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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A Identidade cultural Portuguesa: do colonialismo ao pós-colonialismo: memórias sociais, imagens e representações identitárias]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Portuguese cultural identity: from colonialism to post-colonialism: Social memories, images and representations of identity]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This reflection aims to analyse the relation between the memory and identity of the colonial Portuguese in Africa, according to how they were represented in Portuguese cinema until the end of the 20th century. We chose five examples, which we considered most illustrative (three feature-length fictional films and two comedies), which demonstrate the diverse ways in which the Portuguese were represented in terms of identity, as civilising agents for the African people. Thus, we can consider that the cultural identity of the Portuguese in Africa, as portrayed in Portuguese cinema in the 20th century, had three distinct phases: we designated the first as The invention of an Empire , the second as a Portuguese colonialism , and a final stage, which is entitled with the expression Exiled from nowhere . In the final part of this study, we discuss the possibility of understanding colonial and post-colonial identities and memories, from a wide range of modalities related to Myself and the Other, which require the continuation of a (re)construction of memories and identities, in a framework of exercising individual and collection liberty: a work of Sísifo, infinite by nature.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>V&Aacute;RIA</b></p>     <p><b>A Identidade cultural Portuguesa: do colonialismo ao p&oacute;s-colonialismo: mem&oacute;rias sociais, imagens e representa&ccedil;&otilde;es identit&aacute;rias</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Portuguese cultural identity: from colonialism to post-colonialism: Social memories, images and representations of identity</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b> Maria Manuel Baptista*</b>    <br>     <p>*Departamento e L&iacute;nguas e Culturas, Universidade de Aveiro, Centro de Estudos de Comunica&ccedil;&atilde;o e Sociedade, Universidade do Minho, Portugal.</p>     <p><a href="mailto:mbaptista@ua.pt">mbaptista@ua.pt</a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO</b></p>     <p>A presente reflex&atilde;o pretende analisar as rela&ccedil;&otilde;es entre mem&oacute;ria e identidade de portugueses colonialistas em &Aacute;frica, tal como foram sendo representadas no cinema portugu&ecirc;s at&eacute; ao final do s&eacute;culo XX. Escolhemos cinco dos que nos pareceram os exemplos mais ilustrativos (tr&ecirc;s longas-metragens de fic&ccedil;&atilde;o e duas com&eacute;dias) que representam de forma diversa o modo como osportugueses se foram representando identitariamente, enquanto &lsquo;agentes civilizadores&rsquo; de povos africanos. Com efeito, podemos considerar que a identidade cultural do portugu&ecirc;s em &Aacute;frica, tal como ela &eacute; representada no cinema portugu&ecirc;s durante o s&eacute;culo XX, passa por tr&ecirc;s momentos distintos: uma primeira fase, que designaremos por &lsquo;A inven&ccedil;&atilde;o de um Imp&eacute;rio&rsquo;, uma segunda fase,que intitulamos &lsquo;Um colonialismo &agrave; portuguesa&rsquo;, e um &uacute;ltimo momento que, genericamente, designarmos com a express&atilde;o &rsquo;Exilados de s&iacute;tio nenhum&rsquo;. Na parte final deste estudo discutiremos a possibilidade de compreens&atilde;o das mem&oacute;rias e identidades coloniais e p&oacute;s-coloniais, a partir de uma gama muito diversa de modalidades relacionais entre o Eu e o Outro, as quais exigem a cont&iacute;nua (re)constru&ccedil;&atilde;o de mem&oacute;rias e identidades, num quadro de exerc&iacute;cio de liberdade individual e coletiva: uma tarefa de S&iacute;sifo, infinita por natureza.</p>     <p><b>Palavras-chave</b>: Identidade; cinema; colonialismo; descoloniza&ccedil;&atilde;o; p&oacute;s-colonialismo.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>This reflection aims to analyse the relation between the memory and identity of the colonial Portuguese in Africa, according to how they were represented in Portuguese cinema until the end of the 20th century. We chose five examples, which we considered most illustrative (three feature-length fictional films and two comedies), which demonstrate the diverse ways in which the Portuguese were represented in terms of identity, as &lsquo;civilising agents&rsquo; for the African people. Thus, we can consider that the cultural identity of the Portuguese in Africa, as portrayed in Portuguese cinema in the 20th century, had three distinct phases: we designated the first as &lsquo;The invention of an Empire&rsquo;, the second as &lsquo;a Portuguese colonialism&rsquo;, and a final stage, which is entitled with the expression &lsquo;Exiled from nowhere&rsquo;. In the final part of this study, we discuss the possibility of understanding colonial and post-colonial identities and memories, from a wide range of modalities related to Myself and the Other, which require the continuation of a (re)construction of memories and identities, in a framework of exercising individual and collection liberty: a work of S&iacute;sifo, infinite by nature. </p>     <p><b>Keywords</b>: Identity, cinema, colonialism, decolonization, post-colonialism.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>1. Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     <p>Longe de ser um reposit&oacute;rio est&aacute;tico de informa&ccedil;&otilde;es, a mem&oacute;ria &eacute; um dos elementos fundamentais na constitui&ccedil;&atilde;o das identidades, quer individuais quer coletivas. Poder&iacute;amos mesmo dizer que ambas se alimentam (e retro-alimentam) uma da outra, convocando-se ciclicamente em tarefas de reconstru&ccedil;&atilde;o de sentido (Candau, 1996).</p>     <p>Um tal trabalho constitui, em &uacute;ltima an&aacute;lise, uma tarefa de S&iacute;sifo, &agrave; semelhan&ccedil;a do que acontece com a constitui&ccedil;&atilde;o do sujeito aut&oacute;nomo e de comunidades livres e autodeterminadas (Martins, 1996). Mas a mem&oacute;ria trabalha n&atilde;o s&oacute; com a identidade pr&oacute;pria como tamb&eacute;m com a identidade do Outro, que lhe &eacute;consubstancial, mediando, regulando, pesando e, frequentemente, legitimando e estabilizando (tamb&eacute;m retroativamente) as rela&ccedil;&otilde;es de for&ccedil;a que se estabelecem entre os sujeitos e os povos. S&atilde;o m&uacute;ltiplas as produ&ccedil;&otilde;es culturais que expressam, em linguagens e registos que lhe s&atilde;o pr&oacute;prios, essas rela&ccedil;&otilde;es, quer de forma direta quer indireta. Por vezes questionam-nas, outras vezes, fundamentam-nas e naturalizam-nas, seja esse ou n&atilde;o o seu prop&oacute;sito (Cabecinhas, 2007).</p>     <p>Uma das mais impressionantes tarefas de manipula&ccedil;&atilde;o da identidade e da mem&oacute;ria pr&oacute;prias (e imediatamente da identidade e da mem&oacute;ria do Outro) foi o processo de coloniza&ccedil;&atilde;o que os Europeus levaram a cabo em diversas partes do mundo e, de forma mais intensa, nos finais dos s&eacute;culos XIX e XX em &Aacute;frica.</p>     <p>A presente reflex&atilde;o dedica-se precisamente a analisar as rela&ccedil;&otilde;es entre mem&oacute;ria e identidade dos portugueses colonialistas em &Aacute;frica, tal como foram sendo representadas no cinema portugu&ecirc;s at&eacute; ao final do s&eacute;culo XX. Escolhemos cinco dos que nos pareceram os exemplos mais ilustrativos (tr&ecirc;s longas-metragens de fic&ccedil;&atilde;o e duas com&eacute;dias) do modo como os portugueses se foram representando identitariamente, enquanto &lsquo;agentes civilizadores&rsquo; de povos africanos. E embora a an&aacute;lise da import&acirc;ncia do cinema, enquanto construtor e mobilizador de imagens, identidades e mem&oacute;rias (individuais e coletivas) n&atilde;o caiba aqui, n&atilde;o podemos deixar de sublinhar a fecundidade de uma &aacute;rea de trabalho que, em Portugal, se encontra a dar os seus primeiros passos, enquanto objeto deinvestiga&ccedil;&atilde;o na &aacute;rea dos Estudos Culturais, e mais especificamente, intersectando-se com o dom&iacute;niodos estudos p&oacute;s-coloniais portugueses<sup><a href="#1" name="top1">[1]</a></sup>. Assim, no presente contexto, entenderemos o cinema como &laquo;(&hellip;) um dispositivo de enuncia&ccedil;&atilde;o (&hellip;), um aparelho em ato de simula&ccedil;&atilde;o&raquo; (Martins, 1990:127).</p>     <p>A presen&ccedil;a colonizadora do portugu&ecirc;s em &Aacute;frica, no s&eacute;culo XX, interessa-nos de sobremaneira, em duas vertentes: compreender de que modo a identidade cultural portuguesa se transforma ao longo deste s&eacute;culo, especificamente nos portugueses que se dirigem a &Aacute;frica para a&iacute; se estabelecerem, mas tamb&eacute;m, por outro lado, o modo como de novo ter&atilde;o de se reinventar, nas suas identidades, mem&oacute;rias,auto e heterorrepresenta&ccedil;&otilde;es, no momento em que ter&atilde;o de retornar, ap&oacute;s a Revolu&ccedil;&atilde;o do 25 de Abril de 1974 &agrave; &lsquo;Metr&oacute;pole&rsquo;.</p>     <p>Mas, como a identidade &eacute; sempre relacional, pois &eacute; s&oacute; em fun&ccedil;&atilde;o do Outro que se constr&oacute;i e define (Hegel, s/d) n&atilde;o podemos deixar de compreender e discutir a imagem e a representa&ccedil;&atilde;o do Outro africano, que ser&aacute; ora &lsquo;ind&iacute;gena&rsquo;, ora &lsquo;preto&rsquo;, ora &lsquo;mesti&ccedil;o&rsquo;, ou ainda &lsquo;assimilado&rsquo; cf. (Cunha, 1994), em face do qual se definir&aacute; o portugu&ecirc;s no Imp&eacute;rio Colonial, em primeiro lugar, territ&oacute;rio quedepois passar&aacute; a designar-se por Prov&iacute;ncias Ultramarinas.