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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A evolução e democratização da moda moderna: de Frederik Worth à fast-fashion de Karl Lagerfeld]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article examines how the haute couture associated with fashion evolved from the initial creation of Frederik Worth to Karl Lagerfeld. The main idea is to see how the manifestations of the desire to display himself are grounded on differentiation strategies that are always positioned themselves as an anti-fashion critic of previous fashions. In particular, it will be analyzed three moments in the process of democratization of fashion: the chic haute couture created by Coco Chanel in opposition to Paul Poiret conspicuous and ostentatious fashion, the Yves Saint Laurent strategy that indiferentiates gender, and the fast-fashion strategy developed by Karl Lagerfeld in his collection for H & M. From these three cases, and based on theories Thornstein Veblen and George Simmel, it will be presented a theoretical model that allows us to understand the overall dynamics of fashion change.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>CORPOS, IDENTIDADE, MODA, SUSTENTATIBILIDADE E MERCADO</b></p>     <p><b>A evolu&ccedil;&atilde;o e democratiza&ccedil;&atilde;o da moda moderna: de Frederik Worth &agrave; fast-fashion de Karl Lagerfeld</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>The evolution and democratization of modern fashion: from Frederick Worth to Karl Lagerfeld&rsquo;s fast fashion</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Ant&oacute;nio Machuco Rosa*</b>    <br>     <p>*Departamento de Jornalismo e Ci&ecirc;ncias da Comunica&ccedil;&atilde;o, Faculdade de Letras, Universidade do Porto, Portugal.</p>     <p><a href="mailto:machuco.antonio@gmail.com">machuco.antonio@gmail.com</a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO</b></p>     <p>Este artigo analisa a forma como a alta-costura associada &agrave; moda evoluiu desde as cria&ccedil;&otilde;es iniciais de Frederik Worth at&eacute; Karl Lagerfeld. A ideia guia consiste em ver como as formas de exibi&ccedil;&atilde;o do desejo de si mesmo assentaram em estrat&eacute;gias dediferencia&ccedil;&atilde;o que se posicionaram sempre como uma anti-moda cr&iacute;tica das modas anteriores. Em particular ser&atilde;o analisados tr&ecirc;s momentos do processo de democratiza&ccedil;&atilde;o da moda: a alta-costura chic criada por Coco Chanel em oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; moda consp&iacute;cua e ostentadora de Paul Poiret, a estrat&eacute;gia indiferenciadora de g&eacute;neros de Yves Saint Laurent, e a estrat&eacute;gia da moda fast-fashion levada a cabo pela colec&ccedil;&atilde;o que Karl Lagerfeld desenvolveu para a H&amp;M. A partir desses tr&ecirc;s casos, e com base nas teorias de Thornstein Veblen e George Simmel, ser&aacute; apresentado um modelo te&oacute;rico geral que permite compreender a din&acirc;mica das mudan&ccedil;as de moda.</p>     <p><b>Palavras-chave</b>: Moda, Coco Chanel, Yves Saint Laurent, Karl Lagerfeld, George Simmel.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>This article examines how the haute couture associated with fashion evolved from the initial creation of Frederik Worth to Karl Lagerfeld. The main idea is to see how the manifestations of the desire to display himself are grounded on differentiation strategies that are always positioned themselves as an anti-fashion critic of previous fashions. In particular, it will be analyzed three moments in the process of democratization of fashion: the chic haute couture created by Coco Chanel in opposition to Paul Poiret conspicuous and ostentatious fashion, the Yves Saint Laurent strategy that indiferentiates gender, and the fast-fashion strategy developed by Karl Lagerfeld in his collection for H &amp; M. From these three cases, and based on theories Thornstein Veblen and George Simmel, it will be presented a theoretical model that allows us to understand the overall dynamics of fashion change.</p>     <p><b>Keywords</b>: Fashion, Coco Chanel, Yves Saint Laurent, Karl Lagerfeld, George Simmel.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>1. Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     <p>&Eacute; hoje geralmente aceite que a evolu&ccedil;&atilde;o da moda durante o s&eacute;culo XX pode ser descrita como umprocesso de &ldquo;democratiza&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Esse foi o ponto de vista estabelecido por Gilles Lipovestky, que entendeu essa democratiza&ccedil;&atilde;o como uma de entre as v&aacute;rias manifesta&ccedil;&otilde;es do avan&ccedil;o do princ&iacute;pio da individualidade (Lipovetsky, 1987). Nessa medida, o soci&oacute;logo franc&ecirc;s estava a retomar algumas das intui&ccedil;&otilde;es mais profundas de Alexis de Tocqueville (Tocqueville, 1961 [1840]), as quais tamb&eacute;m ser&atilde;o um dos guias da an&aacute;lise da moda contempor&acirc;nea que ser&aacute; feita neste artigo. Para al&eacute;m de ilustrar aquilo que Tocqueville designava pelo princ&iacute;pio da &ldquo;igualdade de condi&ccedil;&otilde;es&rdquo;, mostrar-se-&aacute; que a evolu&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica das mudan&ccedil;as de moda &eacute; orientada por um princ&iacute;pio de diferencia&ccedil;&atilde;o traduzido na realidade da anti-moda enquanto exibi&ccedil;&atilde;o de uma forma de exist&ecirc;ncia superior. A anti-moda apresenta-se inicialmente como a ades&atilde;o a um princ&iacute;pio de confortofuncional que implicitamente critica o artificialismo ostentador da moda anterior. Estas ideias, expostas pelaprimeira vez por autores como Thorstein Veblen (Veblen, 1994 [1899]) e George Simmel (Simmel, 1904), ser&atilde;o tamb&eacute;m guias para a an&aacute;lise hist&oacute;rica que ser&aacute; levada a cabo neste artigo. Elas permitir&atilde;o articular moda chic com o princ&iacute;pio de funcionalidade e conforto.</p>     <p>A primeira sec&ccedil;&atilde;o do artigo aborda o per&iacute;odo que vai de Frederick Worth a Coco Chanel, mostrando-se como a funcionalidade presente no estilo <i>chic</i> de Chanel era uma forma de alcan&ccedil;ar uma forma superior de distin&ccedil;&atilde;o. A segunda sec&ccedil;&atilde;o aborda o trabalho de Yves Saint Laurent, momento em que uma realdemocratiza&ccedil;&atilde;o da moda come&ccedil;a efectivamente a ter lugar. A terceira sec&ccedil;&atilde;o analisa o conceito de <i>fast-fashion</i>tal como ele foi proposto pela colec&ccedil;&atilde;o que Karl Lagerfeld desenvolveu para a H&amp;M, mostrando-se como ocostureiro alem&atilde;o acentua radicalmente a tend&ecirc;ncia para a indiferencia&ccedil;&atilde;o e desinstitucionaliza&ccedil;&atilde;o da moda que j&aacute; vinha das primeiras colec&ccedil;&otilde;es de pronto-a-vestir de luxo. Finalmente, a conclus&atilde;o apresentar&aacute; de forma mais sistem&aacute;tica o quadro te&oacute;rico que, com base em Tocqueville, Veblen e Simmel, orientou a an&aacute;lise dopercurso hist&oacute;rico que conduziu da moda institucionalizada da alta-costura at&eacute; &agrave; moda indiferenciada da <i>fast-fashion</i>.</p>     <p><b>2. O nascimento da alta-costura</b></p>     <p>Foi por meados do s&eacute;culo XIX que nasceu, em sentido moderno, um mercado espec&iacute;fico de bens de luxo associados &agrave; alta-costura. O vestu&aacute;rio come&ccedil;ou ent&atilde;o a deixar de marcar a exibi&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica das ordem ou corpos estratificados t&iacute;picos das sociedades pr&eacute;-modernas do Antigo Regime para passar a exprimir a mobilidade social caracterizada pelo alastrar da actividade econ&oacute;mica de mercado e correspondente ascens&atilde;o da burguesia. O vestu&aacute;rio de luxo vai passar a estar ligado ao sucesso nosneg&oacute;cios comerciais e &agrave; ideia de meritocracia que lhe est&aacute; associada (Perrot, 1998). O nome que pode representar a muta&ccedil;&atilde;o social na altura em curso &eacute; o de Frederick Worth (1825-1895).