quebrar o feiti&ccedil;o d&rsquo;aquelle pesadello de homem acordado. / E quebrei-o: &ndash; e era mentira. / [&hellip;] como o leitor facilmente acreditar&aacute;, estava no meu gabinete, com um tinteiro e algumas folhas de papel deante de mim, / [&hellip;] a chuva ca&iacute;a, mas era l&aacute; fora. Eu estava enxuto e secco, [&hellip;] estava bem, agasalhado, commodamente. / [&hellip;] Numa porta fronteira, que dava para outro aposento desalumiado, estava o vulto que vira no meu desvaneio de homem acordado [&hellip;]. / Era um anci&atilde;o veneravel: tinha a fronte suave e pallida sulcada profundamente d&rsquo;essas rugas horisontaes [&hellip;]: o seu olhar era esse olhar manso, agasalhador, indulgente, que em certos velhos nos fascina e subjuga, e que nos faz dizer a n&oacute;s os mo&ccedil;os: &ndash; Quem me dera ser teu filho!&rdquo; Nas faces cavadas aninhava-se-lhe a fome a penitencia&hellip; / &ldquo;E&rsquo; a fome! &ndash; bradei eu, pondo-me em p&eacute;; porque correndo a vista ao longo da barba branca do anci&atilde;o, vi que esta lhe ca&iacute;a sobre o escapulario negro de monge benedictino. / Mas a vis&atilde;o desapparecera de novo: e apenas me pareceu ouvir soar ao longe uma voz cava e debil, como a que sai do peito consumido por febre pulmonar, que recitava estas palavras do Psalmista: / <i>Judica me Deus, et discerne causam meam, et a gente non sancta et ab homine iniquo et doloso erue me</i><a href="#32"><sup>32</sup></a><a name="top32"></a>.         <p></p> </blockquote>     <p>O autor situa claramente o tempo de sua vis&atilde;o: a contemporaneidade de Portugal. O beneditino que vagueia, passando fome, pela madrugada procelosa de inverno tamb&eacute;m &eacute; retratado de um modo muito peculiar: em &ldquo;Os Egressos&rdquo;, Herculano descreve o olhar do religioso &ndash; manso, agasalhador e indulgente. N&atilde;o &eacute;, portanto, qualquer cl&eacute;rigo, mas sim um monge muito singular, membro de uma Ordem extinta em Portugal e que fora proeminente ao longo da Hist&oacute;ria do pa&iacute;s. O religioso &eacute; tamb&eacute;m dotado daquilo que o autor mais valoriza como positivo em uma figura eclesi&aacute;stica: permeado pela ess&ecirc;ncia do Cristianismo, que vive, de facto, mergulhado na viv&ecirc;ncia do Evangelho e menos afeito aos preceitos da institui&ccedil;&atilde;o eclesial. Tais modelos de religiosos s&atilde;o os que convencem pela maneira como vivem e n&atilde;o pelos serm&otilde;es prolixos. </p>     <p>H&aacute;, entretanto, uma oposi&ccedil;&atilde;o entre o monge e o autor. Usamos o termo <i>autor</i> e n&atilde;o <i>narrador</i>, porque estamos diante de um escrito em que Herculano se utiliza da narrativa para, na verdade, estribar as suas opini&otilde;es sobre o que se passava em Portugal. No texto, o autor est&aacute; no conforto de seu gabinete, enquanto o beneditino perambula, pois j&aacute; n&atilde;o h&aacute; mais mosteiros, de modo que o religioso passa fome e o autor, em sua vis&atilde;o imaginativa, afirma sentir o h&aacute;bito molhado do monge quando ele se aproxima. O velho que deambulava pela noite chuvosa &eacute; um espectro que some e reaparece: &eacute; como se tal situa&ccedil;&atilde;o da mendic&acirc;ncia de eclesi&aacute;sticos &ndash; mais do que o monge, propriamente &ndash; assombrasse o escritor que lutou pelos liberais na Guerra Civil. O anci&atilde;o, entretanto, desaparece recitando o in&iacute;cio do Salmo 43, que &eacute;, na verdade, uma ora&ccedil;&atilde;o na qual se pede o aux&iacute;lio a Deus diante de uma na&ccedil;&atilde;o infiel e de homens in&iacute;quos, mas trata-se de uma das ora&ccedil;&otilde;es iniciais da <i>Missa de Pio V</i><a href="#33"><sup>33</sup></a><a name="top33"></a>. N&atilde;o nos parece sem raz&atilde;o que tal trecho do Salmo seja recitado por um monge ca&iacute;do na mis&eacute;ria: o pedido de prote&ccedil;&atilde;o contra a suposta na&ccedil;&atilde;o infiel faria sentido aos religiosos no contexto de Herculano em Portugal. E &eacute; a partir da figura&ccedil;&atilde;o do monge, que se estabelece, no texto, uma conex&atilde;o com os poss&iacute;veis factos da p&oacute;s-extin&ccedil;&atilde;o das ordens regulares:</p>     <p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>O meu circulo vicioso n&atilde;o existia. Ca&iacute;ra das idealidades do passado no mundo real, e ahi, numa das realidades mais torpes, mais ignominiosas, mais brutaes, mais estupida e covardemente crueis do seculo presente, que deante de Deus, que o v&ecirc; e o condemna, ousa gabar-se de grande e generoso e forte; mas em cuja campa o christianismo e philosophia escrever&atilde;o algum dia unicamente este letreiro: / &ndash; Aqui jaz a ultima era dos martyres. &ndash; / E pus-me a scismar. / &ndash; O Senhor te resgatar&aacute;, pobre monge; porque n&atilde;o tarda a bater a hora em que durmas tranquillo na terra fria e humida, fria e humida como a estamenha que te cobre. Queiras tu de l&aacute; perdoar-nos! / E lan&ccedil;ando os olhos em volta, perguntava a mim mesmo: &ndash; Porque possuo eu os commodos da vida, o p&atilde;o do espirito, e porque perdeu elle tudo isso? Que bem tenho eu feito ao mundo? Que mal lhe havia elle feito? / A&rsquo; f&eacute;, que a minha consciencia n&atilde;o achou uma unica resposta cabal a t&atilde;o simplices perguntas. / A lembran&ccedil;a do frade velho atormentou-me toda a noite. A imagina&ccedil;&atilde;o n&atilde;o m&rsquo;o pintava j&aacute; na passagem escura, onde surgira pela segunda vez: vi-o na id&eacute;a, e ahi, encostado ao roble, procurando conchegar os membros inteiri&ccedil;ados na cogulla encharcagada, e resguardar a cabe&ccedil;a calva ao abrigo do robusto madeiro. / [&hellip;] De quantos anci&atilde;os veneraveis ser&aacute; a historia, a historia do meu benedictino? / &ldquo;Mas elles teem p&atilde;o: os socorros publicos&hellip;&rdquo; Ol&eacute;, homens grandes, silencio! / [&hellip;] Mentistes; porque a somma de que falaes existe apenas em palavras mais torpemente hypocritas que as da serpente tentadora de nossa primeira m&atilde;e, as que se escrevem nas painas de um or&ccedil;amento. / E a realidade? A realidade &eacute; a minha vis&atilde;o; &eacute; que o monge, o sacerdote, se converteu em mendigo. / Silencio, outra vez, homens grandes!<a href="#34"><sup>34</sup></a><a name="top34"></a>         <p></p> </blockquote>     <p>O autor afirma que a sua imagina&ccedil;&atilde;o &eacute; mais real, naquela conjuntura, do que os socorros p&uacute;blicos e pagamentos prometidos pelo Estado aos religiosos desalojados, mas que parecem ser contabilizados apenas em teoria. Herculano tamb&eacute;m questiona quantos n&atilde;o seriam os monges ca&iacute;dos na mendic&acirc;ncia e quais seriam os crimes que haviam cometido para viverem em tal situa&ccedil;&atilde;o: por isso, a men&ccedil;&atilde;o &agrave; <i>&uacute;ltima era dos m&aacute;rtires</i>, express&atilde;o que comp&otilde;e o t&iacute;tulo deste trabalho. Refere tamb&eacute;m n&atilde;o encontrar respostas para as suas indaga&ccedil;&otilde;es, como tamb&eacute;m o porqu&ecirc; ele, como escritor e liberal, vivia confortavelmente, enquanto os religiosos estavam, muitas vezes, em situa&ccedil;&otilde;es de vulnerabilidade, ap&oacute;s a instaura&ccedil;&atilde;o do governo liberal. O consolo do monge, nas palavras do escritor, &eacute; o repouso na terra fria e &uacute;mida &ndash; a morte, portanto &ndash; que &eacute; comparado ao seu h&aacute;bito &ndash; ou estamenha &ndash; tamb&eacute;m com a c&oacute;gula &uacute;mida por vaguear pelas noites de tempestade em pleno inverno. </p>     <p>Duas vezes o autor interpela os que chama de <i>homens grandes</i> &ndash; isto &eacute;, os que detinham o poder &ndash;, mas tamb&eacute;m os manda calar. &Eacute; como se estivesse lhes expondo algo e, antes mesmo de ser contestado, os fizesse silenciar, porque o argumento que lhes apresenta era realmente mais forte e concreto. Herculano sugere, ent&atilde;o, no trecho que segue, n&atilde;o uma defesa da vida religiosa em si, mas o que parece ser uma reflex&atilde;o sobre os problemas gerados pelo esvaziamento dos conventos:</p>     <p>     <blockquote>E se n&oacute;s, gera&ccedil;&atilde;o do progresso e da philosophia, nos envergonhamos de ser deshonestos, e dissermos: &ndash; &ldquo;D&ecirc;-se uma fatia de p&atilde;o ao que morre de fome!