</p>     <p>Com efeito, podemos considerar, do ponto de vista da quest&atilde;o que nos interessa, que a identidade cultural do portugu&ecirc;s em &Aacute;frica, durante o s&eacute;culo XX, passa por tr&ecirc;s momentos distintos:</p>     <blockquote>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>- Uma primeira fase, que designaremos por &lsquo;A inven&ccedil;&atilde;o de um Imp&eacute;rio&rsquo;, at&eacute; meados dos anos 50, onde destacamos como pontode viragem para a fase seguinte a revis&atilde;o da Constitui&ccedil;&atilde;o Portuguesa em 51, que altera o estatuto pol&iacute;tico das Col&oacute;nias e o Luso-tropicalismo de Gilberto Freyre que, desde 1953, come&ccedil;a a difundir-se um pouco por todo o Imp&eacute;rio Portugu&ecirc;s, usado com o objetivo de legitimar o colonialismo portugu&ecirc;s;</p>       <p>- Uma segunda fase, que designaremos por &lsquo;Um colonialismo &agrave; portuguesa&rsquo;, que se inicia em meados dos anos 50 e terminar&aacute; com a Revolu&ccedil;&atilde;o dos Cravos em 25 de Abril de 1974 e subsequente descoloniza&ccedil;&atilde;o, obrigando os portugueses em &Aacute;frica a um retorno, em massa, &agrave; Metr&oacute;pole;</p>       <p>- Uma terceira fase que, iniciando-se no momento em que Portugal recebe, por ponte a&eacute;rea, em poucos meses, meio milh&atilde;o de&lsquo;retornados&rsquo; das &lsquo;ex-col&oacute;nias&rsquo;, e n&atilde;o afinal das &lsquo;ex-prov&iacute;ncias ultramarinas&rsquo;, at&eacute; ao momento presente em que os discursos, as mem&oacute;rias e as representa&ccedil;&otilde;es do que foi o portugu&ecirc;s em &Aacute;frica e o que viveu depois como &lsquo;retornado&rsquo;, t&ecirc;m come&ccedil;ado a surgir em grande quantidade, diversidade e at&eacute; profundidade. A esta fase atribuiremos a designa&ccedil;&atilde;o gen&eacute;rica de &rsquo;Exilados de s&iacute;tio nenhum&rsquo;.</p> </blockquote>     <p><i>1.1 A inven&ccedil;&atilde;o de um Imp&eacute;rio</i></p>     <p>Desde o <i>Ultimatum</i> Ingl&ecirc;s de 1890 que os portugueses tomam consci&ecirc;ncia generalizada da import&acirc;ncia dos seus territ&oacute;rios em &Aacute;frica, na &Iacute;ndia e na &Aacute;sia, tornando-se bastante claro que um ataque a qualquer uma destas possess&otilde;es, cujo dom&iacute;nio consideram estar assegurado por um direito hist&oacute;rico, assume uma fei&ccedil;&atilde;o de ataque &agrave; sua pr&oacute;pria identidade cultural.</p>     <p>Mas o fato &eacute; que, conforme refere Valentim Alexandre (Alexandre, 1979) o &lsquo;Imp&eacute;rio Portugu&ecirc;s&rsquo;em &Aacute;frica nunca existiu at&eacute; ao s&eacute;culo XIX, pois n&atilde;o se conseguiu mais do que ocupa&ccedil;&otilde;es territorialmente muito circunscritas na costa africana, destinadas essencialmente a manter umaatividade comercial com os nativos. No contexto dessa troca comercial ganha peso assinal&aacute;vel o com&eacute;rcio de escravos para o Brasil (at&eacute; meados do s&eacute;culo XIX), depois ainda para o sul dos EstadosUnidos da Am&eacute;rica, Cuba e, finalmente, para S. Tom&eacute; e Pr&iacute;ncipe (na segunda metade do s&eacute;culo XIX).Deste modo, o que havia a menos no t&atilde;o proclamado Imp&eacute;rio Colonial Portugu&ecirc;s era precisamente um Imp&eacute;rio, que s&oacute; desde a Confer&ecirc;ncia de Berlim passou a ter uma exist&ecirc;ncia, primeiro cartogr&aacute;fica(muito para al&eacute;m do que alguma vez os portugueses haviam ocupado, nem sequer imaginariamente) e depois no terreno, sen&atilde;o como verdadeira ocupa&ccedil;&atilde;o populacional portuguesa, pelo menos, procurando instalar uma incipiente administra&ccedil;&atilde;o e uma t&eacute;nue presen&ccedil;a militar, capaz de garantir minimamente oslimites fronteiri&ccedil;os, acordados pelo tratado.</p>     <p>Neste contexto, a imagem que os portugueses constroem de si mesmos em &Aacute;frica acaba por se cristalizar na do &lsquo;Aventureiro Colonizador&rsquo;, cuja fun&ccedil;&atilde;o consiste essencialmente em promover uma pol&iacute;tica de &lsquo;civiliza&ccedil;&atilde;o&rsquo; dos ind&iacute;genas. At&eacute; ao final da 1&ordf; Rep&uacute;blica em 1926 n&atilde;o teremos outra perce&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o seja aquela que radica na convic&ccedil;&atilde;o da mais absoluta legitimidade de ocuparmos <i>o que nos pertence</i> (depois da <i>espolia&ccedil;&atilde;o do Ultimatum</i>) e, dentro das possibilidades financeiras e demogr&aacute;ficas do pa&iacute;s, levar a &lsquo;civiliza&ccedil;&atilde;o&rsquo; e o &lsquo;progresso&rsquo; aos pretos. O n&uacute;mero de brancos na &Aacute;frica portuguesa &eacute; diminuto e composto essencialmente por militares, que procuram pacificar as popula&ccedil;&otilde;es ind&iacute;genas, funcion&aacute;rios administrativos e degredados por crimes cometidos na Metr&oacute;pole. No imagin&aacute;rio portugu&ecirc;s da &eacute;poca, &Aacute;frica &eacute; terra de selvagens, de popula&ccedil;&otilde;es de incivilizados que podemchegar a praticar a antropofagia, terra de clima dif&iacute;cil e doen&ccedil;as desconhecidas. Enfim, uma terra de degredo e expatria&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>A partir do in&iacute;cio da Ditadura Militar (1926) e da sedimenta&ccedil;&atilde;o do Estado Novo em Portugal(1933), estando j&aacute; as fronteiras das nossas possess&otilde;es em &Aacute;frica suficientemente estabilizadas e as popula&ccedil;&otilde;es globalmente pacificadas, entr&aacute;mos numa segunda fase de constru&ccedil;&atilde;o, sobretudo ideol&oacute;gica e imagin&aacute;ria, do Imp&eacute;rio. Esta segunda fase durar&aacute;, em nosso entender, at&eacute; meados da d&eacute;cada de 50, quando as cr&iacute;ticas e as press&otilde;es internacionais, de pendor anticolonial, se come&ccedil;am a fazer sentir em Portugal.</p>     <p>O portugu&ecirc;s em &Aacute;frica deixa de se ver como um &lsquo;Aventureiro Colonizador&rsquo; para se representar como um &lsquo;Her&oacute;i Colonial&rsquo;, onde, a figura de Galv&atilde;o Teles pode ser vista como um exemplo ilustrativo, inscrevendo-se numa mais vasta aventura do povo portugu&ecirc;s, iniciada j&aacute; no s&eacute;culo XV, com os Descobrimentos.</p>     <p>&Eacute; ainda, neste per&iacute;odo seminal do Estado Novo que se produz uma imagem complementar e muito n&iacute;tida do negro a civilizar, tornando-o &lsquo;assimilado&rsquo;, e do portugu&ecirc;s branco, representado como &lsquo;g&eacute;nio civilizador&rsquo;, cuja a&ccedil;&atilde;o concreta ser&aacute; enquadrada e legitimada por um conjunto de documentos legais produzidos pelo Estado Novo, onde se destacam o &laquo;Estatuto Pol&iacute;tico, Social e Criminal dos Ind&iacute;genas de Angola e Mo&ccedil;ambique&raquo; (1926, s&oacute; revogado em 1954 com o &laquo;Estatuto dos Ind&iacute;genas Portugueses das Prov&iacute;ncias da Guin&eacute;, Angola e Mo&ccedil;ambique&raquo;), o &laquo;Ato Colonial&raquo; (de 1930 e s&oacute;revogado em 51) e a &laquo;Carta Org&acirc;nica do Imp&eacute;rio Colonial Portugu&ecirc;s&raquo; (1933).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Do ponto de vista do imagin&aacute;rio do imp&eacute;rio representado &lsquo;como centro&rsquo; (Ribeiro, 2004), este &eacute; o per&iacute;odo mais denso, no que respeita &agrave; constru&ccedil;&atilde;o de autorrepresenta&ccedil;&otilde;es identit&aacute;rias dos portugueses.Uma imagem bastante completa pode ser encontrada nas atas de um ciclo de Confer&ecirc;ncias de &laquo;Alta Cultura Colonial&raquo;, promovidas em 1936 pelo Ministro das Col&oacute;nias da &eacute;poca (Col&oacute;nias, 1936) e que procurou fazer um balan&ccedil;o &lsquo;cient&iacute;fico&rsquo; das diversas &aacute;reas do nosso conhecimento sobre o Ultramar, tendo dirigido convites espec&iacute;ficos &agrave;queles que lhe pareciam os mais profundos conhecedores da realidade do Imp&eacute;rio Colonial Portugu&ecirc;s, para que produzissem confer&ecirc;ncias nas suas &aacute;reas de especialidade. Obviamente que os selecionados, para assim cartografarem os conhecimentos produzidos em Portugal, &agrave; &eacute;poca, sobre a sua pr&oacute;pria realidade colonial encontram-se completamente mergulhados numa ideologia imperial, e at&eacute; mesmo imperialista, salvo raras e honrosas exce&ccedil;&otilde;es, que apresenta fei&ccedil;&otilde;es diversas, mas que, globalmente, permite pouco espa&ccedil;o para uma qualquer contraimagem que ponha em causa a representa&ccedil;&atilde;o do &lsquo;branco, her&oacute;i civilizador em &Aacute;frica&rsquo;, em oposi&ccedil;&atilde;o ao &lsquo;negro selvagem animista&rsquo; e at&eacute; antrop&oacute;fago.</p>     <p>A representa&ccedil;&atilde;o identit&aacute;ria dos portugueses, que &eacute; em nosso entender complementar (o&lsquo;Aventureiro Colonizador&rsquo; que se transforma em &lsquo;Her&oacute;i Colonial&rsquo;,) encontra-se particularmente bem expressa, no muito aclamado filme <i>Chaimite</i> (Canto, 1953).</p>     <p><i>Chaimite</i> &eacute; um filme realizado por Jorge Brum do Canto, que estreou em Lisboa em Abril de1953. O argumento do filme situa-se em 1894, altura em que os V&aacute;tuas atacavam com frequ&ecirc;ncia os colonos portugueses. A resposta portuguesa n&atilde;o se fez esperar e o filme recorda as campanhas em Marracuene, Magul, Cooela, e Manjacaze, conduzidas por Ant&oacute;nio Enes, Caldas Xavier, Ayres Ornelas, Eduardo Costa, Paiva Couceiro e Freire de Andrade, numa primeira fase, e depois Mouzinhode Albuquerque cuja maior fa&ccedil;anha foi capturar o grande chefe negro Gungunhana, em 1897 trazidopara Portugal e exposto publicamente, para g&aacute;udio dos portugueses.</p>     <p>Em paralelo com a &lsquo;Grande Hist&oacute;ria&rsquo; temos ainda a &lsquo;pequena&rsquo; hist&oacute;ria de um conjunto de colonos portugueses que vive em Louren&ccedil;o Marques e, entre os quais, se desenrola um romance, que envolve dois soldados apaixonados pela mesma rapariga.