<sup><a href="#1" name="top1">[1]</a></sup> Ele &eacute;geralmente considerado o fundador da alta-costura. Representou tamb&eacute;m a autonomiza&ccedil;&atilde;o do costureiro. De facto, nas sociedades de corte do Antigo Regime os costureiros eram uns de entre os m&uacute;ltiplos indiv&iacute;duos cuja condi&ccedil;&atilde;o colocava na depend&ecirc;ncia do senhor de corte que era o seu patrono. &Eacute; uma situa&ccedil;&atilde;o que se vai inverter com Worth. Em vez de ser o costureiro a deslocar-se juntodo nobre para executar a pe&ccedil;a cuja natureza e forma lhe era expressamente indicada, come&ccedil;a a existirum n&uacute;mero crescente de indiv&iacute;duos que passam a deslocar-se ao ateli&ecirc; do costureiro, sendo este que decide o que &eacute; pr&oacute;prio a cada um exibir (Sicard, 2010). Enquanto, tradicionalmente, o costureiro era convocado para se deslocar &agrave;s resid&ecirc;ncias nobres, a nova clientela passa a dirigir-se aos ateli&ecirc;s dos costureiros de <i>haute couture</i>, aos lugares parisienses da Place Vend&ocirc;me e da Rue de Saint Honor&eacute; que ainda hoje s&atilde;o p&oacute;los de atrac&ccedil;&atilde;o mundial (Grumbach, 2008). </p>     <p>Tratou-se da express&atilde;o de uma din&acirc;mica social que se traduziu na invers&atilde;o das posi&ccedil;&otilde;es:durante o s&eacute;culo XIX, o costureiro de <i>haute couture</i> passa da posi&ccedil;&atilde;o de inferioridade para a desuperioridade, enquanto o senhor passa a ser cliente. Quem era cliente/servidor passa a senhor e quem era senhor passa a cliente. Um epis&oacute;dio emblem&aacute;tico dessa altera&ccedil;&atilde;o de posi&ccedil;&otilde;es foi quandoWorth conseguiu persuadir a Imperadora Eug&eacute;nia, mulher de Napole&atilde;o III, a vestir aquilo que eledeterminava. Pode ser afirmado que, no que respeita ao vestu&aacute;rio de <i>haute couture</i>, Worth passa a ser Rei. Ele torna-se o criador, o artista original cuja fama atrai um n&uacute;mero crescente de clientesoriundos das classes mais proeminentes, nobres e burgueses mundanos, todos cada vez mais indistintamente misturados. Ele foi o primeiro a utilizar manequins humanos, a exibir desfiles de modelos perante as suas clientes, as quais podiam realmente simular qual a apar&ecirc;ncia perante os outros a que podiam aspirar (cf. Kent, 2003). Foi uma inova&ccedil;&atilde;o capital que mostra como a imita&ccedil;&atilde;oenvolvida rela&ccedil;&atilde;o modelo/c&oacute;pia se tornou um tra&ccedil;o estruturante da moda moderna. A moda associada ao luxo deixa de ser algo que, como sucedia nas sociedades do Antigo Regime, um indiv&iacute;duo estavadeterminado a exibir &ndash; algo baseado numa norma exterior aos indiv&iacute;duos &ndash; para passar a ser a c&oacute;pia de um outro indiv&iacute;duo que aparece como um modelo.<sup><a href="#2" name="top2">[2]</a></sup> Como se ver&aacute;, esse &eacute; um processo hist&oacute;rico em que, potencialmente, um n&uacute;mero cada vez mais amplo de indiv&iacute;duos poder&atilde;o aspirar a, copiando o manequim, tornarem-se eles pr&oacute;prios modelos para outros. Essa &eacute; a rela&ccedil;&atilde;o literalmente presente no desfile de um manequim perante a clientela: cada um torna-se uma esp&eacute;cie de manequim ao copiar um manequim. Mas existe, no entanto, ainda alguma exterioridade: o selo final da autenticidade do modelo &eacute; fornecido pelo costureiro de <i>haute couture</i>, a come&ccedil;ar pelo pr&oacute;prio Worth, o qual passou a assinar as suas cria&ccedil;&otilde;es, assim originando o conceito de marca de luxo. Esse papel do artista de <i>haute couture</i> enquanto certificado de qualidade n&atilde;o deixou de se acentuar at&eacute; hoje, estandoainda presente, como tamb&eacute;m mais abaixo se ver&aacute; a prop&oacute;sito das modas <i>fast-fashion</i>.</p>     <p>O progresso da moda ao longo do s&eacute;culo XIX exprimiu uma nova din&acirc;mica. Numa &eacute;poca na quala condi&ccedil;&atilde;o social se tornou m&oacute;vel, a posse e exibi&ccedil;&atilde;o de objectos de luxo <i>&agrave; la mode</i> passou a ser umaforma de manifestar uma nova condi&ccedil;&atilde;o social. Esta deixou de preexistir ao vestu&aacute;rio que a selava eque a exibia perante os outros. Passou a <i>ser</i> a posse desses objectos que, em si mesma, permite adquiriruma nova condi&ccedil;&atilde;o social, um novo ser que tanto podia designar a riqueza burguesa quanto uma exist&ecirc;ncia eminentemente espiritual. A moda moderna passou a ser uma aspira&ccedil;&atilde;o; ela deixa de ser a exibi&ccedil;&atilde;o de um ser pr&eacute;-existente para representar a captura de um ser que denota uma nova condi&ccedil;&atilde;o social. Essa condi&ccedil;&atilde;o consiste em que, potencialmente, qualquer indiv&iacute;duo passa a ser o representantede uma mobilidade que o distingue. Como refere Jean-Noel Kapferer, &ldquo;a moda associada ao vestu&aacute;rio de luxo surgiu, durante o s&eacute;culo XIX, como uma forma de adquirir uma identidade superior que a distingue da dos outros&rdquo; (Kapferer; Bastien, 2009: 78).</p>     <p>A moda prosseguiu a sua traject&oacute;ria hist&oacute;rica com o aparecimento, nomeadamente a seguir &agrave; primeira grande guerra mundial, das diversas casas (<i>Maisons</i>) francesas, como Lanvin, Chanel e Patou, todas baseadas em Paris. Em certo sentido, a <i>haute couture</i> representou a institucionaliza&ccedil;&atilde;o damoda. As <i>Maisons</i> passaram a lan&ccedil;ar colec&ccedil;&otilde;es exactamente duas vezes por ano, situando assim dentro de um quadro institucionalizado a moda enquanto mudan&ccedil;a de moda. Simultaneamente, as casas de alta-costura parisienses posicionaram-se enquanto marcas associadas ao luxo, sempre visto como uma das formas de aceder &agrave; distin&ccedil;&atilde;o pessoal e &agrave; admira&ccedil;&atilde;o por parte dos outros. Em geral, elasdesligaram-se cada vez mais das formas de ostenta&ccedil;&atilde;o tradicionais, passando progressivamente a propor modelos exibindo linhas simples e s&oacute;brias, assentando em blusas, cal&ccedil;as e pul&ocirc;veresdestitu&iacute;dos dos elaborados ornamentos tradicionais, e nos quais o conforto tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; descurado(cf. Lipovetsky, 1987). Como resumia um dos grandes costureiros da &eacute;poca, Lucien Lelong, &ldquo;a est&eacute;tica do per&iacute;odo entre as duas grandes guerras foi caracterizada (&hellip;); (1), pela busca cong&eacute;nita da simplicidade; (2), pelo regresso &agrave;s linhas naturais do corpo&rdquo; (Rouff, 1946: 118).</p>     <p>Na moda institu&iacute;da pela alta-costura dos princ&iacute;pios do s&eacute;culo XX encontra-se presente a associa&ccedil;&atilde;o entre distin&ccedil;&atilde;o e conforto ou funcionalidade. Essa associa&ccedil;&atilde;o j&aacute; provinha do s&eacute;culo XIX.Surgiu, nesse s&eacute;culo, como que uma dupla tend&ecirc;ncia na moda. Por um lado, a moda associada ao luxotradicional enquanto exibi&ccedil;&atilde;o de objectos sup&eacute;rfluos destinados a distinguir num modo ostentador e, por outro, um modo de vestir cada vez mais associado &agrave; vida privada, ao conforto e ao bem-estar(Perrot, 1998). Essa busca do conforto funcional n&atilde;o se op&otilde;e &agrave; moda enquanto manifesta&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica de distin&ccedil;&atilde;o e superioridade material ou espiritual, pelo contr&aacute;rio. Existe uma afinidade natural entre conforto e distin&ccedil;&atilde;o, que se tornou clara com a estrat&eacute;gia da casa Chanel ao ligar vestu&aacute;rio s&oacute;brio, discreto, c&oacute;modo mas ao mesmo tempo <i>chic</i>.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A revolu&ccedil;&atilde;o na moda criada por Gabrielle &lsquo;Coco&rsquo; Chanel, nomeadamente durante a d&eacute;cada de 20 do s&eacute;culo passado, consistiu no corte definitivo com as formas ostensivamente consp&iacute;cuas do luxo e da moda mais tradicional. A conspicuidade ainda aparecia no costureiro contempor&acirc;neo de Chanel, Paul Poiret, com os seus vestidos opulentos, sofisticados, largos, compridos, trabalhados at&eacute; aos p&eacute;s e elaborados a partir de mat&eacute;rias-primas de luxo como o cetim (cf. <a href="#f1">figura 1</a>). Pelo contr&aacute;rio, Coco Chanel recorreu frequentemente a materiais pouco nobres como o j&eacute;rsey, buscando acima de tudo a simplicidade do corte que facilitava a agilidade dos movimentos do corpo. Por exemplo, uma das suas mais famosas cria&ccedil;&otilde;es foi o pequeno vestido negro, com as suas linhas angulares completamente diferentes das formas tradicionais de simultaneamente real&ccedil;ar e dissimular as linhas naturais do corpo feminino. O pr&oacute;prio uso do negro constituiu uma revolu&ccedil;&atilde;o numa tradi&ccedil;&atilde;o de alta-costura em que apenas cores mais vivas eram usualmente admitidas. O pequeno vestido negro foi um s&iacute;mbolo m&aacute;ximo do movimento da chamada <i>gar&ccedil;onette</i>, movimento de emancipa&ccedil;&atilde;o feminina que, nas m&atilde;os de uma costureira como Chanel, significou um momento de uma tend&ecirc;ncia fundamental: a tend&ecirc;ncia para uma androginia que marca uma indiferencia&ccedil;&atilde;o entre os g&eacute;neros masculino e feminino. Comosublinhou Edmonde Charles-Roux, &ldquo;a adop&ccedil;&atilde;o do vestu&aacute;rio masculino para uso feminino foi o princ&iacute;pio fundamental da arte de Chanel&rdquo; (Charles-Roux, 1974: 78). Esse foi talvez o primeiro momento da indiferencia&ccedil;&atilde;o dos g&eacute;neros cuja import&acirc;ncia tamb&eacute;m veremos no trabalho de Yves Saint Laurent. &Eacute; a masculiniza&ccedil;&atilde;o do feminino que se encontra presente nos in&uacute;meros modelos de inspira&ccedil;&atilde;o desportiva concebidos por Coco Chanel. Esse princ&iacute;pio estava associado ao objectivo de &ldquo;demonstrar que o pr&aacute;tico e de uso di&aacute;rio pode ser fonte de um alto estilo, o qual estava at&eacute; ent&atilde;o invariavelmente assente no luxuoso e ex&oacute;tico&rdquo; (Chaney, 2011: 107). Portanto, conforto funcional e estilo distintivo n&atilde;o se op&otilde;em, e provavelmente ter&aacute; sido na associa&ccedil;&atilde;o entre esses dois aspectos que decorreu muita da import&acirc;ncia hist&oacute;rica do trabalho de Coco Chanel. Essa associa&ccedil;&atilde;o tornou-se um dos tra&ccedil;os dominantes da evolu&ccedil;&atilde;o da moda durante o s&eacute;culo XX.