&rdquo; Mais; se dissermos: &ndash; &ldquo;Pague-se um juro modico dos valores que nos apropri&aacute;mos? / [&hellip;] O homem n&atilde;o vive s&oacute; de p&atilde;o. Di-lo um livro que v&oacute;s nunca lestes, mas que nem por isso tem deixado de ser por dezoito seculos o abrigo, a doutrina, a cren&ccedil;a, a consola&ccedil;&atilde;o de innumeraveis milh&otilde;es de individuos. / Calculastes j&aacute;mais quanto &eacute; insolente, atroz, diabolico, chegar a um velho, tomar-lhe nas m&atilde;os todas as suas affei&ccedil;&otilde;es, todos os seus habitos de largos annos, todas as esperan&ccedil;as mais queridas, e depeda&ccedil;&aacute;-las e calc&aacute;-las aos p&eacute;s, e dizer-lhe depois: &ndash; &ldquo;Dar-te-hei um bocado de p&atilde;o?&rdquo; Prometter p&atilde;o aos sessenta annos! [&hellip;] Que nome, por&eacute;m, se dar&aacute; aos que nem essa promessa cumpriram?<a href="#35"><sup>35</sup></a><a name="top35"></a>         <p></p> </blockquote>     <p>Nem mesmo a m&iacute;nima promessa de sustento aos religiosos, segundo Herculano, estavam sendo cumpridas. Mas h&aacute;, ainda, para o autor, uma quest&atilde;o que parece ser mais profunda: ele faz uma par&aacute;frase b&iacute;blica (Mt 4,4) para discorrer sobre as pessoas &ndash; neste caso, os membros do clero regular &ndash; necessitarem muito mais do que um simples sustento. H&aacute; a lembran&ccedil;a das mais variadas afei&ccedil;&otilde;es desses anci&atilde;os que est&atilde;o desalojados, como as suas estamenhas, as suas sand&aacute;lias, o crucifixo do orat&oacute;rio, a enxerga onde descansavam, as pr&oacute;prias celas, dentre outros objetos e lugares que lhes eram quotidianos e de estima<a href="#36"><sup>36</sup></a><a name="top36"></a>. Por fim, o autor indaga ao que chama de homens grandes: &ldquo;Porque lhe despeda&ccedil;astes tudo isto? Quanto vos renderam a enxerga, as sandalias, a lagea do sepulchro e o crucifixo?&rdquo;<a href="#37"><sup>37</sup></a><a name="top37"></a>. Para Herculano, o decreto n&atilde;o s&oacute; retirou os bens dos regulares, mas tamb&eacute;m reduziu in&uacute;meras vidas de anci&atilde;os &agrave; simples busca pelo sustento &ndash; que mesmo assim lhes era negado &ndash; devido &agrave; falta de concretiza&ccedil;&atilde;o das medidas aprovadas para minorar as consequ&ecirc;ncias sociais da extin&ccedil;&atilde;o imediata das ordens religiosas masculinas. Por isso, na perspetiva do autor, a promessa de p&atilde;o na velhice era t&atilde;o insolente, perversa e desumana, pois n&atilde;o destru&iacute;a apenas categorias de cl&eacute;rigos, mas trazia, em seu bojo, a condena&ccedil;&atilde;o de muitas vidas j&aacute; vulner&aacute;veis pela idade. </p>     <p>Ainda em &ldquo;Os Egressos&rdquo;, Herculano prop&otilde;e outro relato, n&atilde;o mais fruto da sua imagina&ccedil;&atilde;o, mas narrando o que afirma ter se passado no Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, que pertencia &agrave; Ordem dos C&oacute;negos Regrantes de Santo Agostinho, quando, segundo o autor, se deu o seu esvaziamento no cumprimento do decreto:</p>     <p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>Quando em 1834 se extinguiu o antigo e celebre cenobio de Sancta Cruz de Coimbra, aconteceu ahi um facto que p&oacute;de, at&eacute; certo ponto, dar uma id&eacute;a das primeiras scenas do negro drama que ha oito annos come&ccedil;ou a passar ante os olhos d&rsquo;aquelles que ainda n&atilde;o abnegaram de todo a humanidade e o pudor. Expulsos os cenobitas, e inventariados os bens do mosteiro pelos commissarios d&rsquo;esta obra brutal, quasi por toda parte brutalmente executada, ainda uma cella d&rsquo;aquelle vasto edificio ficava occupada por um dos seus antigos habitadores. Era um velho de oitenta annos, a quem o tropego, o quasi morto dos membros embargavam o caminhar, e que por isso n&atilde;o podia seguir seus irm&atilde;os. Entrando no aposento, encontraram o cenobita deitado no seu catre humilde, em cujo topo pendia o crucifixo que, talvez por sessenta annos, tinha visto a seus p&eacute;s consumir-se na medita&ccedil;&atilde;o, nas preces e na penitencia aquella dilatada vida. Estava s&oacute; o anci&atilde;o, e o silencio que o rodeiava apenas era interrompido pelos gorgeios de uma avesinha, que pulava contente ao sol numa gaiola pendurada da abobada. [&hellip;] / As passadas dos que entravam moveram-no a volver os olhos: [&hellip;] / Disseram-lhe ent&atilde;o que era necessario sa&iacute;r d&rsquo;alli. / &ldquo;Porque? &ndash; perguntou o cenobita. / &ldquo;Porque os frades acabaram: &ndash; replicou o mais eloquente e discreto dos verdugos, como se exprimisse a id&eacute;a mais simples e trivial d&rsquo;este mundo. / &ldquo;Porque os frades&hellip; repetiu em voz baixa o velho, sem concluir<a href="#38"><sup>38</sup></a><a name="top38"></a>.         <p></p> </blockquote>     <p>No trecho, h&aacute; a preocupa&ccedil;&atilde;o do autor em representar os pormenores da cena, como os movimentos corporais do cenobita &ndash; religioso que vive em uma comunidade com outros religiosos &ndash;, como se o pr&oacute;prio escritor tivesse presenciado o epis&oacute;dio. Numa publica&ccedil;&atilde;o de apelo, como &eacute; &ldquo;Os Egressos&rdquo;, esse &eacute; um recurso discursivo que refor&ccedil;a os argumentos do autor, pois demonstra a total vulnerabilidade do octogen&aacute;rio frade, impedido de caminhar, e retrata a grande insensibilidade dos representantes do Estado Liberal &ndash; denominados como <i>verdugos</i>, ou seja, os executores de uma pena. Tal voc&aacute;bulo &eacute; tamb&eacute;m recorrente nas narrativas populares da Paix&atilde;o de Cristo ou dos mart&iacute;rios dos santos cat&oacute;licos para designar os que torturam e matam, relacionando o excerto supratranscrito com a express&atilde;o j&aacute; tamb&eacute;m mencionada: a <i>&uacute;ltima era dos m&aacute;rtires</i>. Portanto, a economia do texto de Herculano &eacute; magistralmente constru&iacute;da com referenciais interiores e exteriores &agrave; obra. A censura aos executores, contudo, vem logo a seguir, nas descri&ccedil;&otilde;es do escritor: </p>     <p>     <blockquote>Um sorriso estupido passou pelas faces estupidas de alguns circunstantes. No gesto espantado do cenobita liam elles a grandeza do esfor&ccedil;o com que associavam o proprio nome &aacute; obra prima do seculo. / E com raz&atilde;o. O triturar assim um cora&ccedil;&atilde;o de oitenta annos era feito que excedia em heroicidade todos os que haviam practicado dous cavalleiros portugueses, que, l&aacute; em baixo na egreja, continuavam a dormir nos seus leitos de pedra um somno de muitos seculos, e que se chamavam Affonso Henriques e Sancho Adefons&iacute;ades. / Os olhos do anci&atilde;o ficaram enxutos. S&oacute; accrescentou: &ndash; Mas para onde hei de eu ir?&rdquo; / &ldquo;Para casa dos vossos parentes: &ndash; acudiu o philosopho. / O cenobita correu a m&atilde;o pela fronte calva, e respondeu: &ndash; J&aacute; n&atilde;o tenho parentes na terra: todos me esperam no c&eacute;u&rdquo;. / &ldquo;Ent&atilde;o ireis para algum amigo.&rdquo; / &ldquo;O unico amigo meu que ainda vive &eacute; aquelle!&rdquo; E apontava para a avesinha. / &ldquo;O frade ir&aacute; pois morar na gaiola do pintasilgo: &ndash; rosnou por entre os dentes um dos algozes, que tinha fama de gracioso. [&hellip;] / Alguem, que estudava ahi perto essa scena de progresso moral, n&atilde;o p&ocirc;de, todavia, continuar os seus graves e terr&iacute;veis estudos. Precisava de ar, de luz, de v&ecirc;r o c&eacute;u. Atravessou ligeiro o longo dormitorio, e desceu a quatro e quatro os degraus das extensas escadarias. As lagrymas rebentavam-lhe como punho. / A&rsquo; portaria de Santa Cruz as primeiras palavras que ouviu foram, que a municipalidade acabava de fazer um calvario no fundo de uma peti&ccedil;&atilde;o, escripta em vascon&ccedil;o por certo doutor affamado, na qual pedia ao governo lhe atirasse aquelle osso do mosteiro de sete seculos, para roer at&eacute; os fundamentos, e construir no sitio d&rsquo;elle, n&atilde;o me lembra ao certo se um espogeiro, se uma sentina. / Era o estudo do progresso artistico ap&oacute;s o estudo do progresso moral.