</p>     <p>Este filme, rodado em boa parte em Mo&ccedil;ambique, tem ainda a curiosidade de incluir o pr&oacute;prio realizador, num dos pap&eacute;is principais &ndash; Paiva Couceiro. Refira-se ainda o facto de ser o segundo grande filme portugu&ecirc;s de fic&ccedil;&atilde;o sobre &Aacute;frica, depois de <i>O Feiti&ccedil;o do Imp&eacute;rio</i> (1940) e de ter sido visionado entre 1953 e 1969 em 203 exibi&ccedil;&otilde;es, &laquo;distribu&iacute;das pelo continente (175), Madeira (2) A&ccedil;ores (149), S&atilde;o Tom&eacute; e Pr&iacute;ncipe (1), Angola (7), Mo&ccedil;ambique (3) e Canad&aacute; (1)&raquo; (Seabra,2000:264). Em 1961, Manuel Gama considerava que, em termos de &lsquo;cinema ultramarino&rsquo;, em Portugal, o deserto era total, excetuando <i>Chaimite</i>, que considerava &laquo;obra digna e estim&aacute;vel, &uacute;nica pedra clara neste desolado mausol&eacute;u de oportunidades perdidas. &Eacute; menos do que pouco, convenhamos. N&atilde;o &eacute; nada!&raquo; (Gama, 1961).</p>     <p>Sob o ponto de vista que nos importa nesta abordagem, as mem&oacute;rias e as identidades culturais dos portugueses em &Aacute;frica no s&eacute;culo XX, este filme mostra-nos o modo como os portugueses reconstroem Portugal e a mem&oacute;ria que dele t&ecirc;m em &Aacute;frica: homens e mulheres vestem comominhotos, mas agora num clima tropical, constroem em pleno mato ou nas cidades coloniais, as suas &lsquo;casas portuguesas&rsquo; (com beiral, flores no alpendre, um copo de vinho na mesa&hellip;), apresentando-secomo um povo essencialmente agr&iacute;cola e rural, trabalhador e honesto, que se &lsquo;pega &agrave; terra&rsquo;, edificando aldeias, vilas e cidades, que replicam, o mais fielmente poss&iacute;vel, a Metr&oacute;pole.</p>     <p>Por seu turno, a identidade do colono branco remete de forma reiterada para uma identidade portuguesa de valorosos e corajosos guerreiros, sempre em menor n&uacute;mero e em territ&oacute;rio hostil, mas revelando maior convic&ccedil;&atilde;o e amor &agrave; P&aacute;tria. A estrutura da narrativa das vit&oacute;rias portuguesas em &Aacute;frica coincide exatamente com a do Milagre de Ourique, modelo portugu&ecirc;s para todas as vit&oacute;riasfuturas (Louren&ccedil;o, 1978), desenhando o portugu&ecirc;s com os tra&ccedil;os do &lsquo;Her&oacute;i-colonizador&rsquo;.</p>     <p>Particularmente significativo &eacute; ainda que o filme conduza &agrave; filia&ccedil;&atilde;o das campanhas em &Aacute;frica na linha dos Descobrimentos, nos termos de uma representa&ccedil;&atilde;o do portugu&ecirc;s como &lsquo;Aventureiro-colonizador&rsquo;, tendo os atuais portugueses-colonos o mesmo objetivo dos marinheiros de Quinhentos &ndash; conquistar mais almas para a cristandade, concretizando a tend&ecirc;ncia civilizadora dos portugueses e mesmo o seu g&eacute;nio<sup><a href="#2" name="top2">[2]</a></sup>.</p>     <p>Mas, <i>Chaimite</i> n&atilde;o esquece tamb&eacute;m a import&acirc;ncia das mulheres portuguesas na coloniza&ccedil;&atilde;o; para al&eacute;m de serem mais bonitas, atrativas, recatadas e s&eacute;rias do que as estrangeiras, elas s&atilde;o indispens&aacute;veis, porque s&atilde;o corajosas e resistentes, d&atilde;o &acirc;nimo e acompanham valorosamente os maridos, como &eacute; &oacute;bvio, em tarefas de retaguarda: assist&ecirc;ncia, enfermagem, ensino, etc.</p>     <p>J&aacute; quanto aos negros, eles s&atilde;o apresentados como selvagens (chega-se mesmo a agitar de forma subtil o fantasma da antropofagia nas cenas iniciais do filme), incivilizados, sem rosto e sem nome, exceto os que trabalham mais diretamente com os portugueses e lhes s&atilde;o fi&eacute;is, tornando-se &lsquo;assimilados&rsquo; ao renegarem a sua pr&oacute;pria cultura, para viverem como uma &lsquo;esp&eacute;cie&rsquo; de portugueses). Em suma, de forma geral os negros quando n&atilde;o s&atilde;o &lsquo;assimilados&rsquo;, s&atilde;o traidores silenciosos e perigosos espi&otilde;es.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Podemos assim distinguir dois tipos de negros: os traidores e vendidos ao estrangeiro (aos franceses e ingleses que s&oacute; t&ecirc;m interesse em usurpar-nos as nossas possess&otilde;es no ultramar) ou &lsquo;assimilados&rsquo;, d&oacute;ceis e civilizados, quando trabalham para os portugueses, obviamente sempre emtarefas menores e ainda assim, permanecendo, ao longo do filme, quase sempre calados e sem nome.</p>     <p>Do nosso ponto de vista, a cena do filme que constitui simultaneamente o desenlace de toda a a&ccedil;&atilde;o e melhor condensa o modelo relacional branco/preto nesta &eacute;poca &eacute; precisamente a do aprisionamento de Gungunhana; os brancos come&ccedil;am por executar a sangue frio dois correligion&aacute;rios do chefe negro, num gesto que simboliza o dom&iacute;nio total, frio e racional do branco sobre o negro. Deseguida, o grande chefe Gungunhana &eacute; submetido, preso e humilhado, confessando tudo.</p>     <p>B&eacute;nard da Costa sublinha, a prop&oacute;sito desta cena do filme que &laquo;o ator ind&iacute;gena chamado a representar Gungunhana esmaga com um olhar, onde passam s&eacute;culos de humilha&ccedil;&atilde;o recalcada, o ret&oacute;rico ator teatral que fez o papel de Mouzinho (Jacinto Ramos)&raquo; (Costa, 1991:111). Mas, e apesarda crueldade, aqui vista como valentia e dom&iacute;nio sobre os inimigos por parte do &lsquo;Her&oacute;i-colonizador&rsquo; Mouzinho da Silveira, os portugueses s&atilde;o tamb&eacute;m representados como humanos e piedosos, acabando o militar portugu&ecirc;s, nessa mesma cena, por abra&ccedil;ar a m&atilde;e do traidor, pois que afinal esta mulher sofre e n&atilde;o &eacute; respons&aacute;vel pelos atos do filho.</p>     <p>Por fim, sublinhe-se o n&iacute;vel de baixa intera&ccedil;&atilde;o entre brancos e negros; estes carregam e servem o branco, s&atilde;o interrogados a estalo<sup><a href="#3" name="top3">[3]</a></sup> e podem matar os brancos de forma trai&ccedil;oeira. J&aacute; os brancos t&ecirc;m o papel de gerir, organizar e velar pela seguran&ccedil;a da comunidade branca, num clima de constante solidariedade intra-&eacute;tnica. Refira-se que h&aacute; apenas um momento de cumplicidade entre brancos e pretos, que ocorre entre duas mulheres,na cozinha, e a prop&oacute;sito de um prato de arroz doce que a portuguesa faz para o Natal. Ainda assim, a personagem negra, criada da casa e que aparece constantemente no filme, nunca abre a boca, nem se chega a saber sequer como se chama.</p>     <p>Trata-se, como tent&aacute;mos descrev&ecirc;-lo at&eacute; aqui, de um modelo de rela&ccedil;&atilde;o entre brancos e negros quepoder&iacute;amos designar como &lsquo;paternalista-agressivo&rsquo;, mesmo se os seus principais mentores n&atilde;o t&ecirc;m disso consci&ecirc;ncia, numa esp&eacute;cie de colonialismo ing&eacute;nuo que sempre foi apan&aacute;gio do portugu&ecirc;s (Louren&ccedil;o, 1976b).</p>     <p>Em suma, <i>Chaimite</i> apresenta-nos uma identidade do portugu&ecirc;s em &Aacute;frica com a configura&ccedil;&atilde;ode um colono guerreiro, aventureiro e her&oacute;i, cuja obra se encontra na linha de desenvolvimento dosDescobrimentos. J&aacute; a identidade negra remete para a representa&ccedil;&atilde;o de um selvagem (uma vezes bom,outras mau), mas sempre uma criatura inferior, ou, no melhor dos casos, ex&oacute;tica<sup><a href="#4" name="top4">[4]</a></sup>.</p>     <p>O filme termina com o <i>clich&eacute;</i> da funda&ccedil;&atilde;o de uma aldeia por parte de um casal portugu&ecirc;s, s&iacute;mbolo da fecundidade, progresso e desenvolvimento civilizacional do portugu&ecirc;s em &Aacute;frica.</p>     <p>Apesar deste filme ter sido realizado em 53 (mas situando a a&ccedil;&atilde;o nos prim&oacute;rdios da efetiva coloniza&ccedil;&atilde;o portuguesa em &Aacute;frica), ser&aacute; na transi&ccedil;&atilde;o para a d&eacute;cada de 50 que encontraremos a possibilidade de penetra&ccedil;&atilde;o de uma contraimagem do Imp&eacute;rio e com ela dos portugueses que a&iacute; sev&atilde;o instalando. Podemos referir, entre outros, o romance de Jos&eacute; Augusto Fran&ccedil;a, <i>Natureza Morta</i>(1949), onde o portugu&ecirc;s nos aparece desenhado tamb&eacute;m j&aacute; ele com tra&ccedil;os de brutalidade incivilizada, numa esp&eacute;cie de <i>cont&aacute;gio</i> com a imagem que sempre atribui ao outro, o negro. Um outro exemplo tamb&eacute;m comummente apontado &eacute; o livro de Castro Soromenho <i>Terra Morta</i> (escrito igualmente em 1949) e que coloca o embate entre as identidades negra e mesti&ccedil;a, por um lado, e a branca e ocidentalpor outro, como o lugar do desencontro e do desenraizamento, muito diferente da autorrepresenta&ccedil;&atilde;o identit&aacute;ria oficial dos portugueses imperialistas e dos fazedores do imp&eacute;rio.</p>     <p>Podemos igualmente detetar alguns aspetos desta contraimagem, que se come&ccedil;a a desenhar natransi&ccedil;&atilde;o da d&eacute;cada de 40 para os anos 50, e que acabar&aacute; por ganhar corpo na fase seguinte, cuja face mais vis&iacute;vel encontraremos nos movimentos africanos de oposi&ccedil;&atilde;o ao dom&iacute;nio portugu&ecirc;s e mais tardena guerra colonial que surgir&aacute; na d&eacute;cada de 60, num dos raros filmes portugueses de fic&ccedil;&atilde;o que aborda o imp&eacute;rio e os portugueses nele, intitulado <i>O Costa de &Aacute;frica</i> (Mendes, 1954).</p>     <p>Este filme pode ser lido, no contexto da presente reflex&atilde;o, como uma pe&ccedil;a de import&acirc;ncia assinal&aacute;vel, pois teve uma grande repercuss&atilde;o em Portugal, ao tornar-se um importante &ecirc;xito de bilheteira. Trata-se de uma com&eacute;dia picaresca, com atores muito populares como Vasco Santana, LauraAlves e Ribeirinho, com origem numa pe&ccedil;a teatral que, desde 1953, se apresentava nos palcos de Lisboa, tendo percorrido o pa&iacute;s sempre com grande popularidade e aceita&ccedil;&atilde;o do p&uacute;blico.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Nas palavras de Manuel Cintra Ferreira &laquo;a com&eacute;dia popular idiotizou-se (ainda mais!) com um <i>Costa de &Aacute;frica</i> de Jo&atilde;o Mendes&raquo; (Ferreira, 2002:298).