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a name="f1"></a> <img src="/img/revistas/csoc/v24/v24a03f1.jpg"></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&Eacute; necess&aacute;rio compreender melhor por que raz&atilde;o o conforto funcional pode estar ao servi&ccedil;o do estilo como marca de uma identidade pessoal distinta. Como se referiu, a busca da simplicidade por parte de Chanel consistiu na recusa do opulento, elaborado e ornamentado vestu&aacute;rio caracter&iacute;stico da alta-costura mais tradicional. O que os seus clientes procuravam era &ldquo;uma qualidade vis&iacute;vel de simplicidade e <i>chic</i> sem paralelo&rdquo; (Chaney, 2011: 125). Ao usar materiais pouco nobres, ao fazer com que os seus modelos se assemelhassem a pessoas comuns, Chanel conseguia obter uma forma m&aacute;xima de distin&ccedil;&atilde;o, precisamente a da n&atilde;o distin&ccedil;&atilde;o: as suas cria&ccedil;&otilde;es op&otilde;em-se ao vestu&aacute;rio ostensiva e conspicuamente exibicionista que caracterizava a moda precedente. Tal como os d&acirc;ndis do s&eacute;culo XIX,cuja estrat&eacute;gia Chanel replicou (Vinken, 2005: 22), o uso de modelos simples, mas nos quais o olhar treinado imediatamente reconhece status e estilo, &eacute; uma forma de ostensivamente n&atilde;o se distinguir mas que &eacute; na realidade uma forma de m&aacute;xima distin&ccedil;&atilde;o, chamando a aten&ccedil;&atilde;o de todos por, ostensivamente, n&atilde;o chamar a aten&ccedil;&atilde;o. Com Chanel, a distin&ccedil;&atilde;o passa a ser a distin&ccedil;&atilde;o chic que j&aacute; n&atilde;o &eacute;a dos modelos luxuosos e ostentadores de Paul Poiret, mas que &eacute; obtida atrav&eacute;s da aparenta simplicidade e funcionalidade. Dito de forma mais exacta, &eacute; a contraposi&ccedil;&atilde;o entre os modelos deChanel e de Paul Poiret que leva a considerar estes &uacute;ltimos como consp&iacute;cuos e ostentadores. Os modelos de Chanel eram <i>diferentes</i>, distintos no duplo sentido da palavra: a sua distin&ccedil;&atilde;o residia precisamente em, atrav&eacute;s da sua simplicidade, se distinguirem da moda tradicional. A moda inaugurada por Chanel &ldquo;era um estilo que ridicularizava a moda&rdquo;, uma moda niilista que era uma anti-moda (Wilson, 1985: 41), inaugurando assim o movimento moderno da moda como recusa da anterior moda. Presente pela primeira vez de forma clara em Coco Chanel, esse movimento ir&aacute; sempre consistirem que aquilo que est&aacute; destinado a se tornar uma nova moda se apresentar inicialmente como uma anti-moda. Essa estrat&eacute;gia passa usualmente pelo realce que &eacute; dado &agrave; funcionalidade e conforto do vestu&aacute;rio, valorizando a autonomia individual da mulher, em detrimento da moda anterior que, face &agrave;simplicidade e naturalidade da nova proposta de moda, surge finalmente como artificial e inaut&ecirc;ntica.Como se voltar&aacute; a ver mais abaixo, essa estrat&eacute;gia da anti-moda, enquanto den&uacute;ncia da artificialidade da moda, &eacute; uma nova e superior forma de distin&ccedil;&atilde;o chic criadora de novas modas.</p>     <p>A exibi&ccedil;&atilde;o de si atrav&eacute;s de uma moda chic dissimulada na exibi&ccedil;&atilde;o do conforto funcional de um vestu&aacute;rio naturalmente adaptado ao corpo tornou-se um tra&ccedil;o dominante das <i>Maisons</i> dos anos vinte. Tal como Chanel, tamb&eacute;m a casa Patou lan&ccedil;ou colec&ccedil;&otilde;es de inspira&ccedil;&atilde;o desportiva, <i>sportswear</i>, queigualmente se tornaram sin&oacute;nimo de distin&ccedil;&atilde;o chic (cf. <a href="#f2">figura 2</a>). A associa&ccedil;&atilde;o entre distin&ccedil;&atilde;o efuncionalidade foi sublinhada pelo pr&oacute;prio Jean Patou:</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a name="f2"></a> <img src="/img/revistas/csoc/v24/v24a03f2.jpg"></p>     
<p>&nbsp;</p>     <blockquote>&ldquo;Os meus modelos est&atilde;o concebidos para a pr&aacute;tica do desporto. Procuro que sejam t&atilde;o agrad&aacute;veis de ser olhados quanto serem usados, e que permitam uma grande liberdade de movimentos.&rdquo; ( Lipovetsky, 1987: 86)</blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Era um vestu&aacute;rio funcionalmente confort&aacute;vel mas que desse modo distinguia. Com avan&ccedil;ar do s&eacute;culo, e num movimento que chegou at&eacute; hoje, o vestu&aacute;rio simples, confort&aacute;vel mas que tamb&eacute;m confere uma identidade individual distinta acabou por se tornar ele pr&oacute;prio uma moda generalizada.</p>     <p>As <i>Maisons</i> criadas nas primeiras d&eacute;cadas do s&eacute;culo XX tamb&eacute;m iniciaram o processo que <i>grosso modo</i> pode ser designado por &ldquo;democratiza&ccedil;&atilde;o do luxo&rdquo; ou &ldquo;democratiza&ccedil;&atilde;o da moda&rdquo;(Lipovtsky, 1987). A revista norte-americana <i>Vogue</i> chegou a comparar uma pe&ccedil;a como o pequeno vestido negro de Chanel com a nova empresa de produ&ccedil;&atilde;o em massa de autom&oacute;veis, a Ford, e Marcel Rouff escreveu mais tarde que a democratiza&ccedil;&atilde;o do vestu&aacute;rio feminino seguiu-se &agrave; democratiza&ccedil;&atilde;o do autom&oacute;vel (Rouff, 1946). A compara&ccedil;&atilde;o n&atilde;o possu&iacute;a qualquer exagero, pois tal como os autom&oacute;veispassaram a ser uma aspira&ccedil;&atilde;o de um n&uacute;mero crescente de indiv&iacute;duos, tamb&eacute;m o estilo Chanel deixou de ser totalmente inacess&iacute;vel, passando a tamb&eacute;m ser uma aspira&ccedil;&atilde;o, mesmo que nunca plenamente concretizada, de um n&uacute;mero crescente de mulheres. A nova realidade social foi bem sintetizada por Paul Poiret na fase final da sua carreira:</p>     <blockquote>&ldquo;Deveriam existir tantos modelos quantas as mulheres.&rdquo; (Poiret, 1974 [1930], pp. 109)</blockquote>     <p>A frase revela o individualismo subjacente &agrave; mulher que se exibe atrav&eacute;s do vestu&aacute;rio de alta-costura que acontece estar na moda. Sobretudo, ela revela igualmente uma tens&atilde;o pr&oacute;pria das sociedades modernas. Qualquer mulher dever&aacute; poder aceder &agrave; posi&ccedil;&atilde;o de modelo, de modelo para outras mulheres que a copiar&atilde;o e que, atrav&eacute;s do vestu&aacute;rio, querer&atilde;o ser o que ela &eacute;, ou seja, adquirir o seu ser. No entanto, trata-se de uma situa&ccedil;&atilde;o logicamente imposs&iacute;vel de realizar, pois para que existam modelos t&ecirc;m que existir seguidores desses modelos, e portanto nem todas as mulheres poder&atilde;o ser, todas elas e simultaneamente, modelos. O horizonte para que a frase de Poiret aponta &eacute; aquele em que, potencialmente, e ao longo do tempo, qualquer mulher possa aceder &agrave; posi&ccedil;&atilde;o de modelo, e assim ser objecto da imita&ccedil;&atilde;o admirativa por parte de outras mulheres. Mas visto a posi&ccedil;&atilde;o de modelo apenas se encontrar acess&iacute;vel <i>em pot&ecirc;ncia</i>, e portanto jamais se encontrar plenamente realizada, o ideal apontado por Poiret nunca ser&aacute; plenamente atingido. A consequ&ecirc;ncia desse desvio entre o ideal e o real &eacute; um movimento incessante de novas modas causado pela frustra&ccedil;&atilde;o de jamais se possuir completamente o ser do modelo.