<a href="#39"><sup>39</sup></a><a name="top39"></a>         <p></p> </blockquote>     <p>Nesse excerto, o escritor, muito ir&ocirc;nico, retrata os representantes do pensamento liberal frente a um vulner&aacute;vel frade no decl&iacute;nio da vida. O autor afirma que <i>algu&eacute;m </i>estava presente e n&atilde;o conseguiu assistir &agrave; deplor&aacute;vel cena at&eacute; o fim: a personagem n&atilde;o nominada pode ser o pr&oacute;prio Herculano. Obviamente, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel afirmar com certeza se a cena &eacute; factual e, muito menos, se &eacute; o escritor que participa dela, mas, certamente, cogitar-se testemunha ocular de um facto como esse propicia uma autoridade para discorrer sobre as consequ&ecirc;ncias da extin&ccedil;&atilde;o das ordens religiosas. </p>     <p>H&aacute; tamb&eacute;m, na narrativa, duas outras recorr&ecirc;ncias encontradas em outros escritos do mesmo autor<a href="#40"><sup>40</sup></a><a name="top40"></a>: a quest&atilde;o do chamado <i>fil&oacute;sofo</i> influenciado pelo pensamento iluminista, cuja a&ccedil;&atilde;o &eacute; ironicamente comparada pelo escritor aos feitos dos dois primeiros reis-guerreiros, que pelejaram em batalhas para a forma&ccedil;&atilde;o do reino e est&atilde;o sepultados na igreja do mosteiro, e tamb&eacute;m o caso da n&atilde;o preserva&ccedil;&atilde;o dos patrim&oacute;nios hist&oacute;rico- -arquitet&oacute;nicos portugueses. Herculano &eacute; igualmente muito sagaz ao afirmar que o progresso estava chegando a Portugal, pois j&aacute; havia peti&ccedil;&otilde;es para a demoli&ccedil;&atilde;o do antigo cen&oacute;bio, datado do s&eacute;culo XII, para a constru&ccedil;&atilde;o de um cercado ou de uma latrina em seu lugar. O relato feito pelo autor pode n&atilde;o ser ver&iacute;dico, por&eacute;m parece-nos veross&iacute;mil, pois &ldquo;O complexo e burocr&aacute;tico aparelho do Estado, assente sobre inst&aacute;veis bases decorrentes do ainda sobressaltado per&iacute;odo que se vivia, dificultava sobremaneira o desenvolvimento de uma pol&iacute;tica cont&iacute;nua de defesa do patrim&oacute;nio&rdquo;<a href="#41"><sup>41</sup></a><a name="top41"></a>. Tais refer&ecirc;ncias funcionam, principalmente, para embasar as argumenta&ccedil;&otilde;es do escritor, hesitantes entre os avan&ccedil;os e as preserva&ccedil;&otilde;es a serem feitas em terras portuguesas:</p>     <p>     <blockquote>Quantos d&rsquo;estes factos dolorosos se passaram naquella epocha por todos os angulos de Portugal! Poderia contar-vos mil, e cada um d&rsquo;elles fora uma nova scena de agonia. Os martyres primitivos morriam nos eculeos, nas garras das feras, nos leitos de fogo; n&atilde;o eram, por&eacute;m condemnados a assentar-se em cima das ruinas de todos os seu afectos [&hellip;] / Fizestes uma cousa absurda e impossivel: deixastes na terra cadaveres vivos, e assassinastes os espiritos. / Ao menos que esse cadaveres n&atilde;o sintam traspass&aacute;-los o vento que sibila nas sar&ccedil;as, a chuva que alaga as campinas, o frio que entorpece as plantas e os membros dos animaes. / P&atilde;o para a velhice desgra&ccedil;ada! P&atilde;o para metade dos nossos sabios, dos nossos homens virtuosos, do nosso sacerdocio! P&atilde;o para os que foram victimas das cren&ccedil;as, minhas, vossas, do seculo, e que morrem de fome e de frio! / Cumpri ao menos a vossa brutal promessa. [&hellip;] / Sen&atilde;o, que os pobres monges inclinem resignados a fronte na cruz do seu martyrio, e alevantem uma ora&ccedil;&atilde;o fervorosa ao Senhor para que perdoe aos algozes, que nella os pregaram. E&rsquo; este o exemplo que na terra lhes deixou o Nazareno. / Mas que se lembrem os poderosos do mundo de que a ora&ccedil;&atilde;o de Jesus na hora suprema da agonia foi desattendida do Eterno. E comtudo, Jesus era o seu Christo<a href="#42"><sup>42</sup></a><a name="top42"></a>.         ]]></body>
<body><![CDATA[<p></p> </blockquote>     <p>O autor utiliza-se de uma tem&aacute;tica muito cara ao Catolicismo ao recordar os m&aacute;rtires e ao comparar os religiosos desalojados a eles, com um agravante sobre o clero regular porque, segundo Herculano, os representantes do governo liberal os transformaram em mortos-vivos, ou seja, n&atilde;o se lhes retirou a vida, mas se lhes arrancou o sentido de vida. Conforme abordaremos ainda, algo semelhante est&aacute; relatado em &ldquo;As freiras de Lorv&atilde;o&rdquo;. </p>     <p>Ao solicitar que o governo ao menos cumpra com os seus compromissos para com o clero regular, o autor retoma o Evangelho quando se refere ao perd&atilde;o dado por Cristo crucificado aos que o crucificavam (Lc 23,34) e afirma que esse era o exemplo que os religiosos seguiriam. No entanto, nem por isso deveriam morrer &agrave; m&iacute;ngua, j&aacute; que nem Cristo fora atendido em prece (Lc 22,42). Novamente, Herculano se reporta &agrave; religiosidade de ess&ecirc;ncia, nitidamente muito mais significativa para ele do que a religi&atilde;o dogm&aacute;tica institucional, que se firmou com o passar dos s&eacute;culos. </p>     <p>Pensando acerca do que lemos neste trabalho, estamos diante de uma peti&ccedil;&atilde;o posterior a 1834, data do decreto de esvaziamento das casas religiosas, mas anterior &agrave; pol&eacute;mica de Herculano, em 1850, com os setores do clero, ap&oacute;s a publica&ccedil;&atilde;o do primeiro volume da <i>Hist&oacute;ria de Portugal</i>. Poder&iacute;amos, ent&atilde;o, pensar que a peti&ccedil;&atilde;o pelos monges s&oacute; aconteceu porque o historiador se n&atilde;o tinha ainda envolvido em uma grande pol&eacute;mica religiosa. Contudo, em 1853, Herculano redige a Ant&oacute;nio de Serpa Pimentel uma missiva, tamb&eacute;m coligida em <i>Op&uacute;sculos I: quest&otilde;es p&uacute;blicas</i>, intitulada &ldquo;As freiras de Lorv&atilde;o&rdquo;, em que discute a situa&ccedil;&atilde;o dos religiosos em Portugal, com especial foco dado &agrave; vida mon&aacute;stica feminina. Pimentel j&aacute;, &agrave; &eacute;poca da carta, se destacava com uma carreira pol&iacute;tica e intelectual, al&eacute;m de colaborar com a <i>Revista Universal Lisbonense</i>, para a qual tamb&eacute;m Herculano contribu&iacute;a, dentre outros peri&oacute;dicos. </p>     <p>Por&eacute;m, a preocupa&ccedil;&atilde;o de Herculano em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; vida religiosa feminina &eacute; tamb&eacute;m bastante plural. O historiador relata em <i>Hist&oacute;ria da origem e estabelecimento da inquisi&ccedil;&atilde;o em Portugal</i>, por exemplo, os abusos cometidos, no s&eacute;culo XVI, no Mosteiro de Lorv&atilde;o, pertencente &agrave;s Bernardas, ramo feminino Cisterciense, onde monjas pariam filhos e os criavam, sem pudor algum, nos claustros do mosteiro, tendo, inclusive, a aprova&ccedil;&atilde;o das superioras que, de acordo com o escritor, faziam o mesmo<a href="#43"><sup>43</sup></a><a name="top43"></a>. Resguardando as propor&ccedil;&otilde;es e a dist&acirc;ncia temporal, &eacute; interessante como o mesmo historiador que relata tal evento em Lorv&atilde;o, baseado em muitas pesquisas, dirige uma missiva a Pimentel, seguindo uma linha apelativa, em favor das religiosas ca&iacute;das na mis&eacute;ria, n&atilde;o inocentando os cistercienses de suas dilapida&ccedil;&otilde;es patrimoniais. Ou seja: Herculano n&atilde;o era um mero militante contra as monjas, mas, pelo contr&aacute;rio, sabia ponderar acerca da necessidade humanit&aacute;ria de freiras que nada tinham a ver com as corrup&ccedil;&otilde;es de tempos pregressos.</p>     <p>O autor inicia a missiva relatando as suas pesquisas no Mosteiro de Lorv&atilde;o e, como testemunha ocular, lan&ccedil;a um apelo em favor das monjas:</p>     <p>     <blockquote>Escrevo-lhe do fundo do estreito valle de Lorv&atilde;o, defronte do mosteiro onde repousam as filhas de Sancho I; [&hellip;] penetrei no claustro por ordem da auctoridade ecclesiastica. L&aacute; dentro, nesses corredores humidos e sombrios, vi passar ao p&eacute; de mim muitos vultos, cujas faces eram pallidas, cujos cabellos eram brancos. [&hellip;] Quasi todas essas faces tem-nas empallidecido a fome. Morrem aqui lentamente umas poucas mulheres, fechadas numa tumba de pedra e ferro. [&hellip;] No mosteiro sumptuoso, vasto, alvejante, com um aspecto exterior quasi indicando opulencia, &eacute; que n&atilde;o ha p&atilde;o, mas s&oacute; lagrymas. Lorv&atilde;o &eacute; peior do que um carneiro onde se houvessem mettido vinte esquifes de catalepticos, sellando-se para sempre a lagea da entrada. O cataleptico, fechado no seu caix&atilde;o, ouve, sente, tem a consciencia de que foi sepultado vivo. Nas trevas e na immobilidade, o terror, a desespera&ccedil;&atilde;o, a falta de ar matam-no em breve: a sua agonia &eacute; tremenda, mas n&atilde;o &eacute; longa. Aqui &eacute; outra cousa: aqui v&ecirc;-se, por entre as grades de ferro, a luz do c&eacute;u, a arvore que d&aacute; os fructos, a seara que d&aacute; o p&atilde;o, e tudo isto v&ecirc;-se para se ter mais fome. Todos os dias uma esperan&ccedil;a duvidosa e fugitiva atravessa aquellas grades de envolta com os primeiros raios do sol: todos os dias essa esperan&ccedil;a fica sumida debaixo das trevas que &aacute; tarde se precipitam sobre Lorv&atilde;o das ladeiras do poente. Depois as noites de insomnia; depois o choro; depois, sabe Deus se a blasphemia!