</p>     <p>No argumento do filme (&laquo;mem&oacute;ria das nossas &lsquo;cicatrizes corporais&rsquo;&raquo; (Martins, 2011:133), como todo o cinema o &eacute;), recheado de trocadilhos e piadas ligeiras, o &lsquo;Costa de &Aacute;frica&rsquo;, um portugu&ecirc;s em&Aacute;frica que vem numa viagem de neg&oacute;cios &agrave; Europa, &eacute; retratado como um indiv&iacute;duo j&aacute; contagiado pela &lsquo;brutalidade e incivilidade&rsquo; africanas. Tendo enriquecido em &Aacute;frica, revela-nos o modo como osportugueses da Metr&oacute;pole representam os colonos portugueses, olhando os que o servem como negros(&lsquo;bijag&oacute;s&rsquo;), mesmo quando s&atilde;o brancos, esp&eacute;cie de adultos infantilizados, sem qualquer vida, desejo ou vontade, objeto de viol&ecirc;ncia, para melhor o obedecerem. O &lsquo;Costa de &Aacute;frica&rsquo; tem, como objetivo &uacute;ltimo, levar de Portugal uma mulher com quem casar (seja ela quem for), para continuar a obra de civiliza&ccedil;&atilde;o portuguesa em terras africanas. Em &uacute;ltima an&aacute;lise, a mulher branca que com ele levar&aacute;, acaba por ser nivelada &agrave; condi&ccedil;&atilde;o de domesticada (<i>assimilada</i>?) ou escrava, pois termina por ser transportada numa jaula para o barco onde viajar&aacute; com o Costa, de regresso a &Aacute;frica, tal como se setratasse de negros-servos ou da pr&oacute;pria natureza africana (dos animais, por exemplo); tudo sob o olhardominante e divertido do Costa e ao seu servi&ccedil;o.</p>     <p>Tal &eacute; o &lsquo;g&eacute;nio imperialista e civilizador&rsquo; deste portugu&ecirc;s de passagem pela Metr&oacute;pole!</p>     <p>A imagem completa-se com a representa&ccedil;&atilde;o de uma criatura de modos pouco polidos, apesar de afetivo, que, na sua passagem pela Metr&oacute;pole, ainda tem tempo de conhecer e ficar deslumbrado com as obras que o Estado Novo desenvolveu na cidade de Lisboa, tornando-a uma cidade moderna, um momento do filme em que a propaganda ao regime &eacute; absolutamente evidente.</p>     <p>Assim, a imagem do portugu&ecirc;s colono (ou colonialista, pois at&eacute; este momento n&atilde;o se vislumbram grandes diferen&ccedil;as, uma vez que partindo &lsquo;colono-emigrante&rsquo; se parece ter tornado um verdadeirocolonialista) come&ccedil;a a surgir nos meados dos anos 50 um tanto matizada e oferecendo prismas diversos de leitura, sobretudo em representa&ccedil;&otilde;es mais populares, n&atilde;o mediadas j&aacute; pela m&iacute;stica doImp&eacute;rio e que p&otilde;em a nu, de um modo burlesco e em tom de com&eacute;dia, o lado mais brutal do portugu&ecirc;scolonial, que n&atilde;o passa pela tarefa de &lsquo;civilizar pretos&rsquo;, sem ele pr&oacute;prio se tornar tamb&eacute;m um pouco&lsquo;selvagem&rsquo;.</p>     <p>Por seu turno, e no que respeita ao discurso oficial ou &agrave;s autorrepresenta&ccedil;&otilde;es identit&aacute;rias destes portugueses, o que encontr&aacute;mos s&atilde;o imagens sempre ligadas &agrave; celebra&ccedil;&atilde;o do Imp&eacute;rio, mas nesta &eacute;poca de transi&ccedil;&atilde;o para um outro per&iacute;odo do colonialismo portugu&ecirc;s que se come&ccedil;a a desenhar apartir de meados dos anos 50, j&aacute; n&atilde;o remetendo para o &lsquo;her&oacute;i-colonial&rsquo;, uma esp&eacute;cie de her&oacute;i-aventureiro colonizador, mas para &lsquo;colonos emigrantes&rsquo;, sempre em pequeno n&uacute;mero, que s&oacute; podeminstalar-se em &Aacute;frica com autoriza&ccedil;&atilde;o do Estado, para que n&atilde;o surja a&iacute; uma emigra&ccedil;&atilde;o portuguesa depobres, que mude a representa&ccedil;&atilde;o identit&aacute;ria do branco em &Aacute;frica, correndo o risco de se apresentar como mais um miser&aacute;vel entre miser&aacute;veis.</p>     <p>Deste modo, o &lsquo;colono-emigrante&rsquo; mant&eacute;m sempre a sua condi&ccedil;&atilde;o de superioridade econ&oacute;mica,social e religiosa face ao negro, condi&ccedil;&atilde;o essencial para que seja poss&iacute;vel continuar a aportuguesar &Aacute;frica, merecendo o respeito e at&eacute; a venera&ccedil;&atilde;o dos nativos pelos brancos e recolhendo a sua boa vontade e inclina&ccedil;&atilde;o para a assimila&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Em suma, a superioridade identit&aacute;ria dos brancos &eacute;-lhes assegurada pela exist&ecirc;ncia de um negroque se confunde, frequentemente, com a paisagem africana, da qual parece n&atilde;o se distinguir: sem hist&oacute;ria, sem l&iacute;ngua, sem institui&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas, sem ci&ecirc;ncia e sem t&eacute;cnica, os negros confundem-secom a admir&aacute;vel natureza e geografia africanas, plantas e animais, a maior parte das vezes inofensivos ou apenas ex&oacute;ticos.</p>     <p>A superioridade branca-portuguesa-europeia vive da nega&ccedil;&atilde;o e da submiss&atilde;o do Outro, em&uacute;ltima an&aacute;lise de qualquer Outro, &agrave; condi&ccedil;&atilde;o de &lsquo;bijag&oacute;s&rsquo;, como sintomaticamente refere <i>O Costa de&Aacute;frica</i>, tornando-o absolutamente invis&iacute;vel. Mas como &eacute; o outro quem humaniza a nossa condi&ccedil;&atilde;oidentit&aacute;ria, o resultado desta total invisibilidade &eacute;, em determinados momentos, o recuo at&eacute; &agrave; barb&aacute;rie e mesmo &agrave; selvajaria incivilizada.</p>     <p><i>1.2 Um colonialismo &agrave; portuguesa</i></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Se at&eacute; meados dos anos 50 do s&eacute;culo XX assistimos ao que designamos por um per&iacute;odo deciviliza&ccedil;&atilde;o e assimila&ccedil;&atilde;o dos colonizados, a partir desta altura o quadro internacional em que os colonialismos europeus em &Aacute;frica se desenvolvem, vai modificar-se e o Estado Portugu&ecirc;s ser&aacute; objeto de fortes press&otilde;es internacionais. Especialmente com a entrada de Adriano Moreira para o governo, em 1959 e em 1961 j&aacute; como Ministro do Ultramar, abre-se um novo ciclo na representa&ccedil;&atilde;o identit&aacute;ria do Negro, que come&ccedil;a a ter cada vez mais voz e rosto, forjando uma identidade de resili&ecirc;ncia e revolta contra o branco colonizador, e tamb&eacute;m do Colonialista europeu que n&atilde;o mais surgir&aacute; comoo colonizador aventureiro ou her&oacute;i, mas progressivamente como o colono-imigrante, pobre entre os pobres, num Imp&eacute;rio que &eacute; cada vez mais insustent&aacute;vel.</p>     <p>Com efeito, de col&oacute;nias do Imp&eacute;rio Portugu&ecirc;s, passam estes territ&oacute;rios a ser designados por Prov&iacute;ncias Ultramarinas, ao mesmo tempo que deixa de se falar em &lsquo;assimila&ccedil;&atilde;o&rsquo; para se preferir o conceito de &lsquo;integra&ccedil;&atilde;o&rsquo;. O Estado Novo aceita algumas tentativas t&iacute;midas de promover uma pequena elite social e cultural mesti&ccedil;a em &Aacute;frica, embora limitando a&iacute; a possibilidade de cria&ccedil;&atilde;o de Universidades ou Escolas Superiores, de modo a que n&atilde;o se criasse um movimento nacionalista africano com reivindica&ccedil;&otilde;es independentistas (como, de resto, estava a acontecer h&aacute; j&aacute; mais de duasd&eacute;cadas e mais proximamente, no ex-Congo Belga).</p>     <p>Trata-se realmente de um tempo de crise da consci&ecirc;ncia colonialista europeia, que preocupa o Estado Novo, mas n&atilde;o o abala num primeiro momento. Pelo contr&aacute;rio, h&aacute; um movimento de refor&ccedil;o da coloniza&ccedil;&atilde;o e ocupa&ccedil;&atilde;o efetiva das prov&iacute;ncias africanas por parte da popula&ccedil;&atilde;o branca portuguesa.</p>     <p>O in&iacute;cio da Guerra, que nunca ser&aacute; admitida como tal, mas sempre batizada pelas autoridades da Metr&oacute;pole como &lsquo;a&ccedil;&otilde;es de pacifica&ccedil;&atilde;o&rsquo;, far&aacute; dos portugueses que v&atilde;o para &Aacute;frica &lsquo;emigrantes-colonos&rsquo;, mas ainda e apesar de tudo, de n&iacute;vel social mais elevado do que os que v&atilde;o para Fran&ccedil;a nos anos 60. A pol&iacute;tica continua a ser a mesma: a emigra&ccedil;&atilde;o branca para &Aacute;frica &eacute; bem-vinda, mas controlada, para que se n&atilde;o crie uma multid&atilde;o de pobres brancos, em tudo iguais aos negros, comprometendo as rela&ccedil;&otilde;es sociais e econ&oacute;micas estabelecidas e sedimentadas de h&aacute; longo tempo.</p>     <p>Ainda assim, a condi&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica destes &lsquo;emigrantes-colonos&rsquo; &eacute;, &agrave; chegada a &Aacute;frica, maisbaixa do que os seus antecessores &lsquo;colonos-emigrantes&rsquo;. O seu papel &eacute; amb&iacute;guo e alguns juntar-se-&atilde;o mesmo aos movimentos independentistas, tendo a sua identidade cultural portuguesa sido, em alguns casos, renegada e recalcada. Uma elite negra e mesti&ccedil;a est&aacute;, entretanto, criada e, sobretudo nossemin&aacute;rios protestantes, que o regime do Estado Novo suportava mal, o sentimento nacionalista &eacute; umainevitabilidade.</p>     <p>Por&eacute;m at&eacute; 1974 a fic&ccedil;&atilde;o de um Imp&eacute;rio Portugu&ecirc;s subsiste e at&eacute; se refor&ccedil;a com a utiliza&ccedil;&atilde;o h&aacute;bil do luso-tropicalismo do soci&oacute;logo brasileiro (Freyre, 2002 (1953)) que, datando embora a sua formula&ccedil;&atilde;o de 1953 e tendo sido recebida pelo Estado Novo com indiferen&ccedil;a, &eacute; agora integrada numdiscurso destinado a justificar a nossa obstina&ccedil;&atilde;o como na&ccedil;&atilde;o colonizadora, j&aacute; completamente fora dos tempos imperiais europeus.</p>     <p>O luso-tropicalismo passa ent&atilde;o a apontar uma identidade para o portugu&ecirc;s, colonizador, agora muito mais suave, pois est&aacute; j&aacute; imbu&iacute;do de um multiculturalismo e multirracialismo de que o Brasil constituiria exemplo sem par e absoluta cau&ccedil;&atilde;o (Louren&ccedil;o, 1976a).