</p>     <p><b>3. A democratiza&ccedil;&atilde;o da moda: Yves Saint Laurent</b></p>     <p>A prop&oacute;sito das tend&ecirc;ncias da moda de alta-costura surgidas nos anos vinte do s&eacute;culo XX, tipificadas por nomes como Chanel e Patou, j&aacute; foi poss&iacute;vel referir anteriormente a &ldquo;democratiza&ccedil;&atilde;o da moda&rdquo;. Esse movimento de democratiza&ccedil;&atilde;o foi sempre contempor&acirc;neo do movimento social de igualiza&ccedil;&atilde;o das condi&ccedil;&otilde;es teorizado por Alexis de Tocqueville (Tocqueville, 1961 [1840]). A igualdade de condi&ccedil;&otilde;es &eacute; uma condi&ccedil;&atilde;o social baseada num princ&iacute;pio normativo de acordo com o qualqualquer indiv&iacute;duo pode, ao longo do tempo, vir a ocupar qualquer posi&ccedil;&atilde;o social. Ela n&atilde;o designa qualquer regime pol&iacute;tico nem qualquer estado real plenamente atingido, mas sim uma nova norma social segundo a qual os indiv&iacute;duos se tornaram cada vez mais intercambi&aacute;veis nas suas posi&ccedil;&otilde;es, por contraposi&ccedil;&atilde;o &agrave;s sociedades antigas de corpos nas quais os indiv&iacute;duos estavam determinados a ocupar uma certa posi&ccedil;&atilde;o social. A igualdade de condi&ccedil;&otilde;es &eacute; a norma que estipula que qualquer posi&ccedil;&atilde;o esteja aberta a qualquer um. Um indiv&iacute;duo ocupa num certo momento a posi&ccedil;&atilde;o &lsquo;alta&rsquo;, a posi&ccedil;&atilde;o do &lsquo;prest&iacute;gio&rsquo; e um outro a &lsquo;baixa&rsquo;, mas a norma da igualdade de condi&ccedil;&otilde;es significa que, potencialmente, e ao longo do tempo, eles podem alternar essas posi&ccedil;&otilde;es. Na igualdade das condi&ccedil;&otilde;es, todos os homens e mulheres tornam-se, potencialmente, modelos uns dos outros, e, portanto, cada um pode ser objecto de desejo de qualquer outro. No caso da moda, quanto mais avan&ccedil;a a igualdade das condi&ccedil;&otilde;es mais ela se democratiza, no sentido em que sectores cada vez mais vastos da sociedade se tornam, potencial ou realmente, iniciadores (modelos) e seguidores (imitadores) de modas.</p>     <p>No tempo das primeiras cria&ccedil;&otilde;es de Poiret, Chanel e Patou, esse processo de democratiza&ccedil;&atilde;o ainda estava no seu in&iacute;cio; a &lsquo;igualdade de condi&ccedil;&otilde;es&rsquo; em que todos se aproximam da posi&ccedil;&atilde;o de modelo estava longe de ser real. O modista de alta-costura concebia sobretudo modelos absolutamenteoriginais orientados para classes bastantes ricas, mesmo se, com o passar das d&eacute;cadas, tra&ccedil;os dessesmodelos tenham sido objecto de adop&ccedil;&atilde;o generalizada, de acordo com o modelo de difus&atilde;o socialmente vertical da moda teorizado por Thornstein Veblen: a moda &eacute; inicialmente adoptada pelas classes mais altas ap&oacute;s o que ela &eacute; imitada por classes mais inferiores (Veblen, 1994 [1899]). Essa alta-costura, concebida por costureiros que v&atilde;o de Worth a Chanel e Patou era a Moda, a qual surgiu inicialmente como uma exterioridade distante e inacess&iacute;vel para amplos segmentos da popula&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>O momento que talvez possa ser designado como o real momento de democratiza&ccedil;&atilde;o da moda ocorreu durante os anos sessenta com a populariza&ccedil;&atilde;o de costureiros como Andr&eacute; Courr&egrave;ges e, sobretudo, Yves Saint Laurent. Sendo indiscutivelmente um costureiro extremamente criativo, &eacute; no entanto poss&iacute;vel ser afirmado que com Saint Laurent desaparece a figura do costureiro absolutamente original que, supostamente, cria apenas a partir de si mesmo. A partir da d&eacute;cada de sessenta, Saint Laurent vai <i>indiferenciar</i> a moda praticando as <i>misturas</i>. Em que sentido?</p>     <p>Desde logo por Yves Saint Laurent se ter crescentemente inspirado em trajes e costumes n&atilde;o ocidentais, misturando-os com a tradi&ccedil;&atilde;o da costura francesa. Ele refletiu assim a tend&ecirc;ncia etnogr&aacute;fica de abertura do Ocidente a outros costumes e outras formas culturais que constituiu um tra&ccedil;o dominante do movimento de ideias do seu tempo. Ele foi tamb&eacute;m talvez o primeiro grande costureiro que, a partir dos anos setenta, passou a utilizar manequins origin&aacute;rios fora da Europa.<sup><a href="#3" name="top3">[3]</a></sup> Antes de Saint Laurent, j&aacute; costureiros como Paul Poiret tinham buscado inspira&ccedil;&atilde;o no exotismooriental.<sup><a href="#4" name="top4">[4]</a></sup> Mas a real criatividade de Yves Saint Laurent residiu em ele tamb&eacute;m se ter inspirado na &ldquo;rua&rdquo;. A moda tradicional institucionalizada era pensada segundo o modelo da cria&ccedil;&atilde;o original porparte do grande modista e era destinada a uma elite social a que se seguia, ainda que de forma limitada, uma difus&atilde;o vertical. Ao inv&eacute;s, as cria&ccedil;&otilde;es de Saint Laurent incorporaram modas que espontaneamente se tinham desenvolvido na &ldquo;rua&rdquo;. Estas n&atilde;o eram modas no sentido da moda de luxot&iacute;pica da alta-costura. Eram modas que na d&eacute;cada de sessenta tiveram a sua origem entre os jovens de Londres e Paris (cf. Breward, 2004).</p>     <p>&Eacute; esse tipo de moda que Saint Laurent adoptou para as suas cria&ccedil;&otilde;es, concebendo uma alta-costura que &ldquo;vinha de baixo para cima&rdquo; e que praticava as misturas. Um dos primeiros exemplosocorreu quando, em 1960, o costureiro parisiense importou para as suas cria&ccedil;&otilde;es o blus&atilde;o de cabedalque se tinha tornado moda entre a juventude londrina. Um outro exemplo foi a importa&ccedil;&atilde;o para a alta-costura dos <i>jeans</i>. Este caso mostra mais uma vez de forma clara como, nas m&atilde;os de um costureiro criativo, o conforto funcional pode ser um meio para criar estilo e distin&ccedil;&atilde;o; de facto, os <i>jeans</i> tiveramuma origem sobretudo funcional em trabalhadores, ap&oacute;s o que o seu uso passou para os jovens, depois para as classes intelectuais, para finalmente desembocar numa mistura de alta-costura (cf. Wilson, 1985). Esse &eacute; naturalmente o sentido da famosa frase de Saint Laurent: &ldquo;abaixo o Ritz, viva a rua&rdquo;; amoda inspira-se na &ldquo;rua&rdquo;. Com base na sua funcionalidade, a partir dos anos sessenta os <i>jeans</i> v&atilde;o tornar-se uma anti-moda que, uma vez mais, vai denunciar o artificialismo das modas precedentes e criar uma nova moda, esta sim exprimindo uma verdadeira distin&ccedil;&atilde;o individual ou de grupo.<sup><a href="#5" name="top5">[5]</a></sup></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A indiferencia&ccedil;&atilde;o generalizada presente no trabalho de Saint Laurent tamb&eacute;m incidiu sobre og&eacute;nero, nomeadamente misturando o feminino com elementos do masculino. Ele &ldquo;rompeu as barreiras entre os sexos&rdquo;. Mais exactamente, ele contribuiu para a indiferencia&ccedil;&atilde;o das posi&ccedil;&otilde;es &ldquo;homem&rdquo; e &ldquo;mulher&rdquo;. Os mais conhecidos exemplos dessa indiferencia&ccedil;&atilde;o foram a concep&ccedil;&atilde;o de modelos femininos usando cal&ccedil;as, bem como o famoso <i>smoking</i> feminino. Se anteriormente se viu como Coco Chanel masculinizou o feminino, com Saint Laurent assiste-se a um avan&ccedil;o na indiferencia&ccedil;&atilde;o das posi&ccedil;&otilde;es masculina e feminina. &lsquo;Inspirando-se na rua&rsquo;, cada vez mais indiferenciando as modas de g&eacute;nero, a alta-costura deixa progressivamente de ser uma institui&ccedil;&atilde;o encerrada em si mesma. Elaenvolve ainda uma exterioridade, mas que &eacute; sobretudo uma exterioridade (o grande costureiro) que <i>certifica</i> aquilo que teve origem noutro lado, &ldquo;na rua&rdquo; e em culturas ex&oacute;ticas. O que sempre sobrevive&agrave; alta-costura s&atilde;o as <i>marcas</i>, criadoras de um desejo que n&atilde;o &eacute; sobretudo o desejo do conforto funcional mas sim o <i>desejo de marca</i> (cf. Sicard, 2008).</p>     <p>A democratiza&ccedil;&atilde;o da moda levada a cabo por Yves Saint Laurent tamb&eacute;m teve uma dimens&atilde;oainda mais especificamente sociol&oacute;gica quando ele abriu as portas da casa em que come&ccedil;ou portrabalhar, a <i>Maison</i> Dior, a um p&uacute;blico mais vasto que o p&uacute;blico da alta-costura tradicional. Igualmente importante foi ele ter criado, ainda nos anos sessenta, as colec&ccedil;&otilde;es de pronto-a-vestir, por vezesdesignadas por pronto-a-vestir de luxo. &Eacute; uma tend&ecirc;ncia que j&aacute; tinha sido inaugurada por CristhianDior. Como Saint Laurent referiu:</p>     <blockquote>&ldquo;Passou o tempo em que os costureiros se exaltavam criando modelos unicamentereservados a uma clientela de mulheres privilegiadas.