<a href="#44"><sup>44</sup></a><a name="top44"></a>         <p></p> </blockquote>     <p>Os relatos se assemelham ao que verificamos em &ldquo;Os Egressos&rdquo;, at&eacute; mesmo na compara&ccedil;&atilde;o do <i>sepulcro de viventes</i> que os mosteiros haviam se tornado depois de 1834. H&aacute;, portanto, uma insist&ecirc;ncia de Herculano de que os liberais n&atilde;o mataram os religiosos, mas, muito pior do que isso, retiraram deles o sentido de viver e, no caso espec&iacute;fico das Bernardas, houve o &ldquo;sepultamento&rdquo; dessas religiosas, que passaram a viver uma longa agonia, a qual, segundo ele, era muito pior e mais demorada do que a de um catal&eacute;ptico encerrado vivo. H&aacute;, no excerto supracitado, a recorr&ecirc;ncia de indica&ccedil;&otilde;es a respeito do decl&iacute;nio do patrim&oacute;nio hist&oacute;rico: o mosteiro sumptuoso que abriga o t&uacute;mulo das infantas Teresa (1175/76?-1250) e Sancha (1180-1229), filhas do rei Sancho I e oficialmente reconhecidas como beatas pela Igreja<a href="#45"><sup>45</sup></a><a name="top45"></a>, igualmente asila algumas monjas privadas dos meios de necessidade b&aacute;sica, como a alimenta&ccedil;&atilde;o. O escritor, assim como em &ldquo;Os Egressos&rdquo;, retoma tamb&eacute;m as intemp&eacute;ries naturais para estribar os seus argumentos em favor das freiras: </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>     <blockquote>Imagine, meu amigo, uma noite de inverno [&hellip;]: imagine dezoito ou vinte mulheres idosas, mettidas entre quatro paredes humidas e regeladas, sem agasalho, sem lume para se aquecerem, sem p&atilde;o para se alimentarem, sem energia na alma, e sem for&ccedil;as no corpo, comparando o passado, sentindo o presente antevendo o futuro. Imagine o vento que ruge, a chuva ou a neve fustigando as poucas vidra&ccedil;as que ainda restam no edificio; [&hellip;] Imagine tudo isto, e sentir&aacute; accender-se-lhe no animo uma indigna&ccedil;&atilde;o reconcentrada e inflexivel. / Ha poucos dias passou-se em Lorv&atilde;o uma scena tremenda. Num accesso de desespera&ccedil;&atilde;o, parte d&rsquo;estas desgra&ccedil;adas queriam tumultuariamente romper a clausura; queriam ir pedir p&atilde;o pelas cercanias. Custou muito cont&ecirc;-las. Tinha-se apoderado d&rsquo;ellas uma grande ambi&ccedil;&atilde;o; aspiravam &aacute; felicidade do mendigo, que p&oacute;de appellar para a compaix&atilde;o humana; que p&oacute;de fazer--se escutar de porta em porta<a href="#46"><sup>46</sup></a><a name="top46"></a>.         <p></p> </blockquote>     <p>Se em &ldquo;Os Egressos&rdquo; a situa&ccedil;&atilde;o do monge beneditino, que ca&iacute;ra na mendic&acirc;ncia, j&aacute; era deplor&aacute;vel, o cen&aacute;rio das monjas em Lorv&atilde;o &eacute; bem pior: elas n&atilde;o podem sair da clausura para esmolar e, por isso, <i>ambicionam</i>, nas palavras de Herculano, a vida de mendigo. Recordemos que, enquanto as casas das ordens regulares masculinas foram esvaziadas no ato do decreto e os bens foram inventariados, nos conventos femininos, as religiosas puderam ficar at&eacute; a &uacute;ltima freira morrer, mas sem receber novi&ccedil;as. O autor, portanto, dedica um olhar diferenciado, mas n&atilde;o menos preocupado, para as duas situa&ccedil;&otilde;es. Contudo, no costumeiro tom cr&iacute;tico e ir&oacute;nico, Herculano n&atilde;o deixa de distribuir farpas aos representantes do governo liberal que, sob a sua pena, estavam alheios a tais acontecimentos: </p>     <p>     <blockquote>Gemidos, brados, prantos, nada d&rsquo;isso chega aos ouvidos dos homens que exercem o poder nesta terra [&hellip;]. Entretanto, se eu falasse com elles, dar-lhes-ia um conselho. Talvez o ouvissem, porque a minha voz &eacute; um pouco mais forte que a das velhas freiras. Era o de enviarem aqui sessenta soldados, formarem as monjas de Lorv&atilde;o em linha no adro da egreja e mandarem-lhes dar tres descargas cerradas. [&hellip;] resolvia-se affirmativamente um problema [&hellip;] / Sim, isto era util, porque era atroz [&hellip;]. Mas n&atilde;o infame, n&atilde;o era covarde; n&atilde;o era o assassinio lento, obscuro, atrai&ccedil;oado, feito com a morda&ccedil;a na bocca das victimas. Corria o sangue durante alguns minutos: n&atilde;o corria o suor da agonia durante annos. Era uma scena de delirio revolucionario; mas n&atilde;o era um capitulo inedito para ajunctar aos annaes do sancto officio. / [&hellip;] Ha um ou dois annos, o governo deu-lhes a esmola de um subsidio: este subsidio, por&eacute;m, cessou. Ignora--se o motivo. Por ventura alguma secretaria de estado precisava de novos estofos nas suas commodas poltronas, ou os felpudos tapetes das salas ministeriaes tinham perdido o brilho das suas c&ocirc;res variegadas, e cumpria renov&aacute;-los. S&atilde;o despezas inevitaveis<a href="#47"><sup>47</sup></a><a name="top47"></a>.         <p></p> </blockquote>     <p>A ironia de Herculano &eacute; percept&iacute;vel quando ele defende o b&aacute;rbaro e r&aacute;pido exterm&iacute;nio das velhas cistercienses: cena que o autor menciona como menos covarde, pois, segundo ele, as monjas idosas definhavam e nada por elas era realizado pelo governo que, insens&iacute;vel, n&atilde;o propiciava, ao menos, o m&iacute;nimo para se manterem com dignidade. O fuzilamento das monjas, nas palavras do autor, poderia ser mais um espet&aacute;culo de horrores a se juntar aos da Inquisi&ccedil;&atilde;o: isto &eacute;, os mesmos liberais que criticavam o Tribunal do Santo Of&iacute;cio, estavam, de alguma maneira, realizando atentados contra a humanidade e as individualidades. Ali&aacute;s, o tom ir&oacute;nico segue quando o escritor sugere quais eram as grandes necessidades do governo: a troca de estofos dos confort&aacute;veis assentos dos gabinetes de alguma Secretaria de Estado ou o renovar dos tapetes dessas salas opulentas. Contudo, em &ldquo;As freiras de Lorv&atilde;o&rdquo;, Herculano n&atilde;o isenta os crimes da Inquisi&ccedil;&atilde;o &ndash; isso est&aacute; presente na pr&oacute;pria compara&ccedil;&atilde;o feita no texto &ndash; e nem deixa de responsabilizar os chamados <i>monges brancos</i>, refer&ecirc;ncia &agrave; colora&ccedil;&atilde;o do h&aacute;bito da Ordem de Cister, que administravam as finan&ccedil;as do mosteiro das Bernardas, como verificaremos no trecho que segue:</p>     <p>     <blockquote>Os bens acumulados naquelle cenobio durante dez seculos tinham-o tornado demasiadamente rico. [&hellip;] Como mosteiro cisterciense, Lorv&atilde;o dependia dos monges brancos. Cem freiras de que se compunha a communidade, e que viviam opulentamente, gastavam muito, mas n&atilde;o gastavam tudo. Cinco frades bernardos, aposentados num palacete contiguo ao mosteiro, consumiam o resto. Eram elles que administravam as grossas rendas da casa. Os banquetes e as festas succediam-se ali sem interrup&ccedil;&atilde;o. Os hospedes eram continuos. O manto da religi&atilde;o cobria todos os excessos de opulencia. [&hellip;] / At&eacute; aqui nada ha extranho. Mas os frades entenderam que deveriam comer a renda e o capital das cenobitas laurbanenses. [&hellip;] Veio o anno de 1833. Desappareceram-se os dizimos, principal rendimento do mosteiro. Os direitos senhoriaes desappareceram tambem. Os frades, enxotados do seu feudo de Lorv&atilde;o, sairam d&rsquo;alli, mandando primeiramente derribar todas as arvores que povoavam aquellas encostas e vendendo as madeiras. [&hellip;] Passado, por&eacute;m, apenas um anno, o fisco arrebatou-lhes quasi tudo pela divida [&hellip;] e os credores particulares levaram-les depois os demais bens<a href="#48"><sup>48</sup></a><a name="top48"></a>.         ]]></body>