</p>     <p>Mas se este &eacute; o discurso oficial, que penetra muito bem na mentalidade do &lsquo;emigrante-colono&rsquo;, que se v&ecirc;, essencialmente, como um promotor de civiliza&ccedil;&atilde;o, progresso e desenvolvimento junto de povos mais atrasados, a guerra em &Aacute;frica ter&aacute; uma outra consequ&ecirc;ncia inusitada: pela primeira vez milhares de portugueses (militares) s&atilde;o enviados para uma realidade que desconhecem e da qual em breve passam a dar not&iacute;cia para as fam&iacute;lias na Metr&oacute;pole<sup><a href="#5" name="top5">[5]</a></sup>.</p>     <p>&Eacute; o come&ccedil;o do fim da fic&ccedil;&atilde;o. Para os portugueses da Metr&oacute;pole, &Aacute;frica e a guerra passam a surgir com os contornos de uma realidade horrenda, onde se perdem vidas e recursos, por uma causa que cada vez menos portugueses v&ecirc;em como sua.</p>     <p>As descri&ccedil;&otilde;es que estes militares enviam de &Aacute;frica e dos africanos em nada coincidem com aperce&ccedil;&atilde;o dos &lsquo;emigrantes-colonos&rsquo; dos anos 60 e 70, os quais se representavam como &lsquo;naturalmente&rsquo; africanos, &lsquo;naturalmente&rsquo; brancos, &lsquo;naturalmente&rsquo; pertencentes a uma classe m&eacute;dia ou m&eacute;dia alta, &lsquo;naturalmente&rsquo; servidos por negros e mesti&ccedil;os (Cabecinhas, 2007).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>De resto, militares portugueses em guerra e &lsquo;emigrantes-colonos&rsquo; brancos tinham pouco em comum e as representa&ccedil;&otilde;es m&uacute;tuas, naquela &eacute;poca, s&atilde;o esclarecedoras: os militares abominavam a vida de leviandade e superficialidade que os brancos em &Aacute;frica levavam, enquanto eles pr&oacute;prios davam a vida por essa vida (Louren&ccedil;o, 1992); os &lsquo;emigrantes-colonos&rsquo; brancos nem sequer tinham ano&ccedil;&atilde;o clara de que uma dura guerra se desenrolava muito perto, na qual a manuten&ccedil;&atilde;o das suas vidas eidentidades estavam implicadas (sabiam vagamente que havia conflitos e escaramu&ccedil;as &lsquo;l&aacute; longe&rsquo; e &lsquo;pouco importantes&rsquo; &ndash; cf., entre outros, (Fonseca, 2009)).</p>     <p>Quanto aos negros, a sua identidade permanece invis&iacute;vel ou quase transparente numa sociedade debrancos oriundos da Europa, que se representa &lsquo;naturalmente africana&rsquo;.</p>     <p>Ora &eacute; precisamente a invisibilidade dos negros em &Aacute;frica no contexto do sistema colonial emcontraste com a identidade branca que exerce o seu poder atrav&eacute;s de alguns negros que coloca ao seuservi&ccedil;o, que constitui o objeto do filme <i>Deixem-me ao menos subir &agrave;s Palmeiras</i>&hellip;(Barbosa, 1972). Trata-se do primeiro filme rodado e produzido inteiramente em &Aacute;frica (Mo&ccedil;ambique), envolvendoafricanos e brancos colonialistas. Considerado o primeiro filme anticolonialista anterior &agrave; Revolu&ccedil;&atilde;o do 25 de Abril, foi totalmente censurado pelo regime do Estado Novo e s&oacute; veio a ser exibido j&aacute; em 1975.</p>     <p>A hist&oacute;ria, baseada no conto tradicional africano &lsquo;Dina&rsquo;, (publicado em 1964 por Lu&iacute;s Bernardo Honwana em <i>N&oacute;s Matamos o C&atilde;o Tinhoso</i>) situa-se numa fazenda mo&ccedil;ambicana, onde os negros s&atilde;o violentamente obrigados a trabalhar de sol a sol, sob o comando de um capataz negro, ao servi&ccedil;o docolonialista branco. Entretanto, na casa do branco, senhor das terras, tudo &eacute; calmo e tranquilo. A&iacute; vive-se uma paz e um bem-estar paradis&iacute;acos ao som da m&uacute;sica cl&aacute;ssica que a filha toca num piano,vincando a mudan&ccedil;a do mundo negro para o mundo branco, quer dizer a passagem do inferno para o c&eacute;u. Mais do que isso, o que parece estar subjacente &agrave;s imagens &eacute; que a felicidade de uns s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel pela condi&ccedil;&atilde;o sub-humana em que vive a maioria negra.</p>     <p>O filme, que se desenrola em runga e ingl&ecirc;s, mostra precisamente a desumanidade e crueldade do trabalho nas machambas e culmina com a viola&ccedil;&atilde;o de Maria, filha de um dos trabalhadores maisidosos, Madala. A viola&ccedil;&atilde;o levada a cabo pelo b&aacute;rbaro capataz decorre sob o olhar impotente do pai e dos outros trabalhadores. Por um momento a revolta parece ser poss&iacute;vel e alturas h&aacute; do filme em que ela surge, mas logo aparece o branco para garantir, com o poder das armas de fogo, que a ordem colonial &eacute; restabelecida e que os negros voltam ao trabalho. Para apaziguar a f&uacute;ria muda do velho Madala, o capataz oferece-lhe uma garrafa de vinho. A raiva &eacute; silenciada e o crime fica impune. Morto por exaust&atilde;o, o filme termina com o enterro do velho e a infinita tristeza de Maria, que simboliza a melancolia e a raiva de toda uma popula&ccedil;&atilde;o sujeita &agrave; domina&ccedil;&atilde;o e &agrave; injusti&ccedil;a.</p>     <p>Nas palavras de Lu&iacute;s de Pina, &laquo;<i>Deixem-me ao Menos Subir &agrave;s Palmeiras&hellip;</i> &eacute;, &agrave; partida, um filme pobre, humilde, direto, quase documental, com uma fic&ccedil;&atilde;o muito singela, &agrave; moda de conto tradicional, sobre a condi&ccedil;&atilde;o do ind&iacute;gena, t&atilde;o manietado pelo sistema que lhe fica apenas, para o seu espa&ccedil;o deliberdade, a hip&oacute;tese de subir &agrave;s palmeiras. (&hellip;) Mas essa &eacute; precisamente, pela aus&ecirc;ncia total deret&oacute;rica, a for&ccedil;a humana do filme&raquo;<sup><a href="#6" name="top6">[6]</a></sup>.</p>     <p>Trata-se, enfim, de um primeiro momento onde a ferida que todo o colonialismo se esfor&ccedil;a por esconder &eacute; abertamente exposta naquilo que consiste a sua intr&iacute;nseca e incontorn&aacute;vel viol&ecirc;ncia. E se a literatura &eacute; mais precoce neste processo de den&uacute;ncia da identidade negada e humilhada do negro na sua pr&oacute;pria terra, ser&aacute; o cinema que a tornar&aacute; insuportavelmente vis&iacute;vel. Da&iacute; que, apesar do seu realizador se ter convencido de que o filme poderia vir a passar as malhas da censura<sup><a href="#7" name="top7">[7]</a></sup>, a pel&iacute;cula s&oacute; p&ocirc;de, naturalmente, vir a ser visionada numa sociedade j&aacute; p&oacute;s-colonial e com possibilidades de olhar de frente para si mesma e para o lado recalcado da sua identidade de portugu&ecirc;s, branco e colonialista em &Aacute;frica.</p>     <p>J&aacute; um outro filme, tamb&eacute;m da d&eacute;cada de 70, e curiosamente produzido no mesmo est&uacute;dio mo&ccedil;ambicano que o anterior (Est&uacute;dios Somar), lan&ccedil;a uma nova forma de olhar a identidade cultural dos portugueses em &Aacute;frica (e dos Outros significativos que o rodeiam, como brasileiros, negros e chineses). Referimo-nos ao filme <i>O Z&eacute; do Burro</i>, realizado em 1971 (e exibido em 1972), por Eurico Ferreira (Ferreira, 1971). Trata-se de uma com&eacute;dia, um tanto devedora do g&eacute;nero &lsquo;revista &agrave; portuguesa&rsquo;, mas que na sua desconcertante simplicidade ret&oacute;rica e visual exp&otilde;e, de forma para n&oacute;sclara, uma representa&ccedil;&atilde;o da identidade cultural dos portugueses em &Aacute;frica bastante diferente daquela que detet&aacute;mos no per&iacute;odo anterior.</p>     <p>O argumento relata a hist&oacute;ria de um portugu&ecirc;s ribatejano, mais concretamente encarnado por Jos&eacute; Bandeira, que ainda em Portugal teria comprado um excelente terreno no Norte de Mo&ccedil;ambique, por um pre&ccedil;o muito baixo. Viaja ent&atilde;o com o seu burro at&eacute; &Aacute;frica, procurando chegar &agrave; almejada casa, queafinal era um barrac&atilde;o velho implantado num deserto &aacute;rido, porque os locais negros simplesmente se recusavam a trabalh&aacute;-lo. Com a sua tenacidade, humildade e trabalho consegue conquistar tudo e todos, chegando mesmo a sobreviver aos ataques de um comunista chin&ecirc;s que se encontrava nas redondezas (e que o Z&eacute; do burro acaba tamb&eacute;m por conquistar). O filme termina com a funda&ccedil;&atilde;o de uma aldeia e o casamento do pr&oacute;spero ribatejano com uma portuguesa, que j&aacute; vivia em Mo&ccedil;ambique.</p>     <p>Compreende-se que, globalmente, tenha sido considerado &lsquo;um filme execr&aacute;vel&rsquo;. Nas palavras do realizador Lopes Barbosa<sup><a href="#8" name="top8">[8]</a></sup>: &laquo;passando ao lado das imperfei&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas e do artificialismo burlescodo tema, o filme era uma aut&ecirc;ntica l&aacute;stima&raquo; <sup><a href="#9" name="top9">[9]</a></sup>, at&eacute; porque a mem&oacute;ria que trabalha este personagem n&atilde;o&eacute; mais a da &lsquo;Grande Hist&oacute;ria&rsquo; (de Portugal ou de &Aacute;frica), mas situa-se a um n&iacute;vel que pouco se distingue da do burro (este que &eacute; um verdadeiro alter-ego do Z&eacute;, personagem principal que tamb&eacute;m &eacute; teimosa, simples, af&aacute;vel e doce, ignorante e sem maldade). Trata-se, portanto, da mem&oacute;ria de umPortugal &lsquo;imemorial&rsquo;, inconsciente e tel&uacute;rico, de um Portugal &lsquo;profundo&rsquo;, analfabeto, humilde, de baixa extra&ccedil;&atilde;o sociocultural, mas amigo de todos, come&ccedil;ando at&eacute; pelos animais (o burro) e as crian&ccedil;as.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ser&aacute; esta mem&oacute;ria de um Portugal rural e atrasado, em oposi&ccedil;&atilde;o com o portugu&ecirc;s em &Aacute;frica, j&aacute; demasiado urbanizado e contaminado pelos prazeres da grande urbe, sem mem&oacute;ria da culturaprofunda, tradicional e aut&ecirc;ntica dos portugueses (de resto, t&atilde;o perdidos na cidade como as duas personagens brasileiras que tamb&eacute;m surgem no filme), que permitir&aacute; refundar, agora noutros termos, a identidade portuguesa em &Aacute;frica.