&rdquo; (C&eacute;zan, 1967: 130)</blockquote>     <p>Ver-se-&aacute; a prop&oacute;sito das colec&ccedil;&otilde;es pronto-a-vestir de Karl Lagerfeld at&eacute; que ponto essemovimento de indiferencia&ccedil;&atilde;o entre o &ldquo;rico&rdquo; e o &ldquo;pobre&rdquo; se acentuou at&eacute; hoje. N&atilde;o existiu apenas o nivelamento social do acesso &agrave; moda, de acesso generalizado &agrave; Moda com mai&uacute;scula. Enquanto a moda de luxo tradicional estava bem marcada pelo referencial imut&aacute;vel das esta&ccedil;&otilde;es do ano, o pronto-a-vestir de Saint Laurent procurou criar modelos atemporais sem oscila&ccedil;&otilde;es de esta&ccedil;&atilde;o ou de circunst&acirc;ncia, que fossem duradouros e concebidos transversalmente sem um p&uacute;blico pr&eacute;-definido (Pinto de Sousa, 2010). A cita&ccedil;&atilde;o seguinte mostra mais uma vez a orienta&ccedil;&atilde;o indiferenciadora que Saint Laurent queria imprimir &agrave; moda:</p>     <blockquote>&ldquo;Terminou o tempo em que elas [as mulheres] deviam mudar de guarda-roupa todos os seis meses. Hoje em dia, &lsquo;fora de moda&rsquo; [<i>d&eacute;mod&eacute;</i>] j&aacute; n&atilde;o significa nada! Quando vejo que misturam os meus velhos vestidos com os &uacute;ltimos do ano, fico contente. Esse &eacute; o verdadeiro reflexo da nossa &eacute;poca&rdquo;. (Pinto de Sousa, 2010: 37)</blockquote>     <p>A moda j&aacute; n&atilde;o &eacute; marcada pelo ritmo regular das esta&ccedil;&otilde;es. Ela tamb&eacute;m vai deixar de estar marcada pelos signos da ostenta&ccedil;&atilde;o social; deixa, tendencialmente, de marcar uma condi&ccedil;&atilde;o ou estatuto social que o vestu&aacute;rio exibiria. Deixa definitivamente de ser ostentadora. T&atilde;o pouco o vestu&aacute;rio feminino dever&aacute; continuar a ser sobretudo um simples meio de realizar a velha fun&ccedil;&atilde;o de agradar ao sexo masculino. T&atilde;o pouco a moda ainda participa de um desejo de igualdade social dos sexos. A partir dos anos sessenta a mulher veste-se para si mesma, para se exprimir a si mesma. Elan&atilde;o se veste de certa forma para parecer elegante, mas sim para reconstituir uma rela&ccedil;&atilde;o social b&aacute;sica de sedu&ccedil;&atilde;o. Esse ponto tamb&eacute;m era sublinhado por Saint Laurent:</p>     <blockquote>&ldquo;Trata-se sem d&uacute;vida de uma revolu&ccedil;&atilde;o de esp&iacute;rito. As pessoas n&atilde;o t&ecirc;m mais vontade de serem elegantes; elas querem seduzir.&rdquo; (C&eacute;zan, 1967: 130)</blockquote>     <p>Este ser para si mesmo &eacute; um tipo supremo de sedu&ccedil;&atilde;o que &eacute; uma forma de captar, de aspirar parasi, o ser do outro. Em geral, a alta-costura foi um movimento de adop&ccedil;&atilde;o pela mulher da moda do d&acirc;ndi, como o smoking feminino ilustra (Vinken, 2005). Com Yves Saint Laurent, esse movimentodeixa de estar ligado a qualquer regra transcendente e passa a consistir definitivamente na manifesta&ccedil;&atilde;odo desejo associada ao princ&iacute;pio da individualidade (Liposvetsky, 1987).</p>     <p><b>4. Karl Lagerfeld e a <i>fast-fashion</i> H&amp;M</b></p>     <p>No seguimento das estrat&eacute;gias comerciais inauguradas por casas como Dior, Cardin e Yves Saint Laurent com as suas colec&ccedil;&otilde;es de <i>pr&ecirc;t-&agrave;-porter</i>, as marcas de roupa tradicionalmente percepcionadas enquanto marcas de luxo passaram a dirigir-se &agrave; grande maioria dos consumidores dos pa&iacute;ses ocidentais, primeiro, e economias emergentes, depois. As suas colec&ccedil;&otilde;es de pronto-a-vestir tornaram-se na sua principal fonte de receitas, ap&oacute;s o que as marcas passaram a comercializar todo o g&eacute;nero de acess&oacute;rios (cf. Tungate, 2007). Posteriormente ainda, sobretudo a partir dos anos noventa, v&aacute;rias das principais <i>Maisons</i> ficaram integradas em grandes conglomerados detendo um vasto portf&oacute;lio de marcas com um raio de ac&ccedil;&atilde;o comercial definitivamente global. Os tradicionais desfiles de alta-costura foram sendo cada vez mais reduzidos a efectivas manifesta&ccedil;&otilde;es de cria&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica, sem visarem ter um real impacto nas vendas directas dos trajes exibidos (cf. Moor, 2007). Para os novos conglomerados, o modelo de neg&oacute;cio passa explicitamente a assentar na &ldquo;democratiza&ccedil;&atilde;o do luxo&rdquo;, isto &eacute;, na venda em s&eacute;rie de produtos percepcionados como <i>premiun.</i> Como foi referido por diversosautores (e.g. Vinken, 2005), os anos oitenta marcaram o fim da alta-costura tradicional.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No novo modelo comercial do luxo, existe ainda uma estrat&eacute;gia de difus&atilde;o vertical: as marcas de luxo tornam-se acess&iacute;veis a um n&uacute;mero cada vez maior de consumidores. Pode dizer-se que &eacute; um movimento de &ldquo;alto&rdquo; para &ldquo;baixo&rdquo;, e no qual essas duas posi&ccedil;&otilde;es se tendem a aproximar-se. Maisrecentemente ainda, emergiu uma nova tend&ecirc;ncia comercial na moda e no luxo, inversa da anterior e que pode ser caracterizado por uma cada vez maior fus&atilde;o da posi&ccedil;&atilde;o &ldquo;alta&rdquo; e posi&ccedil;&atilde;o &ldquo;baixa&rdquo;. Essa fus&atilde;o resulta da conjuga&ccedil;&atilde;o de duas tend&ecirc;ncias. Por um lado, a tend&ecirc;ncia hist&oacute;rica de difus&atilde;o vertical: aquilo que era &ldquo;alto&rdquo;, produto de luxo, baixa e torna-se acess&iacute;vel a um grande n&uacute;mero de indiv&iacute;duos disseminados pela quase totalidade do globo. Por outro lado, e em paralelo com a tend&ecirc;ncia de difus&atilde;overtical, um movimento inverso em que aquilo que era considerado &ldquo;baixo&rdquo; procura aproximar-se daquilo que era considerado &ldquo;alto&rdquo;, de luxo. &Eacute; essa dupla tend&ecirc;ncia que tende a indiferenciar as duas posi&ccedil;&otilde;es, &ldquo;alta&rdquo; e &ldquo;baixa&rdquo;.</p>     <p>O melhor exemplo da cada vez maior indiferencia&ccedil;&atilde;o das posi&ccedil;&otilde;es associadas &agrave; moda s&atilde;o as colec&ccedil;&otilde;es concebidas por costureiros e estilistas famosos que a H&amp;M come&ccedil;ou a lan&ccedil;ar desde sensivelmente h&aacute; dez anos. Recorde-se que a H&amp;M (Hennes and Mauritz) &eacute; uma marca de <i>fast-fashion</i> (produ&ccedil;&atilde;o r&aacute;pida e cont&iacute;nua de novas pe&ccedil;as) que vende roupa para todos os sexos e idades. A partir de 2004, a empresa come&ccedil;ou a apostar na colabora&ccedil;&atilde;o de designers e figuras de renome, como Karl Lagerfeld, Stella McCartney, Viktor &amp; Rolf, Madonna, Roberto Cavalli, Comme des Gar&ccedil;ons,Matthew Williamson, Jimmy Choo, Versace, Marni e David Beckham, entre outros. Refere-se aqui a forma como o grande costureiro Karl Lagerfeld viu a sua colabora&ccedil;&atilde;o com a H&amp;M, n&atilde;o se abordando o trabalho criativo que o estilista alem&atilde;o tem vindo a desenvolver para a casa Chanel ao longo das &uacute;ltimas d&eacute;cadas.</p>     <p>A sua estrat&eacute;gia inicial consistiu em tornar &ldquo;o barato desej&aacute;vel&rdquo;, concebendo pe&ccedil;as que possu&iacute;ssem uma qualidade e design pr&oacute;ximo do das marcas de luxo:</p>     <blockquote>&ldquo;O meu conceito de pronto-a-vestir a qualquer n&iacute;vel consiste em que ele deve ser t&atilde;o bom quanto a mais dispendiosa marca. O design &eacute; uma quest&atilde;o muito importante, e o design j&aacute; n&atilde;o &eacute; mais uma quest&atilde;o de pre&ccedil;o. H&amp;M tornou desej&aacute;vel o pouco dispendioso.&rdquo; (Menkes, 2004) <a href="http://www.nytimes.com/2004/11/16/style/16iht-flager_ed3_.html" target="_blank">http://www.nytimes.com/2004/11/16/style/16iht-flager_ed3_.html</a></blockquote>     <p>Atrav&eacute;s das cria&ccedil;&otilde;es seladas, certificadas, por Karl Lagerfeld, uma marca de posicionamento &ldquo;baixo&rdquo; como H&amp;M tornar-se-ia tamb&eacute;m &ldquo;alta&rdquo;. Isso obriga a que algu&eacute;m, como um grande costureiro da casa Chanel, associado ao segmento &ldquo;alto&rdquo;, des&ccedil;a para o segmento &ldquo;baixo&rdquo;. Essa descida &eacute; acompanhada por uma cr&iacute;tica expl&iacute;cita da moda de luxo ostentadora. De acordo com o ciclo natural da moda, esse luxo &eacute; explicitamente denunciado enquanto artificial, totalmente <i>snob</i>.</p>     <p>O an&uacute;ncio promocional da colec&ccedil;&atilde;o Karl Lagerfeld para a H&amp;M torna esse ponto perfeitamente claro.<sup><a href="#6" name="top6">[6]</a></sup> O an&uacute;ncio exibe imagens de Cannes e de um mundo de seres privilegiados, vagamente aristocr&aacute;ticos decadentes. O an&uacute;ncio passa ent&atilde;o a girar em torno de algu&eacute;m &ndash; o pr&oacute;prio Karl Lagerfeld &ndash; que pertence a esse mundo de suposta exclusividade e <i>glamour</i>. Dois indiv&iacute;duos, visivelmente <i>snobs</i>, comentam o rumor de que Karl Lagerfeld estaria a abandonar o seu mundo pr&oacute;prio ao conceber roupa &ldquo;barata&rdquo;, para o &ldquo;povo&rdquo;, para um outro mundo que n&atilde;o o seu. Eles ficam completamente horrorizados com a ideia de que a sua exclusividade &ndash; a exclusividade do seu mundoa que Lagerfeld est&aacute; associado &ndash; passaria a estar partilhada por qualquer um. O seu snobismo extremo manifesta-se no modo como lhes repugna a ideia de partilharem Lagerfeld com os &ldquo;outros&rdquo;. Nunca Lagerfeld lhes pareceu t&atilde;o desej&aacute;vel, agora que consta que ele faz roupas baratas. E n&atilde;o s&oacute;. O costureiro alem&atilde;o est&aacute; &ldquo;a tornar algumas mulheres bastante felizes&rdquo;, a dar a outros a felicidade daqual eles julgavam possuir a exclusividade natural. Quais ser&atilde;o as consequ&ecirc;ncias dessa mudan&ccedil;a em todo o seu universo?, pergunta um dos <i>snobs</i>. Lagerfeld &eacute; considerado &ldquo;um traidor&rdquo;. &Eacute; realmente verdade que ele d&aacute; prazer a outros seres que n&atilde;o pertencem ao seu universo natural?, perguntamconstantemente alguns dos actores do an&uacute;ncio. Finalmente, a pergunta &eacute; dirigida directamente ao pr&oacute;prio Lagerfeld: &ldquo;Is it true?