<body><![CDATA[<p></p> </blockquote>     <p>O autor relata o que lhe parece reprov&aacute;vel: os ditos <i>bons tempos</i> que se passaram e a opul&ecirc;ncia das casas religiosas, bem como o esbanjar dos bens realizado pelos respons&aacute;veis pelo Mosteiro de Lorv&atilde;o e que levaram as freiras <i>laurbanenses</i> &ndash; adjetivo referente &agrave; localidade &ndash; &agrave; mis&eacute;ria ap&oacute;s o fim dos rendimentos. &Eacute; poss&iacute;vel entrever ainda as refer&ecirc;ncias de Herculano aos acontecimentos oriundos da implementa&ccedil;&atilde;o do sistema liberal em Portugal: a extin&ccedil;&atilde;o dos d&iacute;zimos e dos direitos senhoriais. Entretanto, o autor se demonstra muito mais preocupado com a situa&ccedil;&atilde;o lastim&aacute;vel das monjas do que com o modo como as religiosas viviam no passado, pois a situa&ccedil;&atilde;o delas parece bem mais urgente do que os erros anteriores e, por isso, prossegue a missiva a Pimentel apelando para a imagina&ccedil;&atilde;o do seu interlocutor com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; oposi&ccedil;&atilde;o existente entre o conforto dos homens do governo e a pen&uacute;ria das monjas:</p>     <p>     <blockquote>Alta noite, durante o inverno, vinte mulheres curvadas pela inedia e pela velhice p&oacute;dem dirigir-se ao coro, calcando quasi descal&ccedil;as as lageas humidas e frias d&rsquo;estes claustros solitarios; mas as botas envernizadas de suas excellencias devem ranger mollemente sobre um pavimento suave, e as suas cabe&ccedil;as, afogueiadas pelas profundas cogita&ccedil;&otilde;es, reclinarem-se em fofos espaldares. [&hellip;] Quando a ultima freira de Lorv&atilde;o expirar de miseria, ou debaixo de alguma d&rsquo;essas paredes interiores do mosteiro que amea&ccedil;am desabar, os ministros soffrer&atilde;o com animo paternal que m&atilde;os piedosas v&atilde;o lan&ccedil;ar o cadaver da pobre monja no ossuario de sete seculos, onde repousam as cinzas de milhares de suas irm&atilde;s. Depois vender&atilde;o o edificio e a cerca a algum d&rsquo;estes judeus do seculo XIX, a que chamamos agiotas, se algum houver a quem passe pelo espirito ter uma casa de campo em Lorv&atilde;o. [&hellip;] / Mas porque o importuno com esta larga historia? N&atilde;o &eacute;, meu amigo, s&oacute; para desabafo: &eacute; para lhe pedir um favor. Supponha que viu, como eu vi, as faces enrugadas e pallidas das monjas de Lorv&atilde;o, por onde as lagrymas se penduravam quatro a quatro [&hellip;]: Que fazia? Com o seu cora&ccedil;&atilde;o, com os seus principios, e redactor de um jornal que tem largas sympatias, sentia-se grande e forte pondo a sua penna eloquente ao servi&ccedil;o da desgra&ccedil;a e da fraqueza. Fa&ccedil;a-o, meu amigo; fa&ccedil;a-o! Pe&ccedil;a esmola para as freiras de Lorv&atilde;o, que foram ricas e felizes na mocidade, e que na velhice tem fome. A velhice &eacute; sancta! [&hellip;] Ao governo n&atilde;o pe&ccedil;a nem diga nada; deixe esses homens ao seu destino; deixe-os estofar poltronas e dormir nellas. Deus e os vindouros h&atilde;o julgar-nos todos<a href="#49"><sup>49</sup></a><a name="top49"></a>.         <p></p> </blockquote>     <p>O excerto se inicia com uma compara&ccedil;&atilde;o entre a car&ecirc;ncia das monjas e o conforto dos administradores p&uacute;blicos: enquanto as religiosas est&atilde;o quase descal&ccedil;as ao enfrentar o frio, os pol&iacute;ticos cal&ccedil;am faustosas botas e se reclinam em almofadados espaldares. Compara&ccedil;&otilde;es semelhantes, em Herculano, encontraremos em &ldquo;O P&aacute;roco da Aldeia (1825)&rdquo;: enquanto o fil&oacute;sofo se banqueteia e embriaga, o velho padre prior sai, enfrentando as intemp&eacute;ries da madrugada, a fim de levar o conforto sacramental a um moribundo<a href="#50"><sup>50</sup></a><a name="top50"></a>. Por isso, &eacute; dif&iacute;cil pensar em Herculano como um reacion&aacute;rio clericalista ou, ao contr&aacute;rio, entrever em sua produ&ccedil;&atilde;o uma defesa da aniquila&ccedil;&atilde;o total de setores eclesi&aacute;sticos. </p>     <p>Percebe-se tamb&eacute;m em &ldquo;As freiras de Lorv&atilde;o&rdquo; o recorrente tema da decad&ecirc;ncia dos patrim&oacute;nios hist&oacute;rico- -arquitet&oacute;nicos de Portugal e o com&eacute;rcio de tais pr&eacute;dios para pessoas que n&atilde;o tinham interesses em preserv&aacute;--los, a quem o escritor denomina como <i>agiotas ou judeus do s&eacute;culo XIX</i>: uma men&ccedil;&atilde;o que remonta &agrave; pr&aacute;tica da usura e da especula&ccedil;&atilde;o financeira, das quais os judeus eram acusados. A peti&ccedil;&atilde;o fica evidente no trecho supratranscrito, j&aacute; que Herculano afirma textualmente n&atilde;o ser mero desabafo e pede o aux&iacute;lio ao seu interlocutor. Em outros trechos da missiva a Pimentel, o autor tamb&eacute;m discorre sobre a incompet&ecirc;ncia administrativa do governo, pois, havia mosteiros que recebiam fartos subs&iacute;dios, enquanto outros ficavam &agrave; m&iacute;ngua<a href="#51"><sup>51</sup></a><a name="top51"></a>. Ademais, com termos acentuados, o escritor revela uma poss&iacute;vel fraude que as bernardas poderiam ter sofrido, tanto dos cistercienses quanto do governo, pois os representantes p&uacute;blicos deveriam executar as d&iacute;vidas apenas com os monges administradores e n&atilde;o, novamente, com as freiras:</p>     <p>     <blockquote>Os frades de Alcoba&ccedil;a roubaram 25:000$000 r&eacute;is a Lorv&atilde;o. Eram respons&aacute;veis por elles. [&hellip;] As decimas de Lorv&atilde;o deviam ir buscar-se aos bens de Alcoba&ccedil;a, logo que se provasse que Alcoba&ccedil;a espoliara fraudulentamente Lorv&atilde;o. Averiguou-se o facto? N&atilde;o. O fisco executou as freiras, e recebeu duas vezes a mesma divida<a href="#52"><sup>52</sup></a><a name="top52"></a>.         <p></p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A den&uacute;ncia de Herculano na correspond&ecirc;ncia a Pimentel vem ainda calcada sobre informa&ccedil;&otilde;es graves contra o governo liberal: os valores duas vezes reclamados e as cifras nunca restitu&iacute;das &agrave;s monjas que padeciam. Portanto, a argumenta&ccedil;&atilde;o do autor n&atilde;o &eacute; mero apelo ao emocional, pois, al&eacute;m de descrever como testemunha ocular a desgra&ccedil;a em Lorv&atilde;o, o escritor referencia as causas da mis&eacute;ria com dados, buscando provar o caso. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>CONCLUS&Atilde;O</b></p>     <p>Comemoramos, neste ano de 2020, o bicenten&aacute;rio da Revolu&ccedil;&atilde;o Liberal em Portugal: estamos j&aacute; afastados temporalmente desse acontecimento, o que nem sempre nos d&aacute;, &agrave; primeira vista, a propor&ccedil;&atilde;o da sua complexidade. O sistema liberal n&atilde;o foi instalado de maneira r&aacute;pida e, ainda hoje, somos tribut&aacute;rios de muitas das transforma&ccedil;&otilde;es que ele gerou, como, por exemplo, as tentativas de laiciza&ccedil;&atilde;o do Estado, mesmo dentro de uma cultura desbordante de Catolicismo institucional e popular.</p>     <p>Por outro lado, estamos j&aacute; distantes o suficiente para mirar esses movimentos revolucion&aacute;rios e averiguar como influem em nossa estrutura social: passaram-se 200 anos e a partir do Vintismo se desdobraram outros conflitos e outras institucionaliza&ccedil;&otilde;es, das quais muitos homens e mulheres foram part&iacute;cipes, reclamando pelos seus direitos individuais e conclamando para o que, em seu per&iacute;odo, acreditavam ser o melhor, mesmo com erros que foram cometidos, num processo que se compreende extremamente humano. </p>     <p>O que demonstramos neste estudo &eacute; que um dos maiores vultos portugueses do s&eacute;culo XIX, Alexandre Herculano, esteve atento ao que se passava: aderindo embora ao ide&aacute;rio liberal, ponderou, apelou, denunciou e apontou para caminhos poss&iacute;veis sempre que considerou haver injusti&ccedil;as e erros. Estudar, portanto, a complexidade do pensamento de Herculano, infelizmente nem sempre recordado na atual conjuntura, &eacute; pensar a complexidade da sociedade oitocentista em Portugal e &eacute; tamb&eacute;m um exerc&iacute;cio para refletir sobre a atividade humana, que nem sempre se equaciona em fronteiras t&atilde;o definidas. </p>     <p>Os apelos de um liberal anticlerical por frades e freiras ca&iacute;dos em mis&eacute;ria n&atilde;o s&atilde;o contradit&oacute;rios com os posicionamentos em outras produ&ccedil;&otilde;es: ao contr&aacute;rio, refor&ccedil;am a coragem de Herculano em chamar a aten&ccedil;&atilde;o contra os atentados &agrave; dignidade e &agrave; individualidade de seres humanos, num per&iacute;odo de intensa milit&acirc;ncia contra os membros da clerezia. As den&uacute;ncias do escritor, como tivemos a oportunidade de averiguar, n&atilde;o foram realizadas de qualquer forma: Herculano se esmerou na lavra est&eacute;tica de seus textos, com frequentes narrativas exemplificadoras, que apelam aos sentidos em &ldquo;Os Egressos&rdquo; e em &ldquo;As freiras de Lorv&atilde;o&rdquo;, mas tamb&eacute;m com informa&ccedil;&otilde;es verific&aacute;veis que invocam a racionalidade dos seus interlocutores.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></p> <b>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>FONTES</p>     <p>IMPRESSAS</p> </b>     <p><i>B&iacute;blia de Jerusal&eacute;m</i>. S&atilde;o Paulo: Paulus, 2011. </p>     <p>HERCULANO, Alexandre &ndash; <i>Cartas ao muito reverendo em Christo padre Francisco Recreio, Solemnia Verba: </i>Lisboa: Typ. de Castro&Irm&atilde;o, 1850.</p>     <p>HERCULANO, Alexandre &ndash; <i>Composi&ccedil;&otilde;es v&aacute;rias</i>. Lisboa: Bertrand, [19--].</p>     <p>HERCULANO, Alexandre &ndash; <i>Considera&ccedil;&otilde;es pacificas sobre o opusculo eu e o clero: carta ao redactor do periodico: A Na&ccedil;&atilde;o</i>. Lisboa: Imprensa Nacional, 1860.</p>     <p>HERCULANO, Alexandre &ndash; <i>Eu e o clero: carta ao Em.