</p>     <p>De uma forma um tanto inesperada, e at&eacute; desconfort&aacute;vel, como vimos nas palavras de LopesBarbosa, a identidade cultural portuguesa, representada atrav&eacute;s do portugu&ecirc;s ribatejano que chega aLouren&ccedil;o Marques, transforma-o num objeto agora ex&oacute;tico, caracter&iacute;stica que aos olhos europeussempre coube inteiramente ao negro. Note-se que esta invers&atilde;o muito curiosa foi, em nossa opini&atilde;o, favorecida pelo facto de o filme ter sido totalmente rodado em Mo&ccedil;ambique e da responsabilidade de uma produtora local (Somar Filmes). Interrogamo-nos se uma tal veleidade, se um tal golpe de asa,seria poss&iacute;vel em realizadores metropolitanos. A pr&oacute;pria alus&atilde;o ir&oacute;nica que em determinado momentoaparece no filme aos desbravadores portugueses da selva africana do in&iacute;cio do s&eacute;culo, s&oacute; nos parece serposs&iacute;vel por se tratar de um filme produzido em Mo&ccedil;ambique.</p>     <p>De qualquer modo, o portugu&ecirc;s que nos surge nesta pel&iacute;cula &eacute; ing&eacute;nuo, simples e at&eacute; rid&iacute;culo, fraquezas que constituir&atilde;o precisamente as suas for&ccedil;as, pois acompanham os valores da persist&ecirc;ncia,do trabalho da terra, da persuas&atilde;o pelo exemplo, da vida simples e despojada. Em suma, o portugu&ecirc;s nas col&oacute;nias abandona agora a for&ccedil;a e persuade apenas pelo vigor do exemplo, embora fique expl&iacute;citoque nem todos os portugueses sabem colonizar, para isso, &eacute; necess&aacute;rio seguir o instinto e ter a pureza ea ingenuidade do Portugal profundo, saloio e instintivo.</p>     <p>Quanto ao papel dos negros neste filme, verificamos que eles surgem j&aacute; com um rosto e umaidentidade mais definidos, mas continuam a ser de dois tipos: os bons, que colaboram no desenvolvimento da terra africana, e os maus, vendidos ao estrangeiro, que agora n&atilde;o s&atilde;o ingleses ou franceses, mas comunistas chineses que promovem a guerra, enquanto os portugueses querem a paz. No final, os maus, apesar de n&atilde;o compreenderem a especificidade do colonialismo portugu&ecirc;s (o chin&ecirc;s chega a pensar que o segredo do sucesso do Z&eacute; junto dos negros &eacute; o burro, decidindo, por isso roub&aacute;-lo), s&atilde;o convertidos ao lado bom (portugu&ecirc;s), sem que seja necess&aacute;rio mais do que o exemplo.</p>     <p>Por seu turno, a figura do Z&eacute; leva os brancos &agrave; conclus&atilde;o de que afinal os negros n&atilde;o s&atilde;o pregui&ccedil;osos, mas t&ecirc;m apenas de ter &agrave; sua disposi&ccedil;&atilde;o os modelos corretos e serem bem conduzidos.</p>     <p>Estamos agora perante um modelo de rela&ccedil;&atilde;o colonial que podemos designar por &lsquo;paternalista-cooperante&rsquo;, a qual se caracteriza essencialmente pelo facto de a persuas&atilde;o, pelo exemplo, substituir o uso da for&ccedil;a.</p>     <p>O filme termina, como sempre, com o portugu&ecirc;s a fundar uma aldeia em que a cultura portuguesa e a africana convivem sem qualquer dificuldade (numa alus&atilde;o ao multiculturalismo de Freyre (Freyre, 2010 (1940)), que at&eacute; inclui os chineses belicosos derrotados), embora n&atilde;o se misturando: os pretos casam com pretos e o Z&eacute; do burro com uma branca portuguesa. De resto aquest&atilde;o da mistura, do hibridismo e dos mulatos n&atilde;o &eacute; tratada em nenhum dos filmes de fic&ccedil;&atilde;o quetivemos oportunidade de visionar, pelo menos at&eacute; &agrave; Revolu&ccedil;&atilde;o do 25 de Abril de 1974.</p>     <p><i>1.3</i> Exilados de s&iacute;tio nenhum</p>     <p>Ser&aacute; a realidade a encarregar-se de se impor violentamente com a eclos&atilde;o do 25 e Abril de 1974 e de uma descoloniza&ccedil;&atilde;o inevit&aacute;vel, arrancando de um dia para o outro milhares de portugueses a umespa&ccedil;o, a um tempo, a uma sociedade e a uma representa&ccedil;&atilde;o identit&aacute;ria de si que s&oacute; podia fazer sentidonum contexto estruturalmente colonial, mesmo com toda a leitura luso-tropical que conseguiu absorver.</p>     <p>De resto, o luso-tropicalismo ser&aacute; um dos obst&aacute;culos importantes &agrave; redefini&ccedil;&atilde;o identit&aacute;ria destes portugueses regressados &agrave; Metr&oacute;pole, agora designados por <i>retornados</i>. Diga-se, por&eacute;m, em abono da verdade, que muitos deles &lsquo;regressavam&rsquo; a uma terra que literalmente n&atilde;o conheciam e onde nunca tinham estado. Mas mesmo os que regressavam a uma terra onde ainda tinham ra&iacute;zes familiares (uma grande maioria) e na qual ainda se recordavam ter vivido, regressavam a uma terra outra, agora um pa&iacute;s revolucion&aacute;rio que lhes &eacute; totalmente desconhecido. Uns e outros regressam a um s&iacute;tio onde, verdadeiramente, nunca tinham estado.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Mais do que &lsquo;retornados&rsquo;, identidade que por muitos anos sentir&atilde;o, amargamente, colada &agrave; pele, sentir-se-&atilde;o exilados de uma p&aacute;tria africana, que tamb&eacute;m nunca lhes pertenceu ou at&eacute; nunca existiu. S&atilde;o <i>exilados de s&iacute;tio nenhum</i>!</p>     <p>Profundamente traum&aacute;tico este momento de altera&ccedil;&atilde;o identit&aacute;ria, de &lsquo;emigrantes-colonos&rsquo; brancos a &lsquo;retornados-colonialistas&rsquo;, agora numa na&ccedil;&atilde;o revolucion&aacute;ria, n&atilde;o pode este acontecimento deixar de suscitar ainda hoje uma mem&oacute;ria traum&aacute;tica (Valensi, 1992), que come&ccedil;a no presente a ser exposta,tratada, pensada e contada das mais diversas formas, como se s&oacute; no presente, passadas mais de tr&ecirc;sd&eacute;cadas, fosse poss&iacute;vel expor a ferida que na &eacute;poca foi recoberta com a recusa, a denega&ccedil;&atilde;o, a oculta&ccedil;&atilde;o e o pudor em reconhecer o ato de viol&ecirc;ncia e dom&iacute;nio de que tamb&eacute;m eles foram agentes ativos em &Aacute;frica,para iniciar um momento de reconcilia&ccedil;&atilde;o com as suas/nossas mem&oacute;rias atrav&eacute;s do testemunho, do exorcismo e at&eacute; da efabula&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>&Eacute; precisamente no contexto de um exerc&iacute;cio de revista&ccedil;&atilde;o de mem&oacute;rias traum&aacute;ticas e da constru&ccedil;&atilde;o de novas identidades, para ex-colonizadores e ex-colonizados, que recolham os m&uacute;ltiplos e contradit&oacute;rios fragmentos das mem&oacute;rias dos portugueses em &Aacute;frica, que nos surge <i>A Tempestade da Terra</i> (Silva, 1997), filme realizado por Fernando d&rsquo;Almeida e Silva, e que conta com a excelente interpreta&ccedil;&atilde;o na personagem principal (Lena) de Maria de Medeiros.</p>     <p>O filme, feito de in&uacute;meros <i>flashback</i> trabalha magistralmente a quest&atilde;o das mem&oacute;rias e das identidades, situando-se a narra&ccedil;&atilde;o a partir de uma Lisboa para onde, em 1975, &lsquo;retornaram&rsquo; muitos portugueses brancos que se encontravam em &Aacute;frica. A partir do desaparecimento de Lena desfilam-se as vidas passadas em Mo&ccedil;ambique de uma adolescente que, nos anos 50, tinha um pequeno amigo negro (Ningo<sup><a href="#10" name="top10">[10]</a></sup>), criado da sua fam&iacute;lia. A trama da hist&oacute;ria devolve o espectador aos anos dourados de Mo&ccedil;ambique, depois aos tempos da guerra colonial e, finalmente, &agrave; independ&ecirc;ncia do pa&iacute;s. Lena transformar-se-&aacute; numa adulta revoltada contra o poder branco, mas n&atilde;o convencida da revolu&ccedil;&atilde;o mo&ccedil;ambicana. O pai, engenheiro bem-sucedido e benevolente com os negros, torna-se um colonialistaconvicto aquando do in&iacute;cio da guerra colonial. Depois, retornado a Portugal, acaba por morrer. A m&atilde;ede Lena, sempre terrivelmente colonialista, acaba sozinha num pequeno apartamento dos sub&uacute;rbios de Lisboa, n&atilde;o terminando o filme sem pedir desculpa a Ningo a quem solicita ajuda para localizar a filha desaparecida. Outros personagens h&aacute; de identidades n&atilde;o t&atilde;o flutuantes, quer entre os que aderiram ao regime e ao sistema repressivo da PIDE e nunca mais dele sa&iacute;ram (Jorge), quer de entre os que sejuntam &agrave; revolu&ccedil;&atilde;o africana (Geraldo) e que tamb&eacute;m, apesar de tudo e de todas as dificuldades do caminho, n&atilde;o mudam de posi&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Este filme representa, em nossa opini&atilde;o, um excelente exerc&iacute;cio sobre a mem&oacute;ria, ou melhor sobre as mem&oacute;rias que todos os envolvidos na trama carregam (brancos e negros, retornados e africanos de pa&iacute;ses de l&iacute;ngua oficial portuguesa). Trata-se ainda de um ensaio de reconstru&ccedil;&atilde;o das identidades, que oscilam constantemente ao longo de todo o filme.</p>     <p>Na verdade, a mem&oacute;ria dos fins dos anos 50 em Louren&ccedil;o Marques, onde os brancos viviam uma vida burguesa e festiva, apoiada numa organiza&ccedil;&atilde;o social e econ&oacute;mica estruturada no dom&iacute;nio donegro, &eacute; instabilizada e posta em causa no seu monote&iacute;smo, pela mem&oacute;ria da resist&ecirc;ncia, resili&ecirc;ncia e revolta negra do in&iacute;cio da guerra, bem como pela mem&oacute;ria da persegui&ccedil;&atilde;o da oposi&ccedil;&atilde;o ao regime, que foi tamb&eacute;m feita por portugueses brancos.</p>     <p>Mas este reconstruir de mem&oacute;rias contradit&oacute;rias e equ&iacute;vocas passa ainda pela recorda&ccedil;&atilde;o do regresso branco &agrave; metr&oacute;pole no p&oacute;s 25 de Abril e das contradi&ccedil;&otilde;es de dois pa&iacute;ses em plena revolu&ccedil;&atilde;ocomo eram Portugal e Mo&ccedil;ambique (estes que, por exemplo, acabam por prender Lena &agrave; porta de umcinema de Maputo, acusando-a de prostitui&ccedil;&atilde;o).</p>     <p>Em s&iacute;ntese, as identidades das personagens s&atilde;o apresentadas neste filme como sendo denatureza dial&eacute;tica (Barata-Moura, 1977:67-70) e muito inst&aacute;vel, quer a dos negros, quer a dos brancos (h&aacute; bons e maus em ambos os lados), variando com as circunst&acirc;ncias hist&oacute;ricas, em di&aacute;logo com as determinantes pessoais.