&rdquo; Lagerfeld responde: &ldquo;claro que &eacute; verdade&rdquo;. E a quest&atilde;o n&atilde;o &eacute; &ldquo;ser barato&rdquo;. &ldquo;It is all about taste&rdquo;.</p>     <p>O an&uacute;ncio exibe claramente o ciclo natural da moda. O exclusivo n&atilde;o &eacute; mais exclusivo. E &eacute; quando os membros de um certo universo de exclusividade deixam de o possuir que eles mais o parecem desejar, trazendo assim &agrave; luz todo o artificialismo e snobismo do seu comportamento. O luxotradicional &eacute; um snobismo que se torna manifesto quando aparece a rivalidade decorrente da perda da exclusividade. &Eacute; quando essa rivalidade surge que o artificialismo da moda e da pretensa exclusividade se torna percept&iacute;vel: torna-se claro que a moda n&atilde;o passa de uma latente rivalidade dos indiv&iacute;duos entre si. A mensagem do an&uacute;ncio da H&amp;M &eacute; que a esse artificialismo desmascarado se dever&aacute; suceder algo realmente aut&ecirc;ntico. O an&uacute;ncio, nas palavras do pr&oacute;prio Lagerfeld, diz que a moda j&aacute; n&atilde;o &eacute; mais uma quest&atilde;o de ser &ldquo;barato&rdquo; ou &ldquo;caro&rdquo;, exclusiva ou n&atilde;o, mas sim uma quest&atilde;o de &ldquo;gosto&rdquo; individual, de gosto pessoal por um qualquer tipo de objectos. Evidentemente que n&atilde;o exactamente por qualquer tipo de objectos, mas objectos que trazem a marca de um ser prestigioso como Karl Lagerfeld. Subliminarmente est&aacute; presente a ideia que usando os produtos baratos da H&amp;Mconcebidos por Lagerfeld qualquer um (qualquer mulher) penetrar&aacute; num mundo exclusivo e distinto, este sim finalmente aut&ecirc;ntico.</p>     <p>Um dos interesses da campanha promocional da H&amp;M consiste em ela precisar ainda mais visivelmente a rela&ccedil;&atilde;o entre conforto funcional e moda que j&aacute; foi referida a prop&oacute;sito das cria&ccedil;&otilde;es de Coco Chanel por oposi&ccedil;&atilde;o &agrave;s de Paul Poiret, e a prop&oacute;sito da massifica&ccedil;&atilde;o dos <i>jeans</i> nos anossessenta. O ciclo natural da moda exibido pelo an&uacute;ncio da H&amp;M foi admiravelmente teorizado no in&iacute;cio do s&eacute;culo XX por Thorstein Veblen na sua teoria sobre as mudan&ccedil;as de modas (Veblen, 1994[1899]): 218 et seq.). Para Veblen, a posse dos objectos visa, mais do que satisfazer necessidadesfuncionais, conferir <i>prest&iacute;gio</i> ao seu detentor, isto &eacute;, a posse de certos objectos permite que umindiv&iacute;duo possua uma qualidade de ser que o torna superior e objecto de admira&ccedil;&atilde;o por parte de outros indiv&iacute;duos. O vestu&aacute;rio est&aacute; ao servi&ccedil;o do prest&iacute;gio, e a funcionalidade quando muito ser&aacute; um meiopara esse fim, como ali&aacute;s o prova as permanentes mudan&ccedil;as de moda que n&atilde;o respondem a qualquer necessidade funcional. Ora, o prest&iacute;gio consp&iacute;cuo envolve uma certa vacuidade, uma artificialidade. Para Veblen, essa vacuidade, essa tend&ecirc;ncia &agrave; ostenta&ccedil;&atilde;o sem qualquer outro prop&oacute;sito para al&eacute;m da exibi&ccedil;&atilde;o de si mesmo, tende a tornar-se &ldquo;ofensiva ao gosto do nativo&rdquo;. Decorre da&iacute; que o &lsquo;nativo&rsquo;, isto &eacute;, o espectador, condene uma tal fatuidade. &Eacute; precisamente para evitar uma tal condena&ccedil;&atilde;o social que procuramos que cada mudan&ccedil;a no modo de vestir simule uma pretensa funcionalidade ou utilidade. Mas, rapidamente, essa mudan&ccedil;a &eacute; percepcionada pelos outros por aquilo que ela realmente &eacute;, meradissimula&ccedil;&atilde;o de utilidade que denota um comportamento exibicionista consp&iacute;cuo totalmente artificial.O risco, potencial ou real, de uma condena&ccedil;&atilde;o por parte dos outros faz-nos ent&atilde;o mudar novamente mudar de moda, simulando de novo uma pretensa utilidade e reiniciando assim o processo. A mudan&ccedil;ade moda torna-se ent&atilde;o um processo intermin&aacute;vel. No an&uacute;ncio da H&amp;M, &eacute; o consumo consp&iacute;cuo, <i>snob</i>, da alta-costura tradicional, que &lsquo;ofende o gosto do nativo&rsquo;; o comportamento dos snobs do an&uacute;ncio revela a artificialidade de qualquer moda, e &eacute; ele que deve ser substitu&iacute;do pelo consumo das pe&ccedil;as simples, funcionais, naturais e, sobretudo, baratas da H&amp;M. O barato &eacute; <i>chic</i> e ele &eacute; uma nova moda.</p>     <p>Em diversas entrevistas, Karl Lagerfeld desenvolveu os seus pontos de vista acerca da nova realidade da moda.</p>     <blockquote>&ldquo;Adorei fazer a H&amp;M porque foi uma experi&ecirc;ncia. Suponha-se que pessoas como eu estavam no exclusivo, no inating&iacute;vel. &Eacute; isso que eu mais detesto. Penso que &eacute; muito <i>d&eacute;mod&eacute;</i>. T-shirts de dez d&oacute;lares est&atilde;o hoje em dia mais na moda do que a moda dispendiosa. A moda da n&atilde;o moda: isso tamb&eacute;m &eacute; moda. A moda da n&atilde;o moda &eacute; outra moda.&rdquo; (Lagerfeld, 2011a)</blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Hoje em dia, a principal moda reside em mudar de moda. E a principal forma de mudar de moda &eacute; atrav&eacute;s da n&atilde;o moda, da anti-moda. Nas palavras de um conhecedor como Lagerfeld, a moda da n&atilde;o moda &eacute; hoje a principal moda. Estar na moda &eacute; recusar a Moda com mai&uacute;scula, a moda de luxo destinada a exibir o consumo consp&iacute;cuo ostentador. Esse tipo de consumo passou definitivamente de moda. A moda da alta-costura passou de moda. Mas tamb&eacute;m passou de moda estar na moda, no sentido de visivelmente se imitar a moda dos outros. A moda &eacute; apresentar-se a si mesmo como n&atilde;o seguidor de qualquer moda, nem que isso passe pela exibi&ccedil;&atilde;o ostensiva da recusa da moda. Em consequ&ecirc;ncia, sobretudo se ele se diferencia de qualquer moda existente, qualquer objecto passou a ser uma poss&iacute;vel fonte de moda, inclusive as blusas a 10 euros vendidas na H&amp;M. Tradicionalmente, a moda (com mai&uacute;scula) estava confinada a universos sociais restritos. O ponto fundamental que deve ser sublinhado &eacute; que, hoje, <i>a moda est&aacute; em todo o lado</i>. Os modelos da moda j&aacute; n&atilde;o s&atilde;o os membros de classes afluentes, como sucedia no modelo da Moda tradicional. A din&acirc;mica hist&oacute;rica da igualdade de condi&ccedil;&otilde;es identificada por Tocqueville continuou o seu percurso. Os modelos de hoje s&atilde;o qualquer um, a come&ccedil;ar por aqueles que, recusando a moda e assumindo a anti-moda, criam uma nova moda. Logo, de uma forma ou doutra, andamos todos numa qualquer moda, que j&aacute; n&atilde;o tem de estar associadaao tradicional artigo percepcionado como sendo de luxo nem t&atilde;o pouco &agrave; funcionalidade &uacute;til dosobjectos. Lagerfeld &eacute; totalmente expl&iacute;cito acerca desse ponto:</p>     <blockquote>&ldquo;A moda &eacute; muito mais ligeira do que costumava ser no passado, e &eacute; parte da vida de toda a gente, mesmo de pessoas que n&atilde;o est&atilde;o preocupadas com ela. Hoje n&atilde;o se pode fugir damoda porque ela est&aacute; em toda a parte.&rdquo; (Lagerfeld, 2011b)</blockquote>     <p>Assim sendo, deixam de existir posi&ccedil;&otilde;es fixas no que respeita &agrave; moda. N&atilde;o existe uma moda&ldquo;alta&rdquo; e uma moda &ldquo;baixa&rdquo;. O que &eacute; &ldquo;baixo&rdquo; n&atilde;o o &eacute; mais, podendo, da mesma forma que o &ldquo;alto, servir para a manifesta&ccedil;&atilde;o de um ser pessoal distintivo perante os outros. Lagerfeld tamb&eacute;m &eacute; claro acerca da indiferencia&ccedil;&atilde;o do &ldquo;alto&rdquo; e do &ldquo;baixo&rdquo;:</p>     <blockquote>Q &ldquo;A moda &eacute; alta e baixa, e hoje em dia a baixa j&aacute; n&atilde;o &eacute; baixa.&rdquo;(Lagerfeld, 2011c)</blockquote>     <p>A indiferencia&ccedil;&atilde;o do &ldquo;alto&rdquo; e do &ldquo;baixo&rdquo; traduz-se na pr&aacute;tica das misturas. Foi em parte devido &agrave;tend&ecirc;ncia para as misturas revelada pelos consumidores que a H&amp;M lan&ccedil;ou as suas colec&ccedil;&otilde;esdesenhadas por estilistas famosos. A associa&ccedil;&atilde;o da empresa sueca com Lagerfeld baseou-se na ideia deque os consumidores de produtos associados ao luxo s&atilde;o atra&iacute;dos ocasionalmente por produtos de pre&ccedil;omais baixo, enquanto indiv&iacute;duos de classes menos afluentes compram produtos da moda em lojas de grande consumo (Gouveia, 2011). Existem muitas pessoas que compram sacos Louis Vuitton,compram depois camisas na Zara e a seguir <i>jeans</i> na Gap. Muitas pessoas compram Louis Vitton e usam N&iacute;vea (Sicard, 2008). Existem pessoas que compram <i>jeans</i> e <i>t-shirs</i> baratas, que de seguida vestem com um casaco de alta-costura. Porqu&ecirc;? Porque, segundo Lagerfeld, &eacute; &ldquo;algo que faz parte da vida de hoje&rdquo;, isto &eacute;, <i>porque isso &eacute; moda</i> (Lagerfeld, 2011d). Os da &ldquo;alta&rdquo; compram na &ldquo;baixa&rdquo; e os da&ldquo;baixa&rdquo; compram na &ldquo;alta&rdquo;. Um mesmo indiv&iacute;duo compra &ldquo;alto&rdquo; e compra &ldquo;baixo&rdquo;, e essa &eacute; a moda. &Eacute;nessa exata din&acirc;mica de indiferencia&ccedil;&atilde;o que assentou a estrat&eacute;gia comercial da H&amp;M baseada emestilistas famosos.