&ordm; Cardeal-Patriarcha.</i> Lisboa: Imprensa Nacional, 1850.</p>     <p>HERCULANO, Alexandre &ndash; <i>Eurico, o presb&iacute;tero</i>. Lisboa: Bertrand, [19--].</p>     <p>HERCULANO, Alexandre &ndash; <i>Hist&oacute;ria da origem e estabelecimento da inquisi&ccedil;&atilde;o em Portugal</i>. Lisboa: Imprensa Nacional, 1859.</p>     <p>HERCULANO, Alexandre &ndash; <i>Lendas e narrativas</i>. Lisboa: Bertrand, [19--].</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>HERCULANO, Alexandre &ndash; <i>Op&uacute;sculos I: quest&otilde;es p&uacute;blicas</i>. Lisboa: Bertrand, [19--].</p>     <p>HERCULANO, Alexandre &ndash; <i>Poesias</i>. Lisboa: Bertrand, [19--].</p>     <p>MISSALE ROMANUM. Tours: Typis Mame: Sanctae Sedis Apostolicae et Sacrae Rituum Congregationis Typographorum, 1935.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ESTUDOS</b></p>     <p>ABREU, Lu&iacute;s Machado de &ndash; <i>Ensaios anticlericais</i>. Lisboa: Roma Editora, 2004.</p>     <p>BUESCU, Ana Isabel &ndash; Alexandre Herculano e a pol&eacute;mica de Ourique: anticlericalismo e iconoclastia. In MARINHO, Maria de F&aacute;tima; AMARAL, Lu&iacute;s Carlos; TAVARES, Pedro Vilas-Boas, coord. &ndash; <i>Revisitando Herculano no bicenten&aacute;rio do seu nascimento.</i> Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2013. p. 37-57. </p>     <p>CLEMENTE, Manuel &ndash; Alexandre Herculano e o clero ou o clero de Alexandre Herculano no 2&ordm; centen&aacute;rio do nascimento do escritor. In MARINHO, Maria de F&aacute;tima; AMARAL, Lu&iacute;s Carlos; TAVARES, Pedro Vilas-Boas, coord. &ndash; <i>Revisitando Herculano no bicenten&aacute;rio do seu nascimento.</i> Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2013. p. 107-114. </p>     <p>CLEMENTE, Manuel &ndash; Igreja e sociedade portuguesa do Liberalismo &agrave; Rep&uacute;blica. <i>Revista Didaskalia</i>. Lisboa: Universidade Cat&oacute;lica Portuguesa. N&ordm; XXIV (1994), p. 119-129.</p>     <p>CRUZ, Carlos Eduardo da &ndash; Do ex&iacute;lio ao ex&iacute;lio: Alexandre Herculano no Liberalismo portugu&ecirc;s. <i>Revista Garrafa</i>. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro. V. 8 N&ordm; 22 (2010).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>HOBSBAWM, Eric &ndash; <i>A era das revolu&ccedil;&otilde;es (1789-1848).</i> Rio de Janeiro: Paz&Terra, 2015.</p>     <p>LOUREN&Ccedil;O, Eduardo &ndash; <i>Labirinto da saudade: psican&aacute;lise m&iacute;tica do destino portugu&ecirc;s</i>. Lisboa: Publica&ccedil;&otilde;es Dom Quixote, 1992.</p>     <p>MATTOSO, Jos&eacute;; SOUSA, Armindo de &ndash; Dois s&eacute;culos de vicissitudes pol&iacute;ticas (1096-1325). In MATTOSO, Jos&eacute;, coord. &ndash; <i>Hist&oacute;ria de Portugal.</i> Lisboa: Editorial Estampa, 1993. vol. 2 &ndash; A monarquia feudal (1096-1480).</p>     <p>MENDES, Eduardo Soczek &ndash; <i>Alexandre Herculano, entre o presb&iacute;tero e o monge: o (anti)clericalismo e as personagens religiosas em Monasticon (Eurico, o presb&iacute;tero e O monge de Cister).</i> Curitiba: [s.n.], 2017. Disserta&ccedil;&atilde;o de mestrado em Letras, apresentada &agrave; Universidade Federal do Paran&aacute;. </p>     <p>NEM&Eacute;SIO, Vitorino &ndash; <i>A mocidade de Herculano (1810-1832)</i>. Amadora: Bertrand, 1979. vol. 2.</p>     <p>RODRIGUES, Rute Massano &ndash; <i>Entre a salvaguarda e a destrui&ccedil;&atilde;o: a extin&ccedil;&atilde;o das ordens religiosas em Portugal e as suas consequ&ecirc;ncias para o patrim&oacute;nio art&iacute;stico dos conventos (1834-1868)</i>. Lisboa: [s.n.], 2017. Tese de doutoramento em Hist&oacute;ria, apresentada &agrave; Universidade de Lisboa.</p>     <p>VARGUES, Isabel Nobre; TORGAL, Lu&iacute;s Reis &ndash; Da revolu&ccedil;&atilde;o &agrave; contra-revolu&ccedil;&atilde;o: vintismo, cartismo, absolutismo: o ex&iacute;lio pol&iacute;tico. In MATTOSO, Jos&eacute;, dir. &ndash; <i>Hist&oacute;ria de Portugal.</i> Lisboa: Editorial Estampa, 1993. vol. 5 &ndash; O Liberalismo (1807-1890).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Submiss&atilde;o/submission: 30/06/2020 </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Aceita&ccedil;&atilde;o/approval: 18/08/2020 </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>NOTAS</b></p>     <p><a href="#top1"><sup>1</sup></a><a name="1"></a> CRUZ, Carlos Eduardo da &ndash; Do ex&iacute;lio ao ex&iacute;lio: Alexandre Herculano no Liberalismo portugu&ecirc;s. <i>Revista Garrafa</i>. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro. V. 8 N&ordm; 22 (2010), p. 1. Optamos nas transcri&ccedil;&otilde;es textuais por manter a grafia conforme as edi&ccedil;&otilde;es que consult&aacute;mos. </p>     <p><a href="#top2"><sup>2</sup></a><a name="2"></a> LOUREN&Ccedil;O, Eduardo &ndash; <i>Labirinto da saudade: psican&aacute;lise m&iacute;tica do destino portugu&ecirc;s</i>. Lisboa: Publica&ccedil;&otilde;es Dom Quixote, 1992. p. 85. </p>     <p><a href="#top3"><sup>3</sup></a><a name="3"></a> HOBSBAWM, Eric &ndash; <i>A era das revolu&ccedil;&otilde;es (1789-1848).</i> Rio de Janeiro: Paz&Terra, 2015. p. 358. </p>     <p><a href="#top4"><sup>4</sup></a><a name="4"></a> RODRIGUES, Rute Massano &ndash; <i>Entre a salvaguarda e a destrui&ccedil;&atilde;o: a extin&ccedil;&atilde;o das ordens religiosas em Portugal e as suas consequ&ecirc;ncias para o patrim&oacute;nio art&iacute;stico dos conventos (1834-1868)</i>. Lisboa: [s.n.], 2017. Tese de doutoramento em Hist&oacute;ria, apresentada &agrave; Universidade de Lisboa. p. 25. </p>     <p><a href="#top5"><sup>5</sup></a><a name="5"></a> <i>Idem</i>, p. 25. </p>     <p><a href="#top6"><sup>6</sup></a><a name="6"></a> CLEMENTE, Manuel &ndash; Alexandre Herculano e o clero ou o clero de Alexandre Herculano no 2&ordm; centen&aacute;rio do nascimento do escritor. In MARINHO, Maria de F&aacute;tima; AMARAL, Lu&iacute;s Carlos; TAVARES, Pedro Vilas-Boas, coord. &ndash; <i>Revisitando Herculano no bicenten&aacute;rio do seu nascimento.</i> Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2013. p. 107. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#top7"><sup>7</sup></a><a name="7"></a> VARGUES, Isabel Nobre; TORGAL, Lu&iacute;s Reis &ndash; Da revolu&ccedil;&atilde;o &agrave; contra-revolu&ccedil;&atilde;o: vintismo, cartismo, absolutismo: o ex&iacute;lio pol&iacute;tico. In MATTOSO, Jos&eacute;, dir. &ndash; Hist&oacute;ria de Portugal. Lisboa: Editorial Estampa, 1993. vol. 5 &ndash; O Liberalismo (1807-1890). p. 75-76.</p>     <p><a href="#top8"><sup>8</sup></a><a name="8"></a> NEM&Eacute;SIO, Vitorino &ndash; <i>A mocidade de Herculano (1810-1832)</i>. Amadora: Bertrand, 1979. vol. 2, p. 77. </p>     <p><a href="#top9"><sup>9</sup></a><a name="9"></a> HERCULANO, Alexandre &ndash; <i>Composi&ccedil;&otilde;es v&aacute;rias</i>. Lisboa: Bertrand, [19--]. p. 175-241. </p>     <p><a href="#top10"><sup>10</sup></a><a name="10"></a> Uma das principais reac&ccedil;&otilde;es cat&oacute;lica, no per&iacute;odo de que tratamos, foi o Ultramontanismo: &ldquo;o termo se refere a um movimento que, em suma, tentou, ap&oacute;s a laiciza&ccedil;&atilde;o promovida pelas ideias Liberais e pela Revolu&ccedil;&atilde;o Francesa, retomar o poder papal como refer&ecirc;ncia na Igreja em mat&eacute;ria dogm&aacute;tica, disciplinar e de f&eacute;. A express&atilde;o <i>ultramontano </i>&eacute; uma alus&atilde;o &agrave; Roma que, na perspectiva do norte da Europa, est&aacute; para al&eacute;m dos montes &ndash; os Alpes&rdquo; Cf. MENDES, Eduardo Soczek &ndash; <i>Alexandre Herculano, entre o presb&iacute;tero e o monge: o (anti)clericalismo e as personagens religiosas em Monasticon (Eurico, o presb&iacute;tero e O monge de Cister).</i>Curitiba: [s.n.], 2017. Disserta&ccedil;&atilde;o de mestrado em Letras, apresentada &agrave; Universidade Federal do Paran&aacute;. p. 24. </p>     <p><a href="#top11"><sup>11</sup></a><a name="11"></a> RODRIGUES, Rute Massano &ndash; <i>Op. cit.</i>, p. 63. </p>     <p><a href="#top12"><sup>12</sup></a><a name="12"></a> ABREU, Lu&iacute;s Machado de &ndash; <i>Ensaios anticlericais</i>. Lisboa: Roma Editora, 2004. p. 35. </p>     <p><a href="#top13"><sup>13</sup></a><a name="13"></a> <i>Idem</i>, p. 22. </p>     <p><a href="#top14"><sup>14</sup></a><a name="14"></a> <i>Idem</i>, p. 13. </p>     <p><a href="#top15"><sup>15</sup></a><a name="15"></a> De acordo com CRUZ, Carlos Eduardo da &ndash; Do ex&iacute;lio ao ex&iacute;lio: Alexandre Herculano no Liberalismo portugu&ecirc;s. <i>Revista Garrafa</i>. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro. V. 8 N&ordm; 22 (2010), p. 5. &ldquo;Herculano fora um dos &lsquo;Volunt&aacute;rios da Rainha&rsquo; no regimento que tomou o Porto e fora dispensado por D. Pedro em fevereiro de 1833, para trabalhar de bibliotec&aacute;rio na Nova Biblioteca P&uacute;blica do Porto&rdquo;. </p>     <p><a href="#top16"><sup>16</sup></a><a name="16"></a> RODRIGUES, Rute Massano &ndash; <i>Op. cit</i>., p. 25.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#top17"><sup>17</sup></a><a name="17"></a> <i>Idem</i>, p. 42. </p>     <p><a href="#top18"><sup>18</sup></a><a name="18"></a> CRUZ, Carlos Eduardo da &ndash; <i>Op. cit.</i>, p. 2. </p>     <p><a href="#top19"><sup>19</sup></a><a name="19"></a> <i>Idem</i>, p. 5. </p>     <p><a href="#top20"><sup>20</sup></a><a name="20"></a> CLEMENTE, Manuel &ndash; Igreja e sociedade portuguesa do Liberalismo &agrave; Rep&uacute;blica. <i>Revista Didaskalia</i>. Lisboa: Universidade Cat&oacute;lica Portuguesa. N&ordm; XXIV (1994), p. 119. </p>     <p><a href="#top21"><sup>21</sup></a><a name="21"></a> <i>Ibidem</i>. </p>     <p><a href="#top22"><sup>22</sup></a><a name="22"></a> <i>Idem</i>, p. 125. </p>     <p><a href="#top23"><sup>23</sup></a><a name="23"></a> Segundo CRUZ, Carlos Eduardo da &ndash; Do ex&iacute;lio ao ex&iacute;lio: Alexandre Herculano no Liberalismo portugu&ecirc;s. <i>Revista Garrafa</i>. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro. V. 8 N&ordm; 22 (2010), p. 21. Herculano &ldquo;comprou uma quinta em Vale de Lobos em 1859, e mudou-se definitivamente para l&aacute; em 1866, onde veio a falecer. L&aacute; em Santar&eacute;m, ele tentou afastar-se da vida p&uacute;blica, escrevendo menos, dedicando-se [&hellip;] a revisar sua obra para publica&ccedil;&atilde;o em volumes&rdquo;.</p>     <p><a href="#top24"><sup>24</sup></a><a name="24"></a> ABREU, Lu&iacute;s Machado de &ndash; <i>Ensaios anticlericais</i>. Lisboa: Roma Editora, 2004. Assim sintetiza as missivas de Alexandre Herculano e a pol&eacute;mica do autor com o clero: &ldquo;O ano de 1850 viu rebentar, com consider&aacute;vel fragor, a pol&eacute;mica entre a Igreja e Alexandre Herculano. Na sua origem est&atilde;o os resultados da investiga&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica a que Herculano se vinha dedicando [&hellip;]. Publica, em 1850, <i>Eu e o clero: carta ao Em&ordm; Cardeal-Patriarca</i>. Perante as reac&ccedil;&otilde;es que n&atilde;o se fizeram esperar, Herculano publicar&aacute; ainda, nesse mesmo ano sobre a mesma mat&eacute;ria, <i>Cartas ao muito reverendo em Christo padre Francisco Recreio, Solemnia Verba, e Considera&ccedil;&otilde;es pacificas sobre o opusculo eu e o clero: carta ao redactor do periodico: A Na&ccedil;&atilde;o</i> (p. 42). Para al&eacute;m das cartas, em 1854, o historiador inicia a publica&ccedil;&atilde;o de <i>Hist&oacute;ria da origem e estabelecimento da inquisi&ccedil;&atilde;o em Portugal</i>, como esp&eacute;cie de contesta&ccedil;&atilde;o ao clero. </p>     <p><a href="#top25"><sup>25</sup></a><a name="25"></a> Jos&eacute; Mattoso e Armindo de Sousa, em Dois s&eacute;culos de vicissitudes pol&iacute;ticas (1096-1325). In MATTOSO, Jos&eacute;, coord. &ndash; <i>Hist&oacute;ria de Portugal.</i> Lisboa: Editorial Estampa, 1993. vol. 2 &ndash; A monarquia feudal (1096-1480), referem da seguinte maneira a constru&ccedil;&atilde;o m&iacute;tica de Ourique como elemento fundacional de Portugal e da dinastia lusitana: &ldquo;A coincid&ecirc;ncia da data da batalha com o dia de S. Tiago, patrono dos crist&atilde;os em luta com os Mouros, acentua o simbolismo da admir&aacute;vel vit&oacute;ria [&hellip;]. / O certo &eacute; que a import&acirc;ncia atribu&iacute;da a Ourique n&atilde;o cessou de crescer desde o momento da batalha, e que se foram tecendo em torno dela uma s&eacute;rie de relatos maravilhosos, destinados a conferir-lhe um significado simb&oacute;lico. Esta propens&atilde;o para mitificar o acontecimento resulta, sem d&uacute;vida, de se pretender lig&aacute;-lo &agrave; funda&ccedil;&atilde;o da nacionalidade, por se associar &agrave; aclama&ccedil;&atilde;o de Afonso Henriques como rei. [&hellip;] A associa&ccedil;&atilde;o dos dois factos veio, portanto, a suscitar a necessidadede imaginar uma interven&ccedil;&atilde;o divina que demonstrasse o seu sentido transcendente e que sublimasse a fun&ccedil;&atilde;o de Afonso Henriques como enviado de Deus para esmagar os inimigos da f&eacute;.&rdquo; (p. 70). N&atilde;o era com Herculano, por&eacute;m, a primeira vez que o mito de Ourique fora questionado. Conforme prop&otilde;e Ana Isabel Buescu em Alexandre Herculano e a pol&eacute;mica de Ourique: anticlericalismo e iconoclastia. In MARINHO, Maria de F&aacute;tima; AMARAL, Lu&iacute;s Carlos; TAVARES, Pedro Vilas-Boas, coord. &ndash; <i>Revisitando Herculano no bicenten&aacute;rio do seu nascimento.</i> Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2013. p. 37-57. &ldquo;No s&eacute;culo XVIII encontramos, &eacute; certo, a posi&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica de um Lu&iacute;s Ant&oacute;nio Verney, que no <i>Verdadeiro m&eacute;todo de estudar</i>, publicado em 1746, em que o autor p&otilde;e em causa a veracidade da apari&ccedil;&atilde;o e a pertin&ecirc;ncia da tradi&ccedil;&atilde;o de Ourique, assim como casos, embora raros, em que &eacute; poss&iacute;vel entrever as reservas que o epis&oacute;dio suscitava, para l&aacute; de sua legitima&ccedil;&atilde;o oficial. Por exemplo, a <i>Verdade das historias por quest&otilde;es problematicas</i> (1701) da autoria de Lu&iacute;s Nunes Tinoco, contador do Tribunal dos Contos do Reino, obra manuscrita de car&aacute;cter sincr&eacute;tico que inventaria e discorre sobre mais de cem quest&otilde;es objecto de controv&eacute;rsia entre v&aacute;rios autores, inclui entre elas a apari&ccedil;&atilde;o de Cristo a Afonso Henriques.&rdquo; (p. 50-51).</p>     <p><a href="#top26"><sup>26</sup></a><a name="26"></a>LOUREN&Ccedil;O, Eduardo &ndash; <i>Op. cit.</i>, p. 24. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#top27"><sup>27</sup></a><a name="27"></a> <i>Idem</i>, p. 82-83. </p>     <p><a href="#top28"><sup>28</sup></a><a name="28"></a> HERCULANO, Alexandre &ndash; <i>Eu e o clero: carta ao Em&ordm; Cardeal-Patriarca</i> Lisboa: Imprensa Nacional, 1850. p. 18-19. </p>     <p><a href="#top29"><sup>29</sup></a><a name="29"></a> HERCULANO, Alexandre &ndash; <i>Eurico, o presb&iacute;tero</i>. Lisboa: Bertrand, [19--]. p. VI. </p>     <p><a href="#top30"><sup>30</sup></a><a name="30"></a> HERCULANO, Alexandre &ndash; <i>Poesias</i>. Lisboa: Bertrand, [19--]. p. 189-204. </p>     <p><a href="#top31"><sup>31</sup></a><a name="31"></a> HERCULANO, Alexandre &ndash; <i>Op&uacute;sculos I: quest&otilde;es p&uacute;blicas</i>. Lisboa: Bertrand, [19--]. p. 133-135. </p>     <p><a href="#top32"><sup>32</sup></a><a name="32"></a> <i>Idem</i>, p. 135-139. </p>     <p><a href="#top33"><sup>33</sup></a><a name="33"></a> Pio V (1504-1572), antes de ser Papa, foi um religioso da Ordem dos Pregadores (Dominicanos) e empreendeu uma reforma lit&uacute;rgica, padronizando o Rito Romano na Igreja Latina, durante o per&iacute;odo da Contrarreforma (s&eacute;c. XVI). &Agrave; p&aacute;gina 211 do livro do rito &ndash; <i>Missale Romanum &ndash; da Missa de Pio V</i> ou <i>Missa Tridentina</i> (rito amplamente vigente na Igreja at&eacute; a revis&atilde;o realizada pelo Conc&iacute;lio Vaticano II, de 1962 &agrave; 1965), encontramos o referido trecho do Salmo em Latim. (MISSALE ROMANUM, 1935). </p>     <p><a href="#top34"><sup>34</sup></a><a name="34"></a> HERCULANO, Alexandre &ndash; <i>Op&uacute;sculos I: quest&otilde;es p&uacute;blicas</i>. Lisboa: Bertrand, [19--]. p. 139-141. </p>     <p><a href="#top35"><sup>35</sup></a><a name="35"></a> <i>Idem</i>, p. 142-143. </p>     <p><a href="#top36"><sup>36</sup></a><a name="36"></a> <i>Idem</i>, p. 143. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#top37"><sup>37</sup></a><a name="37"></a> <i>Ibidem</i>. </p>     <p><a href="#top38"><sup>38</sup></a><a name="38"></a> <i>Idem</i>, p. 145-146. </p>     <p><a href="#top39"><sup>39</sup></a><a name="39"></a> <i>Idem</i>, p. 146-148. </p>     <p><a href="#top40"><sup>40</sup></a><a name="40"></a> Referimo-nos, a t&iacute;tulo de curiosidade, ao pref&aacute;cio &agrave; <i>Hist&oacute;ria da origem e estabelecimento da inquisi&ccedil;&atilde;o em Portugal</i>, &agrave; narrativa &ldquo;O p&aacute;roco da aldeia (1825)&rdquo;, bem como ao texto &ldquo;Do christianismo&rdquo;.</p>     <p><a href="#top41"><sup>41</sup></a><a name="41"></a>&lt;/> RODRIGUES, Rute Massano &ndash; <i>Op. cit.</i>, p. 26. </p>     <p><a href="#top42"><sup>42</sup></a><a name="42"></a> HERCULANO, Alexandre &ndash; <i>Op&uacute;sculos I: quest&otilde;es p&uacute;blicas</i>. Lisboa: Bertrand, [19--]. p. 148-149.