</p>     <p>Repare-se, por exemplo como os brancos passam de uma posi&ccedil;&atilde;o dominadora, (mais ou menos violenta) a dominada (depois do 25 de Abril, quer na grande como na pequena Hist&oacute;ria) com laivos de arrependimento. Entretanto, os negros vivem uma revolta silenciada, quando s&atilde;o infantilizados, dentro do modelo colonial paternalista (n&atilde;o podem estudar, levam palmatoadas e castigos diversos, s&atilde;o humilhados, etc.), dando provas de uma grande resili&ecirc;ncia, mas sem ressentimentosinsuper&aacute;veis para com o branco. De qualquer modo, os brancos acabam neste filme entre arrependidose mortos.</p>     <p>Registe-se ainda que em <i>A Tempestade da Terra</i> o grau de intera&ccedil;&atilde;o entre brancos e negros &eacute; j&aacute; muito elevado, revelando uma forte e constante afetividade (de sentido negativo e positivo), no &acirc;mbito de uma diversidade de modelos relacionais, que podem ir desde o dom&iacute;nio paternalista at&eacute; &agrave; solidariedade e complementaridade (quer na cena inicial na &Aacute;frica dos anos 50, quer no final do filme no Portugal p&oacute;s-colonial).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A &uacute;ltima cena de &Aacute;frica que o filme nos apresenta &eacute; o olhar sobre os bens e as casas destru&iacute;dasdos portugueses que tiveram de fugir de Louren&ccedil;o Marques, expressando aqui as mem&oacute;rias dos brancos retornados, que em Lisboa se sentir&atilde;o desenraizados, vivendo do remorso e da saudade, ou mesmo morrendo desses ou de outros males.</p>     <p>Por fim, sublinhe-se que o filme ensaia ainda um retorno simb&oacute;lico &agrave; prov&iacute;ncia (Serra daEstrela), mas que j&aacute; n&atilde;o pode funcionar e acaba de forma tr&aacute;gica. O sentimento final &eacute; de profunda nostalgia&hellip;s&atilde;o <i>exilados de s&iacute;tio nenhum</i> aqueles que voltam a olhar o Tejo de onde partiram ascaravelas quinhentistas, com uma tristeza que s&oacute; pode ser dita pela m&uacute;sica dos Madrededeus e a voz deTeresa Salgueiro, ao evocar t&atilde;o tr&aacute;gico fim.</p>     <p><b>2. Portugueses em &Aacute;frica no s&eacute;culo XX: mem&oacute;rias, identidades e o seu avesso</b></p>     <p>Em s&iacute;ntese, da an&aacute;lise dos cinco filmes que escolhemos para estudarmos os diferentes modos pelos quais o cinema portugu&ecirc;s foi dando conta do modo de abordar as identidades e mem&oacute;rias dos portugueses em &Aacute;frica, durante o s&eacute;culo XX, podemos concluir que <i>Chaimite, O Costa de &Aacute;frica, O Z&eacute; do Burro, Deixem-me ao Menos Subir &agrave;s Palmeiras&hellip;</i><sup><a href="#11" name="top11">[11]</a></sup>colocam a pequena hist&oacute;ria e a mem&oacute;riados sujeitos e dos grupos sistematicamente ao servi&ccedil;o da mem&oacute;ria e da Hist&oacute;ria de Portugal e dos portugueses.</p>     <p>Pelo contr&aacute;rio, no filme que analis&aacute;mos realizado j&aacute; depois do 25 de Abril, <i>A Tempestade da Terra</i>, a Grande Hist&oacute;ria, a Hist&oacute;ria e a Mem&oacute;ria nacionais fazem-se de pequenas m&uacute;ltiplas hist&oacute;rias/identidades e de mem&oacute;rias muito diversas (Ricoeur, 2000). &Eacute; um filme que procura abrir a possibilidade de uma reflex&atilde;o p&oacute;s-colonial.</p>     <p>Verific&aacute;mos tamb&eacute;m ao longo deste estudo que, para que o branco fale e seja o &uacute;nico lugar deenuncia&ccedil;&atilde;o no contexto da rela&ccedil;&atilde;o colonial, &eacute; preciso que o negro se cale, n&atilde;o tenha rosto, identidadeou mem&oacute;ria. O branco est&aacute; no tempo (continua uma grande Hist&oacute;ria p&aacute;tria, a Hist&oacute;ria de Portugal). J&aacute; onegro n&atilde;o tem tempo nem est&aacute; no processo hist&oacute;rico, porque n&atilde;o &eacute; civilizado. Por isso est&aacute; fora emesmo antes da pr&oacute;pria Hist&oacute;ria<sup><a href="#12" name="top12">[12]</a></sup>, como uma imensa mole coletiva que apenas existe no espa&ccedil;o,fundindo-se na paisagem, mas que ainda assim, para que possa minimamente existir aos olhos dobranco, tem de ser objeto de conquista e ordena&ccedil;&atilde;o. Disciplina dos corpos e das vontades, apropria&ccedil;&atilde;o do tempo, do espa&ccedil;o, do desejo, das mem&oacute;rias e das identidades, tal &eacute; o mecanismo que constitui o exerc&iacute;cio de poder, como bem nos explicou Foucault (Foucault, 1975, Martins, 2002), mas tamb&eacute;mHegel na bem conhecida dial&eacute;tica do Escravo e do Senhor (Hegel, s/d).</p>     <p>A este movimento, que o pr&oacute;prio cinema sinaliza e problematiza, por vezes, de um modo muitoindireto, corresponde a passagem de um modelo relacional de paternalista-agressivo a um outro que podemos designar por paternalista-cooperante (at&eacute; por a&ccedil;&atilde;o da Guerra Colonial, das press&otilde;esinternacionais para a descoloniza&ccedil;&atilde;o e ainda das teses do luso-tropicalismo). Mas, simultaneamente,n&atilde;o podemos deixar de sinalizar a fissura identit&aacute;ria que cria e a d&uacute;vida que instala no seio de um sistema colonial que, durante d&eacute;cadas, e praticamente at&eacute; ao fim, procurou funcionar sem sombra de m&aacute;cula ou m&aacute; consci&ecirc;ncia. J&aacute; quanto &agrave;s quest&otilde;es da identidade, quer dos bancos quer dos negros, elas fundam-se precisamente em conte&uacute;dos e din&acirc;micas da mem&oacute;ria muito precisos. Verific&aacute;mos, por exemplo que, nos prim&oacute;rdios da efetiva coloniza&ccedil;&atilde;o africana dos portugueses a identidade do negro &eacute;,no melhor dos casos, objeto de um olhar curioso do branco que o transforma em ex&oacute;tico (Sanches e Serr&atilde;o, 2002). Por&eacute;m, nas d&eacute;cadas finais da coloniza&ccedil;&atilde;o podemos j&aacute; verificar que o branco europeutoma consci&ecirc;ncia da sua pr&oacute;pria exoticidade em &Aacute;frica, num espelho que acaba por virar para si pr&oacute;prio.</p>     <p>Finalmente este estudo revelou-nos a possibilidade de representarmos a realidade colonial e p&oacute;s-colonial a partir de uma grande diversidade de modalidades relacionais entre o Eu e o Outro. No &uacute;ltimo filme que analis&aacute;mos, constat&aacute;mos que &eacute; j&aacute; poss&iacute;vel sustentar e manter um discurso da multiplicidade, e at&eacute; da equivocidade, fundado nas rela&ccedil;&otilde;es que se constru&iacute;ram a partir das vidas e dos quotidianos das pessoas concretas que participaram direta ou indiretamente na experi&ecirc;ncia colonial europeia (Sherzer, 1996) e portuguesa, e que em parte conseguiram implodir com a identifica&ccedil;&atilde;oimediata dos sujeitos &agrave;s categorias estereotipadas de branco e negro.</p>     <p><i>A Tempestade da Terra</i> conduz-nos inevitavelmente &agrave; ideia de que, dentro de um sistema que codifica rigidamente as identidades e manipula infinitamente as mem&oacute;rias (Estado Novo colonial) &eacute; sempre poss&iacute;vel construir outros olhares (tensionais e contradit&oacute;rios, implicando tamb&eacute;m eles identidades moventes e dial&eacute;ticas), que subvertem a hegemonia do olhar do colonizador, acionando, por exemplo, categorias como a idade, a gera&ccedil;&atilde;o, o g&eacute;nero, a educa&ccedil;&atilde;o, o tempo hist&oacute;rico, a hist&oacute;ria de cada vida, as op&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas, entre outras dimens&otilde;es da vida concreta dos indiv&iacute;duos.</p>     <p>Em suma, um percurso atrav&eacute;s do cinema portugu&ecirc;s do s&eacute;culo XX, que nos conduziu do monote&iacute;smo da identidade e da mem&oacute;ria oficiais at&eacute; ao dif&iacute;cil e inst&aacute;vel pluralismo das lutas que os indiv&iacute;duos, grupos e sociedades mant&ecirc;m para sustentar a possibilidade da abertura &agrave; multiplicidade e ao pluralismo do trabalho das mem&oacute;rias e das identidades (Martins, 1996).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Tarefa de S&iacute;sifo, infinita por natureza, que ser&aacute; tanto mais humana quanto fizer parte de um infatig&aacute;vel e rigoroso exerc&iacute;cio de liberdade individual e coletiva.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias bibliogr&aacute;ficas</b></p>     <!-- ref --><p>Alexandre, V. (1979) <i>Origens do Colonialismo Portugu&ecirc;s Moderno</i>, Lisboa: S&aacute; da Costa.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2029496&pid=S2183-3575201300020000900001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Antunes, A. L. (2005) <i>d&rsquo;Este Viver Aqui Neste Papel Descripto - Cartas da Guerra</i>, Lisboa: Dom Quixote (Maria Jos&eacute; Lobo Antunes, Joana Lobo Antunes (org.)</p>     <!-- ref --><p>Barata-Moura, J. (1977) <i>Totalidade e Contradi&ccedil;&atilde;o</i>, Lisboa: Livros Horizonte.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2029499&pid=S2183-3575201300020000900003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Cabecinhas, R. <i>Preto e Branco - a Naturaliza&ccedil;&atilde;o da Discrimina&ccedil;&atilde;o Racial</i>, Porto: Campo das Letras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2029501&pid=S2183-3575201300020000900004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Candau, J. (1996) <i>M&eacute;moire et Identit&eacute;</i>, Paris, PUF.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2029503&pid=S2183-3575201300020000900005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Col&oacute;nias, Minist&eacute;rio da Rep&uacute;blica Portuguesa (1936) <i>Alta Cultura Colonial</i>, Lisboa: Divis&atilde;o de Publica&ccedil;&otilde;es e Biblioteca - Ag&ecirc;ncia Geral das Col&oacute;nias.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2029505&pid=S2183-3575201300020000900006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Costa, J. B. (1991) <i>Stories of the Cinema</i>, Lisboa, Comissariado para a Europ&aacute;lia 91 - Portugal e Imprensa Nacional Casa da Moeda.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2029507&pid=S2183-3575201300020000900007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Cunha, L. (1994) <i>A Imagem do Negro na Banda Desenhada do Estado Novo</i>, Braga: Instituto de Ci&ecirc;ncias Sociais - Universidade do Minho.