</p>     <p><b>5. Conclus&atilde;o</b></p>     <p>Neste artigo analisou-se a forma como a moda evoluiu desde as primeiras cria&ccedil;&otilde;es da alta-costuraat&eacute; &agrave; <i>fast-fashion</i>. Viu-se como a democratiza&ccedil;&atilde;o do luxo representou um movimento em que a moda passou a estar um pouco por todo o lado, n&atilde;o mais confinada ao c&iacute;rculo restrito das cria&ccedil;&otilde;es dos costureiros das primeiras grandes <i>Maisons</i>. Este processo de difus&atilde;o da moda &eacute; diferente do processo de difus&atilde;o vertical que tinha sido teorizado por Veblen. Para o soci&oacute;logo de origem norueguesa, aadop&ccedil;&atilde;o de modas era um processo vertical que come&ccedil;ava pelas classes afluentes e consp&iacute;cuas e que de seguida se propagava pelas classes menos afluentes. E sem d&uacute;vida que esta forma de difus&atilde;o ret&eacute;m em parte a sua validade, como se constata ao observar que as tend&ecirc;ncias criadas por Chanel e, depois, por Yves Saint Laurent, se tornaram objecto de ades&atilde;o massificada.</p>     <p>Contudo, se se procurar desenvolver um enquadramento te&oacute;rico geral do processo de mudan&ccedil;a de modas, tem de se reconhecer que as ideias de Veblen acerca da moda s&atilde;o insuficientes. Ele foi muito perspicaz ao notar que a percep&ccedil;&atilde;o da artificialidade de qualquer moda induz a mudan&ccedil;a de moda, mas a sua teoria tem o problema de partir de uma estrutura social j&aacute; hierarquizada, segmentada em classes estanques, sendo no quadro dessa estrutura que se d&aacute; a difus&atilde;o imitativa vertical. As classes dominantes que, para Veblen, s&atilde;o classes ociosas, n&atilde;o copiam ningu&eacute;m, ficando por explicar por que raz&atilde;o elas estimam que certos vestu&aacute;rios conferem prest&iacute;gio. Acresce que, ainda que a difus&atilde;o vertical possa continuar a operar se considerarmos tempos hist&oacute;ricos relativamente longos, tamb&eacute;m se viu queexiste cada vez mais uma difus&atilde;o de modas que pode ser apelidada de horizontal, e na qual qualquerindiv&iacute;duo ou grupo, e n&atilde;o mais uma classe espec&iacute;fica, pode ser um modelo para qualquer outro (cf. Orlean, 2011: 132 e sq). &Eacute; este tipo de situa&ccedil;&atilde;o que foi admiravelmente antecipado por Tocqueville ao colocar a igualdade das condi&ccedil;&otilde;es como a norma das sociedades modernas. Para o soci&oacute;logo franc&ecirc;s, mais importante do que as diferen&ccedil;as de classes &eacute; o facto de, potencialmente, qualquer indiv&iacute;duo poder ser o modelo de qualquer outro. A imita&ccedil;&atilde;o &eacute; sobretudo horizontal, podendo difundir-se de pr&oacute;ximo em pr&oacute;ximo por um conjunto vasto de indiv&iacute;duos. Esse processo imitativo &eacute; suficiente para explicar que um certo objecto acabe por ficar investido pelo prest&iacute;gio, sem, uma vez mais, ser necess&aacute;rio invocar a utilidade ou funcionalidade de certas propriedades objectivas de um bem de consumo.</p>     <p>Se o reconhecimento do papel da artificialidade pode ser considerado como um dos maisimportantes contributos de Veblen para o conceito de moda, foi Georg Simmel quem elaborou a teoria geral mais ampla acerca da moda (Simmel, 1904). Ele colocou explicitamente a imita&ccedil;&atilde;o como o factor que explica a adop&ccedil;&atilde;o e mudan&ccedil;a de moda. Mesmo se Simmel tamb&eacute;m aceitou o modelo dedifus&atilde;o verticalmente descendente, ele tamb&eacute;m sublinhou (Simmel, 1904: 135) que quanto mais os indiv&iacute;duos est&atilde;o pr&oacute;ximos uns dos outros maior &eacute; o desejo de os que est&atilde;o numa posi&ccedil;&atilde;o de inferioridade imitarem os que est&atilde;o numa de superioridade e maior a busca de novidade por parte destes &uacute;ltimos. Em Simmel, na linha de Tocqueville, existe a ideia de que os indiv&iacute;duos se compararam e rivalizam uns com os outros, e que quanto mais eles se comparam mais eles tendem a acentuar as suas diferen&ccedil;as. A moda tem uma fun&ccedil;&atilde;o socialmente reguladora por permitir que os indiv&iacute;duos secomparem e rivalizem uns com os outros sem que da&iacute; decorra uma viol&ecirc;ncia destruidora.</p>     <p>Simmel identificou duas tend&ecirc;ncias (&ldquo;for&ccedil;as&rdquo;) fundamentais na moda. Por um lado, a tend&ecirc;ncia para a generaliza&ccedil;&atilde;o, que &eacute; o processo imitativo que leva &agrave; ades&atilde;o generalizada a uma moda. Ela adequa-se bem quer &agrave; difus&atilde;o vertical quer &agrave; difus&atilde;o horizontal da moda. Mais importante, parece-nos, &eacute; a outra tend&ecirc;ncia, a tend&ecirc;ncia para a diferencia&ccedil;&atilde;o, a qual <i>tamb&eacute;m se baseia na imita&ccedil;&atilde;o</i>. Adiferencia&ccedil;&atilde;o decorre, em primeiro lugar, mecanicamente, da adop&ccedil;&atilde;o de uma moda: na medida em que um conjunto de indiv&iacute;duos adere a uma moda, ele distingue-se, <i>ipso facto</i>, de um outro conjunto que se diferencia do anterior por precisamente &lsquo;n&atilde;o exibir a mesma moda&rsquo; (Simmel, 1904: 134). Esse tipo de diferencia&ccedil;&atilde;o &eacute; uma <i>distin&ccedil;&atilde;o</i> que envolve <i>exclus&atilde;o</i>. Nesse sentido, a moda une e separa, simultaneamente. Ela une aqueles que, por exibirem um mesmo conjunto de signos exteriores, se sentem por isso efectivamente unidos num grupo, uni&atilde;o que envolve a exclus&atilde;o dos que est&atilde;o fora do grupo. Um outro tipo de diferencia&ccedil;&atilde;o sucede quando a moda dominante passa a ser mudar de moda. Simmel designou esse processo como uma &lsquo;imita&ccedil;&atilde;o negativa&rsquo; (Simmel, 1904: 142). A sua for&ccedil;a condutora consiste precisamente na recusa em seguir a moda, e ent&atilde;o todos seguem a moda de mudar de moda, convergindo eventualmente todos eles para uma mesma moda ou para uma pluralidade de modas. Recusar, de forma consciente, seguir a moda, &eacute; uma forma de diferencia&ccedil;&atilde;o que supostamente visa atingir um grau m&aacute;ximo de individualiza&ccedil;&atilde;o, mas que, na realidade, est&aacute; submetido &agrave;s mesmas exig&ecirc;ncias sociais presentes na simples adop&ccedil;&atilde;o (a for&ccedil;a da generaliza&ccedil;&atilde;o) de uma moda corrente. O princ&iacute;pio de diferencia&ccedil;&atilde;o &eacute; uma suprema forma de distin&ccedil;&atilde;o, distinta do comportamento daqueles que, pelo princ&iacute;pio de generaliza&ccedil;&atilde;o, se limitam a seguir a moda. Ao inv&eacute;s, o princ&iacute;pio de diferencia&ccedil;&atilde;o afirma-se na modalidade da anti-moda, mas que, tal como a generaliza&ccedil;&atilde;o, se funda naimita&ccedil;&atilde;o (&lsquo;negativa&rsquo;), s&oacute; que agora, em vez de passivamente seguir a moda, traduz-se na moda demudar de moda e assim distingue daqueles que se limitam a seguir passivamente a moda.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Foi esse princ&iacute;pio de diferencia&ccedil;&atilde;o que identific&aacute;mos em diversos momentos da evolu&ccedil;&atilde;o da alta-costura e da moda durante o s&eacute;culo XX. Deve notar-se que o princ&iacute;pio de diferencia&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se op&otilde;e, antes &eacute; complementado, pela teoria de Veblen acerca da percep&ccedil;&atilde;o do artificialismo que leva amudar de moda. O indiv&iacute;duo que age na busca da diferen&ccedil;a e na recusa da moda conforme f&aacute;-la na suposta busca de uma autenticidade individual contraposta &agrave;quilo que ele estima como artificial, como &lsquo;moda&rsquo;. Foi essa liga&ccedil;&atilde;o entre artificialidade da moda e princ&iacute;pio de diferencia&ccedil;&atilde;o, associado a uma busca de funcionalidade, que este artigo procurou estabelecer atrav&eacute;s da cria&ccedil;&atilde;o do <i>chic</i> de Chanel,atrav&eacute;s da dissemina&ccedil;&atilde;o das ideias de Yves Saint Laurent e atrav&eacute;s da campanha da H&amp;M.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias bibliogr&aacute;ficas</b></p>     <!-- ref --><p>Bena&iuml;m, L. (2002) <i>Yves Saint Laurent</i>, Paris: Grasset.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2028262&pid=S2183-3575201300020000300001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Berg&eacute;, P. (1997) <i>Yves Saint Laurent: The Universe of Fashion</i>, New York: Rizolli.