</p>     <p><a href="#top43"><sup>43</sup></a><a name="43"></a> HERCULANO, Alexandre &ndash; <i>Hist&oacute;ria da origem e estabelecimento da inquisi&ccedil;&atilde;o em Portugal</i>. 2&ordf; ed. Lisboa: Imprensa Nacional, 1859. p. 37-38. </p>     <p><a href="#top44"><sup>44</sup></a><a name="44"></a> HERCULANO, Alexandre &ndash; <i>Op&uacute;sculos I: quest&otilde;es p&uacute;blicas</i>. Lisboa: Bertrand, [19--]. p. 191-193.</p>     <p><a href="#top45"><sup>45</sup></a><a name="45"></a> &Eacute; bastante interessante a breve refer&ecirc;ncia que Herculano faz &agrave;s filhas de D. Sancho I, que &ldquo;repousam&rdquo; no Mosteiro de Lorv&atilde;o. No entanto, n&atilde;o parece que seja uma alus&atilde;o ing&ecirc;nua, pois as duas infantas foram muito representativas, por exemplo, como benfeitoras dos mosteiros de Santa Maria de Celas (Coimbra), Santa Maria de Lorv&atilde;o (Penacova), al&eacute;m da terceira irm&atilde;, Mafalda (1195?1196?-1256), que se estabeleceu e foi sepultada no Mosteiro de Arouca. Todas as tr&ecirc;s, ao fim da vida, passaram a viver em comunidades mon&aacute;sticas. Ora, o autor, ao comentar a presen&ccedil;a dos restos mortais de duas delas em Lorv&atilde;o, entusiastas da vida religiosa, tamb&eacute;m parece refor&ccedil;ar a sua peti&ccedil;&atilde;o em nome da situa&ccedil;&atilde;o deplor&aacute;vel das cistercienses, que se abrigam sob o mesmo pr&eacute;dio. </p>     <p><a href="#top46"><sup>46</sup></a><a name="46"></a> HERCULANO, Alexandre &ndash; <i>Op&uacute;sculos I: quest&otilde;es p&uacute;blicas</i>. Lisboa: Bertrand, [19--]. p. 193-194. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#top47"><sup>47</sup></a><a name="47"></a> <i>Idem</i>, p. 194-195 e p. 197. </p>     <p><a href="#top48"><sup>48</sup></a><a name="48"></a> <i>Idem</i>, p. 195-197. </p>     <p><a href="#top49"><sup>49</sup></a><a name="49"></a> <i>Idem</i>, p. 197-198 e p. 200-201. </p>     <p><a href="#top50"><sup>50</sup></a><a name="50"></a> HERCULANO, Alexandre &ndash; <i>Lendas e narrativas</i>. Lisboa: Bertrand,[19--]. p. 135-143. </p>     <p><a href="#top51"><sup>51</sup></a><a name="51"></a> HERCULANO, Alexandre &ndash; <i>Op&uacute;sculos I: quest&otilde;es p&uacute;blicas.</i> Lisboa: Bertrand,[19--]. p. 199. </p>     <p><a href="#top52"><sup>52</sup></a><a name="52"></a> <i>Idem,</i> p. 199-200. </p>      ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[ABREU]]></surname>
<given-names><![CDATA[Luís Machado de]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Ensaios anticlericais]]></source>
<year>2004</year>
<publisher-loc><![CDATA[Lisboa ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Roma Editora]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B2">
<nlm-citation citation-type="">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[BUESCU]]></surname>
<given-names><![CDATA[Ana Isabel]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Alexandre Herculano e a polémica de Ourique: anticlericalismo e iconoclastia]]></article-title>
<person-group person-group-type="editor">
<name>
<surname><![CDATA[MARINHO]]></surname>
<given-names><![CDATA[Maria de Fátima]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[AMARAL]]></surname>
<given-names><![CDATA[Luís Carlos]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[TAVARES]]></surname>
<given-names><![CDATA[Pedro Vilas-Boas]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[]]></source>
<year></year>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B3">
<nlm-citation citation-type="">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[CLEMENTE]]></surname>
<given-names><![CDATA[Manuel]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Alexandre Herculano e o clero ou o clero de Alexandre Herculano no 2º centenário do nascimento do escritor]]></article-title>
<person-group person-group-type="editor">
<name>
<surname><![CDATA[MARINHO]]></surname>
<given-names><![CDATA[Maria de Fátima]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[AMARAL]]></surname>
<given-names><![CDATA[Luís Carlos]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[TAVARES]]></surname>
<given-names><![CDATA[Pedro Vilas-Boas]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[]]></source>
<year></year>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B4">
<nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[CLEMENTE]]></surname>
<given-names><![CDATA[Manuel]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Igreja e sociedade portuguesa do Liberalismo à República]]></article-title>
<source><![CDATA[Revista Didaskalia]]></source>
<year>1994</year>
<volume>XXIV</volume>
<page-range>119-129</page-range><publisher-loc><![CDATA[Lisboa ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Universidade Católica Portuguesa]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B5">
<nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[CRUZ]]></surname>
<given-names><![CDATA[Carlos Eduardo da]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Do exílio ao exílio: Alexandre Herculano no Liberalismo português]]></article-title>
<source><![CDATA[Revista Garrafa]]></source>
<year>2010</year>
<volume>8</volume>
<numero>22</numero>
<issue>22</issue>
<publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Universidade Federal do Rio de Janeiro]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B6">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[HOBSBAWM]]></surname>
<given-names><![CDATA[Eric]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[A era das revoluções (1789-1848)]]></source>
<year>2015</year>
<publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Paz&Terra]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B7">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[LOURENÇO]]></surname>
<given-names><![CDATA[Eduardo]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Labirinto da saudade: psicanálise mítica do destino português]]></source>
<year>1992</year>
<publisher-loc><![CDATA[Lisboa ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Publicações Dom Quixote]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B8">
<nlm-citation citation-type="">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[MATTOSO]]></surname>
<given-names><![CDATA[José]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[SOUSA]]></surname>
<given-names><![CDATA[Armindo de]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Dois séculos de vicissitudes políticas (1096-1325)]]></article-title>
<person-group person-group-type="editor">
<name>
<surname><![CDATA[MATTOSO]]></surname>
<given-names><![CDATA[José]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[]]></source>
<year></year>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B9">
<nlm-citation citation-type="">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[MENDES]]></surname>
<given-names><![CDATA[Eduardo Soczek]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Alexandre Herculano, entre o presbítero e o monge: o (anti)clericalismo e as personagens religiosas em Monasticon (Eurico, o presbítero e O monge de Cister)]]></source>
<year>2017</year>
<publisher-loc><![CDATA[Curitiba ]]></publisher-loc>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B10">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[NEMÉSIO]]></surname>
<given-names><![CDATA[Vitorino]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[A mocidade de Herculano (1810-1832)]]></source>
<year>1979</year>
<volume>2</volume>
<publisher-loc><![CDATA[Amadora ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Bertrand]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B11">
<nlm-citation citation-type="">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[RODRIGUES]]></surname>
<given-names><![CDATA[Rute Massano]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Entre a salvaguarda e a destruição: a extinção das ordens religiosas em Portugal e as suas consequências para o património artístico dos conventos (1834-1868)]]></source>
<year>2017</year>
<publisher-loc><![CDATA[Lisboa ]]></publisher-loc>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B12">
<nlm-citation citation-type="">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[VARGUES]]></surname>
<given-names><![CDATA[Isabel Nobre]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[TORGAL]]></surname>
<given-names><![CDATA[Luís Reis]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Da revolução à contra-revolução: vintismo, cartismo, absolutismo: o exílio político]]></article-title>
<person-group person-group-type="editor">
<name>
<surname><![CDATA[MATTOSO]]></surname>
<given-names><![CDATA[José]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[]]></source>
<year></year>
</nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