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2029509&pid=S2183-3575201300020000900008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Ferreira, M. C. (2001) &ldquo;Cinema Portugu&ecirc;s: as Excep&ccedil;&otilde;es e a Regra&rdquo;, <i>S&eacute;culo XX - Panorama da Cultura Portuguesa</i>, Fernando Peres (Coord.), Porto: Funda&ccedil;&atilde;o de Serralves, Ed. Afrontamento, 2002: 281-310</p>     <!-- ref --><p>Fonseca, A. S. (2009) <i>Angola, Terra Prometida - a Vida Que os Portugueses Deixaram</i>. Lisboa: Esfera dos Livros, 2&ordf;ed.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2029512&pid=S2183-3575201300020000900010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Foucault, M. (1975) <i>Surveiller et Punir. Naissance de la Prison</i>, Paris: Gallimard.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2029514&pid=S2183-3575201300020000900011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Freyre, G. (2002) (1953), &ldquo;Casa-Grande e Senzala - Forma&ccedil;&atilde;o da Fam&iacute;lia Brasileira sob o Regime da Economia Patriarcal&rdquo;, <i>Int&eacute;rpretes do Brasil</i>, Silviano Santiago, pp. 121-645.</p>     <!-- ref --><p>Freyre, G. (2010) (1940), <i>O Mundo que o Portugu&ecirc;s Criou: Aspectos das Rela&ccedil;&otilde;es Sociais e de Cultura do Brasil com Portugal e as Col&oacute;nias Portuguesas</i>, Rio de Janeiro: &Eacute; Realiza&ccedil;&otilde;es.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2029517&pid=S2183-3575201300020000900013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Gama, M. (1961) &ldquo;Aus&ecirc;ncia Ultramarina&rdquo;, <i>Filme</i>, n&ordm; 29, Agosto.</p>     <p>Hegel, (s/d) <i>La Ph&eacute;nom&eacute;nologie de L&rsquo;esprit</i>, (Trad. Jean Hyppolite), Paris: Aubier, Ed. Montaigne. </p>     <p>Louren&ccedil;o, E. 1976a &ldquo;Brasil - Cau&ccedil;&atilde;o do Colonialismo Portugu&ecirc;s&rdquo; (1960), <i>O Fascismo Nunca Existiu</i>, Lisboa: Pub. D. Quixote, pp. 37-49</p>     <!-- ref --><p>Louren&ccedil;o, E. (1976b), <i>Situa&ccedil;&atilde;o Africana e Consci&ecirc;ncia Nacional</i>, Lisboa: Pub. G&eacute;nese.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2029522&pid=S2183-3575201300020000900017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Louren&ccedil;o, E. (1978) <i>O Labirinto da Saudade - Psican&aacute;lise M&iacute;tica do Destino Portugu&ecirc;s</i>, Lisboa: D. Quixote.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2029524&pid=S2183-3575201300020000900018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Louren&ccedil;o, E. 1992) &ldquo;Portugal e os Jesu&iacute;tas&rdquo; (1992/9/30), <i>Oceanos - Comemora&ccedil;&otilde;es dos Descobrimentos Portugueses</i>, n&ordm; 12: 47-53.</p>     <!-- ref --><p>Martins, M. de L. (1990) <i>O Olho de Deus no Discurso Salazarista</i>, Porto: Edi&ccedil;&otilde;es Afrontamento.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2029527&pid=S2183-3575201300020000900020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Martins, M. L. (1996) <i>Para uma Inversa Navega&ccedil;&atilde;o - O Discurso da Identidade</i>, Porto: Ed. Afrontamento.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2029529&pid=S2183-3575201300020000900021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Martins, M. L. (2002) <i>A Linguagem, a Verdade e o Poder - Ensaio de Semi&oacute;tica Social</i>, Lisboa: Funda&ccedil;&atilde;o Calouste Gulbenkian e Funda&ccedil;&atilde;o para a Ci&ecirc;ncia e a Tecnologia.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2029531&pid=S2183-3575201300020000900022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Ribeiro, M. C. (2004) <i>Uma Hist&oacute;ria de Regressos</i>. Porto: Edi&ccedil;&otilde;es Afrontamento.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2029533&pid=S2183-3575201300020000900023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p>Ricoeur, P. (2000) <i>La M&eacute;moire, l&rsquo;Histoire et l&rsquo;Oubli</i>, Paris: Ed. du Seuil.</p>     <p>Sanches, M. R. e Serr&atilde;o, A. V. (2002) <i>A Inven&ccedil;&atilde;o do &lsquo;Homem&rsquo; - Ra&ccedil;a, Cultura e Hist&oacute;ria na Alemanha do S&eacute;culo XVII.</i>. Lisboa: Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa.</p>     <p>Seabra, J. (2000), &ldquo;Imagens Do Imp&eacute;rio - O Caso <i>Chaimite</i>, de Jorge Brum do Canto&rdquo;, <i>O Cinema Sob o Olhar de Salazar</i>, Lu&iacute;s Reis (Ed.) Torgal, Lisboa: C&iacute;rculo de Leitores, pp. : 235-273.</p>     <!-- ref --><p>Seabra, J. (2011) <i>&Aacute;frica Nossa - O Imp&eacute;rio Colonial na Fic&ccedil;&atilde;o Cinematogr&aacute;fica Portuguesa (1945-1974)</i>, Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2029538&pid=S2183-3575201300020000900027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Sherzer, D. (1996) <i>Cinema, Colonialism, Postcolonialism. Perspectives from the French World</i>. Austin: University of Texas Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2029540&pid=S2183-3575201300020000900028&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Valensi, L. (1992), <i>Fables de la M&eacute;moire : La Glorieuse Bataille des Trois Rois</i> Paris: Seuil.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2029542&pid=S2183-3575201300020000900029&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Vieira, A. L., (1933) <i>A F&eacute; e O Imp&eacute;rio - Confer&ecirc;ncia Feita em Luanda aos 28 de Junho de 1932</i>, Lisboa: Edi&ccedil;&atilde;o do Autor.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2029544&pid=S2183-3575201300020000900030&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Vieira, P. (2011), <i>Cinema no Estado Novo - a Encena&ccedil;&atilde;o do Regime</i>, Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es Colibri.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2029546&pid=S2183-3575201300020000900031&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p><b>Filmografia</b></p>     <p><i>Chaimite 1953,</i> filme<i>. Realizado por</i> Jorge Brum do Canto.</p>     <p><i>Chikwembo! Sortil&eacute;gio Africano</i>, 1953, filme. Realizado por Carlos Marques.</p>     <p><i>O Costa de &Aacute;frica</i>, 1954, filme. Realizado por Costa Portugal.</p>     <p><i>O Z&eacute; do Burro</i> 1971, filme. Realizado por Eurico Ferreira.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>Deixem-me ao Menos Subir &agrave;s Palmeiras</i>&hellip; 1972, filme. Realizado por Lopes Barbosa.</p>     <p><i>A Tempestade da Terra</i> 1997, filme. Realizado por Fernando d&rsquo;Almeida e Silva.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Notas</b></p>     <p><sup><a href="#top1" name="1">[1]</a></sup> Um estudo que inaugura entre n&oacute;s esta &aacute;rea de investiga&ccedil;&atilde;o do Cinema a partir dos Estudos Culturais e do P&oacute;s-Colonialismo &eacute; (Vieira, 2011). Um outro estudo recente, com interesse, mas que n&atilde;o adota a perspetiva referida &eacute; o de (Seabra, 2011).</p>     <p><sup><a href="#top2" name="2">[2]</a></sup> O que, de resto, o regime ideol&oacute;gico do Estado Nove repete sem cessar (cf, entre muitos outros (Vieira, 1933)).</p>     <p><sup><a href="#top3" name="3">[3]</a></sup> De resto, ao longo do filme, tr&ecirc;s tipos de personagens s&atilde;o objeto de estaladas: os pretos e os estrangeiros (por parte dos &lsquo;her&oacute;is-coloniais&rsquo; portugueses) e uma mulher jovem esbofeteada por uma tia (uma portuguesa, que &eacute; afinal uma das primeiras &lsquo;aventureiras-coloniais&rsquo;).</p>     <p><sup><a href="#top4" name="4">[4]</a></sup> Conce&ccedil;&otilde;es muito filiadas na representa&ccedil;&atilde;o do outro, e muito particularmente do negro, que vem j&aacute; da filosofia alem&atilde; do s&eacute;culo das Luzes (para um maior aprofundamento cf. (Sanches e Serr&atilde;o, 2002).</p>     <p><sup><a href="#top5" name="5">[5]</a></sup> Cf. entre muitos outros (Antunes, 2005)</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top6" name="6">[6]</a></sup> Cf. <a href="http://www.buala.org/pt/afroscreen/deixem-me-ao-menos-subir-as-palmeiras-um-filme-da-frente-de-guerrilha" target="_blank">http://www.buala.org/pt/afroscreen/deixem-me-ao-menos-subir-as-palmeiras-um-filme-da-frente-de-guerrilha</a></p>     <p><sup><a href="#top7" name="7">[7]</a></sup> Ibidem.</p>     <p><sup><a href="#top8" name="8">[8]</a></sup> Lopes Barbosa foi o realizador (em 1972) do filme Deixem-me ao Menos Subir &agrave;s Palmeiras&hellip;</p>     <p><sup><a href="#top9" name="9">[9]</a></sup> Pelo meio v&atilde;o sendo apresentados alguns grupos folcl&oacute;ricos de nativos das cidades de Chibuto, Chidenguele, Charatuane, Vila Lu&iacute;sa e grupos como &lsquo;Marinheiros de Malange&rsquo; e &lsquo;Venha Ver&rsquo; de Inhambane (<a href="http://www.buala.org/pt/afroscreen/deixem-me-ao-menos-subir-as-palmeiras-um-filme-da-frente-de-guerrilha" target="_blank">http://www.buala.org/pt/afroscreen/deixem-me-ao-menos-subir-as-palmeiras-um-filme-da-frente-de-guerrilha</a>)</p>     <p><sup><a href="#top10" name="10">[10]</a></sup> Repare-se como neste filme o negro tem nome e n&atilde;o &eacute; portugu&ecirc;s, nem infantilizante ou humilhante como &eacute; comum noutros filmes portugueses que representam negros com nomes como &lsquo;Sabonete&rsquo; (Chikwebo! Sortil&eacute;gio Africano (Marques, 1953)) ou &lsquo;Bijag&oacute;s&rsquo; (O Costa de &Aacute;frica(Mendes, 1954)), revelando uma mudan&ccedil;a de atitude em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; identidade do negro.</p>     <p><sup><a href="#top11" name="11">[11]</a></sup> Sublinhe-se que n&atilde;o consideramos aqui Deixem-me ao Menos Subir &agrave;s Palmeiras&hellip;um filme p&oacute;s-colonial pois em nosso entender participa ainda totalmente das l&oacute;gicas identit&aacute;rias e do trabalho de mem&oacute;ria t&iacute;pica do colonialismo.</p>     <p><sup><a href="#top12" name="12">[12]</a></sup> No entanto, em Deixem-me ao Menos Subir &agrave;s Palmeiras&hellip; o negro &eacute; representado como quase pronto a fazer Hist&oacute;ria e a assumir-se como sujeito e autor do seu pr&oacute;prio destino.</p>      ]]></body><back>
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