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2028264&pid=S2183-3575201300020000300002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Berry, C. (1993) <i>The Idea of Luxury: A Conceptual and Historical Investigation Ideas in Context</i>, Cambridge: Cambridge University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2028266&pid=S2183-3575201300020000300003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Breward, C. (2004) <i>Fashioning London: Clothing and the Modern Metropolis</i>, New York: Berg.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2028268&pid=S2183-3575201300020000300004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>C&eacute;zan, C. (1967) <i>La Mode Ph&eacute;nom&eacute;ne Humain</i>, Paris: Privat.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2028270&pid=S2183-3575201300020000300005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Chaney, L. (2011) <i>Coco Chanel: An Intimate Life</i>, New York: Viking.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2028272&pid=S2183-3575201300020000300006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Charles-Roux, E. (1974) <i>L&rsquo;Irr&eacute;guli&egrave;re ou Mon Itin&eacute;raire Chanel</i>,Paris: Grasset,</p>     <!-- ref --><p>Frank, TI. (1998) <i>The Conquest of Cool: Business Culture, Counterculture, and the Rise of Hip Consumerism</i>, Chicago: University of Chicago Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2028275&pid=S2183-3575201300020000300008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Gouveia, P. (2011) &lsquo;The Democratization of Fashion: How H&amp;M and Zara have Reshaped European Fashion&rsquo;, <i>The Marketing Site</i>. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.themarketingsite.com/live/content.php?Item_ID=8560" target="_blank">http://www.themarketingsite.com/live/content.php?Item_ID=8560</a>.</p>     <!-- ref --><p>Grumbach, D. (2008) <i>Histoires de la Mode</i>, Paris: &eacute;ditions du Regard.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2028278&pid=S2183-3575201300020000300010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Kapferer J-N., Bastien, Vi. (2009) <i>The Luxury Strategy: Break The Rules of Marketing to Build Luxury Brands</i>, Londres: Kogan Page.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2028280&pid=S2183-3575201300020000300011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Kent, J. (2003) <i>Business Builders in Fashion</i>, New York: Oliver Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2028282&pid=S2183-3575201300020000300012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Lagerfeld, K. (2011a) &lsquo;Karl Lagerfeld Opens Up&rsquo;, Style.com, 7 set. 2011. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.style.com/stylefile/2011/09/karl-lagerfeld-opens-up/" target="_blank">http://www.style.com/stylefile/2011/09/karl-lagerfeld-opens-up/</a>.</p>     <p>Lagerfeld, K. (2011b) &lsquo;Interview to Dare2Magazine&rsquo;. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.dare2mag.com/entertainment/2011/karl-lagerfel/" target="_blank">http://www.dare2mag.com/entertainment/2011/karl-lagerfel/</a>.</p>     <p>Lagerfeld, K. (2011c) &lsquo;Interview with Lagerfield on his new affordable line for Macy&rsquo;s&rsquo;. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.ladyblitz.com/fashion/interview-with-lagerfield-on-his-new-affordable-line-for-macys-1846/" target="_blank">http://www.ladyblitz.com/fashion/interview-with-lagerfield-on-his-new-affordable-line-for-macys-1846/</a>.</p>     <p>Lagerfeld, K. (2011d) &lsquo;CNN interviews Karl Lagerfeld on Macy&rsquo;s diffusion line: video and transcript&rsquo;, Lucire News, 9 Set. 2011. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://lucire.com/insider/20110909/cnn-interviews-karl-lagerfeld-on-macys-diffusion-line-video-and-transcript/" target="_blank">http://lucire.com/insider/20110909/cnn-interviews-karl-lagerfeld-on-macys-diffusion-line-video-and-transcript/</a>.</p>     <p>Lipovetsky,G. (1987) <i>L&rsquo;Empire de l&rsquo;&Eacute;ph&eacute;m&egrave;re: La Mode et son Destin dans les Soci&eacute;t&eacute;s Modernes</i>, Paris: Gallimard.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Menkes, S. (2011) &lsquo;Lagerfeld at H&amp;M sizzling in Paris, lukewarm in London&rsquo;, New York Times, New York, 19 nov. 2011. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.nytimes.com/2004/11/16/style/16iht-flager_ed3_.html?_r=0" target="_blank">http://www.nytimes.com/2004/11/16/style/16iht-flager_ed3_.html?_r=0</a></p>     <!-- ref --><p>Moor, L. (2007) <i>The Rise of Brands</i>, Oxford: Berg.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2028290&pid=S2183-3575201300020000300019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Orl&eacute;am, A. (2011) <i>L&rsquo;Empire de la Valeur: R&eacute;fonder l&rsquo;Economie</i>, Paris: Seuil.</p>     <!-- ref --><p>Perrot, P. (1998) <i>Le Luxe: Une Richesse entre Faste et Confort XVllI-XIX si&egrave;cle</i>, Paris: Seuil.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2028293&pid=S2183-3575201300020000300021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Poiret, P. 1974 [1930]) <i>En Habillant L&rsquo;&Eacute;poque</i>, Paris: Grasset.</p>     <p>Rouff, M. (1946) &lsquo;Une Industrie Motrice: La Haute Couture Parisienne et son &Eacute;volution&rsquo;, <i>Annales. &Eacute;conomies, Soci&eacute;t&eacute;s, Civilisations</i>, 1, n. 2: 116-133.</p>     <!-- ref --><p>Sicard, M-C. (2008) <i>Identit&eacute; de Marque</i>, Paris: Eyrolles.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2028297&pid=S2183-3575201300020000300024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Sicard, M-C. (2010) <i>Luxe, Mensonges et Marketing</i>, Paris: Pearson.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2028299&pid=S2183-3575201300020000300025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p>Simmel, G. (1904) &lsquo;Fashion&rsquo;, <i>International Quarterly</i>, 1, n. 10: 130-155.</p>     <!-- ref --><p>Sousa, S. P.. (2010) <i>O Viajante Im&oacute;vel - Estudo sobre a Vida e a Obra de Yves Saint Laurent</i>. Tese de Mestrado, Universidade do Porto: Porto.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2028302&pid=S2183-3575201300020000300027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Tocqueville, A. de. 1961 [1840]) <i>De la D&eacute;mocratie en Am&eacute;rique</i>, Vol II, Paris: Gallimard.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2028304&pid=S2183-3575201300020000300028&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Troy, Na. J. (2003) <i>Couture Culture: A Study in Modern Art and Fashion</i>, London: The Mit Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2028306&pid=S2183-3575201300020000300029&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Tungate, M. (2007) <i>Adland: A Global History of Advertising</i>, London: Kogan Paul.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2028308&pid=S2183-3575201300020000300030&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Veblen, T. (1994 [1899]) <i>The Theory of the Leisure Class</i>, New York: Penguin Books.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2028310&pid=S2183-3575201300020000300031&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>Vinken, B. (2005) <i>Fashion Zeitgeist: Trends and Cycles in the Fashion System</i>, London: Berg.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2028312&pid=S2183-3575201300020000300032&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>Wilson, M E. (1985) <i>Adorned in Dreams: Fashion and Modernity</i> London: Virago Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2028314&pid=S2183-3575201300020000300033&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Notas</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top1" name="1">[1]</a></sup> Cf. (Kent, 2003) para uma vis&atilde;o global da obra de Worth.</p>     <p><sup><a href="#top2" name="2">[2]</a></sup> Cf. (Berry, 1993) para a passagem de uma comcep&ccedil;&atilde;o do luxo como uma norma exterior imposta aos corpos sociais do Antigo Regime para a sua concep&ccedil;&atilde;o moderna enquanto desejo individual.</p>     <p><sup><a href="#top3" name="3">[3]</a></sup> Sobre a vida e trabalho de Yves Saint Laurent, cf. (Berg&eacute;, 1997; Bena&iuml;m, 2002).</p>     <p><sup><a href="#top4" name="4">[4]</a></sup> Cf. (Troy, 2003) para uma panor&acirc;mica geral desse tipo de influ&ecirc;ncia.</p>     <p><sup><a href="#top5" name="5">[5]</a></sup> Sobre o estilo cool dos anos sessenta como cr&iacute;tica sistem&aacute;tica da moda e consumo ostentador anterior, cf. Frank (1996)</p>     <p><sup><a href="#top6" name="6">[6]</a></sup> Cf. o v&iacute;deo In: <a href="http://www.youtube.com/watch?v=uSV3-UOe9Jg" target="_blank">http://www.youtube.com/watch?v=uSV3-UOe9Jg.</a></p>      ]]></body><back>
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